Carta de Uma Anarquista Decepcionada

Tradução ao português realizada por Anhangá de uma carta enviada a Maldición Eco-extremista. Nela há a reflexão sobre o sentimento de frustração que muitos e muitas anarquistas tem com seus costumes políticos, e como o eco-extremismo é a faca que hoje corta o humanismo destas ideologias do passado.

Pela expansão da vingança do Selvagem!

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Olá, Individualista.

Várias pessoas se impressionam com as maneiras sofisticadas com as quais tu se comunica e transmite os teus pensamentos, sem uma gota de hipocrisia moral.

As letras que tu consegue por no papel –já há quase 5 anos– abriram a minha consciência para o conceito real de liberdade. É por isso que sou profundamente e sinceramente agradecida.

Minha mente, na distância e na proximidade, sabe saborear apenas uma só luta. Uma luta que busca derrotar a civilização, a enorme prisão do gênero humano com todos os seus aspectos já tão manuseados: educação, gênero, tecnologia, prisão e fábricas. Essa tem sido a minha luta por muitas luas. Se ela não for derrotada, o que nunca acontecerá, eu gostaria de daná-la profundamente.

Mas como se pode conceber laços capazes de unir o pensamento-ação anticivilização, com a prisão, a Máfia, os niilistas terroristas, com a realidade das diferenças de gênero? Existe realmente um espaço para que a ação furiosa dos espíritos femininos possam finalmente ser uma realidade?

Individualista, eu li uma vez e outra o que escreveste e, em tuas palavras não apenas percebo uma crítica à FAI, mas também –algo, talvez um pouco– gratidão. Eles se levantaram em seu momento com o ataque indiscriminado e amoral. Eu fui inspirada por estas sensações de cumplicidade, as mesmas que sinto agora com a Máfia.

No meio de toda esta merda, Individualista, sinto que temos algo em comum. Eu vejo que nós crescemos do mesmo substrato.

Quanto se perdeu em palavras inúteis, pensamentos indefinidos e nada concretos!

A querida e mudada FAI. Era algo tão diferente se olharmos o que ela se tornou. Por quê vemos uma ação real? Por que estamos todos tão cheios de vento? Críticas, ideais, moral, grandes palavras e intermináveis discursos. Onde está a exaltante violência que carrega dentro de si o gesto do assalto? Claudia López tantas vezes lembrada por morrer combatendo e tantas mais esquecida em slogans estéreis? Talvez perderam o gosto excitante de se lançar à garganta do inimigo?

O comunicado número 26 me fez pensar e pensar. Um prazer e culpa ao mesmo tempo, ler sobre o ataque à Teleton no México e ao escritório de direitos humanos.

Fiquei impactada ao ver o que fez RS em seus tempos.

Por aqui odiamos tanto a Teleton… Mas nós nunca faríamos algo assim, exceto com aqueles que –pessimamente– colocam advogados as manas e manos na prisão.

Mas nasce em mim a força que faz parir o seguinte: a guerra contra a civilização é total… E o ódio é total!

Sinto que nós, anarquistas decepcionados, estamos diante de um paradoxo… Uma contradição entre o que dizemos e fazemos, entre o que escrevemos e somos… Há pessoas que já começaram a perceber tal coisa e chegou a hora de acabar com tudo isso. É o fim dos tempos daqueles que sabem apenas reclamar e estar em desacordo. É o fim das ovelhas negras e sua mutação para uma matilha de lobos.

Toda vez que converso com ex-afins, eles não sabem, mas cada vez mais um mar de distância nos separa. Sinto que a anarquia morreu e eles sequer se deram conta disso. A anarquia é prisioneira de seus próprios prisioneiros. A triste e grande prisão da ideologia fracassada e moribunda das ovelhas negras do rebanho humanista e civilizado.

É uma exaustão constante ter de conter o ódio e a raiva. Mas ali eles devem permanecer, escondidos da vista de familiares e amigos, ocultos diante da podre sociedade. Já não posso mais com esse ódio… Apenas agir selvagemente e sem alma, sem moldes antropocêntricos e com a vingativa violência. Então assim te quero ver, Individualista, vivendo apenas com o instinto livre e incontrolável, imprevisível e funesto. Ser uma loba sedenta de sangue, mas inteligente e com estratégia. Se eu devo me passar como branca no rebanho, que assim seja porque a Terra saberá, compreenderá que é a melhor forma de vingá-la.

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