A Ovelha Negra e o Lobo

Texto extraído do trabalho editorial espanhol “Contos do Lado Negro”. Foi traduzido por Anhangá.

Na história várias questões são tratadas, incluindo predominantemente críticas às posturas de alguns anarquistas que acreditam ser rebeldes, mas que permanecem sendo parte do rebanho. Trata sobre individualismo, Natureza Selvagem, etc…

Sejamos como o lobo, o urso, o cervo, o coiote, o abutre, o lince!

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Libertária era uma jovem ovelha negra, mas, ao contrário das outras ovelhas do rebanho, ela havia nascido de cor negra. E a cor era apenas uma de suas peculiaridades. Seu caráter também se diferenciava do caráter das ovelhas brancas. Não era tão dócil como suas companheiras. Não abaixava a cabeça e se apertava contra as demais na hora do descanso. Ela preferia ir dar caminhadas nas proximidades em vez de ficar sonolenta. E na hora de se deslocar com o rebanho ela saía à frente, já outras vezes caminhava devagarzinho ou até mesmo saía fora da trilha, fazendo com que o pastor e os cachorros se irritassem e tivessem sempre que estar correndo atrás dela para devolvê-la ao grupo. E ao retornar para o rebanho quando anoitecia ela sempre era a última a chegar e se fazia a durona vindo com má vontade, de tal modo que o pastor costumava ter de ameaçá-la a gritos brandindo por um porrete e fazendo Libertária entrar à base de empurrões e pontapés. Às vezes, se contorcia contra o pastor ou os cachorros e os ameaçava de dar-lhes uma cabeçada. Ela inclusive já havia feito isso uma vez. Outras vezes quando o pastor ficava desatento Libertária cagava e mijava encima do seu cobertor e da sua mochila, pensava sobre as coisas, e tratava de explicar às outras ovelhas que era uma injustiça o pastor não tratá-las bem como os outros animais; não acariciá-las como fazia com os cachorros, não dar a elas outra coisa para comer além de ervas que encontravam no campo ao contrário do que fazia o pastor com o gado bovino que recebia feno e cevada, não levá-las para passear ao povoado como era feito com o burro… e ao ouvi-la as outras ovelhas deixavam de pastar por um momento, levantavam a cabeça, olhavam inexpressivamente para ela e logo após voltavam a pastar, assim como faziam quando durante uma tempestade o monótono som da chuva era interrompido por um trovão distante.

Devido a todas estas características tão atípicas em uma ovelha, Libertária via a si mesma como uma rebelde e se sentia afortunada porque pensava que ela havia se libertado dos preconceitos que as demais ovelhas não podiam ver. Pensava ela ser totalmente livre.

E assim foi até que um dia quando o rebanho estava nas pastagens de verão nas terras finais de julho, Libertária, que estava andando por aí como era de costume, deu de cara com um estranho animal que estava deitado na extremidade de um grande carvalho. No começo ela o identificou como um cachorro, pois seu aspecto era como tal, e tranquilamente logo trocaram saudações entre si.

– Olá!

– E aí!

– Você está vigiando algum rebanho aqui pelos arredores? – perguntou Libertária.

– No momento não. A propósito, ovelha, você não acha que está um pouco longe do seu rebanho? Poderia se perder.

– Não pense assim – disse a ovelha se gabando – eu não sou uma ovelha convencional, sou uma ovelha negra, ando por aí livremente.

Ao ouvir isso o desconhecido soltou uma gargalhada que deixou à mostra uma boca cheia de dentes afiados e dois pares de presas. Libertária ao vê-los se assustou e, de repente, se deu conta de que aquele animal parecido com um cachorro era o que as ovelhas mais velhas e os cães do pastor chamavam de “lobo”. Ela ia sair correndo quando o lobo lhe disse com um sorriso:

– Não fuja, eu não vou te machucar, acabo de comer uma igual a você agorinha do outro lado das montanhas. Não tenho fome pelo momento.

Gostei de ti e por isso vou te ensinar algumas coisas sobre você mesma que você não sabe.

Libertária ao ver que o lobo não se movia e que realmente parecia não ter a intenção de atacá-la, relaxou um pouco e expressou interesse.

– O que você pode me ensinar que eu não saiba? – lhe contestou.

– Sou um lobo velho, não se esqueça, e se tem algo que eu sei bastante é de ovelhas, porque matei e devorei muitas em toda a minha vida.

– Certo, mas eu não sou uma ovelha normal, sou uma ovelha negra.

– Negra ou branca, não importa, no fundo ainda segue sendo ovelha. Você se orgulha de ser independente, livre… mas não é capaz de ficar muito longe do rebanho, de abandoná-lo realmente, estou errado? Você já passou algum tempo do rebanho apenas com você? Você ao menos tentou? Por que não? Nem sequer passou pela sua cabeça – olhava a Libertária com seus olhos puxados de lobo e um olhar severo, e ela se calava e abaixava o olhar em um silêncio mais do que eloquente.

– Para você é suficiente passear na hora do descanso, mas claro, sem perder as demais ovelhas nem o pastor e seus cachorros de vista, acha suficiente sair da trilha quando o rebanho se movimenta, mas sem nunca deixar de acabar indo a onde vão todas as demais ovelhas. E, em geral, você só faz isso para gerar um pouco mais de confusão e para dar trabalho aos cães e a seu mestre. Com isso você se acha livre e rebelde, mas na realidade, segue sendo escrava, segue formando parte deste rebanho cujo não pode nem quer escapar, segue sendo ovelha, rara e negra, mas ovelha no fim das contas.

Você não é nem um muflão, nem um veado, nem um cervo, nem um javali, nem uma cabra da montanha, nem uma raposa, nem um urso, nem qualquer um dos outros animais selvagens que habitam estas montanhas e que são realmente livres. Nós desprezamos os cuidados e o afeto dos mestres e a comodidade de uma vida de escravos e prisioneiros, e o que realmente apreciamos é a vida livre e selvagem que temos aqui.

Já você, no entanto, não sabe nem pode saber o que é a liberdade, e se inveja da alimentação que o teu mestre dá a suas vacas e das carícias e o apreço que dá a seus cães, porque você é tão escrava quanto eles, e sempre será, porque não é mais que uma ovelha que não quer deixar de ser ovelha e crê que é o suficiente ser negra.

Você tem de saber que, se o pastor ainda não se desfez de ti e suporta tuas extravagâncias é porque você é útil para ele. Os rebanhos de ovelhas negras e brancas são mais resistentes a doenças do que os rebanhos compostos apenas por ovelhas brancas. Este último, com o tempo, tende a se degenerar e posteriormente se extinguir. Na verdade, no outro lado das montanhas, onde a pecuária está muito mais avançada do que aqui, os rebanhos estão compostos em sua maioria por ovelhas negras e cinza porque a mescla de ovelhas de distintas cores para escurecer a pelagem de seus descendentes garante a saúde futura, a resistência e a produção do rebanho, apesar de ser menos fácil de se manejar.

E agora, volte para teus semelhantes antes que eu tenha fome novamente e me arrependa de não haver te degolado.

E Libertária de cabeça baixa retornou ao rebanho. E seguiu sendo negra, é claro; e tampouco deixou de atuar de forma excêntrica de vez em quando (ao fim das contas era uma ovelha negra e não poderia deixar de ser um pouco peculiar), mas nunca se esqueceu da verdade das palavras do lobo: as ovelhas negras seguem sem ser mais que meras ovelhas, membros do rebanho.

E=mc2

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