Nota Anônima

Tradução de uma nota anônima enviada ao já falecido blog “La Manta Mojada”, onde o anônimo ou a anônima expressa a sua simpatia pelo atentado contra o bastardo Landerretche, atentado terrorístico, selvagem e egoísta levado a cabo pelos ferozes membros de ITS-Chile.

Outro dia eu caminhava no bosque. Vi a terra rasgada, os destroços retorcidos de árvores quebradas. Havia um páramo onde uma vez havia vivido o cervo, o urso, o coelho e os pássaros. Pensei nos cedros e me apressei por eles, implorando que ainda estivessem de pé. Quando os encontrei caminhei até eles, os toquei, senti sua divindade e a grossa casca. Este conjunto de cedros está formado por três anciões, os mais antigos que conheço neste bosque. Talvez comparativamente jovem no grande esquema das coisas, mas este é um bosque comparativamente jovem. Suponho que busquei conselhos com eles no meio de outro bosque que eu queria que fosse arrancado, devorado para apaziguar o apetite incessante desta miserável civilização. Mas me ofereceram apenas seu repouso estoico. Se falassem algo comigo era em uma língua na qual meus ouvidos haviam ficado surdos.

Escutei que recentemente no Chile o presidente da junta diretiva da empresa mineradora estatal Codelco recebeu uma agradável surpresa de um pacote particularmente volátil enviado a ele por um grupo de eco-terroristas, uma resposta da Natureza Selvagem pela destruição causada pelas mãos das apodrecidas minas de cobre da Codelco que rasgam a face da terra. Me disseram que as autoridades afirmaram que estes atos são “deploráveis”, “desprezíveis”, etc. Michelle Obama e o New York Times inclusive sentiram-se obrigados a comentar sobre o ataque. Uma imprensa muito boa para um humilde grupo de terroristas chilenos, se me perguntam sobre. A maioria dos moralizantes são lixo híper-civilizado padrão. Proselitizando no altar da “Ordem e a Civilização”, e outros similares. O NYT tentou encobrir a natureza do ataque em seu comentário, apesar de que os atacantes sabiam mais de perto do que havia ocorrido. Não posso dizer, no entanto, que meus sentimentos se alinhem tão bem com o resto das massas híper-civilizadas.

Nas palavras dos próprios atacantes:

Nosso atentado é um ataque em nome de todo o Selvagem e Desconhecido, é um ataque eco-extremista indiscriminado, febrilmente egoísta e contrário à civilização na sua mais elevada expressão. Também é um ato de terror para os híper-civilizados representantes da devastação da Terra. Suas grandes minas a céu aberto são as provas dos maus-tratos do progresso humano contra a Natureza Selvagem.

Codelco, uma (senão a maior) empresa mineradora do mundo, responsável por devastar a Terra por décadas, encarregada de roubar seus minerais em busca da perfeição absoluta da civilização. Por acaso pensaram que os prantos dos montes indignados por suas máquinas não seriam escutados por nós? Por acaso pensaram que não escutaríamos os gritos de espanto das árvores? Pois é. Nossos ouvidos escutaram a chamada do Selvagem, por isso nossas mãos atentaram.

Somos os gritos de vingança da cordilheira que rodeia as tumbas da Codelco, a neve ali caída apenas amaldiçoa a todos os infelizes que trabalham em suas estruturas, e dizemos a TODOS, porque desde a velha que limpa o piso ou o chofer de algum caminhão, até os cargos altos da empresa ou donos, todos são partes da subjugação do Selvagem.”

[…]

Mas, o que são feridas nos braços e estômago se comparadas com as feridas que as máquinas da Codelco infringem a Terra? NADA! Sem dúvida isso é pouco para o que merece estes bastardos. Aparentemente também saiu ferida a empregada da casa e a filha pequena que teve um trauma acústico. Continua a ser pouco.”Vigésimo primeiro comunicado de Individualistas Tendendo ao Selvagem

Conheço essa raiva, e conheço este desejo de atacar “em nome do Selvagem e o Desconhecido”. Estas são palavras que fazem eco em meu espírito. Seria uma mentira eu dizer que não vi estas máquinas que arrancavam as árvores da terra e desejava com cada fibra do meu ser vê-las queimar juntamente com cada pessoa que trabalhava neste local, para enfrentar sua violência contra a terra junto com a minha. Regressar baixo o escuro abraço da noite e tacar fogo nestas máquinas. Deixar bombas nos caminhões desta companhia madeireira para cada trabalhador involuntário que corta este lugar maravilhoso. E houvesse sido tão fácil se tivesse acontecido algo. Sua morte significaria pouco para mim. O que é a mutilação ou inclusive a morte de alguns poucos trabalhadores madeireiros diante da destruição realizada na terra a cada dia pela marcha implacável desta civilização? Como alguns disseram anteriormente, “todavia é muito pouco”.

Saí do bosque este dia, ainda cheio de raiva. Inclusive a dupla de mulheres que ia comigo enquanto caminhava me enojou enquanto iam pelas trilhas fofocando sobre qualquer merda sem sentido que as donas de casa obesas falam, aparentemente imperturbáveis pela destruição ao redor delas. Quando passaram por mim sorriram e eu sorri em seguida para elas, e logo me ri entre os dentes enquanto meus pensamentos vagavam por matar as duas por sua irreverência pela profanação que ocorria a seu redor.

Mas não as matei. E não taquei fogo nas máquinas nem deixei bombas para surpreender aos trabalhadores madeireiros. Eu queria e sentia no fundo do meu espírito o desejo de atacar selvagemente e indiscriminadamente, em nome do bosque e contra a destruição desta beleza selvagem. Estava sentado durante horas nestes bosques vendo os pássaros esvoaçando entre os galhos das árvores. Havia observado como os coelhos examinavam as ervas daninhas e invejava como sabiam pegar os presentes da Natureza Selvagem. Havia deitado nas camas das samambaias e escutado o vento no dossel do bosque. Havia seguido as trilhas do veado que serpenteava pelo bosque. Tudo isso, todas estas coisas belas destruídas para saciar os impulsos decadentes dos híper-civilizados. Por ver estas coisas feitas a estes lugares que tanto amo, não conheço outra reação que o desejo de responder violentamente. Para enfrentar esta violência contra todo o livre e belo com violência em defesa do que é livre e belo.

Mas ao final do dia, e sendo honesto comigo mesmo, não pude dizer que atuaria sobre estes impulsos. E no entanto, ao mesmo tempo, não pude dizer que nunca faria um esforço por realizá-los. Estas são perguntas que não estou em condições de responder, já que não posso prever o futuro. Não sei em quais situações me encontrarei, quais coisas irei presenciar, como reagirei a elas, etc. Talvez alguns leiam isto e me considerem um hipócrita por deliciar-me com o ataque ao presidente da Codelco. Não me assusto com a violência indiscriminada dos eco-extremistas, para escrever sobre os desejos em meu coração de atacar o que destrói tudo o que encontro livre e belo sem atacar. Mas estas são minhas próprias contradições, suponho. Sou um produto desta sociedade decadente, híper-civilizada, e ao mesmo tempo não me vejo veementemente oposto a tudo o que representa. Simplesmente escrevi aqui o que está em meu coração, pelo que vale a pena.

Carta de Uma Anarquista Decepcionada

Tradução ao português realizada por Anhangá de uma carta enviada a Maldición Eco-extremista. Nela há a reflexão sobre o sentimento de frustração que muitos e muitas anarquistas tem com seus costumes políticos, e como o eco-extremismo é a faca que hoje corta o humanismo destas ideologias do passado.

Pela expansão da vingança do Selvagem!

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Olá, Individualista.

Várias pessoas se impressionam com as maneiras sofisticadas com as quais tu se comunica e transmite os teus pensamentos, sem uma gota de hipocrisia moral.

As letras que tu consegue por no papel –já há quase 5 anos– abriram a minha consciência para o conceito real de liberdade. É por isso que sou profundamente e sinceramente agradecida.

Minha mente, na distância e na proximidade, sabe saborear apenas uma só luta. Uma luta que busca derrotar a civilização, a enorme prisão do gênero humano com todos os seus aspectos já tão manuseados: educação, gênero, tecnologia, prisão e fábricas. Essa tem sido a minha luta por muitas luas. Se ela não for derrotada, o que nunca acontecerá, eu gostaria de daná-la profundamente.

Mas como se pode conceber laços capazes de unir o pensamento-ação anticivilização, com a prisão, a Máfia, os niilistas terroristas, com a realidade das diferenças de gênero? Existe realmente um espaço para que a ação furiosa dos espíritos femininos possam finalmente ser uma realidade?

Individualista, eu li uma vez e outra o que escreveste e, em tuas palavras não apenas percebo uma crítica à FAI, mas também –algo, talvez um pouco– gratidão. Eles se levantaram em seu momento com o ataque indiscriminado e amoral. Eu fui inspirada por estas sensações de cumplicidade, as mesmas que sinto agora com a Máfia.

No meio de toda esta merda, Individualista, sinto que temos algo em comum. Eu vejo que nós crescemos do mesmo substrato.

Quanto se perdeu em palavras inúteis, pensamentos indefinidos e nada concretos!

A querida e mudada FAI. Era algo tão diferente se olharmos o que ela se tornou. Por quê vemos uma ação real? Por que estamos todos tão cheios de vento? Críticas, ideais, moral, grandes palavras e intermináveis discursos. Onde está a exaltante violência que carrega dentro de si o gesto do assalto? Claudia López tantas vezes lembrada por morrer combatendo e tantas mais esquecida em slogans estéreis? Talvez perderam o gosto excitante de se lançar à garganta do inimigo?

O comunicado número 26 me fez pensar e pensar. Um prazer e culpa ao mesmo tempo, ler sobre o ataque à Teleton no México e ao escritório de direitos humanos.

Fiquei impactada ao ver o que fez RS em seus tempos.

Por aqui odiamos tanto a Teleton… Mas nós nunca faríamos algo assim, exceto com aqueles que –pessimamente– colocam advogados as manas e manos na prisão.

Mas nasce em mim a força que faz parir o seguinte: a guerra contra a civilização é total… E o ódio é total!

Sinto que nós, anarquistas decepcionados, estamos diante de um paradoxo… Uma contradição entre o que dizemos e fazemos, entre o que escrevemos e somos… Há pessoas que já começaram a perceber tal coisa e chegou a hora de acabar com tudo isso. É o fim dos tempos daqueles que sabem apenas reclamar e estar em desacordo. É o fim das ovelhas negras e sua mutação para uma matilha de lobos.

Toda vez que converso com ex-afins, eles não sabem, mas cada vez mais um mar de distância nos separa. Sinto que a anarquia morreu e eles sequer se deram conta disso. A anarquia é prisioneira de seus próprios prisioneiros. A triste e grande prisão da ideologia fracassada e moribunda das ovelhas negras do rebanho humanista e civilizado.

É uma exaustão constante ter de conter o ódio e a raiva. Mas ali eles devem permanecer, escondidos da vista de familiares e amigos, ocultos diante da podre sociedade. Já não posso mais com esse ódio… Apenas agir selvagemente e sem alma, sem moldes antropocêntricos e com a vingativa violência. Então assim te quero ver, Individualista, vivendo apenas com o instinto livre e incontrolável, imprevisível e funesto. Ser uma loba sedenta de sangue, mas inteligente e com estratégia. Se eu devo me passar como branca no rebanho, que assim seja porque a Terra saberá, compreenderá que é a melhor forma de vingá-la.