[CHILE] Comunicado 64 de ITS: Sobre a Junta de Vizinhos de Internet

Tradução ao português do comunicado 64 de ITS-Chile.

I.

A verdade é que agora não nos interessa em nada entrar em uma disputa com os ambientes anarquistas locais ou internacionais, entendemos que é apenas gastar palavras e nos entendiarmos em pleitos virtuais. Em geral, preferimos continuar com as nossas atividades, mas às vezes os escândalos de certos personagens merecem ser abordados. Tal como tem sido a última aprontada de alguns blogueiros europeus.

A estas alturas não é de se admirar que tenhamos chegado a este ponto, acreditamos que são as consequências de nossa guerra extremista contra a humanidade civilizada. E como sulistas pertencentes a ITS, temos algo a dizer.

Comecemos com algumas perguntas, estes “anarquistas” nos devem lealdade? Respeito? Empatia ou algo parecido? A resposta é claramente NÃO. Eles não nos devem absolutamente nada, não são nenhum pouco afins às nossas andanças, tanto que somos INIMIGOS. Se pode esperar algo bem intencionado de um inimigo? A resposta novamente é NÃO. Então, se eles estão em todo seu direito, do que podemos nos queixar? Com que cara podemos nos queixar se nossos irmãos atentaram fisicamente contra anarquistas e seus espaços? Esta é apenas a consequência óbvia que deve ser enfrentada inteligentemente e violentamente, se necessário.

Os irmãos da SSS do Brasil já disseram, nós poderíamos pagar com a mesma moeda, começar a expor fotos, nomes e endereços, mas não o faremos porque não somos miseráveis, ponto final. Nós não estamos aqui para sair caguetando algum criminoso, isso nunca. Nós estamos nesta terra para propagar o Caos, para estourar carnes humanas com os nossos explosivos, estamos para desencadear a vingança dos espíritos da terra contra a humanidade.

Não iremos desperdiçar palavras ameaçando a este tipinho de gente, sabemos que de nada serviria e sinceramente acreditamos que não tem efeito algum sobre estas pessoas. Isso se confirma logo após os irmãos de ITS no México e Brasil se pronunciarem. O que fizeram estas pessoas? Se assustaram? Se retrataram? Não, pelo contrário, seguem em seu caminho inquebrantável. E agora não satisfeitos em ter exposto um teórico da tendência, expuseram o endereço de seu domicílio, e até “revelaram” o endereço de IP do blog “Maldición Eco-extremista” (risos).

Dizer que seus métodos não tiveram efeito na tendência seria ilusório, porque as consequências são óbvias. Foram abandonados valiosos projetos de propaganda e difusão na internet, pode-se dizer com firmeza que sua campanha acusatória resultou em mil maravilhas. Mas, o que acham? Pensaram que as atividades de ITS iriam cessar? Que nos dobraríamos ante a suas campanhas virtuais? Que nos dará medo que nossos rostos apareçam em seu site? Que vamos deixar a guerra? ISSO NUNCA. Tiramos de letra a inteligência policial, então evitá-los não será um grande problema.

Por enquanto, sigam com suas picuinhas virtuais já que é a única coisa que sabem fazer bem. Nós seguimos mesclando o salitre, carvão e enxofre, seguimos testando recipientes, seguimos corroborando as ruas. Tenham cuidado, pois seguimos em nosso caminho de terror.

II.

É assim que o véu é levantado e se revela as verdadeiras intenções desta gente. Elas não estão nisso para atacar ou destruir qualquer sociedade, nem para defendê-la, se for o caso, elas não são o “anti” de nenhuma civilização, na verdade são as forças de coesão social levadas um passo adiante, como os super-heróis dos filmes em inimizade com a polícia por seus métodos radicais, mas sempre perseguindo os verdadeiros vilões. Para aqueles que em atos e não em palavras querem ver tudo queimando.

O véu foi levantando há muito tempo, e estes personagens estão mostrando a sua verdadeira face, aquela mais cidadã. Nós não poderíamos, nós nos recusamos a acreditar que esta campanha acusatória estivesse sendo encabeçada por “anarquistas”. Não nos entraria na cabeça que alguns “anarquistas” chegaram a isso…

Isso de colocar fotos e endereços é digno de uma ONG ou uma junta de vizinhos. Vocês são uma vergonha para a anarquia (a verdadeira anarquia), são uma vergonha para a memória dos anarquistas terroristas antigos, são uma vergonha para a anarquia de Mauricio Morales, para a anarquia que queima cílios com molotovs, para a anarquia que detona extintores e incendeia bancos..

Vocês já não são anarquistas, meninos (se é que alguma vez foram), já não resta nenhuma célula de anarquia em seus corpos. E se esta é a “nova anarquia”, as coisas não vão bem…

Pela memória dos incontáveis anarquistas terroristas do passado e alguns atuais, deixem a velha anarquia em paz e não sigam manchando o pouco do respeitável que resta da anarquia no mundo.

E nos perguntamos, por que nenhum de seus amiguinhos de internet replicaram as fotos e endereços de sua campanha acusatória? Por que será? Por acaso será porque seus amigos de internet perceberam que isso não é coisa de anarquistas?

E por favor, digam a este “chinêzinho” para parar de falar bobagens, já foram duas cartas endereçadas a nós e ninguém está interessado. Já deu…

III.

Temos conversado entre os irmãos do sul e esta situação das “fotinhas” nos deixa bem preocupados. Pode ser que alguém nos reconheça aqui pelo sul e enviem as fotos de alguns de nós a estas pessoas e nos publiquem em seu site para depois nos prenderem. Olhe, nos livramos por vários anos da inteligência policial no sul para que venham nos prender por causa de uma laia de gente que anda do outro lado do oceano e, passageiramente, fazer em instantes o que em três anos não puderam fazer os governos daqui.

Então, em vista desta complicada situação, aproveitamos para fazer um chamado público a todos os que sabem quem somos; “a toda a cena rebelde, se agradeceria de coração que não enviassem nossas fotos a estes senhores para que não nos postem em seu blog. Desde já, muito obrigado.” haha

A verdade é que nós tomamos esta situação com um pouco de humor já que pouco nos importa si apareçamos em seu site, vamos ver se conseguem nos achar primeiro. Dizem que enviarão os mercenários antifascistas que estiveram em Rojava até o México e Brasil para caçar os grupos de ITS HAHAHAHAHAHAHA boa sorte nos subúrbios mexicanos e nas favelas brasileiras, onde o sangue jorra pelas ruas e o cheiro de morte é algo cotidiano.

Podemos ter muito senso de humor, mas os fatos são fatos, esta junta de vizinhos expôs um propagandista do eco-extremismo e isso é algo que não tem reparos. Há alguns cúmplices enfurecidos, muitas coisas se passaram em nossas mentes para agir em consequência disso, muitas são as possibilidades, por enquanto o sul não teve grandes pleitos com a cena anarquista. De qualquer modo, estamos atentos ao que aconteça…

Poderão nos desacreditar e nos difamar, irão querer nos apontar com o dedo, difundir nossos nomes e rostos, mas não nos assustam as freiras no cio, cagamos e andamos em sua moral bastarda e virgem.

Doa a quem doer, ITS seguirá em seu caminho de destruição. Os pesares da humanidade continuarão, nós já estamos do lado do desastre, é apenas uma questão de tempo para que a balança se incline para o Caos.

Continuamos com nosso caminho, nunca fazendo o trabalho da polícia, nunca sendo heróis. Sempre orgulhosos criminosos e verdadeiros anti-sociais.

Coragem aos difusores da tendência, que apesar das adversidades levantam projetos e seguem contribuindo com suas palavras para a guerra.

Evitando toda as polícias, as profissionais e as autodidatas!

Individualistas Tendendo ao Selvagem – Chile

– Horda Mística do Bosque

– Bando Inquisidor Vingativo

[BRASIL] Comunicado 63 de ITS – Sociedade Secreta Silvestre: Sobre os ‘Anarcops’ da 325 e Seus Consortes

Resposta da Sociedade Secreta Silvestre aos anarcops caguetas da 325 e demais envolvidos.

Vão queimar a língua!

“Disparei uma bala em sua boca pelas mentiras que dizia, e outra na mão por causa das coisas sujas que escrevia.” – Jacques Mesrine, sobre o sequestro de um jornalista francês.

Pela última vez os anarco-frades se pronunciaram contra nós eco-extremistas com a intenção de nos prejudicar de alguma maneira. Vocês da ONG 325 e seus consortes pagarão caro pelas delações contra a suposta pessoa por trás do teórico eco-extremista Abe Cabrera que sequer faz parte de ITS e por difamar e tentar entregar informações de Misanthropos Cacoguen à polícia do Reino Unido. Olho por olho, dente por dente.

Cada um de vocês por trás deste conluio possui o espírito de Jacob Ferguson (1) encarnado em seus corpos. São humanistas do pior tipo, daqueles que até mesmo seus próprios “compas” deveriam desconfiar já que tendem à traição, do tipinho de X9 traidor que colabora afetivamente com a polícia no caso de uma investigação, do tipo lunático que expõe e difama quem se atreva a criticar ou superar a fracassada teoria e “práxis” do cadáver da anarquia. Que saibam que aqui no Brasil a primeira das leis que impera nas favelas e na malandragem das ruas é “nunca caguetar”. Jamais há perdão, cagueta paga com a vida. A traição e a delação são comportamentos repugnantes onde quer que seja, inclusive entre os anarcos, e o que fizeram terá um preço. Há quem entre vocês condene em qualquer hipótese a delação, mesmo quando envolva inimigos ou discordantes. Quem não se lembra do que houve durante o desmantelado plano de fuga dos terroristas da CCF quando um tipinho de gente igual a vocês chamado Christodopoulos Xiros falou contra membros da dita guerrilha? Eles se posicionaram contra a atitude cagueta (2):

“Pelo menos nós, com nossas “práticas como as da máfia” nunca traímos as nossas ideias e a nossos companheiros, mesmo quando houveram pessoas presas e acusadas de serem membros de nosso grupo, sem ter nada a ver com isso, mesmo que não consideremos alguns deles companheiros, ou até mesmo consideremos alguns deles como nossos inimigos pessoais, a única certeza é que não houve um cagueta ou um traidor entre eles.”

Não duvidamos que entre os seus próprios companheiros vocês encontraram pouco apoio no que fizeram. E como vão os estudos para o concurso público da polícia, anarquistas? Quem diria, os revolucionários abolicionistas e anti-carcerários tentando enviar dissidentes à prisão. Recordam os stalinistas enviando os divergentes aos gulag. Vocês envergonhariam os verdadeiros anarquistas que voaram pelos ares vários militares nos séculos 19 e 20. Já dizia o velho Bakunin que ‘se desse poder a vocês ficariam pior que o próprio czar’. Nossas diferenças resolvemos entre nós mesmos sem envolver autoridades policiais, em conversações ou com a violência. Mas vocês “anarcops” optaram pelo caminho mais sujo. Terão então que lidar conosco da pior forma. O mais recente eco-terrorista jogado na prisão pelo FBI foi Joseph Mahmoud Dibee (3), agora a patrulha paraestatal de anarcops se esforça para enviar algum dos nossos para trás das mesmas grades. Esta simbiose entre polícia e anarquistas é algo que apenas o anarquismo moderno é capaz de proporcionar.

Claro, não é só vocês que sabem de segredos. Se optarmos por delatar anarquistas certamente alguns companheiros de vocês cairiam nestas terras. Temos em nossas mãos o poder de responder com a mesma moeda, mas não o faremos porque não somos miseráveis como vocês. E não sejam idiotas, ITS-México se posicionou duramente contra Scott Campbell e John Zerzan porque eles estavam pedindo quando encheram as suas bocas para falar merda. Agora vocês tentam nos atingir fazendo o que fizeram. Já que vocês querem mandar os nossos para a cadeia, enviaremos os seus para o mundo dos mortos.

O que os move contra nós é o desespero, já que a “nova anarquia”, “anarquia negra” ou qualquer outra baboseira que queiram chamar, fracassou, aceitem isso e ponto. Qualquer um sabe que há um forte mal-estar dentro da “cena anarquista” internacional e cada vez mais indivíduos e indivíduas de coragem tem rompido com o utopismo bobo sem esperar por dias melhores, por algum tipo de “colapso” ou se iludindo com os já ultrapassados contos de fadas revolucionários e humanistas em prol da “humanidade”. Estes idiotas de 47 cromossomos tem um arsenal infantil de adjetivos para berrar contra qualquer um que demonstre simpatia com ITS e como eles já não tem mais o que escrever contra nós agora apelam ao ridículo, como foi o caso do blog “Instinto Cristiano” (porque de selvagem ele não tem nada) que replicou (4) uma publicação que taxa os manos de ITS-México de “Nazi-Astecas” (Mas que diabos é isso?? Estes colunistas esquerdistas não tem mais o que inventar!). Por aqui no Brasil o que seríamos? “Nazi-Tupinambás”? É apenas uma questão de juízo moral arraigado em vocês missionários libertários. A Cruz Negra anarquista deve ter ficada confusa quando o ex-comungado Kevin Garrido soltou uma bomba em apoio a ITS (5). Mario Lopez Tripa foi outro quem ateou fogo à batina de vocês (6). Aliás, tenha sangue em seus olhos, Kevin. Apesar da condenação, mantenha-se firme, o seu dia chegará. E Tripa, estamos com você para cobrar estes miseráveis.

No Brasil o cenário não é diferente, e recentemente um tal Núcleo de Oposição ao Sistema (NOS) após alguns ataques em São Paulo fez um “chamado” para uma “união e luta contra o sistema” (7). Sério? Estes esquerdistas foram bem inocentes ao tentar nos “convocar” para a sua “luta” ridícula que é incoerente até para eles mesmos ao pedirem entre as suas “reivindicações” a libertação do ex-presidente Lula, político da esquerda que em seu governo solidificou o atual “sistema”. Mas que diabos de grupo anarquista pede a libertação de um ex-presidente? Para contrapor à “ameaça Bolsonaro” e fazer como a Frente Popular na Espanha em 1936 que tentou barrar a ascensão da direita? As justificativas são duvidosas.

Sabemos que há por aí muitos esforços sinceros para se discutir o eco-extremismo e aprofundar não só a crítica eco-extremista, já houveram muitas conversações e escritos nos últimos anos. Ultimamente os interessados estão sendo coagidos por um complô de idiotas que condenam duramente qualquer menção à Tendência e os colocam numa espécie de lista negra de “ex-compas corrompidos por eco-extremistas”. Este é um esforço anarquista para barrar a qualquer custo a expansão da teoria e prática eco-extremista. O caso mais recente e que merece a sua exploração veio de um autor britânico eco-anarquista que publicou um interessante artigo sobre “violência descolonial e eco-extremismo” que foi apresentado durante a Anarchist Studies Network Conference, na Universidade de Loughborough. Em menos de uma semana os fiscais anarquistas o criminalizaram com base nas leis morais do que é aceitável ou não dentro da esquerda (o autor foi vítima do que ele mesmo aborda no artigo) e o fizeram excluir a publicação (8) e em seu lugar divulgar uma nota de esclarecimento (9). Claro, uma situação como esta não poderia passar despercebida. Nós temos o texto e o divulgamos neste comunicado para qualquer um que queira lê-lo e discuti-lo, acesse-o aqui. A publicação “Paper On Decolonial Violence and Eco-Extremism For 2018 ASN Conference” pode ter sido excluída mediante “coerção dos libertários”, mas possuímos o seu conteúdo na íntegra. O autor explica também que um dos motivos para ter apagado a publicação é a sua segurança (na verdade, o pressionaram com a ideia de “segurança”), mas com um texto como este a esta altura os seus únicos inimigos são os inquisidores anarquistas, e não por haver ameaçado a anarquistas como fez ITS em seu trigésimo primeiro comunicado (10), mas por ter racionalizado de maneira inteligente a cerca da moralidade e da violência terrorista. Um trecho da nota de esclarecimento “Avoiding Misinterpretation” (Evitando Interpretações Erradas):

“Eu entendo que discutir os aspectos mais feios da civilização é algo que é muito desconfortável para muitas pessoas e eu posso entender porque as pessoas não gostam que eu faça isso. Acredito que, se quisermos reagir de alguma forma às fealdades com que somos confrontados, primeiro precisamos reconhecê-las, discuti-las e não desconsiderar ou tentar ignorar. Isto parece-me verdadeiro, independentemente de estarmos ou não a falar do ISIS, eco-extremismo, do complexo militar-industrial capitalista, agricultura totalitária ou de qualquer outro contexto”.

Os esquerdistas estão presos em algum tipo de realidade paralela onde o que quer que façam ou aprovem em suas auditorias morais é correto e aceitável (FLT, MEND, Ted Kaczynski, CCF, YPG, Baader-Meinhof, Rote Zora, Zapatistas, Luta Revolucionária, etc.) e o que quer que façamos é errado, é “fascismo!!!” (com ênfase). No mundo dos adultos onde as coisas são levadas a sério a teoria e prática eco-extremista do extinto Reação Selvagem e de ITS foi muito bem discutida por diversos grupos e indivíduos interessados. Os Selvagistas publicamente já admitiram que a teoria eco-extremista contribuiu para o derrubamento do mito revolucionário que estava presente dentro do Selvagismo (11). A teoria eco-extremista também contribuiu com a crítica anarquista e ex-anarquista no Chile, Argentina e México. Aqui no Brasil sabemos que também foi seriamente discutida em outros estados. Nos Estados Unidos e Europa a discussão e a contribuição também foi grandiosa em diversos círculos. E anarquistas do “tipo 325, IGD, Voz Como Arma e Instinto Salvaje” surgem e unicamente ainda tem a coragem de berrar “fascistas!!!” e condenar irracionalmente qualquer coisa que os teóricos da Tendência ou interessados escrevem ou dizem? A única palavra para isso é demência. Como dito anteriormente, estão desesperados com o fracasso do anarquismo moderno e a expansão do eco-extremismo. O mesmo autor eco-radical condenado por anarquistas devido o seu artigo apresentado na ASN Conference já havia publicado no ano passado uma opinião respeitável em torno das ações de ITS intitulada “Eco-Terrorism, Eco-Fascism, Eco-Extremism, Eco-Anarchism and the Białowieża Forest(12). Um trecho interessante deste texto:

“Posso simpatizar com esta crítica aos anarquistas por parte deste escritor eco-extremista no que diz respeito à fraqueza dos argumentos anarquistas, onde os anarcos simplesmente chamam “fascista” tudo o que não gostam, algo que parece estar acontecendo.”

Uma prova cabal de que estes anarquistas são dementes é que se pegarmos a definição de fascismo não há absolutamente nada haver com o que defendemos, ou seja, é delírio o que dizem, tudo é dito de maneira extremamente emotiva. Ao invés de rediscutirem os seus métodos e as suas teorias, nos dedicam livros e colunas inteiras de calúnias e gritos “fascistas, fascistas, fascistas!”. Se Steffen Horst Meyn morreu (13) ninguém menos que os anarquistas presentes no local foram os culpados já que estavam há 20 metros de altura em seus inúteis e ultrapassados tree sitting enquanto o Bosque de Hambach aguarda pelo seu fim. Bloqueios, sitiamentos de árvores, cartazes, tudo isso já demonstrou ser completamente ineficaz há anos e só tem fichado e jogado aos montes os ecologistas na prisão. Apesar do aval moral dos esquerdistas, os descendentes do MEND são terroristas e fazem as petroleiras recuarem no Delta do Níger, na ilha de Bougainville o que os nativos praticaram foi terrorismo e conseguiram destruir as atividades da mineradora Rio Tinto Zinc. O que os Mapuche tem feito para defender as suas crenças pagãs e as suas terras ancestrais no Chile é terrorismo. As santificadas CCF são puramente terroristas. Por mais que demonizem este conceito, é terror puro. A diferença para o nosso terrorismo é apenas o alvo e o método indiscriminado, já que para nós o problema não é mais apenas a sociedade tecno-industrial e seu progresso, mas a própria humanidade. Mas vocês praticam o terror com a fé cega mirando um novo e inalcançável ser humano, com a esperança numa espécie de Éden anarquista para esta catástrofe de quase 8 bilhões de criaturas antropocêntricas insaciáveis. Isso é estúpido. E no fim das contas será que são realmente bem seletivos? E a morte de Sergio Landskron? E os vários depoimentos de civis que quase foram dilacerados por estilhaços das bombas das CCF? E a explosão numa estação de metrô de uma Escola Militar no Chile? E o trabalhador morto numa farmácia incendiada numa marcha no Chile? Estes “casos inconvenientes” são varridos para debaixo do tapete vermelho da moralidade e jamais são reabertos. Vocês são uma incoerente vergonha universal.

O arrependimento por tentar nos prejudicar será amargo, aguardem.

Adiante, teóricos eco-extremistas!
À caça ITS nas Américas e Europa, porque por aqui faremos a nossa parte!
Saudações, Guerrilha Lixo!

Individualistas Tendendo ao Selvagem – Brasil
– Sociedade Secreta Silvestre

Notas:

1. https://animalliberationpressoffice.org/NAALPO/snitches/
2. https://publicacionrefractario.wordpress.com/2015/04/02/valio-la-pena-intentarlo-nada-ha-acabadotodo-continua-diptico-en-solidaridad-con-la-huelga-de-hambre-de-la-conspiracion-de-celulas-del-fuego-marzo-2015/
3. https://earthfirstjournal.org/newswire/2018/08/11/alleged-elf-and-alf-fugitive-joseph-dibee-arrested-after-12-years/
4. https://instintosalvaje.org/ee-uu-egoismo-vs-los-aztecas-nazis-del-eco-extremismo/
5. https://es-contrainfo.espiv.net/2016/11/28/prisiones-chilenas-escrito-del-companero-kevin-garrido-desde-la-carcel-santiago-1/
6. http://maldicionecoextremista.altervista.org/es-en-delaciones-en-cadena-si-claro-en-mexico-city/
7. https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2018/07/07/nos-comunicado-1/
8. https://ecorevoltblog.wordpress.com/2018/09/23/paper-on-decolonial-violence-and-eco-extremism-for-2018-asn-conference/
9. https://ecorevoltblog.wordpress.com/2018/09/25/avoiding-misinterpretation/
10. http://maldicionecoextremista.altervista.org/mexico-trigesimo-primer-comunicado-individualistas-tendiendo-a-lo-salvaje/
11. https://www.wildwill.net/blog/2016/07/12/revisiting-revolution/
12. https://feralculture.blog/2017/07/30/eco-terrorism-eco-fascism-eco-extremism-eco-anarchism-and-the-bialowieza-forest/
13. https://bosque.hambachforest.org/blog/2018/09/21/comunicado-de-prensa-20-09-2018-muerte-tragica-en-el-bosque-de-hambach/

Tendências Cristãs Pseudo-humanistas

Tradução de “Humanist pseudo-christian tendencies”. Traduzido e enviado por Anhangá. Disponível também em espanhol e inglês.

Li o texto “Tendências Misantrópicas Selvagens” há alguns meses em seu espanhol original. Embora eu ache este ensaio muito mais justo que muitas das críticas feitas nos últimos dois anos, há questões expostas que creio que seria benéfico abordar. Limitarei a minha discussão aos temas Natureza Selvagem, autoridade e misantropia.

Natureza Selvagem

Sobre este assunto existe o ensaio “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?“, que é muito fácil de encontrar. Mas para a questão, citarei uma passagem de uma entrevista realizada por John Jacobi a um eco-extremista:

“… estou consciente de que não sou o salvador da Terra, que a única coisa que pode ser “salva” é a minha própria vida e a maneira como eu me relaciono com o meu grupo de afinidade. A Natureza Selvagem sou EU e meu grupo que se agarra ao ato de não deixar morrer os instintos animais que ainda possuímos. Nos despojaram de tudo, até mesmo de um lugar no qual poderíamos habitar livremente, nos distanciaram de nossos ambientes selvagens, de nossas terras ancestrais e sepultaram-nas com cimento, então a única Natureza Selvagem sou eu e meu grupo, reselvageá-la é o que costumo fazer.” (Trecho de “Diálogo entre um “Eco-extremista” e um “Selvagista”“)

Já sobre o assunto de espíritos/deuses, o seguinte texto de um eco-extremista na Argentina eloquentemente explica a sua defesa pessoal do animismo personalizado:

“Não me surpreende em nada vindo de um grupo de indivíduos tão apegados às lógicas civilizadas, que aderiram a um dos pilares do pensamento empírico e mecanicista, como é o ateísmo. O que dizer sobre este assunto que ainda já não tenha sido dito? Nós, os e as eco-extremistas, temos muito bem destacadas as nossas crenças e visões espirituais, criamos as nossas deidades com base em experiências pessoais na Natureza Selvagem, e veneramos de forma animista os espíritos que habitam nela, como fizeram os nossos antepassados séculos antes da invasão. Estas deidades agarradas à Terra, ao primitivo, nos acompanham e nos guiam a todo momento, nos empurram à confrontação com a mega-máquina civilizadora, nos provém de força e mantém ativo nosso indômito caráter guerreiro. Por todas estas razões e algumas outras, é que rimos dos ateus e seu cientificismo humanista, daqueles e daquelas que baseiam a sua percepção da realidade em uma visão completamente fria, matemática, mecânica, robótica, artificial, etc. Nós não nos importamos que ante as nossas crenças venham a tachar-nos de tolos, crédulos ou de românticos, isso já fizeram os colonizadores no passado, e o fazem a todo momento os híper-civilizados que simplesmente não entendem o idioma do vento, não percebem os sussurros dos vales, o grito dos vulcões ou a sabedoria das árvores. A tudo isso nos dirigimos ao invés de máquinas e robôs, nós preferimos adorar paganamente o espírito da serpente em vez da deusa da razão e seus fiéis discípulos, a ciência e a tecnologia.” (De “Uma Defesa Conceitual do Selvagem: Uma Resposta à Semente de Libertação)

E, em comparação, incluímos um texto de um eco-extremista/niilista do continente europeu:

“Aqui na Europa há também grupúsculos de terroristas niilistas, criminosos individualistas e extremistas e misantropos vivos caminhando, e lembramos mais uma vez que alguns destes grupúsculos foram até pouco tempo próximos a vocês e seus ambientes de podridão, que sabemos quem é quem e por onde anda cada um, que a violência e o atentado para nós não é algo novo, mas uma prática que se tornou uma extensão do próprio ser, então tem sido parte de nossa vida durante alguns anos já… nós não temos “deidades pagãs”, o que temos são armas, explosivos e informação, então, vigiem as suas palavras, suas valentias de internet podem custar caro na vida real.” (De “Algumas Notas Sobre as Recentes Difamações e Breves Esclarecimentos“, O Inimigo Interno)

Os anarquistas autores do texto, certamente, se sentirão mais confusos após ler esta citação, já que nela é expressada um desgosto com a postura contraditória de obedecer aos deuses pagãos e ao mesmo tempo aos próprios caprichos. Dos trechos que citei, o principal ponto de partida é que a ideia de “Natureza Selvagem” como uma entidade autônoma e transcendental não é um dogma obrigatório do eco-extremismo, nem mesmo está imposto especificadamente em nenhum sentido. Um indivíduo pode estar de acordo com ITS e grupos afins, embora não acredite nisso em absoluto, ou em alguns casos, estando em desacordo (ver, por exemplo, o comunicado emitido pelo “Grupúsculo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem”, de Março de 2017). Isso não é retroceder: aqueles que prestam atenção sabem disso há muito tempo. Em nosso atomizado mundo moderno, todas as crenças são individuais e pessoais, e não se traduzem bem quando são impostas ou mesmo comunicadas aos outros. A Máfia Eco-extremista é uma frente unida de individualistas que aderem a crenças pessoais que estão em confrontação com a humanidade moderna. Este pode não ser um alvo ideal para anotar pontos polêmicos fáceis, mas tem sido o caso durante um par de anos.

De qualquer forma, darei minha própria interpretação pessoal do que acredito, sendo o escritor prolífico que sou. Não creio que a imanência e a transcendência com respeito a entidades espirituais sejam inerentemente opostas. Em muitas tradições espirituais, inclusive os pagãos europeus e até certo ponto da teologia cristã mística, adorar deuses transcendentes é realmente um exercício para retornar ao que você realmente é. É um exercício de autoconhecimento. Embora isso possa ser facilmente corrompido em cultos cívicos e alienados, o verdadeiro mago na antiguidade utilizou o ritual e o simbolismo para ascender à divindade (ver, por exemplo, o Corpus Hermeticum). Na verdade, esta foi a base da filosofia moderna, como no Rosacrucianismo de Descartes e Hegel, e a obsessão com a alquimia até Isaac Newton (a alquimia é mais uma transformação pessoal que a mudança de metais básicos a precisos, cf. Carl Jung). Portanto, é obtuso citar Stirner (um discípulo de Hegel, mesmo que ele fosse um rebelde), mas não se dar conta das origens “sacras” de seu próprio discurso filosófico. Continuo afirmando que a “libertação” é um conceito intrinsecamente religioso, não importa o quanto tente fugir de seu passado cristão.

Portanto, é um pouco ridículo pensar que esses eco-extremistas que aderem a uma disciplina espiritual estejam fazendo igual os cruzados quando seguiam a voz do Papa e os jihadistas escutando os gritos militantes do ímã local. Ver a devastação da Natureza Selvagem, sua pavimentação, sua exploração e sua desaparição poderia ser uma experiência espiritual negativa o suficiente para desencadear um despertar em alguns indivíduos (ouvir um chamado, talvez). Eu senti isso. Talvez o/os autor/autores não o sentiram, e talvez acreditem que alguns estão tomando isso mais literalmente do que deveriam. Há muito tempo deixei de considerar a humanidade como o único agente convincente que poderia convocar a minha lealdade, e tampouco acredito muito em mim mesmo para crer que sou o fim absoluto e o fim de tudo (escrevo mais sobre isso abaixo). Não invejo aqueles que tomam as suas deidades literalmente, mesmo que eu não o faça. Em minha opinião, me adiro ao Desconhecido. Às vezes os chamo de “Deuses Escuros”, aqueles que restaram da devastação que é a modernidade, talvez agora sem rosto, sem voz, mas uma presença, no entanto. Não tenho ideia de como adorá-los, ou se eles deveriam ser adorados. Eles não “falam” comigo, mas sei que estão ali, esperando, quebrando os moldes da ilusão civilizada.

Meus deuses estão mortos. A única coisa que falta é matar os seus. Mesmo que esses deuses sejam abstrações como “Humanidade”, “Liberdade”, ou qualquer outra coisa.

Autoridade

Claro, voltamos ao assunto da dominação e da autoridade. Ele/os autor/autores anarquista(s) enfatizam os argumentos cansativos do caráter anti-natural da autoridade, e assim por diante. (“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros…”. Muito obrigado, Rousseau.) Agora vou citar um par de passagens que nos ajudarão a abordar este tema (de novo):

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.” (De “Já Haviam Se Atrasado: Reação Selvagem em Resposta a “Destrua as Prisões“)

– E também:

“Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.” (De “Selvagens Politicamente Incorretos“)

Em um “gol contra” um pouco humilhante, mas talvez involuntário, os autores anarquistas citam os Ona da Terra do Fogo sem se dar conta de que eles, sendo simples caçadores-coletores, tinham uma sociedade baseada no patriarcado:

“A posse patrilocal e patrilinear dos territórios concedeu aos homens o direito exclusivo sobre a terra, que era importante não tanto para os terrenos de caça do guanaco ou outra fauna e os recursos naturais. Mesmo quando um homem passou a residir na linhagem de sua mãe, seu pai e seus tios continuaram sendo as figuras dominantes. O fato de que a fabricação de bens, ferramentas e artigos domésticos possa ser ensinado a todas as crianças e adultos jovens, permitiu aos produtores dominar a economia e manter um nível igualitário de apropriação e produção, frustrando assim qualquer possibilidade de subordinação, exceto a sexual. Esta “exceção” equivale a uma ruptura na sociedade que torna impossível caracterizá-la como igualitária. Poderia ser chamada de “igualitária patriarcal”, mas este rótulo parece ser contraditório ou enganoso.” –Anne MacKaye Chapman, “Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam (“Selk’nam” é outro nome para os Ona)

O mesmo caso ocorre em uma antiga cultura “simples” como a dos povos aborígenes australianos. Embora exista uma grande controvérsia sobre se os europeus exageraram na misoginia dos povos colonizados “não contatados”, há evidências menos anedóticas de que a “dominação” e a autoridade eram uma realidade entre os caçadores coletores “materialmente simples”:

“O paleopatologista Stephen Webb publicou em 1995 sua análise de 4.500 ossos de indivíduos do continente australiano que remontam 50 mil anos. (As inestimáveis coleções de ossos da época foram entregues oficialmente às comunidades aborígenes para que promovessem um novo enterro, o que deteve os estudos de rastreamento). Webb descobriu taxas de lesões e fraturas muito desproporcionais nos crânios das mulheres, sugerindo ataques deliberados e muitas vezes ataques por trás, talvez em disputas internas. Nos trópicos, por exemplo, a frequência de mulheres com traumatismo cranioencefálico foi de aproximadamente 20-33%, frente a 6,5-26% para os homens.

Os resultados mais extremos foram na costa sul, de Swanport a Adelaide, com taxas de traumatismo cranioencefálico feminino de até 40-44%, sendo duas a quatro vezes a taxa de traumatismo masculino. Nas áreas desérticas e da costa sul, 5-6% dos crânios femininos tinham três lesões cranianas separadas, e 11-12% tinham duas lesões.” (de “A Longa História da Violência Aborígene – Parte II, recuperado do site The Quadrant“)

Claro, poderíamos citar todos os tipos de exemplos brutais de abusos misóginos, bem como o desenvolvimento de hierarquias entre os caçadores-coletores como no norte da Califórnia e nos construtores de montículos da Poverty Point no que é agora Luisiana…. Não importa. O ponto é indicar que não somos afetados pela torpe tentativa de nos explodir com o nosso próprio petardo. O eco-extremismo não desafia a “dominação” ou autoridade do passado, nem finge que pode aboli-las para sempre. É uma ideia muito tola de se apegar em qualquer caso.

Digamos o que é óbvio: os eco-extremistas e os niilistas misantropos não mostram adesão a qualquer autoridade humana tal como existe atualmente, e sei também que nem poderiam fazê-lo em um futuro previsível. A própria natureza do que significa ser um individualista eco-extremista/niilista exclui ipso facto qualquer tentativa de criar uma autoridade transpessoal no presente como é comumente entendido. Talvez ITS tenha uma hierarquia militar que se estenda para além das fronteiras e continentes, mas eu duvido muito. Tenho entendido que se trata de um grupo de individualistas comprometidos em uma guerra assimétrica. Qualquer conversa sobre “autoridade” no sentido comum do termo é meramente hipotética.

Quando os eco-extremistas falam de autoridade, eles o fazem de maneira puramente instrumental. A autoridade em seu uso (para além dos aspectos “espirituais” discutidos anteriormente) tem mais semelhança com a estrutura de uma gangue ou máfia e menos a ver com um governo ou um partido político. Não há outra maneira de apoiar outro tratamento do assunto até onde eu possa ver. Se na execução de um crime alguém está “no comando”, a vida dos delinquentes poderá depender de que todos façam o que diz esta pessoa. Se uma determinada pessoa alcança um conhecimento espiritual superior ou o conhecimento de ervas medicinais, essa é a única autoridade que o eco-extremismo parece estar falando. Ao contrário do/dos anarquista/anarquistas autor/autores, eles não tem a ilusão de “construir novas formas de relacionamento entre todos os seres que habitam este mundo e estes com a Terra”.

Você pode pensar que, porque algumas pessoas falam que estão livres da “dominação”, o sangue delas não é vermelho como o dos demais. É bastante lamentável que um animal fique doente e talvez viva quatro anos e meio para falar sobre estar livre de “toda a dominação”. Alguém poderia falar também sobre estar livre da gravidade ou da segunda lei da termodinâmica. Estamos limitados por todos os lugares em nosso contexto, desde quando atravessamos a rua até o que podemos comer no café da manhã. Os eco-extremistas têm o objetivo muito simples e compreensível de se vingar e ver as coisas arderem e serem destruídas. A “destruição de toda autoridade” nem sequer parece significar algo em concreto, e muito menos possível.

“Somos soldados, não se pode escapar deste fato. Soldados no sentido tradicional e soldados em um sentido diferente. Somos guerreiros espirituais, temos uma causa ímpia para colocar um fim na humanidade. Não estamos lutando para preservar nações ou governos. Estamos lutando para retornar a nossos deuses, para nos tornarmos eles. Somos soldados em um sentido tradicional porque esse tipo de resultado não acontecerá sem combate. Tomar a ofensiva é a única coisa nobre que pode ser feita. Goebbels declarou ao povo alemão quando estavam sendo invadidos, “o ódio é nossa oração, a vingança é nosso grito de batalha”. O fedor de uma espécie inferior já não pode ser tolerada. A única solução para uma sociedade doente é a aniquilação.” –Tempel ov Blood, Liber 333

Misantropia

Direi que, pelo menos para mim, a misantropia não é um ato de aprovação do juízo moral. A não ser que alguém seja um completo e desmedido otimista, é evidente que existe um problema. O eco-extremismo em alguns lugares argumentou que o problema é físico, não moral. Como formulado no já extinto blog Wandering Cannibals:

“Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista. Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são humanos demais…”

Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria? Aqueles que se opõem à misantropia parecem pensar que o problema é qualitativo quando, na verdade, é quantitativo. Não é uma questão de inocência ou culpa, é apenas que existem muitos malditos, amorosos e éticos humanos que pensam que suas vidas e seu bem-estar são invioláveis. Que tocar em um fio de cabelo de suas cabeças é um sacrilégio ou, o horror dos horrores!.… autoridade.

Mas, na verdade, não adianta nada discutir o assunto. Isso se torna um exercício tragicômico uma vez que os anarquistas “niilistas” começam a acusar os eco-extremistas de moralismo por realizar as ações mais imorais imagináveis. Dizem algo como: se eles fossem realmente individualistas e “não dominados”, não atacariam a humanidade em absoluto, ou atacariam apenas aqueles que têm a responsabilidade “direta” pela dominação, seja lá o que isso signifique. Sinceramente, o/os anarquista/anarquistas autor/autores parece/parecem abertamente vago/vagos sobre a condenação do ataque indiscriminado, já que é um ponto que levantam. Falo mais de fanboys egoístas que começam um jogo bobo de quem pode se importar menos, que de alguma maneira é algo como o que se segue:

A: “Eu sou amoral, então ataco a sociedade e os humanos.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com a sociedade nem com os humanos, e você simplesmente estaria fazendo as suas coisas.”

A: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com quem estou atacando.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria se eu me importasse com quem você atacou…”

Etc., etc….. Sério, tem sido assim há dois anos. Sabe quantos executivos o/os autor/autores do texto poderia/poderiam ter aleijado até agora?

Ah, é. Me esqueci que ele/eles não tem a intenção de ser uma ameaça para ninguém, exceto talvez para os eco-extremistas, e nem sequer pode/podem prender um deles. Só pra constar, me lembra a polícia.

Então, para concluir, não me importa se os eco-extremistas citam o Monstro Voador de Espaguete para queimar, matar e mutilar. Para mim, é o mesmo: no fim de tudo, somos estúpidos humanos. Tampouco me importam os objetivos absurdos como “a destruição de toda autoridade”. Isso é muito abstrato para que entenda o meu pequeno cérebro, o que é uma boa maneira de dizer que é uma porcaria. Finalmente, eu não gosto muito dos humanos porque não parecem gostar muito de si mesmos. Eles estão defecando coletivamente sobre o único planeta que têm, e cada dia se tornam mais mecânicos e artificiais. Sobre este último ponto, não sei porque sou obrigado a me sensibilizar ou me preocupar com os seres humanos atacados no presente, já que qualquer pessoa aleatória em Paris, Jakarta ou Kinshasa é tão abstrata como Zeus ou como um membro de uma tribo indígena extinta. Para citar o grande reacionário De Maistre:

“A Constituição de 1795, assim como suas predecessoras, foi feita para o homem. Mas não existe no mundo nada que se possa chamar de homem. Ao longo de minha vida, tenho visto franceses, italianos, russos, etc.; sei também, graças a Montesquieu, que se pode ser persa. Mas, quanto ao homem, afirmo que, em toda minha vida, jamais o encontrei; se ele existe, desconheço-o completamente”

Tenho pouco tempo para aqueles que estão obcecados pelos ideais de uma sociedade que supostamente desejam destruir. Se estas pessoas finalmente começam a atacar o que odeiam, e se realmente atacam, não haverá ninguém mais satisfeito que eu. Mas se continuam emitindo anátemas de dentro do escritório da Mãe Superiora do Convento da Santa Anarquia, estarão confirmando minhas piores suspeitas de suas verdadeiras intenções.

“Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã

Extraído de Reflexiones Paganas.

Hoka Hey!” (em língua Dakota: “Hoje é um bom dia para morrer!”), foi um grito de guerra que se escutou nas proximidades do rio Pequeno Grande Chifre, no território de Montana, Estados Unidos, no final de Junho de 1876, quando ocorreu a célebre batalha entre Tasunka Witko (“Crazy Horse” ou literalmente: “Cavalo Louco”, 1840 – 1877), o grande guerreiro e chefe da tribo Sioux Oglala e o infame comandante do 7° Regimento da Cavalaria dos EUA, o Tenente-Coronel Coronel George Armstrong Custer.

O primeiro, comandando os bravos guerreiros de sua tribo natal, lutando por sua terra e seu direito de viver em liberdade; o segundo, um genocida e racista, com pretensões políticas para a Casa Branca, e que não hesitou em matar centenas de homens, mulheres e crianças aborígenes americanas e violar a todos os tratados existentes para atingir os seus objetivos.

Mas o propósito desta nota não é narrar dita batalha, nem como “Cavalo Louco” fez justiça ao seu povo e herança cultural ao aniquilar seu inimigo, os “wasichus” ou invasores brancos, mas sim para resgatar aquele grito, para dar nome a uma virtude pagã esquecida: a de saber morrer bem.

Guerreiro Sioux Oglala. Assim surgiria Tasunka Witko (Cavalo Louco).

Saber Morrer é Tão Importante Como Saber Viver

O humano moderno, independentemente da cultura nativa, a religião que pratique ou o nível de educação que tenha, geralmente esqueceu do fato mais importante da Vida: A Morte. Tentamos não pensar sobre isso e deixar mensagens nos cemitérios e lugares de respeito e lembrança dos falecidos, qualquer pensamento ou sentimento a respeito.

Um saber inestimável foi perdido, um conhecimento transcendente: a ideia de que vivemos para a morte, que nossas vidas são menos que um lampejo na Eternidade, que a poeira e o esquecimento é o destino dos homens. Um conhecimento que esteve presente desde os primeiros escritos humanos, como o que segue:

«Gilgamesh, por onde você vagueia? Não encontrará a vida que procura. Quando os deuses criaram a humanidade, separaram a morte dela, retendo a vida em suas próprias mãos. Você, Gilgamesh, encha a sua barriga, aproveite o dia e a noite. Cada dia celebra uma festa de alegria. Dança dia e noite e brinca! Certifica-se de que as suas roupas sejam novas, lava a sua cabeça; banha-se na água. Cuida do pequeno que pega na sua mão. Que sua esposa se deleite em seu seio! Porque essa é a tarefa da [humanidade]!»

(“Poema de Gilgamesh”, Tábua X, Coluna III – h. 1500 a.C.)

No entanto, apesar da inegável realidade do que precede, o paganismo ancestral, em quase todas as suas tradições, propunha uma visão corajosa e realista diante do destino final que espera a todos nós. Não propunha a visão de se lamentar, de ocultar o temor ou manter distante todo o pensamento sobre o final da existência, mas, muito pelo contrário, usar este conhecimento como uma ferramenta para viver plenamente, para ser feliz e tirar o máximo proveito dela e desfrutar a vida.

Não se trata de nenhuma verdade “revelada”, de nenhum conhecimento “iniciático” ou “arcano”. Não é necessário realizar viagens exóticas ou longas meditações, para poder vivê-la… Somente a partir da simples sabedoria do senso comum, emanada daqueles homens e mulheres que, por milhares de gerações, viram a Morte diante de seus olhos, desde muito próximo. Não em hospitais esterilizados e pintados de branco, mas em qualquer momento e lugar, de maneira violenta, quando havia guerras, saqueios ou ataques de predadores; de um modo sub-reptício e silencioso, quando chegavam as pragas ou a escassez.

Aquelas pessoas antigas aprenderam a viver com a Morte seguindo seus passos desde muito perto e justamente por isso costumavam ser, às vezes, mais felizes que nós (nem sempre nem constantemente, porque a felicidade permanente é apenas uma quimera) e também ter vidas plenas e energéticas.

Esse conhecimento que os ancestrais nos deixaram e que foi esquecido pela cultura moderna, não é inacessível, mas requer apenas um mínimo de contemplação da existência e de nosso papel nela. É realmente simples: devemos estar preparados para morrer nos dias de hoje, viver cada dia como se fosse o último.

Isso, por si só, fará com que você viva com intensidade cada momento, valorizando cada minuto, ciente de cada segundo. Se você não abandonar a ideia de que a morte está próxima, a vida é vivida com intensidade, com a percepção aguçada e aumentada, com plena consciência de cada momento.

O pagão considera a si mesmo um guerreiro. Não porque busca a violência ou a guerra, mas porque está sempre preparado para lutar contra os obstáculos da Vida e contra as injustiças dos homens. Como tal, tem medo da morte como qualquer outro ser finito, mortal… Mas sabe que antes é preferível enfrentá-la com integridade do que viver como um roedor assustado, escondendo-se nos cantos mais sinistros pelo simples fato de tentar viver um segundo a mais.

Para viver bem é preciso saber morrer bem e para morrer bem, é preciso ter vivido bem. Esta simples verdade é muito pouco reconhecida e valorizada pelos sistemas de crenças dominantes. Tanto pelas religiões (supostamente) “reveladas”, como pelas ideologias e filosofias de corte humanista (predominantemente ateias).

A morte é o evento humano que mais significado dá a vida, não só porque é algo único, algo que ocorre apenas uma vez e não pode ser revertido, mas porque é o epílogo de toda a existência, o final da história pessoal de cada indivíduo. A morte é a “graduação” da Vida, o fim da estrada.

Todos os humanos querem ter uma vida boa, cheia de prazeres, conquistas e satisfações. No entanto, mesmo sabendo que todos nós teremos a última hora, pouco são aqueles que se preocupam em ter uma bela morte.

Os antigos romanos tinham um saudável costume: quando seus heróis e generais desfilavam de frente para a plebe pelas ruas de Roma, em seu momento de maior glória, depois de alguma campanha vitoriosa, sempre havia um escravo atrás dele, que segurava a coroa de louros sobre sua cabeça, mas também lhe sussurrava ao ouvido: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Alguns acreditam que, com base no escritor cristão Tertuliano, a frase na verdade era: “¡Hominem te esse memento!” (“Lembre-se que és apenas um homem”), mas esta última versão é tardia e desconecta do propósito original.

Com essa ação, os romanos (e talvez primeiro os Sabinos, de onde se supõe que se originou o costume) queriam recordar o herói, o poderoso, que sua realização era efêmera, tanto para que não abusara da fama e do poder ganho, como para que não perdesse de vista o seu destino.

Há um velho provérbio que diz: “Se vive com dignidade, não se morre com ela, porque nenhuma morte é digna”. Mas isso é falso, já que não é a própria morte o que geralmente tememos ou rechaçamos e que podemos aceitar e tentar conscientemente experimentar, mas o seu prólogo. A Morte, seja o que for que implique para o Ser, se é o passo para o outro “plano” ou a aniquilação total e final, não é “o ato de morrer”, mas sua consequência. O “ato de morrer” é o que todo humano pode realizar com dignidade ou catástrofe; com consciência ou sem ela; com coragem ou covardia.

São estes minutos “antes e durante” o processo que definem o que foi dito anteriormente, o ato de morrer, o epílogo da vida e não o que ocorre depois disso, que já é desconhecido para o Homem, nem é relevante para a existência terrena quem foi um indivíduo durante os dias de sua vida.

“Memento Mori” (“Lembra-se que Morrerás”)

A Morte é o propósito da Vida, não há nada na Natureza que seja imortal, imperecível, permanente. Para os pagãos, até os deuses acabam morrendo com os éons da Eternidade. Os universos, os planos do ser e tudo o que existe deve deixar de existir, mas não em vão, e sim para dar lugar a um novo começo, a uma nova vida e a um novo Cosmos.

A física moderna mostrou que a energia não se perde. Isto é formulado pela 1ª Lei da Termodinâmica (também chamada de “Princípio da Conservação da Energia”), que muitas vezes é tomada de forma distorcida e interpretada como: “Nada se cria, nada se perde; tudo se transforma.”, postulado pelo químico francês Antoine-Laurent de Lavoisier (1743 – 1794), mas tomada como evidência da imortalidade da alma ou a essência do Ser.

Tal coisa é errada, porque enquanto a energia nunca desaparece nem é aniquilada, existe uma 2ª Lei da Termodinâmica, também chamado de “Entropia”, que dita que a energia sempre que passa por alguma transformação, vai degradando-se, ao ponto de que (como hoje em dia é conhecido cientificamente) o Universo acabará, depois de incontáveis milhões de anos, como um incomensurável páramo escuro e frio, muito maior do que hoje em dia e irá conter apenas fótons de energia muito baixa, incapazes de gerar luz ou calor. Algo como os últimos cadáveres de energia e matéria que atualmente compõem as galáxias, os sóis; os planetas e os seres vivos.

Este conceito é odiado e temido pela maioria dos filósofos e teólogos otimistas, porque os obriga a considerar a extinção final de todas as coisas, até mesmo do Universo. No entanto, no Paganismo, não existe essa preocupação, porque a concepção cíclica garante que, de uma forma ou de outra, tudo voltará a começar enquanto os indivíduos desaparecerão, a Natureza continuará para sempre.

Mas, no entanto, há algo que a física conhece e que raramente capta o interesse dos “crentes” de qualquer sistema espiritual ou dos filósofos propensos à metafísica, porque todos estes estão apenas interessados na possível sobrevivência da “alma individual”. Hoje sabe-se que “a informação nunca se perde“. Mas, que significado ou importância isso pode ter para os seres humanos? Nada mais e nada menos que o conhecimento (não a crença ou a superstição, mas o saber real) de que todo trabalho, todo pensamento, todo acontecimento desde sempre e até esse estado final da existência, descrito anteriormente, jamais desaparecerá.

Essa informação pode ou não ser acessível ao Homem (por enquanto não é se está “no passado”, mas nada impede que a evolução da tecnologia e da consciência nos permita acessá-la algum dia), mas jamais desaparecerá, dando-lhe com isso uma profunda e tremenda importância e significado a cada segundo de nossas vidas, a cada palavra, a cada interação.

Isso dimensiona a Vida de maneira diametralmente oposta a como a colocam os sistemas hegemônicos de crença e pensamento: a vã busca da imortalidade, a absurda ideia do “perdão e o esquecimento” das más ações; dos fracassos e misérias, é apenas produto da fraqueza de nossa memória, mas de modo algum implica que o que aconteceu mude, se modifique, se resolva ou possa ser compensado.

Nossas vidas são evanescentes, efêmeras… Mas os acontecimentos nelas, nossas ações, reverberam na Eternidade…

Não é na imortalidade onde o pagão deveria concentrar as suas energias e o seu ponto de vista, sem que isso implique negar a sua possibilidade ou mesmo a sua realidade, mas no legado que deixa e deixará à memória da Humanidade, e também a essa outra “memória” indestrutível e eterna do próprio Universo, da Existência. Se você quiser, coloque de uma forma poética, na memória dos deuses, que jamais sofrerá o “esquecimento”.

Não se trata de viver “no passado” ou “para o passado”, mas de fazer bom uso do presente e de terminar a “batalha da vida”, mas vitoriosos, ao menos com dignidade e honra, com a maior consciência possível de si mesmo e do que foi deixado para trás.

A Morte não deveria nos assustar, essa amiga benevolente, que levará consigo toda a dor, toda a ansiedade e toda a miséria. Toda a dor está na Vida, não na Morte. Deveríamos nos preocupar com o modo como percorremos o caminho da Vida e como encerramos esta jornada, como damos um final a nossa história pessoal.

Todos nós queremos viver 100 anos, é lógico, mesmo visto do ponto de vista daqueles que pretendem dar um significado transcendente às suas existências. Uma vida curta implica em menos tempo para fazer, alcançar e aproveitar. No entanto, e muitas vezes, isso geralmente é uma falácia… Quantos milhões de seres vivem 80 ou 90 anos sem que suas vidas tenham algum significado, sem haver conhecido a si mesmos, sem haver evoluído suas consciências; sem ter deixado legado algum a suas famílias ou amigos próximos, a sua cultura ou a Humanidade?

É comum ver a dor e as lágrimas dos mais velhos pela morte dos jovens. Isso é lógico quando se trata de seres a quem o Destino negou a obtenção de uma vida suficientemente longa, para ser significativa e memorável. Mas estas pessoas choram também pelos heróis caídos, pelos notáveis falecidos, pelos ícones reivindicados por Thánatos.

Tal coisa demonstra a indolente ignorância em que a maioria vive. Não se pensa que, talvez, esse falecido tenha cumprido com sua vida e o seu destino, que deixou algum legado (não importa o quão grande ou pequeno) a seu entorno e que se jamais é esquecido, não deveriam chorar por ele, mas glorificá-lo.

A cada pagão lhe é apresentado em algum momento da vida o dilema de Aquiles: Viver uma vida longa e medíocre, sombria e esquecível ou uma curta e gloriosa, que jamais será olvidada. Livre como é cada ser humano de poder viver sua vida como melhor lhe agrada, não é digno de chamar a si mesmo de pagão aquele que pretende transcorrê-la de forma medíocre e regozijar-se nela.

Não se trata de desejar ou propiciar uma vida curta ou uma morte dramática. Não é o suicídio, direto ou indireto, o caminho do paganismo. Se trata é de não escolher por viver mais, mas de viver melhor. Aquiles não optou por uma vida curta porque queria morrer, e sim porque não queria viver em vão.

Muitas pessoas se comovem e valorizam aqueles seres patéticos que se agarram à vida, mesmo nos últimos momentos de agonia, só para viver mais uma hora. Esse tipo de “resistência” não é uma virtude, mas o efeito ou a expressão do medo e da ignorância. Uma coisa é não aceitar a morte sem lutar, porque ninguém sabe se realmente é seu destino morrer naquele momento, e outra muito diferente é não saber aceitá-la com serenidade, dignidade e alegria, no momento em que já não restam dúvidas do que virá.

Um verdadeiro pagão deve fazer de cada jornada “um bom dia para morrer”, não buscando que esta seja a última, mas tampouco escapando da vida, do destino ou dos desafios que se apresentam para tentar evitar que esse seja o último dia. Aceitando que, a qualquer instante, o momento funesto pode chegar, viverá a cada um com a intensidade do herói, do guerreiro.

Se trata apenas de pensar para nós mesmos: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Assim como fez Cavalo Louco naquela batalha em que sobreviveu e da qual queria sair com vida. Seu grito não implicava: “Hoje é o dia em que quero morrer“, mas: “Nenhum dia de minha vida seria melhor do que o de hoje para que a morte viesse a mim“.

Uma vida assim vivida é uma vida que valerá a pena e que produzirá um sorriso final, no momento de fechar os olhos pela última vez. É claro, quase ninguém poderá alcançar isso plenamente, mas sim tentar atingir dito objetivo com todas as suas energias e com toda a sua vontade.

Heróis e Mártires

Não temos que nos confundir-nos muito, entre a ideia de morrer lutando por um ideal e a de deixar-se matar por ele mesmo. O segundo, o “martírio” pode ou não ser algo meritório, depende da forma que se olhe. Mas também é uma vida desperdiçada, porque foi entregue sem luta, sem resistência.

Pelo contrário, nenhuma vida é mais significativa e nenhuma morte é mais gloriosa que aquela que deixa esta existência ao defender ou lutar por seus ideais, quando tenta sustentá-los; por proteger aqueles que não podem se defender, por salvar os outros e por promover a justiça, a liberdade e a verdade. Eis aí a diferença entre o herói e o mártir: O herói morre lutando, o mártir se deixa matar.

Todavia há outra diferença nestes dois seres: O verdadeiro herói não espera que outros morram junto com ele, se ele puder evitar outras mortes, o fará. O mártir tenta fazer com que seus iguais o “sigam” em seu infeliz negócio (como é frequentemente visto em muitas seitas alucinadas) e, muitas vezes, como ocorre entre os extremistas muçulmanos modernos ou entre os primeiros cristãos, aspiram levar a maior quantidade de vítimas como eles.

Não é como que, nos tempos modernos, alguém morra em “batalha” mantendo a filosofia de guerreiro. Mesmo aqueles que se veem forçados (ou se volutariam) a participar nas tristemente numerosas guerras da atualidade, raramente morrem por um ideal e poucas vezes tem consciência do porque que estão lutando.

Por outro lado, também ocorre o oposto, entre aqueles indivíduos que matam e morrem cegos por um obscuro e trágico fanatismo (geralmente religioso ou político). Nestes casos, o heroísmo é desconhecido por eles e chegam ao fim impulsionados unicamente pelo ódio e a ignorância.

Não é uma questão de recomendar que hoje ninguém tente ter uma “bela morte”, como os hoplites gregos diziam e que as Kers dos aqueus ou as Valquírias dos Vikings, venham por suas almas. Pelo contrário, trata-se de não buscar uma morte lenta e decrépita, uma longa agonia sem sentido. A “batalha” pode ser para o guerreiro pagão em qualquer parte ou âmbito.

Seria um erro interpretar tudo o que foi dito como um endosso para negligenciar o corpo e a mente, para submetê-lo a vícios ou atividades que o debilite ou degrade. Não há nada mais distante disso que o pensamento pagão: O pagão não teme o excesso, mas tem como regra a moderação. “Nada em excesso” (“μηδὲν ἄγαν”) dizia Sólon de Atenas, que mais tarde se converteria no famoso “credo grego“.

O pagão não tem medo de ser ferido ou morto por defender o que ele acha que é certo, mas em nenhum caso ele quer que isso ocorra. Um velho ditado diz: “Soldado que sobrevive serve para outra guerra”. Isso às vezes é tomado de maneira irônica e se iguala à covardia, mas na verdade não é bem assim. O verdadeiro herói não tem medo de morrer, mas tenta sobreviver a qualquer custo, exceto no caso de que a sua sobrevivência implique no fracasso de seu propósito. Tenta, porque ele sabe que se tiver sucesso ele poderá protagonizar outra vitória futura, outra possível façanha.

E o que dizer do homem “comum”? Aquele que vive dia após dia, enfrentando as pequenas lutas e misérias da existência? Nenhuma consideração muda, exceto que se deixe abater pela rotina; que o automatismo, o tédio e a irracionalidade o vençam.

O “campo de batalha” para o guerreiro pagão pode ser qualquer coisa ou lugar. Um médico pode ser um guerreiro que luta contra a doença, um varredor que luta contra a sujeira, a contaminação e a favor da higiene. Há guerreiros famosos e outros anônimos, mas a diferença não está nisso, e sim na ação pela vida com indolência, com inconsciência ou fazendo com determinação, premeditação e paixão. Mesmo se o caminho tomado é equivocado, é respeitável que ele o faça com coerência e fervor e leve às últimas consequências.

Como dizia Bruce Lee: “O crime não é o fracasso, mas sim deixar de tentar. Em grandes tentativas, até falhar é glorioso.”

A energia é limitada, no Universo, em um sistema determinado ou em qualquer indivíduo. Isto implica que uma vida intensa seja, em geral, mais curta que uma vida lenta e frouxa. Não é uma pergunta de uso comum aquela de “por quê os grandes, os mais valiosos, morrem jovens?”. No entanto, o pagão crê que a versão curta e plena vale mil vezes mais que a longa e medíocre, que 100 anos inúteis ou submetidos a uma vulgar rotina não velem 100 dias vividos com sentido, plenitude e glória.

Os gregos diziam que havia três caminhos para servir aos deuses: O heroico, reservado para poucos; o sacerdotal ou iniciático, que era apenas para aqueles que queriam viver dessa maneira e o do homem comum. Enquanto este último seguisse os parâmetros que os deuses do Olimpo haviam estabelecido para ele, seu destino não seria menos digno do que o do próprio Herakles.

Não se trata então de que o “guerreiro pagão” moderno viva como um Viking, um Sioux, um Espartano ou um Samurai, mas que recorde aqueles valores ancestrais de desafio e força diante da morte e o perigo, e tente adaptá-los a seu tempo e as atividades que ele realiza em seu próprio mundo.

Não é o mesmo que morrer enquanto se vive plenamente, sem importar que seja pelas mãos de outras pessoas, em um acidente, por doença ou o que for, do que deixar de existir (morrer) quando o último alento de vitalidade abandone o corpo após vegetar por décadas, temendo o futuro e com saudades do passado. Essa é a diferença. Quem não deixa um legado na vida, de qualquer tipo, não viveu com dignidade e, portanto, não terá uma morte digna nem haverá dia, por mais que viva 1000 anos, que encontre bons motivos para enfrentá-la.

O Morrer Como Reafirmação do Sentido da Vida

Existe a crença popular de que Sócrates cometeu suicídio. Isto é produto de mentes estreitas, que lendo o “Crítias” e o Fedón”, não foram capazes de compreender a ideia central pela qual o filósofo decidiu aceitar o destino que lhe impuseram as leis atenienses, sem fugir de seu cativeiro ou sem demonstrar resistência, mesmo quando seus amigos-discípulos haviam propiciado tais possibilidades. Alguns outros, talvez a maioria, nem sequer leram estes livros, mas tomam como um “fato” a opinião dos primeiros.

A realidade é que, ao menos se nos basearmos nos escritos de Platão, seu amigo e discípulo direto, Sócrates deu sua vida pelo que acreditava. Não por um sentimento meramente “heroico” relativo ao respeito por suas próprias ideias, mas por algo mais importante: O filósofo ateniense tentou viver toda a sua vida de acordo com as leis de sua pátria, a Atenas que tanta grandeza deu à Grécia. Desconsiderar a decisão do tribunal que o julgou, mesmo que ele estivesse em total desacordo com o resultado do julgamento, teria sido equivalente a destruir o próprio esquema de seu propósito de vida, o significado mais profundo que, para ele, tinha a mesma profundidade do que a própria vida.

Mais uma vez, não se trata de querer morrer, mas de não desejar seguir vivendo, se a sobrevivência implica na destruição do sentido da própria vida.

Outro caso semelhante é aquele que pode ser extraído do célebre Epitáfio de Simônides, em homenagem ao rei Leônidas I de Esparta e a seus 300 bravos hoplitas, mortos na Batalha de Termópilas. Ele não fala da façanha imortal destes, nem de suas virtudes como guerreiros ou a forma como decidiram ir à batalha, apesar de enfrentar um exército centenas de vezes mais numeroso. O epitáfio diz:

«Ὦ ξεῖν’, ἀγγέλλειν Λακεδαιμονίοις ὅτι τῇδεκείμεθα,

τοῖς κείνων ῥήμασι πειθόμενοι.»

(“Estrangeiro, vá e diga aos espartanos que nós aqui jazemos em obediência às suas leis.”)

Não havia nada melhor que isso para ser dito. Nada era mais glorioso que morrer respeitando aquelas leis pelas quais estes guerreiros haviam vivido. A rendição, a retirada ou o pacto de um acordo com os persas equivaleria a esquecer o principal motivo de suas vidas, o sentido mais profundo que haviam dado a si mesmos. Ser infiéis a estas leis, a estes valores existenciais, era para eles, muito mais difícil, que encarar a morte com determinação e serenidade interior.

A partir destes exemplos, infere-se que não se trata de “buscar a morte”, mas de não “tentar se salvar dela”, se o preço for muito alto.

Esta decisão não precisa necessariamente ser feita na véspera de uma batalha. Em geral, é dada como o produto de uma reflexão de anos… através das mais rotineiras das atividades humanas. Nunca pode ser tomada in situ. A única maneira de poder ser coerente com tais valores é se preparar a cada dia para isso.

Nem Sócrates nem Leônidas tomaram a decisão de fazê-la, em seus últimos dias, porque passaram as suas vidas assim como Cavalo Louco, o personagem que inspirou o início deste artigo, pensando a cada manhã que: “Hoje é um bom dia para morrer (se for isso o preço para ser coerente com a minha vida)” e que o destino ou os deuses seriam os que decidiriam em qual destas jornadas tal evento teria que ser cumprido.

Se os pagãos modernos se proporem a tentar seguir esses ancestrais e redescobrir a sabedoria sobre a Vida e a Morte que tinham, as suas vidas adquiririam um maior sentido, seriam mais plenas (inclusive mais felizes!) e um dia, chegado o momento, poderão fechar os olhos sorrindo diante da visão da Lagoa Estige.

Vivamos então, cada dia, gritando realmente ou figurativamente: “Hoka Hey!“, porque essa deve ser a maneira pagã de enfrentar a morte e também, esse outro curto período que a precede, a qual costumamos chamar de vida.-

O Retorno do Guerreiro

Tradução do escrito de Ramon Elani. Traduzido por Anhangá.

A guerra… é um meio de atingir um objetivo individual: o desejo do guerreiro por glória, o guerreiro sendo seu próprio objetivo. Desejo não de poder, e sim de glória.” – Clastres

Eu sou uma lança que ruge por sangue” – Canção de Amergin

Rejeitando inteiramente as ideologias do humanismo e progressismo, eu proponho a figura do guerreiro selvagem. A sociedade guerreira, entendida como oposta à guerra mecanizada dos séculos XX e XXI, rompe a sociedade do estado, a sociedade do mundo tecnoindustrial. O guerreiro se encontra na encruzilhada entre a vida e a morte, o humano e o animal, a memória e o esquecimento, negociando uma constelação de cosmo-práxis em sua tarefa. Eduardo Viveiros de Castro chama a nossa atenção para as diferenças entre o tratamento dos mortos entre os andinos e as tribos das terras baixas. No primeiro caso, as tradições incas de sepultamento e o complexo funerário industrial veneram os ancestrais, os fundadores do estado, os burocratas, os administradores. No segundo caso, nas sociedades de guerra, os mortos são tratados como inimigos, sendo erradicados e esquecidos através da ingestão ritual. Há uma guerra entre os vivos e os mortos. Aqueles que veneram os mortos reforçam as correntes que os prendem. Aqueles que os devoram afirmam a sua autarquia selvagemente. O guerreiro renuncia a hereditariedade, e nenhuma honra pode ser adquirida através da linhagem. É apenas os seus atos de valor que lhe trarão a glória que ele procura. A seguir, eu irei contextualizar o guerreiro em luz de seu mais elegante teórico, Pierre Clastres.

A voz de Clastres fala como um eco de coisas esquecidas há muito tempo. Uma tendência, um gesto que caminha ao nosso lado mas oculto nas sombras dos milênios. Nós conhecemos as palavras de Clastres antes de termos ouvido elas. O fogo do guerreiro flameja dentro de todos nós. De Castro: às vezes temos uma impressão de que é preciso lê-lo (Clastres) como se ele fosse um obscuro filósofo pré-socrático”. De fato, nós podemos verdadeiramente perceber a essência do mundo nos sangrentos fantasmas que ele conjura.

De Castro aponta para a comparação feita por Clastres entre Heráclito e os xamãs guaranis. Todas as filosofias do dinamismo e do mundo são costuradas em conjunto para formar uma bandeira contra o monólito da máquina. Se, apesar de sua ressonância subterrânea e atemporal, os escritos de Clastres nos preenchem com uma experiência de estranheza, de destino, de escuridão, de mistério, nós podemos ver que tudo que nós precisamos fazer é tirar as vendas de nossos olhos. Clastres nos convida a ouvir novamente o batimento do tambor que ecoa em nosso sangue. Quando nós mergulhamos nas lagoas familiares, porém turvas da alma do guerreiro, Clastres nos lembra, há apenas uma questão: até onde nós estamos realmente dispostos a ir? Ele entendia, como nós também devemos entender, que o destino cósmico da nossa civilização está em jogo.

Nada é mais ultrapassado do que o homem da guerra: ele foi substituído muito tempo atrás por um personagem completamente diferente, o homem militar.

É tentador e comum, diz de Castro, pensar em Clastres como um porco espinho com apenas uma ideia, mas uma ideia vasta além de qualquer compreensão. O guerreiro primitivo se levanta contra o estado. A guerra tribal, em toda a sua brutalidade e crueldade, existe para prevenir o aniquilamento do universo. Como nós veremos, porém, o trabalho de Clastres explode em uma galáxia de poesia e filosofia, difusa e brilhando contra o céu noturno. No final das contas, não é o estado, e sim o próprio significado da humanidade que o guerreiro expõe e arrasta para a luz. Nas palavras de Claude Lefort: “Apenas o homem pode revelar ao homem que ele é homem”. Sendo assim, o que Clastres nos mostra sobre o sentido da violência e da guerra se torna uma questão metafísica, não apenas algo que está no domínio político, e de fato, algo oposto a ele. As fronteiras e as demarcações de território são transgredidas pelo guerreiro. Na falta dessa força transgressiva, nós somos gado domesticado. O guerreiro, que conduz, abduz e queima, cruza todos os limites e resiste a todos os controles além de seu próprio significado. É apenas a glória e os profetas que o direcionam a sua conquista que o impelem. Ele vai e vem. As leis que o governam superam a mesquinhez do estado. A monstruosidade da sociedade tecnoindustrial codifica e determina a cada oportunidade. Nada ameaça a sua hegemonia como a desterritorialização da guerra. Por esse motivo, a figura do nômade entendido como um proto-guerreiro, foi agarrada por pensadores como Bruce Chatwin, Deleuze e Guattari. Clastres direciona o nosso olhar ao guerreiro, orgulhosamente sustentando um mundo de multiplicidade com cada golpe de lança e cada escalpo adornando as paredes.

Ao longo de sua obra, Clastres celebra a máquina de guerra… Goethe e Hegel são homens velhos perto de Clastres.

Ao ser-para-a-guerra, a morte é um evento biocósmico que produz alteridade. O guerreiro avança em direção a morte. Não é claro que o desejo pela glória eclipsa completamente o desejo pela morte. Os mortos continuam a lutar na forma de espíritos, o xamã brandindo seu machado está cercado por eles em todos os momentos. O xamã yanomami Kopenawa diz que quando a terra começar a apodrecer “os humanos se transformarão em outra coisa, como aconteceu no começo do tempo”. Espíritos vingativos cortarão o céu em pedaços com os seus facões, e as florestas atrás dos céus cairão sobre nossas cabeças. Tão rápido será o fim que nós não teremos tempo de gritar. Os espíritos, liberados da terra, destruirão o sol, a lua e as estrelas. E no final haverá apenas a escuridão.

O ano é 1970, e Pierre Clastres vive entre os Yanomami e os declara “A última sociedade livre do mundo”. Ele comenta sobre a sua incrível flatulência, produto dos altos níveis de banana em suas dietas. À noite, Clastres é deixado só com as mulheres no acampamento, pois os homens saíram em uma incursão. Eles atacam seus inimigos à noite e correm de volta para a selva para evitar o inevitável e ligeiro contra-ataque. Os mortos são queimados sobre uma pira, seus ossos moídos até se tornarem poeira e depois inalados. Dias de lazer e risadas são pontuados por incursões do outro lado do rio. Homens se juntam na terra para duelar com bordunas por suas mulheres. Clastres viaja com várias canoas cheias de guerreiros armados com o objetivo de realizar trocas para obterem drogas. As sementes alucinógenas de que eles necessitam crescem apenas no território de uma tribo particular. Eles mantêm seu monopólio tenazmente. Além de ferramentas e outros itens de troca, há uma demanda clara por itens de prestígio. Esses incluem vestidos femininos, usados pelos guerreiros, que não se preocupam em fazer distinção de gênero de vestimentas. Eles assopram a droga para dentro das narinas uns dos outros usando tubos de cana. Enquanto o grupo de Clastres se prepara para sair, um menino pequeno de outra tribo pula em sua canoa. Ele quer ir com eles. Sua mãe o puxa de volta e ele bate nela com um remo. Com a ajuda de várias outras mulheres, ela consegue tirá-lo da canoa. Ele morde ela.

O mar como um espaço suave é um problema específico para a máquina de guerra.

Garotos na sociedade Yanomami, como Clastres observa, são “encorajados a demonstrar a sua violência e agressão. Crianças jogam jogos que frequentemente são brutais. Pais evitam consolá-los. O resultado dessa pedagogia é que ela forma guerreiros”. Os missionários fracassaram miseravelmente em suas tentativas de dissuadi-los de seu amor pela violência. Armas entregues como presentes pelos salesianos sob a condição de que elas sejam usadas apenas para caçar são rapidamente integradas a máquina de guerra yanomami. “Tente convencer os guerreiros a renunciar a uma vitória fácil”, escreve Clastres, “Esses não são santos”. A presença de armas, obviamente, permite massacres em escalas maiores. Clastres aponta, porém, que é comum que uma tribo convide outra para um banquete com a intenção de massacrá-los. Tais atos nunca são esquecidos, e as rixas de sangue são passadas de geração para geração. Em um dia com 21 horas de tempo livre, há muito tempo para cultivar a animosidade em relação aos seus inimigos. Como diz Clastres em seu diário:

No final de uma tarde entre os Karohiteri, surge uma tempestade, precedida por ventanias violentas que ameaçam levar os tetos. Imediatamente, todos os xamãs se posicionam ao longo das moradas, tentando empurrar de volta o vento. O vento, esses redemoinhos, são de fato espíritos ruins, certamente enviados por seus inimigos.”

Enfim, o xamã captura os espíritos ruins em uma cesta e corta eles em pedaços com o seu machado. Clastres despreza a paz. Seu sonho e prece para os yanomami é “mil anos de guerra! Mil anos de festas!” Harmonia, ele escreve, é conquistada através da escavação de minas, a perfuração que busca petróleo, fábricas, polícia e shoppings.

A tese pela qual Clastres é mais conhecido é simples: o estado de guerra permanente que se encontra na maioria das sociedades indígenas é uma estratégia usada deliberadamente para manter a segmentação territorial e impedir a formação de um estado ou de uma cultura monolítica. A guerra tribal resiste a globalização. Clastres escreve:

A máquina de guerra é o motor da máquina social: o ser social primitivo depende completamente da guerra, e a sociedade primitiva não pode sobreviver sem a guerra. Quanto mais guerra, menos unificação, e o maior inimigo do estado é a guerra. A sociedade primitiva é uma sociedade contra o estado ao ser uma sociedade pela guerra.”

Assim, os incas enclausurados em seus templos de pedra e cidades elevadas olhavam para as tribos da floresta com medo, ódio e desprezo. Para os aristocratas incas perfumados, os habitantes das pampas sem lei e sem reis eram menos que humanos. Nesse sentido, eles marcaram um padrão que foi mais tarde adotado pelos espanhóis ao lidarem com todos os povos ameríndios.

A sociedade tecnoindustrial condena a violência ao mesmo tempo que a facilita e torna possível graus de violência inimagináveis mesmo para as sociedades tradicionais mais cruéis e sedentas por sangue. Nós somos ensinados a temer e rejeitar a violência. Nós somos ensinados que não há significado na guerra, mesmo quando a nossa cultura promove uma guerra implacável contra o próprio cosmos. Essa incoerência ressoa pela nossa sociedade. Quando Clastres escreveu sobre a violência entre os Yanomami, Tupi-Guarani e os Guayaki nos anos 60 e 70, a cultura entre os antropólogos também era assim. A violência era ignorada no mundo acadêmico ou usada por etnógrafos racistas para denigrir as sociedades primitivas. Clastres não temia a faca, e via o derramamento de sangue como uma verdade reprimida e esquecida. Quando os europeus, escondidos como caranguejos-eremitas em suas armaduras, chegaram nas praias da América do Norte, América do Sul, Austrália, África, Sibéria e as ilhas do Pacífico, eles se surpreenderam sem exceção com o amor pela guerra dos nativos que encontraram. Sejam nômades ou sedentários, comunidades primitivas eram “apaixonadamente devotadas a guerra”. Para os europeus, esse amor pela guerra não podia conviver com a sua doutrina da paz: os indígenas deveriam ser ensinados abandonar as suas tradições violentas através de centenas de anos de tortura, genocídio e etnocídio.

Não importa onde olhamos entre as sociedades primitivas, nós sempre encontramos a violência brilhando como uma tocha na noite escura. Apesar de todas as nuances e variações culturais, essa violência parece ser universal. O mito do primitivo pacífico é pernicioso. Como nós veremos abaixo, parte da razão da existência desse mito é a falta de uma compreensão do significado da guerra fora do nosso entendimento atrofiado e reprimido da violência. Clastres escreve uma imagem emerge continuamente da diversidade infinita das culturas: a imagem do guerreiro”. Qual é o significado dessa figura? Como nós explicamos ou entendemos o amor universal pela guerra? O que significa o fato de a nossa sociedade ter virado as costas para essa força primal, abandonando-a para e deixando a guerra se tornar o trabalho de robôs ou empregados corporativos estéreis? Nós perdemos “o espetáculo de nossa livre e guerreira vitalidade”, substituído por uma paz vil e assassina.

Antropólogos tentaram entender a violência primitiva de várias formas, e grande parte dos seus pensamentos gotejou para as pessoas comuns. Eles ecoam os presentes envenenados do Iluminismo. O significado da violência é frequentemente representado de forma equivocada. A figura do guerreiro e a sua busca pela glória é frequentemente ignorada e desvalorizada. E por causa disso, o espírito da sociedade primitiva em sua inteireza é mal compreendido. Primeiramente, há quem argumente que a violência e a guerra simplesmente evoluíram como um mecanismo de sobrevivência através da caça. Andre Leroi-Gourhan é um dos primeiros proponentes dessa teoria. Para Leroi-Gourhan, o guerreiro é simplesmente uma extensão do caçador. A necessidade de alimento do homem produziu o caçador, e o caçador – o homem que possui armas e sabe usá-las – produziu a guerra e o guerreiro. Leroi-Gourhan escreve “Ao longo do tempo, a agressão aparece como uma técnica fundamental ligada a aquisição, e no primitivo, seu papel inicial é a caça onde a agressão e a aquisição alimentar se fundem”. Em outras palavras, se a agressão é inata como parece ser, ela deve servir um propósito evolutivo. Leroi-Gourhan imagina que o instinto da violência pode ser usado de forma produtiva, e nesse sentido seu pensamento se limita a necessidades banais como comida. A violência para ele não é nada mais do que um impulso predatório ajustado através do prisma da economia social. Clastres corta Leroi-Gourhan como uma faca quente cortando gordura.

Nossa discordância com Leroi-Gourhan não decorre pelo fato de ele tratar humanos como animais, muito pelo contrário. A diferença é que ele não atribui os instintos animais corretos a violência. “A sociedade humana” escreve Clastres “não deriva da zoologia, e sim da sociologia”. Clastres desarma Leroi-Gourhan com facilidade e destreza surpreendentes. Como qualquer caçador já percebeu, a agressão está completamente ausente da experiência da caça. De fato, ao caçar, uma mentalidade agressiva garante que você voltará para casa faminto. Como diz Clastres “O que motiva o caçador primitivo é o apetite, ao ponto da exclusão de todos os outros sentimentos”. Ele também fala da importância do ritual na caçada. De qualquer forma, a agressão não está presente. O motivo para a guerra e a violência nas culturas primitivas, diz Clastres, é mais profundo. A guerra é pura agressão. Ela é o desejo de aniquilar seu inimigo, banhar-se em sangue e erguer troféus sangrentos aos céus. Uma necessidade maior que a fome está presente aqui. Clastres: “Mesmo entre tribos canibais, o objetivo nunca é matar o inimigo para comê-los”. Tanto alarde para Leroi-Gourhan e o seu “discurso naturalístico” da guerra.

A segunda, e provavelmente a mais persistente teoria da violência primitiva se baseia na economia. Essa crença é bem difundida em todos os níveis da sociedade. As pessoas cometem violência e guerreiam por recursos e riqueza material. Essa noção é sempre acompanhada por um desprezo pela violência: ela é apenas um veículo, uma estratégia dos tolos, daqueles que não tem outros (melhores) recursos. Como diz Clastres, essa ideia é frequentemente vista como algo tão óbvio que não necessita de justificativa. A violência surge da competição por recursos escassos. No fundo nós sabemos que isso não é verdade. Que argumento insatisfatório! As origens desse argumento podem ser traçadas. Clastres nos direciona ao século 19, quando se acreditava que a vida primitiva era uma vida de “pobreza e miséria”. O primitivo é aqui imaginado como um cidadão miserável e destituído do mundo tecnoindustrial, e que se tornou violento e cruel através da escassez e privação. Como eles não conseguem prover as suas necessidades, eles têm que guerrear por migalhas.

Essa noção da escassez primitiva é reforçada pela antropologia marxista. Clastres, que foi um membro do Partido Comunista até 1956, entende as armadilhas do progressismo. “O que é o marxismo senão a teoria marxista da história”, escreve Clastres. Para que esse aparato funcione, é preciso demonstrar que os estágios antigos da história da humanidade são deficientes:

“Para que a história siga em frente, para que as forças produtivas decolem, essas forças produtivas devem primeiro existir no início desse processo na mais extrema fraqueza, em seu total subdesenvolvimento: na falta disso, não haveria uma razão para elas se desenvolverem, e nem haveria como articular a mudança social.”

Infelizmente, como já é bem estabelecido hoje em dia, as culturas primitivas raramente lidavam com a escassez, e a sua capacidade produtiva era vasta. Aqui, Clastres reitera o que foi falado por Marshall Sahlin, “sociedades primitivas, sejam elas caçadores nômades ou grupos sedentários… são verdadeiras sociedades do lazer”. Tendo esse fato a vista, a teoria econômica da guerra primitiva vai por água abaixo. A ideia de guerrear com uma tribo vizinha por alimento ou algum outro recurso é completamente sem sentido. Como Clastres aponta, as comunidades primitivas são profundamente autossuficientes, e quando a troca é necessária, ela ocorre pacificamente entre vizinhos. Também é bem observado em várias comunidades primitivas uma abundância tão grande que os leva a criar festivais devotados somente a destruição ritualística de recursos.

A última teoria antropológica da guerra primitiva que Clastres identifica está incorporada na ideia da troca. Aqui nós encontramos Clastres em confronto com o seu professor Claude Levi-Strauss. Para Levi-Strauss, a guerra primitiva é o lado sombrio do comércio primitivo. Comunidades são obrigadas a participar em sistemas de troca. Quando esses sistemas são bem-sucedidos, o resultado é o comércio mutualmente benéfico. Quando a troca colapsa ou amarga, a guerra irrompe. Levi-Strauss escreve “a troca comercial representa guerras potencias sendo resolvidas pacificamente, e guerras são o resultado de transações mal sucedidas”. Essa visão da guerra a apresenta como um terrível acidente, argumentando de forma implícita que o comércio é uma forma de interação social superior. Como nós somos rápidos ao esquecer os sofrimentos do espírito para nos livrarmos dos sofrimentos da carne! E mesmo assim, quão rápido o corpo se cura enquanto o espírito se agarra aos seus ferimentos. “Tudo menos a guerra!”, grita a sociedade tecnoindustrial e os seus oradores. Apesar disso, não podemos dizer que o comércio também assassina e tortura a carne? Não são os crimes cometidos em nome do comércio muito maiores do que os da guerra? Levi-Strauss e seus colegas não puderam ignorar esse fato: “o comércio é frequentemente uma alternativa a guerra, e a maneira como ele é conduzido mostra que ele é uma modificação da guerra”. Sim, o comércio deixou uma pilha de cadáveres capaz de dar inveja a qualquer guerra. Em outras palavras, Levi-Strauss vê a troca como o aspecto mais elementar da dinâmica de grupos primitivos. Todo o resto é visto apenas como uma variação desse tema. Clastres não aceita essa conclusão. É a guerra, afirma ele, que nos faz o que somos.

No mundo tecnoindustrial, nós vemos o comércio como um imperativo universal. Mas o comércio é necessário apenas quando comunidades são enfraquecidas e perdem a capacidade de prover o seu sustento. Nós sabemos que a vida nas comunidades primitivas é uma de abundância e lazer. Levando isso em conta, precisamos rever a noção de Levi-Strauss da guerra como o comércio que deu errado. A própria essência da comunidade primitiva está em sua autarquia “nós produzimos tudo o que precisamos (comida e ferramentas), o que nos coloca em uma posição que nos permite viver sem os outros. Em outras palavras, o ideal autárquico é o ideal anti-comércio”. Isso não é para dizer que não havia comércio, mas Clastres estava absolutamente certo ao contestar a análise de seu professor. Sugerir que a relação da vida primitiva com a guerra e o comércio é acidental e primária é sobrevalorizar o papel das transações comerciais nessas comunidades. Levi-Strauss tenta nos convencer de que a guerra é um acessório em relação ao principal, que seria o comércio. Assim, Clastres escreve, Levi-Strauss superestima a importância do comércio.

Primórdios do Islã, uma sociedade reduzida a um empreendimento militar.

Se a guerra no contexto primitivo não é um substituto ou uma mutação das trocas comerciais, nem uma luta por recursos ou uma característica evolutiva desenvolvida por predadores, o que ela é? E como nós podemos entender a sua presença quase universal? Essas são questões que assombravam Clastres pouco antes de sua morte (em 1977, aos 43 anos, em um acidente de carro). Na época de sua morte, ele estava escrevendo um novo livro analisando o significado da guerra nas sociedades primitivas. Dois ensaios desse livro inacabado permaneceram. Nesses ensaios, Clastres refinou a sua ideia de que a guerra e a tortura são deliberadamente implementadas por comunidades primitivas para prevenir a emergência de um estado ou outros poderes hegemônicos, impedindo assim a desigualdade radical. A violência imposta quase constantemente em todos os membros da sociedade lembra a todos de seu lugar.

A lei que eles aprendem na dor é a lei da sociedade primitiva que diz a todos: Você não vale mais do que ninguém; você não vale menos que ninguém. Essa lei, escrita nos corpos expressa a recusa da sociedade primitiva de correr o risco da divisão, o risco de um poder separado da própria sociedade, um poder que fugiria do seu controle. A lei primitiva, cruelmente ensinada, é uma proibição da desigualdade que cada pessoa lembrará.

Esse é o monismo da vida primitiva. A violência cultiva a assembleia de multiplicidades, para pegar emprestado uma frase de Deleuze e Guattari, que estudaram Clastres. Além do mais, contrariando Hobbes, Clastres demonstrou que a guerra ocorria entre diferentes grupos, não dentro desses grupos. Aqui nós voltamos ao começo. A guerra não é nada mais do que a busca pela glória.

O ponto principal a ser notado sobre a guerra em um contexto tribal é que ela é por si só um objetivo, assim como uma resposta a uma necessidade. Para Clastres, a sociedade primitiva é uma singular e plural, difusa e concentrada, dispersada e coagulada. Não é surpreendente que o seu trabalho foi tão influente para Deleuze e Guattari e a teorização deles sobre a natureza da esquizofrenia e o rizoma. Nós podemos perceber imediatamente a sombria presença do corpo sem órgãos na análise de Clastres do grupo primitivo. O todo é maior do que a soma de suas partes. A tribo é um arranjo feito de pequenas rupturas na forma de seus membros. Clãs, ordens militares e irmandades cerimoniais integram o indivíduo. O que somos nós? Nós estamos aqui. Nós somos o lugar. Nós somos as coisas associadas a esse lugar. Nós somos a sua essência. A localidade da comunidade primitiva torna a sua natureza nômade ou sedentária irrelevante. Sejam eles agricultores assentados ou caçadores ambulantes, há um local e um direito territorial. Estar fora desse local, longe de casa, é uma experiência aterrorizante. Nesse sentido, há também um “movimento de exclusão”, aqueles além da floresta, da planície, o outro. Nós podemos ser tentados a pensar na guerra como uma das consequências da territorialização. Mas se esse fosse o caso, os antropólogos não descobririam que a guerra ocorre na defesa de fronteiras tribais? Mas esse não é o caso. A guerra é ofensiva. O território é invadido, penetrado, e não mantido. Como é possível que o mundo primitivo se pareça com uma galáxia de estrelas? Grupos e bandos autocontidos que em suas diferenças iluminam a noite.

Cada comunidade, no sentido em que é indivisa, pode pensar em si mesma como “Nós”. Esse “Nós” por sua vez se vê como uma totalidade na relação igual que ele mantém com outros “Nós” que constituem outras vilas, tribos, bandos, etc. A comunidade primitiva pode se ver como uma totalidade porque ela se institui como uma unidade; ela é inteira, por ser um “Nós” indiviso.

Como essa multiplicidade é mantida quando há tal união dentro da comunidade? Simples. Não há nada aqui para o homem com ambições políticas e econômicas. Aquele que acumula não pode fazer nada a não ser olhar enquanto suas riquezas são devoradas pelos seus semelhantes. Aquele que aspira por poder se torna acorrentado ao trono, sua garganta arrancada e transformada em um megafone para a lei. Essa é a sua recompensa se ele faz bem seu trabalho. Caso contrário, ele será massacrado. A forma que se apresenta diante de nós é um monólito. Uma visão da morte, êxtase, calcificação. Sem movimento ou energia. Mas a alma cristalina do mundo primitivo, dura, fria e perfeita é estilhaçada, se arrebentando e dando vida ao coração flamejante da guerra.

Finalmente nós chegamos a isso. O coração vivo da selva e do Chaco, iluminado pelo estranho e fantasma-fogo da lua. A guerra é uma forma para as tribos “testarem o próprio ser da sua sociedade”. Qual é a natureza do mundo indiviso? É a sua recusa a se identificar com os outros, no melhor dos casos. Nós somos quem somos porque não somos você. E nós vamos afirmar a nossa identidade em sangue. Somos todos iguais!” proclama a máquina industrial, o nervo de fibra óptica da civilização. Nós estamos todos unidos na escravidão do sistema tecnoindustrial. Nós somos idênticos. Nós vivemos a morte.

A identificação” escreve Clastres, “é um movimento em direção a morte”. A guerra e derramamento de sangue das sociedades primitivas é uma celebração, “uma afirmação da vida”. A mônada está sempre ameaçada pela decadência e o colapso, a forca esfacelante que destrói todos os nossos monumentos. A guerra é o poder que resiste a dispersão.

Nós sabemos que a guerra é universal entre as comunidades primitivas. Clastres nos avisa sobre o risco de extrair desse fato uma confirmação da “guerra de todos contra todos” de Hobbes. Esse, na verdade, é o estado da guerra na sociedade tecnoindustrial. O mundo globalizado é facilitado por uma máquina de guerra que corre em um ritmo tão acelerado que o poder e a dominação se espalham inabalavelmente. Tudo e todos são inimigos, e todos são vitoriosos ou aniquilados. Gradualmente, toda a oposição é subjugada. Toda a autonomia é trazida sob controle. Pax Imperium. A paz reina apenas quando a própria terra é enterrada sob uma montanha de ossos. A paz é a morte. A amizade de todos é impossível pois ela aniquila a natureza da identidade. A inimizade de todos também é impossível pois ela conduz à paz silenciosa do túmulo. Clastres: “a sociedade primitiva… não pode consentir a uma paz universal que aliena a sua liberdade; ela não pode se entregar a uma guerra geral que abole a sua igualdade”. Esse é justamente o erro que Levi-Strauss comete ao igualar a guerra primitiva ao comércio. Você não pode ser amigo de todos da mesma forma que também não pode ser inimigo de todos. Essa é a complexidade da sociedade primitiva: há inimigos e aliados. Os primeiros necessitam dos últimos, e as duas categorias estão sempre em fluxo:

A comunidade nunca lança uma aventura de guerra sem antes se proteger por meio de atos diplomáticos – festas, convites – depois dos quais alianças supostamente duradouras são formadas, mas que devem ser sempre renovadas, pois a traição é sempre possível e frequentemente real.”

Tais alianças eram criadas e mantidas primeiramente através da troca de mulheres, que eram também acumuladas como espólios de guerra. Esse paradoxo, a troca de mulheres para formar alianças e a captura de mulheres através da guerra, ilustra para Clastres um desdém pela economia de trocas. Porque nós deveríamos trocar para obtermos mulheres quando podemos simplesmente ir pegá-las para nós? “O risco [da guerra] é considerável (ferimentos, morte), mas os benefícios também: eles são totais, as mulheres são de graça”. Incidentalmente, encontramos aqui mais refutações da proposição de Levi Strauss de que a sociedade primitiva é construída em torno da troca. Clastres observou que a própria troca é sempre feita em serviço da guerra. Em outras palavras, a troca apenas ocorre como uma forma de conseguir aliados militares.

A guerra é uma forma de preservar a comunidade. A coesão, permanência e estabilidade da vida primitiva são todas conquistadas por um estado de guerra constante. Isso não significa, é claro, que estamos sempre guerreando, mas estamos sempre em guerra, somos sempre guerreiros, somos sempre a guerra. A permanência da guerra nas sociedades primitivas cria uma imagem e ideia da totalidade da qual tudo depende. Minha identidade é preservada através da guerra. Eu sou diferente por causa da guerra. Eu existo apenas através da guerra. A manutenção dessa particularidade e separação de identidades e comunidades não é um produto da guerra, e sim o seu propósito. A guerra produz “a multiplicação do múltiplo”. Essa é a força que resiste o centrípeto, o movimento em direção ao centro. O derramamento de sangue do guerreiro cria uma estrutura elástica que permite dispersão e coesão. Por eras, implementos de guerra e ferramentas de agricultura permaneceram idênticos.

Como nós podemos ver, o que se aplica a uma crítica do estado vai muito mais além. Quando nós falamos da guerra e do guerreiro que se levanta contra o estado, estamos falando de algo muito mais profundo. A própria sociedade tecnoindustrial depende do banimento do guerreiro, que é subsumido em formas mais amenas a esse mundo e a sua lógica. O burocrata, o contador, o técnico. Como nota Clastres, “a recusa do estado é a recusa da exonomia, da lei exterior, é simplesmente uma recusa a submissão”. Não há nenhuma lei a não ser a nossa lei, a lei da faca, do dente. A medida que a guerra é direcionada para fora em direção ao inimigo, ao outro, ela é também uma política interna que preserva a integridade e a estabilidade interna da comunidade. A guerra facilita a preservação da autonomia em uma sociedade assim como a sua indivisibilidade e totalidade. Nós entendemos que o estado é aquilo que impõe a divisão de uma sociedade. O estado é o aparato da fragmentação, e enquanto a guerra primitiva permanecer, haverá sempre uma força contra o poder que ameaça destruir as conexões que nos unem. Não se deve deixar erodir nenhum grau de liberdade. O que os nômades inventaram foi a arma-homem-animal, a assembleia arco-homem-cavalo.

Então quem é o guerreiro? Quem é o homem que vive em guerra? No contexto primitivo nenhum homem é mais do que a sua capacidade para violência. Há, é claro, o que Clastres chama de “uma hierarquia de prestígio”, à medida que alguns homens são naturalmente mais corajosos que outros, além das habilidades de guerra também variarem. Apesar disso, o status do guerreiro e o seu lugar entre os seus não lhe confere um aumento em seu poder político. Não há subdivisões dentro do grupo, e o comando não traz honra; disciplina e obediência exercem pouca influência aqui. Cada homem luta por uma razão particular, e as ordens do chefe de guerra não são uma grande preocupação. De fato, como Clastres notou, chefes de guerra que tentam ditar ordens são ignorados ou até mesmo massacrados. Não, o guerreiro luta por seus próprios fins pessoais, ele “obedece apenas a lei de seu desejo e vontade”. Nesse sentido, há uma variedade considerável na figura do guerreiro que se apresenta em sociedades primitivas.

Ao mesmo tempo que é correto dizer que o homem primitivo é um guerreiro por definição, nem todos os homens recebem o chamado para esta tarefa da mesma forma. O centro dos homens de guerra é composto por aqueles que se tornaram inflamados pela sua paixão por sangue e pela glória. Esses são os homens que se devotam completamente a violência e a busca pela honra. Eles não existem para nada mais. Todo homem tem potencial para ser guerreiro, mas nem todos cumprem esse destino. Como diz Clastres: “todos os homens vão para a guerra de vez em quando… alguns homens vão para a guerra constantemente”. Quando uma vila é atacada, todos os homens claramente vão agir como guerreiros. Mas há aquela classe especial que deve se envolver em atividades guerreiras mesmo em tempos de paz. Eles não vão para a guerra para responder as necessidades dos outros, mas porque o tambor está sempre batendo dentro de seus peitos.

Momentos de ameaça externa e perigo coletivo podem transformar qualquer comunidade em uma comunidade de guerra, e isso é naturalmente universal. O que é mais particular é o crescimento de sociedades de guerreiros. Apesar disso, existem amplos exemplos de comunidades que institucionalizaram a prática da guerra. Nessas comunidades existe uma dedicação total à guerra, que é o centro de todo o poder político e ritual. Nós sabemos que isso se aplica aos Huron, Algonkin, Iroquouis, Sioux, Blackfoot e Apache. Mas para Clastres, não há exemplo melhor que as tribos do Grande Chaco, uma terra hostil, dura e espinhosa que cobre grande parte do Paraguai, Argentina e Bolivia. Entre os chaquenos a guerra é valorizada acima de tudo, uma lição aprendida de forma dura pelos conquistadores.

As tribos do Chaco veneravam a guerra tão profundamente que os jesuítas do século 18 tiveram que simplesmente desistir de sua missão porque não havia nada que pudessem fazer para diminuir o amor dos chaquenos pelo combate e por derramamento de sangue. Em 1966, quando Clastres viajou entre os Abipone, os Guaicuru e os Chulupi, a memória das antigas batalhas ainda estava fresca entre eles, e a ideia do guerreiro ainda presente na mente das pessoas. A aceitação dentro de uma sociedade de guerreiros é para eles uma forma de nobreza, e a glória e prestígio acumulado por um grupo de guerreiros é refletida na comunidade como um todo. O papel da sociedade nesse caso é desempenhar cerimônias: danças e rituais que encorajam e celebram as conquistas de seus guerreiros para que eles continuem a buscar prestígio.

O machado de batalha de bronze dos Hyksos e a espada de ferro dos Hititas já foram comparadas a bombas atômicas em miniatura.

Entre esses guerreiros, os mais agressivos são os mais valorizados, e esses são geralmente homens jovens. Os Guaicuru estabeleciam cerimonias rituais para a entrada das sociedades guerreiras que era distinta dos ritos de iniciação pelo qual todos os jovens passavam. Apesar disso, entrar nesse grupo seleto não garantia aceitação na niadagaguadi, a irmandade dos guerreiros. Essa aceitação só ocorria através de feitos em batalhas e expedições de guerra. Em outras palavras, a decisão de se tornar um guerreiro significa perseguir esse objetivo com foco, determinação e principalmente paixão singular. O jesuíta do século 18 Sanchez Labrador escreveu sobre os Guaicuru: “eles são completamente indiferentes a tudo, mas cuidam de seus cavalos e de suas armas com grande dedicação”. Fomentar esse cuidado pela violência é o objetivo principal da pedagogia primitiva, e frequentemente observadores europeus comentaram com horror a violência brutal que é infligida muitas vezes sobre crianças pequenas, que devem entender essa violência como um prelúdio para a vida de guerra na qual elas irão ingressar. Labrador e outros missionários foram frustrados a cada passo pelo fato de que o conceito de amar ao próximo não tinha significado nenhum para os chaquenos, e a cristianização nesse contexto era impossível: “Os jovens Abipone são um obstáculo para o progresso da religião. Em seu desejo ardente por espólios e glória militar, eles estão avidamente cortando as cabeças dos espanhóis e destruindo suas ferramentas e seus campos”. O guerreiro, como foi dito acima, insiste na necessidade de guerra a todos os custos, tendo a paz sido estabelecida ou não.

A experiência dos jesuítas no Chaco foi ecoada pelos franceses no Hemisfério Norte. Champlain, ao tentar consolidar alianças e tratados de paz entre os Algonkin e Iroqueses para facilitar o comércio, foi constantemente derrotado. Ele escreve que seus esforços foram frustrados em uma circunstância particular por “nove ou dez jovens desmiolados que decidiram ir guerrear, o que eles fizeram sem que ninguém conseguisse dissuadi-los, devido à pouca obediência que eles dão aos seus chefes”. Aqui nós vemos novamente que o chefe não tem nenhum poder diante do guerreiro. A guerra não pode ser impedida, independentemente do ímpeto político para impedi-la.

Mesmo ocupados em exterminar um continente, os europeus fizeram esforços constantes para interromper guerras locais. Os franceses, por exemplo, compraram tantos prisioneiros Iroqueses quanto eles conseguiram dos Huron para poupá-los da tortura e para poupar as próprias tribos da retaliação inevitável. Um chefe Huron respondeu da seguinte maneira a uma oferta de compra de prisioneiros:

“Eu sou um homem de guerra e não um mercador, eu vim para lutar e não para barganhar; minha glória não é trazer presentes de volta, e sim prisioneiros, e eu não posso aceitar suas machadinhas nem caldeirões; se você quer tanto nossos prisioneiros, venha pegá-los! Eu ainda tenho coragem de encontrar outros. Se o inimigo tirar a minha vida, será falado no país que desde que Ontonio tomou nossos prisioneiros, nós nos lançamos a morte para buscar outros”.

A incapacidade de dissuadir guerreiros da violência não é de forma alguma exclusiva aos europeus. Essa mesma dinâmica pode ser encontrada dentro dessas próprias comunidades. Clastres reconta a história de um ataque dos Chulupi a um acampamento Boliviano nos anos 30 que foi sabotado por um grupo de jovens guerreiros que decidiram que o inimigo deveria ser massacrado até o último homem. Sentindo que essa sede de sangue poderia atrapalhar a missão, os veteranos e os chefes expulsaram os jovens da excursão. “Nós não precisamos de vocês. Há o suficiente de nós”, respondeu um dos jovens guerreiros. Clastres relatou que não havia mais de doze deles.

Genghis Khan e seus seguidores conseguiram durar por um longo tempo integrando-se parcialmente nos impérios conquistados enquanto ao mesmo tempo mantinham um espaço suave nas estepes ao qual os centros imperiais eram subordinados.

Como nós já estabelecemos, a guerra funciona nas comunidades primitivas como uma forma de preservar a autonomia e prevenir o acúmulo de poder político e o surgimento do estado. O papel do guerreiro é guerrear. E o guerreiro é o homem que tem paixão pela guerra. Mas qual é a fonte dessa paixão? Expressada de forma simples, essa paixão do guerreiro pela guerra deriva de sua fome selvagem e desesperada por prestígio, honra e glória. Isso nos ajuda a entender a dimensão existencial do ato de guerrear. O guerreiro só consegue se realizar plenamente se a sociedade lhe confere significado. O prestígio é o conteúdo desse significado. A comunidade confere prestígio ao guerreiro que realiza certos atos de guerra, que como já vimos, aumenta o prestígio e honra da comunidade como um todo. O cálculo do prestígio é decidido pela sociedade, que pode considerar certos atos de guerra imprudentes e não conferir nenhum prestígio a esses atos. Talvez seja desnecessário mencionar que a linhagem e hereditariedade não conferem nenhum prestígio. Em outras palavras, a nobreza não pode ser herdada; a glória só pode ser conquistada pela mão do homem que a procura; ela não é transferível.

Então, através de quais atos de guerra particulares um guerreiro pode conquistar prestígio? No primeiro caso, Clastres identifica a importância de espólios. Como a guerra primitiva geralmente não é travada para conquistar territórios, espólios são primários. Espólios tem um significado simbólico e material. Por um lado, há espólios como armas e metais, que podem ser usados para fazer mais armas. Do outro lado, dentre os chaquenos, cavalos ocupam uma posição peculiar na hierarquia dos espólios. Devido ao vasto número de cavalos no Chaco, eles não têm nenhum valor de uso ou troca além de constituir grande parte dos espólios de guerra. De fato, Clastres relata que certos indivíduos entre os Abipone e Guaicuru possuíam dúzias ou mesmo centenas de cavalos. Possuir cavalos demais era considerado uma drenagem dos recursos da família ou comunidade. Ao invés disso, o roubo de cavalos contribuía para a acumulação de espólios através da pura guerra ou esporte. Isso é claro, não quer dizer que as tribos não guardavam seus cavalos com atenção, nem que o roubo de cavalos não envolvia derramamento de sangue ou morte.

Prisioneiros são o espólio de guerra mais valoroso entre os chaquenos. Sanchez Labrador escreveu dos Guaicuru, “seu desejo por prisioneiros… é inexpressível e frenético”. A experiência de ser um prisioneiro em comunidades primitivas varia tremendamente de tribo para tribo. Em alguns casos, os prisioneiros fazem todo o trabalho, permitindo aos homens, mulheres e crianças todo o tempo de lazer. Em outras comunidades a distinção entre prisioneiro e não-prisioneiro é vaga; prisioneiros vivem e lutam ao lado de seus captores. O alto valor dos prisioneiros entre as tribos do Chaco pode ao menos parcialmente ser atribuído a baixa taxa de crescimento da população. Labrador notou que muitas famílias tinham apenas uma ou mesmo nenhuma criança. Além disso, em muitas comunidades o número de mulheres superava o de homens em uma proporção de seis para um. Naturalmente, nós podemos assumir a alta taxa de mortalidade entre os homens como uma causa, mas a taxa extrema de mulheres para homens poderia mitigar esse fato através da poligamia. Além do mais, temos que levar em conta as epidemias trazidas pelos conquistadores. A hostilidade extrema dos chaquenos em relação a estrangeiros, porém, diminuiu dramaticamente o impacto de micróbios vindos de fora. Os dois fatores parecem explicar o fenômeno apenas parcialmente. Clastres concluiu que as mulheres do Chaco simplesmente não querem ter filhos.

Esse é o elemento cosmicamente trágico da sociedade-para-a-guerra primitiva, o desejo pela guerra traz com ele a recusa de dar luz a crianças; “mulheres jovens concordavam em ser as mulheres dos guerreiros, mas não as mães de suas crianças”. Essa é a razão pela qual a captura de prisioneiros, especialmente crianças e mulheres estrangeiras, que eram considerados importantes. Crianças podiam ser facilmente integradas a sociedade através da Lei da violência, e mulheres estrangeiras tinham menos chances de manter o desgosto das chaquenas pela procriação. É claro que existem mais dimensões socioeconômicas da guerra primitiva além da acumulação de espólios para prestígio. Os Abipone e Guaicuru abandonaram a agricultura porque ela é incompatível com a guerra permanente. Incursões providenciavam ganhos simbólicos, além de um estimulante necessário para o crescimento da população, como vimos, mas elas também são uma boa forma de adquirir bens de consumo. De qualquer forma, porque investir a força de trabalho necessária para a agricultura quando você está lutando por glória? Essa dinâmica é ilustrada pela linguística Guaicuru, que designa o termo “guerreiro” como “aqueles graças a quem nós comemos”. O guerreiro é então o provedor da comunidade. O Apache, por exemplo, que também abandonou a agricultura, só permitia a guerra se fosse determinado que a ação traria espólios suficientes.

Mas há outras formas para o guerreiro obter prestígio além de espólios. De fato, como Clastres e outros já observaram, um guerreiro que retornava para a vila sem o escalpo de um inimigo morto não ganhava nenhuma glória, independente de quantos cavalos, mulheres ou aço ele trouxesse de volta. A prática de escalpamento, comum na América do Sul e do Norte, indica explicitamente a aceitação de um homem em uma sociedade de guerreiros. Clastres aqui chama atenção para uma distinção notável, porém sutil. Um homem que mata um inimigo, mas se recusa a tirar o seu escalpo não pode ser um guerreiro. Para aquele que foi consagrado para a batalha, matar é insuficiente, ele é compelido a tomar o seu troféu. Aqui nós podemos pensar na distinção feita entre aqueles que são dedicados a guerra e aqueles que simplesmente respondem as necessidades da comunidade quando as circunstâncias demandam.

O escalpo, como um troféu de guerra, é um objeto de grande significado. Para começar, Clastres escreve que “há uma hierarquia de escalpos. Cabelos de cabeças espanholas não eram desdenhados, mas não eram nem um pouco estimadas comparadas com os escalpos de outros índios”. Alguém poderia assumir que um escalpo do espanhol, do conquistador, do genocida, seria altamente valorizado, mas é um testamento para o orgulho e autonomia dos chaquenos que eles não valorizavam os espanhóis o suficiente para considerar matar um deles como uma conquista significativa para um guerreiro. Para os Chulupi, por exemplo, o escalpo de um Toba era o prêmio mais valioso, devido a gerações de animosidade compartilhada entre os dois grupos. Depois da morte de um guerreiro a sua família queima todos escalpos acumulados por ele sobre o seu túmulo; sua alma ascenderá para um paraíso guerreiro sobre o caminho formado pela fumaça. Para os Chulupi, não havia nada melhor do que ascender sobre um caminho feito pela fumaça de escalpos Toba.

Nós falamos que escalpar um inimigo era um requisito para entrar em uma sociedade de guerreiros, mas esse é apenas o começo de sua jornada. O guerreiro, como o escravo de Hegel, está sempre em um estado de devir. Da mesma maneira que ele não herda nada dos atos gloriosos de seus pais, com cada escalpo que ele toma ele deve recomeçar novamente. Não importa quantos escalpos um guerreiro tem pendurados nas paredes de sua cabana. Quando ele para de tomar escalpos, a sua glória chega ao fim. A busca e apetite por prestígio são uma compulsão. Clastres, que corretamente coloca o guerreiro em uma dimensão existencial, escreve que “o guerreiro é, em essência, condenado a seguir adiante. Ele nunca tem escalpos suficientes. Sua sede de sangue nunca é saciada. O guerreiro é então, paradoxalmente, uma figura quintessencialmente moderna. Ele está sempre dessatisfeito e inquieto. Ele é neurótico. Ele é formado e condicionado por forças conflitantes, uma alma que tem sede de glória mas que depende de uma sociedade para reconhecer e presenteá-lo essa glória: “para cada incursão completa, o guerreiro e a sociedade pronunciam o mesmo julgamento: O guerreiro diz [Isso é bom, mas eu posso fazer melhor, eu posso aumentar a minha glória]. A sociedade diz [Isso é bom mas você deveria fazer mais, e obter o nosso reconhecimento de um prestígio superior]”. Esse paradoxo é sentido de maneira mais aguda pelo fato das incursões e da glória que elas conferem serem puramente individuais. O guerreiro não representa uma mentalidade de equipe. É cada homem em busca de sua própria glória.

Da mesma maneira que escalpar um inimigo e se juntar as fileiras daqueles que estão vivendo a guerra não é suficiente para um guerreiro, também é insuficiente para ele participar de várias incursões contínuas e retornar sem escalpos. Esse ciclo só pode trazer prestígio até um ponto, pois o guerreiro só pode se arriscar até um ponto nessas incursões. Para conseguir prestígio, um guerreiro deve também se distinguir de todos os outros guerreiros. Ele deve continuamente ir atrás de novas incursões cada vez mais arriscadas e sangrentas. Cada ato de guerra é um desafio para outros guerreiros: você consegue fazer melhor? Isso pode ser feito de várias formas. Um guerreiro ou grupo de guerreiros pode decidir penetrar cada vez mais profundamente no território do inimigo e dificultar a sua própria fuga. Um guerreiro pode guerrear contra um inimigo particularmente conhecido por sua coragem, agressividade ou proeza. Um guerreiro particularmente corajoso pode guerrear a noite, o que é geralmente considerado imprudente devido a ameaça adicional de espíritos hostis. Finalmente, um guerreiro pode ir para a linha de frente da batalha, deliberadamente colocando o seu corpo na mira das flechas e balas do inimigo. O ato que universalmente confere o maior nível de prestígio é aquele do guerreiro solitário que se separa de seus companheiros para atacar o inimigo em sua posição mais forte, em seu próprio acampamento: “sozinho contra todos”. Essa é a única coisa que resta fazer para um guerreiro de grande prestígio.

Notavelmente, o auge desse vigor guerreiro é compartilhado por tribos pelo Hemisfério Ocidental. Champlain escreve sobre a tentativa de dissuadir um guerreiro Algonkin de atacar sozinho um acampamento de Iroqueses, “ele respondeu que viver seria impossível para ele se ele não matasse seus inimigos”. De forma similar, os jesuítas franceses entre os Huron notaram com horror que às vezes um inimigo, totalmente nu e armado apenas de uma machadinha, tinha a coragem de entrar nas cabanas de uma vila a noite sozinho, e após assassinar aqueles que ele encontra dormindo, fugir enquanto cem ou duzentos homens o perseguem por um ou dois dias inteiros”.

As histórias de coragem contadas para Clastres quando ele estava entre os Chulupi ecoam esse tipo de coragem suicida; um guerreiro famoso, após realizar todos os outros feitos gloriosos, não teve outra escolha além de montar seu cavalo e penetrar cada vez mais profundamente no território inimigo. Sozinho, ele atacou um acampamento inimigo após o outro, sobrevivendo dessa maneira por dias até ser finalmente abatido. O culto a coragem é tanto que os Chulupi até veneram a memória de um guerreiro dos Toba, seus inimigos eternos. Esse homem era conhecido por infiltrar acampamentos Chulupi noite após noite e escalpar vários homens antes de desaparecer sem deixar rastros. Eventualmente, ele foi encontrado por um grupo de guerreiros Chulupi e morto sob tortura sem se acovardar em nenhum momento.

É precisamente esse desdém pelo perigo, dor e morte que corresponde a maior glória. Como Clastres nota, os espanhóis sempre ficavam confusos porque quando eles capturavam um guerreiro Tupi-Guarani, ele nunca tentava escapar. Enfrentar a tortura e a morte com coragem traz glória, ao contrário de escapar. De fato, um prisioneiro que escapou é rejeitado pela sua comunidade quando ele retorna: “ele é um prisioneiro. Seu destino tem que ser realizado”. Esse destino é invariavelmente o de tortura e morte, seguido por canibalismo. O destino do guerreiro é continuar a se colocar em situações cada vez mais perigosas, e eventualmente, independente de seus sucessos passados, ele é fadado a morrer sozinho nas mãos de seus inimigos. Ele é um nômade ambulante, sempre viajando a linha entre a vida e a morte: “O guerreiro é, em seu ser, um ser-para-a-morte”. O instinto para a morte pode não superar o instinto por glória e prestígio, mas nós devemos observar que um se torna o outro. O instinto para a morte pode ser um fator mais influente do que gostaríamos de admitir.

Em um dos últimos ensaios que Clastres escreveu antes de sua morte, ele se lembra de um encontro com dois velhos homens Chulupi. Os dois tinham cerca de 65 anos de idade. Os dois haviam participado de incontáveis batalhas, tinham os corpos cobertos de cicatrizes e haviam matado dúzias de homens. Apesar disso, Clastres se surpreendeu ao descobrir que nenhum dos homens havia tomado escalpos ou entrado na Kaanokle, a sociedade dos guerreiros. Quando Clastres perguntou porque eles não queriam entrar nesse grupo de prestígio, os dois responderam que eles simplesmente não queriam morrer. Isso é profundamente ilustrativo da dinâmica do instinto para a morte que descrevemos anteriormente: “insistir na glória ligada ao título do guerreiro significa aceitar o preço ao mais ou menos longo prazo: a morte”. Ser um guerreiro, como já vimos, significa nunca parar de perseguir a glória e enfrentar perigos cada vez maiores. Para muitos homens, é melhor renunciar a perseguição sem fim de prestígio e simplesmente ser esquecido pela comunidade do que ser aprisionado por uma paixão pela matança. Esse é o pesar do guerreiro: renunciar o prestígio, a fama e a glória ou viver todo dia banhado de sangue, se aproximando cada vez mais da morte.

No fim das contas, a significância de Clastres está em se certificar de que nós entendemos quão fundamental é a violência para as sociedades primitivas. Além do mais, é importante também que nós entendamos que a violência primitiva não é uma mancha em uma existência idílica, mancha essa que deve ser varrida para debaixo do tapete para promover uma visão prescritiva para o futuro. Clastres demonstrou que o que é desejável, substantivo, e eminentemente merecedor de emulação na sociedade primitiva se dá precisamente e é constituído por uma violência constante e sempre presente. Nós devemos nos recusar a ignorar a importância da violência para a criação da comunidade. Nós devemos reconhecer, de fato, que apenas a violência entendida apropriadamente é o único meio para alcançar o tipo de sociedade que desejamos.

É o Momento de Beijar a Terra Novamente

Texto extraído e traduzido de Reflexiones Eco-extremistas N°3.

“Você nunca pode recuperar uma visão antiga uma vez que tenha sido suplantada, mas o que podemos fazer é descobrir uma nova visão em harmonia com as memórias antigas, distante, longe, remota experiência que se encontra dentro de nós.”D.H. Lawrence

“Todas as coisas estão cheias de deuses.”Thales

“Uma existência, uma música, um organismo, uma vida, um Deus: -Estrela de fogo e rochas fortes, o fluxo frio do mar, E a alma escura do homem.”Robinson Jeffers

Durante as últimas três décadas o anarco-primitivismo tem sido a forma dominante da crítica anti-civilização. Neste período a crise da sociedade tecno-industrial intensificou-se a níveis antes inimagináveis. Para aqueles de nós que somos inimigos da civilização temos a certeza do problema, mas a solução não está tão clara. Muitos anarco-primitivistas adotaram as táticas de outros anarquistas; destruição da propriedade, sabotagem, tree-sits*, vandalismo e outras formas de ação direta. A ideia subjacente que motiva estas ações é que com o tempo as pessoas “despertem” e reconheçam o caráter opressivo da civilização. Como tal, o anarco-primitivismo se orienta como um movimento essencialmente político. Neste ensaio vou argumentar que a crítica à civilização deve ser libertada de toda política e reformulada solidamente dentro do contexto da religião e da espiritualidade, que o primitivismo deve se separar do anarquismo.

Embora reconhecendo, sem dúvida, o seu impacto sobre o mundo natural, o anarco-primitivismo tende a enfatizar as formas que a civilização é prejudicial para a humanidade: a alienação, a pobreza, a depressão, os fuzilamentos em massa. As sociedades de caçadores-coletores são apresentadas como um modelo ideal para a felicidade humana e a perfeita igualdade [no anarco-primitivismo], enquanto que todas as formas de injustiça social estão ligadas à civilização. A civilização, em outras palavras, é essencialmente apresentada como um problema social. É conceitualizada como uma forma particular de organização social que produziu uma série de circunstâncias indesejáveis. Neste sentido o anarco-primitivismo não é diferente do socialismo ou qualquer outra filosofia social do iluminismo que apresenta uma visão da sociedade sem sofrimento. Sua crítica da civilização é baseada no que é melhor para a humanidade.

Isso é um problema porque na raiz da consciência civilizada existe a ideia de que os seres humanos são a coisa mais importante do universo. Portanto, se os anarco-primitivistas seguem concentrando sua crítica da civilização sobre seus efeitos nocivos à humanidade e continuam considerando a sociedade caçadora-coletora como um paraíso igualitário eles estarão, em última instância, perpetuando a crença de que o que ocorre na humanidade é mais importante do que qualquer outra coisa.

É verdade que, na ausência da civilização muitos seres humanos seriam mais saudáveis e mais felizes do que são agora? Provavelmente sim. O problema com este ponto de vista não é que a humanidade seja valorizada, mas que ela seja valorizada acima de tudo. Remover o anarquismo ou o elemento da justiça política ou social da crítica à civilização não quer dizer que o sofrimento dos seres humanos são é importante. Este sofrimento é simplesmente colocado em um contexto maior, muito maior. O sofrimento de um ser humano não é mais nem menos importante que o sofrimento de uma mosca. É desnecessário dizer que, como seres humanos, naturalmente experimentamos o sofrimento de nossa família e amigos mais intensamente que o sofrimento de uma mosca. Por fim, isso não quer dizer que seja mais significativo, seja como for.

Se aceitarmos que a vida de uma mosca ou de um pedaço de musgo é tão importante como a vida humana, como suspeito que a maioria dos anarco-primitivistas fazem, também devemos aceitar que deixamos para trás o campo da política. Neste contexto, as preocupações da sociedade humana, as lutas específicas de um grupo particular, são irrelevantes. Amo a terra mais do que amo a humanidade. O núcleo desta posição é uma atitude fundamentalmente religiosa que acredito que os primitivistas deveriam adotar.

O animismo é a crença de que todas as coisas naturais –não feitas pelos seres humanos– tem alma: árvores, samambaias, grama, rios, montanhas, pedras, assim como todas as criaturas. Tudo no mundo é sagrado e nem mais nem menos que qualquer outra coisa. Esta compreensão de santidade não depende de nenhuma ideia em particular de um Deus, é simplesmente o reconhecimento da divindade em todas as coisas. E esta divindade não precisa ser fundamentada ou provada. Como os antigos Daoístas entendiam, qualquer tentativa de dizer “o que quer que seja” deve estar condenada ao fracasso. O dao que pode ser chamado não é dao. Nós, como criaturas da civilização, fomos condicionados a aceitar o nada sem definições precisas e a lógica convincente. Este desejo é o desejo do cientista, do engenheiro, do técnico. Da mesma forma, a alma que pode ser nomeada não é alma. Qualquer definição de alma ou da divindade que existe dentro de todas as coisas deve necessariamente ser irremediavelmente limitada pela consciência e a linguagem humana. Embora talvez possamos dizer, como os antigos gregos, romanos, hindus, judeus, chineses, e outros, que o conceito de alma ou de espírito está relacionado com a respiração. E, se a mente está calma e se escuta com atenção podemos perceber o sopro das rochas, os fluxos, as areias do deserto.

Historicamente, o animismo tem sido ligado a lugares específicos, montanhas, rios específicos. Existem tantos animismos diferentes já que existem diferentes tribos e povos. Como tal, qualquer animismo em particular não pode ser universal. O animismo de uma tribo específica dos povos da América Central não pode ser o mesmo que o de uma comunidade particular de escandinavos ou mongóis. Nesse sentido, no entanto, podemos pensar no koan zen**: o dedo pode apontar a localização da lua, mas o dedo não é a lua. O dedo pouco importa; a lua é realmente a coisa. Em outras palavras, os espíritos animistas particulares de uma comunidade em particular são apenas o dedo. Devemos olhar para a lua: a santidade universal da Terra.

Até agora o anarco-primitivismo insistiu em participar do campo dos argumentos intelectuais. Apesar dos críticos da civilização rechaçarem as estruturas sociais e culturais que dominam as nossas vidas, há uma forte tendência a aceitar tacitamente certos modos de pensamento civilizado, ou seja, o secularismo e o empirismo. Em muitas literaturas anarco-primitivistas produzidas por escritores seminais como John Zerzan e Kevin Tucker, existe uma clara demonstração do compromisso com a verdade através da apresentação da evidência empírica válida e lógica persuasiva. Eles fazem isso apelando para a razão. Os argumentos são construídos e implantados. Os dados recolhidos por especialistas são citados cansativamente. Estas são as ferramentas do professor, ferramentas civilizadas, e a história é o cemitério das ideologias que se acreditavam imunes à influência das ferramentas táticas que utilizaram.

Os anarco-primitivistas tentam “expor seus argumentos” para aqueles que não rejeitam a civilização. As pessoas que abraçam a civilização não o fazem já que não tem “os fatos”. Podia-se até mesmo apresentar milhares de fatos que “demonstrem” a felicidade relativa e a felicidade em uma vida do caçador-coletor que nenhuma pessoa sequer estaria disposta a abandonar seu modo de vida atual, ou mesmo conceder que a crítica à civilização tem mérito.

Em última instância, não importa o que os caçadores-coletores fizeram ou não fizeram. Não importa quais sociedades históricas eram autoritárias ou cultivavam milho. A crítica à civilização não deve se basear nestes argumentos. A crítica à civilização deve ser feita com base em crenças nos espíritos da Terra. A civilização não é ruim porque faz grupos humanos objetificarem-se e sofrerem. O sofrimento é uma parte inescapável da vida e não precisa ser lamentável. A civilização é ruim porque é uma guerra contra os deuses.

Em seu fervor para convencer a outros anarco-primitivistas se tornam cada vez mais dogmáticos. Eles fazem birras contra os “esquerdistas”, discutem coisas sobre o veganismo, debatem sobre os méritos relativos das economias de retenção imediata frente as economias de retorno de atraso, travam intermináveis disputas relativas à moralidade da violência, se deleitam e se desesperam alternativamente na cara das novas tecnologias aberrantes. Como tal, a crítica à civilização é absolutamente solipsista. E não se trata simplesmente dos anarco-primitivistas tentarem teorizar intermináveis coisas, mas também de nenhuma tentativa de aplicar a prática. As poucas ações que são vistas, como já falamos anteriormente, não tem sentido e são apenas simbólicas nos termos mais amplos e vagos. É hora de deixar isso para trás. Não importa o que dizem os filósofos, não importa o que dizem os cientistas. Temos que aceitar que nossas crenças são de natureza religiosa e dependem da fé.

Chegou a hora de reafirmar a espiritualidade baseada na natureza de nosso passado coletivo humano. Se o mundo natural não é sagrado, então por que é importante? A única alternativa é dizer que o mundo natural é importante porque dependemos dele para a nossa própria sobrevivência como espécie. Seria dizer, como já discutimos anteriormente, que a humanidade é realmente o que nos importa e nada mais, que o mundo natural é importante para nós apenas na medida em que serve a nossas necessidades. Qualquer argumento para o valor inerente de todas as coisas naturais pode ser feitos apenas a partir de razões espirituais.

É hora de parar de escrever livros pseudo-científicos, ensaios e artigos, de lutar contra policiais, de organizar protestos, de destruir caixas eletrônicos, e de tacar fogo em objetos. Estas são as táticas daqueles que desejam melhorar a sociedade humana para determinados grupos de seres humanos. Estas não são ações que refletem a crença de que a vida natural é sagrada.

A humanidade não mudará seu destino através da ação. Não através das ações dos governos e das empresas, não através das ações dos movimentos de massa, e certamente não através das ações de um punhado de anarquistas insatisfeitos. O destino da humanidade está selado. O mundo é conhecido há 10.000 anos e não durará. É tolice e fútil tentar prever a natureza de um colapso ou de imaginar que mundo continuará. Isso vai ser bom? Vai ser ruim? Não importa. Se produzirá, e a humanidade se verá obrigada a responder a isso. Talvez a sociedade humana tenha futuro de alguma outra forma. Talvez a humanidade seja completamente extinta.

O caminho sempre esteve claro para os que escolheram ver. Devemos fugir da civilização e das coisas da civilização. Há que ir para a floresta e nunca sair. Devemos reunir nossas almas com as almas das árvores, das rochas, das correntes, da sujeira. Devemos meditar sobre nosso lugar no cosmos. Ao fazê-lo, não mudaremos o destino deste mundo, mas seremos, por fim, fiéis à nossa natureza mais uma vez. O mundo dos caçadores-coletores paleolíticos se foi para sempre. Não podemos voltar ao passado. Mas os deuses que uma vez conhecemos ainda estão esperando por nós nos lugares selvagens do mundo. Se formos a eles, nos abraçarão.

Notas:

*Tree-sits: Parte do ativismo ecológico que consiste em sentar e acorrentar-se às árvores para impedir que sejam cortadas.

**Koan Zen: Um Koan é um problema que o professor passa a seus alunos para comprovar seu progresso.

A Guerra de José Vigoa: Um Breve Discurso Sobre o Método Eco-extremista

Extraído da primeira edição da Revista Atassa.

A coisa mais notável que o eco-extremismo empreendeu durante o ano passado foi a sua maior clareza na organização. Embora o seu modo de atacar sempre tenha sido pequeno, disperso e reservado; e embora tenha sempre renunciado ao discurso revolucionário ou à discussão de um “movimento”, apenas uma ruptura ressonante poderia deixar claro que o ethos do eco-extremismo é diferente daquele dos anarquistas e outros terroristas radicais. Em comparação com o ativista, o eco-extremista busca emular o criminoso. Em vez do Partido, o niilista individualista constrói uma “sociedade secreta” (muitas vezes secreta mesmo entre eles). Em vez de um movimento, aqueles que realizam a defesa extremista da Natureza Selvagem defendem uma máfia. Se o surgimento do eco-extremismo sinaliza a travessia da ponte para sair da Terra do Progresso e do Iluminismo, a nova etapa do manejo da selvageria está incendiando esta ponte e observando-a arder.

Claro, existem razões teóricas para isso. Para realizar ações eco-extremistas, os próprios atores requerem uma maior autonomia e anonimato, assim como os delinquentes. O liberal, o esquerdista, o anarquista, o anarco-primitivista defendem ações que outros podem emular e proclamar como o Crucificado no Evangelho: “Vá e faça o mesmo”. Querem “produzir em massa” um curso de ação e comportamentos desenvolvidos para se adaptar a todas as situações e contingências possíveis. Tudo é em “código aberto” e para que todos vejam. Isso responde a sua necessidade do ethos democrático, sua Fé no Povo, seu Dogma da Bondade Fundamental da Natureza Humana. Mesmo os mais compreensivos leitores híper-civilizados param na literatura eco-extremista e se perguntam: “Mas o que eu devo FAZER? Como posso aplicar isso a MINHA PRÓPRIA VIDA?, etc.,” Se você tiver que se perguntar, então não há resposta no seu caso.

O eco-extremista é um oportunista. Ele é um individualista. Não existe um molde eco-extremista assim como há um molde comunista, anarquista ou primitivista. Cada um é diferente, assim como cada crime é diferente. O ativista moderno busca limitar o caos e a contingência: o eco-extremista conta com eles, e até mesmo prospera neles. As massas de ativistas híper-civilizados, desde os pacifistas até os Black Bloc, buscam se mover como uma coluna de tropas napoleônicas, com disciplina, objetivo comum e com uma força que confronta o Estado em uma situação de “duplo poder”. Estes são tão fortes quanto o seu elo mais fraco. A ação eco-extremista é a guerra de guerrilha no sentido pleno do termo: não apenas na prática, mas também no propósito. O eco-extremista, como o criminoso, luta apenas por si mesmo, em benefício próprio, e com os que mesmo longe lutam de maneira similar; aqueles que buscam igualar seus atos baixo as suas próprias circunstâncias.

É por isso que o eco-extremismo é a “pedra de tropeço e rocha que faz cair, porque tropeçam com a palavra” (1 Pedro 2: 8). Mesmo aqueles que simpatizam, esses líderes de torcida de esquerda que querem ser um pouco mais militantes e pensam que algumas poucas palavras em apoio a ITS aumentam a sua credibilidade com “pós-esquerdistas”, não entendem este primeiro princípio eco-extremista. O eco-extremismo não se trata de algumas poucas palavras militantes que estimulam a conversação, ou uma forma ligeiramente mais violenta de pessimismo passivo que permeia nos círculos intelectuais progressistas, se é que são honestos. O eco-extremismo é uma cumplicidade conspirativa, uma afinidade violenta e uma simpatia que leva à ilegalidade. O eco-extremismo não é outro ídolo ideológico que alguém tem no altar junto com o anarquismo insurrecional, o anarco-primitivismo, o eco-anarquismo, o niilismo passivo, etc. O eco-extremismo é o rompimento dos ídolos, até mesmo o ídolo da “autorrealização” e “autonomia” dentro da podre civilização tecno-industrial. É o zelo santo do fanático frente as blasfêmias contra a Natureza Selvagem, o desejo ganancioso da violência contra a vítima híper-civilizada e a singular paciência necessária para atacar o inimigo no momento oportuno. Qualquer semelhança com as ideologias que o precederam é superficial, na melhor das hipóteses.

Para irmos além, tomaremos algumas lições da vida de um guerrilheiro/criminoso moderno, alguém que teve opiniões semelhantes sobre a legitimidade da atividade criminosa em uma sociedade corrupta. Falamos aqui de José Vigoa, ex-Spetsnaz (NdT1), possível oficial da inteligência cubana, traficante de drogas e ladrão de cassinos que era o terror nas ruas de Las Vegas durante os anos de 1999 e 2000. Durante esse tempo, ele e seu pequeno bando roubaram alguns dos maiores cassinos de Las Vegas, incluindo o MGM e o Bellagio. Vigoa também matou dois seguranças de um carro forte que tentavam dar uma de heróis durante um roubo. Não nos debruçaremos sobre os detalhes biográficos de Vigoa aqui, apenas citaremos passagens do fascinante relato de John Huddy, “Storming Las Vegas: How a Cuban-Born, Soviet-Trained Commando Took Down the Strip to the Tune of Five World-Class Hotels, Three Armored Cars and Millions of Dollars”, e comentaremos sobre isso, conforme for o caso. Com isso, buscamos aprender com as regras do compromisso e esclarecer como o ataque individualista acontecerá a partir de agora no futuro. O futuro, tanto quanto se pode falar dele, pertence ao individualista, ao caos e a amoralidade.

“Não é que José Vigoa pense bem na determinação dos guardas da Brinks, já que estragaram o que poderia ter sido o seu roubo de aposentadoria. “Estúpidos heróis, merda!” , pensa Vigoa enquanto dispara fogo pesado contra os guardas e se retira ao rodeio que o espera. Vigoa se surpreende que os homens mal pagos da Brinks lutem. Se não fosse pela linha de fogo que veio contra ele e o gringo louco que atirou por cima do baú, Vigoa diria na cara deles o quão absurdos são: eu não estou tentando roubar seu dinheiro, ou faltar-lhe com respeito, ou roubar algo de sua família. Quero pegar o dinheiro dos donos gordos do cassino, do porco que tem milhões e milhões e explora seus empregados com salários de merda.” (16)

Intrépido, Vigoa realiza uma reunião pós-missão e anuncia uma nova política: “Da próxima vez nós disparamos primeiro e não faremos perguntas a ninguém. Não perguntarei aos guardas por seus malditos relógios. Todo mundo quer ser um herói neste país”. Vigoa escreve mais tarde em seu diário: “No meu mundo, você é o caçador ou o caçado. Las Vegas faz isso, Vigoa aceita.” (22)

A abertura do livro descreve um robusto roubo de veículos blindados no Desert Inn Hotel de Las Vegas, quando Vigoa e sua equipe abriram fogo cedo demais para que os guardas entregassem o dinheiro, permitindo assim que eles devolvessem os disparos e se defendessem. Isso seria um problema na onda de crimes de Vigoa: que os pobres guardas que tinham tudo a perder e nada a ganhar, com as balas revidadas defendiam o dinheiro de seus chefes de qualquer maneira. Talvez aqui vejamos que os “híper-civilizados”, longe de serem inocentes ou explorados, sustentam um sistema injusto por algum senso de orgulho ou hábito. A civilização não suprime os instintos animais, mas aproveita-se deles para os seus próprios fins, e neste caso, para defender o conceito de propriedade privada e o “trabalho bem feito” do trabalhador honesto. Poderia haver mais provas de que os híper-civilizados nunca se voltam contra o sistema tecno-industrial? (16)

“Os roubos e as táticas de pequenas unidades utilizadas pelo grupo lembraram a polícia de seu próprio treinamento. Os veteranos da Marinha e do Exército reconhecem as táticas de guerra de guerrilhas das Forças Especiais. O agente especial Brett. W Shields do FBI percebe que o bando usava as doutrinas clássicas dos comandos: (1) inserção clandestina, (2) combate breve e violento, (3) fuga rápida e (4) retirada rápida e enganosa. A polícia percebe que eles estão contra um criminoso organizado e tão colorido e letal quanto qualquer valentão da velha escola, mas que possui uma inteligência excepcional no campo de batalha, poder de fogo moderno e sofisticadas táticas de pequenas unidades.” (25)

Esta “militarização” da atividade criminosa é um tema comum em nossos dias, como veremos mais adiante.

“O que Vigoa chamava do Demônio Feroz estava sacudindo-o agora; logo estaria acordado. Vigoa poderia sentir a sua força bruta e o calor acumulando forçar por todo o seu corpo. Uma vez que ele havia temido o sentimento, pensou que era o que o havia atraído para a vida do crime e brutalidade, mas Vigoa sabia melhor agora. O Demônio Feroz era seu escudo e salvação, a força primitiva que o matinha vivo. Estava acordado e cada vez mais forte, e logo estaria livre para fazer o seu trabalho.” (104)

Esta passagem refere-se a um episódio no início da carreira de Vigoa, mas como muitos individualistas e selvagens de antigamente, Vigoa também tinha um espírito de orientação no combate. Para ser mais do que se pode fazer como um mero animal mortal, e para atacar, muitas vezes é preciso a inspiração de um espírito, de um demônio, como na crença grega antiga. Não é de surpreender que Vigoa acreditasse nisso, e pela qual o anarquista ou esquerdista zombaram disso, já que o poder destes vêm do povo segundo as suas crenças humanistas. Aqueles que aspiram a ações inumanas devem ter ajuda inumana.

Muitos traficantes também eram viciados e usavam seus lucros para sustentar os seus hábitos, mas Vigoa não. Sua abstinência não era moral, mas de vida e morte. “Você tem que manter o cérebro limpo”, advertiu a um de seus aliados. “Tem que estar em alerta em todos os momentos, mesmo quando esteja dormindo, fazendo amor ou com a sua família. Você tem que enxergar mais longe que os outros homens e em todos os cantos. Tem que ver nos corações dos homens. Você tem que ler os olhos do seu inimigo e saber que estão prestes a atacar, ou um dia eles tentarão te matar.” (106)

Vigoa ensina a sobriedade e vigilância pela mesma razão que os eco-extremistas: não por razões morais, mas por um propósito individualista. O objetivo do eco-extremista é o ataque, e os inimigos estão em todas as partes. A sobriedade e a vigilância são sempre necessárias. Alguns dirão que isso equivale ao ascetismo: que tal vida é um abraço desnecessário nas dificuldades para algum tipo de desfecho moral inverso. Nada poderia estar mais longe da verdade. O homem híper-civilizado espera ser defendido por sua tecnologia, seus edifícios e sua moralidade. Mesmo o mais amoral dos egoístas híper-civilizados baseia-se na civilização e suas pompas por sua “amoralidade”. A condição real do homem sem civilização é da constante vigilância: na selva, no bosque, na planície, e nos mares. Estamos tão separados de nossos sentidos e de uma vida de compromisso com as coisas selvagens, que acreditamos que uma vida de vigilância e sobriedade é uma vida de privação. A alternativa, no entanto, é a vida do animal do zoológico: não estamos sob nenhuma ameaça física porque vivemos em jaulas. Pelo menos, o eco-extremista resiste à vida na jaula, embora seja apenas para atacar e voltar a lutar outro dia. A alternativa é tentar encontrar a liberdade dentro da jaula, o que é um absurdo.

“De certa forma, o desaparecimento de Pedro foi algo bom”, diz Vigoa mais tarde. “Nos colocaram a prova. Depois que Pedro foi expulso do estacionamento, não nos desmoronamos nem nos deixamos entrar em pânico. É assim que é no combate real. Sempre há surpresas. Nada nunca acontece da maneira que se supõe que irá acontecer, e o plano é apenas o primeiro passo. Sempre haverá um refluxo e fluxo na luta. É como você reage às surpresas que importam. Nós fizemos bem.” (146-147)

O contexto para esta reflexão é o roubo do MGM que o bando de Vigoa realizou, e a lição aqui é óbvia. Sigamos adiante.

“Embora não seja o assalto mais lucrativo, o roubo ao Mandalay Bay será o modelo seguido pela quadrilha nos assaltos, sem resistência, e exatamente segundo o plano. O roubo atual dos dois guardas do Brinks leva menos de um minuto, e a fuga ainda menos tempo. Para quando a polícia chegar, os atiradores já tem desaparecido faz tempo. Ninguém sabe exatamente em que direção fugiram os suspeitos, as descrições do veículo de fuga variam, algumas testemunhas descrevem os bandidos como homens negros e não há evidências balísticas nem impressões digitais.” (186)

Este é um bom resumo das táticas do bando de Vigoa, que focou na velocidade e na precisão na hora de realizar os seus roubos e fugas.

“Como um tubarão, Vigoa pensou que foi encorajado por um impulso primordial, até mesmo o vício fora de seu controle. Talvez seus roubos não fossem sobre o bem ou o mal, o dinheiro, a vingança pelas injustiças passadas, ou mesmo pela família. Eles eram sobre o poder, a violência, o perigo e a emoção da caça. Os tubarões fizeram o que fizeram sem arrependimento, e o mesmo fez Vigoa. A polícia não poderia compreender isso, pensou Vigoa. Não tem ideia de quem ou com quem estão lidando.” (158)

É estranho que todos os “anarquistas verdes”, apesar de seus esforços pela “reselvagização” e por seus estudos antropológicos dos povos primitivos, não possam entender o que um criminoso comum aprendeu tão bem. Ou seja, a violência não era um meio para um fim na vida “primitiva”, mas muitas vezes um fim em si mesmo: um modo de vida. A emoção da caça e do ataque não é absorvida pelo hippie reselvageado em nossos dias, mas pelo criminoso e o vândalo, com todas as suas contradições e egoísmos.

“No geral, talvez o bando de Vigoa nunca poderia trabalhar com a precisão dos comandos Spetsnaz, mas era possível ensiná-lo a obedecer ordens simples e executar os planos bem desenhados de Vigoa. Mais tarde ele escreveu: “Uma de minhas habilidades especiais, na guerra e no crime, era treinar meus homens duramente simulando a missão uma vez e outra, às vezes vinte ou trinta vezes. Não havia lugar para o erro. A polícia e o exército os descobrem o tempo todo, mesmo quando você treina bem haverá erros. No meu negócio, posso cometer cinco roubos bem sucedidos, mas se cometo um pequeno erro ou permito que meus homens sejam descuidados e indisciplinados, todos morreremos ou seremos presos e cumpriremos largas penas.” (161)

Aqui começa uma parte crucial no livro, onde Vigoa começa a descrever sua metodologia com mais detalhes. Aqui vemos que Vigoa, porque é um homem de ação, não tem nenhum problema em exercer a autoridade. Embora os eco-extremistas tendam a ser individualistas, eles não tem problema algum com a autoridade, já que é concebível que uma situação assim possa surgir onde um pequeno grupo se forma para realizar uma ação particular. Ao contrário do anarquista ou do esquerdista, a organização não é uma função da ideologia, mas da eficácia em uma situação apropriada onde a velocidade e a precisão são fundamentais. Portanto, o eco-extremismo não possui problemas com a autoridade.

E agora a equipe poderia recitar as Regras de Vigoa quase palavra por palavra:

– “Não falar durante um trabalho, exceto na hora de “gelar” a vítima (ordenando-a que jogue a sua arma). Silêncio absoluto entre os membros da unidade.

– Plano A: Desarmar os guardas. Plano B: Matá-los sem hesitar se resistirem.

– Vigoa, e apenas Vigoa dá as ordens de quando se retirar para o carro na fuga.

– O segundo veículo de fuga (tecnicamente conhecido como o primeiro carro de fuga) estará dentro da distância próxima do trabalho porque o condutor dentro do veículo foi ensinado a utilizá-lo como aríete (NdT2), e poderia danificar o primeiro carro na cena do crime.

– São necessários no mínimo três carros por trabalho. Estes veículos, além do primeiro carro de fuga – aquele cuja a placa todas as testemunhas anotam imediatamente, fazem um total de quatro carros por trabalho.

– A velocidade é essencial – um minuto e fora. (Quando Suárez começa a protestar que levará tanto tempo apenas para recolher o saque, Vigoa o interrompe: “Isto não é o cinema, menino, as pessoas tem telefones celulares, ligam ao 911, e os estúpidos [a polícia] sairão para fora de suas lojas de rosquinhas para uma pequena ação”.)

– Não se pode deixar nos estacionamentos dos cassinos os carros que serão utilizados, porque a segurança tem estado anotando os números das placas. Utilize estacionamentos de apartamentos.

– O caos é fundamental. (Vigoa diz a seu bando: “Quem sabe o que é modus operandi?”. Silêncio. “Bem, porque não temos um. Há que ser imprevisíveis. Isso é a guerra. Seja previsível e morra”).

– Não deixe nada para trás.

– Máscaras de esqui e roupa escura. Sempre use luvas. Utilize as máscaras até chegar ao terceiro carro de fuga.” (165 – 166)

Nestas regras, vemos novamente a ênfase na autoridade, velocidade e precisão. Mas também vemos um aceno ao caos. Os eco-extremistas buscam ser o caos, a Natureza Selvagem em uma sociedade domesticada e artificial. Eles tampouco tem modus operandi. Eles não querem nada da sociedade, exceto atacá-la, então seus métodos não são tão diferentes de seus fins: atacam pelo bem do ataque. Isso permite que eles sejam imprevisíveis como Vigoa procurou ser.

“Não quero matar ninguém em meus roubos. Não queria matar os guardas do shopping. Mas depois do Desert Inn, percebi que todo americano quer ser um cowboy. Chamo isso de herói de merda. Você tem que ser John Wayne, Mel Gibson e Bruce Willis, e se faz coisas estúpidas, me obriga a fazer o que faço, o que não é totalmente estúpido, porque para sobreviver eu vou explodir o seu maldito cérebro. Vou mandar você no trem para o inferno por um capricho. Meu capricho.” (223)

Esta passagem descreve o que aconteceu quando Vigoa e seu bando tentaram roubar um carro blindado e tiveram que matar os dois seguranças porque decidiram lutar. Mais uma vez, os híper-civilizados defendem a civilização mesmo quando ela não é de seus interesses materiais. Chame-os como quiser, mas eles não são amigos do individualista ou da Natureza Selvagem para o assunto.

“Eu não estava drogado ou bêbado, mas tinha certeza. Muito confiante. Era o clima da festa. Me senti bem e suave, quase em transe. Me senti invencível e foi então que baixei a minha guarda. Assim como os hotéis fizeram quando os ricos, advogados e contadores deram conta dos gangsters italianos difíceis”. (248 – 249)

Vigoa descreve aqui como estar com a guarda baixa o levou a sua queda. Durante seu roubo do Bellagio, Vigoa usava o chapéu errado e foi identificado pelas câmeras de segurança, mostrando seu rosto em todas os noticiários. Isso é também uma advertência contra a vida dupla: Vigoa era um homem de família e deixou que uma festa familiar o relaxasse demais e o fizesse perder o foco. Em última análise, por isso foi capturado: uma parte de sua vida dupla contaminou a outra.

“Em 3 de Junho de 2002, eu estava pronto para sair, pronto para fugir da prisão de Clark County pela noite. Seria um presente bom e definitivo meu para todos os agentes da lei, sem mencionar a publicidade para o DA (NdT3) e algo para manter as pessoas ocupadas com as notícias. Mas algo inesperado e não planejado aconteceu. Um amigo meu foi preso com vinho feito na prisão. A polícia me perguntou se poderiam entrar em minha cela por um segundo porque alguém foi preso com vinho, e a polícia queria saber se eu tinha alguma coisa. Eles olharam em volta e não encontraram nada. Estava trabalhando aquele dia na janela, fazendo o meu último trabalho, mas não tinha as placas de metal coladas ou muito bem disfarçadas, porque a busca nas celas foi tão repentina, e eu estava tão perto de fazer a checagem – e a nova correção oficial inexperiente descobriu meu trabalho por acidente. Foi um tiro de sorte.” (335)

Depois que Vigoa foi capturado, um integrante de sua equipe estava preparado para testemunhar contra ele em troca de clemência. Esta pessoa, no entanto, terminou pendurada em sua cela em circunstâncias misteriosas. Apesar de estar em isolamento a maior parte do dia, Vigoa estava tentando sair pelas grandes de sua janela e escapar. Isso demonstra o espírito indomável de Vigoa: mesmo quando estava prestes a ser condenado a prisão perpétua, ele ainda encontrou a possibilidade de tentar escapar.

O tom de nossa primeira e das subsequentes entrevistas é prático e até cordial. Mas quando Vigoa compara o tiroteio de Ross e as trágicas mortes na guerra, eu o interrompo. “Roubar as pessoas à mão armada não é guerra”, lhe digo. “Roubar as pessoas sob a mira de uma arma para se enriquecer e depois atirar nelas quando resistem é assassinato.”

O rosto de Vigoa escurece. Ele me olha duramente, e nos olhamos nos olhos. Há uma longa pausa e depois suspira. “Tem razão, não é guerra.”, diz Vigoa. “-Bem, talvez um pouco como a guerra. Na guerra não matamos apenas soldados, mas também pessoas inocentes. Mas às vezes um homem não tem outra opção.” Vigoa ainda está atônito porque os guardas do Desert Inn e do Ross arriscaram suas vidas pelo dinheiro de outra pessoa.” (354 – 355)

Quando é questionado pelo autor do livro, Vigoa resiste à moral híper-civilizada, e se nega a excluir o “inocente” em seus ataques indiscriminados. Mais uma vez, é muito revelador que ele entenda o que tantos “eruditos” não conseguem: que os inocentes não são tão inocentes assim, e que as pessoas “fazendo o seu trabalho” são justamente os que sustentam a civilização.

“José Vigoa é um exemplo do criminoso mais temido no futuro”, disse o xerife Bill Young. “Nas forças de segurança os EUA sabemos exatamente como lidar como o bandido de rua, mas estamos muito atrasados com os estrangeiros nascidos e treinados, que são inteligentes e não cometem delitos porque são viciados ou precisam de dinheiro para drogas. Estamos vendo cada vez mais esses caras em Las Vegas, particularmente no Oriente Médio, nos Estados Bálticos e na América do Sul. Seus valores são muito diferentes dos nossos, e o lado implacável que eles mostram deixa muitos policiais americanos atordoados. Muitos desses caras tem formação militar e são sofisticados e bem instruídos. Será necessário um esforço conjunto de nossa parte para lidar eficazmente com os José Vigoas do mundo”.

“A história de José Maual Vigoa Pérez acaba por ser a história do nosso tempo.” (364)

Assim termina o livro de John Huddy sobre um grande ladrão individualista que passará o resto de sua vida em uma prisão nos Estados Unidos. A partir desta passagem, fica claro que José Vigoa foi um pioneiro: um presságio das coisas por virem. Acredito que o eco-extremismo compartilha muitas das mesmas características que o xerife descreve aqui: pessoas que são treinadas (mesmo as que se autotreinam), indiscriminadamente violentas, bem instruídas e comprometidas com o empreendimento criminoso. À medida que a estrutura da sociedade continua a se desintegrar (no sentido institucional), e implacáveis em seus métodos. Isso, portanto, não é uma previsão, mas a leitura do inevitável. “As coisas desmoronam, o centro não aguenta…”

O eco-extremista é aquele que se entregou ao caos que ameaça a civilização tecno-industrial. Aprendem com José Vigoa, as tribos primitivas, companheiros terroristas, e qualquer um que possa fornecer exemplos sobre como conduzir uma guerra pessoal em defesa extrema da Natureza Selvagem, embora essa defesa seja apenas olho por olho, dente por dente.

Fonte:

Huddy, John. Storming Las Vegas: How a Cuban-Born, Soviet-Trained Commando Took Down the Strip to the Tune of Five World-Class Hotels, Three Armored Cars, and Millions of Dollars. New York: Ballantine Books, 2008

(NdT) Notas do tradutor:

*Forças especiais russas. Vigoa como soldado cubano foi treinado na antiga URSS, sob a doutrinação das forças de elite.

**Utilizar um carro como “aríete” é tomá-lo como uma arma para quebrar portas e penetrar obstáculos na fuga.

***District Attorney, o procurador.

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JOSÉ VIGOA: DADOS BIOGRÁFICOS

José Vigoa foi o maior assaltante de Las Vegas. Nasceu em 24 de Dezembro de 1959, em Caimito del Guayabla, Cuba. Ele cresceu sob o regime socialista implementado por Castro.

Aos 13 anos foi enviado para a URSS e lá ficou por 6 anos para receber treinamento militar.

Após terminar o treinamento de Spetsnaz, encabeçou um grupo armado de cubanos no Afeganistão que combateram contra os Talibãs enfrentando a União Soviética e seus aliados naqueles anos.

Após os confrontos Vigoa retorna a Cuba, mas logo depois decide sair do país e em 1980 chega a cidade americana de Las Vegas.

Sem oportunidades de emprego e se vendo numa plena crise de imigração que sacudia os Estados Unidos, se torna traficante, mas em 1989 é preso em uma operação especial da DEA, e é acusado de tráfico de cocaína.

Vai para a prisão cumprindo uma sentença de 7 anos e, em dezembro de 1996 sai baixo liberdade condicional.

Vigoa, fora da cadeia, sedento de vingança, começa a preparar um plano criminoso elaborado que o colocaria na história. Treina seus amigos no hostil deserto de Nevada (Oscar Cisneros, Luis Suarez e Pedro Duran), começa a juntar armas curtas e vigiar cassinos de luxo, hotéis caros e carros blindados que transportavam dinheiro destes mesmos negócios. Assim, a espetacular carreira criminosa de Vigoa dá seus primeiros passos:

– 20 de Setembro de 1998, Vigoa e seus homens assaltam o cassino MGM Grand, vão para a saída previamente vistoriada onde emboscam dois guardas armados que levam sacos cheios de dinheiro do mesmo cassino. Roubam suas armas e levam 1 milhão e meio de dólares em dinheiro vivo, além de cheques.

O trabalho é limpo, sem disparar nenhum tiro. Os ladrões fogem sem deixar pistas. A polícia ainda não sabe o que estão enfrentando…

– Outubro de 1998: O bando de Vigoa se faz passar por empregados e rouba 11 veículos de uma loja de aluguel de carros. Estes ao serem muito difíceis de rastrear seriam utilizados para escapar nos assaltos que tinham pensado mais adiante. Este é o maior roubo de carros de Las Vegas.

– 28 de Junho de 1999: Em uma tarde ensolarada, o grupo liderado por Vigoa embosca um par de guardas de um blindado que saía do cassino Desert Inn. Os guardas resistem ao assalto e começa um tiroteio onde os guardas são feridos. Nesta ocasião Vigoa e companhia partem sem um único dólar, e embora a fuga deles seja implacável, essa seria uma lição que os marcaria.

– Agosto de 1999: O famoso e luxuoso casino Mandalay Bay é roubado por um grupo de homens armados, desta vez o montante seria de 100 mil dólares em dinheiro, os responsáveis seria o bando de Vigoa que foge sem deixar pistas para a polícia.

– 03 de Março de 2000: Homens encapuzados emboscam um veículo blindado que saía de uma loja de roupas em Henderson, os guardas resistem ao assalto e Vigoa com um Fuzil AK-47 os assassina a sangue frio. A polícia procura desesperadamente os assaltantes e os assassinos, mas não há nenhuma pista.

– 22 de Abril de 2000: Pistoleiros roubam dois seguranças do luxuoso hotel New York New York. Levam milhares de dólares e, como em todos os casos, não deixam nenhuma pista conclusiva para as investigações da desmoralizada polícia de Las Vegas.

– Junho de 2000: Em uma operação que dura aproximadamente 1 minuto, três homens se dirigem aos caixas principais do famoso cassino Bellagio e com pistola em mãos levam todo o dinheiro que encontram. Vigoa dirige o assalto desde o bar e dá a ordem para abandonar o lugar. O centro de operações em segurança do cassino capta todo o assalto em suas câmeras de segurança, e alertam os guardas que logo seguem o carro onde fugia o bando de Vigoa. Este, percebendo a presença dos guardas, com um só disparo no pneu deles, os detém e consegue escapar.

O roubo do Bellagio foi de 200 mil dólares em dinheiro.

É aqui onde começa a queda do bando de assaltantes mais famoso de Las Vegas.

Após o espetacular assalto ao Bellagio, os mesmos proprietários do cassino forneceram as imagens das câmeras de segurança à polícia, que cederam a todos os noticiários. Assim, difundiram as imagens dos rostos dos ladrões em todos os veículos da época; o oficial da liberdade condicional de Vigoa o reconhece e dá informações à polícia que rapidamente começa a caçada.

– 07 de Junho de 2000: Vigoa é localizado saindo de um shopping center com sua família, e é seguido pela polícia. Ao perceber a presença da polícia, Vigoa acelera seu carro e começa uma feroz perseguição, a equipe da SWAT fecha a estrada fazendo com que Vigoa saia do veículo deixando sua família dentro dele, e fugindo a pé tentando despistar seus verdugos. Ao se ver encurralado Vigoa luta fisicamente com os policiais que tentam prendê-lo, os enfrenta, mas o número o supera. São necessários 4 agentes para imobilizá-lo e ele é preso.

Já na prisão, os juízes pensam em decretar a pena de morte a Vigoa devido os assassinatos dos guardas do Henderson, e após prender seu amigo Oscar Cisneros, obrigam-no a depor contra Vigoa, mas este amanhece enforcado e o caso se afunda, a única testemunha que iria depor contra Vigoa está morta, não se sabe se Cisneros decidiu cometer suicídio em vez de enviar a morte o chefe criminoso de seu próprio bando, ou se alguém o matou fazendo com que o fato parecesse um suicídio.

– 03 de Junho de 2002: Vigoa tenta escapar da prisão, mas é descoberto pelos guardas.

– 16 de Agosto de 2002: Vigoa é julgado e este se declara culpado de 43 acusações de crimes não graves e 3 acusações de crimes graves. O condenam a sentença perpétua, onde ele passa seus dias pensando em como escapar, se a vida o permite…