Moralidade

Tradução do texto “Moralidade”, extraído de Antisocial Evolution.

A moral é a teoria de que todo ato humano deve ser bom ou ruim. O propósito de todos os sistemas morais é fixar o comportamento humano mediante a imposição de normas absolutas desenhadas de tal maneira que permaneçam além do exame e da crítica. Todos os sistemas morais são apresentados como a norma superior, a lei absoluta, a ordem peremptória que impõe a todos, em todos os momentos, o que devem fazer e o que não devem, sendo aplicável a todos os seres humanos sem exceção.

Para entender plenamente como funciona a moralidade como mecanismo de controle é útil examinar as funções pedagógicas subjacentes aos códigos morais e as justificativas utilizadas para exigir a obediência universal. Até recentemente, uma das mais comuns dessas justificativas era um dito Deus e, de fato, isso não acabou por completo. Este deus diz a nós o que é certo e o que é errado, ou o “assim diz a crença”. Este conceito metafísico do sonho emite regras para que nós obedeçamos, e se nos recusarmos a fazê-lo, esse deus nos castigará horrivelmente. No entanto, ao ameaçar a outras pessoas dessa maneira, o moralista mudou uma postura por outra postura moral, rumo à outra postura de conveniência pessoal, para evitar os resultados dolorosos de não se submeter a alguém ou a algo mais poderoso que nós mesmos. Claro, existem aqueles que não acreditam em um deus e que, no entanto, são crentes na moralidade. Estes moralistas humanistas buscam uma sanção para seus códigos morais em alguma outra ideia fixa: o Bem Comum, uma concepção teleológica da evolução humana, das necessidades da humanidade ou da sociedade, direitos naturais, e assim por diante. Uma análise crítica deste tipo de justificativa moral demonstra que não há mais nada atrás do que está atrás da “vontade de Deus”. Conceitos como o “bem comum” ou “bem-estar social” são meras peças retóricas de grande ressonância utilizadas para disfarçar os interesses particulares daqueles que as utilizam. É precisamente este disfarce de interesses particulares como leis morais que se escondem por trás da máscara ideológica da moralidade. Os sistemas morais funcionam como um ocultamento do propósito real e do motivo e quase sempre são uma “vontade de poder” disfarçada. Mergulhe os planos luminosos dos Salvadores Morais da Humanidade no ácido da análise brutal e veja o padrão escondido no rolo: o desejo de forçar uma certa linha de ação sobre todos, o desejo de governar e reprimir. Somente quando, em certos momentos e lugares, por meio da força física ou astúcia superior, alguns conseguem impor a sua interpretação moral particular aos outros de uma única moral que triunfa, entendida e seguida por todos da mesma maneira -como na Idade Média, quando a Igreja Católica dissolveu toda a variedade na unidade, ou como vemos hoje em certas partes do mundo islâmico.

Um dos usos mais populares do mito moral é adicionar um enfeite ao já desagradável prato da política. Ao converter até as mais insignificantes das atividades políticas em uma cruzada moral, se pode assegurar o apoio dos crédulos, os vingativos e os ciumentos, além de dar uma pseudo-força aos fracos e vacilantes. Enquanto se espera que aqueles que desejam governar os outros invoquem repreensões morais em uma tentativa de converter (ou purgar) o iconoclasta desviador ou crítico, é profundamente desanimador observar os autoproclamados anarquistas atuando na mesma farsa, na forma dos códigos do discurso politicamente correto, as restrições dietéticas, as escolhas dos consumidores, a ética social dogmática e as moralidades escravagistas como o pacifismo. É difícil imaginar algo mais desfiado, mais irremediavelmente plausível para fundar uma rebelião antiautoritária que a moral, mas os anarquistas o fazem o tempo todo, em detrimento de sua própria luta e credibilidade.

O egoísmo consciente do egoísmo –não é nem moral nem imoral– está além do “bem” e do “mal”. É amoral. Um egoísta pode ser verdadeiro ou mentiroso, considerado ou desconsiderado, generoso ou cruel, de acordo com a sua natureza, gostos ou circunstâncias, e a seu próprio risco, mas não é obrigado a ser nada disso. É possível que uma pessoa se comporte de modo que a moral tache de “bom” ou de “mal”, mas fazem isso apenas porque seus interesses julgam e mentem em uma direção ou outra, não porque esta pessoa está possuída pelo aspecto do moralismo ou do imoralismo.

Enquanto o moralista tende a ver os conflitos entre indivíduos (e grupos e instituições) em termos de “certo” e “errado”, o egoísta nunca considera um adversário correto ou incorreto em nenhum sentido moral. Cada um está simplesmente perseguindo o cumprimento de sua própria agenda, e se o conflito não pode ser resolvido de outra maneira, deve ser resolvido pela força. Bem, não se enganem, ao repudir a ideia de moralidade os egoístas não fazem exceção à “violência”. Tampouco fazem qualquer distinção piedosa entre o nível da força ou a força de retaliação. Qualquer uma das formas é usada se for uma maneira conveniente de perseguir um dado fim, e para o egoísta não há lei moral que proíba a violência à qual eles devam subordinar sua vontade à soberania pessoal.

Para o egoísta consciente a inexistência da moralidade é tão verdadeira como dois e dois são quatro e, neste sentido, o egoísmo supera os limites das mais ousadas especulações do anarquismo sobre a soberania individual, atuando como um poderoso solvente para uma imaginação obstruída por teorias de “certo ou errado”. Só depois de escrutinar todo o horizonte da amoralidade -o nada que resta na ausência do bem e do mal ou de qualquer outra autoridade metafísica- o indivíduo se encontra cara a cara com a liberdade emocionante e terrível em que nada é verdadeiro e tudo é permitido.

 

Pensamentos Sobre a Moralidade

Tradução do texto “Thoughts on morality”, de Abe Cabrera.

Ao investigar sobre a “Creek War” (Guerra dos Creek) algo curioso que encontrei foi a atitude dos índios em relação aos escravos negros. Para os Creek e os Seminoles, um escravo não era livre em virtude de que a escravidão era uma instituição imoral e, portanto, ilegítima. Um escravo deixava de ser escravo quando decidia não mais sê-lo e fugia. Uma das questões que os brancos tinham com estes índios era sobre como abrigavam os escravos fugitivos, e este foi um grande ponto de disputa na segunda guerra Seminol. Mas isso não foi por causa da atitude “iluminada” dos índios. Eles não estavam acima de tomar os escravos negros por conta própria, ou de mantê-los subjugados. O ponto era que a “liberdade” e a “dignidade” concedida a todos os seres humanos pelo Iluminismo não era um fato para a mente incivilizada. Tinha que ser “ganhada” ou “tomada” daqueles que a levaram embora.

Eu deixei para trás a ideia dos sentimentos nobres, aqueles sentimentos passageiros que apenas desejam coisas boas para me fazerem uma boa pessoa. Tenho visto muitos casos em que as pessoas acreditavam na piedade apenas para cometer atrocidades, ou cometiam atrocidades em nome da piedade. É melhor simplesmente se deixar esvaziar destes sentimentos: o que tiver de acontecer, acontecerá. A morte chega em breve, a fadiga traz o esquecimento, uma dormência de sofrimento prolongado.

A única vitória é trazida por seguir permanecendo aqui e de pé. As pessoas querem que a sua vida e a dignidade sejam reconhecidas meramente por existir. Não funciona assim. Este é o sonho esquerdista, mas nunca alcança nada, que todos temos um significado simplesmente porque somos/estamos: estamos unidos ao nobre selvagem e ao futuro transhumanista explorador das estrelas por causa de alguma continuidade… Continuidade! Que mentira fabulosa! Todos os selvagens são assassinados, e por dançar em suas tumbas… quer dizer, “honrá-los”, obtemos a sabedoria e o poder que eles ainda deveriam ter, mas que não tem. Acreditamos que somos todos iguais, mas não somos. De fato, é esse pensamento de que somos todos iguais, que somos a “humanidade” que nos leva a derrubar a floresta, contaminar os rios, levar a terra ao esgotamento, e pavimentar o resto. Porque somos a humanidade, porque este é o nosso “bem”. A humanidade é a inimiga da natureza porque é inimiga do lugar, do físico, do selvagem. Existem os seres humanos (animais humanos) e depois há a Gloriosa Humanidade. Se alguém olha a humanidade de frente e a declara a própria oposição, ou é um tolo ou um covarde.

A separação do ser humano/animal e a Humanidade não é tão simples. De fato, é praticamente impossível. É como pedir aos animais que fiquem longe do bebedouro durante o verão quente. Postular as ações indiscriminadas e seletivas é postular a superioridade do inumano sobre o humano, que os seres humanos não são um sistema fechado, eles “se abrem” a algo maior que eles mesmos (embora eles não entendam nem o obtenham). Para destruir estas coisas maiores (Natureza Selvagem), eles falham em sua vocação, ou seja, estão aberto ao universo, sendo apenas outra força dentro dele e agindo como tal.

Postular a “amoralidade” é buscar a destruição de todos os obstáculos pelo caminho. É postular o individual sobre a sociedade, o caos sobre a ordem. É postular que os pecados de omissão (não fazer nada) não são menos graves que os pecados cometidos (fazer algo). Que a paz civilizada está construída sobre um monte de ossos branqueados de selvagens extintos. Que você não pode vencer o universo com um bom comportamento. Que você se recusa a negociar a regra de ouro porque apenas a escravidão e o vício provém disso (e não do tipo recomendado). A “Amoralidade” reconhece que todos temos a “nossas mãos manchadas de sangue”, porque todos estamos banhados neste sangue. Nossa sociedade foi irrigada com ele. Então isso destrói o amor por completo? Não necessariamente, mas certamente se opõe à sua codificação: sua consagração dentro do reino dos direitos e da “dignidade inerente” da pessoa ipso facto. Posso esperar por piedade daqueles que amo, e desejar a destruição daqueles que não: o desejar não me faz nobre nem me deixa de fazê-lo. Não sou Deus: minha Palavra não está no começo e nada foi criado por ela, mas é perfeitamente razoável que eu odeie a um sistema que transforma meus desejos ou qualquer outro em um código universal de moralidade: hipocrisia? Isso Importa?

Reflexões a Respeito da Liberdade

Maravilhosa reflexão de Zúpay sobre o termo “liberação” e todas as suas implicações reformistas e idealistas.

Neste texto, proponho apresentar, da maneira mais clara possível, minha visão sobre a liberdade, como conceito, a partir de uma perspectiva eco-extremista. As razões que me fazem realizar este ensaio são bastante variadas, entre elas pode se considerar de maior importância o fato de que tenho observado como este conceito tão ambíguo é metido nos discursos de uma quantidade muito alta de indivíduos e grupos, os quais fazem apologia do mesmo, sem nunca chegar a uma visão polida do termo. Por esta razão, em meu entendimento, é produzida uma nuvem escura que dela nunca pode ser extraída a ideia clara, que é o que se está buscando, ao que se quer chegar quando se tenta alcançar a “liberdade”. Não me interessa entrar em detalhes sobre as definições propostas pelos dicionários sobre esta palavra nem tampouco abordarei neste ensaio as perspectivas que poderia ter um cidadão sobre este conceito, uma vez que, claramente, não vai dirigido a eles. É destinado a qualquer pessoa que esteja em busca de uma interpretação mais clara e realista do mundo que a rodeia, e o expresso como uma contribuição ao debate, e não como uma declaração.

Alguns indicariam que se trata de um conceito negativo no qual uma pessoa não é “livre para” (interpretação positiva), mas “livre de”, “livre de toda autoridade”, “livre de opressão”, “livre de denominação”, etc. Enquanto outros, talvez mais astutos, ou menos confusos que os primeiros, veriam este termo de forma positiva, “liberdade para se desenvolver”, “liberdade para atuar”, etc. Um anarquista poderia dizer que busca alcançar a liberdade ao lutar em uma guerra contra o estado e a autoridade, os quais restringem seu livre desenvolvimento e determinação, enquanto um anti-civilização poderia dizer que a única coisa que você pode aspirar neste mundo é alcançar a liberdade individual. Nisso ninguém está sendo claro sobre o que busca ou o que realmente deseja. Em um mundo sem Estado nem autoridade, o humano, assim como todas as demais criaturas viventes, estaria sujeito a uma quantidade imensa de fatores que limitariam o seu “livre desenvolvimento”. Enquanto que, dentro desta realidade em que nos vemos submersos alcançar a realização de um conceito tão vago como “liberdade individual” é simplesmente impossível. Você poderia se dedicar totalmente a viver ao lado do selvagem, esculpir a sua lança, aguçar os seus sentidos, caçar e coletar o seu próprio alimento, você poderia até tentar. Mesmo supondo que você tenha alcançado esta façanha não demoraria muito para presenciar o seu entorno sendo invadido por máquinas e pelo cinza inerte da civilização. O primeiro poderia argumentar que as condições de um determinado ambiente não restringem a sua “liberdade”, mas sim moldam a sua realidade de uma determinada maneira. Analisaremos a isso com cuidado.

Uma das principais razões pelas quais os anarquistas detestam ao Estado e a autoridade é porque eles privam a muitos de alcançar as mesmas oportunidades que os demais. Em um mundo em que estas entidades demoníacas não existissem eu realmente acho muito difícil, senão impossível, pensar em qualquer cenário que apresentasse as mesmas possibilidades para todos. Um grupo de humanos que vivesse em ambientes tropicais claramente teria uma vantagem na coleta de frutos e acesso a uma variedade deles, enquanto outro grupo, em entornos mais austeros, se veria “forçado” a recorrer à caça ou a pesca com muito mais frequência. As condições são IMPOSTAS a você, não há “liberdade” nisto (este ponto será aprofundado mais adiante neste ensaio).

Outro exemplo prático poderia ser a questão da alimentação. Muitos anarquistas acreditam seguir o caminho da coerência e da ética ao praticar o veganismo já que o consideram como parte do exercício de sua liberdade ao escolher determinada forma de alimentação e, simultaneamente, isso é feito em busca da liberdade de outros indivíduos. Na natureza selvagem nenhum animal pode escolher qual será a sua alimentação, isso depende de seu entorno. A civilização necessita tirar proveitos de todas e de cada uma de nossas práticas, se nos alimentássemos unicamente do que o nosso entorno tem para nos oferecer seria algo muito pouco rentável, então é aí que cada vez mais surgem novas e estranhas modas, com infinitas propostas alimentícias, para que possamos escolher a que melhor se ajuste às nossas “aspirações individuais” (induzidas). Tenho a certeza de que para muitos será difícil ver a ilusão que se forma aqui, mas pensemos. Realmente não podemos decidir sobre os assuntos que realmente são de vital importância neste caso. Não podemos decidir se queremos consumir alimentos não intervencionados, livres de produtos químicos e tóxicos ou se queremos tomar água limpa. Mas é claro, podemos levar uma dieta “paleolítica”, podemos escolher ser veganos ou crudívoros. Ter um bocado de opções falsas (falsas no sentido de que naturalmente não poderíamos escolher estas opções) é realmente mais valioso que poder acessar a única opção natural e verdadeira?

O segundo, referindo-se à liberdade individual, poderia talvez dizer que o simples fato de determinar o seu caminho é suficiente para ser considerado como possuidor de certa “liberdade”. Eu acho um ponto interessante, embora também muito questionável. Primeiro porque neste caso a liberdade passaria a ser algo muito abstrato, já que praticamente qualquer indivíduo que se declare consciente de suas decisões poderia alegar ser “livre”. Esta afirmação cai por seu próprio peso ao contemplar o fato de que vivemos em um ambiente civilizado. Dia após dia somos expostos a uma infinidade de estímulos sensoriais que afetam profundamente a nossa percepção da realidade. Uma pessoa poderia andar por aí acreditando que determina o seu próprio caminho, mas na verdade é a sua própria criação e o seu entorno que o moldou para andar nessa ou naquela direção. Mesmo o anarquista mais “desconstruído” se veria obrigado a admitir até que ponto têm permeado em seu ser os artifícios da civilização, e não fazer isso seria algo bastante tolo. Agora falando de nós, os eco-extremistas, ou ao menos falando de mim, não tenho o menor problema em assumir-me como um humano moderno e civilizado, profundamente domesticado e muito distante da minha verdadeira animalidade. Para nada sou “livre”. Até mesmo o eco-extremismo, como já pontuou Halputta Hadjo, é produto de seu entorno, um ambiente hostil, doente e banhando de artificialidade, um ambiente que nos empurra inevitavelmente para o caminho da confrontação, aqueles que escutaram o chamado de nossos instintos e de nossas raízes ancestrais.

Falar de “liberdade individual” dentro da civilização me parece sem sentido, nem sequer podemos nos locomover livremente pelo ambiente físico, isso para não mencionar o mental. Mas mesmo fora da civilização em um cenário que colapse por algum motivo, este tipo de conceito tampouco seria praticável. Nenhum animal pode se deslocar com total liberdade, os falcões não podem explorar cavernas submarinas, os ursos polares não podem habitar ambientes tropicais, exemplos há de sobra. E no que diz respeito ao mental, levando o assunto a um nível abstrato e talvez subjetivo, pelo menos na minha opinião, também não é possível. Irei me apoiar em um exemplo para expressar este ponto com mais clareza. Um bonobo nascido em uma família de bonobos está acostumado desde o seu nascimento a se alimentar de frutos e insetos, a viver em um ambiente tropical e levar uma vida altamente ativa. É a única opção que lhe foi apresentada, jamais conheceu algo diferente. É possível que se houvesse experimentado outro tipo de alimentação os seus gostos ou desejos seriam diferentes, é possível que se houvesse habitado terrenos menos quentes talvez lhe agradaria, talvez não, mas no fim das contas nunca será capaz de descobrir. Utilizarei outro exemplo que poderia deixar mais claro. Os lobos viveram milhares de anos de forma selvagem, habitando um número muito variado de ambientes. Em algum momento os lobos começaram a se aproximar dos humanos, se reclinaram ao calor do fogo e provaram da comodidade de receber alimento sem ter que caçá-los sozinhos. Muitos decidiram ficar. Pouco a pouco perderam a sua selvageria e se tornaram animais domésticos. Aqui estará em cada leitor a opinião que este exemplo pode gerar. Poderíamos pensar que a renuncia do lobo a sua vida selvagem o sujeitou a escravidão da domesticidade. A verdade é que ele não possuía liberdade antes de tomar esta decisão, levando uma vida sofrida, dura, passando necessidades e tendo que realizar esforços enormes para sobreviver. Sob que ponto de vista isso poderia ser considerado liberdade? O lobo tomou uma decisão entre duas opções que lhe foram apresentadas. Optou por uma ao invés da outra. Eu não me oporia muito à afirmação de algum indivíduo que sustentasse que isso dava ao lobo a liberdade que a vida selvagem não poderia oferecer a ele.

Outro ponto sobre o fenômeno da “liberdade” da qual eu gostaria de fazer algumas apreciações é sobre as lutas pelas supostas “libertação animal e da terra”.

Primeiro, arrancar um animal da jaula física em que ele se encontra lhe outorgará necessariamente a liberdade? As opções são limitadas, ou o leva a um “santuário vegano” onde ele terá um terreno muito limitado para circular, onde dependerá de horários pautados pelos humanos para se alimentar, e às vezes até mesmo para sair de seu recinto ou curral, onde (na maioria dos casos) será forçado a conviver com grandes números de animais em espaços reduzidos, onde há muitas espécies distintas, de forma totalmente anti-natural, alimentando-se de lixo industrial, e acessando artificialmente a esse lixo desde as mãos de algum humano. Qualquer um pode perceber que, se a liberdade existisse, não seria representada pela situação recém mencionada.

Outra opção para este ser “resgatado” seria a de ser abandonado em algum resquício de natureza selvagem que ainda reste. Este animal que possivelmente foi arrancado em seus primeiros momentos de vida de seu ambiente natural ou que nasceu diretamente em cativeiro e não conhece nada sobre o ambiente na qual deveria se desenvolver, não contaria com as ferramentas para se cuidar e sobreviver dentro da natureza selvagem. Muito provavelmente não conseguiria passar a primeira noite com vida. Mas mesmo assumindo que conseguisse, as feridas exercidas tanto em seu corpo como em sua mente deixariam cicatrizes totalmente indeléveis em seu ser. Poderia, talvez, conseguir viver por um tempo, lidando com o seu entorno, mas como um ser domesticado, com um profundo condicionamento instilado por sua experiência próxima aos humanos. E além de tudo isso, no caso remoto e ilusório em que o animal pudesse esquecer completamente todas as suas memórias e vivências em cativeiro, curar as suas feridas e negar a sua domesticação, não viveria em liberdade dentro da natureza selvagem, porque dentro da natureza selvagem a liberdade tem validade zero, tanto de forma teórica como prática.

Agora, referindo-me à questão da “libertação da terra”, não tenho muito a dizer. Me parece um conceito exageradamente ilusório e esquerdista. A terra não necessita que venha um grupo de humanos para devolver a sua “liberdade” perdida. Se neste momento fugaz ela está suportando e abrigando o lixo humano em sua superfície isso não significa que ela não o fará sentir as consequências. O humano afunda a si mesmo em sua desgraça, foram desrespeitosos com a terra por muito tempo, e será a própria terra quem apagará a todo o rastro civilizado. Se isso acontecerá em breve ou não, não é algo que eu realmente me importe. Além disso a terra não necessita de “liberdade”, ela precisa apenas ser e se desenvolver com seus ciclos e processos como tem feito ao longo da história. E eu me pergunto, o que faria a terra mais livre? A queda da civilização? A gestão responsável de “recursos”? A extinção do humano? Creio que diferentes pessoas poderiam ter observações variadas a respeito disso, o que demonstra que este conceito além de ser falacioso e esquerdista, é extremamente subjetivo. Nenhuma análise séria da realidade pode surgir com base nisso.

Chegando ao ponto central deste ensaio me esforçarei para explicar porque, sob minha perspectiva, a liberdade, entendida em qualquer uma de suas formas expostas anteriormente não existe e, para tanto, seria oposta como conceito e prática à vida selvagem.

Como eu disse antes, é o seu entorno que determina o seu caminho em maior medida. Nenhum animal dentro de um ambiente selvagem tem a possibilidade de decidir como será a sua vida nem para onde ela irá. Todas estas condições nos são impostas antes do nascimento. Foi o humano civilizado, dentro de sua imensa confusão disfarçada de “raciocínio” e “inteligência” o único animal que transformou a sua experiência vital, de modo que, atualmente pode optar por um certo “modus vivendi” determinado, justificado pelo abstrato e prejudicial conceito de liberdade. A confusão humana expressa o pico de sua fraqueza neste sentido. Temos construído uma imensa barreira entre nós e o mundo natural, a maioria dos humanos ainda temem a tudo aquilo que se esconde, se arrasta, voa, rasteja, nada ou corre para além dos muros de concreto que delimitam as suas cidades. Daí a busca insaciável da civilização por projetar a jaula mais confortável possível, na qual os indivíduos possam enxamear tranquilos, e sem fazer muito barulho.

O fracasso é inevitável. Você não pode simplesmente pegar um grupo de animais que viveu por milhares de anos de uma maneira, jogá-los em uma jaula e esperar que se desenvolvam de maneira saudável e plena. A natureza já nos deu o nosso lugar neste jogo, não é um lugar central, não é de vital importância para nada nem para ninguém, é apenas uma peça dentro de um grande compêndio de outras peças, tão útil como dispensável. É o lugar que nos foi dado, e foi assim, porque se encaixa simbioticamente com tudo o que o rodeia e, assim, se adaptou ao longo dos séculos. Não importa quantos cientistas e tecno-nerds você tenha a sua disposição tentando através do cálculo frio e da rigidez técnica, observando os diferentes atributos e qualidades dos humanos, para poder reproduzir o ambiente mais “saudável” para eles, simplesmente não funciona assim. Necessitamos andar descalços, não com calçados ultrafinos que se adaptem aos contornos do solo, necessitamos ter uma vida ativa, não bons ginásios para fazer exercícios, necessitamos estar em contato com os deuses e espíritos que habitam em tudo o que se manifesta sobre a terra, e toda a lógica do mundo jamais poderá se harmonizar com isso.

A natureza é tudo aquilo que é por si só, como foi dito antes, não necessita de um propósito, não necessita ser explicada e NÃO necessita de razões. Nossa mentalidade civilizada tenta encontrar um porque para tudo, brincamos de ser mestres e senhores da existência, ignorando que somos meros atores, jogando nosso papel histórico dentro da efêmera e sobrestimada experiência conhecida como “vida”, não seremos mais que uma luz que se acendeu por alguns segundos para logo desaparecer na eterna escuridão do infinito. Rejeitamos o nosso papel neste jogo, nos banhamos em ilusões e esquecemos a nossa verdade. O eco-extremismo é apenas a crença em uma ordem, o caos natural, ou como a queira chamar, ao qual obedecemos sem qualquer tipo de reprovação. Todos os animais sabem desde o seu nascimento qual é o caminho a seguir, não é que “não pensem nisso”, “que atuam por instinto”, como um simples robô respondendo a comandos do computador. Sim, o instinto influencia, também a contemplação do entorno, a prova através da experiência direta, o ensino dos mais velhos, entre muitos outros fatores. Neste ponto realmente não importa se os macacos tem ou não a capacidade de construir edifícios, eles simplesmente jamais fariam semelhante estupidez. O humano atenta constantemente contra si próprio, nega a sua própria natureza e desde o começo da civilização até os dias de hoje, não foi registrado um único ato humano que dê algum sinal de inteligência, astúcia ou a mínima sensatez. O fato de poder fazer certas coisas, ter a capacidade para executá-las não influencia de nenhuma forma na necessariedade ou importância destas coisas. A mentira da civilização tomou o controle das mentes fracas daqueles animais que, aprisionados e à beira da extinção decidiram perverter o seu entorno e natureza para sobrepor-se. Esta mentira assume um papel especial nas mentes daqueles que creem se opor a esta realidade tortuosa. Aqueles que tomam os valores da civilização que lhes resultam mais “cômodos” e tentam desenhar com eles uma experiência igualmente fictícia da qual eles supostamente rejeitam.

Se horrorizam com os atos “bárbaros” dos selvagens que viveram em outros tempos, mas enaltecem uma falsa visão da natureza e a existência do resto das formas de vida animal. Parece que na civilização a lógica do “eu aceito o que eu gosto e o que eu não gosto eu deixo para lá” é constante. Claro, qualquer um acha cômodo e agradável pensar nos nobres nativos que viviam livres de hierarquias e de autoridade, em harmonia com a natureza, mas quando falamos dos Selk’nam e o seu patriarcado, dos Calusa e a sua complexa sociedade hierarquizada, das tribos que arrancavam cabeças e comercializavam as mulheres, vários olham para o lado e fingem que nem tem ideia do que se está falando. Os anarco-primitivistas seculares se doem muito para aceitar que os seus idealizados humanos primitivos praticavam culto a deidades. Sério mesmo que qualquer um estaria satisfeito ao pensar em uma vida sem trabalho assalariado, caminhando tranquilamente pelas pradarias coletando amoras? Mas a vida selvagem não acontece dessa maneira.

Não podemos deixar de pontuar isso de modo energético e o mais conciso possível, a liberdade é uma ilusão, a natureza não é nossa mãe, é “cruel”, “implacável” e sim, é “opressora”, ou pelo menos é para os olhos dos híper-civilizados porque para nós simplesmente é, é como é e como sempre foi. Não nos trememos diante do impacto das placas tectônicas nem quando um tsunami faz sumir algum ecossistema, portanto, muito menos nos assustamos quando um crocodílio come a suas crias ou uma tribo de humanos selvagens asfixia a seus bebês. Nos livramos dos preconceitos civilizados, assassinamos a nosso ser moral, mandamos pelos ares aqueles que quiseram domesticar nossos corpos e mentes, aceitamos a realidade, olhamos a nossa verdade nos olhos e NÃO sentimos medo.

Zúpay