“Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica

Análise extraída da primeira edição da Revista Atassa.

A diferença principal entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecno-industrial. Nós atacamos porque o futuro é incerto.” – Reação Selvagem, em Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem.

Introdução

Em setembro de 2016, Kaczynski lançou sua análise mais ambiciosa de sua tão falada “revolução contra o sistema tecnológico” na forma do livro Revolução Antitecnológica: Por Que e Como (RA), um texto com mais de 200 páginas dedicado apenas a várias questões relacionadas a ação revolucionária contra o sistema tecnológico. Leitores familiares com os escritos de Kaczynski saberão que essa noção de uma revolução contra o sistema tecnológico sempre foi uma parte importante do pensamento de Kaczynski. A noção aparece pela primeira vez na forma de um chamado pela destruição completa da civilização industrial no primeiro comunicado do Freedom Club enviado ao San Francisco Examiner em 1985, e continuou a aparecer nos escritos de Kaczynski. Por exemplo, no famoso trecho de A Sociedade Industrial e o Seu Futuro (ASIEOSF) em 1995:

Nós advogamos então por uma revolução contra o sistema industrial. Essa revolução pode ser ou não ser violenta; ela pode ser súbita ou um processo gradual ocorrendo ao longo de algumas décadas.”

Apesar de ser um elemento importante de seu pensamento, uma análise mais profunda das questões envolvidas em tal revolução estão em grande parte ausentes de ASIEOSF, e espalhada por ensaios como “A Revolução Que Está Por Vir” e “Atinja Onde Dói”, para mencionar alguns dos mais pertinentes. Parece que esse livro tenta expandir um elemento essencial, porém sub-analisado do seu pensamento. Como uma breve análise, o livro é dividido em duas partes que correspondem a dois pontos de interesse indicados no subtítulo, tanto o porquê de Kaczynski ver uma revolução contra o sistema tecnoindustrial como a única resposta plausível para “os principais perigos que pairam sobre nós”, quanto sugestões de “estratégia central” para preparar e realizar tal revolução.

Vale notar que apesar de ser uma expansão do tratamento de assuntos relacionados a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, grande parte do conteúdo de RA não pode ser considerado particularmente inovador para qualquer um que está acostumado com os escritos de Kaczynski; não há muito de novo do ponto de vista teórico. Muitos dos elementos centrais apresentados nessa obra podem ser encontrados de forma dispersa em ensaios e cartas em Escravidão Tecnológica por um leitor cuidadoso com capacidade de sintetizar os comentários feitos ao longo dessas peças. Fundamentalmente, a base teórica de Kaczynski permanece a mesma de sempre, enquanto a maior parte do livro é dedicada a oferecer uma extensão dessa base através de uma análise histórica e de argumentos delineados de forma mais rigorosa. A exceção disso é a exploração da teoria do colapso por parte de Kaczynski no segundo capítulo.

Antes de se aprofundar na análise do livro, eu vou abrir o jogo e expor a minha posição ideológica. É importante notar que muitas das minhas críticas ao RA estão ligadas à minha afinidade com eco-extremistas. Das várias críticas que ITS (Individualistas Tendendo ao Selvagem) e Reação Selvagem apresentaram contra Kaczynski até o seu enfoque no presente como o único foco de ação razoável (e o seu ceticismo em relação a especulações futuras), eu valorizo muito as contribuições dos eco-extremistas para o pensamento anticivilização. Vale também notar que grande parte dessas críticas estão disponíveis em outros lugares, então eu não vou dedicar muito espaço as nuances das críticas levantadas pelos eco-extremistas, a não ser onde elas se mostrem pertinentes ao conteúdo do RA. Tendo dito isso, o produto final da obra de Kaczynski é um tratamento sistemático e unidimensional de uma questão que passou a constituir um elemento central de seu pensamento. Sendo assim, RA desempenha um papel importante na obra de Kaczynski, sendo também importante para aqueles que estão interessados nas nuances de seus pensamentos sobre a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, apesar da minha desconfiança pessoal do pensamento revolucionário que caracteriza a obra.

1. O Desenvolvimento de uma Sociedade Jamais pode ser Sujeito ao Controle Racional.

Kaczynski abre o primeiro capítulo da obra com uma exploração da tese que sociedades complexas jamais podem ser racionalmente controladas. Essa exploração é uma expansão da sua crítica contra soluções reformistas para os problemas do sistema tecnológico apresentada pela primeira vez em ASIEOSF nas seções intituladas “Alguns Princípios da História” e “A Sociedade Tecnoindustrial não Pode ser Reformada” (Parágrafos 99-113). O foco principal dessas duas secções do ASIEOSF é ilustrar que “Pessoas não escolhem conscientemente e racionalmente a forma de sua sociedade. Sociedades se desenvolvem através de um processo de evolução social que não está sob controle humano racional” (“Escravidão Tecnológica”, p 68). A tese principal do primeiro capítulo de RA é a mesma tese apresentada nos capítulos mencionados de ASIEOSF.

A diferença entre os dois escritos está principalmente nos argumentos fornecidos para apoiar a tese. Enquanto a tese em ASIEOSF é baseada em uma dedução lógica de uma série de premissas precedentes, em RA ela é em grande parte pressuposta, e a maior parte do ensaio é dedicada em fornecer exemplos históricos que demonstrem sua veracidade em eventos reais. Kaczynski deriva uma vasta gama de exemplos da história escrita para ilustrar essa tendência (a esse ponto praticamente um truísmo para quase todos que apresentam alguma perspectiva anticivilização) dos planos para controle racional de sociedades de larga escala raramente ocorrerem como planejado. “De fato, fracasso é a norma” (RA, p.7). Além do mais, Kaczynski oferece uma série de cenários cada vez mais implausíveis para testar a força de sua tese. Ele até mesmo continua com esses cenários em seu primeiro apêndice, “Em Apoio ao Primeiro Capítulo”, que consiste em uma série de experimentos mentais usando mais cenários hipotéticos (novamente, cada um mais absurdo do que o último caso você não esteja ainda convencido). Previsivelmente, Kaczynski lida com cada contraponto demonstrando que mesmo permitindo uma série de cenários cada vez mais implausíveis, o controle racional de sociedades complexas permanece fora da capacidade humana e mesmo não humana (usando, por exemplo, a aplicação de algo como o teorema de incompletude de Godel para demonstrar a impossibilidade de qualquer sistema totalizador para o controle não-humano da trajetória de uma sociedade). A imagem da nossa sociedade complexa que emerge no fim é análoga a de um navio sem ninguém no timão. Mas é pior ainda; esse é um navio tão massivo e complexo que nenhuma pessoa ou coletivo de pessoas a bordo sabe o suficiente sobre esse gigante para ser capaz de dirigi-lo conscientemente, e nem seria capaz de saber. Essa é a imagem de um gigantesco monstro sem precedente histórico diante do qual somos impotentes.

Novamente, nada disso é algo que Kaczynski não tenha dito de uma forma ou outra ao longo de sua obra. Apesar disso, esse livro mais recente – que tem a intenção de elaborar mais sobre a impossibilidade do controle racional da sociedade e ilustrar a veracidade do conceito através de uma série de exemplos históricos – é admirável. De certa forma, não há muito o que falar sobre esse capítulo, pois eu não discordo de maneira significativa com a tese e concordo em grande parte com as suas conclusões. No fim das contas, é difícil encontrar muito do que reclamar em relação a análise apresentada aqui.

II. Porque o Sistema Tecnológico vai Destruir a si Mesmo

Como mencionado na introdução, esse capítulo contém algumas das poucas inovações teóricas no livro. Esse capítulo é dedicado a uma exposição da necessidade de auto-aniquilação por parte do sistema tecnológico. Para dar um contexto teórico: em respeito à perspectiva de colapso do sistema tecnológico, a maneira que Kaczynski tem lidado com o rumo da sociedade tecnológica no passado admite que a sua trajetória não está sujeita ao controle de seres humanos (veja o comentário do primeiro capítulo), mas ele tem sido hesitante em fazer qualquer afirmação forte sobre a necessidade de um colapso.

A maioria das explorações teóricas ocorrem na segunda secção do capítulo. É ali que ele apresenta a estrutura formal da teoria em termos gerais e abstratos. Para apresentar a sua teoria, ele se foca primariamente no que ele chama de “sistemas auto-propagantes”. Esse conceito é central a suas explorações aqui, e ele descreve esses sistemas como qualquer “sistema que tenda a promover a sua própria sobrevivência e propagação”. (RA, p42.) Kaczynski apresenta exemplos de sistemas auto-propagantes que variam de organismos biológicos individuais até grupos de organismos biológicos, que incluem grupos de seres humanos. Sociedades humanas complexas como a sociedade industrial moderna se encaixam nessa categoria de sistemas auto-propagantes. Seguindo essa definição geral, Kaczynski passa o resto da segunda secção apresentando sete proposições sobre características estruturais de sistemas auto-propagantes, e por extensão, sociedades complexas, que representam o conteúdo formal da sua teoria de colapso. Kaczynski também utilizará essas proposições na terceira e quarta secções para mostrar como os eventos que estão ocorrendo na sociedade moderna, assim como o que ele enxerga como o resultado necessário, seguem as dinâmicas estruturais apresentadas em sua teoria. Essencialmente, essas sete proposições constituem o cerne de sua teoria em abstrato, e eu as repetirei aqui para o leitor:

1. Em qualquer ambiente suficientemente abundante, sistemas auto-propagantes surgirão, e a seleção natural levará a evolução de sistemas auto-propagantes que desenvolverão meios cada vez mais sofisticados, sutis e complexos de sobreviver e de se propagar.

2. No curto prazo, a seleção natural favorece sistemas auto-propagantes que buscam vantagem a curto prazo com pouca ou nenhuma consideração pelas consequências de longo prazo.

3. Subsistemas auto-propagantes de um determinado supersistema tendem a se tornar dependentes do supersistema e de condições específicas que prevalecem no supersistema.

4. Questões de transporte e comunicação impõe um limite no tamanho da região geográfica pela qual um sistema auto-propagante consegue estender as suas operações.

5. O limite mais importante e o único limite consistente do tamanho da área geográfica pela qual grupos auto-propagantes humanos podem estender as suas operações é o limite imposto pelos meios disponíveis de transporte e comunicação. Em outras palavras, apesar de nem todos os grupos humanos auto-propagantes tenderem a expandir as suas operações por uma região de tamanho máximo, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes que operam ao longo de regiões que se aproximam o tamanho máximo disponível pelos meios disponíveis de transporte e comunicação.

6. Em tempos modernos, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo. Além do mais, mesmo que os seres humanos sejam substituídos por máquinas ou outras entidades, a seleção natural ainda tenderá a criar outros sistemas auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo.

7. Enquanto os problemas atuais de transporte e comunicação não constituem limitações efetivas no tamanho das regiões geográficas nas quais sistemas auto-propagantes operam, a seleção natural tende a criar um mundo no qual o poder é em grande parte concentrado nas mãos de um número relativamente pequeno de sistemas auto-propagantes globais.

Kaczynski tenta estabelecer argumentos para demonstrar a veracidade de cada proposição apresentada na segunda secção, ou como ele diz, para demonstrar que nós temos evidência suficiente para acreditar que essas proposições são, ao menos, razoavelmente precisas. Como afirmações abstratas sobre tendências de sistemas auto-propagantes, e depois sobre sociedades complexas (ao menos sob a luz de várias presunções), nenhuma das proposições parece claramente problemática. Não vale a pena gastar o tempo ou a sanidade do leitor com um foco míope nos detalhes precisos de cada proposição. Para os objetivos desse ensaio, é suficiente permitir que as proposições se sustentem apesar da possibilidade de alguns equívocos em suas respectivas formulações. Ele também se esforça ao máximo para mostrar que cada proposição pode ser logicamente inferida da anterior, o que é característico de sua forma de trabalhar. Ele pode ter desistido de trabalhar com matemática avançada há muito tempo atrás, mas seu pensamento ainda é em grande parte guiado pela rigidez formal de um matemático. A formulação da segunda secção não é imune a meticulosidade excessiva, como leitores atentos podem ter notado ao ler as sete proposições listadas anteriormente. Apesar de seus melhores esforços, as conexões que ele tenta fazer parecem forçadas às vezes, e as secções parecem pular de ponto em ponto com ligações que dão a impressão de terem sido feitas a força em uma tentativa de dar a teoria alguma forma de certeza lógica. A apresentação é desprovida da sistematicidade frequentemente presente nos escritos de Kaczynski.

Me parece que os problemas com essa secção são parte de um problema maior com o capítulo como um todo. O problema não envolve essa ou aquela proposição ou mesmo conexões questionáveis entre elas; apesar de haver razões para criticar esses fatores também, como notado. Em minha opinião, o problema está nas extensões que Kaczynski tenta fazer em relação as conclusões que ele tenta derivar desse capítulo. As conexões suspeitas entre proposições e a falta de fluidez com a qual a teoria é apresentada parece surgir de um capítulo que propõe mais do que deveria. Kaczynski é honesto em relação ao fato de que nesse capítulo, e mais especificamente na segunda secção, ele está argumentando “que existe de fato um processo” pelo qual sociedades tecnologicamente avançadas se autodestroem, e que ele está apresentando uma teoria sobre como esse processo funcionaria. Infelizmente, eu não acho que esse capítulo cumpre as expectativas, nem que ele apresenta um argumento sólido para acreditar na ruína inevitável da sociedade tecnológica, por mais que Kaczynski não concorde.

Eu notei nas secções introdutórias deste ensaio que muitas das minhas discordâncias em relação ao livro vem da minha afinidade com críticas e perspectivas apresentadas por eco-extremistas sobre muitas dessas questões, e esse é um exemplo. Eu não acho que a tese que Kaczynski está tentando provar pode ser apresentada honestamente sem entrar em um nível de especulação que torna essa tarefa intelectual sem sentido. Levando isso em consideração, o fracasso de qualquer tentativa de prever com precisão o futuro da nossa ou de qualquer sociedade tecnologicamente avançada não me surpreende. A ideia da autodestruição inevitável da civilização tecnoindustrial, e especialmente a ideia de que alguém vai apresentar uma teoria descrevendo-a – isso se aplica a todas as sociedades tecnologicamente avançadas em qualquer tempo ou lugar – é uma ideia que não me parece plausível sem entrar em especulações revolucionárias.

O que é particularmente interessante para mim é que a impossibilidade de desenvolver tal teoria é algo que deveria ser realisticamente implicado por algumas das explorações do primeiro capítulo, que demonstra por exemplo a impossibilidade de controlar sociedades complexas racionalmente. Uma das mais importantes razões (mas certamente não a única) para a impossibilidade desse controle é o limite do conhecimento humano, e mais especificamente da capacidade de entender apropriadamente o tipo de problemas de conhecimento dos quais emergem campos da matemática como a teoria de sistemas dinâmicos e o que é frequentemente chamado coloquialmente de “teoria do caos e da complexidade”.

A quantidade e o tipo de variáveis em jogo em um sistema como a nossa sociedade tecnológica moderna significa que nós estamos lidando com um sistema que se comporta de acordo com as descrições apresentadas pela teoria de sistemas dinâmicos (pense em algo como sistemas climáticos e a dificuldade de prever o clima a longo prazo). Em tais sistemas, previsões a longo prazo se tornam impossíveis devido à complexidade e as tendências comportamentais do sistema envolvido. Nesse caso, essa impossibilidade se aplica tanto a análises reformistas/progressivas quanto ao tipo de conclusões que Kaczynski tenta apresentar aqui no segundo capítulo (e nós veremos que as repercussões lógicas do primeiro capítulo tem consequências para o resto do livro e para o planejamento de revolucionário de poltrona apresentado Kaczynski mais à frente no livro). A complexidade do sistema com que estamos lidando é tanto que esse tipo de teorização se torna praticamente impossível sem adentrar em meras especulações. Levando isso em consideração, nós nos encontramos em um impasse devido a impossibilidade de dizer qualquer coisa quanto as perspectivas de um colapso. Mas como dito antes, há um “primitivismo sem catástrofe”, e os eco-extremistas nos mostraram como.

No fim das contas, Kaczynski pegou o dinamismo, complexidade e poder da sociedade moderna e criou uma interpretação que os entende como as sementes de sua própria destruição, o que convenientemente se encaixa a sua práxis revolucionária. Mas a sua conclusão não é a única possível. Ela envolve uma série de saltos teóricos para terrenos dos quais não podemos falar com boa consciência intelectual. Apesar de toda essa teorização, podemos igualmente concluir que todo esse dinamismo da sociedade moderna que Kaczynski vê como a sua ruína pode ser justamente a causa de sua autopreservação. Essa é, por exemplo, a forma de pensamento que caracteriza os ecomodernistas. Ao tentar responder questões como essa, nós devemos ser honestos com nós mesmos e admitir que nós simplesmente não temos as respostas. No final nós nos deparamos com o fato de que o futuro é incerto, e nos resta apenas o presente. A catástrofe pode ou não chegar, mas se ela chegar ela pode terminar aperfeiçoando a civilização ao invés de se tornar o messias dos teóricos anticivilização. Mas mesmo que isso seja verdade, os eco-extremistas mostraram que isso não é um motivo para ficar quieto. É melhor ter um realismo inabalável e a determinação de um guerreiro do que os confortos milenários de sonhos revolucionários. Eu termino essa secção com as palavras pertinentes de Reação Selvagem:

Pessoalmente, nós não sabemos por quanto tempo as estruturas que mantém a civilização em seu caminho decadente vão durar. Nós podemos ler muito sobre as várias teorias existentes, mas no fim das contas nós terminaremos esperando pelo profético ano em que talvez tudo acabará. De qualquer forma, tudo que os estudiosos podem oferecer são teorias. O aqui e agora denota tudo que é ruim…Como individualistas nós decidimos deixar de esperar por uma crise e tomar as nossas vidas em nossas próprias mãos. Por que? Porque nós já estamos vivendo. Nós não queremos esperar porque a Natureza nos encoraja a retrucar os golpes que ela tem recebido agora.” – Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem

III. Como Transformar uma Sociedade: Erros a Evitar

Com a conclusão do primeiro e segundo capítulo, Kaczynski muda o foco de suas explicações sobre as razões pelas quais ele vê uma revolução antitecnologia como a resposta necessária para o sistema tecnológico para tentar explicar como alguém poderia trabalhar para trazer tal revolução. Essas considerações permeiam este capítulo, assim como o quarto capítulo. Mais especificamente, e aqui o título do capítulo é enganoso, o terceiro capítulo é dedicado em extrair uma série de regras gerais e abstratas que Kaczynski vê como uma parte integral do sucesso de qualquer movimento revolucionário, antitecnologia ou não. Ao apresentar essas regras, Kaczynski começa, como de costume, apresentando uma série de postulados dos quais ele procura derivar essas regras para a ação revolucionária. A primeira secção do terceiro capítulo apresenta quatro postulados, repetidos aqui para o leitor:

1. Você não pode mudar uma sociedade lutando por objetivos vagos e abstratos. Você precisa de um objetivo claro e concreto. Como disse um ativista experiente: “Objetivos vagos e generalizados raramente são atingidos. O segredo é conceber um objetivo específico que vai inevitavelmente impelir a sua comunidade na direção que você quer ir”.

2. Pregar apenas – a mera difusão de ideias – não é capaz de provocar mudanças importantes e duradouras no comportamento de seres humanos, a não ser em uma pequena minoria.

3. Todos os movimentos radicais tendem a atrair pessoas que são sinceras, mas cujos objetivos são apenas ligados aos objetivos do movimento até um certo ponto. O resultado é que os objetivos iniciais do movimento podem ser distorcidos ou completamente alterados.

4. Todo movimento radical que adquire grande poder se torna corrupto quando seus líderes originais (aqueles que entraram no movimento quando ele era relativamente fraco) estão mortos ou politicamente inativos. Ao dizer que um movimento se tornou corrupto, isso significa que os seus membros, e especialmente os seus líderes, buscam primariamente ganhos pessoais (como dinheiro, segurança, status social, posições poderosas ou uma carreira) ao invés de se dedicarem sinceramente aos ideais de um movimento.

A partir desses postulados ele deriva cinco regras:

1. Para mudar uma sociedade de uma forma especifica, um movimento deve escolher um único objetivo simples e claro que irá levar uma mudança desejada se perseguido com sucesso.

2. Se um movimento busca transformar uma sociedade, o objetivo escolhido pelo movimento tem que ser um objetivo que tenha consequências irreversíveis uma vez que ele seja cumprido. Isso significa que uma vez que a sociedade seja transformada através desse objetivo, a mudança permanecerá sem a necessidade de nenhum esforço por parte do movimento ou de qualquer outra pessoa ou grupo.

3. Uma vez que o objetivo tenha sido escolhido, é preciso convencer uma minoria de pessoas a se dedicar ao seu cumprimento através de métodos mais poderosos do que a mera pregação de ideias. Em outras palavras, essa minoria deve se organizar para tomar ações práticas.

4. Para se manter fiel ao seu objetivo, um movimento radical deve encontrar uma forma de expulsar de suas fileiras qualquer pessoa que não seja compatível com o movimento, mas que tenha intenções de participar dele.

5. A partir do ponto que um movimento tenha se tornado poderoso o suficiente para cumprir o seu objetivo, ele deve cumpri-lo o mais rápido possível, e em qualquer caso, antes que os revolucionários originais (aqueles que se juntaram ao movimento quando ele era relativamente fraco) morram ou se tornem politicamente inativos.

Depois da apresentação dos postulados e da derivação das regras, Kaczynski dedica o resto do capítulo examinando a falsidade ou veracidade das regras. Para fazer isso, ele se apoia em registros históricos, citando vários casos para demonstrar que a veracidade de qualquer regra determinada pode ser verificada em eventos históricos. Para demonstrar a importância da aderência a essas regras, o autor cita vários exemplos onde o não-seguimento dessas regras resultou em problemas ou catástrofe para movimentos envolvidos. Apesar disso, o cerne teórico dessa parte está na própria lista de regra para movimentos revolucionários. Como mencionado na introdução, grande parte da base teórica do livro reflete o que já foi dito em sua obra e expande sobre essa base. Isso é verdadeiro para o terceiro capítulo, e eu acredito que leitores familiares com o trabalho de Kaczynski vão reconhecer os temas apresentados aqui de escritos como ASIEOSF, “O Melhor Truque do Sistema”, “A Revolução que Está por vir” e “Atinja Onde Dói”, que tem todos secções dedicadas a questões estratégicas para ação revolucionária contra a sociedade tecnológica.

Eu devo admitir que à primeira vista esse capítulo é fácil de aceitar se você se deixar levar de maneira não-crítica pelo fluxo do pensamento de Kaczynski. Muitos de seus postulados parecem ao menos instintivamente plausíveis tendo em vista a nossa experiência cotidiana ou um conhecimento geral da história, e as regras derivadas desses postulados parecem ser coerentes, além de uma extensão natural desses postulados. Seu recurso ao registro histórico para embasar seus postulados e regras é caracteristicamente metódico, de forma comparável a análise detalhada do primeiro capítulo. O resultado é um capítulo que poderá convencer muitos. E de fato, muitos chegaram a conclusões similares seguindo essa linha de raciocínio. Basta ler os escritos do Último Reducto (UR) ou dos Indomitistas para encontrar exemplos de grupos e indivíduos que seguiram grande parte do pensamento de Kaczynski ao pé da letra. É fácil se deixar levar pelas suas teorias de revolucionário de poltrona e esquecer do fato que a grande maioria do conteúdo dessas teorias é puramente especulativo, pensado de forma teórica dentro de uma cela de prisão no Colorado. Essa situação é análoga a maneira que alguns físicos falam sobre ficarem tão encantados com a elegância de teorias matemáticas que eles terminam acreditando que essa elegância tem que ser a expressão de alguma verdade. Apesar disso, a realidade nunca teve nenhuma obrigação de se conformar com o que nós desejamos, e isso é verdade para as teorias de Kaczynski tanto quanto para os físicos perseguindo o tênue rastro da teoria das cordas.

Eu não estou apenas sendo exigente. Há muitas críticas legítimas a serem feitas sobre o conteúdo desse capítulo (se nós decidirmos entreter esse tipo de teorização de poltrona). Para elaborar um pouco, há óbvias contradições entre o planejamento revolucionário apresentado nesse capítulo e as conclusões apresentadas no primeiro capítulo, que praticamente proíbem esse tipo de planejamento. Se você se recorda, nós notamos que as observações lógicas do primeiro capítulo se aplicam não apenas a reformistas/progressistas tentando direcionar a sociedade para os rumos que desejam, mas também a revolucionários que visam perturbá-la com ações revolucionárias. Esse observação é verdadeira devido a impossibilidade de fazer previsões a longo prazo, justamente o tipo de previsões necessárias para que um movimento revolucionário trace um plano e aja de acordo com ele. Certamente, é possível tentar tornar as regras suficientemente gerais para que elas possam ser aplicadas a diversas situações, mas a esse ponto uma regra tão abstrata tem pouca relação com as particularidades concretas de eventos reais. Para ser justo, Kaczynski admite no terceiro capítulo que essas regras não devem ser interpretadas como “regras rígidas” (Ra, p.119) devido as dificuldades já discutidas em prever situações reais comas quais um movimento revolucionário teria que lidar, mas nós já explicamos porque esse reconhecimento não muda muita coisa. Essa contradição entre capítulos não é a única crítica que eu tenho a fazer desse capítulo. A tentativa de Kaczynski de derivar axiomas não-históricos de exemplos históricos, por exemplo, tornam suas regras e postulados ao menos duvidosos,pelo menos aos olhos de um approach histórico. Esse mesmo problema ocorre no quarto capítulo.

Alguns talvez diriam que essa análise do trabalho de Kaczynski é excessivamente pessimista, derrotista, etc. Outros diriam que ela é rápida demais em jogar fora o trabalho de Kaczynski, mesmo que nós tenhamos levantado várias objeções legítimas. Alguns como o UR acusaram o ITS e o Reação Selvagem dessas mesmas coisas quando eles expressaram uma dose de ceticismo saudável em relação a esse tipo de teorização revolucionária. Essas são as mesmas pessoas que demonstram uma esperança ingênua em frente a essas críticas, refletindo a ingenuidade revolucionária de Kaczynski ao invés de levantar o véu de suas próprias ilusões esperançosas e aceitar o mundo como ele é. No fim das contas, como o Reação Selvagem disse em sua resposta ao UR, grande parte da base para tal revolução contra o sistema tecnológico permanece “ao vento”:

Concluindo esse ponto, a base estratégica para a “grande revolução” é suposição, “talvez”, “esperamos que sim”, “provavelmente”, “no melhor dos casos”, “depende”, em outras palavras, nada concreto, tudo ao vento. Isso tudo nos lembra do que um comediante mexicano popular disse uma vez em seu programa: “talvez sim, talvez não, mas provavelmente quem sabe.” – Reação Selvagem em Algumas Palavras Sobre o Presente e NÃO o Futuro.

IV. Guia Estratégico Para Um Movimento Revolucionário

Enquanto o terceiro capítulo lidou com questões estratégicas de uma revolução antitecnologia em termos mais abstratos, tentando destilar as regras mais críticas para um movimento revolucionário, esse capítulo apresenta um olhar mais abrangente e marginalmente mais realista do programa revolucionário de Kaczynski. Ele cobre diversas coisas nesse capítulo, tratando de muitas questões relacionadas aos caminhos que ele acredita que um movimento revolucionário deve ou não deve tomar. Para aqueles que são familiares com a história das revoluções comunistas, grande parte do programa que ele oferece aqui é derivado das reflexões de figuras chave do pensamento marxista revolucionário. Lenin, Trotsky, Mao e Castro são grandes influências por exemplo. Apesar disso, grande parte do pensamento dessas figuras foi adaptado ao neo-ludismo de Kaczynski. Essa dependência na revolução russa e em outras revoluções comunistas não é algo novo ou surpreendente. Os revolucionários russos e franceses tem sido a tempos uma inspiração para os pensamentos de Kaczynski sobre a ação revolucionária, e a dimensão das revoluções comunistas seguindo a ascensão dos bolcheviques em 1917 fazem da revolução russa e das outras revoluções relacionadas uma fonte óbvia de interesse e inspiração para aqueles com predileções revolucionárias.

Em relação a uma análise crítica desse capítulo, há várias críticas a serem feitas que eu irei oferecer aqui. A primeira e mais óbvia crítica se relaciona primariamente ao tipo de teorização revolucionária que Kaczynski está fazendo aqui e ao grau em que essa teorização ocorre no campo da especulação pura. Há vários momentos no terceiro capítulo que seguem a mesma predileção por planejamento revolucionário oferecido no terceiro capítulo, que as vezes se parecem com tentativas de formalizar sua estratégia. Esse tratamento obviamente reflete aquele do terceiro capítulo, e consequentemente está sujeito as mesmas críticas do pensamento revolucionário apresentadas anteriormente nesse ensaio. Além domais, outra crítica lida com os paralelos que Kaczynski tenta derivar recorrendo constantemente a revoluções comunistas, tanto no nível das ideias que ele tira de seus respectivos teóricos quanto ao seu uso dessas revoluções para justificar a plausibilidade do seu modelo particular de revolução antitecnologia. Eu não sou o primeiro a apontar esses problemas. Em vários comunicados, tanto o ITS quanto o Reação Selvagem criticaram detalhadamente o recurso de Kaczynski às revoluções da Rússia e da França (as críticas mais detalhadas estão na primeira fase dos comunicados do ITS e nas diversas publicações de Reação Selvagem). Essas críticas demonstram as diversas formas em que o papo de Kaczynski sobre uma revolução global ocupa o domínio da fantasia. Nem a revolução russa, nem a francesa, e nenhuma outra revolução fora a industrial conseguiu estender seu alcance pelo planeta inteiro, como eles notaram. As guerras históricas não são comparações análogas.

Também há uma crítica metodológica a que eu me referi brevemente na última secção; isso é, Kaczynski tem uma tendência de olhar para o passado sem considerar o contexto histórico dos eventos que ele está analisando. No terceiro capítulo,por exemplo, ele usa exemplos históricos continuamente para mostrar que vários de seus postulados e regras podem ser derivados da história enquanto ele ignora completamente uma análise do contexto histórico no qual esses eventos ocorreram, além de diferenças entre esses contextos e o nosso atual contexto contemporâneo. A nossa sociedade tecnológica moderna não é a Rússia de Lenin e Trotsky, a China de Mao, a Cuba de Castro, etc. Há vastas diferenças entre a fábrica social, ideológica e material da nossa sociedade contemporânea e a dessas épocas históricas, o que torna qualquer correlação tênue, a não ser da forma mais geral. Como notado na última secção, ele mostra momentos de honestidade onde ele admite que o recurso a história nem sempre fornecerá lições que podem ser facilmente adaptadas de um período histórico passado para o presente. Mas como discutimos aqui, essa honestidade não é exatamente útil. Para recapitular, se as lições derivadas são gerais o suficiente para serem aplicadas a várias situações, elas provavelmente são praticamente inúteis em qualquer situação concreta. Essas abstrações de uma regra geral pouco nos ajudam ao nos depararmos com a complexidade de qualquer problema real.

Os pontos mencionados são certamente problemas reais com as teorias de Kaczynski no quarto capítulo, mas eles não são o maior problema que eu tive com o capítulo. O que eu achei o elemento mais incomodo desse capítulo é o uso constante que Kaczynski faz de uma “crise futura” especulativa como um elemento central de sua práxis revolucionária. O papel messiânico de uma catástrofe para sua revolução antitecnologia se torna cada vez mais óbvio ao longo desse capítulo,chegando ao ponto de se tornar cada vez mais questionável se o programa revolucionário de Kaczynski seria capaz de encarar algo como um “Ataque sem Catástrofe”, para fazer um paralelo ao “Primitivismo sem Catástrofe” de Abe Cabrera. Como o Reação Selvagem expressou anteriormente, enquanto grande parte da reação significativa ao sistema continuar dependendo de uma crise especulativa, “é tudo ao vento”.Minhas rejeições aqui e ali vão de encontro com as críticas eco-extremistas,nesse caso, uma particularmente central: a rejeição dos eco-extremistas de uma revolução como uma forma válida de reação contra o sistema industrial, contra o leviatã da civilização e contra a própria domesticação. Desde os primeiros comunicados do ITS em 2011, eles persistiram com seu foco obstinado no presente como o único ponto sensato para agir e atacar. No primeiro comunicado do ITS seguindo a dissolução voluntária do Reação Selvagem, eles falam o seguinte sobre esse assunto: “Nós não desejamos, não procuramos, não achamos necessário e nem nos interessamos em lutar por uma revolução. Nós desprezamos o termo e acreditamos que esse é um objetivo não existente. Nós atacamos no presente porque ele é tudo que existe”. Ao longo desse ensaio, nós expressamos críticas ao pensamento revolucionário de Kaczynski; muitas dessas análises permanecem relevantes aqui. Nós falamos da impossibilidade em falar honestamente sobre as perspectivas de catástrofes,falamos sobre os problemas com o planejamento revolucionário, etc. Basta dizer que levando em conta essas análises, eu não vejo nenhuma razão para fazer concessões aqui.

Kaczynski e companhia podem sentar e esperar pelo messias do colapso antes de atacar em nome da Natureza Selvagem, mas a marcha da civilização continua a dobrar tudo que é selvagem e natural de acordo com seus desejos e destruir tudo que se recusa a se submeter. O que nos confronta é um presente que demanda que nós ajamos agora. Para encerrar, eu deixo que o ITS expresse em suas próprias palavras esse ataque sem catástrofe:

A natureza selvagem não pode mais esperar. A civilização se expande indiscriminadamente as custas de tudo que é natural. Nós não ficaremos parados de bobeira observando passivamente enquanto o homem moderno rasga a terra em busca de minerais, enterrando-a sob toneladas de concreto ou perfurando montanhas inteiras para construir túneis. Nós estamos em uma guerra contra a civilização e o progresso, e também contra aqueles que a melhoram ou a apoiam com a sua passividade. Qualquer um!” – Individualidades Tendendo ao Selvagem (Its) em seu Sétimo Comunicado

Conclusão

O que falta falar sobre o último livro de Kaczynski então? Eu notei na introdução que dentro do contexto da obra de Kaczynski esse livro ocupa um papel importante como um tratado obstinado e sistemático de seus pensamentos a respeito da ação revolucionária contra o sistema tecnológico. De um ponto de vista puramente acadêmico sobre o autor eu mantenho essa opinião. Eu também notei brevemente a raiz das minhas objeções sob uma perspectiva eco-extremista, e através das análises presentes eu tentei delinear o conteúdo dessas objeções. E é a partir dessa perspectiva que eu acho grande parte do livro simplesmente inaceitável. É dessa perspectiva que eu afirmo a rejeição eco-extremista de ilusões revolucionárias. Eu afirmo o foco dos eco-extremistas no presente como o único foco de ataque. Eu afirmo a honestidade obstinada dos eco-extremistas em face do horrível presente. Eu afirmo a determinação guerreira dos eco-extremistas em lutar mesmo sabendo que essa pode ser uma guerra suicida, além de outros pontos de uma perspectiva eco-extremista. Essas são posições simplesmente irreconciliáveis com a de Kaczynski. Que assim seja. Haverão aqueles sem ouvidos para ouvir. Haverão aqueles que denunciarão essas rejeições como niilistas, pessimistas, derrotistas, etc. Haverão aqueles que trocarão a honestidade pelos confortos de uma ingenuidade revolucionária. Que assim seja. Para eles, tudo que eu tenho a dizer é “Boa Sorte”. Mas para mim e para outros com quem o chamado ressoa, o que Kaczynski tem a oferecer é algo com o que eu não posso concordar. Eu encerro essa conclusão e esse ensaio com uma expressão do espírito dos eco-extremistas do editorial da Regresión #4:

A realidade às vezes nos apresenta um cenário extremamente derrotista e pessimista. Apesar disso, aceitar a realidade é crucial para removermos a venda e aceitarmos as coisas como elas são, mesmo que isso seja difícil. Essa venda, é claro, é a utopia. Muitos criticaram Individualistas Tendendo ao Selvagem, o Reação Selvagem e outros grupos por rejeitar a ideia de um “amanhã melhor”. Eles criticam esses grupos por não esperar um resultado positivo da luta nessa guerra, ou por rejeitar a esperança. Mas as pessoas sempre ouvirão apenas o que eles querem, e não a realidade. O individualista eco-extremista é pessimista e realista ao mesmo tempo. Ele não ouve o falatório do otimista pueril; para ele, o mundo é cheio de duras realidades, e ele deve confrontar essas realidades com força, se defendendo delas com dentes e garras” – Reação Selvagem

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