O Último dos Tanaru

Recentemente foram divulgados registros do que parece ser o último dos Tanaru. O homem primitivo é o único sobrevivente de sua tribo que foi massacrada há mais de vinte anos atrás por fazendeiros. Desde então há duas décadas habita sozinho algumas florestas do estado de Rondônia. Os registros mostram que “índio do buraco” vive da caça e da coleta, além de praticar também a agricultura, cultivando alimentos como milho, banana, mamão e batata.

Mesmo após a sua tribo ser dizimada o Tanaru seguiu distante da civilização, sempre se esquivando e desprezando tentativas de contato. É assim que o último dos Tanaru vive, sozinho e primitivamente há mais de duas décadas em meio as florestas após o seu povo ser massacrado por civilizados, tal como uma vez fez Ishi.

 

Revisitando a Revolução

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2. Texto original em The Wild Will Project.

Resumo – Os selvagistas, assim como seus precursores ideológicos, em geral apoiavam a noção de “revolução” como resposta a seus anseios. No entanto, uma série de grupos conhecidos como “eco-extremistas”, que vieram dos mesmos precursores ideológicos que os selvagistas, desafiaram a “abordagem revolucionária” do retorno ao selvagem. Este artigo explica a abordagem revolucionária e por que os eco-extremistas estão certos.

A Velha Visão

Os valores dos eco-radicais e eco-extremistas selvagistas já foram suficientemente elaborados, mas parte da minha intenção ao iniciar este jornal era explorar e esboçar um modus operandi com base nesses valores. Até então, eu (e aqueles com quem trabalho) havíamos nos atido a uma noção aproximada de “revolução”, ou melhor, de reação anti-industrial. O raciocínio era tal como se segue:

Já que desejamos que o mundo entre em colapso para tornar-se um lugar menos administrado ou mais selvagem, nossa preocupação é como alcançar um estado de coisas em que o modo de produção industrial seja tornado cada vez menos eficiente, ou até mesmo, em algumas regiões, um estado em que ele seja destruído para além de qualquer possibilidade de restauração. Mas, é claro, a vida industrial é por demais conveniente. É pouco provável, então, que as pessoas se revoltem contra ela.

No entanto, historicamente tem havido períodos revolucionários em que esse tipo de coisa torna-se possível – épocas em que as pessoas de um lugar específico perdem muitas de suas inibições normais e agem fora dos limites da moralidade convencional. Durante esse período, é muito mais provável que as pessoas ajam contra os seus interesses materiais imediatos, deixando um espaço para que minorias pequenas e organizadas tirem vantagem desse momento de massa e instiguem a ação contra toda estrutura que considerem ilegítima. A Revolução Francesa foi um desses períodos. E o partido bolchevique da Revolução Russa, que explorou metodicamente muitos aspectos inerentes à sociedade de massa, demonstrou como uma minoria pode fazer uso de um momento como esse.

Evidentemente, parte da análise selvagista envolve uma compreensão de que a sociedade (e sua técnica) desenvolvem-se de modo autônomo em relação a qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos; ou seja, as culturas evoluem (ver “Technical Autonomy). Isso significa, entre outras coisas, que os revolucionários não podem planejar sua revolução. A Revolução Francesa, por exemplo, foi resultado de forças imprevisíveis tais como a fome e a industrialização; e a Revolução Russa irrompeu em um momento de intensa pobreza dos russos e de guerra mundial. Esse aspecto do desenvolvimento cultural em geral em que este “arrasta os humanos consigo” também é o motivo pelo qual os revolucionários conseguiram destruir a sociedade-alvo, mas falharam miseravelmente em instituir seus esquemas utópicos racionais. De novo, as culturas evoluem; elas não são planejadas. A única razão pela qual os radicais da época conseguiram tirar vantagem da instabilidade foi porque, de antemão, eles se organizaram e se isolaram, criando uma minoria resoluta não comprometida com a estrutura dominante que buscava derrubar. Por conta disso, os selvagistas e suas influências ideológicas (por exemplo, Kaczynski e os indomitistas) defendiam a criação dessa minoria, que se prepararia para a ação cada vez mais radical em tempos de instabilidade. Essa minoria não teria esperanças de instaurar esquemas racionais, mas se dedicaria totalmente a atacar de modo implacável a sociedade industrial.

Nós, eco-radicais, acreditávamos que essa era a única forma de causar dano máximo ao sistema industrial global. Não é que a revolução fosse uma solução perfeita. De qualquer forma, soluções perfeitas não existem. Mas outras propostas eram ou completamente irrealistas ou não iam longe o bastante, e a reforma é impossível como uma força satisfatória, dadas as demandas de nossos valores. Havia até mesmo uma chance de que a reação seria global em alcance, o que significaria não que toda a indústria entraria em colapso, mas que os esforços revolucionários estariam ocorrendo em muitos lugares ao mesmo tempo, talvez com algumas regiões em que eles seriam mais bem-sucedidos. Essa é uma possibilidade nos dias de hoje porque a infraestrutura industrial unifica o mundo, permitindo que as mensagens se espalhem muito mais rápido do que antes. Essa foi, no fim das contas, a razão pela qual os valores da Revolução Francesa se espalharam tão rápida e completamente; e é o motivo pelo qual os jihadistas podem agora ser vistos atacando por toda parte.

Além disso, em regiões onde houve colapso estatal ou industrial, muitas vezes causado por revoluções, podemos observar ganhos notáveis para a natureza selvagem. Considere-se, por exemplo, a Síria, a Líbia, muitas partes do Afeganistão, e até mesmo lugares ao sul dos EUA, como o México e o Brasil. Onde há um alto grau de instabilidade na sociedade moderna (indústria, democracia, instituições humanistas, etc.), as sociedades são menos vigiadas, a natureza não-humana é menos desenvolvida em um sentido material, a infraestrutura começa a ruir… De fato, as emissões de carbono no Oriente Médio estão diminuindo rapidamente devido à atividade revolucionária que se passa por lá, tal como é de se esperar, já que as emissões desde a Revolução Industrial somente diminuíram globalmente em tempos de declínio ou de colapso (por exemplo, a Grande Depressão, o colapso da União Soviética, a Recessão de 2008 etc.).

Porém, esse raciocínio é falho. Não é que a reação em si mesma seja algo indesejável ou mesmo impossível. Claramente, ela é possível. Por exemplo, os jihadistas, não importa o quão abomináveis sejam, estão de tal modo suficientemente organizados e difundidos que, se algum fator externo incontrolável, como um desastre natural, causasse danos severos às sociedades industriais, eles poderiam tirar vantagem desse momento e provocar um enorme estrago. A rigor, é errôneo basear a própria ecodefesa nessa possibilidade, é errôneo imaginar a reação como uma “solução definitiva” para os problemas do Progresso, e é errôneo legitimar o retorno radical ao selvagem por referência ao período revolucionário. Nossos valores oferecem uma mensagem diferente dessa.

Um grupo com influências ideológicas semelhantes às dos selvagistas, os assim chamados eco-extremistas, tentaram elaborar esse argumento em seus comunicados e escritos. Inicialmente, seus argumentos pareciam juvenis, impacientes, imediatistas. Porém, com o passar do tempo, sua análise tornou-se mais aguçada e, quanto a mim, eles conseguiram me convencer que o lugar da revolução no discurso selvagista deveria ser repensado. Depois de muito debate sobre essa questão, minha posição (e a da maioria das pessoas com quem trabalho) mudou.

A Nova Visão

Em primeiro lugar, consideramos o retorno ao selvagem e a ecodefesa como bons em si mesmos. Não há necessidade de um evento futuro que os legitime. É no presente que a natureza selvagem está sendo dominada e destruída, e é no presente que a defenderemos e a restabeleceremos. A ação radical pode precisar de uma justificativa especial, mas isso pode ser facilmente explicado, e não por recurso ao messias da revolução: se a própria ameaça é radical, por que a defesa, por sua vez, não pode ser radical também? Conforme assinalei em “The Foundations of Wildist Ethics”, é razoável dizer que, à medida que o selvagem torna-se cada vez menos uma qualidade definidora de nosso mundo, tanto mais valioso ele se torna, e tanto mais justificável a defesa radical. “Nenhum recurso a não ser ao presente.”, disse um selvagista; e ele tem razão.

Ademais, a revolução não é nenhum messias. Visto que nenhum humano ou grupo de humanos pode incitá-la – apenas tirar vantagem do momento –, nunca está claro como ela irá terminar. De novo, podemos observar isso em regiões onde a revolução ou o colapso estão ocorrendo. Alguns desses processos foram bastante prejudiciais à natureza selvagem, ou pelo menos não foram ideais, e a situação é tal que um curso de eventos semelhante será comum em situações futuras. Pode ser que a revolução aconteça e ainda haverá trabalho a fazer. Um único evento, portanto, não é o foco. Na verdade, é possível que ele seja tangencial.

Considere-se, por exemplo, outros meios através dos quais o colapso ocorreu. Alguns colapsos aconteceram sem absolutamente nenhuma participação humana, com a própria natureza selvagem batendo tão forte que nenhuma intervenção humana se fez necessária; em outros casos, a única participação humana foi a resistência ao colapso, mas fracos como somos enquanto força motriz da sociedade, ele ocorreu mesmo assim. Em alguns lugares, a revolução apenas levou a mais Progresso, ou a regimes totalitários que, embora menos eficientes do que as democracias, continuam sendo incompatíveis com nossos valores. Em suma, a revolução não é o fim. Pode-se até mesmo argumentar que, muitas vezes, ela é apenas o começo.

Isso envolve um aspecto da análise selvagista que eu já havia notado que parece ser contraditório com a proposta anterior da revolução: nosso fatalismo. Acreditamos que os humanos estão tão sujeitos aos processos e aos rumos da natureza selvagem quanto qualquer outro animal; e como qualquer outro animal, somos levados por ela, não uma força motriz por trás dela, não importa o quão enganosas nossas percepções possam ser. Isso é ilustrado até mesmo pelo materialismo científico moderno e por seu determinismo (seja ele literal ou, dependendo da interpretação que se tenha dos fenômenos quânticos, prático). Escrevi brevemente sobre isso em “The Question of Revolution”, chamando a atenção para o fato de que o colapso não é algo que os selvagistas pensam que possam causar. Em vez disso, se é para acontecer, acontecerá de qualquer forma. O colapso, portanto, é mais uma previsão, e falar de ação ou livre arbítrio é meramente uma “ficção útil” para mentes humanas que nunca conhecem nem são capazes de conhecer o bastante para que tenham certeza de seu destino. Isso, o argumento do naturalismo filosófico, é de fato aquilo em que eu mesmo acredito; os eco-extremistas o mais das vezes falam simplesmente em fatalismo, sem referência a fundamentos filosóficos mais profundos. Nesse mesmo sentido, muitos caçadores-coletores adotavam uma espécie de ponto de vista fatalista em relação à vida, forçados como eram a reconhecer sua pequenez perante as montanhas, os mares e o céu noturno não poluído.

O que dizer, então, da possibilidade de que o colapso talvez nunca ocorra? É aqui que os eco-extremistas conseguiram me convencer. Eles dizem: “Pouco importa.”. Eles têm razão, tal como eu mesmo observei na mesma seção de “The Question of Revolution”. A despeito da possibilidade da revolução, me mantenho firme nos meus valores e agirei de acordo com eles. Estas instituições, esta sociedade, a infraestrutura industrial sobre a qual ela é construída – pode ser que tudo isso continue conosco para sempre, mas isso não significa que eu tenha que respeitá-las. Tampouco acredito que sequer consiga fazê-lo. Estou condenado, fadado, talvez: nada posso fazer a não ser desprezar o controle de minha vida e do mundo selvagem que amo.

Mais uma vez, os eco-extremistas defenderam esse argumento há mais tempo do que eu. Embora os selvagistas sempre tenham argumentado que os valores originam-se da vontade individual – seu niilismo em relação aos valores objetivos tendo também sua fonte no naturalismo filosófico supracitado –, os eco-extremistas foram aqueles que assumiram firmemente sua posição e agiram como indivíduos, não apenas dispensando a revolução como uma força legitimadora, mas também os movimentos de massa. Pode ser que ajude que os outros estejam comigo, mas eu pouco preciso deles para poder viver com integridade, e eu em nada dependo deles para fazê-lo.

Por fim, dado o caráter não planejado dos fenômenos culturais de massa, é arriscado argumentar a favor do messias da revolução. Considere-se meu ensaio “The Question of Revolution”, no qual discuti mais sobre a moralidade relativa à revolução do que sobre estratégia e incitação. Como, questionei, a morte causada pela revolução é compatível com os valores selvagistas? E quanto aos perigos do colapso nuclear? Loucura humana? Ao responder a essas questões, eu normalmente explicava que elas eram irrelevantes, dado que os humanos não causam as revoluções. Nenhum movimento revolucionário, não importa o quão forte, vai ter um botão que, quando acionado, desencadeará o colapso industrial. Assim, eles não seriam responsáveis por tudo o que ocorresse (sob qualquer noção normal de “responsabilidade”). Em vez disso, sendo os humanos criaturas com conhecimento e influência limitados, qualquer instabilidade revolucionária somente contará com o reforço de indivíduos que ajam de acordo com o modo que julgarem apropriado naquele momento, sendo esses indivíduos responsáveis pelas consequências dessas ações específicas, mas incapazes de prever o rumo geral de sua sociedade. No entanto, muitas vezes eu vacilava em minha análise ao tentar uma visão “global” da situação, por exemplo, ao argumentar que a morte causada por uma situação revolucionária não chega nem perto da devastação causada pelas mudanças climáticas, pelas extinções de espécies (que chegam a mais de 1.000 vezes a taxa de extinção natural!), e por outros problemas citados pelos eco-radicais.

E até mesmo nesse caso, eu quase me contradisse ao chamar a atenção para as limitações da razão moral humana, provavelmente de base biológica. Por exemplo, eu mencionei as descobertas de Paul Slovic, um psicólogo social que observou que os humanos geralmente passam por um processo de “entorpecimento psíquico” em relação ao sofrimento à medida que o número de humanos que sofrem fica maior. Em um experimento, ele pediu que os voluntários doassem dinheiro para uma causa que alimentava crianças na África, dizendo a eles que uma criança específica estava precisando de ajuda; mas à medida que os números aumentavam, ou se o sofrimento da criança era colocado no contexto de uma tragédia maior, as doações diminuiriam rapidamente. Isso ocorria até mesmo depois que apenas mais uma criança era mencionada. Foi com esse tipo de limitações em mente que eu brinquei com a ideia de uma moralidade baseada na razão em “Foundations”, argumentando que em uma situação não-natural como essa em que nos encontramos, precisaríamos usar muito mais o lado racional de nossa mente do que o lado intuitivo. Mas nem sequer está claro que isso seja possível, o que torna um experimento como esse altamente perigoso. Além disso, qualquer tipo de raciocínio dependeria de dados acessíveis somente através da infraestrutura científica e industrial moderna ou hipermoderna – algo obviamente incompatível com nossos valores regressivos.

Em vez disso, os eco-extremistas – corretamente – argumentaram que deveríamos ignorar qualquer raciocínio “global” e agir no presente de acordo com nossos valores. Se um radical ataca a infraestrutura industrial, ele o faz porque acredita que a ação seja justificada nesse caso específico; se mata um técnico, terá que viver com a responsabilidade; se tira vantagem de uma manifestação para dar notoriedade aos valores eco-radicais, justificará a ação com sua própria vontade selvagem.

Ressalvas e Esclarecimentos

É claro, nada disso significa descartar uma reação anti-industrial como uma possibilidade, especialmente em regiões pequenas, como países equatoriais que serão afetados pelas mudanças climáticas. Em vez disso, significa que se ela ocorrer, será meramente um evento significativo no decorrer de nossas vidas – ou não. Os eco-extremistas em geral parecem concordar nesse ponto. MictlanTepetli, o propagandista com o qual conversei, disse: “É claro, se a oportunidade surgir e nos depararmos com um setor da cidade destruído pela guerra civil ou por uma catástrofe semelhante, nos dedicaríamos a resselvagizar esse lugar, sem sombra de dúvida.”. Esse é, em geral, o posicionamento das pessoas com quem trabalho. Não faz sentido ficar de braços cruzados. Mas alguns comunicados eco-extremistas dizem que a revolução é absolutamente impossível, e eles têm certeza disso. Isso eu não posso dizer que seja de fato verdade; simplesmente não temos como saber, e é o máximo que se pode dizer a respeito. Basta dizer que pouco importa se a revolução irá ou não ocorrer. Tal como um texto eco-extremista coloca:

“Sim, os eco-extremistas são pessimistas e lamentavelmente nos demos conta de que a destruição da civilização é impossível. A única capaz de causar um dano sério à civilização e, na melhor das hipóteses, acabar com ela, é a própria Natureza Selvagem; então, o que fazer?; cruzar os braços e esperar?; observar como a civilização se expande em todas as direções acabando com os hábitats selvagens, sem fazer nada? Nunca!”

É claro, tal como escrevi anteriormente, os eco-extremistas, mais do que qualquer outra pessoa, seriam capazes de tirar vantagem da instabilidade, seja ela revolucionária ou não. Considere-se os bolcheviques. Lenin manteve o partido altamente isolado do resto da sociedade que eles pretendiam destruir, resistindo à propaganda dominante e exacerbando essa deslealdade através da atividade conspiratória. Ele também promoveu vários projetos congruentes com essa estratégia, como um “jornal com circulação em toda a Rússia”, que ensinava aos revolucionários como se coordenarem ao mesmo tempo em que aprendiam como explorar a tensão ao de fato fazê-lo quando os sindicatos se rebelassem ou entrassem em greve. Não foi esperando que eles tiveram êxito, mas sim somente agindo. Os jihadistas operam de um modo semelhante. É claro, grande parte disso é irrelevante para a filosofia e para os valores eco-radicais, em especial a natureza de massa da estratégia leninista, mas permanece a questão: aprende-se agindo agora, e nada menos do que isso. E, de novo, isso é verdadeiro não apenas em uma situação revolucionária. Desastres naturais, tribos não-contatadas lutando de um modo selvagem contra os civilizados, e muitos outros aspectos em que a natureza contra-ataca fazem parte da luta eco-radical. Tal como os eco-extremistas colocam:

“O eco-extremismo é a resistência armada das tribos amazônicas em guerra contra os madeireiros, as petroleiras, os mineradores; é a flecha lançada contra os helicópteros pelos aborígenes isolados na África, é a continuidade das crenças pagãs que resistem à cristianização total, é a resistência individual por meio das atividades delinquenciais contra a domesticação, é o tornado, o terremoto, a ferocidade dos últimos coiotes, a hostilidade dos elefantes, é a abelha que solta seu ferrão para depois morrer, o eco-extremismo é a violenta defesa da própria Natureza Selvagem, suas reações, suas respostas e manifestações.”

Bibliografia:

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Hoffer, E. (2011). The True Believer. HarperCollins.

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Jacobi, J. (2016). Technical autonomy. Hunter/Gatherer, 1(3).

Jacobi, J. (2016). The foundations of wildist ethics. Hunter/Gatherer, 1(1).

Jacobi, J. (2016). The question of revolution. Hunter/Gatherer, 1(3).

Kaczynski, T. J. (2010). Technological Slavery: The Collected Writings of Theodore John Kaczynski, a.k.a “The Unabomber”. (D. Skrbina, Ed.) Feral House.

Kaczynski, T. J. (2016). Anti-Tech Revolution: Why and How. Fitch & Madison Publishers.

Peters, G., Marland, G., Quere, C., Boden, T., Canadell, J., & Raupach, M. (2012). Rapid growth in CO2 emissions after the 2008-2009 global financial crisis. Nature Climate Change, 2, 2-4.

Sageman, M. (2004). Understanding Terror Networks. University of Pennsylvania Press.

Selznick, P. (1952). The Organizational Weapon: A Study of Bolshevik Strategy and Tactics. RAND Corporation.

Slovic, P. (2007). “If I look at the mass I will never act”: Psychic numbing and genocide. Judgment and Decision Making, 2(2), 79-95.

Último Reducto. (2009). Con Amigos Como Éstos…: Último Reducto vs. Los Amigos de Ludd.

Primitivismo Sem Catástrofe

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2.

Toda boa ideia precisa de um bom ponto de venda. O ponto de venda da ideologia abrangente que pode ser chamada de vários nomes como “anarco-primitivismo” e “pensamento anticivilização”, é a ideia de que a civilização moderna tecnoindustrial está destruindo a espécie humana, e de que se nós quisermos parar essa destruição, temos que destruir a civilização. É uma questão de auto-preservação. Nós precisamos renunciar a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc. Como nós sabemos disso? Bom, a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc, nos dizem isso. Eu provavelmente não sou o primeiro a notar a inconsistência nessa perspectiva, mas talvez eu seja o primeiro a falar algo sobre isso.

O “Pensamento anticivilização” (por falta de um termo melhor) tem um “problema de conhecimento”. O problema é que ele tenta criticar a totalidade do ponto de vista da própria totalidade. Ele tenta desmantelar as ferramentas que construíram tudo que ele despreza usando essas mesmas ferramentas. Isso culmina na ideia de uma “Catástrofe”: O colapso catártico do seu inimigo e a chance da restauração de uma ordem justa. Para alguém que segura um martelo, tudo se parece com um prego, e para alguém com uma narrativa apocalíptica, tudo leva ao fim do mundo. De fato, alguns diriam que a catástrofe é para o primitivista o que a ressurreição de Jesus era para São Paulo: O sinequa non fora do qual a mensagem não pode existir. Se a humanidade não está condenada pela tecnologia, se toda a vida na terra não está ameaçada pela ascendência de um primata egoísta vindo da África, então o que estamos fazendo aqui? Poderíamos simplesmente voltar para nossas casas e desfrutar de nossas televisões de tela plana e ar condicionado.

É claro que as coisas não são tão simples. A primeira pergunta deveria ser: “Nós estamos condenados?”. Alguns livros que saíram recentemente tentam responder essa pergunta com uma negação, mesmo que levando muito a sério a ciência que analisa a mudança climática e a escassez de recursos naturais. O livro de Ronald Bailey “O Fim da Tragédia: Renovação Ecológica no Século XXI” é uma das maiores contribuições ao gênero eco-modernista. Apesar de não ter tempo para cobrir todo o conteúdo do livro, posso ao menos falar sobre o ponto mais forte do livro (pelo menos sob a minha perspectiva): a análise da ideia ecológica de que “não fazer nada” é melhor do que “fazer algo”.

Esse conceito é certamente comum no discurso ambientalista. A natureza tem feito o que ela faz por milhões de anos, e assim, como diz o discurso, ela sabe melhor o que fazer. Isso é o que Bailey chama de “princípio de precaução”, melhor formulado pela frase que dá o nome ao terceiro capítulo de seu livro, “Nunca Tente Nada Pela Primeira Vez”. Tudo que é novo é culpado até que se prove inocente, e o ônus da prova está na novidade, que tem que demonstrar que ela não irá criar mais problemas do que ela está tentando resolver. É evidente que aqueles que se prendem a esse princípio de precaução se tornam paralisados e impedidos de agir, pois não há como eles saberem com certeza quais são as implicações de um desenvolvimento tecnológico (pense por exemplo no debate em torno de alimentos geneticamente modificados). Aqueles que sofrem por causa dessa hesitação, diz Bailey, não tem o luxo da dúvida: eles precisam do remédio novo contra o câncer, de comida barata e de outros benefícios que o desenvolvimento tecnológico traz. Como diz Bailey:

Infelizmente, o princípio de precaução soa razoável para muitas pessoas, especialmente para aquelas que já estão cercadas de tecnologia. Essas pessoas tem as suas casas com aquecimento elétrico nas montanhas; elas já gozam da liberdade da necessidade, ignorância e doenças que a tecnologia pode providenciar. Mas existem bilhões de pessoas que desejam ver as suas vidas transformadas. Para essas pessoas, o princípio de precaução é uma garantia de pobreza contínua, não de segurança.” (93-94)

Temos aqui um problema de conhecimento virado e revirado. O pensador anticivilização e neo-ludita estudou o suficiente sobre a sociedade tecnoindustrial para saber que ela é uma causa perdida. Ele sabe disso através do uso das ferramentas que a sociedade tecnoindustrial lhe forneceu. Mesmo assim, um eco-modernista como Bailey vira o jogo e mostra que esse pessimismo é baseado em uma visão otimista do conhecimento humano apoiado por uma infraestrutura tecnológica que permite estudo e reflexão. Se nós não sabemos realmente, e sabemos que não sabemos, não temos a obrigação de tentar? Não seria essa ignorância uma oportunidade ao invés de um obstáculo? Não é disso que se trata o iluminismo e a revolução científica?

Ao longo do resto do livro, Bailey demonstra diversas vezes, em assuntos que variam do pico do petróleo ao suposto aumento do número de casos de câncer causado pelo uso de produtos industriais que os pessimistas têm estado errados, e muito errados até agora. Bailey conclui que o homo sapiens é um animal sagaz e adaptável, capaz de extrair a vitória das garras da derrota repetidas vezes. Bailey tem poucas dúvidas que nós continuaremos fazendo isso, mesmo admitindo que algumas coisas, como a mudança climática, são problemas reais que afetam toda a humanidade.

Ironicamente, aceitar as premissas de Bailey pode ser a posição mais “primitivista” de todas. Se no fim nós somos apenas animais incapazes de salvar a nós mesmos sem abrir mão dos instrumentos que nos conferem um poder que parece absoluto, como é possível que nós sejamos capazes de condenar nós mesmos a não-existência? Ou ainda, se somos burros demais para nos salvarmos, podemos também ser burros demais para matar a nós mesmos. É claro que há o princípio da entropia, além da intuição de que é mais fácil quebrar do que consertar algo. Mas a analogia não se sustenta aqui, já que estamos falando de bilhões de animais individuais pelo planeta que se mostraram resistentes o suficiente para infestar toda a terra.

Então qual é a resposta? Estamos salvos ou condenados? A catástrofe é uma realidade inevitável ou um desejo masoquista? No fim das contas a resposta é: nós não sabemos. Aqueles que fingem saber estão se agarrando a um suposto bastião de certeza da ruína ou do otimismo no qual os cisnes negros de Nassim Nicholas Taleb jamais ocorrem. O futuro não pode ser completamente desolado, e também não podemos ter certeza de que o desastre não ocorrerá simplesmente porque ele ainda não ocorreu até agora. Tudo que nós realmente temos é o presente.

Assim voltamos ao título: é possível haver um primitivismo sem catástrofe? E se essa sociedade conseguir resolver seus problemas e seguir em frente? Nós voltamos para casa então? Nós passamos a tolerar essa ordem capitalista tecnoindustrial e reconhecer que se nós não podemos viver na sociedade em que desejamos, devemos aprender a amar a sociedade na qual vivemos? Afinal de contas, somos todos humanos, e compartilhamos as mesmas almas, corpos, sentimentos e intelecto. Já que as coisas são assim, nós podemos também trabalhar para salvar todos, e quem se importa com como faremos isso? Sonhos de um retorno a existência idealizada de caçadores-coletores se tornam cada vez menos atraentes.

Confrontados com esse impasse, trazemos aqui pensamentos de uma entrevista recente com membros da tendência mexicana eco-extremista:

“A maior diferença entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecnoindustrial. Nós atacamos agora porque o futuro é incerto. Você não pode criar uma estratégia baseada em suposições, acreditando que tudo irá ocorrer de acordo com os seus planos com uma vitória garantida. Nós paramos de acreditar nisso quando entendemos a enormidade do próprio sistema, de seus componentes e de seu vasto alcance que se estende por todo o planeta e até para fora dele. Se a civilização cair amanhã ou nos próximos 30 ou 50 anos, nós saberemos que travamos uma guerra necessária contra ela a partir de nossa própria individualidade. Nós não sabemos se haverá um colapso global do sistema algum dia. Os especialistas dizem que haverá, mas não há como ter certeza. É possível que o sistema caia e a natureza ressurja de suas ruínas. Mas talvez o sistema consiga se manter sempre um passo à frente, tornando-se autossuficiente e com a capacidade de se reparar com facilidade. Como nós já dissemos, não sabemos o futuro. Gostaríamos de saber, mas essa não é a realidade.”

Com os eco-extremistas, então, nós podemos encontrar uma maneira de sair da posição errônea de “um futuro melhor através de um retorno ao passado”. Aqui, nós podemos dizer que o futuro é nosso inimigo. Toda saída proposta, seja através das teorias liberais de Bailey ou de esquemas tecno-progressistas da esquerda é algo que nós rejeitamos logo de cara. Nós não queremos cooperar, e nem salvar o mundo. Nós nos recusamos a oferecer as nossas vidas ou a vida de outros por um futuro melhor. Esse futuro é sempre prometido, mas nunca chega. E nesse ponto, o problema de conhecimento entra novamente em cena: esse futuro não chega porque ninguém é capaz de trazê-lo. As coisas estão “melhorando o tempo todo” apenas porque nós fomos domesticados a ponto de achar que a cenoura na ponta da vara é o objetivo, e que nós estamos nos aproximando dela, e que a vara não está realmente lá, mesmo quando ela bate bem nos nossos narizes. Assim é a essência da civilização: o passado nebuloso e mítico e o futuro que nunca chega.

A catástrofe é a catarse que acaba com o ciclo de sofrimento. Mas assim como a versão budista, ela também é elusiva e nunca acontece nessa vida. De fato, o problema real do “pensamento anticivilização”, especialmente em sua forma anarco-primitivista, é que ele não sabe o que quer, porque o que ele quer é moldado pelo que ele odeia. Ele nem sequer conhece realmente a natureza por se recusar a admitir que não há como conhecê-la com qualquer certeza, e assim faz da natureza um ídolo representando todos os seus desejos ambivalentes. A própria ideia de defender a natureza nos mostra que o nosso conhecimento sobre a natureza, especialmente o conceito peculiarmente norte-americano de “natureza pristina” é mal embasado. David George Haskell descreve a situação da vegetação florestal em face da ressurgência recente da população de veados em seu livro A Floresta Oculta: Um Ano de Observação na Natureza:

“Humanos eliminaram alguns predadores, mas também introduziram três criaturas que matam veados: cães domésticos, coiotes invadindo do oeste e automóveis. Os dois primeiros são matadores eficientes de veados jovens, enquanto o terceiro é o principal assassino suburbano de adultos. Nós nos deparamos com uma equação impossível. De um lado, nós temos a perda de dezenas de espécies de herbívoros; do outro, nós temos a substituição de um predador por outro. Que nível de pastagem é normal, aceitável e natural em nossas florestas? Essas são perguntas desafiadoras, mas é certo que a vegetação florestal exuberante que cresceu no século XX era menos pastada do que o comum.”

Uma floresta sem grandes herbívoros é que nem uma orquestra sem violinos. Nós estamos acostumados a sinfonias incompletas, e estranhamos quando os tons incessantes dos violinos retornam e colidem com os instrumentos mais familiares. Essa reação negativa ao retorno dos herbívoros não tem nenhuma boa fundação histórica. Nós temos que ter uma visão mais ampla, ouvir toda a sinfonia e celebrar a parceria entre animais e micróbios que tem afetado as plantas jovens por milhões de anos. Adeus arbustos; olá carrapatos. Seja bem-vindo de volta ao pleistoceno.

Nós devemos então encarar o fato de que talvez não haja nenhuma “catástrofe”, e se houver, ela não terá o efeito purificador que esperamos. A definição do capitalismo moderno é crise, e o bom homem de negócios faz da crise uma oportunidade. Isso significa que nós não devemos lutar? Que nós devemos abaixar as nossas armas e sermos derrotados pelo quietismo e agnosticismo? Não necessariamente, mas significa que nós precisamos definir melhor porque nós nos opomos a sociedade atual mesmo que ela tenha o potencial de durar milhões de anos, e mesmo que ela torne nossas vidas “melhores” em alguns sentidos. Ao menos temos que definir por que nós nos opomos a ela e não acreditamos que ela seja capaz de concretizar qualquer uma de suas promessas de tirar os animais humanos da miséria.

Primeiro, vamos começar com a natureza. Nós não podemos rejeitar a catástrofe como um conceito sem nenhuma nuance precisamente porque a natureza é uma catástrofe ao longo prazo. Isso ocorre porque a natureza é mudança, e é uma mudança que vai muito além da compreensão humana mesmo em seu sentido mais científico e abstrato. Humanos modernos tem o problema de acreditar que as suas ideias são consubstanciais com a realidade, mesmo que frequentemente não haja razão nenhuma para acreditar nisso. Eles dominam conceitos incompreensíveis como tempo, espaço, matéria, luz, etc. no abstrato e assim acham que não há mais nada para eles no sentido concreto, mesmo que eles nunca tenham saído do conforto de sua cadeira ou do espaço na frente da lousa. A natureza é catástrofe porque ela interrompe, desmantela, destrói tudo e cria novamente: das estrelas mais distantes até as células de nossos corpos. Aderentes do pensamento anticivilização tem dificuldade de aceitar isso de uma maneira concreta, apesar de estarem constantemente falando banalidades abstratas sobre isso. Para eles só se pode dizer “Doutor, cure a si mesmo!”.

O que é então a nossa relação com a natureza? Como nós superamos a ideia frequentemente repetida pelos críticos de que os primitivistas “reificam a natureza”. Aqui, eu ofereço um tropismo cripto-hegeliano. Muitos “primitivistas” (por falta de um termo melhor) veem a natureza como algo que nos é externo, e que oferece a nossa existência como uma dádiva passiva, e que o problema real é que nós nos esquecemos do aspecto gratuito dessa dádiva (pense aqui no conceito cristão de “graça”. Da mesma maneira que um homem não pode obter salvação através do Deus de Calvino, ele é também incapaz de criar os seus meios de vida sem o assentimento da natureza. Obviamente, essa é uma formulação absurda. A natureza, ou se você preferir usar o muito criticado termo de Lovelock, “Gaia”, é o produto de bilhões de coisas vivas trabalhando juntas e sustentando umas às outras ao longo das eras: ela é o ato de coisas vivas. Elas são formadas por ela e a formam também, que vai de pequenos microrganismos até ecossistemas complexos e a própria biosfera. Nós temos que manter isso em mente cada vez que olhamos para a “natureza pristina”. Como Haskell diz várias vezes ao longo de seu livro citado acima, a natureza não é uma sala de meditação, e nem um Éden onde se pega as frutas dos cachos sem esforço algum. Há também confronto e tragédias, da mesma maneira que há cooperação e piedade. O fato que ela persistiu por tanto tempo é uma evidência disso.

O pecado do homem moderno não é ter resistido a sua natureza humana passiva, como diriam muitos primitivistas. O problema é que ele acredita que ele é independente da própria natureza, que ele consegue se virar sozinho, que ele pode dominá-la por completo e não deixar nada sob a sombra do mistério. Esse é o homem moderno, alienado, implacável e autocentrado. Não é o que ele faz, e sim o que ele faz bem demais que é o problema, ou pelo menos assim ele pensa. Por causa disso que não há “solução”. Não há nenhuma abstração que consiga capturar o problema inteiro e torná-lo digerível. O mundo onde há soluções é um mundo que não deveria existir, ou melhor, é o mundo que cria problemas em primeiro lugar. A catástrofe da maneira que ela é entendida pelo homem moderno (purificante, final, devastadora) é o mito necessário pairando sobre a utopia como a espada de Damocles. Alguns de nós preferem espadas caindo do que um paraíso imaginário.

Sendo assim, a solução eco-extremista é brutal e pessimista. Não há futuro, e nem uma “nova comunidade”. Não há “esperança”. Nós não falamos isso com uma alegria gótica, e sim com alívio, como se tivéssemos tirado um fardo de nossos ombros. Seres humanos são feitos para errar o alvo, e nós tendemos a fracassar mais do que acertamos. Mesmo assim, nós fazemos parte de um todo, e deixamos outros para trás para vencer e perder, e para lutar outro dia. Nossa ambição não tem fim, porque ela nunca conquista a vitória. Nós olhamos para sociedades do passado que já foram extintas que aceitaram as suas limitações (ou assim pensamos, pois não há como saber de verdade) com admiração; uma admiração que sabe que se elas não eram “perfeitas”, é porque há algo de errado com as nossas expectativas domesticadas, e nada verdadeiramente errado nelas. Tudo que nós podemos fazer é lutar de volta até nos extinguirmos nessa existência onde uma parte acredita que pode engolir o todo.

E é assim que se parece de fato um primitivismo sem catástrofe, sem uma narrativa fechada, sem um “final feliz”: o contentamento do olho e de todos os outros sentidos em face do que nós conhecemos por natureza, mesmo que nós não a entendamos, mesmo que ela pareça mutilada e incompreensível aqui e agora. Não é algo que nós fazemos (apesar de nós termos uma participação) e nem algo que controlamos (apesar de fazermos o nosso melhor). Mas emaranhada nos corações ementes do homem, é algo verdadeiramente maravilhoso de se contemplar: esse todo, o vasto céu estrelado, o canto do pássaro, a lesma que rasteja, o dia novo, a decomposição, a morte, a vida… terminamos com a grande voz poética de Robinson Jeffers:

Saber que as grandes civilizações foram reduzidas a violência,

e seus tiranos vieram, muitas vezes antes.

Quando a violência aberta surge; evitá-la com honra ou

escolher a facção menos feia; esse mal é essencial.

Manter a própria integridade, piedoso e não corrompido,

sem desejar o mal; e sem ser enganado

Por sonhos de justiça universal ou felicidade. Esses sonhos

não se realizarão.

Saber disso, e saber que por mais feias que pareçam as partes

o todo permanece maravilhoso. Uma mão amputada

É algo feio, e o homem separado da terra e das estrelas

e da sua história… por contemplação ou de fato…

Parece por vezes terrivelmente feio. Integridade é inteireza,

a maior beleza é a

Totalidade orgânica, a totalidade da vida e das coisas, a beleza divina

Do universo. Ame isso, não o homem

Separado disso, senão você irá compartilhar as suas patéticas confusões,

ou se afogar em desespero quando os seus dias escurecem.

Selvagens Politicamente Incorretos

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2.

Steve Sheldon me contou sobre uma mulher que deu à luz sozinha na praia. Algo deu errado. Um parto de nádegas. A mulher estava agonizando e dizia: “Ajuda-me, por favor! O bebê não vem”, gritava. Os Pirarrãs sentaram-se passivamente, alguns parecendo tensos, outros falando normalmente. “Estou morrendo! Isto dói. O bebê não vem.”, ela gritava. Ninguém respondeu. Já era tarde. Steve se dirigiu a ela. “Não, ela não quer a você. Quer a seus pais.”, foi-lhe dito, o que implicava claramente para que ele não se dirigisse a ela. Mas seus pais não estavam perto e ninguém mais iria em sua ajuda. A noite chegou e seus gritos eram notados regularmente, cada vez mais fracos. Finalmente, se detiveram. Pela manhã, Steve soube que ela e o bebê haviam morrido na praia, sem ajuda.

Steve registrou a história deste incidente, que é repetido aqui. O texto relata… [o] trágico incidente de uma ideia da cultura Pirarrã. Em particular, nos é dito que o Pirarrã deixa a uma jovem morrer sozinha e sem ajuda devido a sua crença de que as pessoas devem ser fortes e superar as dificuldades por conta própria. Daniel Everett, “Don’t Sleep, There are Snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle”, pg. 90-91

Um curioso efeito foi observado, o qual deu lugar a muitas queixas por parte da população masculina nativa. Como resultado da associação das mulheres com os homens brancos, desenvolveu-se um movimento feminista espontâneo. Primitivamente, a mulher não era apenas fisicamente, mas também economicamente e espiritualmente subordinada ao homem. A índia realizava a maior parte do duro trabalho manual associado à vida na aldeia, enquanto o seu marido e o pai passavam o tempo descansando. Ela se viu obrigada a obedecer a todas as ordens e caprichos de seu amo e senhor. Caso contrário, não evitaria o inevitável castigo. Com a chegada de milhares de homens brancos, não casados e à caça de fêmeas, a situação foi alterada. As mulheres poderiam fazer frente aos índios homens com a escolha de um melhor tratamento ou deixar o seu conjugue e trocá-lo por um pretendente branco. Por outro lado, a índia, sem dúvida, foi profundamente influenciada pela invejável posição que ocupou o seu sexo nas comunidades brancas recém-criadas. Embora nenhum sociólogo contemporâneo tenha dado suficiente atenção a isso, temos indícios de uma formidável revolta feminista. Um agente da Fresno Indian Farm, reportou:

“Embora os homens sejam, ou uma vez foram, donos absolutos das mulheres, muitas delas neste momento… encontraram refúgio entre os brancos e, portanto, são independentes dos homens.”

Uma declaração também apareceu próxima ao mesmo período no sentido de que, “os homens brancos tomaram as mulheres dos índios, desde suas casas de campo e ensinaram-nas a desprezar as criaturas preguiçosas, e utilizaram isso para fazê-las escravas.” Se este clima era característico de grande parte da opinião feminina, é fácil ver como, mesmo sem grande agitação social envolvida, a mudança poderia agir como um agente irritante e, assim, servir como um fator na interrupção da vida familiar aborígene. – “The American Invasion, 1848-1870” pgs. 81-82 em “Cook, Sherburne F. The Conflict Between the California Indian and White Civilization”. Berkeley: University of California Press, 1976.

Os Jarawas são cerca de 400, e um geneticista os descreve como “possivelmente as pessoas mais enigmáticas do nosso planeta”, e que se acredita que tenham migrado da África há cerca de 50 mil anos. São muito escuros, de baixa estatura e até 1998 viveram em completo isolamento cultural, atiraram com flechas de ponta de aço quando estrangeiros chegaram perto demais… Não é nenhum segredo que, no passado, a tribo tenha realizado assassinatos ritualísticos de crianças nascidas de viúvas ou -muito mais raro- engendrados por aborígenes. O Dr. Ratan Chandra Kar, um médico do governo que escreveu um livro de memórias sobre seu trabalho com os Jarawas, descreveu uma tradição em que os bebês recém-nascidos foram amamentados por cada uma das mulheres no período de lactação no grupo antes de serem estrangulados por um dos anciões da tribo, a fim de manter “a chamada pureza e santidade da sociedade.”. “Baby’s Killing Tests India’s Protection of an Aboriginal Culture,” New York Times, 13 de Março, 2016.

Certa noite Debe caminhava à direita do acampamento de Gau, e sem dizer uma só palavra disparou três flechas contra Gau, uma no ombro esquerdo, uma na testa, e a terceira no peito. O povo de Gau não fez nenhum movimento para protegê-lo. Depois que as três flechas foram disparadas, Gau seguia sentado diante de seu atacante. Debe levantou sua lança como se fosse apunhalá-lo, mas Gau disse, “Você já me flechou três vezes. Não é o suficiente para me matar e agora também quer me cravar uma lança?” Quando Gau tentou se esquivar da lança o povo de Gau apareceu para desarmar a Debe de sua lança. Após ser gravemente ferido, Gau morreu rapidamente. Richard Lee, The Dobe !Kung, citado em “Ultrasociety: How 10,000 Years of War Made Humans the Greatest Cooperators on Earth”, pg. 104

Para mim, todas estas citações anteriores me lembram a uma citação aparentemente insignificante que apareceu quase no final da polêmica Ya Se Habían Tardado: Reacción Salvaje En Respuesta a Destruye las Prisiones, que diz o seguinte:

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.”

Não posso falar por todo o eco-extremismo, apenas por mim, e vou aceitar outros pontos de vista da tendência se uma correção for necessária, mas a partir disso, posso afirmar que o anarquismo, o primitivismo, o esquerdismo, etc., estão mal orientados e são moralistas precisamente porque tentam se organizar-julgar-melhorar a sociedade, enquanto que os animais humanos possivelmente não podem fazer isso, não com nenhuma competência, pelo menos. Muitas dessas sociedades tem práticas bárbaras, violentas e “sombrias”, mas elas existem há centenas de anos, isso senão por milhares. Então, porque é que, em nosso tempo de vida em uma sociedade excepcionalmente jovem (se é que é vivaz), nos damos o direito de determinar como uma sociedade humana deve ser em TODAS as circunstâncias? Eu diria que não o faria. As sociedades que se desenvolveram dentro de seus ambientes desde tempos imemoriais demonstraram que podem manter suas formas de vida por milênios. Nossa própria sociedade (isto é, a que estamos presos, embora não voluntariamente) não pode dizer o mesmo, mas muito pelo contrário.

Pessoalmente, este ponto de vista é porque não posso tomar nem o anarquismo, o marxismo, o esquerdismo, o liberalismo, etc., seriamente como um meio de interpretar a realidade. Estas ideologias são obcecadas por coisas ocidentais, tais como a organização social, a igualdade entre os indivíduos, a divisão do trabalho, etc. Em nossa realidade animal, que é como escolher algo para comer baseado apenas em sua cor em vez de seu sabor e seu valor nutricional, a relação principal não é a dos seres humanos entre si, mas a dos seres humanos com a natureza, ou melhor, com seu ambiente natural, e com as outras entidades, conscientes ou não, que compartilham conosco. Todas estas ideologias errôneas e civilizadas, até mesmo os autoproclamados “primitivistas” são humanistas e antropocêntricos, enquanto que nós só queremos a relação com a Natureza Selvagem e as culturas que se formaram ao longo de milênios, como as gotas de água que podem polir uma pedra, de forma inconsciente, organicamente e não planejada.

Os seres humanos, sem dúvida, tem um papel a desempenhar nisso, e suas ações fazem dar forma a paisagem e a eles mesmos, assim como as ações dos castores, formigas, aves, etc., formam um bosque ou um rio. Mas isso está completamente determinado pela encarnação da Natureza Selvagem que eles encontram, é realizado por séculos, e de nenhuma maneira é “planificada” ou “controlada” pelo intelecto humano determinado. Isso simplesmente acontece. Apresentar-se a um “selvagem” com a ideia de que a queima seletiva de ervas daninhas ou de atividades semelhantes o torna mestre do ambiente, provavelmente estaria confundido pela afirmação.

Aqui, então, afirmo que os seres humanos no passado estavam sempre em equilíbrio entre seu próprio poder e sua mente, e o da própria Natureza Selvagem. A questão não é dizer que alguns viviam em completa harmonia com a natureza, sem hierarquia ou sem guerra ou qualquer coisa que ofenda a sensibilidade ocidental burguesa. O ponto é que o equilíbrio de poder entre o humano e a natureza selvagem se manteve. Em alguns casos, isso implicaria o patriarcado, em alguns lugares que não seria o caso (foram os Selk’nam da Terra do Fogo “mais domesticados” que outros caçadores-coletores porque eles eram regidos por um patriarcado? Considerando sua cultura, outro estado seria absurdo.) Foram os Choctaw, no que é agora o sudeste dos Estados Unidos, tão civilizados como os Astecas ou Maias simplesmente porque também cultivaram milho? Eram os Yuroks do norte da Califórnia, de alguma forma ruins, porque tinham uma hierarquia social rígida, mas sem agricultura? “Domesticação” e “civilização”, estas podem não ser categorias tão claras como algumas ideologias anti-civilização afirmam que são. Isso porque nosso conhecimento é animal e, portanto, defeituoso.

Aqui temos que olhar as coisas que não estão em preto e branco, mas em um espectro, e nesse espectro, nós não estamos julgando as sociedades humanas por sua forma “agradável” e o quão bem tratavam as mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Nós não nos preocupamos com estas coisas, e aqueles que são obcecados por isso são extremamente estúpidos e deixam que seus próprios preconceitos civilizados mostrem o melhor deles.

Preferimos confiar nas sociedades que viveram há milhares de anos em seus respectivos ambientes e em seus “valores”, que nos valores humanistas dos ocidentais que ocultam a violência da sociedade tecno-industrial moderna, por trás de platitudes como moralismo e decência. O mais importante sobre a domesticação e a civilização, então, é que surgem, mas surgem nos lugares mais frágeis. Ou seja, que nunca foram capazes de dominar completamente, nunca exaltaram as sociedades humanas individuais no domínio completo sobre a natureza, e quando o fazem, inevitavelmente, o colapso ocorre. O que temos agora é uma monstruosidade completa, um Leviatã que não pode entrar em colapso e que não há possibilidades de livrar a maioria dos seres vivos dele, pois busca a completa dominação. Ante este ser antinatural a única atitude que nós podemos ter é a de hostilidade total e absoluta.

Isso pode parecer completamente reflexões escolares, e talvez não. Pelo menos escrevo para apoiar a afirmação eco-extremista de que os valores ocidentais liberais não importam em nada, e, portanto, quando as pessoas tentam esfregá-los em nossa cara, deveríamos energeticamente rechaçá-los e insultar os que seguem comprando estes contos de fadas. Além disso, isso indica que o pessimismo eco-extremista está mais do que garantido: se tudo o que temos a nosso favor em termos de “esperança” são as observações incompletas dos “antropólogos” e nossas próprias faculdades intelectuais defeituosas, está claro que estamos completamente fodidos.

Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.

A relação primária no eco-extremismo é entre o animal humano e a Natureza Selvagem, que é concretizada em seu ambiente imediato, e não com uma abstração conhecida como humanidade. Portanto, é uma tendência anti-humanista e não humanista. Como todos os ursos não simpatizam com ursos menores, mas os dois dependem de todas as plantas, animais, as águas e as rochas circundantes para sobreviver, então todos os seres humanos não deveriam ter solidariedade com toda a humanidade, apenas com aqueles de outras disposições similares e com os seres que passaram a amar em seu entorno. Isso deveria ser óbvio, e muitos selvagens têm esta atitude.

Além disso, nos damos conta de que a civilização é uma “doença transitória”, que surge ocasionalmente e logo se vai, deixando cicatrizes algumas vezes, mas nunca terminal, como o todo nunca pode ser destruído por uma parte. Somos deficientes neste sentido, que nós não conhecemos nossos lugares, ou que eles foram roubados, indica a tragédia do nosso estado e nossa raiva na guerra indiscriminada contra o que pode nos destruir e escraviza o Selvagem. Mesmo se a única Natureza Selvagem que nos resta somos nós mesmos, ou talvez seja apenas a dor e a raiva de ter sido privado dela, isso é o suficiente para levar a cabo esta guerra contra a humanidade domesticada.

-Chahta-Ima

Nanih Waiya

Primavera de 2016

[PT – PDF] Revista Anhangá N° 2 – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul

Em destaque

É com tremendo orgulho criminal que apresentamos a segunda edição da Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul, lançada pelo Editorial Ponta de Lança. Desta vez a publicação sai à luz transbordando de valiosos conteúdos sobre a teoria eco-extremista, contendo 150 páginas que se dividem em 47 textos afiados que servem para alimentar as ânsias dos individualistas extremistas e contribuir com a prática terrorística na guerra contra o progresso humano.

Esta edição da Revista é, sem dúvidas, a maior contribuição até então para a teoria eco-extremista de fala lusófana, um aporte que se materializou através de esforços titânicos de cúmplices destas terras e de fora, uma referência ameaçante para aqueles e aquelas que querem materializar o terrorismo em suas mãos e atentar contra a civilização e os humanos que danam e são cúmplices dos ataques à Natureza Selvagem.

A propaganda eco-extremista não se detém tal como a expansão da Máfia ITS e grupos cúmplices.

Que este aporte semeie o Caos e o Terror no seio da civilização!
Adiante com a propaganda e atos eco-extremistas!

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CONTEÚDO

1. “Introdução”, por Editorial Ponta de Lança (pg. 1-3)
2. Tocaia (pg. 4)
3. Nós Juramos Vingar (pg. 5-6)
4. Pacto (pg. 7)
5. Revisitando a Revolução (pg. 8-11)
6. Primitivismo Sem Catástrofe (pg. 12-15)
7. Breves Reflexões de Uma Caminhada de Inverno (pg. 16)
8. Selvagens Politicamente Incorretos (pg. 17-19)
9. “Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica (pg. 20-26)
10. O Retorno do Guerreiro (pg. 27-35)
11. Apocalipsis Ohlone (pg. 36-38)
12. Um Poema de Guerra (pg. 39)
13. É o Momento de Beijar a Terra Novamente (pg. 40-42)
14. Nota Anônima (pg. 43-44)
15. A Ovelha Negra e o Lobo (pg. 45-46)
16. Autexousious Apanthropinization (pg. 47-49)
17. A Solidão e a Auto-realização (pg. 50-51)
18. Funeral Niilista – A Aniquilação da Vida (pg. 52-55)
19. Duras Palavras: Uma Conversa Eco-extremista (pg. 56-65)
20. Eu e Depois Eu (pg. 66)
21. O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante (pg. 67)
22. As Lições do Estado Islâmico Antes de Seu Colapso (pg. 68-71)
23. Uma Grande e Terrível Tormenta (pg. 72)
24. A Evolução da Dieta (pg. 73-76)
25. Um Falso Escape (pg. 77-78)
26. Lições Deixadas Pelos Incendiários (pg. 79-81)
27. Notas Sobre o Anarco-primitivismo (pg. 82-83)
28. A Noite do Mundo Infernal (pg. 84-85)
29. Halputta (pg. 86-87)
30. Animismo Apofático (pg. 88 – 90)
31. O Mito do Veganismo (pg. 91 – 93)
32. Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo (pg. 94-95)
33. Reflexões a Respeito da Liberdade (pg. 96-99)
34. Conversações Eco-extremistas: Uma Conversa Com Eco-extremistas Mulheres Desde o Norte do Continente (pg. 100-103)
35. A Guerra de José Vigoa: Um Breve Discurso Sobre o Método Eco-extremista (pg. 104-109)
36. Assassinando a Nosso Civilizado Interno (pg. 110-113)
37. (Roma Infernetto – “Mundo Merda”) – Profanação e Devoração (pg. 114-115)
38. Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez (pg. 116-118)
39. Guerra Oculta (pg. 119-123)
40. Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3 (pg. 124-128)
41. Humanos (pg. 129)
42. “Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã (pg. 130-135)
43. Por que te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor (pg. 136-137)
44. Pensamentos Sobre a Moralidade (pg. 138-139)
45. Ódio Misantrópico (pg. 140)
46. Moralidade (pg. 141-142)
47. Fazendo Peróxido de Acetona (Peroxiacetona, “Mãe de Satã” ou também TATP) (pg. 143-149)

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EDITORIAL

“Para nós, o Watu (Rio) é uma entidade, não uma bacia hidrográfica igual os brancos falam. Assim como lá na Índia tem o Rio Ganges, que é sagrado e as pessoas entendem isso, nós temos o Watu, que sustentou durante muito tempo a nossa existência e o nosso imaginário. Mas aqui no Brasil, rios podem virar esgoto, porque eles são vistos só como um corpo de água. […] As crianças hoje olham e perguntam para aos pais: “O Rio morreu? O Rio acabou?”. Para uma infância isso é uma marca que não tem como recuperar […] Olhar para a Terra, o Rio e a Floresta como mercadoria é um engano muito grande que vai nos enterrar a todos.”, Krenak Ailton sobre a morte de Watu pelas mãos das mineradoras Samarco e Vale

Pindorama — o regresso da conspiração eco-extremista desde este lado do Sul era já prometido, os tremores de terra que recentemente aterrorizaram os civilizados por aqui foram as reações animistas dos passos dados pelos guerreiros da Máfia ITS, novamente rumo à indiscriminada caçada nas extensões da antiga Terra das Palmeiras. Repousamos por alguns ciclos lunares entocados nas sombras e a escuridão. O motivo é porque parte de nosso Editorial se enfadou de uma investigaçãozinha esdrúxula de nome Érebo. Contrariamente ao que esperavam, não nos foi ameaça e então outra vez cá estamos, orgulhosamente dando vida a este projeto propagandístico iniciado há um ano, a Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul, que agora entra em sua segunda edição.

Devido uma série de acontecimentos o primeiro número desta publicação foi lançado inconcluso, mas agradecemos aos wachos que tomaram a importante decisão de lançá-lo. Longe das condições em que conceberam a versão inaugural do projeto, sai agora o N° 2 desta Revista contando com mais de 100 páginas munidas de escritos que nutrem a teoria e prática do individualista eco-extremista. Esta edição nasce de um tremendo esforço cúmplice de manos e minas afins do Sul e Norte. O período entre a primeira publicação e esta é marcado por uma significativa expansão dos grupos ocultos aderentes a ITS, que além de rugidos e mais acometidas pelo Sul, surgiram e cresceram também nas terras do Velho Continente, aquele onde pisaram os bárbaros, os vikings, que com ferocidade e paganismo implantaram o terror no cerne das civilizações europeias. Os esporos do eco-extremismo foram levados por fortes ventos e cruzaram as grandes águas até caírem nos solos da Grécia, onde caminha agora Seita Iconoclasta e Caçadores Noturnos; Reino Unido, terra maldita de Misanthropos Cacoguen e Espanha, extensões de Criminosos Animistas. Já pelo Sul e Norte o ânimo dos guerreiros não se detém, contamos com proximamente uma dezena de mortes em mais de 50 diversificados ataques; pacotes incendiários e explosivos abandonados indiscriminadamente estraçalhando a carne e impondo o terror; incêndios selvagens contra máquinas, instituições e objetos; explosivos abandonados contra alvos específicos e exitosamente detonados; ataques armados contra seguidores de cristo e montanhistas deixando mortos e crivados de bala; ataques armados contra estruturas de megaempresas; ameaças de bomba, envenenamento e maldições; punhaladas homicidas contra sacerdote e funcionário de universidade; ataques bombistas contra universidades e centros de pesquisa; tiro certeiro em crânio de vice-reitor de instituto tecnológico; assassinato de drogada e tantos outros que por questões estratégicas não foram reivindicados publicamente. Como apontam os meios gringos já somos uma ameaça terrorista internacional crescente no mundo. O que se originou lá pelo ano de 2011 no México se espalha pelos quatro cantos como uma maldita praga e agora tem presença em diversas cidades de vários países em três continentes. A Máfia Eco-extremista é nutrida pelo ódio catastrófico contra o progresso humano que destrói a tudo o que é Selvagem, contra o progresso civilizado que exterminou os nossos antepassados, suas crenças e modo de vida, contra a lógica ocidental de domesticar e manipular o que é silvestre, contra o esquematizado pensamento religioso moderno e o racionalismo ateu que deprecia e destrói o senso animista de sentir, ver e entender o mundo, e sobretudo pela serenidade e Caos que habita dentro de nós, a força antiga que nos empurra a reviver os adormecidos instintos e recordar os nossos antepassados e que um dia fomos parte de tudo isso, do entorno e vida selvagem, antes da chegada dos civilizados.

A alguns de nós nos enfurece saber através de nossos avós e bisavós que há três gerações passadas fomos forçados a abandonar nossas terras ancestrais e submetidos a sobreviver marginalmente no entorno domesticado enquanto as florestas eram cortadas, os montes explodidos e escavados e os rios barrados e drenados; nos dói não poder chamar o que vemos ou comunicarmo-nos através do nosso idioma akwén porque mataram-no por dizerem que falar a nossa própria língua é sinal de demência e atraso, nos entristece saber que nosso entendimento foi completamente entorpecido por costumes e crenças alheios aos que praticamos desde tempos imemoriais e que em seu lugar nos empurraram goela abaixo o cristo. Por tudo isso é nossa guerra, por nós mesmos, pelos Antigos, pelo pouco que resta do entorno selvagem e pela certeza de que os atos daqueles que assassinam os Espíritos da Natureza não quedarão impunes. Landerretche soube muito bem disso após os wachos cúmplices da Horda Mística do Bosque enviarem a seu endereço um pacote explosivo que detonou em suas mãos e que, por sorte [dele], não o matou. O bastardo é um dos cabeças de uma das maiores mineradoras do mundo. Certeza que seu nome segue entonado nos cânticos de guerra dos mafiosos e que cedo ou tarde a vingança outra vez toca a sua porta. Samarco e Vale são outros dois monstros mineradores responsáveis por causar destruições de proporções colossais como a do Rio Doce e tantas outras, por isso a citação do Krenak. Outro motivo para a citação é porque no passado e por aquela mesma região foi onde centenas de nossos bisavós foram forçados a abandonar as suas terras. Os rios, as florestas, os solos, os animais, os montes, tudo era morto ou tomado com a chegada do progresso e dos civilizados e com isso morria também parte de nós. Em vista disso não nos resta mais nada senão a guerra de vida ou morte, somos inadaptáveis a este mundo moderno; não apenas por sensatez, mas sobretudo por instinto e pelo chamado primitivo daqueles que vieram antes que acudimos. Caminhar nas urbes sentindo através do chão a respiração ofegante da Terra sepultada pelo cimento não é algo que deixaremos passar despercebido, por isso regressamos com o segundo número da Revista Anhangá, esperando que o material contido nesta publicação nutra e muna o imaginário e a força de tantos outros individualistas guerreiros e as guerreiras, tal como Regresión, Ajajema, Extinción e Atassa tem feito.

Nesta edição serão encontrados escritos sobre a espiritualidade eco-extremista, potencialidade do individualismo, debates e críticas sobre moralidade e valores civilizados, reflexões sobre humanismo e violência indiscriminada, escritos sobre veganismo e a evolução da dieta, críticas a ideologias esquerdistas e a crença numa revolução, escritos sobre reavivamento de memórias e práticas guerreiras, cosmologia pagã, apontes sobre misantropia e extincionismo, apontes sobre primitivismo, lições tiradas de grupos terroristas, banditistas, de assaltantes e movimentos de libertação, além de vários poemas, canções, textos filosóficos, manifestos pessoais, um manual para a fabricação de Peróxido de Acetona e uma análise crítica desde um olhar eco-extremista da mais recente obra de Theodore Kaczynski.

Como um órgão difusor da Máfia Eco-extremista esperamos que o material contribua não só para aqueles guerreiros e guerreiras que estão de pé e em guerra contra o Sistema Tecno-Industrial, mas também à aqueles e aquelas tendentes à selvageria, aos criminosos, antissociais, egoístas, misantropos, anarquistas caóticos, niilistas terroristas e tantos outros que semeiam no aqui e agora o Caos no interior desta civilização, que atacam seus valores, suas estruturas e instituições e também os seus engenhos tecnológicos.

Com profundo respeito pedimos a Yayá que desde sua gruta nos dê sabedoria em nossos movimentos. Certamente quando os civilizados escutarem o assobio estridente do vento, saibam que desde a tocaia fomos convocados por este furioso espírito para atacar e matar. Por vingança, apenas. Tais como as catástrofes somos uma das respostas da Natureza Selvagem a toda esta artificialidade, porque também somos parte dela e de sua reação. Indiscriminados bravios desprovidos de valores morais, como as tempestades, terremotos, furacões e outras catarses que não elegem classe social, sexo ou cor na hora de suas manifestações homicidas. E para finalizar queremos carinhosamente agradecer aos manos e as minas cúmplices destas terras e de fora, a Nẽn-pém, XXX, Urucun, Xale, aos manos da Revista Ajajema e alguns outros que dispensaram citações, que ademais de contribuírem de algum modo para o seguimento desta revista são também fonte de grande inspiração; alguns geograficamente mais próximos, outros mais distantes, mas todos na mesma guerra contra a civilização e defendendo com garras o mesmo projeto, a Máfia ITS.

Pedimos que os Espíritos da Terra acobertem os passos dos afins de sangue e de guerra e que a terrível fúria de Yayá recaia sobre aqueles que destroem a Natureza Selvagem.

A Tocaia segue até a tua morte ou a minha… GUERRA!

Grupo Editorial Ponta de Lança

Outono de 2018

Contato: pontadelanca[at]pm.me

Porque o Fogo Também é Natureza Selvagem

Interessantes palavras de Nomen Nescio a respeito do “Fogo”. O contexto destas palavras foi o gigantesco incêndio que atingiu o Chile em Fevereiro de 2017, logo após a invocação de Ajajema por eco-extremistas daquele país. A tradução foi realizada por Anhangá e serve de base para os ferozes incêndios que vêm açoitando a civilização nos últimos dias e meses.

Que a civilização arda até se converter em cinzas!

O Selvagem delas renascerá!

É desta forma que vemos uma vez mais como o Selvagem se impõe, desta vez foi com a fúria e violência do indômito Fogo.

Este contundente atentado do Selvagem contra a vida civilizada particularmente me enche de alegria. Me enche de alegria apreciar a desgraça que deixou em seu rastro. Me alegra ver as milhares de casas incineradas. Me alegra ver o terror dos humanos. Me alegra vê-los correndo apavorados diante da imensidão do Fogo. E me alegra saber sobre as mortes humanas.

Eu lamento pelos bosques nativos que sucumbiram à força esmagadora das chamas. Lamento a morte dos animais, de todos os pássaros e insetos selvagens. Sei que seus corpos se unirão à Terra, fertilizando-a para a próxima geração de árvores. Tudo isso eu lamento. Saibam que morreram por algo que é muito maior e mais poderoso que qualquer ser na Terra.

Saber que nem toda a sua mega-maquinária de aviões gigantescos foi capaz de apaziguar as furiosas chamas me alegra a alma. Saber que a única coisa que foi capaz de apagar o Fogo foi a própria Natureza Selvagem: através da Chuva. Com apenas alguns momentos de queda de água o Selvagem fez o que nenhum mega-avião pode fazer. Isso apenas reafirma a majestuosidade da Terra, de como os seus ciclos são onipotentes e impossíveis de evitar. Nada nunca será mais grandioso que a sabedoria eterna da Terra Selvagem. Porque somos regidos e estamos à sua mercê, ela sempre estará acima de nós. Nossa única e verdadeira autoridade é a Natureza Selvagem!

Que os humanistas sigam condenando e demonizando o maravilhoso Fogo. Que sigam se comovendo pela desgraça alheia. Que continuem a lutar sem sucesso contra o Fogo que ainda resta. Talvez o apaguem (provavelmente), mas saibam que o dano já está feito. Diante de tudo isso há apenas uma frase que vem à minha memória e que uma vez uma pessoa anciã me disse: “QUE O SELVAGEM SE ENCARREGUE DO SELVAGEM“.

Que assim seja, porque as montanhas têm a capacidade de se auto-regenerar, nascendo ainda mais belas que antes. Porque os insetos e outras espécies dos bosques voltarão a habitá-los. O que são para a Terra e o Selvagem algumas décadas? NADA.

Que arda tudo o que tenha que arder! Até mesmo o Selvagem!

Que os humanistas percam a vida ajudando a desconhecidos!

Eu rio de seu altruísmo hediondo e sua solidariedade promiscua…

[MÚSICA] Iconoclasta

Canções incorretas e afins de Iconoclasta! Letras terrorísticas carregadas de amoralidade e anti-humanismo para fomentar os impulsos selvagens e preencher de caos e vingança a mente dos individualistas de guerra!

Adiante com as canções incorretas e a propaganda anti-humanista!

Canções disponíveis [até o momento]: Link 1Link 2