Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez

Extraído do blog Malpaís. Traduzido por Anhangá.

Para colocar mais conteúdo neste blog, e também para se concentrar no ponto de vista eco-extremista, ocasionalmente, colocaremos resumos de livros, especialmente de livros que talvez possam ser inacessíveis para a maioria dos eco-extremistas e seus cúmplices hispanofalantes. Começamos com o recente livro do professor mexicano-estadunidense de História pela Universidade da Califórnia Davis Andrés Reséndez, chamado “The Other Slavery: The Uncovered Story of Indian Enslavement in America” (A Outra Escravidão: A História Relevada da Escravidão Indígena na América). Este livro recém publicado tem muito haver com temas discutidos na Revista Regresión e em outros textos, e em alguns assuntos mais conhecidos na América Latina em comparação com terras anglófonas. Por essa razão, não nos concentraremos em resumir o livro completo, já que muito do conteúdo é ensinado em várias faculdades e até mesmo em escolas como história da colônia e do Vice Reino. Por exemplo, quase todo mundo sabe sobre a escravidão dos indígenas no México e Peru, não é necessário abordar esta questão novamente.

Deve-se notar, no entanto, que tem havido bastante “revisionismo” entre os teóricos sobre o progresso da civilização no que hoje é conhecido como “as Américas”. Os escritores estadunidenses Charles Mann no livro “1491” e Jared Diamond em “Guns, Germs, and Steel” (Armas, Germes e Aço), dão a impressão de que a violência do colonizador foi exagerada em algumas fontes históricas. Neste livro, pelo menos, Reséndez refuta este revisionismo. A conquista era tão sangrenta como Bartolomeu de las Casas e outros escreveram.

No entanto, não queremos permanecer no âmbito de fazer os pobres indígenas como “mártires”, que é o que o discurso esquerdista faz com seu culto ao “nobre selvagem”. Queremos aqui concentrar-nos nos trechos do texto que compliquem a questão o suficiente. Em seu capítulo “Powerful Nomads” (Nômades Poderosos), Reséndez descreve o papel da introdução do cavalo nas tribos de caçadores-coletores.

O autor escreve:

“Os exemplos mais dramáticos da reinvenção índia ocorreram no que é hoje o sudoeste americano. Muitos fatores levaram os indígenas daquela região a se tornarem traficantes [de escravos]. A atividade contra a escravidão da coroa espanhola e as proibições legais contra a escravidão dos índios dissuadiram alguns caçadores de escravos no norte do México, deixando espaço para que outros retomassem o papel. Além disso, as rebeliões do século XVII que culminaram na Grande Rebelião do Norte, restringiram a troca de escravos indígenas e abriram mais lugares para a caça de escravos, criando mais oportunidades. Mais importante, a utilização de cavalos e armas de fogo se acelerou naquela época, dando a alguns índios a capacidade de escravizar outros povos. Os novos traficantes, novas vítimas e novas rotas para o transporte de escravos surgiram nos séculos XVII e XVIII. Algumas comunidades nativas experimentaram um processo da “desterritorialização”, como chamou Cecilia Sheridan, deixando suas terras ancestrais, juntando-se com outros grupos, e reinventando-se como bandos móveis capazes de operar em longas distâncias. Ganhavam a vida com o comércio de pilhagem da guerra, incluindo cavalos e cativos.”

No sudoeste do que hoje é conhecido como “Estados Unidos”, sobretudo nas Grandes Planícies (Great Plains) no centro do país, houve uma “revolução do cavalo”. Não era uma questão de introduzir o comportamento bélico nos povos que eram historicamente caçadores-coletores, melhor, os índios itinerantes fizeram tudo o que os povos com cavalos fizeram (mover-se, caçar, participar do comércio, fazer guerra, etc.). Era apenas uma questão de “fazer melhor”.

Algumas tribos se beneficiaram mais do que outras, e essas tribos geralmente escravizaram outras, incluindo outros caçadores-coletores e povos que praticavam a agricultura. Os Comanches foram um exemplo de uma tribo “menor” que se converteu em um grande “império caçador-coletor”, que ganhava suas riquezas de saqueamentos e assaltos. E a atividade mais lucrativa foi o comércio de escravos. Embora a escravização dos índios fosse ilegal no império espanhol, a lei era geralmente ignorada.

Os Comanches, em particular, caçavam escravos para trocá-los por cavalos, rifles e navalhas de metal. Mas também incluíram alguns escravos em sua sociedade. Geralmente nos roubos, os Comanches matavam a todos os machos adultos, mas levavam os meninos e as mulheres que poderiam servir para aumentar a sua quantidade. Como povo poligâmico, um guerreiro poderia ter muitas esposas, até dez ou mais se tivesse muito êxito na guerra. As mulheres não serviam apenas para o prestígio ou gratificação sexual; ter muitas mulheres também era útil porque um guerreiro podia matar muitos bisontes em apenas uma hora, e era o dever da mulher processar a carne dos animais mortos, o qual era um processo muito trabalhoso.

Reséndez descreve a preparação para uma incursão que indicava que um grupo de guerreiros iria desfilar publicamente com os seus cavalos, de modo a irem convidando outros a se unirem. Grandes espetáculos de cavalos e adornos pessoais foram vistos naquela época, a força e a valentia dos guerreiros foram avaliadas para determinar o potencial êxito da incursão. Uma dança de guerra precederia o ataque, que poderia se espalhar longe no México, a certa distância do território Comanche.

Reséndez descreve uma incursão significativa em meados dos anos 1800:

“As testemunhas enfatizaram o sigilo nos ataques dos índios, que em um instante poderiam transformar uma boa noite de sono em uma cena surrealista de caos absoluto com gritos de “Os Bárbaros!”, disparos, cavalos galopando, e flechas voando. Fazendas periféricas, casas isoladas e pastores que exerciam seu comércio em áreas remotas eram presas fáceis. Mas os guerreiros Comanches às vezes se dirigiam também às grandes cidades do México. Em dezembro de 1840 e janeiro de 1841, um grupo de atacantes indígenas passou duas semanas assaltando fazendas nas proximidades de Saltillo, a capital do estado de Coahuila, movendo-se de uma fazenda a outra, como se estivessem desafiando completamente qualquer consequência mexicana. Em uma proeza da “audácia inconcebível” como a imprensa mexicana os qualificou, apareceram bem nas imediações da cidade antes de serem expulsos apressadamente pelas autoridades mexicanas. Da mesma forma, em agosto de 1846, durante um dos ataques mais ousados e descarados de todos, cerca de quinhentos Comanches cortaram uma faixa através de Chihuahua e Durango. George F. Ruxton, um inglês que viajava pelo norte do México naquela época, nos deixou um retrato sombrio: “ranchos abandonados, estradas intransitáveis e povos barricados, vivem com medo de ataques dos índios.” Quando ele chegou a cidade de Durango, em Setembro, se surpreendeu ao saber que a conversa daqueles 18 mil habitantes da cidade não era sobre o curso da batalha Estados Unidos–Guerra Mexicana, mas de uma possível invasão dos Comanches que haviam estado devastando as fazendas no nordeste da cidade do século”.

Os Comanches não eram a única tribo que realizava invasões. Reséndez fala dos Apaches e Utes que também se alimentavam de outros índios e dos não-índios igualmente. As histórias de Mangas Coloradas e Gerônimo são amplamente conhecidas e exigem pouca descrição aqui. Os Apaches se diferenciavam de outras tribos em que, até o século XVII, eram algumas das piores vítimas da escravidão dos espanhóis para trabalhar nas minas de prata do norte do México. Após a chegada do século XIX e da República Mexicana, esforçaram-se para se tornar sedentários e agricultores, mas devido à diminuição da presença militar na fronteira mexicana, começaram rapidamente a fazer das invasões uma forma de vida, como muitos de seus vizinhos. Eles ferozmente se enfrentaram com os militares mexicanos que muitas vezes terminaram em combates corpo a corpo, e como em muitos outros casos, os homens escravos foram mortos ou escravizados pura e simplesmente, enquanto que as mulheres e os meninos muitas vezes dissolvidos na comunidade Apache.

Os cativos nem sempre foram tratados muito “humanamente”, no entanto, esta não é a história de Matilda Lockhart, capturada pelos Comanches e depois, “devolvida à civilização”:

“…tinha hematomas e feridas por todo o seu corpo, e seu nariz havia sido cortado, suas fossas nasais abertas e despojadas de carne, especialmente o nariz, e estavam a gritar e a rir como demônios quando ela chorava.” “Muitas vezes sequestravam estes prisioneiros, especialmente se tivessem meios para o resgate. Os mórmons, ao chegar a Utah na metade do século XIX se encontraram com o chefe Walkara dos Ute, que segundo o líder mórmom Brigham Young, nunca foi sem “uma quantidade de meninos índios escravos”. Young comentou que, “eu vi seus escravos tão emaciados que não eram capazes de ficar de pé. Ele tinha o hábito de amarrá-los fora de seu acampamento à noite, nus e com necessidade de comer, a menos que fosse tão frio que pensasse que iam morrer de frio.” “Os meninos de Walkara foram literalmente descritos por outra testemunha como “esqueletos vivos”, “literalmente mortos de fome por seus captores”.

Walkara foi chamado, o “Falcão das Montanhas”, vendia as crianças indígenas de outras tribos como os Paiute por armas e outros bens da civilização. Ele cavalgava e negociava em lugares distantes como a Califórnia, e era conhecido por roubar gado e cavalos, bem como as caravanas. Os recém chegados mórmons o temiam muito e tentaram atender a Walkara e os Utes, mas eram muitas vezes incapazes de deter a sua barbárie. Na tentativa de evitar a venda de crianças indígenas, os mórmons foram testemunhos de uma outra cena horripilante quando o irmão de Walkara, Arapeen, disse a ele que se recusaram a comprar as crianças indígenas que ele vendia:

“Vários de nós estávamos presentes quando ele pegou uma das crianças pelas canelas e tacou seu cérebro no chão duro, depois atirou seu corpo em nossa direção e nos disse que se tivéssemos corações teríamos salvado a sua vida”.

Os Utes também participaram da destruição da tribo Navajo, juntamente com as forças do governo dos Estados Unidos, embora com um elevado grau de autonomia para que pudessem roubar e escravizar os Navajo.

Claro, existem outras partes deste livro que não iremos discutir aqui, que cobrem ditos aspectos da história como a rebelião do povo e ainda uma seção sobre a Guerra Chichimeca, que foi descrita com detalhes na Revista Regresión. A razão pela qual discutimos esse tema no livro em particular é outro golpe ao mito do “bom selvagem”. Os pessimistas, é claro, dizem que as tribos como os Comanches, Apaches, Utes, etc., não se converteram em guerreiros e cruéis até que domesticaram o cavalo e foram atraídos para tornarem-se isso pela promessa de bens dos europeus (pistolas, facas, cavalos, etc.), isso é verdade até certo ponto, mas talvez também levante a questão de que “sempre foram assim”, e a introdução do cavalo e outras novidades, foram apenas mais um manifesto óbvio. A civilização não é a mancha do pecado original na alma do “bom selvagem”, é o meio para amplificar e realizar algo que já está lá, o que faz com que tudo o consuma e desequilibre.

No entanto, nossa tendência não volta atrás apenas na herança selvagem dessas tribos, pelo contrário. Um selvagem não pode escolher o “momento ideal” para ser um selvagem, onde quer que esteja, e agir em consequência. Para o anarquista verde, talvez Mangas Coloradas e Walkara são “vilões” que caíram na armadilha da civilização, escravizando e vendendo seus prisioneiros. O eco-extremismo renuncia a tais “moralidades de ataque”. As vítimas não são “santos de nossa devoção”, não se contraem novamente pela inevitável crueldade da vida. Essas coisas têm que ser assim, e os golpes devem ser devolvidos a base de golpes.

O que é ainda mais revelador é como isso se reflete na utopia do “futuro primitivo do anarquista verde”. Estou certo de que eles mesmos se darão uma lobotomia a fim de desdomesticar o cavalo, esquecer como usar armas de fogo e metal, e se tornar completamente nômades que andam apenas a pé, porque caso contrário, isso levaria a “hierarquia”, e não podemos chegar a isso. Também se esquecerão dos reatores nucleares, aviões, naves espaciais, etc., etc. Portanto, um bando do “futuro primitivo” nunca poderia cair na venda de crianças esqueléticas em mercados de escravos e açoitar crânios de crianças pequenas quando as pessoas se neguem a comprá-las… Não, eu tenho certeza de que estes “anarquistas verdes” preservarão sua “pureza de coração” em mundo tecno-industrial depois do colapso, ao contrário de pecadores indignos da história, como Gerônimo, Mangas Coloradas, Walkara e o resto dos repreensíveis de salvação na história anarquista…

Os Eco-extremistas são selvagens no aqui e agora, atacam no aqui e agora, usam as ferramentas do presente para lutar contra o que procura escravizá-los e domesticá-los. Isso pode parecer hipócrita, mas pelo menos eles são uma boa companhia. Como qualquer pessoa sensata, eles utilizam as armas à mão para lutar contra o inimigo. Termino esta reflexão com uma passagem de um artigo da Revista Regresión número 3 em relação a este tema:

“Aqui fica respondida a pergunta que foi abordada nesta quarta lição, não podemos nos limitar às antigas ferramentas de guerra apenas porque criticamos este sistema tecnológico, devemos utilizar as armas do mesmo sistema para combatê-lo. Assim como os nativos americanos, os participantes da matança da Pequeno Grande Chifre não se detiveram na utilização destes rifles de repetição, então que nos não nos detenhamos na hora de utilizar a arma moderna que possa causar baixas no inimigo.”

Chicomoztoc, Lua cheia de Julho, 2016

-Arco de Huizache

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