Apocalipsis Ohlone

Reflexão do editor-chefe da revista Atassa.

Estive lutando um pouco para chegar a uma reflexão sobre o décimo nono comunicado de ITS, considerando que creio que é importante e digno de um comentário. Há algumas coisas que ainda não estou seguro sobre este texto, e algumas outras que creio que se articulam de uma maneira fascinante. Por exemplo, este é o primeiro texto eco-extremista que é expressamente extincionista, ao menos nos termos da espécia humana em seu estado atual em 2016. Não creio que isso tenha sido abordado antes de modo tão cru: no máximo, em alguns textos eco-extremistas foi falado de ataques indiscriminados como se as vidas dos híper-civilizados não importassem. Aqui, a diferença é que o texto abordado diz que o híper-civilizado deve ser extinto. Ponto final.

Eu observei que no passado as culturas mais civilizadas tinham um ponto de vista apocalíptico (“Apocalipse” em grego significa “Revelação”). A civilização sempre teve um desejo de morte. Os líderes de algumas das nações mais poderosas da Terra hoje professam religiões que creem que o mundo terminará com uma chuva de fogo, e que isso é uma coisa boa. Outros são guiados por ideologias que afirmam que o mundo físico é meramente uma ilusão. O estranho então não é que o eco-extremismo tenha uma visão pessimista da humanidade, é mais, é que os que criticam o eco-extremismo sobre este fato nem se dão conta de que isso não é nada excepcional no contexto da civilização, como se desenvolveu durante milhares de anos. De fato, a questão mais urgente, comparativamente falando, é porque o progressismo de esquerda consideraria a humanidade como algo distinto de um esforço finito: um projeto com uma data de vencimento. O livro “The Ohlone Way: Indian life in the San Francisco-Monterey Bay Area” de Malcolm Margolin, é um dos livros mais influentes que já li nos últimos anos. Cresci naquela parte do mundo, então sua descrição da terra antes da chegada dos europeus me tocou como uma tonelada de tijolos. Lembro-me desta região como um intercâmbio entre a terra agrícola e urbana, com um terreno montanhoso selvagem no meio. Antes dos europeus, a terra estava úmida e cheia de caça, era o lugar de animais como a lontra do rio e o urso pardo que já não podem mais ser vistos ali.

Um trecho interessante no livro indica que o “Ohlone” (agrupamento das tribos linguísticas dessa região que possivelmente seja arbitrária), tinha um sentido de natureza finita da existência humana como um todo. Como escreve Margolin:

“Mas no fundo [o Ohlone] sabia que seu mundo estava condenado, destinado à completa destruição. No princípio, no Tempo Sagrado, o poder era puro e impressionante, mas desde então esteve sempre deslizando, diminuindo em qualidade, quantidade e intensidade. As pessoas de hoje eram menos poderosas que seus avós antes deles. Um pessimismo e um fatalismo enraizados percorriam sua visão de mundo. As coisas estavam piorando em cada geração, e em algum momento no futuro deste magnífico mundo, como os mundos anteriores, estaria minado pelo poder. As pessoas deixariam de fazer suas danças e cerimônias, e o mundo Ohlone – seu formoso mundo vivo – entraria em colapso sobre si mesmo e se dissolveria no caos. Então talvez os espíritos se levantariam novamente, misteriosamente nascidos de uma inundação – espíritos como a Águia, o Coiote e o Colibri – para criar mais uma vez um mundo novo, claro, incrivelmente poderoso, um mundo talvez povoado por uma nova raça de pessoas, mas um Mundo que certamente não teria os Ohlones.”

Estou disposto a admitir que algumas das ideias de Margolin podem aqui ser uma profecia posterior aos acontecimentos de um povo conquistado. Mas existe uma interessante base existencial para os povos indígenas da costa central da Califórnia acreditarem nisso. Por um lado, relativamente falando, não havia muitos deles. Estes indígenas viviam em uma terra cheia de animais, e o homem nem sequer era o animal mais perigoso da Califórnia antes da chegada dos europeus. Havia uma boa chance de que os adultos fossem atacados por ursos pardos ou perseguidos por gatos selvagens, assim como nesta era moderna, sempre há uma boa possibilidade de morrer de um acidente de carro. Margolin escreve:

“Mas o conhecimento íntimo dos animais não levou à conquista, nem sua familiaridade desprezada. Os Ohlones viviam em um mundo em que as pessoas eram escassas e os animais eram muitos, onde o arco e a flecha eram o auge da tecnologia, onde um cervo que não se aproximasse de uma maneira adequada poderia escapar facilmente, e um urso poderia concebivelmente atacar. Vivia em um mundo onde o reino animal ainda não havia caído sob o domínio da raça humana e onde (como é difícil para nós compreender plenamente as implicações disso!) as pessoas ainda não se viam como os senhores indiscutíveis de toda a criação. Os Ohlones, como os caçadores de todo o mundo, adoravam os espíritos dos animais como deuses, imitavam movimentos de animais em suas danças, buscavam poderes animais em seus sonhos e até mesmo se viam como pertencentes a clãs com os animais, como os seus antepassados. A poderosa e graciosa vida animal da Área da Baía não só encheu seu mundo, mas encheu também suas mentes.”

O híper-civilizado, é claro, interpõe-se, a “Água debaixo da ponte!” aqui, mas na verdade não é. Meu próprio senso é que, o ódio à humanidade por si só é gerado por muita familiaridade. Os povos indígenas do centro da Califórnia (e de outros lugares) podiam olhar uma paisagem, pradarias, montanhas, rios, etc., e ver uma abundância de vida, uma panóplia de seres vivos. O homem moderno faz isso de modo que, quando olhe, enxergue apenas a si mesmo. Alguns podem dizer que isso é uma coisa boa, mas acima de tudo ele mesmo fica chateado com isso. O bem elimina a humanidade através de seus óculos de sol, fones de ouvido, telas de smartphones, etc. Ou consome a humanidade como mercadoria, auto-selecionada, criada para vender de acordo com a atratividade física, a inteligência percebida, o interesse comum, etc. Pensam que não há nada fora do ser humano, fora do ego e fora dos pensamentos sobre o mundo. E as pessoas se sentem particularmente inteligentes e eruditas ao pensar em tais absurdos, apesar de sangrarem e se decomporem aos demais… Minhas próprias investigações sobre a chegada da civilização europeia a partes do que hoje é “América”, concluem que a última ferramenta da conquista não era a tecnologia ou a doença (tomada em si mesma). Era um jogo de números: havia apenas mais homens brancos, especialmente no que agora são os Estados Unidos. Os guerreiros indígenas eram frequentemente mais valentes, melhores lutadores e com vantagem no campo, mas as ondas de conquistadores e imigrantes continuavam vindo e devastando a terra, transformando-a, matando os animais e despejando-a de suas características anteriores em muitos lugares. Não é que os povos indígenas tivessem necessariamente uma perspectiva mais “holística” da terra, ou que fossem mais “virtuosos”, que não eram muitos. A diferença quantitativa foi feita para as diferenças qualitativas em perspectiva. Em lugares cheios de energia, vibrantes e cheios de vida, é difícil conceber a superioridade humana como um conceito plausível. Pegue a destruição da terra, da vida silvestre, contaminando os rios e envenenando o ar, para chegar ao lugar onde se olha ao redor e se vê apenas o Homem. E então ele acaba odiando a si mesmo, tendo que olhar fixamente para si próprio e ter o poder absoluto percebido em se matar, levando junto o resto do planeta. Os povos indígenas da Califórnia, é claro, morreram, seu mundo foi silenciado junto com tantos outros. O que os substituiu é agora o mundialmente famoso Silicon Valley, junto com o que tem sido considerado o “Salad Bowl of the United States,” produzindo grande parte da alface e outros produtos consumidos nas mesas dos estadunidenses. O progressista não quer admitir isso, mas a troca entre o Homem e a Natureza neste ponto é uma preposição “ou bem/ou”, não “ambas/e” preposições. Você pode ter seres humanos, a grande maioria dos quais dependem ou apoiam a civilização e tudo o que ela representa ou pode ter coisas como água limpa e ar fresco que fazem com que a vida humana vala a pena viver. Você não pode ter ambos, não nesta etapa do jogo. É por isso que não choro pelos híper-civilizados, e não me queixo dos atos indiscriminados contra eles, e sigo escrevendo sobre estes atos. Uma vez que você se converte em um inimigo da civilização, se você é realmente um inimigo da própria humanidade, isso depende de como honestamente você tira suas premissas.

Como eu disse no início desta reflexão, as pessoas mais civilizadas admitem isso em segundo plano. Elas acreditam que Jesus, Alá ou Javé, virá e destruirá o mundo com fogo e estabelecerão uma Cidade Eterna que não pode desmoronar ou decair. São esses ateus e esquerdistas menos honestos que confundem a humanidade com um projeto transparente e permanente. Os primeiros acreditam que é preciso seguir a moralidade para que esta Cidade Eterna possa surgir, os últimos creem que é preciso seguir a moralidade para manter a Humanidade tal como está flutuando em sua missão de se tornar uma instituição eterna. Os primeiro se baseiam numa mentira, mas é muito realista em termos de meios para alcançar o resultado desejado. Os últimos são, sem dúvida, completamente enganados.

A falta de preocupação com os híper-civilizados, pelos domesticados que apenas amam a si mesmos, é base do pensamento eco-extremista, e é um aspecto desse pensamento que defendo totalmente. Não posso deixar de citar o poema de Robinson Jeffers na íntegra, este é o texto mais apropriado para pôr fim a esta reflexão. Descreve uma cena da terra de Esselen, ao sul do território “Ohlone”:

“Mãos Dentro de uma caverna em um estreito desfiladeiro próximo de Tassajara

A Abóboda de pedra é pintada com as mãos;

Uma multidão de mãos no crepúsculo, uma nuvem de palmas de homens, não mais,

Não há outra foto. Não há ninguém que diga

Se os tímidos e silenciosos marrons que estão mortos tentaram

Religião ou magia, ou fizeram seus traços

Na ociosidade da arte; Mas sobre a divisão dos anos estes cuidadosos

Sinais-manuais agora são como uma mensagem selada

Dizendo: “Olhe: nós também somos humanos, Tínhamos mãos, não patas.

Todos louvam

Vocês com as mãos mais inteligentes, nossos fornecedores

No formoso país; Desfrutar dela na temporada, de sua beleza, e baixa

E foi suplantado; Porque vocês também são humanos.”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s