[CHILE] Mensagem Póstuma a Kevin Garrido, de um Individualista Tendendo ao Selvagem

“(…) E com isso eles acreditaram ou pensaram que iriam me intimidar; uma catarrenta cuspida no rosto do poder e uma guerra até as últimas consequências foi e é minha furiosa resposta. (…)”

“(…) Senti a solidão por tantos meses que meu hermético coração já se acostumou com a constante ameaça de um bisturi atrás dele, nada nem ninguém conseguirá apagar as cicatrizes que ali estarão para o resto de minha vida e com as quais abraçarei a morte vingando tudo o que a mim e aqueles que estão comigo conseguiram fazer. (…)”

“(…) Jamais irei suprimir em minhas memórias os chutes e socos contra a polícia e suas feias caras de covardia, os dias e noites correndo com fogo nas mãos em direção à autoridade, os alarmes soando de lojas ardendo, xs cidadãos correndo e gritando apavoradxs enquanto um ônibus queimando iluminava a noite. As noites onde a cidade retumbava por uma explosão e seu esplendor causando terror. Jamais esquecerei a polícia correndo para se esconder ante uma chuva de tiros nem as belas curvas de uma bala .40… (…)”

“(…) Nos tempos difíceis nunca abandonamos a luta, talvez os cães ladraram ao nosso redor, mas suas respirações nunca nos atingia, estivemos olhando um ao outro, assegurávamos nossas decisões, checávamos as nossas armas, perguntávamos a nosso ódio e dizíamos “vamos novamente… desta vez até o fim…” (…)”

“(…) À cidadania eu espero que explodam infinitas bombas, porque a “imunda vida cidadã não é encontrada apenas nos quartéis”. Estou contra a civilização e considero a cidadania/humanidade o alvo mais civilizado (me incluo), são xs que estão grudadxs ao progresso e se esforçam para seguir destruindo todo o indômito, todo o selvagem pelo sujo e asqueroso papel chamado dinheiro. (…)”

Quão difícil é escrever algumas palavras para se despedir de um guerreiro indomável. Eu nunca te conheci, Kevin, mas isso não foi um impedimento para sentir o que sinto no coração. Somente por tuas ações e escritos pude reconhecer a nossa terrível afinidade.

Nossos olhares nunca se cruzaram nem nunca nos dirigimos uma sequer palavra, mas sempre senti em meu interior esta magnífica conexão espiritual. Desde quando você orgulhoso cuspia na cara de policiais em frente as câmeras, desde o momento em que meus ouvidos escutaram em êxtase: “Abaixo às jaulas da sociedade civilizada”, a partir daquele momento o meu coração soube.

Estou profundamente triste por tua partida, irmão, não nego isso. Era de madrugada e como eu não costumo acessar a internet a este horário, não podia acreditar, a medida em que lia eu suplicava para que fosse apenas uma confusão de nomes, mas não, era tu, compa. Imediatamente senti um frio na barriga e meu coração doeu, meus olhos se encheram de lágrimas…

Estou triste, é verdade, mas a morte deve ser amada, assim como amamos a vida, e assim como se anseia e vive a vida, da mesma forma se deve viver e ansiar a morte. E tua morte, a morte dos guerreiros, é a mais bela. Estou triste, é verdade, mas há algo em tua partida que me enche de regozijo. E é que tu morreste dando guerra nas asquerosas prisões, tu te foste dando guerra até as últimas consequências e tenho certeza de que tu ansiava pela morte, irmão, o meu espírito sente isso, tu queria nos deixar lutando como fizeram os selvagens araucanos…

Saber que já não estás mais lá e que tu partiste aos abismos me inunda de um sentimento de felicidade ancestral. Para lá partiste agora, compa, os abismos são teu novo lar. Aqueles abismos onde habitam as almas de outros guerreiros. Para aqueles abismos que eu só visito quando saio com minha carga explosiva, para aqueles abismos que eu também habitarei em algum momento. Espero com ânsias por este dia. Por agora, me espere irmãozinho, que logo riremos juntos como demônios!

Saúde os ancestrais por mim, saúde a Caupolicán e Lautaro, saúde a Lola Kiepja e aos espíritos de Kloketen, saúde a Punki Mauri e diga a ele que ainda continuamos honrando seu nome, diga-lhe que é verdade, “a morte disse que nos ama”. Saúde a tantos outros guerreiros e diga-lhes que nos aguardem, que antes de morrer abraçaremos o Caos…

Por lá nos veremos, irmão, mas não ainda. Eu ainda respiro e vivo e tenho meu sangue ardente correndo em minhas veias. E enquanto ser assim atentarei com todas as minhas forças contra a civilização. Na companhia de meus cúmplices e na solidão te prometo em teu nome à tua memória seguir dando guerra.

Compa, não te prometo vingança, não. Te prometo seguir em meu caminho de atentados contra a humanidade e seu progresso, te prometo fogo e pólvora, sangue, feridas e mortos.

Me dá vontade de sair amanhã mesmo para honrar teu nome, meu corpo deseja isso, mas me aguento e me acalmo, tenho e temos artefatos prontos, mas ainda não é o momento. Enquanto isso, acendo uma vela e um incenso como um ato simbólico à distância para me despedir de ti, com canção “A Danza das Ánimas” de SM, e com um uivo ao céu escuro concluo o ritual.

Que vontade de ir a teu velório me despedir e derramar lágrimas sobre teu caixão. Eu só me limito a lembrar-te à distância e escrever-te estas palavras, que teus próximos te despeçam como um guerreiro.

Assim é a vida e a morte dos guerreiros, lembrem-se de que os guerreiros não morrem simplesmente, não. A morte de um individualista libera a energia do Caos e sua alma sempre permanece conosco, nos acompanha e nos guia.

Um guerreiro morreu, morreu abraçando o Caos e isso nunca é esquecido, não o esquecerei, não o esqueceremos.

Irmão, daqui da mesma terra em que habitamos me despido com os olhos lacrimosos e um sorriso orgulhoso. Siga dançando no abismo!

¡Mauri, Seba, Mark, Kevin, como os ancestrais morreram!

Pela vida no Caos, pela morte no Caos!

Sempre em minha memória e nas andanças de ITS!

O que virá por aí é por ti, Kevin, é por vocês!

Abro os meus braços a ti, porque nós somos os únicos que permanecerão, para lutar contigo, viver ou morrer

Um Individualista Tendendo ao Selvagem

Para Kevin

“Abro os meus braços a ti, porque nós somos os únicos que permanecerão, para lutar contigo, viver ou morrer”

O CORPO DE KEVIN FICOU INERTE, MAS SUA ESSÊNCIA VIVE, VOA JUNTO COM O ESPÍRITO DO CONDOR, ESTÁ NO ESPREITADOR OLHAR DA PUMA NO TOPO DA CORDILHEIRA, NA FORÇA DE CADA INDIVIDUALISTA EM GUERRA CONTRA O PROGRESSO HUMANO NO SUL E EM QUALQUER CANTO, SE MOVE E É SENTIDA NA ESCURIDÃO ABISSAL, É REFLETIDA NOS GELADOS RIACHOS E SEU NOVO NOME APENAS O VENTO E AS RAÍZES MAIS PROFUNDAS DOS DENSOS BOSQUES ONDE HABITAM OS INDOMÁVEIS PODEM SUSSURRAR. PORQUE UMA MORTE VIOLENTA É APENAS UMA CONSEQUÊNCIA LÓGICA E ESPERADA QUE AQUELES QUE ESTÃO EM GUERRA CONTRA A MEGAMÁQUINA TERÃO DE ATRAVESSAR. KEVIN, IRMÃO, TE VEREMOS NO ABISMO, TE ABRAÇAREMOS COM A FORÇA DOS VULCÕES E A CALIDEZ DO ZÊNITE. PORQUE TU JÁ FORMA PARTE DO TODO E O NADA, TE MANIFESTA NAS AURORAS BOREAIS, NA NEVE EMBRANQUECIDA, NAS ESTRELAS PALPITANTES E NA FLOR QUE CRESCE ENTRE O PAVIMENTO, KEVIN, TU ÉS O CAOS.

LUTAREMOS CONTIGO, VIVER OU MORRER!

– Xale

[CHILE] Guerreiro Kevin Garrido, Nos Vemos Nos Infernos!

É com tristeza que soubemos através de nossos cúmplices da morte de Kevin Garrido, um feroz guerreiro individualista que jamais se rendeu e caiu em guerra gritando contra o mundo civilizado, inclusive causando mal estar aos bom samaritanos. Nos doeu, mas assim é, o abismo nos espera. Sem mais, fazemos das palavras de Maldición Eco-extremista as nossas, Kevin, grande guerreiro, nos vemos nos infernos!!

O guerreiro individualista Kevin Garrido morreu apunhalado na prisão onde cumpria sentença.

Uma triste notícia que nos atinge o coração. Irmão, a morte nunca te assustou, sempre desrespeitoso e orgulhoso, morreu dando guerra até o último momento, mesmo nas pútridas prisões.

Nós estamos felizes e tristes, felizes porque sabemos que quando chegar a hora de nossa morte nos reencontraremos novamente após partirmos, lá onde habita a essência dos individualistas ferozes, e lá continuaremos nossa dança do Caos.

Que a morte seja o nosso mais sublime fim e que assim a abracemos com paixão!

Que as explosões de ITS-Sul sejam o eterno abraço a tua existência!

Pelo Imoral e Indiscriminado! Viva ao Terror, as explosões e o fogo!!

Morte à civilização e a todo progresso humano!!

– ME e MA

Buscadores da Paz

Tradução de “Seekers After Peace”.

Vocês, buscadores da paz
Vossas aventuras febris para escapar do mundo
Oh, eles não encontrarão outro mundo além deste!
E se é a paz o que estão buscando deverão encontrá-la aqui
Juntem suas forças para ficar frente ao sublime
Para ver o brilho profundo na beleza e na fealdade do mundo
Para ver e amar a esmagadora glória das coisas
E não escapar rumo à invenções
Esta é vossa única paz

Tendências Cristãs Pseudo-humanistas

Tradução de “Humanist pseudo-christian tendencies”. Traduzido e enviado por Anhangá. Disponível também em espanhol e inglês.

Li o texto “Tendências Misantrópicas Selvagens” há alguns meses em seu espanhol original. Embora eu ache este ensaio muito mais justo que muitas das críticas feitas nos últimos dois anos, há questões expostas que creio que seria benéfico abordar. Limitarei a minha discussão aos temas Natureza Selvagem, autoridade e misantropia.

Natureza Selvagem

Sobre este assunto existe o ensaio “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?“, que é muito fácil de encontrar. Mas para a questão, citarei uma passagem de uma entrevista realizada por John Jacobi a um eco-extremista:

“… estou consciente de que não sou o salvador da Terra, que a única coisa que pode ser “salva” é a minha própria vida e a maneira como eu me relaciono com o meu grupo de afinidade. A Natureza Selvagem sou EU e meu grupo que se agarra ao ato de não deixar morrer os instintos animais que ainda possuímos. Nos despojaram de tudo, até mesmo de um lugar no qual poderíamos habitar livremente, nos distanciaram de nossos ambientes selvagens, de nossas terras ancestrais e sepultaram-nas com cimento, então a única Natureza Selvagem sou eu e meu grupo, reselvageá-la é o que costumo fazer.” (Trecho de “Diálogo entre um “Eco-extremista” e um “Selvagista”“)

Já sobre o assunto de espíritos/deuses, o seguinte texto de um eco-extremista na Argentina eloquentemente explica a sua defesa pessoal do animismo personalizado:

“Não me surpreende em nada vindo de um grupo de indivíduos tão apegados às lógicas civilizadas, que aderiram a um dos pilares do pensamento empírico e mecanicista, como é o ateísmo. O que dizer sobre este assunto que ainda já não tenha sido dito? Nós, os e as eco-extremistas, temos muito bem destacadas as nossas crenças e visões espirituais, criamos as nossas deidades com base em experiências pessoais na Natureza Selvagem, e veneramos de forma animista os espíritos que habitam nela, como fizeram os nossos antepassados séculos antes da invasão. Estas deidades agarradas à Terra, ao primitivo, nos acompanham e nos guiam a todo momento, nos empurram à confrontação com a mega-máquina civilizadora, nos provém de força e mantém ativo nosso indômito caráter guerreiro. Por todas estas razões e algumas outras, é que rimos dos ateus e seu cientificismo humanista, daqueles e daquelas que baseiam a sua percepção da realidade em uma visão completamente fria, matemática, mecânica, robótica, artificial, etc. Nós não nos importamos que ante as nossas crenças venham a tachar-nos de tolos, crédulos ou de românticos, isso já fizeram os colonizadores no passado, e o fazem a todo momento os híper-civilizados que simplesmente não entendem o idioma do vento, não percebem os sussurros dos vales, o grito dos vulcões ou a sabedoria das árvores. A tudo isso nos dirigimos ao invés de máquinas e robôs, nós preferimos adorar paganamente o espírito da serpente em vez da deusa da razão e seus fiéis discípulos, a ciência e a tecnologia.” (De “Uma Defesa Conceitual do Selvagem: Uma Resposta à Semente de Libertação)

E, em comparação, incluímos um texto de um eco-extremista/niilista do continente europeu:

“Aqui na Europa há também grupúsculos de terroristas niilistas, criminosos individualistas e extremistas e misantropos vivos caminhando, e lembramos mais uma vez que alguns destes grupúsculos foram até pouco tempo próximos a vocês e seus ambientes de podridão, que sabemos quem é quem e por onde anda cada um, que a violência e o atentado para nós não é algo novo, mas uma prática que se tornou uma extensão do próprio ser, então tem sido parte de nossa vida durante alguns anos já… nós não temos “deidades pagãs”, o que temos são armas, explosivos e informação, então, vigiem as suas palavras, suas valentias de internet podem custar caro na vida real.” (De “Algumas Notas Sobre as Recentes Difamações e Breves Esclarecimentos“, O Inimigo Interno)

Os anarquistas autores do texto, certamente, se sentirão mais confusos após ler esta citação, já que nela é expressada um desgosto com a postura contraditória de obedecer aos deuses pagãos e ao mesmo tempo aos próprios caprichos. Dos trechos que citei, o principal ponto de partida é que a ideia de “Natureza Selvagem” como uma entidade autônoma e transcendental não é um dogma obrigatório do eco-extremismo, nem mesmo está imposto especificadamente em nenhum sentido. Um indivíduo pode estar de acordo com ITS e grupos afins, embora não acredite nisso em absoluto, ou em alguns casos, estando em desacordo (ver, por exemplo, o comunicado emitido pelo “Grupúsculo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem”, de Março de 2017). Isso não é retroceder: aqueles que prestam atenção sabem disso há muito tempo. Em nosso atomizado mundo moderno, todas as crenças são individuais e pessoais, e não se traduzem bem quando são impostas ou mesmo comunicadas aos outros. A Máfia Eco-extremista é uma frente unida de individualistas que aderem a crenças pessoais que estão em confrontação com a humanidade moderna. Este pode não ser um alvo ideal para anotar pontos polêmicos fáceis, mas tem sido o caso durante um par de anos.

De qualquer forma, darei minha própria interpretação pessoal do que acredito, sendo o escritor prolífico que sou. Não creio que a imanência e a transcendência com respeito a entidades espirituais sejam inerentemente opostas. Em muitas tradições espirituais, inclusive os pagãos europeus e até certo ponto da teologia cristã mística, adorar deuses transcendentes é realmente um exercício para retornar ao que você realmente é. É um exercício de autoconhecimento. Embora isso possa ser facilmente corrompido em cultos cívicos e alienados, o verdadeiro mago na antiguidade utilizou o ritual e o simbolismo para ascender à divindade (ver, por exemplo, o Corpus Hermeticum). Na verdade, esta foi a base da filosofia moderna, como no Rosacrucianismo de Descartes e Hegel, e a obsessão com a alquimia até Isaac Newton (a alquimia é mais uma transformação pessoal que a mudança de metais básicos a precisos, cf. Carl Jung). Portanto, é obtuso citar Stirner (um discípulo de Hegel, mesmo que ele fosse um rebelde), mas não se dar conta das origens “sacras” de seu próprio discurso filosófico. Continuo afirmando que a “libertação” é um conceito intrinsecamente religioso, não importa o quanto tente fugir de seu passado cristão.

Portanto, é um pouco ridículo pensar que esses eco-extremistas que aderem a uma disciplina espiritual estejam fazendo igual os cruzados quando seguiam a voz do Papa e os jihadistas escutando os gritos militantes do ímã local. Ver a devastação da Natureza Selvagem, sua pavimentação, sua exploração e sua desaparição poderia ser uma experiência espiritual negativa o suficiente para desencadear um despertar em alguns indivíduos (ouvir um chamado, talvez). Eu senti isso. Talvez o/os autor/autores não o sentiram, e talvez acreditem que alguns estão tomando isso mais literalmente do que deveriam. Há muito tempo deixei de considerar a humanidade como o único agente convincente que poderia convocar a minha lealdade, e tampouco acredito muito em mim mesmo para crer que sou o fim absoluto e o fim de tudo (escrevo mais sobre isso abaixo). Não invejo aqueles que tomam as suas deidades literalmente, mesmo que eu não o faça. Em minha opinião, me adiro ao Desconhecido. Às vezes os chamo de “Deuses Escuros”, aqueles que restaram da devastação que é a modernidade, talvez agora sem rosto, sem voz, mas uma presença, no entanto. Não tenho ideia de como adorá-los, ou se eles deveriam ser adorados. Eles não “falam” comigo, mas sei que estão ali, esperando, quebrando os moldes da ilusão civilizada.

Meus deuses estão mortos. A única coisa que falta é matar os seus. Mesmo que esses deuses sejam abstrações como “Humanidade”, “Liberdade”, ou qualquer outra coisa.

Autoridade

Claro, voltamos ao assunto da dominação e da autoridade. Ele/os autor/autores anarquista(s) enfatizam os argumentos cansativos do caráter anti-natural da autoridade, e assim por diante. (“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros…”. Muito obrigado, Rousseau.) Agora vou citar um par de passagens que nos ajudarão a abordar este tema (de novo):

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.” (De “Já Haviam Se Atrasado: Reação Selvagem em Resposta a “Destrua as Prisões“)

– E também:

“Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.” (De “Selvagens Politicamente Incorretos“)

Em um “gol contra” um pouco humilhante, mas talvez involuntário, os autores anarquistas citam os Ona da Terra do Fogo sem se dar conta de que eles, sendo simples caçadores-coletores, tinham uma sociedade baseada no patriarcado:

“A posse patrilocal e patrilinear dos territórios concedeu aos homens o direito exclusivo sobre a terra, que era importante não tanto para os terrenos de caça do guanaco ou outra fauna e os recursos naturais. Mesmo quando um homem passou a residir na linhagem de sua mãe, seu pai e seus tios continuaram sendo as figuras dominantes. O fato de que a fabricação de bens, ferramentas e artigos domésticos possa ser ensinado a todas as crianças e adultos jovens, permitiu aos produtores dominar a economia e manter um nível igualitário de apropriação e produção, frustrando assim qualquer possibilidade de subordinação, exceto a sexual. Esta “exceção” equivale a uma ruptura na sociedade que torna impossível caracterizá-la como igualitária. Poderia ser chamada de “igualitária patriarcal”, mas este rótulo parece ser contraditório ou enganoso.” –Anne MacKaye Chapman, “Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam (“Selk’nam” é outro nome para os Ona)

O mesmo caso ocorre em uma antiga cultura “simples” como a dos povos aborígenes australianos. Embora exista uma grande controvérsia sobre se os europeus exageraram na misoginia dos povos colonizados “não contatados”, há evidências menos anedóticas de que a “dominação” e a autoridade eram uma realidade entre os caçadores coletores “materialmente simples”:

“O paleopatologista Stephen Webb publicou em 1995 sua análise de 4.500 ossos de indivíduos do continente australiano que remontam 50 mil anos. (As inestimáveis coleções de ossos da época foram entregues oficialmente às comunidades aborígenes para que promovessem um novo enterro, o que deteve os estudos de rastreamento). Webb descobriu taxas de lesões e fraturas muito desproporcionais nos crânios das mulheres, sugerindo ataques deliberados e muitas vezes ataques por trás, talvez em disputas internas. Nos trópicos, por exemplo, a frequência de mulheres com traumatismo cranioencefálico foi de aproximadamente 20-33%, frente a 6,5-26% para os homens.

Os resultados mais extremos foram na costa sul, de Swanport a Adelaide, com taxas de traumatismo cranioencefálico feminino de até 40-44%, sendo duas a quatro vezes a taxa de traumatismo masculino. Nas áreas desérticas e da costa sul, 5-6% dos crânios femininos tinham três lesões cranianas separadas, e 11-12% tinham duas lesões.” (de “A Longa História da Violência Aborígene – Parte II, recuperado do site The Quadrant“)

Claro, poderíamos citar todos os tipos de exemplos brutais de abusos misóginos, bem como o desenvolvimento de hierarquias entre os caçadores-coletores como no norte da Califórnia e nos construtores de montículos da Poverty Point no que é agora Luisiana…. Não importa. O ponto é indicar que não somos afetados pela torpe tentativa de nos explodir com o nosso próprio petardo. O eco-extremismo não desafia a “dominação” ou autoridade do passado, nem finge que pode aboli-las para sempre. É uma ideia muito tola de se apegar em qualquer caso.

Digamos o que é óbvio: os eco-extremistas e os niilistas misantropos não mostram adesão a qualquer autoridade humana tal como existe atualmente, e sei também que nem poderiam fazê-lo em um futuro previsível. A própria natureza do que significa ser um individualista eco-extremista/niilista exclui ipso facto qualquer tentativa de criar uma autoridade transpessoal no presente como é comumente entendido. Talvez ITS tenha uma hierarquia militar que se estenda para além das fronteiras e continentes, mas eu duvido muito. Tenho entendido que se trata de um grupo de individualistas comprometidos em uma guerra assimétrica. Qualquer conversa sobre “autoridade” no sentido comum do termo é meramente hipotética.

Quando os eco-extremistas falam de autoridade, eles o fazem de maneira puramente instrumental. A autoridade em seu uso (para além dos aspectos “espirituais” discutidos anteriormente) tem mais semelhança com a estrutura de uma gangue ou máfia e menos a ver com um governo ou um partido político. Não há outra maneira de apoiar outro tratamento do assunto até onde eu possa ver. Se na execução de um crime alguém está “no comando”, a vida dos delinquentes poderá depender de que todos façam o que diz esta pessoa. Se uma determinada pessoa alcança um conhecimento espiritual superior ou o conhecimento de ervas medicinais, essa é a única autoridade que o eco-extremismo parece estar falando. Ao contrário do/dos anarquista/anarquistas autor/autores, eles não tem a ilusão de “construir novas formas de relacionamento entre todos os seres que habitam este mundo e estes com a Terra”.

Você pode pensar que, porque algumas pessoas falam que estão livres da “dominação”, o sangue delas não é vermelho como o dos demais. É bastante lamentável que um animal fique doente e talvez viva quatro anos e meio para falar sobre estar livre de “toda a dominação”. Alguém poderia falar também sobre estar livre da gravidade ou da segunda lei da termodinâmica. Estamos limitados por todos os lugares em nosso contexto, desde quando atravessamos a rua até o que podemos comer no café da manhã. Os eco-extremistas têm o objetivo muito simples e compreensível de se vingar e ver as coisas arderem e serem destruídas. A “destruição de toda autoridade” nem sequer parece significar algo em concreto, e muito menos possível.

“Somos soldados, não se pode escapar deste fato. Soldados no sentido tradicional e soldados em um sentido diferente. Somos guerreiros espirituais, temos uma causa ímpia para colocar um fim na humanidade. Não estamos lutando para preservar nações ou governos. Estamos lutando para retornar a nossos deuses, para nos tornarmos eles. Somos soldados em um sentido tradicional porque esse tipo de resultado não acontecerá sem combate. Tomar a ofensiva é a única coisa nobre que pode ser feita. Goebbels declarou ao povo alemão quando estavam sendo invadidos, “o ódio é nossa oração, a vingança é nosso grito de batalha”. O fedor de uma espécie inferior já não pode ser tolerada. A única solução para uma sociedade doente é a aniquilação.” –Tempel ov Blood, Liber 333

Misantropia

Direi que, pelo menos para mim, a misantropia não é um ato de aprovação do juízo moral. A não ser que alguém seja um completo e desmedido otimista, é evidente que existe um problema. O eco-extremismo em alguns lugares argumentou que o problema é físico, não moral. Como formulado no já extinto blog Wandering Cannibals:

“Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista. Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são humanos demais…”

Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria? Aqueles que se opõem à misantropia parecem pensar que o problema é qualitativo quando, na verdade, é quantitativo. Não é uma questão de inocência ou culpa, é apenas que existem muitos malditos, amorosos e éticos humanos que pensam que suas vidas e seu bem-estar são invioláveis. Que tocar em um fio de cabelo de suas cabeças é um sacrilégio ou, o horror dos horrores!.… autoridade.

Mas, na verdade, não adianta nada discutir o assunto. Isso se torna um exercício tragicômico uma vez que os anarquistas “niilistas” começam a acusar os eco-extremistas de moralismo por realizar as ações mais imorais imagináveis. Dizem algo como: se eles fossem realmente individualistas e “não dominados”, não atacariam a humanidade em absoluto, ou atacariam apenas aqueles que têm a responsabilidade “direta” pela dominação, seja lá o que isso signifique. Sinceramente, o/os anarquista/anarquistas autor/autores parece/parecem abertamente vago/vagos sobre a condenação do ataque indiscriminado, já que é um ponto que levantam. Falo mais de fanboys egoístas que começam um jogo bobo de quem pode se importar menos, que de alguma maneira é algo como o que se segue:

A: “Eu sou amoral, então ataco a sociedade e os humanos.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com a sociedade nem com os humanos, e você simplesmente estaria fazendo as suas coisas.”

A: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com quem estou atacando.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria se eu me importasse com quem você atacou…”

Etc., etc….. Sério, tem sido assim há dois anos. Sabe quantos executivos o/os autor/autores do texto poderia/poderiam ter aleijado até agora?

Ah, é. Me esqueci que ele/eles não tem a intenção de ser uma ameaça para ninguém, exceto talvez para os eco-extremistas, e nem sequer pode/podem prender um deles. Só pra constar, me lembra a polícia.

Então, para concluir, não me importa se os eco-extremistas citam o Monstro Voador de Espaguete para queimar, matar e mutilar. Para mim, é o mesmo: no fim de tudo, somos estúpidos humanos. Tampouco me importam os objetivos absurdos como “a destruição de toda autoridade”. Isso é muito abstrato para que entenda o meu pequeno cérebro, o que é uma boa maneira de dizer que é uma porcaria. Finalmente, eu não gosto muito dos humanos porque não parecem gostar muito de si mesmos. Eles estão defecando coletivamente sobre o único planeta que têm, e cada dia se tornam mais mecânicos e artificiais. Sobre este último ponto, não sei porque sou obrigado a me sensibilizar ou me preocupar com os seres humanos atacados no presente, já que qualquer pessoa aleatória em Paris, Jakarta ou Kinshasa é tão abstrata como Zeus ou como um membro de uma tribo indígena extinta. Para citar o grande reacionário De Maistre:

“A Constituição de 1795, assim como suas predecessoras, foi feita para o homem. Mas não existe no mundo nada que se possa chamar de homem. Ao longo de minha vida, tenho visto franceses, italianos, russos, etc.; sei também, graças a Montesquieu, que se pode ser persa. Mas, quanto ao homem, afirmo que, em toda minha vida, jamais o encontrei; se ele existe, desconheço-o completamente”

Tenho pouco tempo para aqueles que estão obcecados pelos ideais de uma sociedade que supostamente desejam destruir. Se estas pessoas finalmente começam a atacar o que odeiam, e se realmente atacam, não haverá ninguém mais satisfeito que eu. Mas se continuam emitindo anátemas de dentro do escritório da Mãe Superiora do Convento da Santa Anarquia, estarão confirmando minhas piores suspeitas de suas verdadeiras intenções.

“Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã

Extraído de Reflexiones Paganas.

Hoka Hey!” (em língua Dakota: “Hoje é um bom dia para morrer!”), foi um grito de guerra que se escutou nas proximidades do rio Pequeno Grande Chifre, no território de Montana, Estados Unidos, no final de Junho de 1876, quando ocorreu a célebre batalha entre Tasunka Witko (“Crazy Horse” ou literalmente: “Cavalo Louco”, 1840 – 1877), o grande guerreiro e chefe da tribo Sioux Oglala e o infame comandante do 7° Regimento da Cavalaria dos EUA, o Tenente-Coronel Coronel George Armstrong Custer.

O primeiro, comandando os bravos guerreiros de sua tribo natal, lutando por sua terra e seu direito de viver em liberdade; o segundo, um genocida e racista, com pretensões políticas para a Casa Branca, e que não hesitou em matar centenas de homens, mulheres e crianças aborígenes americanas e violar a todos os tratados existentes para atingir os seus objetivos.

Mas o propósito desta nota não é narrar dita batalha, nem como “Cavalo Louco” fez justiça ao seu povo e herança cultural ao aniquilar seu inimigo, os “wasichus” ou invasores brancos, mas sim para resgatar aquele grito, para dar nome a uma virtude pagã esquecida: a de saber morrer bem.

Guerreiro Sioux Oglala. Assim surgiria Tasunka Witko (Cavalo Louco).

Saber Morrer é Tão Importante Como Saber Viver

O humano moderno, independentemente da cultura nativa, a religião que pratique ou o nível de educação que tenha, geralmente esqueceu do fato mais importante da Vida: A Morte. Tentamos não pensar sobre isso e deixar mensagens nos cemitérios e lugares de respeito e lembrança dos falecidos, qualquer pensamento ou sentimento a respeito.

Um saber inestimável foi perdido, um conhecimento transcendente: a ideia de que vivemos para a morte, que nossas vidas são menos que um lampejo na Eternidade, que a poeira e o esquecimento é o destino dos homens. Um conhecimento que esteve presente desde os primeiros escritos humanos, como o que segue:

«Gilgamesh, por onde você vagueia? Não encontrará a vida que procura. Quando os deuses criaram a humanidade, separaram a morte dela, retendo a vida em suas próprias mãos. Você, Gilgamesh, encha a sua barriga, aproveite o dia e a noite. Cada dia celebra uma festa de alegria. Dança dia e noite e brinca! Certifica-se de que as suas roupas sejam novas, lava a sua cabeça; banha-se na água. Cuida do pequeno que pega na sua mão. Que sua esposa se deleite em seu seio! Porque essa é a tarefa da [humanidade]!»

(“Poema de Gilgamesh”, Tábua X, Coluna III – h. 1500 a.C.)

No entanto, apesar da inegável realidade do que precede, o paganismo ancestral, em quase todas as suas tradições, propunha uma visão corajosa e realista diante do destino final que espera a todos nós. Não propunha a visão de se lamentar, de ocultar o temor ou manter distante todo o pensamento sobre o final da existência, mas, muito pelo contrário, usar este conhecimento como uma ferramenta para viver plenamente, para ser feliz e tirar o máximo proveito dela e desfrutar a vida.

Não se trata de nenhuma verdade “revelada”, de nenhum conhecimento “iniciático” ou “arcano”. Não é necessário realizar viagens exóticas ou longas meditações, para poder vivê-la… Somente a partir da simples sabedoria do senso comum, emanada daqueles homens e mulheres que, por milhares de gerações, viram a Morte diante de seus olhos, desde muito próximo. Não em hospitais esterilizados e pintados de branco, mas em qualquer momento e lugar, de maneira violenta, quando havia guerras, saqueios ou ataques de predadores; de um modo sub-reptício e silencioso, quando chegavam as pragas ou a escassez.

Aquelas pessoas antigas aprenderam a viver com a Morte seguindo seus passos desde muito perto e justamente por isso costumavam ser, às vezes, mais felizes que nós (nem sempre nem constantemente, porque a felicidade permanente é apenas uma quimera) e também ter vidas plenas e energéticas.

Esse conhecimento que os ancestrais nos deixaram e que foi esquecido pela cultura moderna, não é inacessível, mas requer apenas um mínimo de contemplação da existência e de nosso papel nela. É realmente simples: devemos estar preparados para morrer nos dias de hoje, viver cada dia como se fosse o último.

Isso, por si só, fará com que você viva com intensidade cada momento, valorizando cada minuto, ciente de cada segundo. Se você não abandonar a ideia de que a morte está próxima, a vida é vivida com intensidade, com a percepção aguçada e aumentada, com plena consciência de cada momento.

O pagão considera a si mesmo um guerreiro. Não porque busca a violência ou a guerra, mas porque está sempre preparado para lutar contra os obstáculos da Vida e contra as injustiças dos homens. Como tal, tem medo da morte como qualquer outro ser finito, mortal… Mas sabe que antes é preferível enfrentá-la com integridade do que viver como um roedor assustado, escondendo-se nos cantos mais sinistros pelo simples fato de tentar viver um segundo a mais.

Para viver bem é preciso saber morrer bem e para morrer bem, é preciso ter vivido bem. Esta simples verdade é muito pouco reconhecida e valorizada pelos sistemas de crenças dominantes. Tanto pelas religiões (supostamente) “reveladas”, como pelas ideologias e filosofias de corte humanista (predominantemente ateias).

A morte é o evento humano que mais significado dá a vida, não só porque é algo único, algo que ocorre apenas uma vez e não pode ser revertido, mas porque é o epílogo de toda a existência, o final da história pessoal de cada indivíduo. A morte é a “graduação” da Vida, o fim da estrada.

Todos os humanos querem ter uma vida boa, cheia de prazeres, conquistas e satisfações. No entanto, mesmo sabendo que todos nós teremos a última hora, pouco são aqueles que se preocupam em ter uma bela morte.

Os antigos romanos tinham um saudável costume: quando seus heróis e generais desfilavam de frente para a plebe pelas ruas de Roma, em seu momento de maior glória, depois de alguma campanha vitoriosa, sempre havia um escravo atrás dele, que segurava a coroa de louros sobre sua cabeça, mas também lhe sussurrava ao ouvido: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Alguns acreditam que, com base no escritor cristão Tertuliano, a frase na verdade era: “¡Hominem te esse memento!” (“Lembre-se que és apenas um homem”), mas esta última versão é tardia e desconecta do propósito original.

Com essa ação, os romanos (e talvez primeiro os Sabinos, de onde se supõe que se originou o costume) queriam recordar o herói, o poderoso, que sua realização era efêmera, tanto para que não abusara da fama e do poder ganho, como para que não perdesse de vista o seu destino.

Há um velho provérbio que diz: “Se vive com dignidade, não se morre com ela, porque nenhuma morte é digna”. Mas isso é falso, já que não é a própria morte o que geralmente tememos ou rechaçamos e que podemos aceitar e tentar conscientemente experimentar, mas o seu prólogo. A Morte, seja o que for que implique para o Ser, se é o passo para o outro “plano” ou a aniquilação total e final, não é “o ato de morrer”, mas sua consequência. O “ato de morrer” é o que todo humano pode realizar com dignidade ou catástrofe; com consciência ou sem ela; com coragem ou covardia.

São estes minutos “antes e durante” o processo que definem o que foi dito anteriormente, o ato de morrer, o epílogo da vida e não o que ocorre depois disso, que já é desconhecido para o Homem, nem é relevante para a existência terrena quem foi um indivíduo durante os dias de sua vida.

“Memento Mori” (“Lembra-se que Morrerás”)

A Morte é o propósito da Vida, não há nada na Natureza que seja imortal, imperecível, permanente. Para os pagãos, até os deuses acabam morrendo com os éons da Eternidade. Os universos, os planos do ser e tudo o que existe deve deixar de existir, mas não em vão, e sim para dar lugar a um novo começo, a uma nova vida e a um novo Cosmos.

A física moderna mostrou que a energia não se perde. Isto é formulado pela 1ª Lei da Termodinâmica (também chamada de “Princípio da Conservação da Energia”), que muitas vezes é tomada de forma distorcida e interpretada como: “Nada se cria, nada se perde; tudo se transforma.”, postulado pelo químico francês Antoine-Laurent de Lavoisier (1743 – 1794), mas tomada como evidência da imortalidade da alma ou a essência do Ser.

Tal coisa é errada, porque enquanto a energia nunca desaparece nem é aniquilada, existe uma 2ª Lei da Termodinâmica, também chamado de “Entropia”, que dita que a energia sempre que passa por alguma transformação, vai degradando-se, ao ponto de que (como hoje em dia é conhecido cientificamente) o Universo acabará, depois de incontáveis milhões de anos, como um incomensurável páramo escuro e frio, muito maior do que hoje em dia e irá conter apenas fótons de energia muito baixa, incapazes de gerar luz ou calor. Algo como os últimos cadáveres de energia e matéria que atualmente compõem as galáxias, os sóis; os planetas e os seres vivos.

Este conceito é odiado e temido pela maioria dos filósofos e teólogos otimistas, porque os obriga a considerar a extinção final de todas as coisas, até mesmo do Universo. No entanto, no Paganismo, não existe essa preocupação, porque a concepção cíclica garante que, de uma forma ou de outra, tudo voltará a começar enquanto os indivíduos desaparecerão, a Natureza continuará para sempre.

Mas, no entanto, há algo que a física conhece e que raramente capta o interesse dos “crentes” de qualquer sistema espiritual ou dos filósofos propensos à metafísica, porque todos estes estão apenas interessados na possível sobrevivência da “alma individual”. Hoje sabe-se que “a informação nunca se perde“. Mas, que significado ou importância isso pode ter para os seres humanos? Nada mais e nada menos que o conhecimento (não a crença ou a superstição, mas o saber real) de que todo trabalho, todo pensamento, todo acontecimento desde sempre e até esse estado final da existência, descrito anteriormente, jamais desaparecerá.

Essa informação pode ou não ser acessível ao Homem (por enquanto não é se está “no passado”, mas nada impede que a evolução da tecnologia e da consciência nos permita acessá-la algum dia), mas jamais desaparecerá, dando-lhe com isso uma profunda e tremenda importância e significado a cada segundo de nossas vidas, a cada palavra, a cada interação.

Isso dimensiona a Vida de maneira diametralmente oposta a como a colocam os sistemas hegemônicos de crença e pensamento: a vã busca da imortalidade, a absurda ideia do “perdão e o esquecimento” das más ações; dos fracassos e misérias, é apenas produto da fraqueza de nossa memória, mas de modo algum implica que o que aconteceu mude, se modifique, se resolva ou possa ser compensado.

Nossas vidas são evanescentes, efêmeras… Mas os acontecimentos nelas, nossas ações, reverberam na Eternidade…

Não é na imortalidade onde o pagão deveria concentrar as suas energias e o seu ponto de vista, sem que isso implique negar a sua possibilidade ou mesmo a sua realidade, mas no legado que deixa e deixará à memória da Humanidade, e também a essa outra “memória” indestrutível e eterna do próprio Universo, da Existência. Se você quiser, coloque de uma forma poética, na memória dos deuses, que jamais sofrerá o “esquecimento”.

Não se trata de viver “no passado” ou “para o passado”, mas de fazer bom uso do presente e de terminar a “batalha da vida”, mas vitoriosos, ao menos com dignidade e honra, com a maior consciência possível de si mesmo e do que foi deixado para trás.

A Morte não deveria nos assustar, essa amiga benevolente, que levará consigo toda a dor, toda a ansiedade e toda a miséria. Toda a dor está na Vida, não na Morte. Deveríamos nos preocupar com o modo como percorremos o caminho da Vida e como encerramos esta jornada, como damos um final a nossa história pessoal.

Todos nós queremos viver 100 anos, é lógico, mesmo visto do ponto de vista daqueles que pretendem dar um significado transcendente às suas existências. Uma vida curta implica em menos tempo para fazer, alcançar e aproveitar. No entanto, e muitas vezes, isso geralmente é uma falácia… Quantos milhões de seres vivem 80 ou 90 anos sem que suas vidas tenham algum significado, sem haver conhecido a si mesmos, sem haver evoluído suas consciências; sem ter deixado legado algum a suas famílias ou amigos próximos, a sua cultura ou a Humanidade?

É comum ver a dor e as lágrimas dos mais velhos pela morte dos jovens. Isso é lógico quando se trata de seres a quem o Destino negou a obtenção de uma vida suficientemente longa, para ser significativa e memorável. Mas estas pessoas choram também pelos heróis caídos, pelos notáveis falecidos, pelos ícones reivindicados por Thánatos.

Tal coisa demonstra a indolente ignorância em que a maioria vive. Não se pensa que, talvez, esse falecido tenha cumprido com sua vida e o seu destino, que deixou algum legado (não importa o quão grande ou pequeno) a seu entorno e que se jamais é esquecido, não deveriam chorar por ele, mas glorificá-lo.

A cada pagão lhe é apresentado em algum momento da vida o dilema de Aquiles: Viver uma vida longa e medíocre, sombria e esquecível ou uma curta e gloriosa, que jamais será olvidada. Livre como é cada ser humano de poder viver sua vida como melhor lhe agrada, não é digno de chamar a si mesmo de pagão aquele que pretende transcorrê-la de forma medíocre e regozijar-se nela.

Não se trata de desejar ou propiciar uma vida curta ou uma morte dramática. Não é o suicídio, direto ou indireto, o caminho do paganismo. Se trata é de não escolher por viver mais, mas de viver melhor. Aquiles não optou por uma vida curta porque queria morrer, e sim porque não queria viver em vão.

Muitas pessoas se comovem e valorizam aqueles seres patéticos que se agarram à vida, mesmo nos últimos momentos de agonia, só para viver mais uma hora. Esse tipo de “resistência” não é uma virtude, mas o efeito ou a expressão do medo e da ignorância. Uma coisa é não aceitar a morte sem lutar, porque ninguém sabe se realmente é seu destino morrer naquele momento, e outra muito diferente é não saber aceitá-la com serenidade, dignidade e alegria, no momento em que já não restam dúvidas do que virá.

Um verdadeiro pagão deve fazer de cada jornada “um bom dia para morrer”, não buscando que esta seja a última, mas tampouco escapando da vida, do destino ou dos desafios que se apresentam para tentar evitar que esse seja o último dia. Aceitando que, a qualquer instante, o momento funesto pode chegar, viverá a cada um com a intensidade do herói, do guerreiro.

Se trata apenas de pensar para nós mesmos: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Assim como fez Cavalo Louco naquela batalha em que sobreviveu e da qual queria sair com vida. Seu grito não implicava: “Hoje é o dia em que quero morrer“, mas: “Nenhum dia de minha vida seria melhor do que o de hoje para que a morte viesse a mim“.

Uma vida assim vivida é uma vida que valerá a pena e que produzirá um sorriso final, no momento de fechar os olhos pela última vez. É claro, quase ninguém poderá alcançar isso plenamente, mas sim tentar atingir dito objetivo com todas as suas energias e com toda a sua vontade.

Heróis e Mártires

Não temos que nos confundir-nos muito, entre a ideia de morrer lutando por um ideal e a de deixar-se matar por ele mesmo. O segundo, o “martírio” pode ou não ser algo meritório, depende da forma que se olhe. Mas também é uma vida desperdiçada, porque foi entregue sem luta, sem resistência.

Pelo contrário, nenhuma vida é mais significativa e nenhuma morte é mais gloriosa que aquela que deixa esta existência ao defender ou lutar por seus ideais, quando tenta sustentá-los; por proteger aqueles que não podem se defender, por salvar os outros e por promover a justiça, a liberdade e a verdade. Eis aí a diferença entre o herói e o mártir: O herói morre lutando, o mártir se deixa matar.

Todavia há outra diferença nestes dois seres: O verdadeiro herói não espera que outros morram junto com ele, se ele puder evitar outras mortes, o fará. O mártir tenta fazer com que seus iguais o “sigam” em seu infeliz negócio (como é frequentemente visto em muitas seitas alucinadas) e, muitas vezes, como ocorre entre os extremistas muçulmanos modernos ou entre os primeiros cristãos, aspiram levar a maior quantidade de vítimas como eles.

Não é como que, nos tempos modernos, alguém morra em “batalha” mantendo a filosofia de guerreiro. Mesmo aqueles que se veem forçados (ou se volutariam) a participar nas tristemente numerosas guerras da atualidade, raramente morrem por um ideal e poucas vezes tem consciência do porque que estão lutando.

Por outro lado, também ocorre o oposto, entre aqueles indivíduos que matam e morrem cegos por um obscuro e trágico fanatismo (geralmente religioso ou político). Nestes casos, o heroísmo é desconhecido por eles e chegam ao fim impulsionados unicamente pelo ódio e a ignorância.

Não é uma questão de recomendar que hoje ninguém tente ter uma “bela morte”, como os hoplites gregos diziam e que as Kers dos aqueus ou as Valquírias dos Vikings, venham por suas almas. Pelo contrário, trata-se de não buscar uma morte lenta e decrépita, uma longa agonia sem sentido. A “batalha” pode ser para o guerreiro pagão em qualquer parte ou âmbito.

Seria um erro interpretar tudo o que foi dito como um endosso para negligenciar o corpo e a mente, para submetê-lo a vícios ou atividades que o debilite ou degrade. Não há nada mais distante disso que o pensamento pagão: O pagão não teme o excesso, mas tem como regra a moderação. “Nada em excesso” (“μηδὲν ἄγαν”) dizia Sólon de Atenas, que mais tarde se converteria no famoso “credo grego“.

O pagão não tem medo de ser ferido ou morto por defender o que ele acha que é certo, mas em nenhum caso ele quer que isso ocorra. Um velho ditado diz: “Soldado que sobrevive serve para outra guerra”. Isso às vezes é tomado de maneira irônica e se iguala à covardia, mas na verdade não é bem assim. O verdadeiro herói não tem medo de morrer, mas tenta sobreviver a qualquer custo, exceto no caso de que a sua sobrevivência implique no fracasso de seu propósito. Tenta, porque ele sabe que se tiver sucesso ele poderá protagonizar outra vitória futura, outra possível façanha.

E o que dizer do homem “comum”? Aquele que vive dia após dia, enfrentando as pequenas lutas e misérias da existência? Nenhuma consideração muda, exceto que se deixe abater pela rotina; que o automatismo, o tédio e a irracionalidade o vençam.

O “campo de batalha” para o guerreiro pagão pode ser qualquer coisa ou lugar. Um médico pode ser um guerreiro que luta contra a doença, um varredor que luta contra a sujeira, a contaminação e a favor da higiene. Há guerreiros famosos e outros anônimos, mas a diferença não está nisso, e sim na ação pela vida com indolência, com inconsciência ou fazendo com determinação, premeditação e paixão. Mesmo se o caminho tomado é equivocado, é respeitável que ele o faça com coerência e fervor e leve às últimas consequências.

Como dizia Bruce Lee: “O crime não é o fracasso, mas sim deixar de tentar. Em grandes tentativas, até falhar é glorioso.”

A energia é limitada, no Universo, em um sistema determinado ou em qualquer indivíduo. Isto implica que uma vida intensa seja, em geral, mais curta que uma vida lenta e frouxa. Não é uma pergunta de uso comum aquela de “por quê os grandes, os mais valiosos, morrem jovens?”. No entanto, o pagão crê que a versão curta e plena vale mil vezes mais que a longa e medíocre, que 100 anos inúteis ou submetidos a uma vulgar rotina não velem 100 dias vividos com sentido, plenitude e glória.

Os gregos diziam que havia três caminhos para servir aos deuses: O heroico, reservado para poucos; o sacerdotal ou iniciático, que era apenas para aqueles que queriam viver dessa maneira e o do homem comum. Enquanto este último seguisse os parâmetros que os deuses do Olimpo haviam estabelecido para ele, seu destino não seria menos digno do que o do próprio Herakles.

Não se trata então de que o “guerreiro pagão” moderno viva como um Viking, um Sioux, um Espartano ou um Samurai, mas que recorde aqueles valores ancestrais de desafio e força diante da morte e o perigo, e tente adaptá-los a seu tempo e as atividades que ele realiza em seu próprio mundo.

Não é o mesmo que morrer enquanto se vive plenamente, sem importar que seja pelas mãos de outras pessoas, em um acidente, por doença ou o que for, do que deixar de existir (morrer) quando o último alento de vitalidade abandone o corpo após vegetar por décadas, temendo o futuro e com saudades do passado. Essa é a diferença. Quem não deixa um legado na vida, de qualquer tipo, não viveu com dignidade e, portanto, não terá uma morte digna nem haverá dia, por mais que viva 1000 anos, que encontre bons motivos para enfrentá-la.

O Morrer Como Reafirmação do Sentido da Vida

Existe a crença popular de que Sócrates cometeu suicídio. Isto é produto de mentes estreitas, que lendo o “Crítias” e o Fedón”, não foram capazes de compreender a ideia central pela qual o filósofo decidiu aceitar o destino que lhe impuseram as leis atenienses, sem fugir de seu cativeiro ou sem demonstrar resistência, mesmo quando seus amigos-discípulos haviam propiciado tais possibilidades. Alguns outros, talvez a maioria, nem sequer leram estes livros, mas tomam como um “fato” a opinião dos primeiros.

A realidade é que, ao menos se nos basearmos nos escritos de Platão, seu amigo e discípulo direto, Sócrates deu sua vida pelo que acreditava. Não por um sentimento meramente “heroico” relativo ao respeito por suas próprias ideias, mas por algo mais importante: O filósofo ateniense tentou viver toda a sua vida de acordo com as leis de sua pátria, a Atenas que tanta grandeza deu à Grécia. Desconsiderar a decisão do tribunal que o julgou, mesmo que ele estivesse em total desacordo com o resultado do julgamento, teria sido equivalente a destruir o próprio esquema de seu propósito de vida, o significado mais profundo que, para ele, tinha a mesma profundidade do que a própria vida.

Mais uma vez, não se trata de querer morrer, mas de não desejar seguir vivendo, se a sobrevivência implica na destruição do sentido da própria vida.

Outro caso semelhante é aquele que pode ser extraído do célebre Epitáfio de Simônides, em homenagem ao rei Leônidas I de Esparta e a seus 300 bravos hoplitas, mortos na Batalha de Termópilas. Ele não fala da façanha imortal destes, nem de suas virtudes como guerreiros ou a forma como decidiram ir à batalha, apesar de enfrentar um exército centenas de vezes mais numeroso. O epitáfio diz:

«Ὦ ξεῖν’, ἀγγέλλειν Λακεδαιμονίοις ὅτι τῇδεκείμεθα,

τοῖς κείνων ῥήμασι πειθόμενοι.»

(“Estrangeiro, vá e diga aos espartanos que nós aqui jazemos em obediência às suas leis.”)

Não havia nada melhor que isso para ser dito. Nada era mais glorioso que morrer respeitando aquelas leis pelas quais estes guerreiros haviam vivido. A rendição, a retirada ou o pacto de um acordo com os persas equivaleria a esquecer o principal motivo de suas vidas, o sentido mais profundo que haviam dado a si mesmos. Ser infiéis a estas leis, a estes valores existenciais, era para eles, muito mais difícil, que encarar a morte com determinação e serenidade interior.

A partir destes exemplos, infere-se que não se trata de “buscar a morte”, mas de não “tentar se salvar dela”, se o preço for muito alto.

Esta decisão não precisa necessariamente ser feita na véspera de uma batalha. Em geral, é dada como o produto de uma reflexão de anos… através das mais rotineiras das atividades humanas. Nunca pode ser tomada in situ. A única maneira de poder ser coerente com tais valores é se preparar a cada dia para isso.

Nem Sócrates nem Leônidas tomaram a decisão de fazê-la, em seus últimos dias, porque passaram as suas vidas assim como Cavalo Louco, o personagem que inspirou o início deste artigo, pensando a cada manhã que: “Hoje é um bom dia para morrer (se for isso o preço para ser coerente com a minha vida)” e que o destino ou os deuses seriam os que decidiriam em qual destas jornadas tal evento teria que ser cumprido.

Se os pagãos modernos se proporem a tentar seguir esses ancestrais e redescobrir a sabedoria sobre a Vida e a Morte que tinham, as suas vidas adquiririam um maior sentido, seriam mais plenas (inclusive mais felizes!) e um dia, chegado o momento, poderão fechar os olhos sorrindo diante da visão da Lagoa Estige.

Vivamos então, cada dia, gritando realmente ou figurativamente: “Hoka Hey!“, porque essa deve ser a maneira pagã de enfrentar a morte e também, esse outro curto período que a precede, a qual costumamos chamar de vida.-

“Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica

Análise extraída da primeira edição da Revista Atassa.

A diferença principal entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecno-industrial. Nós atacamos porque o futuro é incerto.” – Reação Selvagem, em Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem.

Introdução

Em setembro de 2016, Kaczynski lançou sua análise mais ambiciosa de sua tão falada “revolução contra o sistema tecnológico” na forma do livro Revolução Antitecnológica: Por Que e Como (RA), um texto com mais de 200 páginas dedicado apenas a várias questões relacionadas a ação revolucionária contra o sistema tecnológico. Leitores familiares com os escritos de Kaczynski saberão que essa noção de uma revolução contra o sistema tecnológico sempre foi uma parte importante do pensamento de Kaczynski. A noção aparece pela primeira vez na forma de um chamado pela destruição completa da civilização industrial no primeiro comunicado do Freedom Club enviado ao San Francisco Examiner em 1985, e continuou a aparecer nos escritos de Kaczynski. Por exemplo, no famoso trecho de A Sociedade Industrial e o Seu Futuro (ASIEOSF) em 1995:

Nós advogamos então por uma revolução contra o sistema industrial. Essa revolução pode ser ou não ser violenta; ela pode ser súbita ou um processo gradual ocorrendo ao longo de algumas décadas.”

Apesar de ser um elemento importante de seu pensamento, uma análise mais profunda das questões envolvidas em tal revolução estão em grande parte ausentes de ASIEOSF, e espalhada por ensaios como “A Revolução Que Está Por Vir” e “Atinja Onde Dói”, para mencionar alguns dos mais pertinentes. Parece que esse livro tenta expandir um elemento essencial, porém sub-analisado do seu pensamento. Como uma breve análise, o livro é dividido em duas partes que correspondem a dois pontos de interesse indicados no subtítulo, tanto o porquê de Kaczynski ver uma revolução contra o sistema tecnoindustrial como a única resposta plausível para “os principais perigos que pairam sobre nós”, quanto sugestões de “estratégia central” para preparar e realizar tal revolução.

Vale notar que apesar de ser uma expansão do tratamento de assuntos relacionados a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, grande parte do conteúdo de RA não pode ser considerado particularmente inovador para qualquer um que está acostumado com os escritos de Kaczynski; não há muito de novo do ponto de vista teórico. Muitos dos elementos centrais apresentados nessa obra podem ser encontrados de forma dispersa em ensaios e cartas em Escravidão Tecnológica por um leitor cuidadoso com capacidade de sintetizar os comentários feitos ao longo dessas peças. Fundamentalmente, a base teórica de Kaczynski permanece a mesma de sempre, enquanto a maior parte do livro é dedicada a oferecer uma extensão dessa base através de uma análise histórica e de argumentos delineados de forma mais rigorosa. A exceção disso é a exploração da teoria do colapso por parte de Kaczynski no segundo capítulo.

Antes de se aprofundar na análise do livro, eu vou abrir o jogo e expor a minha posição ideológica. É importante notar que muitas das minhas críticas ao RA estão ligadas à minha afinidade com eco-extremistas. Das várias críticas que ITS (Individualistas Tendendo ao Selvagem) e Reação Selvagem apresentaram contra Kaczynski até o seu enfoque no presente como o único foco de ação razoável (e o seu ceticismo em relação a especulações futuras), eu valorizo muito as contribuições dos eco-extremistas para o pensamento anticivilização. Vale também notar que grande parte dessas críticas estão disponíveis em outros lugares, então eu não vou dedicar muito espaço as nuances das críticas levantadas pelos eco-extremistas, a não ser onde elas se mostrem pertinentes ao conteúdo do RA. Tendo dito isso, o produto final da obra de Kaczynski é um tratamento sistemático e unidimensional de uma questão que passou a constituir um elemento central de seu pensamento. Sendo assim, RA desempenha um papel importante na obra de Kaczynski, sendo também importante para aqueles que estão interessados nas nuances de seus pensamentos sobre a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, apesar da minha desconfiança pessoal do pensamento revolucionário que caracteriza a obra.

1. O Desenvolvimento de uma Sociedade Jamais pode ser Sujeito ao Controle Racional.

Kaczynski abre o primeiro capítulo da obra com uma exploração da tese que sociedades complexas jamais podem ser racionalmente controladas. Essa exploração é uma expansão da sua crítica contra soluções reformistas para os problemas do sistema tecnológico apresentada pela primeira vez em ASIEOSF nas seções intituladas “Alguns Princípios da História” e “A Sociedade Tecnoindustrial não Pode ser Reformada” (Parágrafos 99-113). O foco principal dessas duas secções do ASIEOSF é ilustrar que “Pessoas não escolhem conscientemente e racionalmente a forma de sua sociedade. Sociedades se desenvolvem através de um processo de evolução social que não está sob controle humano racional” (“Escravidão Tecnológica”, p 68). A tese principal do primeiro capítulo de RA é a mesma tese apresentada nos capítulos mencionados de ASIEOSF.

A diferença entre os dois escritos está principalmente nos argumentos fornecidos para apoiar a tese. Enquanto a tese em ASIEOSF é baseada em uma dedução lógica de uma série de premissas precedentes, em RA ela é em grande parte pressuposta, e a maior parte do ensaio é dedicada em fornecer exemplos históricos que demonstrem sua veracidade em eventos reais. Kaczynski deriva uma vasta gama de exemplos da história escrita para ilustrar essa tendência (a esse ponto praticamente um truísmo para quase todos que apresentam alguma perspectiva anticivilização) dos planos para controle racional de sociedades de larga escala raramente ocorrerem como planejado. “De fato, fracasso é a norma” (RA, p.7). Além do mais, Kaczynski oferece uma série de cenários cada vez mais implausíveis para testar a força de sua tese. Ele até mesmo continua com esses cenários em seu primeiro apêndice, “Em Apoio ao Primeiro Capítulo”, que consiste em uma série de experimentos mentais usando mais cenários hipotéticos (novamente, cada um mais absurdo do que o último caso você não esteja ainda convencido). Previsivelmente, Kaczynski lida com cada contraponto demonstrando que mesmo permitindo uma série de cenários cada vez mais implausíveis, o controle racional de sociedades complexas permanece fora da capacidade humana e mesmo não humana (usando, por exemplo, a aplicação de algo como o teorema de incompletude de Godel para demonstrar a impossibilidade de qualquer sistema totalizador para o controle não-humano da trajetória de uma sociedade). A imagem da nossa sociedade complexa que emerge no fim é análoga a de um navio sem ninguém no timão. Mas é pior ainda; esse é um navio tão massivo e complexo que nenhuma pessoa ou coletivo de pessoas a bordo sabe o suficiente sobre esse gigante para ser capaz de dirigi-lo conscientemente, e nem seria capaz de saber. Essa é a imagem de um gigantesco monstro sem precedente histórico diante do qual somos impotentes.

Novamente, nada disso é algo que Kaczynski não tenha dito de uma forma ou outra ao longo de sua obra. Apesar disso, esse livro mais recente – que tem a intenção de elaborar mais sobre a impossibilidade do controle racional da sociedade e ilustrar a veracidade do conceito através de uma série de exemplos históricos – é admirável. De certa forma, não há muito o que falar sobre esse capítulo, pois eu não discordo de maneira significativa com a tese e concordo em grande parte com as suas conclusões. No fim das contas, é difícil encontrar muito do que reclamar em relação a análise apresentada aqui.

II. Porque o Sistema Tecnológico vai Destruir a si Mesmo

Como mencionado na introdução, esse capítulo contém algumas das poucas inovações teóricas no livro. Esse capítulo é dedicado a uma exposição da necessidade de auto-aniquilação por parte do sistema tecnológico. Para dar um contexto teórico: em respeito à perspectiva de colapso do sistema tecnológico, a maneira que Kaczynski tem lidado com o rumo da sociedade tecnológica no passado admite que a sua trajetória não está sujeita ao controle de seres humanos (veja o comentário do primeiro capítulo), mas ele tem sido hesitante em fazer qualquer afirmação forte sobre a necessidade de um colapso.

A maioria das explorações teóricas ocorrem na segunda secção do capítulo. É ali que ele apresenta a estrutura formal da teoria em termos gerais e abstratos. Para apresentar a sua teoria, ele se foca primariamente no que ele chama de “sistemas auto-propagantes”. Esse conceito é central a suas explorações aqui, e ele descreve esses sistemas como qualquer “sistema que tenda a promover a sua própria sobrevivência e propagação”. (RA, p42.) Kaczynski apresenta exemplos de sistemas auto-propagantes que variam de organismos biológicos individuais até grupos de organismos biológicos, que incluem grupos de seres humanos. Sociedades humanas complexas como a sociedade industrial moderna se encaixam nessa categoria de sistemas auto-propagantes. Seguindo essa definição geral, Kaczynski passa o resto da segunda secção apresentando sete proposições sobre características estruturais de sistemas auto-propagantes, e por extensão, sociedades complexas, que representam o conteúdo formal da sua teoria de colapso. Kaczynski também utilizará essas proposições na terceira e quarta secções para mostrar como os eventos que estão ocorrendo na sociedade moderna, assim como o que ele enxerga como o resultado necessário, seguem as dinâmicas estruturais apresentadas em sua teoria. Essencialmente, essas sete proposições constituem o cerne de sua teoria em abstrato, e eu as repetirei aqui para o leitor:

1. Em qualquer ambiente suficientemente abundante, sistemas auto-propagantes surgirão, e a seleção natural levará a evolução de sistemas auto-propagantes que desenvolverão meios cada vez mais sofisticados, sutis e complexos de sobreviver e de se propagar.

2. No curto prazo, a seleção natural favorece sistemas auto-propagantes que buscam vantagem a curto prazo com pouca ou nenhuma consideração pelas consequências de longo prazo.

3. Subsistemas auto-propagantes de um determinado supersistema tendem a se tornar dependentes do supersistema e de condições específicas que prevalecem no supersistema.

4. Questões de transporte e comunicação impõe um limite no tamanho da região geográfica pela qual um sistema auto-propagante consegue estender as suas operações.

5. O limite mais importante e o único limite consistente do tamanho da área geográfica pela qual grupos auto-propagantes humanos podem estender as suas operações é o limite imposto pelos meios disponíveis de transporte e comunicação. Em outras palavras, apesar de nem todos os grupos humanos auto-propagantes tenderem a expandir as suas operações por uma região de tamanho máximo, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes que operam ao longo de regiões que se aproximam o tamanho máximo disponível pelos meios disponíveis de transporte e comunicação.

6. Em tempos modernos, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo. Além do mais, mesmo que os seres humanos sejam substituídos por máquinas ou outras entidades, a seleção natural ainda tenderá a criar outros sistemas auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo.

7. Enquanto os problemas atuais de transporte e comunicação não constituem limitações efetivas no tamanho das regiões geográficas nas quais sistemas auto-propagantes operam, a seleção natural tende a criar um mundo no qual o poder é em grande parte concentrado nas mãos de um número relativamente pequeno de sistemas auto-propagantes globais.

Kaczynski tenta estabelecer argumentos para demonstrar a veracidade de cada proposição apresentada na segunda secção, ou como ele diz, para demonstrar que nós temos evidência suficiente para acreditar que essas proposições são, ao menos, razoavelmente precisas. Como afirmações abstratas sobre tendências de sistemas auto-propagantes, e depois sobre sociedades complexas (ao menos sob a luz de várias presunções), nenhuma das proposições parece claramente problemática. Não vale a pena gastar o tempo ou a sanidade do leitor com um foco míope nos detalhes precisos de cada proposição. Para os objetivos desse ensaio, é suficiente permitir que as proposições se sustentem apesar da possibilidade de alguns equívocos em suas respectivas formulações. Ele também se esforça ao máximo para mostrar que cada proposição pode ser logicamente inferida da anterior, o que é característico de sua forma de trabalhar. Ele pode ter desistido de trabalhar com matemática avançada há muito tempo atrás, mas seu pensamento ainda é em grande parte guiado pela rigidez formal de um matemático. A formulação da segunda secção não é imune a meticulosidade excessiva, como leitores atentos podem ter notado ao ler as sete proposições listadas anteriormente. Apesar de seus melhores esforços, as conexões que ele tenta fazer parecem forçadas às vezes, e as secções parecem pular de ponto em ponto com ligações que dão a impressão de terem sido feitas a força em uma tentativa de dar a teoria alguma forma de certeza lógica. A apresentação é desprovida da sistematicidade frequentemente presente nos escritos de Kaczynski.

Me parece que os problemas com essa secção são parte de um problema maior com o capítulo como um todo. O problema não envolve essa ou aquela proposição ou mesmo conexões questionáveis entre elas; apesar de haver razões para criticar esses fatores também, como notado. Em minha opinião, o problema está nas extensões que Kaczynski tenta fazer em relação as conclusões que ele tenta derivar desse capítulo. As conexões suspeitas entre proposições e a falta de fluidez com a qual a teoria é apresentada parece surgir de um capítulo que propõe mais do que deveria. Kaczynski é honesto em relação ao fato de que nesse capítulo, e mais especificamente na segunda secção, ele está argumentando “que existe de fato um processo” pelo qual sociedades tecnologicamente avançadas se autodestroem, e que ele está apresentando uma teoria sobre como esse processo funcionaria. Infelizmente, eu não acho que esse capítulo cumpre as expectativas, nem que ele apresenta um argumento sólido para acreditar na ruína inevitável da sociedade tecnológica, por mais que Kaczynski não concorde.

Eu notei nas secções introdutórias deste ensaio que muitas das minhas discordâncias em relação ao livro vem da minha afinidade com críticas e perspectivas apresentadas por eco-extremistas sobre muitas dessas questões, e esse é um exemplo. Eu não acho que a tese que Kaczynski está tentando provar pode ser apresentada honestamente sem entrar em um nível de especulação que torna essa tarefa intelectual sem sentido. Levando isso em consideração, o fracasso de qualquer tentativa de prever com precisão o futuro da nossa ou de qualquer sociedade tecnologicamente avançada não me surpreende. A ideia da autodestruição inevitável da civilização tecnoindustrial, e especialmente a ideia de que alguém vai apresentar uma teoria descrevendo-a – isso se aplica a todas as sociedades tecnologicamente avançadas em qualquer tempo ou lugar – é uma ideia que não me parece plausível sem entrar em especulações revolucionárias.

O que é particularmente interessante para mim é que a impossibilidade de desenvolver tal teoria é algo que deveria ser realisticamente implicado por algumas das explorações do primeiro capítulo, que demonstra por exemplo a impossibilidade de controlar sociedades complexas racionalmente. Uma das mais importantes razões (mas certamente não a única) para a impossibilidade desse controle é o limite do conhecimento humano, e mais especificamente da capacidade de entender apropriadamente o tipo de problemas de conhecimento dos quais emergem campos da matemática como a teoria de sistemas dinâmicos e o que é frequentemente chamado coloquialmente de “teoria do caos e da complexidade”.

A quantidade e o tipo de variáveis em jogo em um sistema como a nossa sociedade tecnológica moderna significa que nós estamos lidando com um sistema que se comporta de acordo com as descrições apresentadas pela teoria de sistemas dinâmicos (pense em algo como sistemas climáticos e a dificuldade de prever o clima a longo prazo). Em tais sistemas, previsões a longo prazo se tornam impossíveis devido à complexidade e as tendências comportamentais do sistema envolvido. Nesse caso, essa impossibilidade se aplica tanto a análises reformistas/progressivas quanto ao tipo de conclusões que Kaczynski tenta apresentar aqui no segundo capítulo (e nós veremos que as repercussões lógicas do primeiro capítulo tem consequências para o resto do livro e para o planejamento de revolucionário de poltrona apresentado Kaczynski mais à frente no livro). A complexidade do sistema com que estamos lidando é tanto que esse tipo de teorização se torna praticamente impossível sem adentrar em meras especulações. Levando isso em consideração, nós nos encontramos em um impasse devido a impossibilidade de dizer qualquer coisa quanto as perspectivas de um colapso. Mas como dito antes, há um “primitivismo sem catástrofe”, e os eco-extremistas nos mostraram como.

No fim das contas, Kaczynski pegou o dinamismo, complexidade e poder da sociedade moderna e criou uma interpretação que os entende como as sementes de sua própria destruição, o que convenientemente se encaixa a sua práxis revolucionária. Mas a sua conclusão não é a única possível. Ela envolve uma série de saltos teóricos para terrenos dos quais não podemos falar com boa consciência intelectual. Apesar de toda essa teorização, podemos igualmente concluir que todo esse dinamismo da sociedade moderna que Kaczynski vê como a sua ruína pode ser justamente a causa de sua autopreservação. Essa é, por exemplo, a forma de pensamento que caracteriza os ecomodernistas. Ao tentar responder questões como essa, nós devemos ser honestos com nós mesmos e admitir que nós simplesmente não temos as respostas. No final nós nos deparamos com o fato de que o futuro é incerto, e nos resta apenas o presente. A catástrofe pode ou não chegar, mas se ela chegar ela pode terminar aperfeiçoando a civilização ao invés de se tornar o messias dos teóricos anticivilização. Mas mesmo que isso seja verdade, os eco-extremistas mostraram que isso não é um motivo para ficar quieto. É melhor ter um realismo inabalável e a determinação de um guerreiro do que os confortos milenários de sonhos revolucionários. Eu termino essa secção com as palavras pertinentes de Reação Selvagem:

Pessoalmente, nós não sabemos por quanto tempo as estruturas que mantém a civilização em seu caminho decadente vão durar. Nós podemos ler muito sobre as várias teorias existentes, mas no fim das contas nós terminaremos esperando pelo profético ano em que talvez tudo acabará. De qualquer forma, tudo que os estudiosos podem oferecer são teorias. O aqui e agora denota tudo que é ruim…Como individualistas nós decidimos deixar de esperar por uma crise e tomar as nossas vidas em nossas próprias mãos. Por que? Porque nós já estamos vivendo. Nós não queremos esperar porque a Natureza nos encoraja a retrucar os golpes que ela tem recebido agora.” – Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem

III. Como Transformar uma Sociedade: Erros a Evitar

Com a conclusão do primeiro e segundo capítulo, Kaczynski muda o foco de suas explicações sobre as razões pelas quais ele vê uma revolução antitecnologia como a resposta necessária para o sistema tecnológico para tentar explicar como alguém poderia trabalhar para trazer tal revolução. Essas considerações permeiam este capítulo, assim como o quarto capítulo. Mais especificamente, e aqui o título do capítulo é enganoso, o terceiro capítulo é dedicado em extrair uma série de regras gerais e abstratas que Kaczynski vê como uma parte integral do sucesso de qualquer movimento revolucionário, antitecnologia ou não. Ao apresentar essas regras, Kaczynski começa, como de costume, apresentando uma série de postulados dos quais ele procura derivar essas regras para a ação revolucionária. A primeira secção do terceiro capítulo apresenta quatro postulados, repetidos aqui para o leitor:

1. Você não pode mudar uma sociedade lutando por objetivos vagos e abstratos. Você precisa de um objetivo claro e concreto. Como disse um ativista experiente: “Objetivos vagos e generalizados raramente são atingidos. O segredo é conceber um objetivo específico que vai inevitavelmente impelir a sua comunidade na direção que você quer ir”.

2. Pregar apenas – a mera difusão de ideias – não é capaz de provocar mudanças importantes e duradouras no comportamento de seres humanos, a não ser em uma pequena minoria.

3. Todos os movimentos radicais tendem a atrair pessoas que são sinceras, mas cujos objetivos são apenas ligados aos objetivos do movimento até um certo ponto. O resultado é que os objetivos iniciais do movimento podem ser distorcidos ou completamente alterados.

4. Todo movimento radical que adquire grande poder se torna corrupto quando seus líderes originais (aqueles que entraram no movimento quando ele era relativamente fraco) estão mortos ou politicamente inativos. Ao dizer que um movimento se tornou corrupto, isso significa que os seus membros, e especialmente os seus líderes, buscam primariamente ganhos pessoais (como dinheiro, segurança, status social, posições poderosas ou uma carreira) ao invés de se dedicarem sinceramente aos ideais de um movimento.

A partir desses postulados ele deriva cinco regras:

1. Para mudar uma sociedade de uma forma especifica, um movimento deve escolher um único objetivo simples e claro que irá levar uma mudança desejada se perseguido com sucesso.

2. Se um movimento busca transformar uma sociedade, o objetivo escolhido pelo movimento tem que ser um objetivo que tenha consequências irreversíveis uma vez que ele seja cumprido. Isso significa que uma vez que a sociedade seja transformada através desse objetivo, a mudança permanecerá sem a necessidade de nenhum esforço por parte do movimento ou de qualquer outra pessoa ou grupo.

3. Uma vez que o objetivo tenha sido escolhido, é preciso convencer uma minoria de pessoas a se dedicar ao seu cumprimento através de métodos mais poderosos do que a mera pregação de ideias. Em outras palavras, essa minoria deve se organizar para tomar ações práticas.

4. Para se manter fiel ao seu objetivo, um movimento radical deve encontrar uma forma de expulsar de suas fileiras qualquer pessoa que não seja compatível com o movimento, mas que tenha intenções de participar dele.

5. A partir do ponto que um movimento tenha se tornado poderoso o suficiente para cumprir o seu objetivo, ele deve cumpri-lo o mais rápido possível, e em qualquer caso, antes que os revolucionários originais (aqueles que se juntaram ao movimento quando ele era relativamente fraco) morram ou se tornem politicamente inativos.

Depois da apresentação dos postulados e da derivação das regras, Kaczynski dedica o resto do capítulo examinando a falsidade ou veracidade das regras. Para fazer isso, ele se apoia em registros históricos, citando vários casos para demonstrar que a veracidade de qualquer regra determinada pode ser verificada em eventos históricos. Para demonstrar a importância da aderência a essas regras, o autor cita vários exemplos onde o não-seguimento dessas regras resultou em problemas ou catástrofe para movimentos envolvidos. Apesar disso, o cerne teórico dessa parte está na própria lista de regra para movimentos revolucionários. Como mencionado na introdução, grande parte da base teórica do livro reflete o que já foi dito em sua obra e expande sobre essa base. Isso é verdadeiro para o terceiro capítulo, e eu acredito que leitores familiares com o trabalho de Kaczynski vão reconhecer os temas apresentados aqui de escritos como ASIEOSF, “O Melhor Truque do Sistema”, “A Revolução que Está por vir” e “Atinja Onde Dói”, que tem todos secções dedicadas a questões estratégicas para ação revolucionária contra a sociedade tecnológica.

Eu devo admitir que à primeira vista esse capítulo é fácil de aceitar se você se deixar levar de maneira não-crítica pelo fluxo do pensamento de Kaczynski. Muitos de seus postulados parecem ao menos instintivamente plausíveis tendo em vista a nossa experiência cotidiana ou um conhecimento geral da história, e as regras derivadas desses postulados parecem ser coerentes, além de uma extensão natural desses postulados. Seu recurso ao registro histórico para embasar seus postulados e regras é caracteristicamente metódico, de forma comparável a análise detalhada do primeiro capítulo. O resultado é um capítulo que poderá convencer muitos. E de fato, muitos chegaram a conclusões similares seguindo essa linha de raciocínio. Basta ler os escritos do Último Reducto (UR) ou dos Indomitistas para encontrar exemplos de grupos e indivíduos que seguiram grande parte do pensamento de Kaczynski ao pé da letra. É fácil se deixar levar pelas suas teorias de revolucionário de poltrona e esquecer do fato que a grande maioria do conteúdo dessas teorias é puramente especulativo, pensado de forma teórica dentro de uma cela de prisão no Colorado. Essa situação é análoga a maneira que alguns físicos falam sobre ficarem tão encantados com a elegância de teorias matemáticas que eles terminam acreditando que essa elegância tem que ser a expressão de alguma verdade. Apesar disso, a realidade nunca teve nenhuma obrigação de se conformar com o que nós desejamos, e isso é verdade para as teorias de Kaczynski tanto quanto para os físicos perseguindo o tênue rastro da teoria das cordas.

Eu não estou apenas sendo exigente. Há muitas críticas legítimas a serem feitas sobre o conteúdo desse capítulo (se nós decidirmos entreter esse tipo de teorização de poltrona). Para elaborar um pouco, há óbvias contradições entre o planejamento revolucionário apresentado nesse capítulo e as conclusões apresentadas no primeiro capítulo, que praticamente proíbem esse tipo de planejamento. Se você se recorda, nós notamos que as observações lógicas do primeiro capítulo se aplicam não apenas a reformistas/progressistas tentando direcionar a sociedade para os rumos que desejam, mas também a revolucionários que visam perturbá-la com ações revolucionárias. Esse observação é verdadeira devido a impossibilidade de fazer previsões a longo prazo, justamente o tipo de previsões necessárias para que um movimento revolucionário trace um plano e aja de acordo com ele. Certamente, é possível tentar tornar as regras suficientemente gerais para que elas possam ser aplicadas a diversas situações, mas a esse ponto uma regra tão abstrata tem pouca relação com as particularidades concretas de eventos reais. Para ser justo, Kaczynski admite no terceiro capítulo que essas regras não devem ser interpretadas como “regras rígidas” (Ra, p.119) devido as dificuldades já discutidas em prever situações reais comas quais um movimento revolucionário teria que lidar, mas nós já explicamos porque esse reconhecimento não muda muita coisa. Essa contradição entre capítulos não é a única crítica que eu tenho a fazer desse capítulo. A tentativa de Kaczynski de derivar axiomas não-históricos de exemplos históricos, por exemplo, tornam suas regras e postulados ao menos duvidosos,pelo menos aos olhos de um approach histórico. Esse mesmo problema ocorre no quarto capítulo.

Alguns talvez diriam que essa análise do trabalho de Kaczynski é excessivamente pessimista, derrotista, etc. Outros diriam que ela é rápida demais em jogar fora o trabalho de Kaczynski, mesmo que nós tenhamos levantado várias objeções legítimas. Alguns como o UR acusaram o ITS e o Reação Selvagem dessas mesmas coisas quando eles expressaram uma dose de ceticismo saudável em relação a esse tipo de teorização revolucionária. Essas são as mesmas pessoas que demonstram uma esperança ingênua em frente a essas críticas, refletindo a ingenuidade revolucionária de Kaczynski ao invés de levantar o véu de suas próprias ilusões esperançosas e aceitar o mundo como ele é. No fim das contas, como o Reação Selvagem disse em sua resposta ao UR, grande parte da base para tal revolução contra o sistema tecnológico permanece “ao vento”:

Concluindo esse ponto, a base estratégica para a “grande revolução” é suposição, “talvez”, “esperamos que sim”, “provavelmente”, “no melhor dos casos”, “depende”, em outras palavras, nada concreto, tudo ao vento. Isso tudo nos lembra do que um comediante mexicano popular disse uma vez em seu programa: “talvez sim, talvez não, mas provavelmente quem sabe.” – Reação Selvagem em Algumas Palavras Sobre o Presente e NÃO o Futuro.

IV. Guia Estratégico Para Um Movimento Revolucionário

Enquanto o terceiro capítulo lidou com questões estratégicas de uma revolução antitecnologia em termos mais abstratos, tentando destilar as regras mais críticas para um movimento revolucionário, esse capítulo apresenta um olhar mais abrangente e marginalmente mais realista do programa revolucionário de Kaczynski. Ele cobre diversas coisas nesse capítulo, tratando de muitas questões relacionadas aos caminhos que ele acredita que um movimento revolucionário deve ou não deve tomar. Para aqueles que são familiares com a história das revoluções comunistas, grande parte do programa que ele oferece aqui é derivado das reflexões de figuras chave do pensamento marxista revolucionário. Lenin, Trotsky, Mao e Castro são grandes influências por exemplo. Apesar disso, grande parte do pensamento dessas figuras foi adaptado ao neo-ludismo de Kaczynski. Essa dependência na revolução russa e em outras revoluções comunistas não é algo novo ou surpreendente. Os revolucionários russos e franceses tem sido a tempos uma inspiração para os pensamentos de Kaczynski sobre a ação revolucionária, e a dimensão das revoluções comunistas seguindo a ascensão dos bolcheviques em 1917 fazem da revolução russa e das outras revoluções relacionadas uma fonte óbvia de interesse e inspiração para aqueles com predileções revolucionárias.

Em relação a uma análise crítica desse capítulo, há várias críticas a serem feitas que eu irei oferecer aqui. A primeira e mais óbvia crítica se relaciona primariamente ao tipo de teorização revolucionária que Kaczynski está fazendo aqui e ao grau em que essa teorização ocorre no campo da especulação pura. Há vários momentos no terceiro capítulo que seguem a mesma predileção por planejamento revolucionário oferecido no terceiro capítulo, que as vezes se parecem com tentativas de formalizar sua estratégia. Esse tratamento obviamente reflete aquele do terceiro capítulo, e consequentemente está sujeito as mesmas críticas do pensamento revolucionário apresentadas anteriormente nesse ensaio. Além domais, outra crítica lida com os paralelos que Kaczynski tenta derivar recorrendo constantemente a revoluções comunistas, tanto no nível das ideias que ele tira de seus respectivos teóricos quanto ao seu uso dessas revoluções para justificar a plausibilidade do seu modelo particular de revolução antitecnologia. Eu não sou o primeiro a apontar esses problemas. Em vários comunicados, tanto o ITS quanto o Reação Selvagem criticaram detalhadamente o recurso de Kaczynski às revoluções da Rússia e da França (as críticas mais detalhadas estão na primeira fase dos comunicados do ITS e nas diversas publicações de Reação Selvagem). Essas críticas demonstram as diversas formas em que o papo de Kaczynski sobre uma revolução global ocupa o domínio da fantasia. Nem a revolução russa, nem a francesa, e nenhuma outra revolução fora a industrial conseguiu estender seu alcance pelo planeta inteiro, como eles notaram. As guerras históricas não são comparações análogas.

Também há uma crítica metodológica a que eu me referi brevemente na última secção; isso é, Kaczynski tem uma tendência de olhar para o passado sem considerar o contexto histórico dos eventos que ele está analisando. No terceiro capítulo,por exemplo, ele usa exemplos históricos continuamente para mostrar que vários de seus postulados e regras podem ser derivados da história enquanto ele ignora completamente uma análise do contexto histórico no qual esses eventos ocorreram, além de diferenças entre esses contextos e o nosso atual contexto contemporâneo. A nossa sociedade tecnológica moderna não é a Rússia de Lenin e Trotsky, a China de Mao, a Cuba de Castro, etc. Há vastas diferenças entre a fábrica social, ideológica e material da nossa sociedade contemporânea e a dessas épocas históricas, o que torna qualquer correlação tênue, a não ser da forma mais geral. Como notado na última secção, ele mostra momentos de honestidade onde ele admite que o recurso a história nem sempre fornecerá lições que podem ser facilmente adaptadas de um período histórico passado para o presente. Mas como discutimos aqui, essa honestidade não é exatamente útil. Para recapitular, se as lições derivadas são gerais o suficiente para serem aplicadas a várias situações, elas provavelmente são praticamente inúteis em qualquer situação concreta. Essas abstrações de uma regra geral pouco nos ajudam ao nos depararmos com a complexidade de qualquer problema real.

Os pontos mencionados são certamente problemas reais com as teorias de Kaczynski no quarto capítulo, mas eles não são o maior problema que eu tive com o capítulo. O que eu achei o elemento mais incomodo desse capítulo é o uso constante que Kaczynski faz de uma “crise futura” especulativa como um elemento central de sua práxis revolucionária. O papel messiânico de uma catástrofe para sua revolução antitecnologia se torna cada vez mais óbvio ao longo desse capítulo,chegando ao ponto de se tornar cada vez mais questionável se o programa revolucionário de Kaczynski seria capaz de encarar algo como um “Ataque sem Catástrofe”, para fazer um paralelo ao “Primitivismo sem Catástrofe” de Abe Cabrera. Como o Reação Selvagem expressou anteriormente, enquanto grande parte da reação significativa ao sistema continuar dependendo de uma crise especulativa, “é tudo ao vento”.Minhas rejeições aqui e ali vão de encontro com as críticas eco-extremistas,nesse caso, uma particularmente central: a rejeição dos eco-extremistas de uma revolução como uma forma válida de reação contra o sistema industrial, contra o leviatã da civilização e contra a própria domesticação. Desde os primeiros comunicados do ITS em 2011, eles persistiram com seu foco obstinado no presente como o único ponto sensato para agir e atacar. No primeiro comunicado do ITS seguindo a dissolução voluntária do Reação Selvagem, eles falam o seguinte sobre esse assunto: “Nós não desejamos, não procuramos, não achamos necessário e nem nos interessamos em lutar por uma revolução. Nós desprezamos o termo e acreditamos que esse é um objetivo não existente. Nós atacamos no presente porque ele é tudo que existe”. Ao longo desse ensaio, nós expressamos críticas ao pensamento revolucionário de Kaczynski; muitas dessas análises permanecem relevantes aqui. Nós falamos da impossibilidade em falar honestamente sobre as perspectivas de catástrofes,falamos sobre os problemas com o planejamento revolucionário, etc. Basta dizer que levando em conta essas análises, eu não vejo nenhuma razão para fazer concessões aqui.

Kaczynski e companhia podem sentar e esperar pelo messias do colapso antes de atacar em nome da Natureza Selvagem, mas a marcha da civilização continua a dobrar tudo que é selvagem e natural de acordo com seus desejos e destruir tudo que se recusa a se submeter. O que nos confronta é um presente que demanda que nós ajamos agora. Para encerrar, eu deixo que o ITS expresse em suas próprias palavras esse ataque sem catástrofe:

A natureza selvagem não pode mais esperar. A civilização se expande indiscriminadamente as custas de tudo que é natural. Nós não ficaremos parados de bobeira observando passivamente enquanto o homem moderno rasga a terra em busca de minerais, enterrando-a sob toneladas de concreto ou perfurando montanhas inteiras para construir túneis. Nós estamos em uma guerra contra a civilização e o progresso, e também contra aqueles que a melhoram ou a apoiam com a sua passividade. Qualquer um!” – Individualidades Tendendo ao Selvagem (Its) em seu Sétimo Comunicado

Conclusão

O que falta falar sobre o último livro de Kaczynski então? Eu notei na introdução que dentro do contexto da obra de Kaczynski esse livro ocupa um papel importante como um tratado obstinado e sistemático de seus pensamentos a respeito da ação revolucionária contra o sistema tecnológico. De um ponto de vista puramente acadêmico sobre o autor eu mantenho essa opinião. Eu também notei brevemente a raiz das minhas objeções sob uma perspectiva eco-extremista, e através das análises presentes eu tentei delinear o conteúdo dessas objeções. E é a partir dessa perspectiva que eu acho grande parte do livro simplesmente inaceitável. É dessa perspectiva que eu afirmo a rejeição eco-extremista de ilusões revolucionárias. Eu afirmo o foco dos eco-extremistas no presente como o único foco de ataque. Eu afirmo a honestidade obstinada dos eco-extremistas em face do horrível presente. Eu afirmo a determinação guerreira dos eco-extremistas em lutar mesmo sabendo que essa pode ser uma guerra suicida, além de outros pontos de uma perspectiva eco-extremista. Essas são posições simplesmente irreconciliáveis com a de Kaczynski. Que assim seja. Haverão aqueles sem ouvidos para ouvir. Haverão aqueles que denunciarão essas rejeições como niilistas, pessimistas, derrotistas, etc. Haverão aqueles que trocarão a honestidade pelos confortos de uma ingenuidade revolucionária. Que assim seja. Para eles, tudo que eu tenho a dizer é “Boa Sorte”. Mas para mim e para outros com quem o chamado ressoa, o que Kaczynski tem a oferecer é algo com o que eu não posso concordar. Eu encerro essa conclusão e esse ensaio com uma expressão do espírito dos eco-extremistas do editorial da Regresión #4:

A realidade às vezes nos apresenta um cenário extremamente derrotista e pessimista. Apesar disso, aceitar a realidade é crucial para removermos a venda e aceitarmos as coisas como elas são, mesmo que isso seja difícil. Essa venda, é claro, é a utopia. Muitos criticaram Individualistas Tendendo ao Selvagem, o Reação Selvagem e outros grupos por rejeitar a ideia de um “amanhã melhor”. Eles criticam esses grupos por não esperar um resultado positivo da luta nessa guerra, ou por rejeitar a esperança. Mas as pessoas sempre ouvirão apenas o que eles querem, e não a realidade. O individualista eco-extremista é pessimista e realista ao mesmo tempo. Ele não ouve o falatório do otimista pueril; para ele, o mundo é cheio de duras realidades, e ele deve confrontar essas realidades com força, se defendendo delas com dentes e garras” – Reação Selvagem