O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante

Extraído da Revista Ajajema número 4.

Diz-se que o rio Pascagoula, que está dentro do que agora é o estado Norte Americano de Mississippi, canta. O que seriam os estranhos sons feitos pelo rio que muitos dizem que soam como cantos? Alguns creditam a musicalidade do rio a Sereias ou outros seres mitológicos. De qualquer forma, a lenda mais popular data da época anterior a chegada dos europeus, quando o que agora é o Sudeste dos Estados Unidos estava dotado de muitos cacicaços poderosos. De acordo com a lenda,

As tribos Biloxi e Pascagoula viveram por séculos de forma pacífica onde agora é o sul de Mississipi, antes que uma separação entre as tribos resultasse em sua mútua extinção. Altama, cacique dos Pascagoula, se apaixonou por Anola, uma princesa Biloxi que estava noiva do Cacique dos Biloxi, indo contra as tradições das tribos. Altama e Anola queriam estar juntos sem se importar com as consequências. Em resposta, os Biloxi fizeram guerra contra os Pascagoula, matando-os e tomando-os como escravos devido a decisão que Altama havia tomado. Eles decidiram permanecer leais a Altama, e como grupo pensaram que era melhor morrer pelas próprias mãos do que converter-se em escravos, acreditavam que se encontrariam novamente no mundo dos mortos e viveriam em um mundo sem guerra. Altama, Anola, e o povo Pascagoula escolheram afogar-se no rio, e enquanto cantavam sua canção de morte, deram as mãos e caminharam rumo às águas. De acordo com a lenda local, a desaparição do povo Pascagoula ecoa nos míticos sons que vem do rio.

O principal elemento da subjugação que a civilização utiliza é o medo. A domesticação e a escravidão não existiriam sem o medo, sem a firme convicção de que não há nada pior que a morte, que a escravidão e a servidão são melhores alternativas que o final de nossa existência material individual. Deveríamos recordar, especialmente aqueles de nós que viemos de algum dos povos discutidos nestas páginas que nós também somos filhos do medo. Muitas pessoas, como os Pascagoula, tem agora poucos ou nenhum descendente, mas chegaram a conclusão de que era melhor guerrear e/ou morrer que viver como escravos. Somos os filhos da derrota, os nascidos mortos da liberdade. Mas já é demasiado tarde para este tipo de discurso…

Talvez a civilização dure outros dez anos, ou outros dez mil anos. Talvez sejamos hostis a ela agora, mas nos resignemos daqui algumas décadas. Pode ser que sejamos forçados a alimentar a nossos próprios filhos com mentiras e engolir nosso orgulho para suportar o dia. No mínimo, não deveríamos engolir nosso orgulho por completo, nem deveríamos engolir a falsidade da irmandade universal ou o progresso humano. A cada momento nesta apodrecida sociedade deveríamos dar-nos conta de que nos é vendida uma farsa, e alimentar o ódio e o ressentimento de acordo com isso…

Nós os editores não somos capazes nem estamos dispostos a te oferecer sugestões do que você deveria fazer com isso, só que é este ressentimento que te faz manter-se humano, animal e vivo. Mesmo se nenhuma catástrofe acabar com a civilização, a catástrofe de nossa própria domesticação é suficiente para fazer-nos refletir sobre o quanto temos perdido e o que se pode ser feito a respeito. Não há soluções fáceis, e provavelmente nunca houve. Deveríamos nos apegar a esta íntima parte de nós mesmos que a civilização nunca pode tocar, a parte que inspira medo ao híper-civilizado e que se manifesta nas sombras: uma ameaça invisível constantemente em tocaia.

E para aqueles que fazem um pouco mais do que isso, podemos finalizar oferecendo esta dobra pagã eco-extremista:

Que a lua os siga guiando. Que a chuva os refresque.

Que o sol aqueça seus corpos. Que os console o som dos grilos.

Que a Terra manche seus pés. Que as montanhas lhes ofereçam refúgio.

Que a escura noite os esconda. Que suas pegadas sejam apagadas pelo vento.

Para sempre!

Chicomoztoc, 2 de Dezembro.

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