Duras Palavras: uma conversa Eco-extremista

A tradução deste texto é resultado de um importante esforço realizado por Anhangá que logo nos enviou ao e-mail. Seu original pode ser conferido em Palabras Duras: Una conversación Eco-extremista. Este texto (só que em espanhol) pode também ser conferido neste pdf onde também há uma outra conversação eco-extremista entre John Jacobi, representante da tendência Selvagista, e Mictlantepetli, um eco-extremista que aceitou a conversa.

Durante a extensa discussão de natureza jornalística, Xale, editor-chefe da Revista Regressión, responde às questões postas por HH. No texto eles passam por assuntos como a nova fase de ITS iniciada este ano juntamente com sua internacionalização e evolução, paganismo, a importância da atividade delinquencial, niilismo e a relação da tendência com os niilistas terroristas da Itália, eco-extremismo nos EUA, “reselvagização”, problemática com os anarquistas e vários outros temas que compõem a tendência eco-extremista.

Pela propagação de duras palavras eco-extremistas!

Pela expansão da tendência!
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“Duras são estas palavras! Quem pode ouvi-las?”

– (João 6:60)

Como leitor nunca estive muito satisfeito com todas as entrevistas que foram feitas com vários eco-extremistas durante alguns anos. Os interlocutores sempre foram mal informados, de má fé, não dispostos a aprender algo novo ou simplesmente não são muito inteligentes. De todos os modos, como um leitor um pouco mais informado queria fazer umas perguntas que realmente vão ao fundo do eco-extremismo, suas origens e sua evolução recente. Neste sentido, Xale, editor-chefe da Revista Regresión e membro de ITS-México, um especialista sobre estas questões, foi bastante generoso com seu tempo para responder às seguintes perguntas ou/e pensamentos.

Há de notar que tivemos esta conversa num espírito jornalístico. Fizemos e respondemos as perguntas para informar e não exortar neste documento. O interlocutor principal se declara independente de ITS ou do eco-extremismo, e apenas faz a entrevista para informar ou “entreter”.

Comecemos:

HH: Desde o início da nova fase de ITS e sua internacionalização, quais são as lições que você crê que aprenderam os eco-extremistas? Como crê você que o eco-extremismo evoluiu desde o início deste ano?

Xale: Este ano gregoriano tem sido bastante movimentado, cheio de novas notícias, novas cumplicidades e novas tonalidades nos atos e discursos dos eco-extremistas.

Como individualista partidário desta tendência penso que as lições deixadas durante a expansão do eco-extremismo são diversas e variam dependendo do individualista que as experimenta, mas pessoalmente falando penso que tem havido um avanço qualitativo referente a atos extremos contra o objetivo que o leitor inteligente conhece, a civilização e seu progresso.

Os eco-extremistas no Chile que aderiram a ITS ensinaram que se pode gerar um dano impressionante com apenas 1 litro ou menos de líquido inflamável, como fizeram com o ônibus Transantiago e com o centro comercial Mall Vivo, em fevereiro e maio, respectivamente. Também nos ensinaram que, embora em alguns casos os dispositivos não funcionem, a ameaça prevalece, os ânimos não se deterioram e a guerra de nervos prossegue.

Os eco-extremistas que se encontram na Argentina igualmente aderidos ao projeto de ITS ensinaram uma muito particular atitude terrorista e indiscriminada, as recentes ameaças de bomba em colégios, universidades e estações de metrô em maio e junho. É possível ver um rastro evidente do desprezo à vida civilizada em todas as suas variantes e em todos seus cantos. Isso também é evidenciado após ler seu comunicado emitido neste mês de agosto no qual se fazem responsáveis por envenenar dezenas de garrafas de Coca-Cola que foram distribuídas em um par de supermercados de Buenos Aires, ameaçando de maneira formidável a estabilidade social e física dos hiper-civilizados.

Os eco-extremistas no Brasil que também se uniram recentemente a ITS mostraram o fator surpresa, atacaram ferozmente e ensinaram que a ameaça de ITS é imprescindível. Sua sagaz atitude materializada em três quilos de pólvora negra detonada em um centro comercial de Brasília deixa desmoralizada as autoridades que mexem e remexem tentando encontrar os responsáveis por esta tendência que está presente em quatro países e que segue com suas ameaças.

Os eco-extremistas no México, lugar onde se forjou o projeto internacional de ITS, também ensinaram várias lições. Seu atentado homicida contra o chefe de serviços da faculdade de química na UNAM quis demonstrar a facilidade de atacar a qualquer momento os hiper-civilizados com apenas uma faca e alcançar o objetivo, demonstrou que é possível atacar o mais elevado local de aprendizagem dentro de suas próprias instalações, escarmentando as autoridades (com a morte de um homem no campus) por ocultar seus atentados passados na CU.

Seus constantes ataques com explosivos também evidenciam sua capacidade de ataque, sua diversidade no modus operandi e sua imparável atividade, embora seus atentados sejam censurados.

O antigo ITS em 2011 se concentrou em expandir à nível nacional e daquele ano até 2013 teve presença na Cidade do México, Estado do México, Morelos, Hidalgo, Coahuila, Veracruz e Guanajuato. Nos anos sucedidos esta expansão parou um pouco, e agora ITS-México, regionalmente falando, tem presença apenas na Cidade do México, Estado do México, Michoacán, Jalisco e Coahuila, embora tenha se internacionalizado, o que ensina a perseverança e a continuidade deste projeto.

Agora entrando no âmbito da teoria, o eco-extremismo também tem crescido nisso. No ciclo de RS (Reação Selvagem), ao menos eu considero que os editores da Revista Regresión juntamente com os grupúsculos do RS deram as bases teóricas para a tendência, as quais concentraram-se no estudo de grupos caçadores-coletores nômades da região, resgatando sua atitude hostil frente ao alheio e seu animismo pagão. Terminado este ciclo com RS, considero que “deixamos em paz” estas questões e nos concentramos na prática até que outros teóricos colocaram o dedo mais uma vez no assunto. Chahta-Ima, considero que é o mais importante teórico eco-extremista no decorrer deste novo ciclo, seus ensaios e investigações tem sido fundamentais para que outros individualistas cresçam e tenham fundamentações históricas para atacar ou seguir atacando.

O eco-extremista necessita de prática e teoria, necessita saber e fazer, necessita conhecer, aprender e ao mesmo tempo ensinar com atos e palavras a seus irmãos de guerra.

Em geral, o eco-extremismo não tem “planos futuros”, não atua sob um “programa” específico, não se alinha a procedimentos de luta pré-determinados, não possui uma estratégia a seguir, nós eco-extremistas atuamos sob a espontaneidade, fazemos coisas que consideramos oportunas ou não, para gerar uma reação, seguimos nossos instintos animais e prosseguimos com a herança de Guerra até que, como um pombo migratório, desapareçamos.

HH: Creio que as pessoas que leem a literatura eco-extremista não entendem o papel da “guerra de nervos”. Sei que foi explicado, mas ainda sim há críticas às ações eco-extremistas onde estipulam que devem ter um foco em atacar a infraestrutura elétrica ou o que quer que seja. Dizem que as ações dos eco-extremistas variam entre piadas de mal gosto (com bomba) ou assassinato psicopata (como houve na UNAM). As pessoas não sabem muito bem que tudo isso é parte de uma tática que é a “guerra dos nervos”. A clandestinidade, a decepção, o ataque indiscriminado, etc…, não funcionam apenas para golpear as estruturas da civilização (as quais, claramente falando, são difíceis de se atacar, e ao serem destruídas, são reconstruídas, dando assim mais trabalho “útil” para a massa), mas também para que o eco-extremista se converta no “monstro debaixo da cama”, uma ameaça a mais que a civilização criou. Ao menos para mim esta etapa do eco-extremismo sublinha este aspecto de ITS e os demais grupos.

Xale: Sim, as pessoas que tem dito que os atos de ITS e de outros grupos são “piadas de mau gosto” ou atos realizados por “assassinos psicopatas” talvez pensem que a guerra contra a civilização é apenas um jogo, talvez pensem que é apenas atacar centrais elétricas ou objetivos semelhantes. Nós e os demais eco-extremistas deixamos de pensar isso e tomamos a Guerra contra a civilização como um todo, como uma guerra REAL e não a entendemos como um fato onde se deva realizar atos “aceitáveis” para os demais radicais ou que midiaticamente sejam vistos como “espetaculares”. Embora os atos de ITS resultem incorretos para algumas pessoas, incômodos e insuportáveis, é exatamente o que deseja o eco-extremismo, demonstrar que a Guerra contra a Civilização tem que ser levada à sério e apenas deve ser travada por individualistas que realmente desprezam a morte e todo o progresso humano, há de haver sangue derramado, há de se ter feridas, mortes, uma vez que esta é a Guerra e nós que a levamos a cabo não hesitamos em aceitá-la.

Ultimamente o mundo ocidental tem andado catalogando as pessoas que realizam qualquer ato de violência extrema como “psicopatas”, “mercenários”, etc., e isso podemos ver nos atos terroristas do Estado Islâmico, e de fato é uma estratégia dos governos e seus meios de comunicação para desacreditar as causas maiores “rebaixando-as” a uma desordem mental ou o que seja. Não é surpreendente que as pessoas que portam os valores ocidentais sigam a mesma linha estratégica para também desacreditar os eco-extremistas.

HH: Qual é a relação entre o eco-extremismo e o niilismo? Pergunto porque aparenta que o terrorismo niilista é como “a rama” do eco-extremismo na Itália e, talvez, em alguns outros lugares.

Xale: Há pouco tempo se vem somando e desenvolvendo em conjunto com o eco-extremismo a tendência terrorista-niilista, aquela que não é passiva e que renega todos os valores morais fundamentais da civilização. O niilismo-terrorista e, em especial, o que tem defendido alguns grupos de individualistas na Itália, é a filosofia na qual encontramos a verdadeira afinidade, uma vez que é totalmente contrária ao humanismo e ao progressismo que os eco-extremistas tanto criticam.

Penso que os individualistas da América (de qualquer país) sintam simpatia com o eco-extremismo e isso pode ser visto na expansão do ITS e no fato de que certos grupos tem adotado pequenas, mas importantes, características desta tendência. Mas tenho notado que os “latino americanos”, em particular, sentem-se mais atraídos que os europeus que acabam se inclinando mais pelo niilismo, embora a esta altura o eco-extremismo e o niilismo-terrorista andem de mãos dadas.

Não é de se admirar que aqueles que habitam as terras deste lado do mundo se sintam atraídos por esta tendência já que o eco-extremismo é o chamado de nossos ancestrais. Não é uma guerra pelo separatismo nativo, pela identidade indígena ou para dar um sentido político a tudo isso, não, é uma guerra que herdamos de nossos ancestrais, invocamos os mortos de nossos avós e eles nos possuíram. Qualquer individualista que tenha no sangue a ferocidade dos antigos, diga-se teochichimecas, yahis, selknam, a grande variedade de tribos amazônicas, etc., é claro que se voltará para ver o que fazemos e o que dizemos. Penso que é uma questão até mesmo genética (isso, cientificamente explicando), muitos de nós eco-extremistas viemos de famílias nativas, isso nos faz continuar o conflito por aqueles que deram suas vidas, isto é, não somos estranhos, ainda testemunhamos a esse chamamento selvagem para nos defendermos por todos os meios necessários.

Historicamente a América foi invadida pelos brancos lá pelo século XVI, e com eles chegou a destruição, chegaram as epidemias e as desgraças. Violaram nossos terrenos sagrados, profanaram as tumbas de nossos mortos, mataram nossos sábios anciãos, escravizaram nossas mulheres, venderam nossos filhos, queimaram nossas casas, saquearam a Terra extraindo minerais praticando mineração das formas mais desrespeitosas, mataram as presas que caçávamos com veneração, escarneceram nossas deidades e crenças, exterminaram nossa língua, nossa cultura, jogaram-na ao esquecimento, e tudo isso e mais aconteceu em mais ou menos 500 anos, relativamente faz pouco tempo. Hoje a situação já não é racial, já não é o homem branco que faz estas atrocidades, é a civilização em seu conjunto. Já não temos nada pelo que lutar, já não temos terras ancestrais, já não temos uma comunidade com a qual compartilhar a língua, tradições, ambientes, já não há anciões sábios que nos presenteiem o conhecimento ancestral. Temos sido domesticados por anos, nos fizeram viver em grandes cidades, nos obrigaram a necessitar de dinheiro para sobreviver nas urbes e trabalhar como escravos para obtê-lo, nos fizeram crer que a ciência a tudo explicaria ou que a religião é a salvação eterna, nos aprisionaram em escolas onde nos “educaram”, tentaram arrancar nosso espírito guerreiro ofuscando-o com a modernidade e a religião, progresso e monotonia, drogas e diversão ambígua, humanismo e não-violência, tentaram enterrar na cova mais profunda a história maldita de nossos antepassados que emboscaram a seus inimigos, os flecharam, arrancaram seus coros cabeludos, cortaram seus tendões para servir de suporte para suas flechas, conspiraram e lutaram entregando suas vidas. Xale, o tlatoani (1) teochichimeca vive em mim, fala comigo através do vento das tempestades, nos trovões que caem indiscriminadamente sobre a cidade, me sussurra pelo musgo do rio, no Sangue de Grado (2) que se levanta em direção ao sol, na sombra da algaroba, me acorda no serpentear do fogo na fogueira, nos olhos do coiote noturno, no frio gélido da montanha, nas pegadas de veado no monte, me fala e sussurra a mim, me ensina e me guia, me ensinou a me transformar em um animal selvagem quando executo atentados sozinho ou com minha manada, me disse que todos os eco-extremistas tem um espírito que também os acompanha, me disse que com o simples fato de que tenhamos este tipo de pensamento nós somos um perigo para nossos inimigos, e uma das coisas mais importantes que me disse é que a vingança será terrível…

HH: Sim, me parece que os niilistas-terroristas na Europa tem seu modo muito particular de se comunicar. Mas acima de tudo a afinidade vem da ação. Alguns niilistas em outros lugares pensam que o eco-extremismo está tentando envergonhar os niilistas que pensam que fazer algo é “moralismo”. Sei que não é o seu caso nem de seus afins na Europa mas, em sua opinião, há como ser niilista sem atacar fisicamente esta sociedade? Alguns niilistas dizem que “seu Ego” não inclina ao ataque, e melhor fazem o que lhes dá vontade.

Xale: Esta é uma atitude própria de um niilista passivo que diz que o ataque não é parte essencial de seu pensamento. É entendível que o niilismo tenha esse tipo de variante e deturpações nesta era moderna, mas isso não se alinha ao pensamento original. É bem sabido por muitos que antes da Revolução de Outubro na Rússia existiam uma grande quantidade de homens, mulheres e sociedades secretas que com seus atentados indiscriminados e seletivos empurraram ao abismo a Rússia Czarista, e estes foram os fundadores do terrível niilismo, o original. Estas mulheres e homens causaram feridas na sociedade, foram os que empurraram o enfrentamento contra as guardas do regime, os que confeccionavam bombas para lançá-las contra os responsáveis por seus problemas sociais e econômicos, os que apunhalaram e encheram suas mãos de sangue. Para sua época estavam bastante avançados, hoje em dia como muitos aspectos “relaxaram” os novos niilistas se dedicam a criticar sem fazer nada, relaxam-se e se afundam em sua imobilidade, até mesmo há uma variante filosófica niilista que se baseia mais na arte (?), e desgraçadamente isso também é “niilismo”. O que eu resgataria sobre isso é que mesmo nesta era de adoçamento existem os verdadeiros niilistas que enfrentam ferozmente a sociedade assim como os pensadores originais fizeram, e a exemplo disso temos na Itália a “Seita Niilista da Livre Morte”, a “Seita do Niilístico Momento Mori” e o “Clã Terrorista Niilista Cenaze”, aqueles que com suas palavras e atos demonstraram que o ataque, o atentado, é uma parte importante para ser um niilista verdadeiro.

HH: Com relação a esta pergunta parece que a diferença entre a primeira etapa de ITS e a etapa de Reação Selvagem foi um retorno às fontes indígenas-selvagens-pagãs em RS. Certamente ainda há referências a “Chicomoztoc”, etc. Mas percebi uma redução deste aspecto e uma abertura a outras ideias e maneiras de se compreender as coisas. É correta tal percepção? É uma parte necessária para a expansão do eco-extremismo?

Xale: Sim, como eu havia respondido acima na primeira pergunta, nesta nova etapa do eco-extremismo temos deixado de lado o tema dos povos nativos, mas apenas um pouco, já que ultimamente temos abraçado completamente o estudo da questão sobre o paganismo.

Esta “redução” na temática nativa pode ser vista nos comunicados emitidos ultimamente e no conteúdo da Revista Regresión, e como efetivamente você disse, houve uma abertura a outras questões que tem haver com o niilismo e a atividade delinquencial, embora eu deva esclarecer que não é porque nós consideramos mais importante falar destas questões do que se aprofundar nos estudos da guerra nativa. NÃO, é o momento de cobrir mais variantes que compõem a tendência eco-extremista.

Com RS houve um estudo concreto e focado na guerra nativa, de fato a maioria dos comunicados dos grupúsculos que o integraram faziam referência à herança de guerra de nossos antepassados, mas passado este ciclo e tendo maior presença e mais indivíduos que participam da prática e teoria, é necessário fazer uma abertura de temas para solidificar esta tendência.

HH: É interessante porque ser nativo em lugares como Canadá e Estados Unidos não significa nem ilegalidade nem a guerra contra a civilização. As tribos modernas às vezes funcionam como empresas, tem cassinos ou vendem suas terras para a exploração de petróleo. No entanto, alguns críticos tem dito que o eco-extremismo explora a memória de “indígenas mortos” para suas doentes causas antissociais. Como você caracterizaria a relação do eco-extremismo com os indígenas de hoje em dia tão distantes (e às vezes aliados) com a civilização?

Xale: Essa crítica sempre me faz rir muito. Dizer que estamos explorando as “memórias” de “indígenas mortos” é apenas alongar a lista de desculpas que tem esse tipo de críticos. Os eco-extremistas não exploram as memórias de ninguém, seríamos “antissociais doentes” se justificássemos com este mesmo discurso a violação e prostituição de crianças, o tráfico de órgãos, o sexo com cadáveres e outras doenças derivadas da atrofiada mente dos hiper-civilizados, mas como apenas justificamos os atos incorretos contra a civilização, atos que levaram a cabo nossos antepassados e que inclusive algumas tribos selvagens ainda praticam, esta crítica está completamente equivocada.

Não vou negar que muitos grupos indígenas e nativos de várias partes do mundo são cúmplices das grandes empresas que devastam seus territórios, muito menos vou negar que muitos indígenas aqui no México, inclusive, se afastaram de suas tradições e adotaram as práticas ocidentais, gerando um dano em seus ambientes controlados por grandes corporações. Grupos de nativos que não estão absorvidos pela cultura dominante podem ser contados nos dedos, são muito poucos. Embora eu deva dizer que em muitos dos casos em que os indígenas se afastam de suas origens é por vontade própria, uma vez que eles decidem se adaptar ao modo de vida dos outros, em outros casos os indígenas são manipulados e postos em condições que os forçam a abandonar as montanhas e se unir aos não-vivos das cidades. Por aqui é bem sabido de que empresas chegam até as aldeias remotas e para conseguir mão de obra barata convencem os indígenas a trabalharem nas cidades com a promessa de que terão dinheiro e comodidades, algo completamente falso, já que quando não necessitam mais deles os abandonam e os deixam a mercê. Sobreviver em uma cidade tão monstruosa como a capital mexicana e sua área metropolitana é muito difícil para pessoas que são de fora, então estes indígenas terminam como vagabundos viciados, na prisão ou mortos. A situação é lastimável, claro, mas é parte da realidade.

HH: O eco-extremismo tem uma relação bastante complicada com o anarquismo, mas às vezes também se refere “à Anarquia, mas não o anarquismo”. É possível ser anarquista e estar aliado ao eco-extremismo? Como seria isso?

Xale: Recentemente escrevi para a próxima edição da Revista Regresión (N°6) um texto intitulado “Anarquistas Indiscriminados“, onde exponho os terríveis atos terroristas que realizaram alguns anarquistas na história sepultada no panteão do esquecimento. No texto eu menciono a constante briga entre os anarco-bandidos e os anarquistas humanistas a partir de suas perspectivas da época porque os primeiros atentavam contra seus objetivos sem se importar em ferir civis ou inocentes, atos que correspondem à terminologia do Ataque Indiscriminado, prática que tem sido um ponto de debate para muitos anarquistas da atualidade.

Com este texto público em breve eu me emprego a evidenciar que alguns anarquistas do século XIX atuavam indiscriminadamente, violando os códigos morais e políticos próprios do anarquismo e como os entendia a grande maioria do movimento anárquico tradicional.

Com o texto pretendo também “puxar” (mesmo que por um momento) estes anarcos das tumbas onde a história oficial e não oficial pretendia deixá-los.

É engraçado ler como lá por meados do século XX os atos terroristas de Di Giovanni (por exemplo) assustavam os anarco-sociais, e ler como é que se assustam alguns anarquistas de hoje em dia quando se inteiram de nossos atentados. É praticamente a mesma acusação histórica, “bandidos”, “desumanos”, “esses não são companheiros”, “excluamos eles do nosso movimento”, “são covardes que atacam ao acaso”, etc.

Respondendo à sua pergunta, penso que SE pode haver anarquistas aliados com os eco-extremistas desde que estes anarquistas respondam firmemente às características de seus antepassados demoníacos e terroristas. Contrariamente, um anarquista humanista que se preocupa com a sociedade e que sonha com um “mundo melhor” NÃO pode ser aliado dos eco-extremistas.

HH: Qual seria a diferença entre um anarquista que simpatiza com o eco-extremismo e um que severamente o rechaça?

Xale: A diferença teria que ser um tanto abismal. De fato um anarquista que simpatiza com o eco-extremismo teria que subverter com o que foi dito por pensadores anárquicos tradicionais e com isso abalar seu humanismo e seu progressismo úteis para alcançar um mundo sem “estado-capital”, teria que deixar de lado as utopias e se concentrar no presente decadente e pessimista no qual nos encontramos, assumindo seu papel como indivíduo dentro desta época e atuando em consequência, teria que desprezar tudo o que é humano (em termos filosóficos), teria que fazer as coisas que se tem que fazer respondendo friamente e inteligentemente sem importar que terceiros sejam afetados. Teria que ser como Di Giovanni, como Mario Buda, como Santiago Salvador, como os anarquistas galeanistas.

HH: Me parece que o anarquismo “social” é um vestígio da antiga política das massas. Não posso comentar muito já que nunca fui anarquista e não conheço muito bem a história. No entanto, suspeito que grande parte da atividade individualista que você menciona ocorreu antes da “época moderna das Revoluções”, como na Rússia em 1917, Espanha nos anos 30, etc. O anarquista social moderno tem muita dificuldade em terminar este capítulo, embora o resto mo mundo (político ou não) já tenha renunciado a toda essa coisa das massas lutando nas ruas ou o que seja. Contudo, no extremismo islâmico quando não é uma questão de guerra convencional muitas de suas ações são individualistas e indiscriminadas, mas o anarquista social não pode se separar da atitude de “despertar as massas” para forjar um “novo amanhecer” uma vez que não pode renunciar à velha análise e fazer isso retiraria toda sua esperança e o converteria em um eco-extremista niilista asqueroso, ou algo do tipo.

Xale: O contexto histórico em que se desataram os demônios da anarquia maldita foi antes e depois da Revolução Bolchevique e antes da Guerra Civil espanhola de 1936.

Por exemplo, Santiago Salvador atuou sozinho em novembro de 1893. O homem escolheu como objetivo o Grande Teatro de Liceu em Barcelona, isso em vingança pelo fuzilamento de seu amigo Paulino Pallás (outro anarquista terrorista que em setembro daquele mesmo ano atentou contra o general Martínez Campos em pleno desfile militar em Barcelona. O terrorista lançou um par de bombas contra sua carruagem, o general atentado ficou ferido, assim como outros dois generais e houve a morte de um guarda civil, além de deixar dezenas de civis feridos). Salvador escondeu entre suas roupas duas bombas Orsini, um explosivo muito popular entre os anarquistas daquela época que detonava ao se chocar fortemente contra o solo ou qualquer superfície sólida. O terrorista esperou até que a ópera estivesse na metade para que o teatro estivesse cheio, e quando percebeu o momento oportuno lançou indiscriminadamente desde um balcão as duas bombas contra o público. A primeira causou um ruído infernal e ensurdecedor arremessando pedaços de corpos, sangue e estilhaços por todas as partes, a segunda caiu no voluptuoso vestido de uma mulher que havia sido ferida após a primeira explosão, mas não detonou já que seu vestido amorteceu a queda. Este atentado anarquista deixou um saldo de 22 mortos e 35 feridos em gravidade.

Talvez muitos anarquistas de agora não recordem que o autor deste ataque foi um de seus antepassados políticos. É uma pena que um personagem tão emblemático que na sua época foi um terrível inimigo da sociedade e do sistema seja condenado ao esquecimento (como muitos outros), só que não totalmente, pois ainda existem alguns poucos que se lembram deles.

HH: Há certa ambiguidade em termos de “reselvagear-se” (“re-wilding”, em inglês). Às vezes diz-se que o eco-extremista tem que fazer o possível para não estar dependente da civilização, mas ainda voltando-se para o “não há futuro”. Há uma posição sobre a “reselvagização” ou é algo que depende de cada eco-extremista?

Xale: a reselvagização como nós a entendemos talvez difira um pouco do que entendem os ianques eco-radicais com seu “rewilding”, que creio que foram os primeiros a empregar o término. Desde o início eles o empregaram para designar uma ação a favor da natureza selvagem sempre relacionada com a preservação de entornos e o florescimento da natureza em certos espaços urbanizados que pouco a pouco vão se tornando feral.

Eu pessoalmente conheço alguns eco-extremistas que não nasceram na cidade e que neste exato momento estão levando uma vida de nômades em algum lugar da geografia “mexicana”. Eles saem por um tempo, regressam a seus lugares e então decidem atacar a civilização. É uma estratégia muito adequada.

Este tipo de eco-extremistas decidiram se reselvagear na natureza selvagem, andar como nômades, saber caçar, fazer fogo por fricção, usar peles, coletar sua comida, etc., eu pessoalmente respeito muito seu modo de vida e acho que se isso é o que eles querem fazer, adiante. De qualquer forma estar em contato com a natureza selvagem sempre te cria algo belo, você dá um valor muito mais especial às coisas. Este tipo de eco-extemistas também entendem que não há futuro, por isso vão às montanhas antes que estes entornos sejam devastados por completo. Felizmente aqui no México ainda temos lugares selvagens se comparado a outras partes do mundo onde quase não há mais nada ou os entornos viraram reservas.

Por outro lado os eco-extremistas da cidade também se reselvageiam individualmente a sua maneira. Muitos de nós sabemos fazer algo do que sabem fazer os eco-extremistas nômades para enfrentar qualquer situação que apareça em nosso caminho, mas na cidade é preciso saber se deslocar, há que ser um lobo vestido de ovelha. Os eco-extremistas da cidade se empregam à guerra, a saber atacar, emboscar, enganar as autoridades, assaltar, utilizar armas, provar o último suspiro após tirar a vida do inimigo, e tudo isso e mais também é reselvagear-se, é regressar ao primitivo em um conflito herdado por nossos ancestrais colocando em prática as táticas que usaram os antigos, só que dentro de outras condições. De fato o homicídio que levou a cabo ITS se apresenta como uma “reselvagização individualista”. Assassinando o empregando da UNAM ITS não SÓ pretendia eliminá-lo e criar reações, mas também com o mesmo ato os membros de ITS assassinaram o seu civilizado interior, onde matam à punhaladas pouco a pouco os valores ocidentais que são empurrados a eles desde pequenos.

Para mim e para os meus, os eco-extremistas da cidade e fora dela, não há futuro, apenas há o presente. Não temos nada pelo que lutar, exceto por nós mesmos. Reselvagear-nos é saber se mover como os caçadores, convertendo-nos em animais, é aprender a atacar o inimigo, odiá-lo, derramar seu sangue, cortar sua cabeleira e oferecê-la aos mortos. Igualmente também é conhecer a natureza selvagem, perder-se nos ambientes, estar em contato com seus ciclos, apreciá-la, respirá-la e amá-la.

HH: Algumas pessoas acusam o eco-extremismo de estar a favor da autoridade, uma vez que rechaça o anarquismo. O eco-extremismo possui uma posição abstrata sobre a “autoridade” ou é uma pergunta meramente escolástica na atualidade?

Xale: Não há como negar, a autoridade teve um papel importante nas sociedades humanas. Em cada grupo étnico antigo sempre houve um líder tanto de guerra como espiritual. A mulher coletora que fornecia a comida quando a caça escasseava também poderia ser considerada uma espécie de autoridade, a “cabeça” da tribo em tempos difíceis. Só há algum tempo tem sido visto apenas o lado negativo da autoridade com os autoritarismos, tem sido traduzido como uma figura concreta que “querem nos impor algo pela força”, e isso devemos à cultura ocidental que temos impregnada na cabeça. A educação forçada acompanhada de uma figura de autoridade que nos diz o que fazer e o que dizer é o modelo no qual fomos criados, e até certo ponto é compreensivo que muitos considerem a autoridade como algo prejudicial e invasivo.

É necessário se livrar da cultura ocidental para ver a autoridade com outros olhos, sabendo diferenciar entre uma figura de autoridade que a todo custo quer impor algo e uma figura de autoridade que dado o seu conhecimento nos compartilha lições valiosas.

Assim, sem meias palavras, posso dizer que o eco-extremismo não demoniza a autoridade, não a rejeita categoricamente como fazem os anarquistas, por exemplo, uma vez que não vemos apenas as partes negativas visualizadas da maneira ocidental, mas também as partes positivas visualizadas da forma nativa. De fato, ao contrário do que dizem os anarquistas, muitos grupos anarquistas tiveram líderes e figuras de autoridade, agora se estes eram chamados de maneira diferente a como “um exemplo a ser seguido”, etc., isso aí já é outra história. Dito isso podemos ver que na história dos anarco-bandidos, por exemplo, sempre houve um anarquista dentro destes grupos que teve maior presença, que incitava, que tinha mais iniciativa que os demais, que tinha um conhecimento mais elaborado, e para esclarecer com exemplos há Di Giovanni, aquele que foi o líder de seu bando dada a sua dedicação a tudo o que fazia, desde atentados à bomba, edição de jornais e livros, escrita de cartas onde ele sempre se defendia das calúnias dos anarco-franciscanos, até a execução de pessoas indesejáveis, assaltos, etc. Num outro exemplo Bonnot foi quem liderava seu grupo de assaltantes na França dado ao fato de que ele tinha maior conhecimento nos assaltos. Miguel Arcángel Rosigna foi quem liderava seu grupo de assaltantes no Uruguai dada a sua inteligência e sua metodologia quase perfeita para cometer roubos e realizar fugas da prisão.

Até mesmo Bakunin pode ser considerado como uma figura de autoridade, mas não faça o sinal da cruz diante disso leitor anarquista. De fato ele é um exemplo de uma figura de autoridade não nociva que com suas teorias ensinou coisas valiosas a muitos e devido a isso o movimento anarquista tornou-se uma ameaça para seus inimigos.

Então, resumindo um pouco tudo isso e respondendo à sua pergunta, penso que a autoridade para os eco-extremistas é um tema abstrato no qual não colocamos uma ênfase especial já que não há nenhum problema em aceitar isso.

HH: É verdade que o esquerdismo e o anarquismo (em geral) trata a autoridade como uma categoria metafísica absoluta quando tradicionalmente nunca foi assim. Eu culpo o fato de que o homem moderno não pode fazer nada, é completamente domesticado, e por isso se obceca pela questão da autoridade. Em outras sociedades a autoridade era, em especial, carismática, mas nos bandos mais primitivos houve leis e códigos sociais que ou alguém seguia ou seguia. Recentemente li sobre alguém que disse que o anarquista moderno não aguentaria viver em um bando primitivo uma vez que todos tinham seus papeis definidos dentro do bando e sua obrigação não poderia ser variada. E atenção, tudo isso sem estado ou polícia. Por outro lado o anarquista social parece completamente obrigado por sua solidariedade e reciprocidade entre “companheiros” ou o que quer que seja, mas nunca se questiona sobre esta moral…

Xale: Concordo com você, um anarco-primitivista certamente seria chutado como um cão num bando primitivo se algum dia tentasse se encaixar em um. Certamente estaria reprovando coisas e incitando os demais a se “rebelarem” contra o xamã ou algo assim.

HH: Creio que há muitos leitores interessados, especialmente nos Estados Unidos, que pensam que o eco-extremismo não é para eles, uma vez que lá o estado é bastante poderoso e as ações eco-extremistas não parecem possíveis. Existe alguma maneira de “ser eco-extremista” ianque sem ser jogado imediatamente na prisão ou morto pela polícia?

Xale: Sinceramente, penso que as pessoas que creem que o eco-extremismo não possa ser possível porque tem “em casa” as maiores agências de segurança do mundo, são pessoas medrosas que não conseguem pensar em formas convincentes de levar a cabo atentados nos Estados Unidos sem serem detidas. É bem verdade que a NSA espia a maioria dos radicais e de fato o FBI tem uma lista daqueles que podem gerar problemas, é verdade também que a polícia possui infiltrados muito bem preparados para desarticular grupos extremistas, isso eu não vou negar, mas penso que o problema aqui reside nas pessoas que são buscadas, que são marcadas em uma lista e que sua foto está no sistema, são pessoas que se relacionam com certos movimentos e que as agências de segurança já tem certa suspeita deles. As pessoas destes movimentos gostam de ser protagonistas, de serem reconhecidas como as “mais radicais”, gostam dos holofotes e da algazarra dentro de sua cena. Agora pensemos em um eco-extremista que não se importe com isso, que atue só ou com um cúmplice, que tenha um perfil discreto, que nunca assista nem frequente lugares onde haja pessoas que pertençam a movimentos radicais (anarquistas, ambientalistas, ecologistas, okupas, etc.), e pensemos que este eco-extremista saiba ocultar (o máximo possível) seu rastro na web, pensemos que seja extremamente cuidadoso, desconfiado e inteligente. Sob certas condições penso que este eco-extremista possa executar atentados sem ser detido ou morto pela polícia. Embora pareça fácil eu sei que não é, o eco-extremista deve ter convicção, dedicação, paciência e ser comprometido.

Um eco-extremista é bastante capaz de executar atentados nos Estados Unidos, sair ileso e continuar com a guerra, disso estou seguro. Talvez o tempo provará que estou certo, ou talvez não…

HH: Esta é uma questão muito sensível, e aqui não estou sugerindo nada específico, claro. Estou apenas observando. Mas parece que o ataque individualista e às vezes indiscriminado é um tema abordado ultimamente pelos gringos, ou pelo menos é algo que obceca a mentalidade ianque. John Zerzan, por exemplo, é obcecado pela questão do “mass shooter”, o atirador que mata pessoas inocentes em clubes, escolas ou qualquer lugar público sem razão alguma aparente ou por razões “doentes”. Como você sabe, todo o mundo na Ianquelândia tem armas, e muitas armas, de todos os calibres, etc. O atirador sempre se suicida no fim do ataque ou é preso pela polícia, mas nunca há maneiras de impedir estes “lobos solitários” até que seja tarde demais. Menciono isso porque pode explicar a reação dos bons anarcos sobre os ataques dos eco-extremistas: não é uma questão de estar distante da vida rotineira deles, mas é parte da vida cotidiana dos ianques: um “louco” com uma pistola mata pessoas por frustração e nada mais.

Xale: Me parece que o que você menciona é até uma questão cultural, embora no México não há muitos casos conhecidos de uma pessoa que se põe a disparar em quantas pessoas conseguir. As pessoas que tem armas por aqui é porque usam elas para proteção, para vingança ou para algum trabalho (assassinato por aluguel, assalto, sequestro, etc.). Quando uma pessoa é encontrada assassinada as pessoas ao invés de dizerem que foi por frustração ou resultado de uma pessoa com desordem mental, dizem: “talvez ele merecia” , ou “para que resistir ao assalto?!”.

Recordo de algo parecido que aconteceu por aqui e que é próximo ao termo “mass shooter”, quando em 2009 um homem estava pintando slogans na estação Balderas de metrô da Cidade do México, slogans sobre o aquecimento global, a responsabilidade dos governos, etc., um policial tentou detê-lo (saibamos que o que ocorreu foi num horário de pico quando havia uma maior quantidade de pessoas no metrô), o homem lutou com o policial e do meio dos seus pertences sacou um revólver e o matou. Muitos passageiros se assustaram e fugiram apavorados ou trataram de se esconder dentro dos vagões, alguns cidadãos heróis tentaram desarmar o homem que sem nenhum remorso igualmente atirou contra eles, deixando alguns feridos e um outro morto na rinha. Por fim a arma ficou sem balas, ele foi encurralado, quase linchado e foi preso. Depois a imprensa publicou que o homem sofria de esquizofrenia devido a tratamentos que teve numa clínica psiquiátrica e que por isso sua reação foi tão violenta. Como esperado, o homem foi condenado a passar alguns anos em uma clínica de “saúde mental” e depois saiu livre. Talvez neste caso em particular as pessoas daqui tacharam o homem como um “porra louca”, mas o contexto é muito diferente do que se passa lá pelos Estados Unidos, embora as causas centrais sigam sendo as mesmas. Nesta caso, os medicamentos que fizeram com que o homem sofresse esquizofrenia, estes medicamentos e tratamentos médicos são derivados do grande problema, a civilização.

Agora falando do contexto gringo, em minha perspectiva penso que os “mass shooters” tem verdadeiras razões para realizar estes tipos de atos indiscriminados, não fazem simplesmente porque sim, ou do nada, não disparam apenas por disparar, houve algo que os empurrou a fazer isso, a planificar. Assassinar a uma grande quantidade de pessoas utilizando este modus operandi pode ser resultado de uma grande matiz de causas e efeitos como por exemplo, religiosos e sociais, clínicos e culturais, econômicos e políticos, etc. É bem sabido que pessoas devido o assédio escolar um dia decidem chegar ao colégio com rifles de assalto e matar aos que os molestavam, já outros, por injustiças raciais contra os afroamericanos, outros por razões religiosas atentam contra a sociedade gringa por considerá-la inimiga de Alá, outros por suposta “supremacia branca”, outros por ter a mente atrofiada devido a medicamentos psiquiátricos. No caso de um eco-extremista estadunidense, se algum dia houver alguém que realize um ato deste tipo, certamente as razões pelas quais atuará seriam atacadas, mas nós, seus afins, saberíamos que era a única opção e a reconheceríamos completamente. Com isso chegamos à conclusão de que a civilização é o problema e a atacamos sem contemplações, ou seja, todas essas causas e razões, ações e consequências, são derivadas por toda uma rede de condições variadas, e penso eu que uma análise mais profunda é merecida antes de haver a condenação destes atos. Embora esses e outros casos sejam, para mim, apenas uma reação dos instintos animais humanos que tentam se desenvolver na civilização e que ao não poder se desenvolver como antes, encontram uma saída sob estas condições, há que se aceitar, todos nós na civilização estamos em certo grau “frustrados” por uma ou por outra razão, então dizer que estes fatos são derivados da frustração não é um julgamento TÃO equivocado afinal.

HH: Penso que “a obra teórica” na fase atual é encontrar uma maneira de restabelecer o paganismo/animismo além da mente secular do esquerdismo e o monoteísmo ocidental. Para mim, isso significa um conhecimento profundo do seu lugar. Você acha que uma mudança de percepção, longe do humanismo e do antropocentrismo, mudaria a retórica “pessimista” do eco-extremismo? Ou seja, se a Natureza vence no fim da história, e o homem civilizado é o “vilão derrotado”, isso significaria que os “verdadeiros niilistas” são os que defendem a civilização, e, (por que não?) a sociedade e a humanidade propriamente dita. O que você acha desta análise?

Xale: A mudança de percepção da qual você fala teria que ser radical, teríamos que passar de pessimistas a otimistas, e de niilistas a positivistas.

Talvez haja por aí algum eco-extremista ou não propriamente dito que, dado o seu desenvolvimento cultural, suas condições sociais, tenha uma percepção distinta de tudo isso e que, como você menciona, considera a humanidade moderna como os verdadeiros niilistas, embora se tivesse tal percepção, penso que isso não mudaria a ideia central da defesa individualista da natureza selvagem e o reconhecimento encarnado de deidades antigas ligadas a essa natureza que penso que são as bases fundamentais da tendência.

Mas a realidade dita este cenário pessimista e é nele em que nos desenvolvemos, não temos outra escolha a optar e agir em conformidade.

HH: Qual é o papel da delinquência no eco-extremismo? Parece que ele tem surgido como um tema significante nos blogs, na Revista Regresión, etc. O que você diria para as pessoas que se opõem à delinquência dizendo que ela também é parte da civilização e não merece ser idealizada?

Xale: As atividades delinquenciais são uma parte fundamental da tendência do eco-extremismo. É delinquência roubar, plantar bombas, incendiar coisas, ameaçar pessoas, adquirir os ingredientes para a fabricação de mesclas explosivas, transportar explosivos e armas, armazená-los, conspirar com individualistas de outras partes do mundo para executar atentados, assassinar pessoas; inclusive é um delito grave (dependendo do país onde você esteja) difundir, traduzir e editar este tipo de mensagem incitando direta ou indiretamente a cometer crimes, etc. Nós eco-extremistas somos delinquentes, criminais, assaltantes, assassinos e atentadores, essa é a essência desta tendência, a sua natureza. Nisto não há uma idealização, há uma prática herdada dos selvagens nus que roubavam gado dos espanhóis, dos que os emboscavam e assaltavam suas caravanas, daqueles que assassinavam o inimigo, dos que invadiam povoados inteiros reduzindo-os à cinzas, dos que afiavam as pontas de suas flechas embebecidas de veneno, etc., uma prática que seguimos, só que em um contexto e época diferente, mas que no fim das contas a mesma guerra é levada a cabo. Essa coisa referente à prática da delinquência, mas como termo, temos cunhado como retórica. Se a sociedade e as autoridades dizem que somos delinquentes isso nós somos, se dizem que somos terroristas isso também somos, esses rótulos não nos assustam, não vamos nos defender dizendo que não somos criminosos porque dentro de seus términos jurídicos nós somos, não vamos nos indignar como a maioria dos “revolucionários” e radicais fazem quando nos chamam destas formas, os eco-extremistas não defendem causas “justas”, não representam sua “compaixão” e seu “humanismo”, pelo contrário, representam a violência e o desprezo pela vida civilizada.

É verdade que muitas pessoas veem a delinquência como parte da civilização, muitos talvez pensem que é produto das condições sociais na qual estão submetidas as pessoas dentro da civilização, e em parte isso é verdade. Evidentemente, se a civilização não existisse a delinquência dentro do aspecto jurídico muito menos, mas repito, apenas dentro do aspecto jurídico, uma vez que os “crimes” contra alguém existiriam sem civilização. Mas mesmo sem civilização os atos delinquenciais seriam classificados como crimes? Ou seriam classificados como retribuições? Nesta era moderna dá no mesmo qualquer uma das duas categorizações? É a delinquência uma atividade que surge dos problemas de uma civilização ou pode ser considerada como uma consequência sem que esteja estritamente relacionada com as condições civilizadas? Devemos recordar que tudo neste mundo e fora dele é regido por ciclos, tudo é um constante movimento onde cada ação contribui uma reação.

Sobre isso colocarei um exemplo. Os astecas consideravam bárbaros e incivilizados os teochichimecas e não se atreviam a explorar a Grande Chichimeca, e quando fizeram isso deram de cara com selvagens hostis que os expulsaram violentamente. Os astecas não consideravam esses nativos criminosos ou delinquentes, mas simplesmente “não civilizados”, gente sem cultura, etc. Sob esta lógica os astecas se concentraram então em erguer sua civilização sem se meter em territórios da Teotlalpan Tlacochcalco Mictlampa (“lugar do norte onde se esconde a morte”, em nahuatl), talvez suas deidades lhes recomendassem a não se meter com os teochichimecas e essa recomendação eles houvessem escutado e a respeitaram. Após isso se dedicaram a conquistar e expandir seu primeiro império sob outras tribos que eram mais fáceis de dominar. Os chichimecas de guerra ao verem que os civilizados pré-hispânicos não entravam em seus territórios não viram a necessidade de causar um conflito generalizado contra estes.

Quando os espanhóis chegaram na Grande Chichimeca empreenderam uma campanha à sangue e fogo contra esses incivilizados malditos, e eles responderam com uma fúria semelhante à do branco, inclusive pior. Com isso foram então considerados criminosos pelas leis da coroa espanhola e foram presos, escravizados, domesticados ou exterminados. Ou seja, a ação dos espanhóis que se meteram com os teochichimecas provocou uma reação destes.

Mesmo se os ocidentais não tivessem chegado com essa insaciável atitude de subjugar a tudo e a todos, penso que os teochichimecas tivessem seguido com suas vidas simples e às vezes guerreando com tribos vizinhas como era há séculos tradição dada sua natureza conflituosa.

O mesmo se passa com os eco-extremistas dado que a civilização quer nos artificializar, nos mecanizar e nos domesticar completamente. Frente a isso nós respondemos violentamente como fizeram nossos ancestrais, e é deste modo que a delinquência não é completamente um produto da civilização moderna como tal, não surge com ela, é dado o nome de “crime” pelas leis dela, mas na verdade é uma consequência geral da ação dependendo do sistema estabelecido; chama-se civilização, sistema de dominação, etc. Todo este raciocínio baseia-se apenas no aspecto jurídico-histórico, penal-oficialista, mas se destroçarmos o termo da “delinquência” um pouco mais veremos que é muito relativo e que se apoia em uma posição moral fixa assim como exemplifico a seguir:

– Um homem assalta um banco à mão armada, ameaça explodir os miolos da cabeça do caixa se este não lhe der todo o dinheiro. Neste caso, o assaltante talvez considere que neste momento esteja cometendo um crime ou talvez não, talvez considere que esteja fazendo algo “ruim” ou talvez não, talvez como muitos assaltantes da Cidade do México considere o assalto à mão armada apenas como mais um “trabalho” onde se consegue dinheiro se arriscando, empregando força e inteligência assim como faz um mineiro, um limpador de vidros de grandes edifícios ou um trabalhador metalúrgico. Mas para o caixa, para o gerente da agência bancária e para a polícia, esse homem é um delinquente e está trabalhando “mal”.

– Um trabalhador de um matadouro mata dezenas de cabeças de gado diariamente. Ele corta a garganta com uma faca bastante afiada para que sangrem até a morte e sua carne possa ser processada. É um trabalho sujo, mas no fim das contas é um trabalho que o empregado considera “bom”, pois no fim de semana consegue uma remuneração para sustentar sua família e como um adicional contribui com a indústria alimentícia. Cortar gargantas de gados não é considerado “ruim” e muito menos um crime, mas para muitos veganos radicais o que este senhor que trabalha no matadouro faz é “ruim”, e é um delinquente por assassinar animais para que os outros comam, e por isso os veganos decidem incendiar seu carro.

– Um estudante de direito tem vontade de “triunfar” na vida, para isso durante sua vida acadêmica ele não se importa de passar por cima dos outros para alcançar ser alguém reconhecido dentro da advocacia. Ele utiliza artimanhas para conseguir seus títulos e, finalmente, torna-se um advogado importante. Em sua carreira se encarrega de por na cadeia pessoas acusadas falsamente e beneficiar seus clientes que sempre são ricos. Para o advogado isso não é “ruim” e muito menos ele se considera um delinquente por prender pessoas por meio de provas falsas enquanto recebia uma grande quantidade de dinheiro por cada caso ganho ao mesmo tempo que seus clientes endinheirados ficavam satisfeitos. Mas os familiares das pessoas que foram presas não pensam como ele, para eles não é “bom” o que faz o advogado, e um deles, em especial, o considera um delinquente, um criminoso, e sabendo que para este tipo de pessoa não há juiz que julgue, o familiar decide segui-lo e lhe mete um tiro na cabeça.

Como é possível ver nestes exemplos e como eu disse acima, se analisarmos o término “delinquência” em muitos casos veremos que é relativo. Claro, os eco-extremistas não veem a atividade delinquencial como algo “ruim” nem como algo “bom”, mas sim como uma consequência, empregando e defendendo o termo dentro da retórica que nos caracteriza.

HH: O que você diria da turma de Zerzan que acredita que os eco-extremistas deveriam fugir para a serra para lutar contra os cartéis para libertar os terrenos selvagens?

Xale: Caramba! Outra vez Zerzan e seus apóstolos. Cada vez mais me surpreende sua imbecilidade e a falta de coerência em suas críticas. Ha-ha, nota-se que acabaram suas críticas e agora seguem vomitando barbaridades como essas. Dizer isso é como se um ignorante perguntasse a estes anarco-primitivistas zerzianos, “por quê criticam tanto a tecnologia e possuem um programa de rádio na internet?”. Foram estúpidos ao dizer que temos que combater os cartéis para que deixem em paz as zonas montanhosas onde têm presença.

Para responder à sua pergunta eu perguntaria a Zerzan e a seus discípulos, porque teríamos que fugir para as montanhas e lutar com assassinos deste ou daquele cartel? Isso teríamos que fazer se nossa meta fosse “libertar a terra”, se nossa meta fosse “reselvagear” ao estilo gringo, mas como não temos essas finalidades, dane-se. Não resta dúvidas que o chefe Zerzan e seus subordinados apenas pensam dentro de seus termos, não podem fazer uma crítica sincera ou certeira porque não conseguem sair da sua mentalidade quadrada ondem pensam que tem a razão em tudo que pregam. Que lástima. Esperávamos que com tudo o que foi escrito contra o seu (anarco) primitivismo fosse sacada uma crítica adequada, mas nos equivocamos, talvez seja para uma outra vida…

HH: Com esta pergunta termina nossa conversa. A verdade é que poucos que leem este texto estarão de acordo com todo seu conteúdo, mas a verdade é que parece que o eco-extremismo não tem um caminho fixo previsível. É verdade que, como tendência definida, é muito jovem. Tem apenas cinco anos, e mudou bastante em muitos de seus aspectos. Mas nós estamos vivendo nas ruínas das utopias fracassadas, sejam socialistas, capitalistas ou religiosas, e o eco-extremismo seguirá sendo uma opção dentro deste âmbito. As pessoas odeiam o eco-extremismo não apenas porque ele se opõe à sociedade, mas também porque a reflete sem as ilusões dos civilizados, reflete o desgosto e a frustração do que os hiper-civilizados sentem, porém não podem mudar. É um ataque contra todas as mentiras de um mundo domesticado. Nem os próprios idealistas engolem a pílula do otimismo e do humanismo. O mundo está no precipício e não há como regressar. Alea iacta est.

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