“Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã

Extraído de Reflexiones Paganas.

Hoka Hey!” (em língua Dakota: “Hoje é um bom dia para morrer!”), foi um grito de guerra que se escutou nas proximidades do rio Pequeno Grande Chifre, no território de Montana, Estados Unidos, no final de Junho de 1876, quando ocorreu a célebre batalha entre Tasunka Witko (“Crazy Horse” ou literalmente: “Cavalo Louco”, 1840 – 1877), o grande guerreiro e chefe da tribo Sioux Oglala e o infame comandante do 7° Regimento da Cavalaria dos EUA, o Tenente-Coronel Coronel George Armstrong Custer.

O primeiro, comandando os bravos guerreiros de sua tribo natal, lutando por sua terra e seu direito de viver em liberdade; o segundo, um genocida e racista, com pretensões políticas para a Casa Branca, e que não hesitou em matar centenas de homens, mulheres e crianças aborígenes americanas e violar a todos os tratados existentes para atingir os seus objetivos.

Mas o propósito desta nota não é narrar dita batalha, nem como “Cavalo Louco” fez justiça ao seu povo e herança cultural ao aniquilar seu inimigo, os “wasichus” ou invasores brancos, mas sim para resgatar aquele grito, para dar nome a uma virtude pagã esquecida: a de saber morrer bem.

Guerreiro Sioux Oglala. Assim surgiria Tasunka Witko (Cavalo Louco).

Saber Morrer é Tão Importante Como Saber Viver

O humano moderno, independentemente da cultura nativa, a religião que pratique ou o nível de educação que tenha, geralmente esqueceu do fato mais importante da Vida: A Morte. Tentamos não pensar sobre isso e deixar mensagens nos cemitérios e lugares de respeito e lembrança dos falecidos, qualquer pensamento ou sentimento a respeito.

Um saber inestimável foi perdido, um conhecimento transcendente: a ideia de que vivemos para a morte, que nossas vidas são menos que um lampejo na Eternidade, que a poeira e o esquecimento é o destino dos homens. Um conhecimento que esteve presente desde os primeiros escritos humanos, como o que segue:

«Gilgamesh, por onde você vagueia? Não encontrará a vida que procura. Quando os deuses criaram a humanidade, separaram a morte dela, retendo a vida em suas próprias mãos. Você, Gilgamesh, encha a sua barriga, aproveite o dia e a noite. Cada dia celebra uma festa de alegria. Dança dia e noite e brinca! Certifica-se de que as suas roupas sejam novas, lava a sua cabeça; banha-se na água. Cuida do pequeno que pega na sua mão. Que sua esposa se deleite em seu seio! Porque essa é a tarefa da [humanidade]!»

(“Poema de Gilgamesh”, Tábua X, Coluna III – h. 1500 a.C.)

No entanto, apesar da inegável realidade do que precede, o paganismo ancestral, em quase todas as suas tradições, propunha uma visão corajosa e realista diante do destino final que espera a todos nós. Não propunha a visão de se lamentar, de ocultar o temor ou manter distante todo o pensamento sobre o final da existência, mas, muito pelo contrário, usar este conhecimento como uma ferramenta para viver plenamente, para ser feliz e tirar o máximo proveito dela e desfrutar a vida.

Não se trata de nenhuma verdade “revelada”, de nenhum conhecimento “iniciático” ou “arcano”. Não é necessário realizar viagens exóticas ou longas meditações, para poder vivê-la… Somente a partir da simples sabedoria do senso comum, emanada daqueles homens e mulheres que, por milhares de gerações, viram a Morte diante de seus olhos, desde muito próximo. Não em hospitais esterilizados e pintados de branco, mas em qualquer momento e lugar, de maneira violenta, quando havia guerras, saqueios ou ataques de predadores; de um modo sub-reptício e silencioso, quando chegavam as pragas ou a escassez.

Aquelas pessoas antigas aprenderam a viver com a Morte seguindo seus passos desde muito perto e justamente por isso costumavam ser, às vezes, mais felizes que nós (nem sempre nem constantemente, porque a felicidade permanente é apenas uma quimera) e também ter vidas plenas e energéticas.

Esse conhecimento que os ancestrais nos deixaram e que foi esquecido pela cultura moderna, não é inacessível, mas requer apenas um mínimo de contemplação da existência e de nosso papel nela. É realmente simples: devemos estar preparados para morrer nos dias de hoje, viver cada dia como se fosse o último.

Isso, por si só, fará com que você viva com intensidade cada momento, valorizando cada minuto, ciente de cada segundo. Se você não abandonar a ideia de que a morte está próxima, a vida é vivida com intensidade, com a percepção aguçada e aumentada, com plena consciência de cada momento.

O pagão considera a si mesmo um guerreiro. Não porque busca a violência ou a guerra, mas porque está sempre preparado para lutar contra os obstáculos da Vida e contra as injustiças dos homens. Como tal, tem medo da morte como qualquer outro ser finito, mortal… Mas sabe que antes é preferível enfrentá-la com integridade do que viver como um roedor assustado, escondendo-se nos cantos mais sinistros pelo simples fato de tentar viver um segundo a mais.

Para viver bem é preciso saber morrer bem e para morrer bem, é preciso ter vivido bem. Esta simples verdade é muito pouco reconhecida e valorizada pelos sistemas de crenças dominantes. Tanto pelas religiões (supostamente) “reveladas”, como pelas ideologias e filosofias de corte humanista (predominantemente ateias).

A morte é o evento humano que mais significado dá a vida, não só porque é algo único, algo que ocorre apenas uma vez e não pode ser revertido, mas porque é o epílogo de toda a existência, o final da história pessoal de cada indivíduo. A morte é a “graduação” da Vida, o fim da estrada.

Todos os humanos querem ter uma vida boa, cheia de prazeres, conquistas e satisfações. No entanto, mesmo sabendo que todos nós teremos a última hora, pouco são aqueles que se preocupam em ter uma bela morte.

Os antigos romanos tinham um saudável costume: quando seus heróis e generais desfilavam de frente para a plebe pelas ruas de Roma, em seu momento de maior glória, depois de alguma campanha vitoriosa, sempre havia um escravo atrás dele, que segurava a coroa de louros sobre sua cabeça, mas também lhe sussurrava ao ouvido: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Alguns acreditam que, com base no escritor cristão Tertuliano, a frase na verdade era: “¡Hominem te esse memento!” (“Lembre-se que és apenas um homem”), mas esta última versão é tardia e desconecta do propósito original.

Com essa ação, os romanos (e talvez primeiro os Sabinos, de onde se supõe que se originou o costume) queriam recordar o herói, o poderoso, que sua realização era efêmera, tanto para que não abusara da fama e do poder ganho, como para que não perdesse de vista o seu destino.

Há um velho provérbio que diz: “Se vive com dignidade, não se morre com ela, porque nenhuma morte é digna”. Mas isso é falso, já que não é a própria morte o que geralmente tememos ou rechaçamos e que podemos aceitar e tentar conscientemente experimentar, mas o seu prólogo. A Morte, seja o que for que implique para o Ser, se é o passo para o outro “plano” ou a aniquilação total e final, não é “o ato de morrer”, mas sua consequência. O “ato de morrer” é o que todo humano pode realizar com dignidade ou catástrofe; com consciência ou sem ela; com coragem ou covardia.

São estes minutos “antes e durante” o processo que definem o que foi dito anteriormente, o ato de morrer, o epílogo da vida e não o que ocorre depois disso, que já é desconhecido para o Homem, nem é relevante para a existência terrena quem foi um indivíduo durante os dias de sua vida.

“Memento Mori” (“Lembra-se que Morrerás”)

A Morte é o propósito da Vida, não há nada na Natureza que seja imortal, imperecível, permanente. Para os pagãos, até os deuses acabam morrendo com os éons da Eternidade. Os universos, os planos do ser e tudo o que existe deve deixar de existir, mas não em vão, e sim para dar lugar a um novo começo, a uma nova vida e a um novo Cosmos.

A física moderna mostrou que a energia não se perde. Isto é formulado pela 1ª Lei da Termodinâmica (também chamada de “Princípio da Conservação da Energia”), que muitas vezes é tomada de forma distorcida e interpretada como: “Nada se cria, nada se perde; tudo se transforma.”, postulado pelo químico francês Antoine-Laurent de Lavoisier (1743 – 1794), mas tomada como evidência da imortalidade da alma ou a essência do Ser.

Tal coisa é errada, porque enquanto a energia nunca desaparece nem é aniquilada, existe uma 2ª Lei da Termodinâmica, também chamado de “Entropia”, que dita que a energia sempre que passa por alguma transformação, vai degradando-se, ao ponto de que (como hoje em dia é conhecido cientificamente) o Universo acabará, depois de incontáveis milhões de anos, como um incomensurável páramo escuro e frio, muito maior do que hoje em dia e irá conter apenas fótons de energia muito baixa, incapazes de gerar luz ou calor. Algo como os últimos cadáveres de energia e matéria que atualmente compõem as galáxias, os sóis; os planetas e os seres vivos.

Este conceito é odiado e temido pela maioria dos filósofos e teólogos otimistas, porque os obriga a considerar a extinção final de todas as coisas, até mesmo do Universo. No entanto, no Paganismo, não existe essa preocupação, porque a concepção cíclica garante que, de uma forma ou de outra, tudo voltará a começar enquanto os indivíduos desaparecerão, a Natureza continuará para sempre.

Mas, no entanto, há algo que a física conhece e que raramente capta o interesse dos “crentes” de qualquer sistema espiritual ou dos filósofos propensos à metafísica, porque todos estes estão apenas interessados na possível sobrevivência da “alma individual”. Hoje sabe-se que “a informação nunca se perde“. Mas, que significado ou importância isso pode ter para os seres humanos? Nada mais e nada menos que o conhecimento (não a crença ou a superstição, mas o saber real) de que todo trabalho, todo pensamento, todo acontecimento desde sempre e até esse estado final da existência, descrito anteriormente, jamais desaparecerá.

Essa informação pode ou não ser acessível ao Homem (por enquanto não é se está “no passado”, mas nada impede que a evolução da tecnologia e da consciência nos permita acessá-la algum dia), mas jamais desaparecerá, dando-lhe com isso uma profunda e tremenda importância e significado a cada segundo de nossas vidas, a cada palavra, a cada interação.

Isso dimensiona a Vida de maneira diametralmente oposta a como a colocam os sistemas hegemônicos de crença e pensamento: a vã busca da imortalidade, a absurda ideia do “perdão e o esquecimento” das más ações; dos fracassos e misérias, é apenas produto da fraqueza de nossa memória, mas de modo algum implica que o que aconteceu mude, se modifique, se resolva ou possa ser compensado.

Nossas vidas são evanescentes, efêmeras… Mas os acontecimentos nelas, nossas ações, reverberam na Eternidade…

Não é na imortalidade onde o pagão deveria concentrar as suas energias e o seu ponto de vista, sem que isso implique negar a sua possibilidade ou mesmo a sua realidade, mas no legado que deixa e deixará à memória da Humanidade, e também a essa outra “memória” indestrutível e eterna do próprio Universo, da Existência. Se você quiser, coloque de uma forma poética, na memória dos deuses, que jamais sofrerá o “esquecimento”.

Não se trata de viver “no passado” ou “para o passado”, mas de fazer bom uso do presente e de terminar a “batalha da vida”, mas vitoriosos, ao menos com dignidade e honra, com a maior consciência possível de si mesmo e do que foi deixado para trás.

A Morte não deveria nos assustar, essa amiga benevolente, que levará consigo toda a dor, toda a ansiedade e toda a miséria. Toda a dor está na Vida, não na Morte. Deveríamos nos preocupar com o modo como percorremos o caminho da Vida e como encerramos esta jornada, como damos um final a nossa história pessoal.

Todos nós queremos viver 100 anos, é lógico, mesmo visto do ponto de vista daqueles que pretendem dar um significado transcendente às suas existências. Uma vida curta implica em menos tempo para fazer, alcançar e aproveitar. No entanto, e muitas vezes, isso geralmente é uma falácia… Quantos milhões de seres vivem 80 ou 90 anos sem que suas vidas tenham algum significado, sem haver conhecido a si mesmos, sem haver evoluído suas consciências; sem ter deixado legado algum a suas famílias ou amigos próximos, a sua cultura ou a Humanidade?

É comum ver a dor e as lágrimas dos mais velhos pela morte dos jovens. Isso é lógico quando se trata de seres a quem o Destino negou a obtenção de uma vida suficientemente longa, para ser significativa e memorável. Mas estas pessoas choram também pelos heróis caídos, pelos notáveis falecidos, pelos ícones reivindicados por Thánatos.

Tal coisa demonstra a indolente ignorância em que a maioria vive. Não se pensa que, talvez, esse falecido tenha cumprido com sua vida e o seu destino, que deixou algum legado (não importa o quão grande ou pequeno) a seu entorno e que se jamais é esquecido, não deveriam chorar por ele, mas glorificá-lo.

A cada pagão lhe é apresentado em algum momento da vida o dilema de Aquiles: Viver uma vida longa e medíocre, sombria e esquecível ou uma curta e gloriosa, que jamais será olvidada. Livre como é cada ser humano de poder viver sua vida como melhor lhe agrada, não é digno de chamar a si mesmo de pagão aquele que pretende transcorrê-la de forma medíocre e regozijar-se nela.

Não se trata de desejar ou propiciar uma vida curta ou uma morte dramática. Não é o suicídio, direto ou indireto, o caminho do paganismo. Se trata é de não escolher por viver mais, mas de viver melhor. Aquiles não optou por uma vida curta porque queria morrer, e sim porque não queria viver em vão.

Muitas pessoas se comovem e valorizam aqueles seres patéticos que se agarram à vida, mesmo nos últimos momentos de agonia, só para viver mais uma hora. Esse tipo de “resistência” não é uma virtude, mas o efeito ou a expressão do medo e da ignorância. Uma coisa é não aceitar a morte sem lutar, porque ninguém sabe se realmente é seu destino morrer naquele momento, e outra muito diferente é não saber aceitá-la com serenidade, dignidade e alegria, no momento em que já não restam dúvidas do que virá.

Um verdadeiro pagão deve fazer de cada jornada “um bom dia para morrer”, não buscando que esta seja a última, mas tampouco escapando da vida, do destino ou dos desafios que se apresentam para tentar evitar que esse seja o último dia. Aceitando que, a qualquer instante, o momento funesto pode chegar, viverá a cada um com a intensidade do herói, do guerreiro.

Se trata apenas de pensar para nós mesmos: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Assim como fez Cavalo Louco naquela batalha em que sobreviveu e da qual queria sair com vida. Seu grito não implicava: “Hoje é o dia em que quero morrer“, mas: “Nenhum dia de minha vida seria melhor do que o de hoje para que a morte viesse a mim“.

Uma vida assim vivida é uma vida que valerá a pena e que produzirá um sorriso final, no momento de fechar os olhos pela última vez. É claro, quase ninguém poderá alcançar isso plenamente, mas sim tentar atingir dito objetivo com todas as suas energias e com toda a sua vontade.

Heróis e Mártires

Não temos que nos confundir-nos muito, entre a ideia de morrer lutando por um ideal e a de deixar-se matar por ele mesmo. O segundo, o “martírio” pode ou não ser algo meritório, depende da forma que se olhe. Mas também é uma vida desperdiçada, porque foi entregue sem luta, sem resistência.

Pelo contrário, nenhuma vida é mais significativa e nenhuma morte é mais gloriosa que aquela que deixa esta existência ao defender ou lutar por seus ideais, quando tenta sustentá-los; por proteger aqueles que não podem se defender, por salvar os outros e por promover a justiça, a liberdade e a verdade. Eis aí a diferença entre o herói e o mártir: O herói morre lutando, o mártir se deixa matar.

Todavia há outra diferença nestes dois seres: O verdadeiro herói não espera que outros morram junto com ele, se ele puder evitar outras mortes, o fará. O mártir tenta fazer com que seus iguais o “sigam” em seu infeliz negócio (como é frequentemente visto em muitas seitas alucinadas) e, muitas vezes, como ocorre entre os extremistas muçulmanos modernos ou entre os primeiros cristãos, aspiram levar a maior quantidade de vítimas como eles.

Não é como que, nos tempos modernos, alguém morra em “batalha” mantendo a filosofia de guerreiro. Mesmo aqueles que se veem forçados (ou se volutariam) a participar nas tristemente numerosas guerras da atualidade, raramente morrem por um ideal e poucas vezes tem consciência do porque que estão lutando.

Por outro lado, também ocorre o oposto, entre aqueles indivíduos que matam e morrem cegos por um obscuro e trágico fanatismo (geralmente religioso ou político). Nestes casos, o heroísmo é desconhecido por eles e chegam ao fim impulsionados unicamente pelo ódio e a ignorância.

Não é uma questão de recomendar que hoje ninguém tente ter uma “bela morte”, como os hoplites gregos diziam e que as Kers dos aqueus ou as Valquírias dos Vikings, venham por suas almas. Pelo contrário, trata-se de não buscar uma morte lenta e decrépita, uma longa agonia sem sentido. A “batalha” pode ser para o guerreiro pagão em qualquer parte ou âmbito.

Seria um erro interpretar tudo o que foi dito como um endosso para negligenciar o corpo e a mente, para submetê-lo a vícios ou atividades que o debilite ou degrade. Não há nada mais distante disso que o pensamento pagão: O pagão não teme o excesso, mas tem como regra a moderação. “Nada em excesso” (“μηδὲν ἄγαν”) dizia Sólon de Atenas, que mais tarde se converteria no famoso “credo grego“.

O pagão não tem medo de ser ferido ou morto por defender o que ele acha que é certo, mas em nenhum caso ele quer que isso ocorra. Um velho ditado diz: “Soldado que sobrevive serve para outra guerra”. Isso às vezes é tomado de maneira irônica e se iguala à covardia, mas na verdade não é bem assim. O verdadeiro herói não tem medo de morrer, mas tenta sobreviver a qualquer custo, exceto no caso de que a sua sobrevivência implique no fracasso de seu propósito. Tenta, porque ele sabe que se tiver sucesso ele poderá protagonizar outra vitória futura, outra possível façanha.

E o que dizer do homem “comum”? Aquele que vive dia após dia, enfrentando as pequenas lutas e misérias da existência? Nenhuma consideração muda, exceto que se deixe abater pela rotina; que o automatismo, o tédio e a irracionalidade o vençam.

O “campo de batalha” para o guerreiro pagão pode ser qualquer coisa ou lugar. Um médico pode ser um guerreiro que luta contra a doença, um varredor que luta contra a sujeira, a contaminação e a favor da higiene. Há guerreiros famosos e outros anônimos, mas a diferença não está nisso, e sim na ação pela vida com indolência, com inconsciência ou fazendo com determinação, premeditação e paixão. Mesmo se o caminho tomado é equivocado, é respeitável que ele o faça com coerência e fervor e leve às últimas consequências.

Como dizia Bruce Lee: “O crime não é o fracasso, mas sim deixar de tentar. Em grandes tentativas, até falhar é glorioso.”

A energia é limitada, no Universo, em um sistema determinado ou em qualquer indivíduo. Isto implica que uma vida intensa seja, em geral, mais curta que uma vida lenta e frouxa. Não é uma pergunta de uso comum aquela de “por quê os grandes, os mais valiosos, morrem jovens?”. No entanto, o pagão crê que a versão curta e plena vale mil vezes mais que a longa e medíocre, que 100 anos inúteis ou submetidos a uma vulgar rotina não velem 100 dias vividos com sentido, plenitude e glória.

Os gregos diziam que havia três caminhos para servir aos deuses: O heroico, reservado para poucos; o sacerdotal ou iniciático, que era apenas para aqueles que queriam viver dessa maneira e o do homem comum. Enquanto este último seguisse os parâmetros que os deuses do Olimpo haviam estabelecido para ele, seu destino não seria menos digno do que o do próprio Herakles.

Não se trata então de que o “guerreiro pagão” moderno viva como um Viking, um Sioux, um Espartano ou um Samurai, mas que recorde aqueles valores ancestrais de desafio e força diante da morte e o perigo, e tente adaptá-los a seu tempo e as atividades que ele realiza em seu próprio mundo.

Não é o mesmo que morrer enquanto se vive plenamente, sem importar que seja pelas mãos de outras pessoas, em um acidente, por doença ou o que for, do que deixar de existir (morrer) quando o último alento de vitalidade abandone o corpo após vegetar por décadas, temendo o futuro e com saudades do passado. Essa é a diferença. Quem não deixa um legado na vida, de qualquer tipo, não viveu com dignidade e, portanto, não terá uma morte digna nem haverá dia, por mais que viva 1000 anos, que encontre bons motivos para enfrentá-la.

O Morrer Como Reafirmação do Sentido da Vida

Existe a crença popular de que Sócrates cometeu suicídio. Isto é produto de mentes estreitas, que lendo o “Crítias” e o Fedón”, não foram capazes de compreender a ideia central pela qual o filósofo decidiu aceitar o destino que lhe impuseram as leis atenienses, sem fugir de seu cativeiro ou sem demonstrar resistência, mesmo quando seus amigos-discípulos haviam propiciado tais possibilidades. Alguns outros, talvez a maioria, nem sequer leram estes livros, mas tomam como um “fato” a opinião dos primeiros.

A realidade é que, ao menos se nos basearmos nos escritos de Platão, seu amigo e discípulo direto, Sócrates deu sua vida pelo que acreditava. Não por um sentimento meramente “heroico” relativo ao respeito por suas próprias ideias, mas por algo mais importante: O filósofo ateniense tentou viver toda a sua vida de acordo com as leis de sua pátria, a Atenas que tanta grandeza deu à Grécia. Desconsiderar a decisão do tribunal que o julgou, mesmo que ele estivesse em total desacordo com o resultado do julgamento, teria sido equivalente a destruir o próprio esquema de seu propósito de vida, o significado mais profundo que, para ele, tinha a mesma profundidade do que a própria vida.

Mais uma vez, não se trata de querer morrer, mas de não desejar seguir vivendo, se a sobrevivência implica na destruição do sentido da própria vida.

Outro caso semelhante é aquele que pode ser extraído do célebre Epitáfio de Simônides, em homenagem ao rei Leônidas I de Esparta e a seus 300 bravos hoplitas, mortos na Batalha de Termópilas. Ele não fala da façanha imortal destes, nem de suas virtudes como guerreiros ou a forma como decidiram ir à batalha, apesar de enfrentar um exército centenas de vezes mais numeroso. O epitáfio diz:

«Ὦ ξεῖν’, ἀγγέλλειν Λακεδαιμονίοις ὅτι τῇδεκείμεθα,

τοῖς κείνων ῥήμασι πειθόμενοι.»

(“Estrangeiro, vá e diga aos espartanos que nós aqui jazemos em obediência às suas leis.”)

Não havia nada melhor que isso para ser dito. Nada era mais glorioso que morrer respeitando aquelas leis pelas quais estes guerreiros haviam vivido. A rendição, a retirada ou o pacto de um acordo com os persas equivaleria a esquecer o principal motivo de suas vidas, o sentido mais profundo que haviam dado a si mesmos. Ser infiéis a estas leis, a estes valores existenciais, era para eles, muito mais difícil, que encarar a morte com determinação e serenidade interior.

A partir destes exemplos, infere-se que não se trata de “buscar a morte”, mas de não “tentar se salvar dela”, se o preço for muito alto.

Esta decisão não precisa necessariamente ser feita na véspera de uma batalha. Em geral, é dada como o produto de uma reflexão de anos… através das mais rotineiras das atividades humanas. Nunca pode ser tomada in situ. A única maneira de poder ser coerente com tais valores é se preparar a cada dia para isso.

Nem Sócrates nem Leônidas tomaram a decisão de fazê-la, em seus últimos dias, porque passaram as suas vidas assim como Cavalo Louco, o personagem que inspirou o início deste artigo, pensando a cada manhã que: “Hoje é um bom dia para morrer (se for isso o preço para ser coerente com a minha vida)” e que o destino ou os deuses seriam os que decidiriam em qual destas jornadas tal evento teria que ser cumprido.

Se os pagãos modernos se proporem a tentar seguir esses ancestrais e redescobrir a sabedoria sobre a Vida e a Morte que tinham, as suas vidas adquiririam um maior sentido, seriam mais plenas (inclusive mais felizes!) e um dia, chegado o momento, poderão fechar os olhos sorrindo diante da visão da Lagoa Estige.

Vivamos então, cada dia, gritando realmente ou figurativamente: “Hoka Hey!“, porque essa deve ser a maneira pagã de enfrentar a morte e também, esse outro curto período que a precede, a qual costumamos chamar de vida.-

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s