Sentido de Pertencimento

Tradução de “Sense of Belonging”, extraído do falecido blog “Honor The Wild”.

Por muito tempo tem havido um profundo sentimento de assombro e de reverência pelo Universo em meu coração, mesmo tendo eu crescido no meio do frio e destrutivo mundo da civilização industrial. O mundo e as estrelas sempre pareceram se comunicar comigo de tal forma que se converteram em uma parte de minha família estendida, assim como todas as criaturas selvagens. A natureza falava comigo de uma forma que não consigo expressar em simples palavras. Cada momento de despertar se tornou um passeio no Universo, cada passo que dava, cada respiração de ar era uma participação sagrada no Grande Mistério do Universo Divino e um esmagador sentimento de conexão com toda a vida, vivendo com o pleno conhecimento de que minha vida poderia chegar ao fim através de um vírus ou câncer, também manifestações do Grande Mistério do Universo.

De qualquer forma, sinto uma grande tristeza quando visito uma cidade. São lugares anti-naturais onde a humanidade construiu gigantescos monumentos de si mesmos à custa de outras criaturas, exceto talvez um pequeno parque aqui e ali como um símbolo do que era antes. Se vivo em cidades sempre vivi nos arredores, sempre perto de algum lugar mais natural, algum lugar não tão perturbado como as cidades e as pessoas que vivem e se desenvolvem nelas. Eu encontro nestes lugares de concentração humana uma miséria de espírito, uma tragédia de coração e uma estupidez mórbida que me dá um grande sentimento de perda de reconhecimento de sua conexão com algo completamente abrangente, escaldante e um esplendor além das palavras.

Há algo que falta nessa história cultural em que vivemos, o que é óbvio para mim. É algo que soube por algum tempo, mas se mostra em alguns momentos de forma mais espetacular que em outros.

Escutei dois homens da minha idade falando sobre o vício de seus filhos em jogos tecnológicos modernos que são tão reais que se deve olhar duas vezes para saber se as cenas são de fato reais ou virtuais. Se alguém considerasse isso como uma simples anedota, a conversa por si só logo se perderia no tempo, mas não creio que este seja o caso. A experiência sobre a qual eu ouvi falar estes dois homens está agora enraizada nesta cultura em quase todos seus aspectos funcionais da vida cotidiana. Ela foi incorporada na própria psiquê da sociedade industrial.

Tornamo-nos estranhos à realidade orgânica de nossos corpos, nos divorciamos da lógica universal e do entendimento com a qual nossos ancestrais viveram durante toda a vida. Nós criamos uma cultura usando energia barata em todos os níveis que invadiu todas as áreas disponíveis neste planeta e levou as espécies à extinção. Nós caminhamos sobre este planeta como mestres absolutos, mal reconhecendo qualquer outra criatura a menos que servisse a nossos fins. Nós tentamos pavimentar, cortar e envenenar cada colina, vale, oceano, rio e planícies, e à medida que se aproxima em números o nosso fim, caminhamos cegos pela terra bebendo da fonte da arrogância e nos gabando sobre nós mesmos como uma espécie de majestosa glória suprema de um deus adorado em nossa própria imagem. Aqueles que já não seguem uma religião encontraram agora uma substituta no progresso humano. A engenhosidade humana tornou-se um deus, um Salvador, a glória para superar qualquer obstáculo imposto pela natureza. Nós nos convertemos em nossos próprios deuses, nossa própria referência de nobreza e nada mais pode existir fora desta fantasia errônea, esta ilusão imposta psicologicamente que levou milhares de anos para ser concluída.

A cultura industrial nada mais é do que uma continuação das sociedades desconectadas da natureza que a precederam. Surgiu de uma já alienada história cultural de progresso humano, superioridade e narcisismo suicida. Alimentou, de todas as formas, a conquista de culturas que viveram em harmonia com a terra, aquelas sociedades que viveram como parte de um ecossistema, em vez de estar separadas dele. Aquelas que tinham um sentimento de pertencimento.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s