[CHILE] Mensagem Póstuma a Kevin Garrido, de um Individualista Tendendo ao Selvagem

“(…) E com isso eles acreditaram ou pensaram que iriam me intimidar; uma catarrenta cuspida no rosto do poder e uma guerra até as últimas consequências foi e é minha furiosa resposta. (…)”

“(…) Senti a solidão por tantos meses que meu hermético coração já se acostumou com a constante ameaça de um bisturi atrás dele, nada nem ninguém conseguirá apagar as cicatrizes que ali estarão para o resto de minha vida e com as quais abraçarei a morte vingando tudo o que a mim e aqueles que estão comigo conseguiram fazer. (…)”

“(…) Jamais irei suprimir em minhas memórias os chutes e socos contra a polícia e suas feias caras de covardia, os dias e noites correndo com fogo nas mãos em direção à autoridade, os alarmes soando de lojas ardendo, xs cidadãos correndo e gritando apavoradxs enquanto um ônibus queimando iluminava a noite. As noites onde a cidade retumbava por uma explosão e seu esplendor causando terror. Jamais esquecerei a polícia correndo para se esconder ante uma chuva de tiros nem as belas curvas de uma bala .40… (…)”

“(…) Nos tempos difíceis nunca abandonamos a luta, talvez os cães ladraram ao nosso redor, mas suas respirações nunca nos atingia, estivemos olhando um ao outro, assegurávamos nossas decisões, checávamos as nossas armas, perguntávamos a nosso ódio e dizíamos “vamos novamente… desta vez até o fim…” (…)”

“(…) À cidadania eu espero que explodam infinitas bombas, porque a “imunda vida cidadã não é encontrada apenas nos quartéis”. Estou contra a civilização e considero a cidadania/humanidade o alvo mais civilizado (me incluo), são xs que estão grudadxs ao progresso e se esforçam para seguir destruindo todo o indômito, todo o selvagem pelo sujo e asqueroso papel chamado dinheiro. (…)”

Quão difícil é escrever algumas palavras para se despedir de um guerreiro indomável. Eu nunca te conheci, Kevin, mas isso não foi um impedimento para sentir o que sinto no coração. Somente por tuas ações e escritos pude reconhecer a nossa terrível afinidade.

Nossos olhares nunca se cruzaram nem nunca nos dirigimos uma sequer palavra, mas sempre senti em meu interior esta magnífica conexão espiritual. Desde quando você orgulhoso cuspia na cara de policiais em frente as câmeras, desde o momento em que meus ouvidos escutaram em êxtase: “Abaixo às jaulas da sociedade civilizada”, a partir daquele momento o meu coração soube.

Estou profundamente triste por tua partida, irmão, não nego isso. Era de madrugada e como eu não costumo acessar a internet a este horário, não podia acreditar, a medida em que lia eu suplicava para que fosse apenas uma confusão de nomes, mas não, era tu, compa. Imediatamente senti um frio na barriga e meu coração doeu, meus olhos se encheram de lágrimas…

Estou triste, é verdade, mas a morte deve ser amada, assim como amamos a vida, e assim como se anseia e vive a vida, da mesma forma se deve viver e ansiar a morte. E tua morte, a morte dos guerreiros, é a mais bela. Estou triste, é verdade, mas há algo em tua partida que me enche de regozijo. E é que tu morreste dando guerra nas asquerosas prisões, tu te foste dando guerra até as últimas consequências e tenho certeza de que tu ansiava pela morte, irmão, o meu espírito sente isso, tu queria nos deixar lutando como fizeram os selvagens araucanos…

Saber que já não estás mais lá e que tu partiste aos abismos me inunda de um sentimento de felicidade ancestral. Para lá partiste agora, compa, os abismos são teu novo lar. Aqueles abismos onde habitam as almas de outros guerreiros. Para aqueles abismos que eu só visito quando saio com minha carga explosiva, para aqueles abismos que eu também habitarei em algum momento. Espero com ânsias por este dia. Por agora, me espere irmãozinho, que logo riremos juntos como demônios!

Saúde os ancestrais por mim, saúde a Caupolicán e Lautaro, saúde a Lola Kiepja e aos espíritos de Kloketen, saúde a Punki Mauri e diga a ele que ainda continuamos honrando seu nome, diga-lhe que é verdade, “a morte disse que nos ama”. Saúde a tantos outros guerreiros e diga-lhes que nos aguardem, que antes de morrer abraçaremos o Caos…

Por lá nos veremos, irmão, mas não ainda. Eu ainda respiro e vivo e tenho meu sangue ardente correndo em minhas veias. E enquanto ser assim atentarei com todas as minhas forças contra a civilização. Na companhia de meus cúmplices e na solidão te prometo em teu nome à tua memória seguir dando guerra.

Compa, não te prometo vingança, não. Te prometo seguir em meu caminho de atentados contra a humanidade e seu progresso, te prometo fogo e pólvora, sangue, feridas e mortos.

Me dá vontade de sair amanhã mesmo para honrar teu nome, meu corpo deseja isso, mas me aguento e me acalmo, tenho e temos artefatos prontos, mas ainda não é o momento. Enquanto isso, acendo uma vela e um incenso como um ato simbólico à distância para me despedir de ti, com canção “A Danza das Ánimas” de SM, e com um uivo ao céu escuro concluo o ritual.

Que vontade de ir a teu velório me despedir e derramar lágrimas sobre teu caixão. Eu só me limito a lembrar-te à distância e escrever-te estas palavras, que teus próximos te despeçam como um guerreiro.

Assim é a vida e a morte dos guerreiros, lembrem-se de que os guerreiros não morrem simplesmente, não. A morte de um individualista libera a energia do Caos e sua alma sempre permanece conosco, nos acompanha e nos guia.

Um guerreiro morreu, morreu abraçando o Caos e isso nunca é esquecido, não o esquecerei, não o esqueceremos.

Irmão, daqui da mesma terra em que habitamos me despido com os olhos lacrimosos e um sorriso orgulhoso. Siga dançando no abismo!

¡Mauri, Seba, Mark, Kevin, como os ancestrais morreram!

Pela vida no Caos, pela morte no Caos!

Sempre em minha memória e nas andanças de ITS!

O que virá por aí é por ti, Kevin, é por vocês!

Abro os meus braços a ti, porque nós somos os únicos que permanecerão, para lutar contigo, viver ou morrer

Um Individualista Tendendo ao Selvagem

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