O que queremos dizer quando falamos “natureza”?

Tradução do texto What Do We Mean When We Say “Nature”?, de Chahta-Ima. A tradução do inglês para o português foi realizada por Tapuia.

Pela defesa extremista da Natureza Selvagem!

Adiante com atos de terror contra a civilização!
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Um tema que surgiu recentemente entre os críticos do eco-extremismo é a ideia de que adoramos uma falsa ideia de “Natureza”. A seus olhos, estamos postulando algo vago, talvez usando um pensamento ilusório, e tentando encaixar a esfera redonda da realidade no buraco quadrado de nossos conceitos. Não estamos aqui para dar a definição do que cada eco-extremista quer dizer com “natureza” ou “Natureza Selvagem”. Eu só vou dar a minha própria ideia sobre isso. Outra vez, qualquer um é livre para se pronunciar, porque eu reconheço que este é um tópico difícil de tratar. Pelo menos para aqueles que estão presos à tentativa de definir o que acreditam que é o mais profundo de si mesmos e do mundo, talvez eles possam se referir a isso e encontrar algo útil. Com isso em mente:

Um objeto “natural” na linguagem moderna geralmente indica uma coisa que existe apenas para si. Ela é, simplesmente isso, e não precisa de qualquer outro propósito adicionado a ela. Se um arqueólogo, por exemplo, está caminhando através de uma floresta, ele pode ver centenas de árvores e milhares de plantas, mas nenhuma delas o interessa. Se ele vê uma grande pedra com gravuras, no entanto, ele vai definitivamente parar e estudá-la. Enquanto a floresta pode realmente ser o que sobrou de uma antiga floresta cultivada ou o produto de milhares de anos de cultivo ou de horticultura de corte e queima, o arqueólogo não tem meios de saber isso. Mas ele, assim como qualquer amador, sabe o que é “natural” e o que não é, o que é feito diretamente pela mão do homem e o que não é.

Da mesma forma, em nossas próprias vidas, se vemos um controle remoto em uma sala que nunca estivemos antes, perguntamos que máquina ele pode controlar: para que serve? Se vemos uma planta em um vaso, não surge tal questão. Se estamos no nosso quintal e vemos um veado ou um guaxinim, não perguntamos: “Mas para que serve?” Nós até podemos, mas não sendo domesticados, não é como se eles reformassem seu propósito de acordo com as ideias que nós temos deles. Natureza, selvageria, o selvagem, o animal, etc., são por si mesmos.

Assim, quando nos encontramos com uma pessoa, geralmente fazemos a pergunta: “Então, o que você faz?” Enquanto domesticados, somos como gado em que nossa própria existência se baseia no que fazemos pelos outros e não por nós mesmos. Eu não sou um contador por mim mesmo; não é inerentemente parte da minha natureza. Calcular números ou conhecer o código tributário não me traz nenhum benefício direto, não é algo que eu faria naturalmente com pouca solicitação e pequeno esforço. O mesmo é o caso de um edifício: muitas pessoas (se não a maioria) podem talvez ter uma sensação de temor ao olhar para um edifício impressionante, e eles podem até confundi-lo com um mysterium tremendum et fascinans. No entanto, a razão pela qual muitos gostam de olhar para uma floresta ou estar cercado por vegetação é talvez porque eles querem se lembrar de que existem coisas que existem para si mesmas e não para os outros. O mesmo é verdade com as crianças, já que crianças, pelo menos quando muito jovens, não são “úteis”.

Além disso, há a ideia de “brincar”. As crianças são definidas pelo seu amor por brincar: atividade que não tem nenhum benefício além da alegria de realizá-la. Alguns dizem que a atividade dos caçadores-coletores assemelha-se profundamente à brincadeira, na medida em que a divisão do trabalho é apenas uma questão de grau. Os homens crescidos caçam, e os meninos pequenos imitam a caça, então capturam presas menores. E, claro, as meninas imitam e participam na coleta e outras atividades de fabricação. Em todos, os benefícios de toda a atividade são geralmente imediatos e óbvios.

Claro, há aqueles que não gostam nem de crianças e nem da natureza, mas isso é principalmente porque elas não respeitam os projetos que as pessoas têm preconcebido para as coisas em suas cabeças. Só posso dizer que, para mim, estar na natureza é transformador por estar em contato com coisas que não precisam de outro propósito senão elas mesmas. Elas apenas são.

Alguns diriam que toda experiência humana é mediada pela cognição e agência humanas, mas ao dizer isso no contexto das pessoas modernas, elas estão perdendo uma distinção crucial. “Natureza” como um espaço intocado e intocável de vegetação é talvez um conceito recente. Mesmo caçadores-coletores “primitivos” manipularam e “coletaram” de seus ambientes de formas muito complexas. Eles teriam percorrido uma floresta ou outra paisagem e não teriam visto apenas uma cena de admiração ou de meditação, como uma pintura, mas uma “fábrica” viva que produz o modo como eles viviam, com sua “ajuda”, embora eles possam não perceber dessa forma. Por outro lado, não é correto afirmar que as pessoas modernas fazem exatamente o mesmo quando elas derrubam uma floresta, explodem uma montanha procurando carvão ou despejam resíduos industriais em um rio.

Aqui, divergirei das ideias adotadas pelo discurso “anti-civilização” ou anarco-primitivista e declaro que não se trata de viver “em harmonia” com a natureza ou estar sujeito a ela, seja o que for que isso signifique. Isso não é um programa de software inato que nós ou seguimos à letra ou não, por nosso próprio risco. A questão, como já afirmei anteriormente, é de escala e capacidade. Se os povos “primitivos” pudessem ter criado plástico ou escavadeiras ou motosserras, talvez o tivessem feito, embora os resultados poderiam não ser os mesmos que vemos hoje. Nosso mundo moderno não é uma inevitabilidade teleológica. Ele pode atender certos desejos daquela coisa indescritível chamada “natureza humana”, mas as pessoas viveram dezenas de milhares de anos, talvez mais, sem nenhum de nossos gadgets ou sistemas de governança. Comparativamente, a domesticação, a agricultura, a vida urbana, etc. são uma espécie de “cisne negro” que tem sido tremendamente bem-sucedido na tentativa de conquistar tudo o que lhes é estranho, mas isso não significa que não poderia ter sido de outra forma. Na maioria dos lugares e circunstâncias com presença de homo sapiens, não tem que ser assim. A civilização tem a pretensão de ter dominado o tempo no abstrato, mas no concreto, ele só existe por um minúsculo período de tempo, e esse tempo pode estar se esgotando.

Assim é também a natureza. Nós pensamos que porque nós manipulamos a natureza, nós a “criamos” e a “definimos”. Isso pressupõe que podemos colocá-la em nossas cabeças e fazer com ela o que quisermos. Aqueles que se opõem a uma linha dura entre a natureza e a cognição humana da matéria muitas vezes não se opõem quando se trata da linha entre a mente humana e os objetos que ela contempla e procura alterar. Nisso, a cognição/consciência humana é soberana, masculina, especial e quase divina. A mente humana é, assim, “de outra ordem”, e assim a linha estrita entre natureza e mente é mantida. Na verdade, quando a mente olha para a natureza, tudo o que realmente está fazendo é olhar para si mesma olhando para… qualquer coisa. Ela não sabe o que, nem nunca poderá saber. Todas as coisas são por elas mesmas, mesmo as coisas que ela não pode controlar, mesmo as coisas que possivelmente não podem perceber (?)

Assim, na minha própria ideia de natureza, percebi que estou dando um salto de fé bem menor ao afirmar que, sim, de fato, há algo lá fora, para além de mim, para além da minha percepção ou cognição. Eu não sou um sistema fechado ou auto-sustentado: eu não sou a origem da existência. Caso contrário, qual seria o resultado de declarar a potencial onisciência do pensamento humano; a mediação absoluta da cognição humana em tudo; a ideia de que todas as coisas são para nós, e nós somos, finalmente, todas as coisas? Para mim, isso cheira a um complexo de Deus, como no deus monoteísta que habita o céu realizado por outros meios, quer chamemos isso de ciência, ou filosofia, ou solipsismo, ou o Futuro, ou o que quer que seja. Estes todos executam a mesma função.

A natureza existe porque a mente humana é fraca e limitada. É mortal, é feita de carne, e, finalmente, este é o seu limite, mesmo que não possamos vê-la. É como se ela estivesse jogando um jogo com o resto da existência, e ela vai perder. A existência da natureza é o limite do pensamento. É o fato de que todas as coisas não são para nós, nossos pensamentos não fazem as coisas: as coisas estão lá por si mesmas, e estariam lá sem a nossa intervenção. Em outras palavras, nós não somos deuses, não somos espíritos, precisamente porque essas coisas não existem como nós as entendemos. Nosso pensamento não compreende e não pode compreender tudo, e é por isso que é tão miseravelmente pouco confiável.

Há coisas que existem puramente para si. Uma criança sabe isso. Até um idiota pode saber isso. É preciso que o “sábio” do “Mundo” (um termo bíblico) o negue. Há coisas neste mundo que nunca vamos dominar. Podemos ser capazes de aterrissar o nosso lixo tecnológico na Lua, mas não podemos alimentar todas as crianças que estão com fome, ou impedir o nosso estremecimento diante da sombra da morte. É por isso que a humanidade será suplantada, e a natureza permanecerá.

O eco-extremismo é, na minha opinião, a confiança na ordem com a qual a própria natureza tem operado, bem como as “fracas” sociedades humanas que foram formadas por ela. Confiar na natureza não é um salto de fé, pelo contrário. A civilização é um culto que exige fé, exige a obediência à ideia de que o “bem comum” é o bem supremo de todos. É um ato de fé acreditar que sacrificar a si mesmo e a natureza selvagem de hoje de alguma forma trará benefícios para todos amanhã. Nós preferimos o “bem” que está diante de nós, nas árvores, nos rios, nos oceanos, no céu azul, nas montanhas e em nossos próprios desejos não-domesticados; e não um “bem” inventado pela civilização que busca a escravidão e destruição de todas as coisas que são por elas mesmas. Detestamos isso, atacamos isso, e não lhe damos nenhuma trégua. Quando falamos “Natureza Selvagem”, não estamos sendo vagos: estamos nos referindo a algo bem na frente de seu nariz. Que você não vê que é seu problema, não nosso.

– Chahta-Ima

Nanih Waiya

Hash Bihi (Maio), 2016.

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