Lições Deixadas Pelos Incendiários

Extraído de Revista Regresión número 5.

“Somos a raiva incendiária de um planeta que morre”

A “Earth Liberation Front” ou “ELF” (“Frente de Libertação da Terra” ou “FLT”), foi considerada pelo Departamento de Estado e as grandes agências de investigação dos Estados Unidos, a ameaça de terrorismo doméstico mais importante daquele país.

Embora seus primeiros atos datem 1996, foi apenas no ano seguinte que seus atos começaram a se tornar mais destrutivos e saltaram a opinião pública.

Aqui está uma breve cronologia dos atos mais notáveis:

21 de Julho de 1997: a ELF ataca com um grande incêndio a empresa “Cavel West” em Redmond, Oregon. A empresa dedicada à venda de carne de cavalo sofre prejuízos de 1 milhão de dólares e nunca mais é reconstruída.

02 de Junho de 1998: o edifício do U.S. Department of Agriculture Animal Damage Control e o U.S. Department of Agriculture são incendiados em ataques coordenados pela ELF. Os prejuízos chegam a 1,9 milhões de dólares.

19 de Outubro de 1998: cinco edifícios e diversas propriedades de uma grande pista de esqui nas montanhas de Vail, Colorado, são reduzidas a cinzas por integrantes da ELF. Cinco dias antes o tribunal havia emitido uma permissão para que a empresa de esqui se expandisse pelo território do lince. Os danos alcançaram 12 milhões de dólares.

31 de Dezembro de 1999: um feroz incêndio acaba com a sala 324 da faculdade de Agricultura na Universidade Estatal de Michigan, em East Lansing. No edifício eram realizados experimentos para a expansão de sementes geneticamente modificadas. Os danos atingem 1 milhão de dólares. As investigações em biotecnologia estavam financiadas pela Monsanto e a USAID (Agencia Estadunidense Internacional de Desenvolvimento). A ELF escreve “Queima a Monsanto, Viva a ELF!”.

20 de Julho de 2000: Centenas de árvores geneticamente modificadas são destruídas por membros da ELF. Nas imediações do centro de pesquisa do U.S. Forest Service vários carros são pintados com slogans contrários à bioengenharia. Os danos são estimados em 1 milhão de dólares. Tudo isso em Rhinelander, Wisconsin.

Novembro e Dezembro de 2000: a ELF leva a cabo grandes incêndios contra condomínios de casas e luxuosas construções em Nova Iorque e Colorado, declarando assim uma “Guerra sem limites contra a expansão urbana”. Os danos foram avaliados em milhares de dólares.

21 de Maio de 2001: o Centro de Horticultura Urbana da Universidade de Washington é consumido por um voraz incêndio gerado pela ELF. Os danos são avaliados em 7 milhões de dólares.

01 de Agosto de 2003: um incêndio de grande magnitude afeta a um condomínio com 206 casas em construção em San Diego, Califórnia. Os danos chegam a 50 milhões de dólares. A ELF se responsabiliza pelo ataque. A mensagem “Vocês constroem, nós queimamos.” é deixada pintada em um cobertor largado no local do ataque. Este foi o ato mais destrutivo na história da ELF nos Estados Unidos, pelo qual se começou a considerá-la uma ameaça latente à segurança nacional.

22 de Agosto de 2003: em West Covina, Califórnia, a ELF realiza sabotagens e ataques incendiários em um armazém com luxuosas camionetes Hummer. Os danos são de 2,3 milhões de dólares.

Os ataques incendiários, intimidatórios e sabotadores da ELF continuaram até 2006 e foram diminuindo nos anos seguintes, embora a ELF que executava ataques de grande escala em territórios gringos foi vista apenas em 2009 quando seus integrantes roubaram uma escavadeira e jogaram-na contra torres da estação de rádio KRKO em Everett, Washington, derrubando-as por completo. Até agora seus integrantes são severamente perseguidos pelo FBI ao redor do mundo.

Mas por que as campanhas de grandes incêndios da ELF pararam? A resposta é: devido a um delator. Em novembro de 2015 a imprensa publicou uma matéria sobre o assunto, o FBI havia admitido que tinha na mira uma das eco-terroristas mais buscadas, mas a perdeu de vista.

Se trata de Josephine S. Overaker, integrante de uma das células da ELF mais destrutivas e ativas nos anos 90 e princípios dos anos 2000, célula que causou milhões de dólares em perdas após atacar empresas, instituições governamentais e universidades baixo a responsabilidade da ELF.

O FBI chamou esta célula de “A Família”. Em dezembro de 2005 invadiu vários Infoshops em quatro estados diferentes, prendendo a 9 pessoas e processando outras 11, e isso após as declarações de um delator chamado Jacob Ferguson. Este viciado em heroína com uma tatuagem de um pentagrama na testa era naquela época namorado de Josephine e que estava envolvido nos ataques da ELF através do relacionamento que tinha com ela. Ele se encarregou de levar um microfone oculto entre suas roupas quando se reunia com os responsáveis dos incêndios, e foi assim que o FBI levou a cabo a chamada operação “Blackfire” contra “A Família”.

Segundo o FBI “A Família” era liderada por Bill Rodgers, ecologista radical que foi preso em 2005 nesta operação policial, e que cometeu suicídio em sua cela na prisão do Arizona em 21 de Dezembro aquele ano. Cabe destacar que Bill foi o responsável por escrever um manual da ELF chamado “Setting Fires With Electrical Timers – An Earth Liberation Front Guide”, que é um guia de temporizadores elétricos para detonar cargas explosivas ou iniciar incêndios.

Muitos dos acusados cooperaram com o governo e agiram como delatores entre seus companheiros para que assim suas penas fossem reduzidas. Os únicos que aceitaram suas responsabilidades nos atos e não cooperaram com a polícia foram Nathan Block, Daniel McGowan, Jonathan Paul e Joyanna Zacher.

Apenas 4 integrantes da célula da ELF conseguiram escapar e evitar a prisão, mas em Março de 2009, Justin Solondz foi capturado na China e extraditado. Ele se negou a cooperar com o governo e foi sentenciado a 7 anos.

Rebecca Rubin foi capturada na fronteira com o Canadá em novembro de 2012. Em Janeiro de 2014 foi condenada a 5 anos de prisão.

Joseph Mahmoud Dibee é outro dos ecologistas radicais buscados pelos Estados Unidos. É dito que está fora de sua jurisdição, pois declararam que pode estar se escondendo na Síria.

Segundo o FBI, Josephine S. Overaker havia fugido para a Espanha com ajuda de separatistas bascos e protegida por anarquistas madrilenses, embora depois de tê-la em sua mira na Europa uma dia desapareceu sem deixar rastro algum e desde então não soube mais dela.

As lições que deixa a história da ELF nos Estados Unidos, são:

– Nunca confie nem meta um drogado em um ato ilegal com consequências de prisão ou morte.

– Não pode esperar e é melhor que nem pense que te considerarão o “salvador” da terra quando promove incêndios e causa danos aos que causam danos à natureza, sempre te catalogarão como criminoso, extremista, louco, terrorista, etc.

– Muitos dos condenados à prisão por atos da ELF nos EUA expressaram insistentemente que eles não são terroristas e que nunca causaram nem mortos nem feridos em seus ataques, e é aqui que eu digo: Sim, eu concordo, em seus ataques nunca houve vítimas, mas me pergunto depois: o que sentiram os donos das empresas, os responsáveis pelas instituições que reduziram a cinzas? Eles ficaram felizes? Eles ficaram indiferentes? NÃO, eles sentiram medo e terror quando souberam que não havia sido um incêndio florestal, mas que havia sido a ELF e mais, o havia reivindicado por uma causa específica. Atenção! Pois aqui não me coloco do lado das pessoas que quando algo lhes acontece saem correndo para as autoridades sabendo que o ocorrido é apenas consequências de seus atos contra a Natureza.

Eu não me limito à linguagem jurídica que marca como terroristas apenas as pessoas que matam ou ferem a outras por essa ou aquela causa. NÃO. Me refiro ao terror como sentimento, como a reação que sofre aquela pessoa que sabe que aquele é o momento em que se deve pagar por tudo que cometeu.

Talvez no aspecto jurídico ou quando se está na prisão, onde tentam lhe impor uma condenação por terrorismo isso seja muito negativo e haja risco de pegar até 30 anos de condenação, isso na situação mexicana. Aí sim talvez alguém, dependendo da sua situação, poderá se indignar e dizer que não cometeu atos terroristas (segundo a lei). Se não, então não.

O contexto na qual foram sendo executados os ataques incendiários da ELF no país vizinho foi bastante convulsionado. Havia passado apenas alguns anos desde a prisão de Ted Kaczynski e os ataques da ELF se proliferavam em vários estados, juntamente com os selvagens distúrbios na batalha de Seattle em 1999 contra a cúpula da OMC, seguidos dos atentados contra as Torres Gêmeas. Todos estes elementos deram lugar ao endurecimento das penas para aqueles que ameaçavam a estabilidade de uma nação. Foi neste cenário sob todos os meios disponíveis que as agências de investigações receberam a tarefa para combater e prender os membros da ELF.

Teria sido melhor parar com os ataques após o 11 de setembro? NÃO, os ataques ocorreram no momento em que deveriam acontecer. Não podemos nos dar ao luxo de parar quando a crise se aproxima. O que eu mais gostaria de ressaltar em todo este contexto é que uma coisa é certa, após o endurecimento das penas para os terroristas (sejam eles quais forem), o trabalho sério da polícia veio. Como é que poderiam combater ameaças estrangeiras (no caso a Al Qaeda) tendo uma em casa (ELF/ALF)? A qual levou o FBI a se intrometer nos círculos ecologistas radicais e por mera casualidade deram de cara com um bocudo, o elo fraco que após breves ameaças estava caguetando geral. Toda esta série de acontecimentos e situações são as que não podem ser esquecidas na hora desta guerra, em outras palavras, que não te peguem desprevenido e mal informado! Manter-se a par do que está acontecendo ao nosso redor é essencial.

“Confrontando a Sua Domesticação” e “Reselvagizar-se”

Tradução do texto “Confronting your Domestication” and “Rewilding” escrito por Sokaksin. Traduzido por Urucun.

“Posso perguntar como você confronta a sua própria domesticação?”

Esta pergunta me foi feita há algum tempo, quem me perguntou foi uma pessoa com quem cruzei caminhos e desde o começo tive a impressão de ser uma pergunta estranha. Parece ser todo o furor reunido entre os círculos anarco-primitivistas a repetitiva fala sobre o seu “selvagismo”. Estas mesmas pessoas embarcam em longas viagens de camping com alguns de seus companheirinhos para viver a vida dura na parte de trás de algum rancho levando barracas primitivas, caçando equipados com armas e ferramentas primitivas e geralmente iniciando fogueiras para emular o pequeno homenzinho “caçador-coletor” em seu coração. No momento não posso dizer que eu me oponha às pessoas que realizam longas viagens de camping aprendendo habilidades primitivas, tendo um contato mais aprofundado com a terra que habitam, ou o que quer que seja. Eu passo uma grande parte dos meus dias, todos os dias ultimamente, andando pela floresta próxima da minha casa, e ao fazer isso, cheguei a conhecer de forma íntima as várias centenas de acres que compõem o parque adjacente no tempo em que vivi aqui. Então eu não posso ser e nem sou a pessoa certa para fazer algum julgamento a respeito. O que tomo partido diz respeito às ilusões sobre o que “reselvagizar” significa. Reivindicar o mundo-vivo das pessoas primitivas e a tendência correlativa entre a multidão daqueles “reselvagizando”, para cair muito profundamente no “jogo de tiro com arco primitivo”, e ao fazer isso, esquecer o que se é e onde realmente se está.

Minha resposta a esta pergunta foi essencialmente “eu não a faço”. Eu não quis dizer isso em um sentido passivo de simplesmente não fazer nada, por isso mesmo a minha escrita é uma pequena maneira de lidar com quem sou e onde estou, com a minha própria domesticação, e o mundo da qual sinto em meu coração e que me oponho profundamente. Isso de “não fazer” eu disse mais no sentido de aceitar o que cada um é, onde e quando se existe nas rodas do tempo, ao invés de lutar contra a realidade das próprias circunstâncias ao cair em delírios de reviver ou recriar a vida e o mundo inimaginavelmente complexo dos primitivos. O homem não existe e não poderia existir em um vazio. Ele está sempre fora de si mesmo, sempre é parte e produto de um tempo e lugar. E a pessoa primitiva era parte e produto de seu mundo, assim como o homem moderno é parte e produto desta realidade. Quem foram os Niitsitapi, senão uma extensão das grandes planícies, a tempestade elétrica sobre as campinas ondulantes e o búfalo? Na recente tradução de Atassa do editorial da Revista Regresión Número 7, esse sentimento foi expresso nos lamentos de um chefe dos Sioux:

“Em breve se levantará um sol que já não nos verá aqui e nossa poeira e nossos ossos se misturarão a essas pradarias. Como em uma visão, vejo morrer a chama das fogueiras de nossos grandes conselhos e as cinzas se tornarem brancas e frias. Já não vejo mais as espirais de fumaça subindo acima de nossas tendas. Eu não ouço o cântico das mulheres enquanto preparam a comida. Os antílopes foram perdidos; as terras do búfalo estão vazias. Apenas o uivo do coiote é escutado agora. A medicina do homem branco é mais forte que a nossa; seu cavalo de ferro corre agora pelas trilhas do búfalo. Ele fala conosco através do “espírito sussurrante” (telefone). Somos como pássaros com as asas quebradas. Meu coração está gelado. Meus olhos se apagam.”

Os Sioux, assim como um número incontável de pessoas, testemunharam sua própria morte e a de seu mundo. Se alguém quer falar sobre “reselvagizar” no sentido anarco-primitivista, não se pode falar sobre isso com honestidade sem reconhecer que o ser humano se encontra sempre em um tempo e espaço, e está ligado intrinsecamente a esse tempo e espaço. Muitas vezes você pode até se aventurar mais, no abstrato, mas este é um mundo de sonhos, e todos os sonhos devem terminar. É preciso voltar ao presente, já que é a única realidade que há. O passado está sempre percorrido e trilhado e o futuro é o nada arejado da especulação. Apenas o aqui e o agora tem a realidade. E se isso for verdade, o “projeto anarco-primitivista de reselvagizar”, “reivindicar o selvagismo de alguém” ou “confrontar a própria domesticação” é como uma tentativa banal de criar uma espécie de teatro idealizado de mundos mortos, ilusões e sonhos lúcidos sem sentidos. O anarco-primitivista levantará os fantasmas do grande búfalo, reviverá os ossos do antílope e reviverá as cinzas das fogueiras sagradas dos Sioux. O reino do Paleolítico se levantando novamente. Mas tudo isso é, claro, um sonho. O búfalo retornou ao Grande Espírito há muito tempo, assim como os ossos do antílope. As cinzas das fogueiras sagradas foram carregadas pelo vento há muito tempo atrás, e até os próprios Sioux se tornaram pessoas da história.

Falar sobre “reselvagizar” e seu coronário no sentido anarco-primitivista é, portanto, falar de algo que não tem sentido. É não confrontar o mundo como ele é. É fugir para os mundos dos sonhos em que as grandes redes da terra não foram destruídas pela civilização. Se alguém observar com um olhar sincero, deve reconhecer e aceitar o que somos, o que também está ligado à compreensão de onde e quando estamos. Isso significa reconhecer e aceitar que quase todas as pessoas que existem hoje em dia são parte e produto da monstruosa civilização tecno-industrial que segue estendendo os seus asfixiantes tentáculos sobre a face da terra. A domesticação está inscrita em nossa carne e vivemos no aterro sanitário ecológico da modernidade. Significa reconhecer que os grandes mundos do passado estão mortos e não há maneiras de voltar a eles, não há qualquer perspectiva realista de que se levantem novamente dentro de meu tempo de vida ou de algum de meus leitores. Como Jeffers diz em As Estrelas Cobrem o Oceano Solitário “O mundo está em má forma, meu caro/ E destinado a piorar antes de se consertar”. O que temos, e tudo o que nós temos, é este presente decadente em toda a sua monstruosidade, a contínua e implacável marcha do Leviatã por cima de tudo o que é selvagem e belo. Significa aceitar este presente com honestidade e responder a esse presente em consequência, de uma maneira que se encaixe ao presente. Sem sonhos entretidos nem ilusões de um amanhã melhor onde a utopia primitiva se veja realizada.

É claro, isso não se trata do “reselvagizar” de John Zerzan, Kevin Tucker, e o resto dos subordinados anarco-primitivistas. Este é o espírito do eco-extremismo, seu niilismo de visão clara, seu ataque selvagem neste presente decadente. Fragmento do Sétimo Comunicado de ITS:

“O Selvagem não pode esperar mais, a civilização se expande indiscriminadamente às custas de todo o Natural. Da nossa parte não ficaremos de braços cruzados assistindo passivamente como o humano moderno despedaça a Terra em busca de seus minerais, como a sepulta com toneladas de concreto ou como atravessam montanhas inteiras para construir túneis. Estamos em guerra contra a civilização e o progresso, contra aqueles que a aperfeiçoam e aqueles que a endossam com a sua passividade, contra quem quer que seja!”

[ES – DOCUMENTÁRIO] – La Guerra Eco-anarquista Contra el Progreso en Chile

Enviaram-nos e orgulhosamente aqui apresentamos a mais nova produção dos afins de Nahual!

A tradução do texto foi realizada por Anhangá.

Adiante eco-anarquistas de guerra!
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Há pouco tempo os afins de Nahual publicaram o trabalho audiovisual no Globin Refuge com este nome. Nele reunem ataques na região “chilena” reivindicados por grupos eco-anarquistas, os quais Maldición Eco-extremista e Maldição Ancestral consideram ferozes guerreiros dignos de uma menção especial, já que a eco-anarquia é uma das tantas formas que assume a guerra contra a civilização e o progresso humano, reivindicando o Selvagem e desferindo duros golpes contra as estruturas da própria civilização.

Então, orgulhosamente apresentamos este vídeo. Que sirva para a perversão da mente, para reapropriação de tudo aquilo que temos perdido e pelo apoderamento dos espíritos de nossos antepassados nos corpos dos individualistas que fizeram e farão arder e botar abaixo os andaimes da sociedade industrial e tecnológica.

Afinidade com os eco-anarquistas de guerra!
Que o fogo caótico e ameaçante se estenda a todos os cantos das podres cidades!