Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3

Extraído de “Cuadernos Sin Número”.

“Black and Green Review” é uma revista estadunidense, sendo o projeto mais recente de John Zerzan e Kevin Tucker. O Sr. Zerzan não requer introdução nos círculos do pensamento “anti-civilização” já que depois de Don Ted (Kaczynski), ele é o teórico mais conhecido no mundo destes assuntos. Kevin Tucker é menos conhecido, mas é o escritor que trabalhou com Zerzan em publicações como “Green Anarchy” na primeira década deste milênio. Tinha ele também o seu projeto chamado “Species Traitor” (Traidores da Espécie), que era uma revista no estilo da atual “Black and Green Review”, só que mais livro do que revista e era composta de vários artigos de diferentes autores. Como revista é fisicamente bem feita, com fotos e várias seções com artigos longos e curtos, e neste caso está composta por mais de duzentas páginas.

“Black and Green Review” sai duas vezes por ano nos Estados Unidos. Não iremos explicar como conseguimos uma cópia aqui, do outro lado da fronteira, mas nós a temos e lemos ela. Muito menos iremos resumir a revista (ou melhor, o livro) inteiro, resumiremos os artigos mais importantes e daremos o nosso ponto de vista dentro do eco-extremismo particularmente desde a Antiga Mesoamérica Setentrional. Embora tenhamos nossas críticas bastante agudas contra esta revista, agradecemos a oportunidade de discutir seu conteúdo.

Em primeiro lugar, nosso artigo favorito era um “dos menores” e falava sobre o mosquito. Traduzimos aqui uma parte para compartilhar com os leitores lusófonos o conteúdo bastante informativo:

“Uma das falhas que padece a humanidade é que não vemos nenhuma espécie como benéfica se não pudermos explorá-la. Isto é especialmente verdadeiro para uma das espécies que nos causa uma grande dor. A ecologista evolucionista Dina Fonseca da Universidade de Rutgers, aponta isso perfeitamente ao comparar a situação com os Maruim (mosquitos médios) da família Ceratopogonidae, também conhecida por muitos como Moscas de Areia. “As pessoas que são picadas por Moscas de Areia ou infectadas com vírus, protozoários e filarias adorariam ser picadas para que esses insetos desaparecessem depois de estudar as suas próprias picadas.” disse ela. Mas, como alguns ceratopogonídeos são polinizadores de cultivos tropicais de cacau, “isso se traduziria em um mundo sem chocolate”. Para finalizar isso, quero mencionar um ponto muito óbvio, nós criamos este monstro. O mosquito transmissor da doença é nossa criatura e nosso Frankenstein. A instabilidade climática causada pelo humano gera desequilíbrios em todo o mundo. As populações de insetos aumentam quando aumenta a temperatura. O desmatamento e a erradicação das espécies e dos preadores levam a mudanças ecológicas, juntamente com a liberação de vírus latentes. A imunidade coletiva sofre do “progresso” humano. Ficamos doentes com tudo. Os mosquitos são vetores da doença, não a causa. Os mosquitos são apenas um dos cinco principais modos de transmissões de doenças amplificadas pela globalização. Não reconhecemos a maneira imprudente em que nos tornamos, cegos pelo ego e atuando como deuses nos esquecemos que para cada causa há um efeito.”

A explicação sobre a relação simbiótica entre o mosquito e seu ambiente é um ponto importante, e mostra que, de tempos em tempos, o anarco-primitivismo gringo pode pensar além de seu antropocentrismo. Talvez um dia possamos traduzir este artigo inteiro e o reproduziremos em outro lugar. Também imaginamos que as entrevistas que são publicadas na revista mencionada, com a advogada de ativistas eco-radicais e outra com um ex-prisioneiro são muito úteis para os eco-radicais daquele lado da fronteira. O compa “Halputta Hadjo” já apresentou uma crítica eco-extremista da entrevista com os eco-radicais de Zerzan no Canadá em seu artigo sobre os Calusa, e não temos mais nada a acrescentar aqui.

Indo aos “principais artigos” da revista, há alguns que merecem um comentário mais extenso. Comecemos com o artigo de “Four-Legged Human” (Quadrúpede Humano), intitulado “The Wind Roars Ferociously: Feral Foundations and the Necessity of Wild Resistance.” (O Vento Ruge Ferozmente: as fundações ferais e a necessidade da resistência selvagem). A cena deste artigo são os territórios inóspitos do estado norte do Alaska nos Estados Unidos. O texto tenta desenvolver o tema da domesticação e a dependência que ela cria nos humanos civilizados, especialmente, envolvendo a domesticação no fracasso universal da esquerda no mundo moderno. Ele também tenta apresentar a resistência como um processo de desdomesticação e fuga da civilização para lugares isolados. Neste sentido, estes anarco-primitivistas desejam imitar aos “Povos da Flecha” que ainda existem nas terras amazônicas. Ele escreve:

“Estima-se que, atualmente, nos últimos vestígios primários da Amazônia brasileira existam até 43 tribos isoladas. Índios Bravos ou Povos da Flecha. Muitas vezes caracterizados como ‘não contatados’, a realidade mais provável é que estes bandos amazônicos, conscientemente optaram por viver em isolamento e evitar a interação, precisamente devido a um profundo conhecimento entre gerações sobre as consequências desastrosas associadas a seus ancestrais e seus irmãos indígenas vizinhos que se converteram em domésticos e civilizados:

‘Determinação deliberada, ou melhor, autodeterminação… parece ajudar todas as tribos isoladas que ainda vagueiam pelas selvas da Amazônia… Os grupos indígenas que vivem em isolamento são isolados porque escolhem. Não é por causa de uma completa falta de contato, mas precisamente porque as experiências anteriores de contato com o mundo exterior se revelaram negativas.’”

Não temos muito o que discutir com o Quadrúpede sobre o seu diagnóstico do problema da domesticação e do híper-civilizado. Na verdade, a civilização cria humanóides dependentes e fracos que não podem viver sem a sua dependência, o que significa sua escravização ao sistema tecno-industrial. No entanto, a solução apresentada é especificamente fugir para os lugares remotos do norte e tornar-se selvagem novamente. Isso foi algo que nos confundiu muito. Ele escreve:

“Hoje temos conhecimento histórico e antropológico que nos leva ao desespero criado por 10 mil anos de domesticação. Não é hora de “sentar”, é hora de se levantar e caminhar na floresta, deixando para trás toda a nossa bagagem domesticada. Devemos agora finalmente nos converter no povo da flecha. Um futuro selvagem representa o nosso único caminho a seguir. Eu postulo que os reselvageados ferais estarão de pé no final, após os levantes massivos que virão, sendo capaz disso apenas por causa dos avanços alcançados multigeracionalmente a nível indomesticável. Prevejo a formação de bandos selvagens (bandidos!) muito unidos, não acorrentados pelas circunstâncias, mas instalados rapidamente nos bosques, montanhas e sacudindo o impenetrável pelos domésticos – Habitantes do nosso próprio ‘labirinto marrom” em que os domesticados não se atrevem a entrar. Não apenas isso, mas também bandidos eficazes para golpear a infraestrutura da civilização, causando um dano irreparável, e desaparecendo facilmente nas sombras apenas para emergir golpeando de novo e de novo.”

Para dizer a verdade, este parágrafo nos causou muitas risadas. É sério? Esta é a revista de John Zerzan? O cara que pega seu rosário toda vez que escuta algo sobre os ataques eco-extremistas no sul? Esses caras querem ser “bandidos”, mas os eco-extremistas já são, e por acaso eles apoiam? Muito pelo contrário. Nós não vimos nenhuma evidência que prove que os anarco-primitivistas ianques não tenham alergia ao cheiro de sangue. Os eco-extremistas não tem essa alergia, isso é fato. Eu não sei, provavelmente o Quadrúpede não leu a Revista Regresión, mas ele tem que fazer uma comparação com alguns textos ali (sobre banditismo) que saíram muito antes deste ensaio. Por exemplo, na Regresión 3 (Primavera de 2015):

“Resistir e negar a vida imposta desde pequenos e formarmos uma vida simples e o mais longe possível daqueles alinhamentos e esquemas culturais modernos, é um dos propósitos a serem alcançados desde o presente. Mas para formarmos essa vida que queremos, distante das grandes cidades e nas profundezas da natureza, às vezes requer dinheiro, dinheiro que preferimos roubá-lo de qualquer lugar ou obtê-lo através das centenas de formas criminosas que existem, antes que nos escravizem à vida de subordinados que a maioria das pessoas carrega. Esta é a razão pela qual o grupo editorial desta revista sente simpatia pela reapropriação do dinheiro para propósitos específicos que levam a uma vida que vala a pena ser vivida, sem se importar com quem sofra o disparo quando o dinheiro não é entregue, porque quando um empregado não entrega o dinheiro do patrão, este não merece seguir vivendo, já que defende como um cão obediente as migalhas do mestre, por isso merece uma facada ou uma bala em seu corpo, da mesma forma, quando o empresário, dono ou executivo do negócio não cumpre as exigências do ladrão, também merece o mesmo ou algo pior.

Não há misericórdia nesses atos, é tudo ou nada, é do extremismo de que falamos abertamente, se esse dinheiro será necessário para algum propósito extremista individualista, este o deve consegui-lo a qualquer preço. Aqui devo mencionar que para nós o dinheiro não é tudo, isso dizemos de uma forma muito realista. Neste mundo dominado por grandes corporações econômicas, às vezes é preciso obter dinheiro para cobrir certos fins e/ou meios. Pra nós, obtê-lo trabalhando não é uma opção, obtê-lo por fraude, assaltos ou enganando, sim. Aqueles ancestrais que viram seus modos de vida afetados pela expansão das civilizações tanto mesoamericanas como ocidentais, tiveram que atuar desta forma em algum momento (predação, saqueio, engano, roubo e/ou assassinato), temos apenas cumprido nosso papel histórico como herdeiros daquela ferocidade selvagem.”

Também este texto, retirado do editorial da Regresión 5 (Abril de 2015):

“Sou um eco-extremista e estou em Guerra, eu confeccionei explosivos recheados de fragmentos que dirigi contra tecnólogos que trabalham para artificializar a Natureza Selvagem. Os fios positivo e negativo se encontraram, a energia da pilha conseguiu aquecer o ignitor dentro do niple galvanizado preenchido por dinamite, uma faísca é gerada, o explosivo funcionou, os ferimos, os estilhaços perfuraram seus corpos, os gases da dinamite ardente chegaram a seus pulmões queimando-os ao mesmo tempo, seus sangues derramados serviram para lhes recordar de que NÃO são deuses, embora brinquem disso; não me arrependo por nenhuma destas feridas, de seu espanto, das consequências, o que aconteceu com eles é apenas uma resposta da Natureza Indomável que falou através de MIM. Estive escondido em várias cidades preparando atentados, conspirando com afins, e ampliando minhas práticas no plano da atividade criminosa. Incendiei carros indiscriminadamente, luxuosos e não luxuosos, pequenos ou grandes, uma vez que todos são asquerosas máquinas que fazem com que a camada de fumaça siga se solidificando sobre minha cabeça, os vi arder como um incêndio nas densas florestas, eu soube da reação de seus donos, não me importo com nada, a Natureza me deu a forma para sair intacto dessas situações.”

Então, se os ianques quiserem aprender algo sobre ser “bandidos”, talvez os eco-extremistas possam dar-lhes alguns conselhos para que não sejam detidos pelos valores humanistas civilizados.

Sobre a questão da fuga para a floresta ou o que quer que seja, recordamos uma correspondência com um mano eco-extremista que nos faz lembrar que o contexto ao sul da fronteira é muito diferente daquele dos gringos:

“Aqui muitos poucos “primitivistas” fazem o que fazem lá, isso de comprar um terreno e aprender habilidades de sobrevivência. O que sempre pensamos sobre essas atitudes é que a pessoa que faz isso está sendo covarde ao abandonar a civilização sem ter lutado contra ela. A cultura mexicana herdou de seu passado nativo esta atitude, aqui se você não responder a uma agressão você é fraco e viadinho, o mesmo vale para os “primitivistas” que compram um terreno e em vez de guerrear decidem viver alternativamente. Embora tente de todas as formas fugir da civilização, esta chegará a você. Um exemplo é o que passou com o velho Ted, ele partiu, mas a civilização chegou até ele, e o mesmo acontece aqui.

Só que aqui é muito mais violento, muitas áreas selvagens estão sendo controladas por pistoleiros que utilizam as montanhas para plantar papoula ou usam as colinas para esconder laboratórios de drogas sintéticas. Estes terrenos belos e selvagens estão sob o controle deles e se você ousar pisar neles, os pistoleiros te prendem e te levam como escravo a essas plantações, junto com os imigrantes do sul, e assim por diante. A situação aqui é mais complicada.

Com respeito as comunidades zapatistas, são uma merda, e o mesmo ocorre, estão sob o controle do comitê clandestino indígena que de indígena não tem muita coisa já que são controladas pelos marxistas mais relutantes, muitos estrangeiros.”.

Nós pelo menos concordamos completamente com o mano. Fugir não é uma opção real nem é algo que queremos fazer. A civilização insultou a nossa mãe Natureza, e pagará por isso, aconteça o que acontecer. Naturalmente, apoiamos os indígenas (os poucos que restam) que fogem da civilização, mas não somos eles, e é uma estupidez pensar que podemos nos tornar como eles. Melhor ficarmos aqui e lutar como somos, na verdade, não temos nenhuma outra opção.

Completando a informação sobre a opção de comprar um terreno no México assim como fazem nos EUA, existe também uma aparente desvantagem econômica, enquanto muitos anarco-primitivistas de lá tem uma economia estável dado a sua cultura de primeiro mundo (embora rejeitem), aqui se um anarco-primitivista mexicano quisesse comprar um pedaço de terra lhe custaria cerca de 60 mil a 100 mil pesos ou mais dependendo do lugar. Para obter essa grande quantidade de dinheiro o anarco-primitivista mexicano teria que trabalhar (dado o seu rechaço ao salário de uma empresa) em uma cooperativa universitária autogestiva (por exemplo), onde os lucros líquidos não chegam nem a 200 pesos por dia, então ele teria que trabalhar por um tempo indeterminado para comprar as suas terras. Num outro caso, se o anarco-primitivista “urgisse” comprar um terreno na natureza e decidisse trabalhar em uma fábrica oito horas por dia ralando em turnos noturnos e matutinos, ganhando 1000 pesos por semana, então estamos falando que conseguiria o dinheiro em pouco mais de dois anos, e isso juntando todo o dinheiro, embora esta opção seja quase impossível, já que teria que repartir estes 1000 pesos ganho por semana em aluguel, pagamento de serviços, alimentação, transporte (talvez), etc., então aqueles mais de dois anos dobrariam ou talvez mais. Possivelmente o anarco-primitivista mexicano se canse após tantos anos de trabalho, jogue tudo para o alto, deixe de ser um anarco-primitivista e decida viver uma “vida louca”. Ou talvez o anarco-primitivista em questão herde de sua avó uma casa na floresta e decida ir viver por lá, ou talvez o anarco-primitivista possa ir trabalhar nos Estados Unidos e faça como os trabalhadores michoacanos que trazem dólares os quais aqui tem um grande valor no mercado estimado em 18 pesos cada um, e assim possa adquirir seu terreno, pode ser, são apenas ideias…

Mas de qualquer maneira, alguns anarco-primitivistas dos EUA acham que podem de uma hora para outra se tornarem os bandidos mais fodas de toda a história, ou dentro de algumas “gerações”, ou que podem sobreviver em um dos lugares mais inóspitos do planeta (Alaska), E TAMBÉM atacar a civilização de vez em quando e saírem ilesos. Não pensamos assim, mas boa sorte. Vale a pena mencionar que o Quatro Patas descreve os Selk’nam da Terra do Fogo como um povo selvagem que poderia sobreviver em um dos ambientes mais difíceis da Terra, mas não mencionou que a sociedade Selk’nam era baseada no patriarcado rígido, era a fundação de suas crenças. Talvez ele tivesse que comentar algo sobre isso a suas companheiras primitivistas, que pensam que o patriarcado é sempre um produto da domesticação. Bom, apenas sugerimos.…

O mais curioso vem quando você termina este artigo com aspirações de se tornar um criminoso e logo passa para outro texto que diz que os anarco-primitivistas devem ter aspirações para ser… MONGES. Isso é completamente verdade, eu não estou inventando. O nome do artigo é “The Sacred Sunrise”, de Ian Smith. Não vou tentar resumir os argumentos aqui, pois eles são muito estúpidos e mostram uma profunda ignorância da natureza do monarquismo cristão desde sua origem até a atualidade. Por exemplo, menciona a regra de São Bento, mas não a sua lei mais importante: “ora et labora”, em latim, “rezar e trabalhar”. Bem, é muito interessante que alguns anarco-primitivistas pensam que podem se salvar trabalhando no campo e recitando palavras da bíblia. Será que o autor não sabe que os grandes monastérios da Idade Média, e até mesmo aqui na Nova Espanha durante a colônia eram donos de grandes terrenos, e não apenas de terrenos, também dos campesinos que pertenciam a essas terras, e seus trabalhos permitiam uma vida de luxo aos monges para se comprometer com a “Opus Dei”, a vida de “contemplação”, a erudição, e o ofício divino? Ou sabe que a virtude mais importante do monastério foi a obediência? Talvez esse cara seja obediente a São João (Zerzan) como abade, e Kevin Tucker como mestre dos noviços? É vergonhoso que permitiram que tal estupidez fosse publicada em uma revista “séria”.

Passaremos então a discutir o ensaio do editor principal, Kevin Tucker, sobre a civilização e a dependência, “Hooked on a Feeling: The Loss of Community and the Rise of Addiction” (Viciado em Um Sentimento: A Perda da Comunidade e a Aparição da Dependência). Ao nosso ver, este é o ensaio mais longo, e muito difícil de se resumir em alguns parágrafos. O texto começa com a descrição de “kia” ou as energias curativas que emergem das danças comunitárias das tribos nômades caçadoras-coletoras em várias partes do sul da África. Segundo Tucker, o sedentarismo cria a necessidade de resolver conflitos que anteriormente poderiam ser resolvidos pela mobilidade nômade. Pouco a pouco surge o papel do Xamã, e a especialização sobre o uso de plantas e cerimônias para resolver os problemas de uma comunidade sedentária. A partir daí surgem o álcool, o peiote, e os demais tóxicos que tentam resolver a frustração da domesticação. A primeira objeção que encontrei é que os animais também se “drogam” e se “embebedam”. Em algumas tradições, são os próprios animais ou as plantas que “ensinam” sobre seus usos, até mesmo seus usos narcóticos e alucinógenos.

No entanto, é necessário contemplar o tema da “civilização como um vício”, como Tucker descreve no seguinte parágrafo sobre o papel do álcool:

“A civilização foi levada literalmente nos ombros e costas dos bêbados. Uma devoção religiosa à produção requer um grau de embriaguez para criar raízes. A agricultura, o combustível necessário da civilização, define a monotonia: monótono, dor de ressignificação, sem brilho, e o trabalho sem fim. A humanidade nunca havia levantado suas mãos para a produção excedente se não estivesse segurando um copo levantado”.

Segundo Tucker, então, a humanidade deve retornar à energia da dança dos nômades para a cura emocional e psicológica baseada na comunidade e na atitude igualitária. É uma questão de quebrar a “lógica” viciante da civilização e fugir para forjar novas comunidades de resistência com base na lógica dos caçadores-coletores nômades. A crítica que tenho neste sentido é inspirada nas palavras de outro mano eco-extremista em uma entrevista com um certo John Jacobi:

“(…) sempre que há uma chance vocês gringos, ou seja, as pessoas que compartilham a cultura estadunidense (reformistas), querem sempre criar ‘movimentos’, é como se trouxessem nas veias um sentimento muito característico que os empurra a querer sempre ‘arrumar’ as coisas, e a Natureza Selvagem não escapa desse sentimento.”

Diz-se em algumas partes do texto que o melhor é o inimigo do bem moral, e acreditamos que Tucker cai neste erro. Pelo menos aqui, não é uma questão de defender as culturas primitivas onde quer que apareçam, mas de buscar as culturas “mais puras” da terra e tentar imitar seus modos de vida (é preciso comentar aqui, referindo-se ao Quadrúpede, que os Selk’nam também tinham Xamãs). Sabemos muito bem o que Tucker está jogando: nestas culturas se manifestaram a hierarquia, a domesticação, a civilização, etc., em algumas culturas pelo sedentarismo e o armazenamento de comestíveis, e isso é certo. Mas o processo que criou a civilização e está destruindo a vida na Terra não é produto de um processo de domesticação retirado de um processo particular, ou seja, os processos que criaram a sociedade tecno-industrial. Cada domesticação não criou o Leviatã que está nos ameaçando, e que nos escravizou. O rei Calusa no século XVI ou um agricultor africano do Delta do Níger no século XVII não tem culpa de nossa civilização.

Esta civilização é produto de um processo muito particular, quase ocidental, e seria difícil em nossa opinião encontrar a causa específica desta sociedade asquerosa. Portanto, não há a necessidade de julgar todas as sociedades primitivas e selvagens por suas habilidades de “domesticação”, como ter Xamãs ou qualquer outra coisa. Cada sociedade foi um fenômeno que era produto de seu ambiente e a resposta das pessoas que viveram naquele ambiente. O que vemos agora não foi inevitável, em nossa opinião, poderia ter sido diferente, e muitos selvagens lutaram até a morte para que assim fosse. Mas estas são apenas questões acadêmicas, o que foi perdido foi perdido, mas ainda existem os instintos de atacar e defender que são os mais importantes.

Há também um ensaio de John Zerzan, mas parecia bobo e não o lemos.

De qualquer forma, em nossa opinião, as diferenças entre os anarco-primitivistas do norte e os eco-extremistas do sul vêm dos exemplos das tribos “primitivas” que desejam imitar. Os anarco-primitivistas estão sempre buscando seus exemplos nas tribos que viveram em ambientes inóspitos, onde a fuga ainda era uma opção. Isso inclui os Bosquímanos e Pigmeus do sul da África, os povos que viveram no Alaska, e os Selk’nam (Embora não se dão conta de que eram “sexistas” e tinham hierarquia na forma de Xamãs. Talvez também irão reconsiderar estes selvagens e excomungá-los da “comunhão dos saltos selvagens”). Isto é, eles são selvagens relativamente “pacíficos” onde a guerra contra a civilização não era possível ou necessária. Mas essa não é a nossa situação.

Os eco-extremistas, por outro lado, buscam seus exemplos históricos em situações que correspondem a nossa situação atual, especialmente nos Teochichimecas antes e após a conquista da Mesoamérica, os Yahi na Califórnia, Estados Unidos, os Seri dos desertos de Sonora no México, os Apaches, os Comanches, etc,. Em suma, todas as tribos que estavam em uma guerra até a morte contra a civilização, as que empregavam o ataque indiscriminado, o roubo, o terror, e outras táticas de guerra total. Os anarco-primitivistas querem atuar como se estivéssemos em um tempo mais ou menos pacífico, e dizem que primeiro devemos “convencer as massas” para fazer uma “mudança social”. Dizem que ainda nos resta “tempo” e “esperança”. Essa etapa para o eco-extremismo já passou há muito tempo, assumindo que já foi em algum momento uma opção verdadeira, o que é duvidoso.

Os anarcos dirão que essa opinião é “niilista”, e talvez estejam certos. Não temos problema algum com o rótulo de “niilista”. Mas se nós somos niilistas, também eram as mulheres e homens que se lançavam desde o alto da montanha para converter-se em projéteis humanos contra os espanhóis na Guerra do Mixtón em Zacatecas, e as tribos que preferiam se afogar em um rio do que serem levadas como escravas, ou os milhares de guerreiros que preferiram lutar até a morte contra o invasor. Se não ser “niilista” significa ter que esperar até que as massas te deem a sua “benção” para atacar, ou te impedem de atacar porque viola os “valores igualitários das tribos nômades caçadoras-coletoras” [que não existem], ou te obrigam a ceder antes de lutar porque não há probabilidade de “ganhar”, bem, repetimos, somos niilistas e ponto final. Não temos interesse em nos converter em hippiers vivendo em comunas no Alaska e, ao mesmo tempo, fingir “lutar contra a civilização”. Se esta é a “Primal War” como diz Kevin Tucker, (a guerra primal) é mentira e os anarco-primitivistas devem pelo menos admitir isso.

Campamocha

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