Selvagens Politicamente Incorretos

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2.

Steve Sheldon me contou sobre uma mulher que deu à luz sozinha na praia. Algo deu errado. Um parto de nádegas. A mulher estava agonizando e dizia: “Ajuda-me, por favor! O bebê não vem”, gritava. Os Pirarrãs sentaram-se passivamente, alguns parecendo tensos, outros falando normalmente. “Estou morrendo! Isto dói. O bebê não vem.”, ela gritava. Ninguém respondeu. Já era tarde. Steve se dirigiu a ela. “Não, ela não quer a você. Quer a seus pais.”, foi-lhe dito, o que implicava claramente para que ele não se dirigisse a ela. Mas seus pais não estavam perto e ninguém mais iria em sua ajuda. A noite chegou e seus gritos eram notados regularmente, cada vez mais fracos. Finalmente, se detiveram. Pela manhã, Steve soube que ela e o bebê haviam morrido na praia, sem ajuda.

Steve registrou a história deste incidente, que é repetido aqui. O texto relata… [o] trágico incidente de uma ideia da cultura Pirarrã. Em particular, nos é dito que o Pirarrã deixa a uma jovem morrer sozinha e sem ajuda devido a sua crença de que as pessoas devem ser fortes e superar as dificuldades por conta própria. Daniel Everett, “Don’t Sleep, There are Snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle”, pg. 90-91

Um curioso efeito foi observado, o qual deu lugar a muitas queixas por parte da população masculina nativa. Como resultado da associação das mulheres com os homens brancos, desenvolveu-se um movimento feminista espontâneo. Primitivamente, a mulher não era apenas fisicamente, mas também economicamente e espiritualmente subordinada ao homem. A índia realizava a maior parte do duro trabalho manual associado à vida na aldeia, enquanto o seu marido e o pai passavam o tempo descansando. Ela se viu obrigada a obedecer a todas as ordens e caprichos de seu amo e senhor. Caso contrário, não evitaria o inevitável castigo. Com a chegada de milhares de homens brancos, não casados e à caça de fêmeas, a situação foi alterada. As mulheres poderiam fazer frente aos índios homens com a escolha de um melhor tratamento ou deixar o seu conjugue e trocá-lo por um pretendente branco. Por outro lado, a índia, sem dúvida, foi profundamente influenciada pela invejável posição que ocupou o seu sexo nas comunidades brancas recém-criadas. Embora nenhum sociólogo contemporâneo tenha dado suficiente atenção a isso, temos indícios de uma formidável revolta feminista. Um agente da Fresno Indian Farm, reportou:

“Embora os homens sejam, ou uma vez foram, donos absolutos das mulheres, muitas delas neste momento… encontraram refúgio entre os brancos e, portanto, são independentes dos homens.”

Uma declaração também apareceu próxima ao mesmo período no sentido de que, “os homens brancos tomaram as mulheres dos índios, desde suas casas de campo e ensinaram-nas a desprezar as criaturas preguiçosas, e utilizaram isso para fazê-las escravas.” Se este clima era característico de grande parte da opinião feminina, é fácil ver como, mesmo sem grande agitação social envolvida, a mudança poderia agir como um agente irritante e, assim, servir como um fator na interrupção da vida familiar aborígene. – “The American Invasion, 1848-1870” pgs. 81-82 em “Cook, Sherburne F. The Conflict Between the California Indian and White Civilization”. Berkeley: University of California Press, 1976.

Os Jarawas são cerca de 400, e um geneticista os descreve como “possivelmente as pessoas mais enigmáticas do nosso planeta”, e que se acredita que tenham migrado da África há cerca de 50 mil anos. São muito escuros, de baixa estatura e até 1998 viveram em completo isolamento cultural, atiraram com flechas de ponta de aço quando estrangeiros chegaram perto demais… Não é nenhum segredo que, no passado, a tribo tenha realizado assassinatos ritualísticos de crianças nascidas de viúvas ou -muito mais raro- engendrados por aborígenes. O Dr. Ratan Chandra Kar, um médico do governo que escreveu um livro de memórias sobre seu trabalho com os Jarawas, descreveu uma tradição em que os bebês recém-nascidos foram amamentados por cada uma das mulheres no período de lactação no grupo antes de serem estrangulados por um dos anciões da tribo, a fim de manter “a chamada pureza e santidade da sociedade.”. “Baby’s Killing Tests India’s Protection of an Aboriginal Culture,” New York Times, 13 de Março, 2016.

Certa noite Debe caminhava à direita do acampamento de Gau, e sem dizer uma só palavra disparou três flechas contra Gau, uma no ombro esquerdo, uma na testa, e a terceira no peito. O povo de Gau não fez nenhum movimento para protegê-lo. Depois que as três flechas foram disparadas, Gau seguia sentado diante de seu atacante. Debe levantou sua lança como se fosse apunhalá-lo, mas Gau disse, “Você já me flechou três vezes. Não é o suficiente para me matar e agora também quer me cravar uma lança?” Quando Gau tentou se esquivar da lança o povo de Gau apareceu para desarmar a Debe de sua lança. Após ser gravemente ferido, Gau morreu rapidamente. Richard Lee, The Dobe !Kung, citado em “Ultrasociety: How 10,000 Years of War Made Humans the Greatest Cooperators on Earth”, pg. 104

Para mim, todas estas citações anteriores me lembram a uma citação aparentemente insignificante que apareceu quase no final da polêmica Ya Se Habían Tardado: Reacción Salvaje En Respuesta a Destruye las Prisiones, que diz o seguinte:

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.”

Não posso falar por todo o eco-extremismo, apenas por mim, e vou aceitar outros pontos de vista da tendência se uma correção for necessária, mas a partir disso, posso afirmar que o anarquismo, o primitivismo, o esquerdismo, etc., estão mal orientados e são moralistas precisamente porque tentam se organizar-julgar-melhorar a sociedade, enquanto que os animais humanos possivelmente não podem fazer isso, não com nenhuma competência, pelo menos. Muitas dessas sociedades tem práticas bárbaras, violentas e “sombrias”, mas elas existem há centenas de anos, isso senão por milhares. Então, porque é que, em nosso tempo de vida em uma sociedade excepcionalmente jovem (se é que é vivaz), nos damos o direito de determinar como uma sociedade humana deve ser em TODAS as circunstâncias? Eu diria que não o faria. As sociedades que se desenvolveram dentro de seus ambientes desde tempos imemoriais demonstraram que podem manter suas formas de vida por milênios. Nossa própria sociedade (isto é, a que estamos presos, embora não voluntariamente) não pode dizer o mesmo, mas muito pelo contrário.

Pessoalmente, este ponto de vista é porque não posso tomar nem o anarquismo, o marxismo, o esquerdismo, o liberalismo, etc., seriamente como um meio de interpretar a realidade. Estas ideologias são obcecadas por coisas ocidentais, tais como a organização social, a igualdade entre os indivíduos, a divisão do trabalho, etc. Em nossa realidade animal, que é como escolher algo para comer baseado apenas em sua cor em vez de seu sabor e seu valor nutricional, a relação principal não é a dos seres humanos entre si, mas a dos seres humanos com a natureza, ou melhor, com seu ambiente natural, e com as outras entidades, conscientes ou não, que compartilham conosco. Todas estas ideologias errôneas e civilizadas, até mesmo os autoproclamados “primitivistas” são humanistas e antropocêntricos, enquanto que nós só queremos a relação com a Natureza Selvagem e as culturas que se formaram ao longo de milênios, como as gotas de água que podem polir uma pedra, de forma inconsciente, organicamente e não planejada.

Os seres humanos, sem dúvida, tem um papel a desempenhar nisso, e suas ações fazem dar forma a paisagem e a eles mesmos, assim como as ações dos castores, formigas, aves, etc., formam um bosque ou um rio. Mas isso está completamente determinado pela encarnação da Natureza Selvagem que eles encontram, é realizado por séculos, e de nenhuma maneira é “planificada” ou “controlada” pelo intelecto humano determinado. Isso simplesmente acontece. Apresentar-se a um “selvagem” com a ideia de que a queima seletiva de ervas daninhas ou de atividades semelhantes o torna mestre do ambiente, provavelmente estaria confundido pela afirmação.

Aqui, então, afirmo que os seres humanos no passado estavam sempre em equilíbrio entre seu próprio poder e sua mente, e o da própria Natureza Selvagem. A questão não é dizer que alguns viviam em completa harmonia com a natureza, sem hierarquia ou sem guerra ou qualquer coisa que ofenda a sensibilidade ocidental burguesa. O ponto é que o equilíbrio de poder entre o humano e a natureza selvagem se manteve. Em alguns casos, isso implicaria o patriarcado, em alguns lugares que não seria o caso (foram os Selk’nam da Terra do Fogo “mais domesticados” que outros caçadores-coletores porque eles eram regidos por um patriarcado? Considerando sua cultura, outro estado seria absurdo.) Foram os Choctaw, no que é agora o sudeste dos Estados Unidos, tão civilizados como os Astecas ou Maias simplesmente porque também cultivaram milho? Eram os Yuroks do norte da Califórnia, de alguma forma ruins, porque tinham uma hierarquia social rígida, mas sem agricultura? “Domesticação” e “civilização”, estas podem não ser categorias tão claras como algumas ideologias anti-civilização afirmam que são. Isso porque nosso conhecimento é animal e, portanto, defeituoso.

Aqui temos que olhar as coisas que não estão em preto e branco, mas em um espectro, e nesse espectro, nós não estamos julgando as sociedades humanas por sua forma “agradável” e o quão bem tratavam as mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Nós não nos preocupamos com estas coisas, e aqueles que são obcecados por isso são extremamente estúpidos e deixam que seus próprios preconceitos civilizados mostrem o melhor deles.

Preferimos confiar nas sociedades que viveram há milhares de anos em seus respectivos ambientes e em seus “valores”, que nos valores humanistas dos ocidentais que ocultam a violência da sociedade tecno-industrial moderna, por trás de platitudes como moralismo e decência. O mais importante sobre a domesticação e a civilização, então, é que surgem, mas surgem nos lugares mais frágeis. Ou seja, que nunca foram capazes de dominar completamente, nunca exaltaram as sociedades humanas individuais no domínio completo sobre a natureza, e quando o fazem, inevitavelmente, o colapso ocorre. O que temos agora é uma monstruosidade completa, um Leviatã que não pode entrar em colapso e que não há possibilidades de livrar a maioria dos seres vivos dele, pois busca a completa dominação. Ante este ser antinatural a única atitude que nós podemos ter é a de hostilidade total e absoluta.

Isso pode parecer completamente reflexões escolares, e talvez não. Pelo menos escrevo para apoiar a afirmação eco-extremista de que os valores ocidentais liberais não importam em nada, e, portanto, quando as pessoas tentam esfregá-los em nossa cara, deveríamos energeticamente rechaçá-los e insultar os que seguem comprando estes contos de fadas. Além disso, isso indica que o pessimismo eco-extremista está mais do que garantido: se tudo o que temos a nosso favor em termos de “esperança” são as observações incompletas dos “antropólogos” e nossas próprias faculdades intelectuais defeituosas, está claro que estamos completamente fodidos.

Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.

A relação primária no eco-extremismo é entre o animal humano e a Natureza Selvagem, que é concretizada em seu ambiente imediato, e não com uma abstração conhecida como humanidade. Portanto, é uma tendência anti-humanista e não humanista. Como todos os ursos não simpatizam com ursos menores, mas os dois dependem de todas as plantas, animais, as águas e as rochas circundantes para sobreviver, então todos os seres humanos não deveriam ter solidariedade com toda a humanidade, apenas com aqueles de outras disposições similares e com os seres que passaram a amar em seu entorno. Isso deveria ser óbvio, e muitos selvagens têm esta atitude.

Além disso, nos damos conta de que a civilização é uma “doença transitória”, que surge ocasionalmente e logo se vai, deixando cicatrizes algumas vezes, mas nunca terminal, como o todo nunca pode ser destruído por uma parte. Somos deficientes neste sentido, que nós não conhecemos nossos lugares, ou que eles foram roubados, indica a tragédia do nosso estado e nossa raiva na guerra indiscriminada contra o que pode nos destruir e escraviza o Selvagem. Mesmo se a única Natureza Selvagem que nos resta somos nós mesmos, ou talvez seja apenas a dor e a raiva de ter sido privado dela, isso é o suficiente para levar a cabo esta guerra contra a humanidade domesticada.

-Chahta-Ima

Nanih Waiya

Primavera de 2016

[PT – PDF] Revista Anhangá N° 2 – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul

Em destaque

É com tremendo orgulho criminal que apresentamos a segunda edição da Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul, lançada pelo Editorial Ponta de Lança. Desta vez a publicação sai à luz transbordando de valiosos conteúdos sobre a teoria eco-extremista, contendo 150 páginas que se dividem em 47 textos afiados que servem para alimentar as ânsias dos individualistas extremistas e contribuir com a prática terrorística na guerra contra o progresso humano.

Esta edição da Revista é, sem dúvidas, a maior contribuição até então para a teoria eco-extremista de fala lusófana, um aporte que se materializou através de esforços titânicos de cúmplices destas terras e de fora, uma referência ameaçante para aqueles e aquelas que querem materializar o terrorismo em suas mãos e atentar contra a civilização e os humanos que danam e são cúmplices dos ataques à Natureza Selvagem.

A propaganda eco-extremista não se detém tal como a expansão da Máfia ITS e grupos cúmplices.

Que este aporte semeie o Caos e o Terror no seio da civilização!
Adiante com a propaganda e atos eco-extremistas!

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CONTEÚDO

1. “Introdução”, por Editorial Ponta de Lança (pg. 1-3)
2. Tocaia (pg. 4)
3. Nós Juramos Vingar (pg. 5-6)
4. Pacto (pg. 7)
5. Revisitando a Revolução (pg. 8-11)
6. Primitivismo Sem Catástrofe (pg. 12-15)
7. Breves Reflexões de Uma Caminhada de Inverno (pg. 16)
8. Selvagens Politicamente Incorretos (pg. 17-19)
9. “Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica (pg. 20-26)
10. O Retorno do Guerreiro (pg. 27-35)
11. Apocalipsis Ohlone (pg. 36-38)
12. Um Poema de Guerra (pg. 39)
13. É o Momento de Beijar a Terra Novamente (pg. 40-42)
14. Nota Anônima (pg. 43-44)
15. A Ovelha Negra e o Lobo (pg. 45-46)
16. Autexousious Apanthropinization (pg. 47-49)
17. A Solidão e a Auto-realização (pg. 50-51)
18. Funeral Niilista – A Aniquilação da Vida (pg. 52-55)
19. Duras Palavras: Uma Conversa Eco-extremista (pg. 56-65)
20. Eu e Depois Eu (pg. 66)
21. O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante (pg. 67)
22. As Lições do Estado Islâmico Antes de Seu Colapso (pg. 68-71)
23. Uma Grande e Terrível Tormenta (pg. 72)
24. A Evolução da Dieta (pg. 73-76)
25. Um Falso Escape (pg. 77-78)
26. Lições Deixadas Pelos Incendiários (pg. 79-81)
27. Notas Sobre o Anarco-primitivismo (pg. 82-83)
28. A Noite do Mundo Infernal (pg. 84-85)
29. Halputta (pg. 86-87)
30. Animismo Apofático (pg. 88 – 90)
31. O Mito do Veganismo (pg. 91 – 93)
32. Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo (pg. 94-95)
33. Reflexões a Respeito da Liberdade (pg. 96-99)
34. Conversações Eco-extremistas: Uma Conversa Com Eco-extremistas Mulheres Desde o Norte do Continente (pg. 100-103)
35. A Guerra de José Vigoa: Um Breve Discurso Sobre o Método Eco-extremista (pg. 104-109)
36. Assassinando a Nosso Civilizado Interno (pg. 110-113)
37. (Roma Infernetto – “Mundo Merda”) – Profanação e Devoração (pg. 114-115)
38. Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez (pg. 116-118)
39. Guerra Oculta (pg. 119-123)
40. Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3 (pg. 124-128)
41. Humanos (pg. 129)
42. “Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã (pg. 130-135)
43. Por que te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor (pg. 136-137)
44. Pensamentos Sobre a Moralidade (pg. 138-139)
45. Ódio Misantrópico (pg. 140)
46. Moralidade (pg. 141-142)
47. Fazendo Peróxido de Acetona (Peroxiacetona, “Mãe de Satã” ou também TATP) (pg. 143-149)

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EDITORIAL

“Para nós, o Watu (Rio) é uma entidade, não uma bacia hidrográfica igual os brancos falam. Assim como lá na Índia tem o Rio Ganges, que é sagrado e as pessoas entendem isso, nós temos o Watu, que sustentou durante muito tempo a nossa existência e o nosso imaginário. Mas aqui no Brasil, rios podem virar esgoto, porque eles são vistos só como um corpo de água. […] As crianças hoje olham e perguntam para aos pais: “O Rio morreu? O Rio acabou?”. Para uma infância isso é uma marca que não tem como recuperar […] Olhar para a Terra, o Rio e a Floresta como mercadoria é um engano muito grande que vai nos enterrar a todos.”, Krenak Ailton sobre a morte de Watu pelas mãos das mineradoras Samarco e Vale

Pindorama — o regresso da conspiração eco-extremista desde este lado do Sul era já prometido, os tremores de terra que recentemente aterrorizaram os civilizados por aqui foram as reações animistas dos passos dados pelos guerreiros da Máfia ITS, novamente rumo à indiscriminada caçada nas extensões da antiga Terra das Palmeiras. Repousamos por alguns ciclos lunares entocados nas sombras e a escuridão. O motivo é porque parte de nosso Editorial se enfadou de uma investigaçãozinha esdrúxula de nome Érebo. Contrariamente ao que esperavam, não nos foi ameaça e então outra vez cá estamos, orgulhosamente dando vida a este projeto propagandístico iniciado há um ano, a Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul, que agora entra em sua segunda edição.

Devido uma série de acontecimentos o primeiro número desta publicação foi lançado inconcluso, mas agradecemos aos wachos que tomaram a importante decisão de lançá-lo. Longe das condições em que conceberam a versão inaugural do projeto, sai agora o N° 2 desta Revista contando com mais de 100 páginas munidas de escritos que nutrem a teoria e prática do individualista eco-extremista. Esta edição nasce de um tremendo esforço cúmplice de manos e minas afins do Sul e Norte. O período entre a primeira publicação e esta é marcado por uma significativa expansão dos grupos ocultos aderentes a ITS, que além de rugidos e mais acometidas pelo Sul, surgiram e cresceram também nas terras do Velho Continente, aquele onde pisaram os bárbaros, os vikings, que com ferocidade e paganismo implantaram o terror no cerne das civilizações europeias. Os esporos do eco-extremismo foram levados por fortes ventos e cruzaram as grandes águas até caírem nos solos da Grécia, onde caminha agora Seita Iconoclasta e Caçadores Noturnos; Reino Unido, terra maldita de Misanthropos Cacoguen e Espanha, extensões de Criminosos Animistas. Já pelo Sul e Norte o ânimo dos guerreiros não se detém, contamos com proximamente uma dezena de mortes em mais de 50 diversificados ataques; pacotes incendiários e explosivos abandonados indiscriminadamente estraçalhando a carne e impondo o terror; incêndios selvagens contra máquinas, instituições e objetos; explosivos abandonados contra alvos específicos e exitosamente detonados; ataques armados contra seguidores de cristo e montanhistas deixando mortos e crivados de bala; ataques armados contra estruturas de megaempresas; ameaças de bomba, envenenamento e maldições; punhaladas homicidas contra sacerdote e funcionário de universidade; ataques bombistas contra universidades e centros de pesquisa; tiro certeiro em crânio de vice-reitor de instituto tecnológico; assassinato de drogada e tantos outros que por questões estratégicas não foram reivindicados publicamente. Como apontam os meios gringos já somos uma ameaça terrorista internacional crescente no mundo. O que se originou lá pelo ano de 2011 no México se espalha pelos quatro cantos como uma maldita praga e agora tem presença em diversas cidades de vários países em três continentes. A Máfia Eco-extremista é nutrida pelo ódio catastrófico contra o progresso humano que destrói a tudo o que é Selvagem, contra o progresso civilizado que exterminou os nossos antepassados, suas crenças e modo de vida, contra a lógica ocidental de domesticar e manipular o que é silvestre, contra o esquematizado pensamento religioso moderno e o racionalismo ateu que deprecia e destrói o senso animista de sentir, ver e entender o mundo, e sobretudo pela serenidade e Caos que habita dentro de nós, a força antiga que nos empurra a reviver os adormecidos instintos e recordar os nossos antepassados e que um dia fomos parte de tudo isso, do entorno e vida selvagem, antes da chegada dos civilizados.

A alguns de nós nos enfurece saber através de nossos avós e bisavós que há três gerações passadas fomos forçados a abandonar nossas terras ancestrais e submetidos a sobreviver marginalmente no entorno domesticado enquanto as florestas eram cortadas, os montes explodidos e escavados e os rios barrados e drenados; nos dói não poder chamar o que vemos ou comunicarmo-nos através do nosso idioma akwén porque mataram-no por dizerem que falar a nossa própria língua é sinal de demência e atraso, nos entristece saber que nosso entendimento foi completamente entorpecido por costumes e crenças alheios aos que praticamos desde tempos imemoriais e que em seu lugar nos empurraram goela abaixo o cristo. Por tudo isso é nossa guerra, por nós mesmos, pelos Antigos, pelo pouco que resta do entorno selvagem e pela certeza de que os atos daqueles que assassinam os Espíritos da Natureza não quedarão impunes. Landerretche soube muito bem disso após os wachos cúmplices da Horda Mística do Bosque enviarem a seu endereço um pacote explosivo que detonou em suas mãos e que, por sorte [dele], não o matou. O bastardo é um dos cabeças de uma das maiores mineradoras do mundo. Certeza que seu nome segue entonado nos cânticos de guerra dos mafiosos e que cedo ou tarde a vingança outra vez toca a sua porta. Samarco e Vale são outros dois monstros mineradores responsáveis por causar destruições de proporções colossais como a do Rio Doce e tantas outras, por isso a citação do Krenak. Outro motivo para a citação é porque no passado e por aquela mesma região foi onde centenas de nossos bisavós foram forçados a abandonar as suas terras. Os rios, as florestas, os solos, os animais, os montes, tudo era morto ou tomado com a chegada do progresso e dos civilizados e com isso morria também parte de nós. Em vista disso não nos resta mais nada senão a guerra de vida ou morte, somos inadaptáveis a este mundo moderno; não apenas por sensatez, mas sobretudo por instinto e pelo chamado primitivo daqueles que vieram antes que acudimos. Caminhar nas urbes sentindo através do chão a respiração ofegante da Terra sepultada pelo cimento não é algo que deixaremos passar despercebido, por isso regressamos com o segundo número da Revista Anhangá, esperando que o material contido nesta publicação nutra e muna o imaginário e a força de tantos outros individualistas guerreiros e as guerreiras, tal como Regresión, Ajajema, Extinción e Atassa tem feito.

Nesta edição serão encontrados escritos sobre a espiritualidade eco-extremista, potencialidade do individualismo, debates e críticas sobre moralidade e valores civilizados, reflexões sobre humanismo e violência indiscriminada, escritos sobre veganismo e a evolução da dieta, críticas a ideologias esquerdistas e a crença numa revolução, escritos sobre reavivamento de memórias e práticas guerreiras, cosmologia pagã, apontes sobre misantropia e extincionismo, apontes sobre primitivismo, lições tiradas de grupos terroristas, banditistas, de assaltantes e movimentos de libertação, além de vários poemas, canções, textos filosóficos, manifestos pessoais, um manual para a fabricação de Peróxido de Acetona e uma análise crítica desde um olhar eco-extremista da mais recente obra de Theodore Kaczynski.

Como um órgão difusor da Máfia Eco-extremista esperamos que o material contribua não só para aqueles guerreiros e guerreiras que estão de pé e em guerra contra o Sistema Tecno-Industrial, mas também à aqueles e aquelas tendentes à selvageria, aos criminosos, antissociais, egoístas, misantropos, anarquistas caóticos, niilistas terroristas e tantos outros que semeiam no aqui e agora o Caos no interior desta civilização, que atacam seus valores, suas estruturas e instituições e também os seus engenhos tecnológicos.

Com profundo respeito pedimos a Yayá que desde sua gruta nos dê sabedoria em nossos movimentos. Certamente quando os civilizados escutarem o assobio estridente do vento, saibam que desde a tocaia fomos convocados por este furioso espírito para atacar e matar. Por vingança, apenas. Tais como as catástrofes somos uma das respostas da Natureza Selvagem a toda esta artificialidade, porque também somos parte dela e de sua reação. Indiscriminados bravios desprovidos de valores morais, como as tempestades, terremotos, furacões e outras catarses que não elegem classe social, sexo ou cor na hora de suas manifestações homicidas. E para finalizar queremos carinhosamente agradecer aos manos e as minas cúmplices destas terras e de fora, a Nẽn-pém, XXX, Urucun, Xale, aos manos da Revista Ajajema e alguns outros que dispensaram citações, que ademais de contribuírem de algum modo para o seguimento desta revista são também fonte de grande inspiração; alguns geograficamente mais próximos, outros mais distantes, mas todos na mesma guerra contra a civilização e defendendo com garras o mesmo projeto, a Máfia ITS.

Pedimos que os Espíritos da Terra acobertem os passos dos afins de sangue e de guerra e que a terrível fúria de Yayá recaia sobre aqueles que destroem a Natureza Selvagem.

A Tocaia segue até a tua morte ou a minha… GUERRA!

Grupo Editorial Ponta de Lança

Outono de 2018

Contato: pontadelanca[at]pm.me

[PT – PDF] Ishi e a Guerra Contra a Civilização

Orgulhosamente apresentamos traduzida ao português a publicação “Ishi e a Guerra Contra a Civilização“, escrita por Chahta-Ima e editada pela Revista Regresión. A tradução ao português ficou por conta de Anhangá.

Ishi, o último nativo americano sobrevivente do extermínio branco, é apresentado muitas vezes com o mito do “bom selvagem”, mas a história de sua tribo está atormentada de violência indiscriminada defensiva.

Deixamos aqui o trabalho em pdf e em versão texto, sem dúvidas uma contribuição importante para a continuidade do eco-extremismo tanto em teoria como na prática.

Mill Creek, Selknam, Teochichimecas, ancestrais irrefutáveis da luta extremista contra a civilização!

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Continuar a ler

Uma guerra sem baixas civis: uma defesa eco-extremista da violência indiscriminada

Tradução ao português do texto de Chahta-Ima sobre seu posicionamento a favor da violência indiscriminada eco-extremista. Traduzido por Anhangá.

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Sendo um propagandista eco-extremista, percebo as reações dos leitores anarquistas e esquerdistas ao ler sobre as ações de ITS e outros grupos eco-extremistas. A primeira reação geralmente é de repulsão. Como pode ser que os eco-extremistas executem atentados contra as pessoas e a propriedade, como incendiar ônibus ou enviar pacotes-bombas que podem causar danos a “civis inocentes”? E se uma criança estiver perto do explosivo? Ou se a secretária do cientista, também uma mãe e uma esposa, abre o pacote e morre ao invés do cientista? De onde vem esta obsessão com a violência niilista onde inocentes são mortos? Isso não ajuda a “causa” pela destruição da civilização? Não é um sinal de que os eco-extremistas estão mentalmente perturbados, talvez irritados com seus pais, precisam tomar seus medicamentos, são uns excluídos, etc.?

Em realidade, a oposição dos esquerdistas, anarquistas, anarco-primitivistas, e vários outros tipos de pessoas que se opõem à violência eco-extremista, é hipócrita, é hipocrisia à nível de que Nietzsche e qualquer outro pensador adepto poderia refutar. Posto que a civilização, assim como qualquer ideologia, se baseia na violência indiscriminada, e no esforço de esconder esta violência à luz do dia.

Vamos fazer os cálculos: a oposição à violência eco-extremista pode ser considerada desde o ponto de vista da regra de ouro cristã: “trate os demais como você gostaria que fosse tratado”, “você não iria gostar que alguém explodisse uma bomba no ônibus em que estivesse viajando”, “você não quer perder os dedos em uma explosão, ou que alguém dê tiros em sua cabeça quando você apenas está trabalhando para triunfar”, “todos temos o direito de trabalharmos e ganhar a vida honestamente”, certo? Mas a probabilidade de estar próximo a uma explosão eco-extremista é mínima, você tem mais probabilidade de ganhar na loteria. Em comparação, a probabilidade de morrer em um acidente de carro é muito mais alta, e a probabilidade de morrer por uma doença causada por comer comida processada, como câncer ou cardiopatia, é ainda mais alta. Costumam dizer, em último caso, alguém morreu de “causas naturais”, mas, por outro lado, se alguém morre em um ataque — “baixa civil” — na guerra eco-extremista é uma tragédia. Isso é um absurdo.

Claro, uma condenação da violência eco-extremista neste caso, é uma aprovação tácita da violência do Estado ou da civilização. Para o liberal burguês, “a violência terrorista” é horrível, uma vez que somente o Estado pode determinar quem deve perder a vida (por exemplo: se alguém vive no Iêmen ou Afeganistão teria mais a temer do que apenas acidentes de carros, pois há “drones” que lançam morte diariamente, porém não há nenhum inconveniente porque tudo foi aprovado pela democracia yanqui). Por outro lado, parece que a esquerda e os anarquistas tem mais direto a criticar a violência, posto que se opõem ao Estado e ao capitalismo. De qualquer forma ainda inventam fantasias onde tomam o poder e executam aos parasitas ricos que foram julgados e sentenciados à morte em suas reuniões, e os matam de maneira cruel e sem piedade, não considerando que os burgueses também são pais, filhos, cônjuges, etc. E obviamente, a violência na dita Revolução será a menor possível, uma vez que, poucos inocentes morreram desnecessariamente em uma revolta popular.

Colidimos com a Grande Ilusão da Civilização, que nos obriga a nos preocupar com pessoas que nunca vamos conhecer, a ter empatia com o cidadão abstrato, o companheiro, e um filho de Deus. Devemos nos preocupar vendo um ônibus queimado, ou um escritório destruído, ou os vestígios de um artefato explosivo deixado do lado de fora de um ministério do governo. Nós somos obrigados a nos perguntar coisas como: o que aconteceria se minha filha estivesse em frente a este edifício? E se minha mulher estivesse neste escritório? Se eu fosse este cientista morto e coberto de sangue no estacionamento? Bom, se assim fosse, o que mudaria? Mas, na realidade, você não estava ali, então, porque está fazendo este filme?

Não é esta a grande narrativa da civilização, que todos nós estamos envolvidos nesta questão? É mentira, porque não estamos. Você é um elo a mais na cadeia, e se a Grande Máquina da civilização escolhe te rejeitar, você será jogado ao lixo. Você não tem nenhuma agenda pessoal, a moralidade é uma ilusão. Somente cobre a violência e morte necessária para produzir a comida que você come e a roupa que veste. É perfeitamente aceitável que numerosos animais morram, que queimem os bosques, que pavimentem os campos, que milhões sejam feitos escravos em fábricas, que sejam erguidos monumentos para as pessoas que destruíram o mundo dos selvagens, que sacrifiquem os sonhos e a sanidade mental dos que vivem hoje para obter um “amanhã melhor”, mas pela amor de Deus, não deixem uma bomba em frente a um ministério do governo, isso não aguentamos!

Aqui te apresento a chave para tua libertação: você não deve nada à sociedade, e não tem que fazer o que te pedem. Essas pessoas que são assassinadas no outro lado do mundo não se preocupam com você, e nunca se preocuparão. Você é uma pessoa a mais nos números de Dunbar: será uma notícia no jornal e será esquecido. Se identificar com a morte de um cidadão ou um “filho de Deus” a milhares de quilômetros de você, é a maneira em que a sociedade te manipula para que faça o que te é ordenado: é uma ferramenta para tua domesticação e nada mais.

O poeta estadunidense Robinson Jeffers escreveu que, a crueldade é algo muito natural, mas o homem civilizado acredita que é contrária à natureza. Os europeus observaram que alguns grupos indígenas do norte da Alta Califórnia, eram os mais pacíficos e ao mesmo tempo os mais violentos: pacíficos porque não tiveram guerras organizadas, violentos porque usaram a violência para solucionar problemas interpessoais. Os que se opõem com mais fervor à violência eco-extremista, estão defendendo o direito exclusivo do Estado e a civilização de determinar quais, entre os seres humanos, devem viver ou morrer. As pessoas com esta atitude são propriedade exclusiva do Estado, então como se atrevem os eco-extremistas, a desafiar este direito absoluto que existe há mais de dez mil anos, as leis que determinam a vida e a morte?

Termino este discurso com duas citações (apócrifos?) de Joseph Stalin, a primeira é: ” não se pode fazer omelete sem quebrar alguns ovos”. Os que se opõem ao eco-extremismo dirão que estamos sacrificando a vida de inocentes para estabelecer nosso Paraíso na terra. Qualquer pessoa com a mínima inteligência para ler um pouco, perceberá que isso é uma mentira. O eco-extremismo não busca quebrar alguns ovos para fazer um omelete, pelo contrário, ele quer destruir a caixa inteira, e se alguns ovos se quebrem neste acontecimento, de qualquer forma, quantos ovos são quebrados em uma propriedade industrial a cada dia?

A segunda citação é: “uma única morte é uma tragédia, um milhão de mortes é uma estatística”. Não é esta a lógica da civilização, do esquerdista e do anarquista? Pretendem ignorar que o mundo está sendo destruído pela civilização, se perturbam um pouco pelos selvagens que morreram defendendo a terra de seus ancestrais, fazem um videogame em sua imaginação onde estrangulam os capitalistas dormindo em suas camas, mas se veem um ônibus queimado ou um laboratório destruído, gritam, “Meu Deus, que barbaridade!”.

Talvez você acredite que estes atos são poucos efetivos, talvez acredite que são atos de sociopatas, ou o que quer que seja. Não queremos mudar o mundo, preferimos vê-lo consumido em chamas. E se você não vê a destruição da Terra, dos rios, montanhas, florestas e oceanos, esta é a verdadeira loucura, não podemos te ajudar, e não queremos te ajudar. Apenas se agache quando ver-nos chegar.

– Chahta-Ima

O que queremos dizer quando falamos “natureza”?

Tradução do texto What Do We Mean When We Say “Nature”?, de Chahta-Ima. A tradução do inglês para o português foi realizada por Tapuia.

Pela defesa extremista da Natureza Selvagem!

Adiante com atos de terror contra a civilização!
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Um tema que surgiu recentemente entre os críticos do eco-extremismo é a ideia de que adoramos uma falsa ideia de “Natureza”. A seus olhos, estamos postulando algo vago, talvez usando um pensamento ilusório, e tentando encaixar a esfera redonda da realidade no buraco quadrado de nossos conceitos. Não estamos aqui para dar a definição do que cada eco-extremista quer dizer com “natureza” ou “Natureza Selvagem”. Eu só vou dar a minha própria ideia sobre isso. Outra vez, qualquer um é livre para se pronunciar, porque eu reconheço que este é um tópico difícil de tratar. Pelo menos para aqueles que estão presos à tentativa de definir o que acreditam que é o mais profundo de si mesmos e do mundo, talvez eles possam se referir a isso e encontrar algo útil. Com isso em mente:

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“Salvar o Mundo” como a maior forma de Domesticação

Tradução do texto “Saving the world” As The Highest Form of Domestication, escrito por Chahta-Ima.

Que se queimem as revoluções e utopias!
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“Cada Apache decide por si mesmo se ele luta ou não. Somos um povo livre. Não forçamos os homens a lutar como fazem os mexicanos. O serviço militar forçado produz escravos, não guerreiros.”

– “Avô”, citado em In the Days of Victorio: Recollections of a Warm Springs Aparche, por Eve Ball e James Kaywaykla

O contexto desta citação é interessante por ter sido proferida em uma reunião de líderes apaches cujo tema era sobre se devem ou não continuar a resistência contra o homem branco invasor ou sucumbir à poderosa força invasora. Com uma visão retrospectiva, pode-se afirmar que tal postura é uma tolice: se os Apaches fossem uma “frente unida” em vez dos diversos bandos que sempre foram, eles poderiam ter tido uma chance de vitória, é o que nosso raciocínio nos faz pensar. Em vez disso, sua incapacidade de adaptar sua organização social a novas condições levou-os diretamente à sua queda. Diante de uma sociedade de cidadãos intercambiáveis que constituem um Leviatã maciço e unificado, os Apaches continuaram a ser o povo indomável e selvagem de antes. E eles pagaram o preço final por isso: derrota, humilhação, exílio e, em muitos casos, morte prematura.

Mas talvez, mesmo assim, os fins não justifiquem os meios. Ou melhor, os “fins” são realmente os “meios” projetados e amplificados em uma conclusão lógica e monstruosa. Mesmo que os chefes apaches tivessem recrutado todos os guerreiros e os tivessem obrigado a lutar, mesmo que alguns dos guerreiros não tivessem fugido e se tornado caçadores de seu próprio povo para o exército branco, mesmo que pudessem ter segurado o Exército dos EUA por alguns anos mais, eles não teriam feito isso como Apaches, ou como o povo que sempre foram. O caso aqui é parecido, “para salvar a cidade, teríamos que destruí-la”. Ou melhor, para evitar que a cidade fosse estabelecida na terra dos apaches, eles tinham que se tornar a cidade no raciocínio da civilização. E eles sabiam o que isso significava: a escravidão de uma forma ou de outra. Eles aceitaram as conseqüências de sua recusa, mesmo que tivessem dúvidas sobre isso.

Podemos aplicar essas lições à nossa própria situação. Muitos grupos “anarquistas verdes” ou “pós-esquerdistas verdes” como o Deep Green Resistance e outros semelhantes têm uma atitude “militarista” ou “militante” em relação ao “desmantelamento” ou “destruição” da civilização. Existem até mesmo grupos “pró-Unabomber” que sonham com uma “revolução” contra a “sociedade tecno-industrial”. Mas e se, como diz o avô acima, em seus esforços para combater a escravidão, eles estiverem apenas criando mais escravos? Não seria esta a essência do projeto esquerdista/revolucionário: uma última “escravidão”, um último “martírio” que acabará com todas as escravidões e martírios? Só mais um grande empurrão e vamos constituir o lugar onde não há tristeza, nem suspiros, nem mais dor. O Leviatã já teve esse sonho antes, uma miríade de vezes agora, e as pessoas se lançaram contra as rodas do Progresso para torná-lo realidade. Eles ainda estão mortos, e não estamos mais perto da liberdade.

Ainda assim, há outros, como John Zerzan, que pensam que “desistir” de defender o mundo que a civilização criou é algo semelhante ao niilismo e ao desespero. “Esperança”, de acordo com esse raciocínio, seria encontrar uma maneira de “deixar todo mundo terminar bem”, de evitar todas as conseqüências negativas do fim de um modo de vida que não tem produzido nada além de conseqüências negativas para aqueles que se opuseram a ela (como nossos Apaches aqui). O Réquiem cantado para um mundo construído no enorme cemitério de outros mundos mortos deve ser pastoral e pacífico, é o que nos dizem, para que não sucumbamos à vingança e ao ódio, para que não pecamos contra os valores da “Iluminação” que de algum modo escaparam de ser plenamente domesticados, mesmo quando tudo o mais foi (mirabile visu!).

Mas e se esse desejo de salvar o mundo, esse desejo de “derrubar a tirania”, não importando o custo, essa coceira para “lutar por um mundo melhor”, for apenas mais uma roda de hamster, outro jugo para ser colocado em nós, para resolver problemas que nós não criamos e para nos sacrificarmos por um mundo melhor que nunca veremos (engraçado como isso funciona)? E se a perspicácia da civilização domesticada se baseia em aproveitar nossa hostilidade para torná-la melhor, mercantilizando nosso radicalismo e perpetuando valores civilizados em inimigos auto-proclamados como um vírus em um hospedeiro inocente? Por que não apenas manter nossos princípios, como fizeram os Apaches derrotados, e deixar as fichas caírem onde elas irão cair? E se percebêssemos que, como animais, não sabemos o que o futuro vai trazer, que a única resistência que temos é a resistência no agora, e os cuidados de amanhã cuidarão de si mesmos? Na verdade, simplesmente não temos poder sobre o amanhã, assim como não temos poder para ressuscitar o passado. Se o fizéssemos, não seríamos animais, e o revolucionário/esquerdista/tecnocrata estaria certo.

Os eco-extremistas mexicanos estão incorporando essas idéias como na seguinte passagem, que eu traduzi de um trabalho recente deles:

“Percebemos plenamente que somos seres humanos civilizados. Encontramo-nos dentro deste sistema e usamos os meios que ele nos proporciona para expressar uma tendência oposta a ela, com todas as suas contradições, sabendo muito bem que há muito tempo estamos contaminados pela civilização. Mas mesmo como os animais domesticados que somos, ainda nos lembramos de nossos instintos. Vivemos mais tempo como uma espécie em cavernas do que em cidades. Não estamos totalmente alienados, e é por isso que atacamos. A característica distintiva do RS nessa conversa é que dizemos que não há melhor amanhã. Não há como mudar o mundo para um mundo mais justo. Isso nunca pode existir dentro dos limites do sistema tecnológico que engloba todo o planeta. Tudo o que podemos esperar é um amanhã decadente, cinza e turbulento. Tudo o que existe é o agora, o presente. É por isso que não estamos apostando na “revolução” tão esperada nos círculos esquerdistas. Mesmo que isso pareça exagerado, é assim que é. A resistência contra o sistema tecnológico deve ser extremista no aqui e agora, não esperando por mudanças em condições objetivas. Não deve ter “metas de longo prazo”. Deve ser realizado agora por indivíduos que assumem o papel de guerreiros sob sua própria direção, aceitando suas próprias inconsistências e contradições. Deve ser suicida. Não pretendemos derrubar o sistema. Nós não queremos seguidores. O que queremos é a guerra individualista travada por várias facções contra o sistema que nos domina e subjuga. Nosso grito para a Natureza Selvagem será sempre o mesmo até o nosso próprio extermínio violento: “E iraram-se as nações, e veio a tua ira… e o tempo em que tu deverias destruir os que destroem a terra” (Apocalipse 11:18).”

Talvez a única resposta verdadeiramente livre, a única que escapa ao ciclo da domesticação, seja aquela que afirma firmemente que este mundo não vale a pena ser salvo, que seus dias estão contados e quanto mais cedo o mal cair, melhor. Às vezes, a condenação na escatologia cristã não é meramente um castigo, mas é o que é melhor para a alma saturada de iniqüidade. O mundo deve cair, e provavelmente nada irá substituí-lo, nada que possamos prever de qualquer maneira. A única práxis real, portanto, é a da rejeição e não a da reconstrução: um dos animais heróicos que se defronta com o gigante civilizado da escravidão e do medo.

– Chahta-Ima (2016)