Notas Sobre o Anarco-primitivismo

Texto escrito por Abe Cabrera em seu extinto blog Wandering Cannibals.

Eu estaria mentindo se eu dissesse que não gosto de me envolver em discussões. Mas eu também estaria mentindo se não dissesse que creio que isso não é bom para mim na maioria das vezes. O reino das ideias “anti-civilização” é pequeno, o daqueles que se opõe totalmente à civilização é ainda menor, e o daqueles que tem certas ideias a respeito é ainda mais pequeno, etc. Creio que foi Henry Kissinger quem disse que as políticas dos campus universitários são asquerosas devido haver muito pouco envolvimento. Esse é igual o nosso caso. Nem sequer conheço a alguém na “vida real” que sustente algo que se pareça com estas ideias. Portanto, se meter com alguém através de um gole retórico é lamentável no melhor dos casos, e tolo na pior das hipóteses.

De muitas maneiras você está no mesmo barco, não importando quantas distinções faça. Se é “são” enterraria o machado e agradaria a todo mundo. É claro, o homem não vive apenas de sanidade. (Aqui vem o grande “porém….”). Uma vez que se tem certa “epifania” você percebe que não está na mesma página com aqueles que o observador externo diria que você tem afinidade. Eu venho do anarco-primitivismo, ao menos em teoria, embora nunca tenha me sentido cômodo com ele. O antropocentrismo, o otimismo, a ideia de que existe um estado primordial que encaixa como uma luva na psiquê humana… estas coisas nunca se encaixaram comigo. Como Marxista sempre vi a “natureza” como um ato do intelecto e da vontade humana, ou algo que atua por parte do intelecto e da vontade humana. Ou seja, a vida humana não é algo que simplesmente é “produzida” por nossa natureza manifestando-se em uma circunstância em particular. É algo ativo e vibrante, resultante do homem testando sua força contra o caos e a entropia. Creio que é evidente que nossa situação está desbalanceada, que todos os projetos humanos são insustentáveis no final, e muitas vezes, o modo de se formar uma sociedade humana é o produto de milhões de vontades diferentes disparando ao mesmo tempo para produzir uma harmonia e desordem, o alçamento e a derrubada dos artifícios e hierarquias, o retorno a uma base que pode tornar-se instável em um ciclo que chega até os distantes recessos do passado…

Por algum tempo pensei que este entendimento era aquele que estava envolvido em outras escolas do pensamento anti-civilização. Eu nunca aderi a seu aspecto “vendedor” (selling): você estaria mais feliz e saudável sem a civilização, tua comodidade seria mais estável, tua vida seria mais satisfatória, etc. Para mim a vida sempre se tratou de lutar, não de felicidade, mas de significado; não de liberdade, mas sobre o que fazer com ela. Talvez eu seja muito “pré-moderno” neste sentido do meu pensamento: a egolatria nunca foi uma preocupação, os indivíduos seguem sendo peões em um grande jogo cósmico, nosso único papel agora é o de derrubar sem esperanças a reconstrução. O de perceber que o homem é o compêndio e não o fim do cosmos, e se ele cai, como o mordomo personificado do mundo físico, o único honorável a fazer é retirar-se e deixar que o mundo volte a ser o que foi antes de nós. Isso não é algo que você pode vender ao jovem idealista que quer fazer do mundo “um lugar melhor”, mas é a única coisa em que estou interessado.

Estive lendo a mais nova edição da revista “Revisão Verde e Negra” (Back and Green Review), e enquanto não quero chutá-la ou criticá-la de uma forma sistemática (principalmente, por que quem se importa? E para que serviria?) Dei-me conta de que nós (os criadores dessa revista e eu) estamos nisso por razões completamente diferentes. Um dos ensaios é uma descrição exaustiva de como um dos autores chamado “Humano de Quatro Patas” tem treinado para retornar imediatamente a ser um caçador-coletor nômade. Embora isso seja problemático em muitos aspectos, é refrescante em sua honestidade. Por exemplo, representa um ponto de viragem no discurso anti-civ por empregar um “bait and switch” (conceito que faz referência a trocar um bem que é grátis por um mais sofisticado que tem um custo maior), afirmando que, embora historicamente possa ser que os caçadores-coletores tenham trabalhado umas poucas horas ao dia, aqueles que tem a vocação para converter-se em caçadores-coletores agora deverão trabalhar duro, e muito duro, por horas e horas ao dia, com a perspectiva do fracasso e a inanição sempre por perto. Aí se pode ver um ponto de venda, suponho. Após muitas gerações pode ser que as pessoas regressem a um estilo de vida nômade, de ócio geral. E novamente, tenho muito pouco controle sobre meus próprios filhos, não tenho tanta certeza de que posso determinar a mentalidade da descendência que jamais conhecerei.

Para apoiar um pouco, tudo isso é baseado no Plano Mestre do Anarco-Primitivismo, que vai da seguinte forma:

Plano A: A civilização irá se colapsar sozinha (mais ou menos);

Plano B: Não há plano B.

O que eventualmente nos leva ao paraíso nômade caçador-coletor, que não será fácil, mas de algum modo é para isso que estamos preparados inerentemente, assim dizem eles. Não é violar a Lei de Godwin, mas creio que não há melhor analogia aqui que o Partido Comunista Stalinista proclamando: “Depois de Hitler, nós”. O ponto do artigo do “Humano de Quatro Patas” citado acima é de realizar a corrida do “super-homem” (todos teremos potencialmente estes super-poderes), que vencerá a civilização pelo desgaste. É como wu wei ou algo assim.

A obsessão dos Anarco-primitivistas da escola dos Black and Green Review é, desse modo, a de preparar as pessoas para este futuro. Assim, as sociedades “primitivas” que os indivíduos decidem emular serão de entornos marginais tais como os Inuítes ou os Selk’nam (Ona) da Terra do Fogo. Ou seja, lugares em que a maioria dos seres humanos não querem viver como primeira opção. A partir desse foco de colonos sub-árticos virá a nova esperança da humanidade, e todos os demais podem simplesmente morrer, porque eles não tem esperança. Parem, por favor. (Como é que isso não é niilismo? Ou seja, abraçar um sistema na qual eu e minha gente sobreviveremos, mas o resto pode simplesmente morrer de fome lentamente ou se matar entre eles em guerras por recursos, eu não tenho ideia. Creio que é totalmente kosher o cometimento de pecados de omissão ou simplesmente deixar que 99,99% da população da terra morra, mas se você faz algo para mencionar isso traria impureza, ou é ao menos uma perda de tempo. Tenho certeza de que os humanistas ao redor do mundo apreciariam essa distinção na misantropia).

O que é mais triste em tudo isso é como os anarco-primitivistas pegam essencialmente, a um nível narrativo, as visões científicas/coloniais do mundo e colocam nas sociedades que tentam emular: pegando o que gostam e deixando de lado o que não gostam, como se pudessem selecionar como se fossem tomates, as formas de vida que muitas vezes estavam intimamente relacionadas com as formas nas quais alguém via na natureza. Portanto, chega-se a “essência” ou a “substância” do que significa ser um caçador-coletor nômade, enquanto que os detalhes “irrelevantes” e “falsos” tais como a cosmologia, a mitologia, os rituais, etc., são deixados de lado como se não importassem. Como se os Ona (Selk’nam) fossem simplesmente algumas pessoas que puderam ser o que foram drenando todo o endurecimento físico e perseverança, mas deixando de lado os grandes rituais como o Hain, e as deidades como o Hoowin, como se não tivessem nada haver com tudo isso. Você pode abstrair e sangrar uma sociedade primitiva para teus próprios fins e usar o que te agrade para salvar tua própria pele, enquanto provavelmente nenhum caçador-coletor prudente tenha pensado sobre o mundo e o que ele ou ela fazem diariamente nestes termos. (Veja, por exemplo, o artigo “Os Seris, os Eco-extremistas e o Nahualismo” nesta mesma edição da revista para uma visão alternativa de como abordar esse tipo de sociedades).

Assim como o esquerdismo vejo o anarco-primitivismo como algo inventado na mente do contador e do administrador de recursos, mas levado à era da Idade da Pedra. Para mim, parece que preocupações tais como “como posso sobreviver e como posso evitar ser oprimido” são muito modernas e domesticadas. Claro, todos nós queremos sobreviver, mas em quais circunstâncias? Fugindo sempre? Esperando a Godot na forma de catástrofe para que assassine a todos os nossos inimigos por nós? Desistir das melhores terras e ir para um lugar onde se sobrevivermos ou não, não seja melhor que uma brincadeira de merda? Ao menos o “Humano de Quatro Patas” admitiu no final de seu ensaio os Paleo-guerreiros da Super-Elite dentro de seu clube, aqueles que quiseram ir ao parque urbano após o trabalho para tecer cestos e esculpir pedras: boa maneira de dar esperanças a seus leitores. Quanto a mim, qualquer interesse no Anarco-Primitivismo e no que eles pensam e fazem diminui mais e mais a cada dia. Isso também me aconteceu com o Marxismo, embora eu não tenha me considerado um Marxista por anos estava ainda interessado remotamente nele. Especialmente com os anarco-primitivistas estou cansado de “a civilização é ruim para a saúde e está nos matando” misturado com o “reselvagear-se é quase impossível para a maioria das pessoas e há um grande risco delas se matarem”. Ok, podem trabalhar em seus projetos que eu trabalho nos meus.

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