Conversações Eco-extremistas: Uma Conversa Com Eco-extremistas Mulheres Desde o Norte do Continente

Diálogo extraído da Revista Ajajema número 4.

Vocês acham que para uma mulher é mais “difícil” que um homem para adotar a tendência eco-extremista?

Yoloxochitl: Eu penso que é relativo, a atração pela Tendência é muitas vezes produto da vida que você leva, as condições em que se encontra ou as situações que ocorrem diariamente. Isso é evidenciado pelo número de individualistas que tem se posicionado a favor disso ultimamente. Um ou uma individualista da Europa pode ser atraída pelo eco-extremismo pelo mesmo ódio que um ou uma individualista pode sentir à civilização na América ou noutro continente. Acontece mais ou menos o mesmo entre homem e mulher, o ódio a toda esta realidade artificial é compartilhado, e este transcende fronteiras, idiomas, culturas e claro, gêneros.

More: Que casualidade, é um tema que eu estava discutindo agorinha com outras irmãs da Tendência, e a resposta, minha resposta é, sim e não. Às vezes é mais difícil para uma mulher adotar o eco-extremismo pelo fato de que como estamos na era do feminismo chocante e ulceroso, muitas estão sendo atraídas por esse lixo progressivo, até mesmo dentro de círculos que pensam ser “radicais”, chamem de anarquistas ou comunistas. O feminismo é a lei e a ordem do dia, é o que é hoje, é a moda rosa. O eco-extremismo é visto como uma postura psicopata ao menos no México, e para ser honesta, quem se atreveria a ser contra tudo o que está estabelecido nesta época? Quem se atreve a lançar uma crítica contra TUDO e agir em consequência? Muitas poucas pessoas, e não digo que as mulheres “tenham que” se sentir atraídas pelo eco-extremismo ao invés do feminismo, claro que não, eu digo apenas que é esta era que dificulta que existam mais afins que se atrevam a arrebentar os valores que a grande maioria das pessoas defendem. É difícil, mas estamos aqui, não necessitamos ser muitas, o que precisamos é ser perigosas, só isso.

Vocês acham que o eco-extremismo é algo experimentado de forma diferente por uma mulher e por um homem?

Yoloxochitl: Em certos aspectos penso que sim, por exemplo na questão da utilização da medicina tradicional. Nós somos as que nos destacamos já que desde tempos ancestrais nós mulheres temos sido as que levaram com orgulho a vara do conhecimento nas artes de cura da Terra. Certamente a espiritualidade é mais poderosa em nós que em muitos homens eco-extremistas. Aqui denoto uma superioridade relativa (mas nunca absoluta) com base em minha experiência individual em minha vida de mulher eco-extremista, apenas. Mas claro, não duvido que por aí haja algum eco-extremista homem que tenha conhecimentos em medicina milenária e que seu poder e práticas espirituais tenham um grau avançado devido, talvez, sua proximidade a suas raízes nativas.

More: Sim, nós sabemos curar com plantas e eles quase não sabem! HAHA, é brincadeira, vou falar sério agora. Cada um vive o eco-extremismo de um modo, isso é fato, homens e mulheres são diferentes, nunca fomos iguais, portanto se vive o eco-extremismo de maneira diferente. Sobre isso, toda esta vitimização da mulher nesta época, nós podemos utilizá-la a nosso favor. Talvez para um homem eco-extremista seja um pouco difícil passar despercebido ao executar um atentado contra um certo alvo. Mas e para uma mulher “indefesa” e “santa”? Em muitas ocasiões esta vitimização do “sexo frágil” pode ser uma faca de dois gumes.

O que as eco-extremistas pensam do gênero? É uma questão social ou natural?

Yoloxochitl: É uma questão natural que a própria civilização converteu em uma questão social, política, econômica, etc. O gênero existe entre diversas especies para perpetuar estas mesmas espécies, e o mesmo acontece com a espécie humana, só que ela tem pervertido esta perpetuidade natural e a sobrecarregou com toda essa massa gordurosa de humanos saltando por todas as partes. A Natureza é tão sábia que criou todas as condições para que dentro de uma mulher cresça uma vida. Se você analisar bem, é um acontecimento mágico, desde a fecundação do ovário até o nascimento de uma criatura, é todo um processo que envolve um monte de características glandulares, hormonais, enzimáticas, etc., que nos deu o Desconhecido, só que o ser humano moderno não sabe o valor, há mulheres que nunca em sua vida deixam de parir, tem 5 ou 8 crias só para nada, engravidam sem pensar, servem apenas para abrir as pernas e não são capazes de ser responsáveis. Toda esta situação faz com que meu ódio misantrópico crença cada vez mais. Valorizo muito a minha condição de mulher, mas odeio as mulheres que circulam no ouroboros da miséria humana.

More: Para mim o gênero é uma questão de natureza, nascemos mulheres por uma razão e agradeço a Naturaë por isso. Eu nunca neguei a minha condição de mulher, e estou orgulhosa disso, me encanta ser mulher, minha sensualidade feminina, meus ciclos que compartilho com a lua, minhas características físicas e mais. A sociedade é que se encarregou de que o gênero fosse visto como algo obsoleto, dizem que somos todos os mesmos, enchem suas bocas com discursos inúteis mencionando isso na igualdade de gênero, algo que me faz rir muito porque muitas levam isso para a sua mera conveniência. Gritam por igualdade de gênero enquanto batem em um homem, mas quando um homem responde dizem que é machismo, misoginia e coisas do tipo. Quem as entende? Não queriam igualdade de gênero? Muitas destas mulheres não se dão conta de que isso é o que quer o sistema, fazer que todos sejamos iguais para que todos igualmente, sem se importar com gêneros, raças, condição econômica, língua, etc., sirvam ao mesmo sistema, e que este se autoperpetue.

O que vocês pensam do patriarcado?

Yoloxochitl: É um sistema de dominação a mais com a qual temos que estar lidando. Embora tenham nos colocado na cabeça de que esta sociedade ocidental é baseada COMPLETAMENTE no patriarcado, há também algumas marcas do matriarcado, porém não nos dizem para não escandalizar ainda mais a massa de mulheres tolas que por qualquer situação que as “oprima” gritam irritavelmente que isso e aquilo é produto do patriarcado.

More: É uma desculpa a mais para que as feministas sigam com a sua miserável campanha contra o assunto do gênero, para que se vitimizem mais e para que continuem a sua campanha social pela inclusão das mulheres ao mesmo sistema que elas dizem odiar, mas que ao mesmo tempo contribuem para sua perpetuação.

O que vocês opinam sobre uma pessoa transgênero? Acham que é algo ligado diretamente à civilização? E em relação a isso, o que opinam sobre as tribos nas quais haviam pessoas que não identificavam seu gênero em relação a sua genitália?

Yoloxochitl: As pessoas transgênero são o reflexo da podre civilização e da miséria social em que nos encontramos. Ver mulheres ridiculamente pretendendo ser homens ou vice-versa é um reflexo fiel do que eu digo, além da evidente crise de identidade que atinge cada vez mais a uma geração de jovens alienados com a tecnologia, os vícios civilizados, com estereótipos absurdos, etc. Uma vez cheguei a ver uma propaganda sobre um evento em um okupa que tinha como título “raggaeton trans-feminista”. Que porcaria, todo o politicamente incorreto com a correção extrema do gênero incluído ali.

More: A mim tanto faz as pessoas trans, não me importa se são homens que querem ser mulheres ou se dizem que estão presos em corpos do sexo oposto, sua condição de humanos é o que me interessa, embora eu deva sim dizer que considero os transgêneros como um fruto da civilização. Soube de alguns comportamentos do tipo “trans” em vários estudos antropológicos historiográficos, mas lamentavelmente os estudiosos se baseiam muito em suas inclinações políticas que fazem de seus próprios trabalhos um reflexo do que parece ser correto e incorreto. Há poucos acadêmicos que se comportam de maneira neutra e não metem seus alinhamentos ideológicos em seus estudos, mas são poucos. Além disso penso que é algo completamente diferente um comportamento que se possa perceber como “trans” dentro de algumas tribos primitivas e os grupos de trans que pedem direitos aos governos, que exigem melhoras e serem incluídos na sociedade longe da discriminação e coisas desse tipo. O que está claro é que considero as pessoas trans como um fruto da civilização, assim como são os viciados, os estupradores, os pedófilos, as pessoas com transtornos mentais graves, etc.

Apesar de que os eco-extremistas em geral não negam a sua condição de homem ou mulher, o que pensam sobre as características que o mercado e o espetáculo impuseram a ambos os gêneros? Por exemplo, a insensibilização do masculino em seu estágio inicial de desenvolvimento ou a submissão forçada imposta às meninas, pondo-as em um papel secundário a serviço do homem e pondo os seus próprios desejos e motivações em segundo plano, a dependência da mulher com relação ao masculino na maioria dos assuntos importantes, a supervalorização do sexo masculino, levando-o a viver com a preocupação constante de vincular-se sexual-afetivamente para obter reconhecimento social, entre outras coisas, etc. Estas são as que me ocorreram, mas é óbvio que tem mais, se houver alguma outra que lhes interessa dizer, fiquem à vontade. Consideram importante se desprender destas coisas?

Yoloxochitl: No que diz respeito às mulheres, penso que a cultura do mercado influenciou bastante em suas condutas, e tudo vem de uma cadeia de fatores que se denominam cultura. A cultura ocidental fez o homem e a mulher esquecerem que suas existências coexistiram plenamente em um ponto na história humana, mas agora isso é esquecido, a amnésia histórica é contagiosa, e é necessário que voltemos a ver o passado para reencontrarmos com nós mesmas, resgatar nossas raízes e sermos inteligentes para não reproduzir os mesmos valores que estão repetindo de geração em geração. O mercado e o espetáculo prejudicaram tanto a nossa essência que muitas vezes nos dá trabalho para nos localizarmos nisso tudo, mas é como sempre digo, necessitamos nos distanciar das concepções ocidentais moralísticas humanistas e ter uma visão diferente de tudo o que tem nos levado a este extremo desconhecimento pessoal moldado pela cultura do espetáculo e do marketing.

More: Não só é importante se desprender das características citadas, mas uma necessidade que se transforma em um desejo egoísta dos inumanistas. Estou muito consciente de tudo o que foi dito, toda esta insensibilidade gerada tanto em homens como em mulheres através da mídia, a educação imposta desde pequenas, a merda trocada por ouro nesta era de complacência artificial. Diante de tudo isso eu sei que é necessário estabelecer cumplicidades com individualistas homens e mulheres e desde já, estarmos atentas diante de qualquer indício de humanismo moral e civilizatório que há no ar poluído das necrópoles. Reencontrarmo-nos com nosso Eu é uma das tarefas mais importantes que temos, e cumpri-la deveria ser prioridade.

O que pensam do fato de usar o feminino como insulto, como por exemplo, quando alguém diz que tal coisa era fraca como uma mulher ou lutava como uma mulher, fazendo referência a não saber lutar?

Yoloxochitl: Eu penso que estes insultos são velhos e até mesmo relativos. Agora eu escuto mais frequentemente que a fraqueza ou a covardia são relacionadas com a homossexualidade, com os gays e já nem tanto com as mulheres. A civilização fez fraca as mulheres modernas, as fizeram ser vistas como um símbolo de inferioridade por muito tempo. Antigamente, recordo que meus avós conversavam entre eles e diziam que as mulheres em seus tempos eram consideradas as mais resistentes em alguns aspectos da árdua vida, tanto para o trabalho no campo como para aguentar as dores do parto, por exemplo. Como te digo, agora eu vejo que se faz referência a alguém que não sabe lutar (por exemplo) como um “viadinho” ou “bixa”, deixando de lado o insulto relacionando à mulher, embora não duvide que exista quem o empregue. Penso que é parte da cultura civilizada, e para falar a verdade eu não crio escândalo com isso, se algum dia alguém diz algo relacionado a isso talvez eu deixe passar ou talvez eu lhe arrebente a cara, depende de como eu me sinta no momento.

More: Estes insultos me fazem rir, sabe? É um tema bastante complexo porque não só é o tema dos “insultos machistas” ou os insultos que algumas consideram “machistas” por seu enraizado complexo de inferioridade, mas é também o tema da fraqueza. Coloquemos vários exemplos, veja, a sobrevivência das nômades Inuítes (mal chamadas de “Esquimós”) é baseada na caça e na pesca. Ali os homens proporcionavam a maior parte da comida para a sobrevivência do pequeno grupo tribal. Na ausência de uma grande diversidade florestal no Polo Norte as mulheres se encarregavam do cuidado das crias e às vezes conseguiam apenas coletar algas e pequenas plantas. Onde está a fraqueza aqui? Por acaso se pode considerar fraca a mulher Inuíte apenas por cuidar dos filhos e coletar pequenas quantidades de plantas enquanto o homem se encarrega de caçar grandes leões marinhos ou passar horas sentadas esperando que uma foca ou um peixe grande morda o seu anzol? Eu penso que não, cada um tanto o homem Inuíte como a mulher tem o seu papel neste modo de vida. Um não pode existir sem o outro, são parte de uma bela simbiose, onde encontram um no outro o apoio real. Outro exemplo está nas tribos de Bosquímanos que como os Inuítes os homens se encarregam da caça de gazelas, aves, lebres, etc., no deserto de Kalahari na África, e as mulheres se encarregam do cuidado das crias. Neste caso quando a caça é escassa as mulheres saem para coletar bagas, plantas, frutos, sementes, escavar tubérculos, etc., aos arredores do deserto. É dito que nesta época do ano é possível ver os homens praticamente vivendo da coleta das mulheres sem mover um só dedo. Aqui o humano moderno taxaria de “fracos viventes” aos homens Bosquímanos, mas não é bem assim, como eu disse há uma parte do ano em que os animais escasseiam seja porque migraram ou porque morrem por falta de água. Os homens caçadores não podem fazer nada a respeito, saírem para ver se tem a “sorte” de dar de cara com um animal na época da seca apenas os deixariam mais exaustos e com mais fome, sendo assim deixam que as mulheres os alimentem enquanto chega a temporada ideal para sair para caçar. Aqui pode se considerar fracos os homens Bosquímanos por deixarem que as mulheres os alimentem em vez de saírem para obter comida em plena temporada de seca? Não, a mulher e o homem Bosquímano se complementam, são um para o outro e é isso. Bem, na era moderna isso varia muito, obviamente não é a mesma situação, e penso que, assim como disse Yoloxochitl, a mulher moderna tem sido considerada sexo frágil por se distanciar de seu passado e estar sempre se vitimizando diante da figura do macho dominante.

Quais são os traços e características mais primitivas e ancestrais que vocês associam com sua feminilidade?

Yoloxochitl: A menstruação, o “sexto sentido” (para chamá-la de alguma forma), a sabedoria nos conselhos, a sabedoria relacionada à arte da cura ligada às plantas, a capacidade de perpetuar-se não como espécie, mas como um “tipo separado”, a proteção maternalista do grupo de afinidade, a serenidade de ver as coisas desde um sentido objetivo, o expressar dos sentimentos à flor da pele, etc.

More: Os ciclos lunares emparelhando-se com os eventos corporais femininos. Eu ainda acho impressionante como é que a lua tem uma influência bastante forte nas mulheres e estas não se dão conta disso. Para mim este é um ponto que devemos enfatizar, a íntima relação entre a mulher e a natureza. Há outras mais, mas penso que esta está acima de todas as outras.

Há alguma experiência de guerreiras ancestrais que vocês conheçam e que tenham algum interesse em lembrar ou exaltar?

Yoloxochitl: Há muitos exemplos de mulheres que em seu caminho ancestral deixaram histórias realmente inspiradoras, e estas as tenho em minhas memórias. Algumas são bastante conhecidas, mas outras não. Pessoalmente gosto de lembrar aquelas que a história esqueceu, as que não são conhecidas exceto por pequenas menções. Poderia dizer muitas, mas as que eu gosto sempre de recordar são as mulheres que fizeram parte da Guerra do Mixtón no norte do México lá por meados do século XVI, como muitos já sabem. Quando as tropas espanholas tinham encurralado os guerreiros teochichimecas na Colina de Mixtón e no Pico de Nochistlan as esperanças de saírem vitoriosos daquela situação eram nulas, e foi aí quando os teochichimecas decidiram empregar o “Até a Tua Morte ou a Minha”, guerreando até a morte contra o invasor, chegando o momento em que os guerreiros homens foram mortos quase em sua totalidade, e foi então que as mulheres juntamente com suas crias se arremeteram como projéteis humanos contra os espanhóis que subiam ameaçando pela íngreme colina, demonstrando assim que não estavam dispostas à dominação estrangeira e que ante isso preferiam morrer. Este tipo de mulher são as que eu lembro, aquelas que em seus últimos momentos de vida dão tudo o que tem para manter viva a sua essência até sua morte.

More: Mulheres como Tuira Kayapó que violentamente se opôs a chegada das petroleiras ao Amazonas e que inclusive golpeou com seu facão o representante da Eletrobrás em uma de suas reuniões com a tribo Kayapó. A anciã Kiepja, mulher sábia, última descendente dos Selk’nam que com os seus contos e histórias nutria a imaginação ancestral e enchia de paganismo o ar nas cabanas de uma das tribos mais importantes do sul do continente. Maria Sabina, curandeira nativa do México, especialista na utilização das plantas de poder. O que me deixa furiosa é que os seus ensinos foram utilizados por uma estúpida juventude em busca de “viagens” em torno da “droga alternativa” nos anos 60.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s