É o Momento de Beijar a Terra Novamente

Texto extraído e traduzido de Reflexiones Eco-extremistas N°3.

“Você nunca pode recuperar uma visão antiga uma vez que tenha sido suplantada, mas o que podemos fazer é descobrir uma nova visão em harmonia com as memórias antigas, distante, longe, remota experiência que se encontra dentro de nós.”D.H. Lawrence

“Todas as coisas estão cheias de deuses.”Thales

“Uma existência, uma música, um organismo, uma vida, um Deus: -Estrela de fogo e rochas fortes, o fluxo frio do mar, E a alma escura do homem.”Robinson Jeffers

Durante as últimas três décadas o anarco-primitivismo tem sido a forma dominante da crítica anti-civilização. Neste período a crise da sociedade tecno-industrial intensificou-se a níveis antes inimagináveis. Para aqueles de nós que somos inimigos da civilização temos a certeza do problema, mas a solução não está tão clara. Muitos anarco-primitivistas adotaram as táticas de outros anarquistas; destruição da propriedade, sabotagem, tree-sits*, vandalismo e outras formas de ação direta. A ideia subjacente que motiva estas ações é que com o tempo as pessoas “despertem” e reconheçam o caráter opressivo da civilização. Como tal, o anarco-primitivismo se orienta como um movimento essencialmente político. Neste ensaio vou argumentar que a crítica à civilização deve ser libertada de toda política e reformulada solidamente dentro do contexto da religião e da espiritualidade, que o primitivismo deve se separar do anarquismo.

Embora reconhecendo, sem dúvida, o seu impacto sobre o mundo natural, o anarco-primitivismo tende a enfatizar as formas que a civilização é prejudicial para a humanidade: a alienação, a pobreza, a depressão, os fuzilamentos em massa. As sociedades de caçadores-coletores são apresentadas como um modelo ideal para a felicidade humana e a perfeita igualdade [no anarco-primitivismo], enquanto que todas as formas de injustiça social estão ligadas à civilização. A civilização, em outras palavras, é essencialmente apresentada como um problema social. É conceitualizada como uma forma particular de organização social que produziu uma série de circunstâncias indesejáveis. Neste sentido o anarco-primitivismo não é diferente do socialismo ou qualquer outra filosofia social do iluminismo que apresenta uma visão da sociedade sem sofrimento. Sua crítica da civilização é baseada no que é melhor para a humanidade.

Isso é um problema porque na raiz da consciência civilizada existe a ideia de que os seres humanos são a coisa mais importante do universo. Portanto, se os anarco-primitivistas seguem concentrando sua crítica da civilização sobre seus efeitos nocivos à humanidade e continuam considerando a sociedade caçadora-coletora como um paraíso igualitário eles estarão, em última instância, perpetuando a crença de que o que ocorre na humanidade é mais importante do que qualquer outra coisa.

É verdade que, na ausência da civilização muitos seres humanos seriam mais saudáveis e mais felizes do que são agora? Provavelmente sim. O problema com este ponto de vista não é que a humanidade seja valorizada, mas que ela seja valorizada acima de tudo. Remover o anarquismo ou o elemento da justiça política ou social da crítica à civilização não quer dizer que o sofrimento dos seres humanos são é importante. Este sofrimento é simplesmente colocado em um contexto maior, muito maior. O sofrimento de um ser humano não é mais nem menos importante que o sofrimento de uma mosca. É desnecessário dizer que, como seres humanos, naturalmente experimentamos o sofrimento de nossa família e amigos mais intensamente que o sofrimento de uma mosca. Por fim, isso não quer dizer que seja mais significativo, seja como for.

Se aceitarmos que a vida de uma mosca ou de um pedaço de musgo é tão importante como a vida humana, como suspeito que a maioria dos anarco-primitivistas fazem, também devemos aceitar que deixamos para trás o campo da política. Neste contexto, as preocupações da sociedade humana, as lutas específicas de um grupo particular, são irrelevantes. Amo a terra mais do que amo a humanidade. O núcleo desta posição é uma atitude fundamentalmente religiosa que acredito que os primitivistas deveriam adotar.

O animismo é a crença de que todas as coisas naturais –não feitas pelos seres humanos– tem alma: árvores, samambaias, grama, rios, montanhas, pedras, assim como todas as criaturas. Tudo no mundo é sagrado e nem mais nem menos que qualquer outra coisa. Esta compreensão de santidade não depende de nenhuma ideia em particular de um Deus, é simplesmente o reconhecimento da divindade em todas as coisas. E esta divindade não precisa ser fundamentada ou provada. Como os antigos Daoístas entendiam, qualquer tentativa de dizer “o que quer que seja” deve estar condenada ao fracasso. O dao que pode ser chamado não é dao. Nós, como criaturas da civilização, fomos condicionados a aceitar o nada sem definições precisas e a lógica convincente. Este desejo é o desejo do cientista, do engenheiro, do técnico. Da mesma forma, a alma que pode ser nomeada não é alma. Qualquer definição de alma ou da divindade que existe dentro de todas as coisas deve necessariamente ser irremediavelmente limitada pela consciência e a linguagem humana. Embora talvez possamos dizer, como os antigos gregos, romanos, hindus, judeus, chineses, e outros, que o conceito de alma ou de espírito está relacionado com a respiração. E, se a mente está calma e se escuta com atenção podemos perceber o sopro das rochas, os fluxos, as areias do deserto.

Historicamente, o animismo tem sido ligado a lugares específicos, montanhas, rios específicos. Existem tantos animismos diferentes já que existem diferentes tribos e povos. Como tal, qualquer animismo em particular não pode ser universal. O animismo de uma tribo específica dos povos da América Central não pode ser o mesmo que o de uma comunidade particular de escandinavos ou mongóis. Nesse sentido, no entanto, podemos pensar no koan zen**: o dedo pode apontar a localização da lua, mas o dedo não é a lua. O dedo pouco importa; a lua é realmente a coisa. Em outras palavras, os espíritos animistas particulares de uma comunidade em particular são apenas o dedo. Devemos olhar para a lua: a santidade universal da Terra.

Até agora o anarco-primitivismo insistiu em participar do campo dos argumentos intelectuais. Apesar dos críticos da civilização rechaçarem as estruturas sociais e culturais que dominam as nossas vidas, há uma forte tendência a aceitar tacitamente certos modos de pensamento civilizado, ou seja, o secularismo e o empirismo. Em muitas literaturas anarco-primitivistas produzidas por escritores seminais como John Zerzan e Kevin Tucker, existe uma clara demonstração do compromisso com a verdade através da apresentação da evidência empírica válida e lógica persuasiva. Eles fazem isso apelando para a razão. Os argumentos são construídos e implantados. Os dados recolhidos por especialistas são citados cansativamente. Estas são as ferramentas do professor, ferramentas civilizadas, e a história é o cemitério das ideologias que se acreditavam imunes à influência das ferramentas táticas que utilizaram.

Os anarco-primitivistas tentam “expor seus argumentos” para aqueles que não rejeitam a civilização. As pessoas que abraçam a civilização não o fazem já que não tem “os fatos”. Podia-se até mesmo apresentar milhares de fatos que “demonstrem” a felicidade relativa e a felicidade em uma vida do caçador-coletor que nenhuma pessoa sequer estaria disposta a abandonar seu modo de vida atual, ou mesmo conceder que a crítica à civilização tem mérito.

Em última instância, não importa o que os caçadores-coletores fizeram ou não fizeram. Não importa quais sociedades históricas eram autoritárias ou cultivavam milho. A crítica à civilização não deve se basear nestes argumentos. A crítica à civilização deve ser feita com base em crenças nos espíritos da Terra. A civilização não é ruim porque faz grupos humanos objetificarem-se e sofrerem. O sofrimento é uma parte inescapável da vida e não precisa ser lamentável. A civilização é ruim porque é uma guerra contra os deuses.

Em seu fervor para convencer a outros anarco-primitivistas se tornam cada vez mais dogmáticos. Eles fazem birras contra os “esquerdistas”, discutem coisas sobre o veganismo, debatem sobre os méritos relativos das economias de retenção imediata frente as economias de retorno de atraso, travam intermináveis disputas relativas à moralidade da violência, se deleitam e se desesperam alternativamente na cara das novas tecnologias aberrantes. Como tal, a crítica à civilização é absolutamente solipsista. E não se trata simplesmente dos anarco-primitivistas tentarem teorizar intermináveis coisas, mas também de nenhuma tentativa de aplicar a prática. As poucas ações que são vistas, como já falamos anteriormente, não tem sentido e são apenas simbólicas nos termos mais amplos e vagos. É hora de deixar isso para trás. Não importa o que dizem os filósofos, não importa o que dizem os cientistas. Temos que aceitar que nossas crenças são de natureza religiosa e dependem da fé.

Chegou a hora de reafirmar a espiritualidade baseada na natureza de nosso passado coletivo humano. Se o mundo natural não é sagrado, então por que é importante? A única alternativa é dizer que o mundo natural é importante porque dependemos dele para a nossa própria sobrevivência como espécie. Seria dizer, como já discutimos anteriormente, que a humanidade é realmente o que nos importa e nada mais, que o mundo natural é importante para nós apenas na medida em que serve a nossas necessidades. Qualquer argumento para o valor inerente de todas as coisas naturais pode ser feitos apenas a partir de razões espirituais.

É hora de parar de escrever livros pseudo-científicos, ensaios e artigos, de lutar contra policiais, de organizar protestos, de destruir caixas eletrônicos, e de tacar fogo em objetos. Estas são as táticas daqueles que desejam melhorar a sociedade humana para determinados grupos de seres humanos. Estas não são ações que refletem a crença de que a vida natural é sagrada.

A humanidade não mudará seu destino através da ação. Não através das ações dos governos e das empresas, não através das ações dos movimentos de massa, e certamente não através das ações de um punhado de anarquistas insatisfeitos. O destino da humanidade está selado. O mundo é conhecido há 10.000 anos e não durará. É tolice e fútil tentar prever a natureza de um colapso ou de imaginar que mundo continuará. Isso vai ser bom? Vai ser ruim? Não importa. Se produzirá, e a humanidade se verá obrigada a responder a isso. Talvez a sociedade humana tenha futuro de alguma outra forma. Talvez a humanidade seja completamente extinta.

O caminho sempre esteve claro para os que escolheram ver. Devemos fugir da civilização e das coisas da civilização. Há que ir para a floresta e nunca sair. Devemos reunir nossas almas com as almas das árvores, das rochas, das correntes, da sujeira. Devemos meditar sobre nosso lugar no cosmos. Ao fazê-lo, não mudaremos o destino deste mundo, mas seremos, por fim, fiéis à nossa natureza mais uma vez. O mundo dos caçadores-coletores paleolíticos se foi para sempre. Não podemos voltar ao passado. Mas os deuses que uma vez conhecemos ainda estão esperando por nós nos lugares selvagens do mundo. Se formos a eles, nos abraçarão.

Notas:

*Tree-sits: Parte do ativismo ecológico que consiste em sentar e acorrentar-se às árvores para impedir que sejam cortadas.

**Koan Zen: Um Koan é um problema que o professor passa a seus alunos para comprovar seu progresso.

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