Tendências Cristãs Pseudo-humanistas

Tradução de “Humanist pseudo-christian tendencies”. Traduzido e enviado por Anhangá. Disponível também em espanhol e inglês.

Li o texto “Tendências Misantrópicas Selvagens” há alguns meses em seu espanhol original. Embora eu ache este ensaio muito mais justo que muitas das críticas feitas nos últimos dois anos, há questões expostas que creio que seria benéfico abordar. Limitarei a minha discussão aos temas Natureza Selvagem, autoridade e misantropia.

Natureza Selvagem

Sobre este assunto existe o ensaio “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?“, que é muito fácil de encontrar. Mas para a questão, citarei uma passagem de uma entrevista realizada por John Jacobi a um eco-extremista:

“… estou consciente de que não sou o salvador da Terra, que a única coisa que pode ser “salva” é a minha própria vida e a maneira como eu me relaciono com o meu grupo de afinidade. A Natureza Selvagem sou EU e meu grupo que se agarra ao ato de não deixar morrer os instintos animais que ainda possuímos. Nos despojaram de tudo, até mesmo de um lugar no qual poderíamos habitar livremente, nos distanciaram de nossos ambientes selvagens, de nossas terras ancestrais e sepultaram-nas com cimento, então a única Natureza Selvagem sou eu e meu grupo, reselvageá-la é o que costumo fazer.” (Trecho de “Diálogo entre um “Eco-extremista” e um “Selvagista”“)

Já sobre o assunto de espíritos/deuses, o seguinte texto de um eco-extremista na Argentina eloquentemente explica a sua defesa pessoal do animismo personalizado:

“Não me surpreende em nada vindo de um grupo de indivíduos tão apegados às lógicas civilizadas, que aderiram a um dos pilares do pensamento empírico e mecanicista, como é o ateísmo. O que dizer sobre este assunto que ainda já não tenha sido dito? Nós, os e as eco-extremistas, temos muito bem destacadas as nossas crenças e visões espirituais, criamos as nossas deidades com base em experiências pessoais na Natureza Selvagem, e veneramos de forma animista os espíritos que habitam nela, como fizeram os nossos antepassados séculos antes da invasão. Estas deidades agarradas à Terra, ao primitivo, nos acompanham e nos guiam a todo momento, nos empurram à confrontação com a mega-máquina civilizadora, nos provém de força e mantém ativo nosso indômito caráter guerreiro. Por todas estas razões e algumas outras, é que rimos dos ateus e seu cientificismo humanista, daqueles e daquelas que baseiam a sua percepção da realidade em uma visão completamente fria, matemática, mecânica, robótica, artificial, etc. Nós não nos importamos que ante as nossas crenças venham a tachar-nos de tolos, crédulos ou de românticos, isso já fizeram os colonizadores no passado, e o fazem a todo momento os híper-civilizados que simplesmente não entendem o idioma do vento, não percebem os sussurros dos vales, o grito dos vulcões ou a sabedoria das árvores. A tudo isso nos dirigimos ao invés de máquinas e robôs, nós preferimos adorar paganamente o espírito da serpente em vez da deusa da razão e seus fiéis discípulos, a ciência e a tecnologia.” (De “Uma Defesa Conceitual do Selvagem: Uma Resposta à Semente de Libertação)

E, em comparação, incluímos um texto de um eco-extremista/niilista do continente europeu:

“Aqui na Europa há também grupúsculos de terroristas niilistas, criminosos individualistas e extremistas e misantropos vivos caminhando, e lembramos mais uma vez que alguns destes grupúsculos foram até pouco tempo próximos a vocês e seus ambientes de podridão, que sabemos quem é quem e por onde anda cada um, que a violência e o atentado para nós não é algo novo, mas uma prática que se tornou uma extensão do próprio ser, então tem sido parte de nossa vida durante alguns anos já… nós não temos “deidades pagãs”, o que temos são armas, explosivos e informação, então, vigiem as suas palavras, suas valentias de internet podem custar caro na vida real.” (De “Algumas Notas Sobre as Recentes Difamações e Breves Esclarecimentos“, O Inimigo Interno)

Os anarquistas autores do texto, certamente, se sentirão mais confusos após ler esta citação, já que nela é expressada um desgosto com a postura contraditória de obedecer aos deuses pagãos e ao mesmo tempo aos próprios caprichos. Dos trechos que citei, o principal ponto de partida é que a ideia de “Natureza Selvagem” como uma entidade autônoma e transcendental não é um dogma obrigatório do eco-extremismo, nem mesmo está imposto especificadamente em nenhum sentido. Um indivíduo pode estar de acordo com ITS e grupos afins, embora não acredite nisso em absoluto, ou em alguns casos, estando em desacordo (ver, por exemplo, o comunicado emitido pelo “Grupúsculo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem”, de Março de 2017). Isso não é retroceder: aqueles que prestam atenção sabem disso há muito tempo. Em nosso atomizado mundo moderno, todas as crenças são individuais e pessoais, e não se traduzem bem quando são impostas ou mesmo comunicadas aos outros. A Máfia Eco-extremista é uma frente unida de individualistas que aderem a crenças pessoais que estão em confrontação com a humanidade moderna. Este pode não ser um alvo ideal para anotar pontos polêmicos fáceis, mas tem sido o caso durante um par de anos.

De qualquer forma, darei minha própria interpretação pessoal do que acredito, sendo o escritor prolífico que sou. Não creio que a imanência e a transcendência com respeito a entidades espirituais sejam inerentemente opostas. Em muitas tradições espirituais, inclusive os pagãos europeus e até certo ponto da teologia cristã mística, adorar deuses transcendentes é realmente um exercício para retornar ao que você realmente é. É um exercício de autoconhecimento. Embora isso possa ser facilmente corrompido em cultos cívicos e alienados, o verdadeiro mago na antiguidade utilizou o ritual e o simbolismo para ascender à divindade (ver, por exemplo, o Corpus Hermeticum). Na verdade, esta foi a base da filosofia moderna, como no Rosacrucianismo de Descartes e Hegel, e a obsessão com a alquimia até Isaac Newton (a alquimia é mais uma transformação pessoal que a mudança de metais básicos a precisos, cf. Carl Jung). Portanto, é obtuso citar Stirner (um discípulo de Hegel, mesmo que ele fosse um rebelde), mas não se dar conta das origens “sacras” de seu próprio discurso filosófico. Continuo afirmando que a “libertação” é um conceito intrinsecamente religioso, não importa o quanto tente fugir de seu passado cristão.

Portanto, é um pouco ridículo pensar que esses eco-extremistas que aderem a uma disciplina espiritual estejam fazendo igual os cruzados quando seguiam a voz do Papa e os jihadistas escutando os gritos militantes do ímã local. Ver a devastação da Natureza Selvagem, sua pavimentação, sua exploração e sua desaparição poderia ser uma experiência espiritual negativa o suficiente para desencadear um despertar em alguns indivíduos (ouvir um chamado, talvez). Eu senti isso. Talvez o/os autor/autores não o sentiram, e talvez acreditem que alguns estão tomando isso mais literalmente do que deveriam. Há muito tempo deixei de considerar a humanidade como o único agente convincente que poderia convocar a minha lealdade, e tampouco acredito muito em mim mesmo para crer que sou o fim absoluto e o fim de tudo (escrevo mais sobre isso abaixo). Não invejo aqueles que tomam as suas deidades literalmente, mesmo que eu não o faça. Em minha opinião, me adiro ao Desconhecido. Às vezes os chamo de “Deuses Escuros”, aqueles que restaram da devastação que é a modernidade, talvez agora sem rosto, sem voz, mas uma presença, no entanto. Não tenho ideia de como adorá-los, ou se eles deveriam ser adorados. Eles não “falam” comigo, mas sei que estão ali, esperando, quebrando os moldes da ilusão civilizada.

Meus deuses estão mortos. A única coisa que falta é matar os seus. Mesmo que esses deuses sejam abstrações como “Humanidade”, “Liberdade”, ou qualquer outra coisa.

Autoridade

Claro, voltamos ao assunto da dominação e da autoridade. Ele/os autor/autores anarquista(s) enfatizam os argumentos cansativos do caráter anti-natural da autoridade, e assim por diante. (“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros…”. Muito obrigado, Rousseau.) Agora vou citar um par de passagens que nos ajudarão a abordar este tema (de novo):

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.” (De “Já Haviam Se Atrasado: Reação Selvagem em Resposta a “Destrua as Prisões“)

– E também:

“Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.” (De “Selvagens Politicamente Incorretos“)

Em um “gol contra” um pouco humilhante, mas talvez involuntário, os autores anarquistas citam os Ona da Terra do Fogo sem se dar conta de que eles, sendo simples caçadores-coletores, tinham uma sociedade baseada no patriarcado:

“A posse patrilocal e patrilinear dos territórios concedeu aos homens o direito exclusivo sobre a terra, que era importante não tanto para os terrenos de caça do guanaco ou outra fauna e os recursos naturais. Mesmo quando um homem passou a residir na linhagem de sua mãe, seu pai e seus tios continuaram sendo as figuras dominantes. O fato de que a fabricação de bens, ferramentas e artigos domésticos possa ser ensinado a todas as crianças e adultos jovens, permitiu aos produtores dominar a economia e manter um nível igualitário de apropriação e produção, frustrando assim qualquer possibilidade de subordinação, exceto a sexual. Esta “exceção” equivale a uma ruptura na sociedade que torna impossível caracterizá-la como igualitária. Poderia ser chamada de “igualitária patriarcal”, mas este rótulo parece ser contraditório ou enganoso.” –Anne MacKaye Chapman, “Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam (“Selk’nam” é outro nome para os Ona)

O mesmo caso ocorre em uma antiga cultura “simples” como a dos povos aborígenes australianos. Embora exista uma grande controvérsia sobre se os europeus exageraram na misoginia dos povos colonizados “não contatados”, há evidências menos anedóticas de que a “dominação” e a autoridade eram uma realidade entre os caçadores coletores “materialmente simples”:

“O paleopatologista Stephen Webb publicou em 1995 sua análise de 4.500 ossos de indivíduos do continente australiano que remontam 50 mil anos. (As inestimáveis coleções de ossos da época foram entregues oficialmente às comunidades aborígenes para que promovessem um novo enterro, o que deteve os estudos de rastreamento). Webb descobriu taxas de lesões e fraturas muito desproporcionais nos crânios das mulheres, sugerindo ataques deliberados e muitas vezes ataques por trás, talvez em disputas internas. Nos trópicos, por exemplo, a frequência de mulheres com traumatismo cranioencefálico foi de aproximadamente 20-33%, frente a 6,5-26% para os homens.

Os resultados mais extremos foram na costa sul, de Swanport a Adelaide, com taxas de traumatismo cranioencefálico feminino de até 40-44%, sendo duas a quatro vezes a taxa de traumatismo masculino. Nas áreas desérticas e da costa sul, 5-6% dos crânios femininos tinham três lesões cranianas separadas, e 11-12% tinham duas lesões.” (de “A Longa História da Violência Aborígene – Parte II, recuperado do site The Quadrant“)

Claro, poderíamos citar todos os tipos de exemplos brutais de abusos misóginos, bem como o desenvolvimento de hierarquias entre os caçadores-coletores como no norte da Califórnia e nos construtores de montículos da Poverty Point no que é agora Luisiana…. Não importa. O ponto é indicar que não somos afetados pela torpe tentativa de nos explodir com o nosso próprio petardo. O eco-extremismo não desafia a “dominação” ou autoridade do passado, nem finge que pode aboli-las para sempre. É uma ideia muito tola de se apegar em qualquer caso.

Digamos o que é óbvio: os eco-extremistas e os niilistas misantropos não mostram adesão a qualquer autoridade humana tal como existe atualmente, e sei também que nem poderiam fazê-lo em um futuro previsível. A própria natureza do que significa ser um individualista eco-extremista/niilista exclui ipso facto qualquer tentativa de criar uma autoridade transpessoal no presente como é comumente entendido. Talvez ITS tenha uma hierarquia militar que se estenda para além das fronteiras e continentes, mas eu duvido muito. Tenho entendido que se trata de um grupo de individualistas comprometidos em uma guerra assimétrica. Qualquer conversa sobre “autoridade” no sentido comum do termo é meramente hipotética.

Quando os eco-extremistas falam de autoridade, eles o fazem de maneira puramente instrumental. A autoridade em seu uso (para além dos aspectos “espirituais” discutidos anteriormente) tem mais semelhança com a estrutura de uma gangue ou máfia e menos a ver com um governo ou um partido político. Não há outra maneira de apoiar outro tratamento do assunto até onde eu possa ver. Se na execução de um crime alguém está “no comando”, a vida dos delinquentes poderá depender de que todos façam o que diz esta pessoa. Se uma determinada pessoa alcança um conhecimento espiritual superior ou o conhecimento de ervas medicinais, essa é a única autoridade que o eco-extremismo parece estar falando. Ao contrário do/dos anarquista/anarquistas autor/autores, eles não tem a ilusão de “construir novas formas de relacionamento entre todos os seres que habitam este mundo e estes com a Terra”.

Você pode pensar que, porque algumas pessoas falam que estão livres da “dominação”, o sangue delas não é vermelho como o dos demais. É bastante lamentável que um animal fique doente e talvez viva quatro anos e meio para falar sobre estar livre de “toda a dominação”. Alguém poderia falar também sobre estar livre da gravidade ou da segunda lei da termodinâmica. Estamos limitados por todos os lugares em nosso contexto, desde quando atravessamos a rua até o que podemos comer no café da manhã. Os eco-extremistas têm o objetivo muito simples e compreensível de se vingar e ver as coisas arderem e serem destruídas. A “destruição de toda autoridade” nem sequer parece significar algo em concreto, e muito menos possível.

“Somos soldados, não se pode escapar deste fato. Soldados no sentido tradicional e soldados em um sentido diferente. Somos guerreiros espirituais, temos uma causa ímpia para colocar um fim na humanidade. Não estamos lutando para preservar nações ou governos. Estamos lutando para retornar a nossos deuses, para nos tornarmos eles. Somos soldados em um sentido tradicional porque esse tipo de resultado não acontecerá sem combate. Tomar a ofensiva é a única coisa nobre que pode ser feita. Goebbels declarou ao povo alemão quando estavam sendo invadidos, “o ódio é nossa oração, a vingança é nosso grito de batalha”. O fedor de uma espécie inferior já não pode ser tolerada. A única solução para uma sociedade doente é a aniquilação.” –Tempel ov Blood, Liber 333

Misantropia

Direi que, pelo menos para mim, a misantropia não é um ato de aprovação do juízo moral. A não ser que alguém seja um completo e desmedido otimista, é evidente que existe um problema. O eco-extremismo em alguns lugares argumentou que o problema é físico, não moral. Como formulado no já extinto blog Wandering Cannibals:

“Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista. Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são humanos demais…”

Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria? Aqueles que se opõem à misantropia parecem pensar que o problema é qualitativo quando, na verdade, é quantitativo. Não é uma questão de inocência ou culpa, é apenas que existem muitos malditos, amorosos e éticos humanos que pensam que suas vidas e seu bem-estar são invioláveis. Que tocar em um fio de cabelo de suas cabeças é um sacrilégio ou, o horror dos horrores!.… autoridade.

Mas, na verdade, não adianta nada discutir o assunto. Isso se torna um exercício tragicômico uma vez que os anarquistas “niilistas” começam a acusar os eco-extremistas de moralismo por realizar as ações mais imorais imagináveis. Dizem algo como: se eles fossem realmente individualistas e “não dominados”, não atacariam a humanidade em absoluto, ou atacariam apenas aqueles que têm a responsabilidade “direta” pela dominação, seja lá o que isso signifique. Sinceramente, o/os anarquista/anarquistas autor/autores parece/parecem abertamente vago/vagos sobre a condenação do ataque indiscriminado, já que é um ponto que levantam. Falo mais de fanboys egoístas que começam um jogo bobo de quem pode se importar menos, que de alguma maneira é algo como o que se segue:

A: “Eu sou amoral, então ataco a sociedade e os humanos.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com a sociedade nem com os humanos, e você simplesmente estaria fazendo as suas coisas.”

A: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com quem estou atacando.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria se eu me importasse com quem você atacou…”

Etc., etc….. Sério, tem sido assim há dois anos. Sabe quantos executivos o/os autor/autores do texto poderia/poderiam ter aleijado até agora?

Ah, é. Me esqueci que ele/eles não tem a intenção de ser uma ameaça para ninguém, exceto talvez para os eco-extremistas, e nem sequer pode/podem prender um deles. Só pra constar, me lembra a polícia.

Então, para concluir, não me importa se os eco-extremistas citam o Monstro Voador de Espaguete para queimar, matar e mutilar. Para mim, é o mesmo: no fim de tudo, somos estúpidos humanos. Tampouco me importam os objetivos absurdos como “a destruição de toda autoridade”. Isso é muito abstrato para que entenda o meu pequeno cérebro, o que é uma boa maneira de dizer que é uma porcaria. Finalmente, eu não gosto muito dos humanos porque não parecem gostar muito de si mesmos. Eles estão defecando coletivamente sobre o único planeta que têm, e cada dia se tornam mais mecânicos e artificiais. Sobre este último ponto, não sei porque sou obrigado a me sensibilizar ou me preocupar com os seres humanos atacados no presente, já que qualquer pessoa aleatória em Paris, Jakarta ou Kinshasa é tão abstrata como Zeus ou como um membro de uma tribo indígena extinta. Para citar o grande reacionário De Maistre:

“A Constituição de 1795, assim como suas predecessoras, foi feita para o homem. Mas não existe no mundo nada que se possa chamar de homem. Ao longo de minha vida, tenho visto franceses, italianos, russos, etc.; sei também, graças a Montesquieu, que se pode ser persa. Mas, quanto ao homem, afirmo que, em toda minha vida, jamais o encontrei; se ele existe, desconheço-o completamente”

Tenho pouco tempo para aqueles que estão obcecados pelos ideais de uma sociedade que supostamente desejam destruir. Se estas pessoas finalmente começam a atacar o que odeiam, e se realmente atacam, não haverá ninguém mais satisfeito que eu. Mas se continuam emitindo anátemas de dentro do escritório da Mãe Superiora do Convento da Santa Anarquia, estarão confirmando minhas piores suspeitas de suas verdadeiras intenções.

É o Momento de Beijar a Terra Novamente

Texto extraído e traduzido de Reflexiones Eco-extremistas N°3.

“Você nunca pode recuperar uma visão antiga uma vez que tenha sido suplantada, mas o que podemos fazer é descobrir uma nova visão em harmonia com as memórias antigas, distante, longe, remota experiência que se encontra dentro de nós.”D.H. Lawrence

“Todas as coisas estão cheias de deuses.”Thales

“Uma existência, uma música, um organismo, uma vida, um Deus: -Estrela de fogo e rochas fortes, o fluxo frio do mar, E a alma escura do homem.”Robinson Jeffers

Durante as últimas três décadas o anarco-primitivismo tem sido a forma dominante da crítica anti-civilização. Neste período a crise da sociedade tecno-industrial intensificou-se a níveis antes inimagináveis. Para aqueles de nós que somos inimigos da civilização temos a certeza do problema, mas a solução não está tão clara. Muitos anarco-primitivistas adotaram as táticas de outros anarquistas; destruição da propriedade, sabotagem, tree-sits*, vandalismo e outras formas de ação direta. A ideia subjacente que motiva estas ações é que com o tempo as pessoas “despertem” e reconheçam o caráter opressivo da civilização. Como tal, o anarco-primitivismo se orienta como um movimento essencialmente político. Neste ensaio vou argumentar que a crítica à civilização deve ser libertada de toda política e reformulada solidamente dentro do contexto da religião e da espiritualidade, que o primitivismo deve se separar do anarquismo.

Embora reconhecendo, sem dúvida, o seu impacto sobre o mundo natural, o anarco-primitivismo tende a enfatizar as formas que a civilização é prejudicial para a humanidade: a alienação, a pobreza, a depressão, os fuzilamentos em massa. As sociedades de caçadores-coletores são apresentadas como um modelo ideal para a felicidade humana e a perfeita igualdade [no anarco-primitivismo], enquanto que todas as formas de injustiça social estão ligadas à civilização. A civilização, em outras palavras, é essencialmente apresentada como um problema social. É conceitualizada como uma forma particular de organização social que produziu uma série de circunstâncias indesejáveis. Neste sentido o anarco-primitivismo não é diferente do socialismo ou qualquer outra filosofia social do iluminismo que apresenta uma visão da sociedade sem sofrimento. Sua crítica da civilização é baseada no que é melhor para a humanidade.

Isso é um problema porque na raiz da consciência civilizada existe a ideia de que os seres humanos são a coisa mais importante do universo. Portanto, se os anarco-primitivistas seguem concentrando sua crítica da civilização sobre seus efeitos nocivos à humanidade e continuam considerando a sociedade caçadora-coletora como um paraíso igualitário eles estarão, em última instância, perpetuando a crença de que o que ocorre na humanidade é mais importante do que qualquer outra coisa.

É verdade que, na ausência da civilização muitos seres humanos seriam mais saudáveis e mais felizes do que são agora? Provavelmente sim. O problema com este ponto de vista não é que a humanidade seja valorizada, mas que ela seja valorizada acima de tudo. Remover o anarquismo ou o elemento da justiça política ou social da crítica à civilização não quer dizer que o sofrimento dos seres humanos são é importante. Este sofrimento é simplesmente colocado em um contexto maior, muito maior. O sofrimento de um ser humano não é mais nem menos importante que o sofrimento de uma mosca. É desnecessário dizer que, como seres humanos, naturalmente experimentamos o sofrimento de nossa família e amigos mais intensamente que o sofrimento de uma mosca. Por fim, isso não quer dizer que seja mais significativo, seja como for.

Se aceitarmos que a vida de uma mosca ou de um pedaço de musgo é tão importante como a vida humana, como suspeito que a maioria dos anarco-primitivistas fazem, também devemos aceitar que deixamos para trás o campo da política. Neste contexto, as preocupações da sociedade humana, as lutas específicas de um grupo particular, são irrelevantes. Amo a terra mais do que amo a humanidade. O núcleo desta posição é uma atitude fundamentalmente religiosa que acredito que os primitivistas deveriam adotar.

O animismo é a crença de que todas as coisas naturais –não feitas pelos seres humanos– tem alma: árvores, samambaias, grama, rios, montanhas, pedras, assim como todas as criaturas. Tudo no mundo é sagrado e nem mais nem menos que qualquer outra coisa. Esta compreensão de santidade não depende de nenhuma ideia em particular de um Deus, é simplesmente o reconhecimento da divindade em todas as coisas. E esta divindade não precisa ser fundamentada ou provada. Como os antigos Daoístas entendiam, qualquer tentativa de dizer “o que quer que seja” deve estar condenada ao fracasso. O dao que pode ser chamado não é dao. Nós, como criaturas da civilização, fomos condicionados a aceitar o nada sem definições precisas e a lógica convincente. Este desejo é o desejo do cientista, do engenheiro, do técnico. Da mesma forma, a alma que pode ser nomeada não é alma. Qualquer definição de alma ou da divindade que existe dentro de todas as coisas deve necessariamente ser irremediavelmente limitada pela consciência e a linguagem humana. Embora talvez possamos dizer, como os antigos gregos, romanos, hindus, judeus, chineses, e outros, que o conceito de alma ou de espírito está relacionado com a respiração. E, se a mente está calma e se escuta com atenção podemos perceber o sopro das rochas, os fluxos, as areias do deserto.

Historicamente, o animismo tem sido ligado a lugares específicos, montanhas, rios específicos. Existem tantos animismos diferentes já que existem diferentes tribos e povos. Como tal, qualquer animismo em particular não pode ser universal. O animismo de uma tribo específica dos povos da América Central não pode ser o mesmo que o de uma comunidade particular de escandinavos ou mongóis. Nesse sentido, no entanto, podemos pensar no koan zen**: o dedo pode apontar a localização da lua, mas o dedo não é a lua. O dedo pouco importa; a lua é realmente a coisa. Em outras palavras, os espíritos animistas particulares de uma comunidade em particular são apenas o dedo. Devemos olhar para a lua: a santidade universal da Terra.

Até agora o anarco-primitivismo insistiu em participar do campo dos argumentos intelectuais. Apesar dos críticos da civilização rechaçarem as estruturas sociais e culturais que dominam as nossas vidas, há uma forte tendência a aceitar tacitamente certos modos de pensamento civilizado, ou seja, o secularismo e o empirismo. Em muitas literaturas anarco-primitivistas produzidas por escritores seminais como John Zerzan e Kevin Tucker, existe uma clara demonstração do compromisso com a verdade através da apresentação da evidência empírica válida e lógica persuasiva. Eles fazem isso apelando para a razão. Os argumentos são construídos e implantados. Os dados recolhidos por especialistas são citados cansativamente. Estas são as ferramentas do professor, ferramentas civilizadas, e a história é o cemitério das ideologias que se acreditavam imunes à influência das ferramentas táticas que utilizaram.

Os anarco-primitivistas tentam “expor seus argumentos” para aqueles que não rejeitam a civilização. As pessoas que abraçam a civilização não o fazem já que não tem “os fatos”. Podia-se até mesmo apresentar milhares de fatos que “demonstrem” a felicidade relativa e a felicidade em uma vida do caçador-coletor que nenhuma pessoa sequer estaria disposta a abandonar seu modo de vida atual, ou mesmo conceder que a crítica à civilização tem mérito.

Em última instância, não importa o que os caçadores-coletores fizeram ou não fizeram. Não importa quais sociedades históricas eram autoritárias ou cultivavam milho. A crítica à civilização não deve se basear nestes argumentos. A crítica à civilização deve ser feita com base em crenças nos espíritos da Terra. A civilização não é ruim porque faz grupos humanos objetificarem-se e sofrerem. O sofrimento é uma parte inescapável da vida e não precisa ser lamentável. A civilização é ruim porque é uma guerra contra os deuses.

Em seu fervor para convencer a outros anarco-primitivistas se tornam cada vez mais dogmáticos. Eles fazem birras contra os “esquerdistas”, discutem coisas sobre o veganismo, debatem sobre os méritos relativos das economias de retenção imediata frente as economias de retorno de atraso, travam intermináveis disputas relativas à moralidade da violência, se deleitam e se desesperam alternativamente na cara das novas tecnologias aberrantes. Como tal, a crítica à civilização é absolutamente solipsista. E não se trata simplesmente dos anarco-primitivistas tentarem teorizar intermináveis coisas, mas também de nenhuma tentativa de aplicar a prática. As poucas ações que são vistas, como já falamos anteriormente, não tem sentido e são apenas simbólicas nos termos mais amplos e vagos. É hora de deixar isso para trás. Não importa o que dizem os filósofos, não importa o que dizem os cientistas. Temos que aceitar que nossas crenças são de natureza religiosa e dependem da fé.

Chegou a hora de reafirmar a espiritualidade baseada na natureza de nosso passado coletivo humano. Se o mundo natural não é sagrado, então por que é importante? A única alternativa é dizer que o mundo natural é importante porque dependemos dele para a nossa própria sobrevivência como espécie. Seria dizer, como já discutimos anteriormente, que a humanidade é realmente o que nos importa e nada mais, que o mundo natural é importante para nós apenas na medida em que serve a nossas necessidades. Qualquer argumento para o valor inerente de todas as coisas naturais pode ser feitos apenas a partir de razões espirituais.

É hora de parar de escrever livros pseudo-científicos, ensaios e artigos, de lutar contra policiais, de organizar protestos, de destruir caixas eletrônicos, e de tacar fogo em objetos. Estas são as táticas daqueles que desejam melhorar a sociedade humana para determinados grupos de seres humanos. Estas não são ações que refletem a crença de que a vida natural é sagrada.

A humanidade não mudará seu destino através da ação. Não através das ações dos governos e das empresas, não através das ações dos movimentos de massa, e certamente não através das ações de um punhado de anarquistas insatisfeitos. O destino da humanidade está selado. O mundo é conhecido há 10.000 anos e não durará. É tolice e fútil tentar prever a natureza de um colapso ou de imaginar que mundo continuará. Isso vai ser bom? Vai ser ruim? Não importa. Se produzirá, e a humanidade se verá obrigada a responder a isso. Talvez a sociedade humana tenha futuro de alguma outra forma. Talvez a humanidade seja completamente extinta.

O caminho sempre esteve claro para os que escolheram ver. Devemos fugir da civilização e das coisas da civilização. Há que ir para a floresta e nunca sair. Devemos reunir nossas almas com as almas das árvores, das rochas, das correntes, da sujeira. Devemos meditar sobre nosso lugar no cosmos. Ao fazê-lo, não mudaremos o destino deste mundo, mas seremos, por fim, fiéis à nossa natureza mais uma vez. O mundo dos caçadores-coletores paleolíticos se foi para sempre. Não podemos voltar ao passado. Mas os deuses que uma vez conhecemos ainda estão esperando por nós nos lugares selvagens do mundo. Se formos a eles, nos abraçarão.

Notas:

*Tree-sits: Parte do ativismo ecológico que consiste em sentar e acorrentar-se às árvores para impedir que sejam cortadas.

**Koan Zen: Um Koan é um problema que o professor passa a seus alunos para comprovar seu progresso.

Animismo Apofático

Texto reflexivo do editor-chefe da Revista Atassa, onde aborda o assunto do animismo do tipo eco-extremista.

As pessoas modernas, claro, não podem deixar de cercar isso com os seus olhos, e tenho a mesma tentação. No meu caso, enquanto o bom anarquista ou o esquerdista pode condenar a “superstição” porque pensam que conhecem a história, eu conheço a história ainda melhor, então eu penso duas vezes antes de fazer isso. Hegel escreveu em algum lugar que enquanto os gregos antigos podiam se curvar aos ídolos o homem moderno já não pode. Isso porque ele se tornou um ídolo de si mesmo, de sua realização científica e da compreensão do mundo. Embora eu vá mais longe que muitos defensores “anti-civilização”, em minha apreciação da ciência e da tecnologia moderna (principalmente pelo que fazem, não pelo que representam), eu sei muito bem que eles são também produto de certa forma de pensamento religioso, de uma genealogia que remonta a Einstein e Newton e a magia renascentista, ao neoplatonismo, a escolástica, a Aristóteles, aos pré-socráticos, e assim por diante. Recusar a “mistificação” da Natureza baseado puramente na racionalidade do Iluminismo parece ir parar bem abaixo das origens históricas da “racionalidade” no Ocidente. Não vejo o pensamento secular como algo que não seja um desvio de todas estas tendências. Este poderia ser um bom ponto a partir do nível abstrato, mas em termos concretos as pessoas modernas estão radicalmente separadas da “espiritualidade” como algo diferente de uma escolha do consumidor. Um eco-extremista já apontou isso como no longo ensaio de Halputta Hadjo, “Os Calusa: Um Reino Selvagem?”:

“Antes de discutir a religião Calusa e a posição dos espanhóis em relação a ela sinto que é apropriado discutir brevemente o cisma na mente moderna entre a religião e o conhecimento. Para chegar imediatamente ao ponto, a religião na maior parte de sua existência tem sido uma coisa eminentemente prática. Isto é, como as pessoas acreditavam e como sabiam que o mundo era um só em si mesmo. Isso porque os seres humanos, em geral, não tem o luxo de fazer atos de fé, esperando contra toda a esperança. “Bem-aventurados os que ainda não viram, no entanto creem” teria sido uma premissa incompreensível para qualquer pessoa “primitiva”, e esse foi o caso mais provável com os Calusa. Seus espíritos e seu ambiente era um só, suas práticas religiosas e sua forma de vida eram uma só, não havia nenhuma razão para duvidar disso já que se baseavam nas coisas que constituíam sua realidade cotidiana. O Calusa acreditava em um mundo cheio de deuses, algo que não podemos nos conceber em nossa mentalidade tão ocidental e secularizada. Portanto, desafiar suas crenças era desafiar sua forma de vida. Fora a maioria dos povos de sua região foram os Calusa que conservaram suas crenças até o fim. Eles nunca foram conquistados, mas desapareceram gradualmente junto com o mundo espiritual que habitavam.”

No Ocidente moderno não vemos que são os nossos espíritos, ou melhor, a Terra, que nos alimentam. A civilização nos alimenta, a tecnologia nos veste, a moral nos protege, etc. Portanto, não é de surpreender que até mesmo os mais “radicais” ideólogos híper-civilizados voltem seus olhos para os sistemas do passado para se aproximarem destes mundos e encontrá-los dispostos. Não sentem qualquer conexão com eles, podem até respeitá-los, mas não será subjugada qualquer entidade numinosa nem fingirão ser seu mensageiro, etc.

Como então se concentra a ideia do “paganismo/animismo” (sim, há uma diferença, mas eu não me importo com esse ponto)? Como recuperar os “deuses”? É mesmo necessário, desejável, etc.? Sinto que Halputta Hadjo em seu ensaio já abordou esse ponto no final de seu trabalho, mas irei fornecer minha própria abordagem. O que segue é minha própria tentativa de ser um animista no século XXI, com todas as contradições no pensamento e nenhum destes rituais frescos. É minha atitude e acima de tudo minha compreensão de que provavelmente nunca terei o que preciso, porque sentir que é “preciso” é o problema em primeiro lugar.

Minha própria entrada na crítica contra a civilização vem da sensação de lugar. De fato, os livros influentes para mim nos últimos anos não tem sido sobre a teoria, mas sobre onde plantar meus pés agora e onde os plantei. Por exemplo, tive o grande prazer de traduzir o XVI comunicado de ITS da cidade de Torreón, Coahuila. Esta é a cidade de meus avós, minha mãe foi criada em um pequeno povoado nos arredores. Eu ia muitas vezes ali nas férias quando era criança, e a sensação que eu tinha é que era feio e muito pouco atraente. Um deserto sem muito o que ver, cheirava a animais de fazenda e havia construções de adobe em ruínas. Eu não esperava mais visitar aquele lugar. De fato, eu apaguei da minha memória a paisagem da minha cabeça. Então esta parte do comunicado soou verdadeira para mim:

“A Natureza Selvagem foi destruída, o futuro ideal é tão cinza e inerte. Desde esta realidade atacamos; somos individualistas travando uma guerra vingativa em nome da montanha derrubada para construir uma mega estrada, pela flora e fauna destruída em nome do progresso, em nosso ser levamos a essência do rio desaparecido por alguma grande represa.”

“Merecido tem Torreón e seus cidadãos, que com suas práticas colaboram para a perpetuação da civilização tecno-industrial. Você vê o horizonte e encontra uma colina negra artificial criada pela empresa “socialmente responsável” de nome Peñoles, água envenenada, o ar contaminado, fauna e flora aniquilada pela expansão sem freio que tem a urbe. Por tudo isso…., três mortos parece pouco para nós.”

Agora, não sou o maior admirador da prosa histriônica. Eu seguro o meu nariz e faço todo o possível para traduzir estas coisas. Mas o sentimento não está longe do que eu sinto. Embora eu seja o primeiro a admitir que a Natureza muda e muda com frequência, o que os humanos modernos fazem com o meio ambiente segue sendo repulsivo e enlouquecedor. Não é a mudança o problema, é a taxa de mudança juntamente com a arrogância atrás dela, a miopia, o fracasso em parar de danificar nosso ambiente que é apenas uma extensão de nossa ferida e da alienação entre pessoas. Cheguei à conclusão há alguns anos de que se você não pode amar a seu entorno, a água, as árvores, o ar que respira, etc., você não quer mais nada. E sim, para mim, neste mundo, ITS tem sentido. Chame-me de psicopata, o que quer que seja, eu não me importo.

Como os eco-extremistas de La Laguna eu olho para aquele lugar agora tão distante em minhas memórias de infância, mas também para o lugar onde eu cresci, para os rios e pântanos que secaram quando a água foi utilizada para irrigar os campos e ajudar o gado com sede. Olho os rios por aqui que os antigos *temporeiros dizem, eles costumavam ser claros quando estavam crescendo, você podia ver o seu fundo, mas agora são cinzentos e opacos. Olho os pinheiros e os ciprestes e aos poucos grandes ciprestes, grossos e sábios, atados pela idade e a ferocidade: o resto das velhas árvores que não foram cortadas para fazer a Grande Cidade que posso ver através de Ok’wata. O eco-modernista e o progressista me dirão para eu deixar a natureza selvagem ir, para não chorar, e para olhar para frente. Eu rejeito isso, eu nego com todo o meu ser. Enquanto outros híper-civilizados não veem mais que shoppings e parques, vejo uma cena de crime, de fato, a cena do único crime que vale a pena abordar. Minha existência e a existência dos que amo é baseada em uma mentira, uma ordem social que não tem o direito de estar aqui. Ou tem um “direito”, mas não merece meu respeito ou lealdade. Nem uma porção disso.

Admito que não posso ser animista como os povos primitivos foram. Sei que as estrelas são apenas bolas mortas de gás, que a lua é uma rocha fria em órbita ao redor da Terra, que a doença é resultado de micróbios e vírus e não de um poderoso Xamã a três aldeias de distância jogando feitiços, e assim sucessivamente. Eu sei destas coisas, mas porque eu as conheço é esse o problema. As conheço pelo sistema, para o qual sou um meio e não um fim. Eu sei disso por causa de um sistema que é racional quando se dirige a estas coisas, que pode manipular matéria inanimada, mas que não tem ideia de como organizar e controlar animais humanos reais em muitas circunstâncias. Eu as conheço por causa do sistema que põe em perigo a Terra por causa de milhões de dólares ou de ideologias estúpidas. Minha adesão a um “animismo” é minha preferência por não tê-lo conhecido. Claro, isso não é possível agora, não posso praticar lobotomia em mim mesmo para eliminar o conhecimento moderno. Mas eu posso estar bem consciente do preço e declarar que ainda não vale a pena.

Tenho uma excepcional formação teológica/espiritual, mesmo que seja em meu catolicismo ancestral e em outros caminhos espirituais que resolvi estudar aleatoriamente. Tenho que admitir que a adesão ao “animismo” me deixa frio porque sei muito sobre os rituais e os dogmas para ir inventando o meu próprio credo. Eu nunca serei capaz de evocar os deuses mesoamericanos ou amaldiçoar as pessoas com a cara fechada. Mas muito menos serei capaz de condenar as pessoas que fazem isso, muito pelo contrário. Pode ser que eu não seja capaz de crer que as árvores, as rochas, os cervos, os jacarés, as bagas, etc., tenham espírito, e todos estejam sofrendo devido a nossa aflição contra o planeta, por nossa negligência e ganância, mas eu reconheço que eu gostaria de alcançar isso. No entanto, tenho aqueles momentos de atenção, aqueles momentos de assombro e admiração que todos devemos ter diante da Natureza Selvagem, e isso é o suficiente para mim, suponho.

O apofático é da escola do pensamento teológico que afirma que só podemos nos aproximar do Divino ou o Transcendente através da negação. Ou seja, conhecemos o Divino não pelo que é, mas pelo que não é. Minha própria crença no animismo é que todas as ideologias humanas se desmoronam, todas são o resultado de se voltar para a própria cabeça, para as ideias e certezas de uma pessoa, em vez de partir. Os olhos estão destinados a ver as coisas, os ouvidos a escutá-las, as línguas para prová-las etc. As coisas são primárias, não as faculdades que as percebem e processam. Meu verdadeiro ser está fora de mim, e o sentido do homem está fora de sua própria história… Não posso concluir esta reflexão de melhor modo que citando o poema de Robinson Jeffers, “Credo”, em sua totalidade:

Meu amigo da Ásia tem poderes e magia, arranca uma folha azul de uma jovem borracha-azul

E olhando-a, coletando e acalmando

O Deus em sua mente cria um oceano mais real que o oceano, o sal, o real

Péssima presença, o poder das águas.

Ele crê que nada é real exceto quando o fazemos. Eu humildemente encontrei em meu sangue

Foi criado ao oeste do Cáucaso o misticismo mais duro.

A multidão está em minha mente, mas creio que o oceano na abóbada de osso está sozinho

O oceano na abóbada do osso: ali está o oceano;

A água é a água, o penhasco é a rocha, vem os choques e os flashes de realidade. A mente

Entre, feche os olhos, o espírito é uma paisagem; A desoladora beleza

A beleza das coisas nasceu ante os olhos e foi suficiente para si mesma; A dolorosa beleza

Permanecerá quando não haja mais coração para quebrar

* Povos antigos que sem auxílio tecnológico moderno faziam a previsão do tempo.

[PT – PDF] Revista Anhangá N° 2 – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul

Em destaque

É com tremendo orgulho criminal que apresentamos a segunda edição da Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul, lançada pelo Editorial Ponta de Lança. Desta vez a publicação sai à luz transbordando de valiosos conteúdos sobre a teoria eco-extremista, contendo 150 páginas que se dividem em 47 textos afiados que servem para alimentar as ânsias dos individualistas extremistas e contribuir com a prática terrorística na guerra contra o progresso humano.

Esta edição da Revista é, sem dúvidas, a maior contribuição até então para a teoria eco-extremista de fala lusófana, um aporte que se materializou através de esforços titânicos de cúmplices destas terras e de fora, uma referência ameaçante para aqueles e aquelas que querem materializar o terrorismo em suas mãos e atentar contra a civilização e os humanos que danam e são cúmplices dos ataques à Natureza Selvagem.

A propaganda eco-extremista não se detém tal como a expansão da Máfia ITS e grupos cúmplices.

Que este aporte semeie o Caos e o Terror no seio da civilização!
Adiante com a propaganda e atos eco-extremistas!

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CONTEÚDO

1. “Introdução”, por Editorial Ponta de Lança (pg. 1-3)
2. Tocaia (pg. 4)
3. Nós Juramos Vingar (pg. 5-6)
4. Pacto (pg. 7)
5. Revisitando a Revolução (pg. 8-11)
6. Primitivismo Sem Catástrofe (pg. 12-15)
7. Breves Reflexões de Uma Caminhada de Inverno (pg. 16)
8. Selvagens Politicamente Incorretos (pg. 17-19)
9. “Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica (pg. 20-26)
10. O Retorno do Guerreiro (pg. 27-35)
11. Apocalipsis Ohlone (pg. 36-38)
12. Um Poema de Guerra (pg. 39)
13. É o Momento de Beijar a Terra Novamente (pg. 40-42)
14. Nota Anônima (pg. 43-44)
15. A Ovelha Negra e o Lobo (pg. 45-46)
16. Autexousious Apanthropinization (pg. 47-49)
17. A Solidão e a Auto-realização (pg. 50-51)
18. Funeral Niilista – A Aniquilação da Vida (pg. 52-55)
19. Duras Palavras: Uma Conversa Eco-extremista (pg. 56-65)
20. Eu e Depois Eu (pg. 66)
21. O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante (pg. 67)
22. As Lições do Estado Islâmico Antes de Seu Colapso (pg. 68-71)
23. Uma Grande e Terrível Tormenta (pg. 72)
24. A Evolução da Dieta (pg. 73-76)
25. Um Falso Escape (pg. 77-78)
26. Lições Deixadas Pelos Incendiários (pg. 79-81)
27. Notas Sobre o Anarco-primitivismo (pg. 82-83)
28. A Noite do Mundo Infernal (pg. 84-85)
29. Halputta (pg. 86-87)
30. Animismo Apofático (pg. 88 – 90)
31. O Mito do Veganismo (pg. 91 – 93)
32. Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo (pg. 94-95)
33. Reflexões a Respeito da Liberdade (pg. 96-99)
34. Conversações Eco-extremistas: Uma Conversa Com Eco-extremistas Mulheres Desde o Norte do Continente (pg. 100-103)
35. A Guerra de José Vigoa: Um Breve Discurso Sobre o Método Eco-extremista (pg. 104-109)
36. Assassinando a Nosso Civilizado Interno (pg. 110-113)
37. (Roma Infernetto – “Mundo Merda”) – Profanação e Devoração (pg. 114-115)
38. Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez (pg. 116-118)
39. Guerra Oculta (pg. 119-123)
40. Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3 (pg. 124-128)
41. Humanos (pg. 129)
42. “Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã (pg. 130-135)
43. Por que te amar? Breves Reflexões Noturnas Sobre o Amor (pg. 136-137)
44. Pensamentos Sobre a Moralidade (pg. 138-139)
45. Ódio Misantrópico (pg. 140)
46. Moralidade (pg. 141-142)
47. Fazendo Peróxido de Acetona (Peroxiacetona, “Mãe de Satã” ou também TATP) (pg. 143-149)

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EDITORIAL

“Para nós, o Watu (Rio) é uma entidade, não uma bacia hidrográfica igual os brancos falam. Assim como lá na Índia tem o Rio Ganges, que é sagrado e as pessoas entendem isso, nós temos o Watu, que sustentou durante muito tempo a nossa existência e o nosso imaginário. Mas aqui no Brasil, rios podem virar esgoto, porque eles são vistos só como um corpo de água. […] As crianças hoje olham e perguntam para aos pais: “O Rio morreu? O Rio acabou?”. Para uma infância isso é uma marca que não tem como recuperar […] Olhar para a Terra, o Rio e a Floresta como mercadoria é um engano muito grande que vai nos enterrar a todos.”, Krenak Ailton sobre a morte de Watu pelas mãos das mineradoras Samarco e Vale

Pindorama — o regresso da conspiração eco-extremista desde este lado do Sul era já prometido, os tremores de terra que recentemente aterrorizaram os civilizados por aqui foram as reações animistas dos passos dados pelos guerreiros da Máfia ITS, novamente rumo à indiscriminada caçada nas extensões da antiga Terra das Palmeiras. Repousamos por alguns ciclos lunares entocados nas sombras e a escuridão. O motivo é porque parte de nosso Editorial se enfadou de uma investigaçãozinha esdrúxula de nome Érebo. Contrariamente ao que esperavam, não nos foi ameaça e então outra vez cá estamos, orgulhosamente dando vida a este projeto propagandístico iniciado há um ano, a Revista Anhangá – Em Guerra Contra a Civilização e o Progresso Humano Desde o Sul, que agora entra em sua segunda edição.

Devido uma série de acontecimentos o primeiro número desta publicação foi lançado inconcluso, mas agradecemos aos wachos que tomaram a importante decisão de lançá-lo. Longe das condições em que conceberam a versão inaugural do projeto, sai agora o N° 2 desta Revista contando com mais de 100 páginas munidas de escritos que nutrem a teoria e prática do individualista eco-extremista. Esta edição nasce de um tremendo esforço cúmplice de manos e minas afins do Sul e Norte. O período entre a primeira publicação e esta é marcado por uma significativa expansão dos grupos ocultos aderentes a ITS, que além de rugidos e mais acometidas pelo Sul, surgiram e cresceram também nas terras do Velho Continente, aquele onde pisaram os bárbaros, os vikings, que com ferocidade e paganismo implantaram o terror no cerne das civilizações europeias. Os esporos do eco-extremismo foram levados por fortes ventos e cruzaram as grandes águas até caírem nos solos da Grécia, onde caminha agora Seita Iconoclasta e Caçadores Noturnos; Reino Unido, terra maldita de Misanthropos Cacoguen e Espanha, extensões de Criminosos Animistas. Já pelo Sul e Norte o ânimo dos guerreiros não se detém, contamos com proximamente uma dezena de mortes em mais de 50 diversificados ataques; pacotes incendiários e explosivos abandonados indiscriminadamente estraçalhando a carne e impondo o terror; incêndios selvagens contra máquinas, instituições e objetos; explosivos abandonados contra alvos específicos e exitosamente detonados; ataques armados contra seguidores de cristo e montanhistas deixando mortos e crivados de bala; ataques armados contra estruturas de megaempresas; ameaças de bomba, envenenamento e maldições; punhaladas homicidas contra sacerdote e funcionário de universidade; ataques bombistas contra universidades e centros de pesquisa; tiro certeiro em crânio de vice-reitor de instituto tecnológico; assassinato de drogada e tantos outros que por questões estratégicas não foram reivindicados publicamente. Como apontam os meios gringos já somos uma ameaça terrorista internacional crescente no mundo. O que se originou lá pelo ano de 2011 no México se espalha pelos quatro cantos como uma maldita praga e agora tem presença em diversas cidades de vários países em três continentes. A Máfia Eco-extremista é nutrida pelo ódio catastrófico contra o progresso humano que destrói a tudo o que é Selvagem, contra o progresso civilizado que exterminou os nossos antepassados, suas crenças e modo de vida, contra a lógica ocidental de domesticar e manipular o que é silvestre, contra o esquematizado pensamento religioso moderno e o racionalismo ateu que deprecia e destrói o senso animista de sentir, ver e entender o mundo, e sobretudo pela serenidade e Caos que habita dentro de nós, a força antiga que nos empurra a reviver os adormecidos instintos e recordar os nossos antepassados e que um dia fomos parte de tudo isso, do entorno e vida selvagem, antes da chegada dos civilizados.

A alguns de nós nos enfurece saber através de nossos avós e bisavós que há três gerações passadas fomos forçados a abandonar nossas terras ancestrais e submetidos a sobreviver marginalmente no entorno domesticado enquanto as florestas eram cortadas, os montes explodidos e escavados e os rios barrados e drenados; nos dói não poder chamar o que vemos ou comunicarmo-nos através do nosso idioma akwén porque mataram-no por dizerem que falar a nossa própria língua é sinal de demência e atraso, nos entristece saber que nosso entendimento foi completamente entorpecido por costumes e crenças alheios aos que praticamos desde tempos imemoriais e que em seu lugar nos empurraram goela abaixo o cristo. Por tudo isso é nossa guerra, por nós mesmos, pelos Antigos, pelo pouco que resta do entorno selvagem e pela certeza de que os atos daqueles que assassinam os Espíritos da Natureza não quedarão impunes. Landerretche soube muito bem disso após os wachos cúmplices da Horda Mística do Bosque enviarem a seu endereço um pacote explosivo que detonou em suas mãos e que, por sorte [dele], não o matou. O bastardo é um dos cabeças de uma das maiores mineradoras do mundo. Certeza que seu nome segue entonado nos cânticos de guerra dos mafiosos e que cedo ou tarde a vingança outra vez toca a sua porta. Samarco e Vale são outros dois monstros mineradores responsáveis por causar destruições de proporções colossais como a do Rio Doce e tantas outras, por isso a citação do Krenak. Outro motivo para a citação é porque no passado e por aquela mesma região foi onde centenas de nossos bisavós foram forçados a abandonar as suas terras. Os rios, as florestas, os solos, os animais, os montes, tudo era morto ou tomado com a chegada do progresso e dos civilizados e com isso morria também parte de nós. Em vista disso não nos resta mais nada senão a guerra de vida ou morte, somos inadaptáveis a este mundo moderno; não apenas por sensatez, mas sobretudo por instinto e pelo chamado primitivo daqueles que vieram antes que acudimos. Caminhar nas urbes sentindo através do chão a respiração ofegante da Terra sepultada pelo cimento não é algo que deixaremos passar despercebido, por isso regressamos com o segundo número da Revista Anhangá, esperando que o material contido nesta publicação nutra e muna o imaginário e a força de tantos outros individualistas guerreiros e as guerreiras, tal como Regresión, Ajajema, Extinción e Atassa tem feito.

Nesta edição serão encontrados escritos sobre a espiritualidade eco-extremista, potencialidade do individualismo, debates e críticas sobre moralidade e valores civilizados, reflexões sobre humanismo e violência indiscriminada, escritos sobre veganismo e a evolução da dieta, críticas a ideologias esquerdistas e a crença numa revolução, escritos sobre reavivamento de memórias e práticas guerreiras, cosmologia pagã, apontes sobre misantropia e extincionismo, apontes sobre primitivismo, lições tiradas de grupos terroristas, banditistas, de assaltantes e movimentos de libertação, além de vários poemas, canções, textos filosóficos, manifestos pessoais, um manual para a fabricação de Peróxido de Acetona e uma análise crítica desde um olhar eco-extremista da mais recente obra de Theodore Kaczynski.

Como um órgão difusor da Máfia Eco-extremista esperamos que o material contribua não só para aqueles guerreiros e guerreiras que estão de pé e em guerra contra o Sistema Tecno-Industrial, mas também à aqueles e aquelas tendentes à selvageria, aos criminosos, antissociais, egoístas, misantropos, anarquistas caóticos, niilistas terroristas e tantos outros que semeiam no aqui e agora o Caos no interior desta civilização, que atacam seus valores, suas estruturas e instituições e também os seus engenhos tecnológicos.

Com profundo respeito pedimos a Yayá que desde sua gruta nos dê sabedoria em nossos movimentos. Certamente quando os civilizados escutarem o assobio estridente do vento, saibam que desde a tocaia fomos convocados por este furioso espírito para atacar e matar. Por vingança, apenas. Tais como as catástrofes somos uma das respostas da Natureza Selvagem a toda esta artificialidade, porque também somos parte dela e de sua reação. Indiscriminados bravios desprovidos de valores morais, como as tempestades, terremotos, furacões e outras catarses que não elegem classe social, sexo ou cor na hora de suas manifestações homicidas. E para finalizar queremos carinhosamente agradecer aos manos e as minas cúmplices destas terras e de fora, a Nẽn-pém, XXX, Urucun, Xale, aos manos da Revista Ajajema e alguns outros que dispensaram citações, que ademais de contribuírem de algum modo para o seguimento desta revista são também fonte de grande inspiração; alguns geograficamente mais próximos, outros mais distantes, mas todos na mesma guerra contra a civilização e defendendo com garras o mesmo projeto, a Máfia ITS.

Pedimos que os Espíritos da Terra acobertem os passos dos afins de sangue e de guerra e que a terrível fúria de Yayá recaia sobre aqueles que destroem a Natureza Selvagem.

A Tocaia segue até a tua morte ou a minha… GUERRA!

Grupo Editorial Ponta de Lança

Outono de 2018

Contato: pontadelanca[at]pm.me

Busca o Teu EU Espiritual

Tradução ao português realizada por Anhangá do texto “Busca Tu YO Espiritual”, da terceira edição da Revista Ajajema. Texto assinado por XL.

Desde pequeno eu tive um sonho frequente, e não sei bem se é um sonho ou um pesadelo, mas isso pouco importa. Nele eu sinto que sou uma pequeníssima parte de um todo e que este todo me absorve, e então me sinto impotente, sinto que caio por uma das bordas deste todo e que nunca chego a um final, e logo me afundo em desespero e as ânsias me consomem até que acordo. Este sonho eu tive desde muito pequeno. Já em minha adolescência foi frequente a chamada “paralisia do sono”. A ciência a explica como o momento em que o seu cérebro se “apaga” ao dormir, mas o seu corpo segue com algumas funções como a visão e o olfato, só que é impossível se mover. Associam isso ao cansaço excessivo, etc. Se você nunca passou por isso, deixe-me lhe dizer que no início é uma experiência assustadora, perceber que você pode mover os seus olhos, mas é incapaz de poder mover um só dedo ou de gritar, realmente é algo bastante perturbador. Minha família sempre viu isso como algo do diabo. Vindo de uma família religiosa, é natural que associem estas coisas com um castigo de Deus por eu ter me distanciado de seus mandamentos, etc. As etapas que tive em minha vida me deixaram valiosos ensinos que formaram as crenças pessoais que defendo agora na atualidade. Desde que eu me lembro sempre fui uma pessoa espiritual, sempre à procura de algo mais além, tentando me preencher com a sabedoria dos mais velhos ou de outras maneiras, através do que dizem os livros sobre crenças animistas ancestrais, tanto que cheguei a viver com pessoas que me abriram a visão a respeito disso.

Confesso que quando eu era mais jovem e me declarava anarquista, negava com todas as minhas mais fracas forças a espiritualidade, confundia a religião com as crenças, e ao mesmo tempo em que levantava a bandeira do ateísmo racional e irracional que alça a ciência moderna, em algum momento me dei conta de que tudo isso era um lixo, e que enquanto eu reivindicava estas posturas distantes eu estava negando a mim mesmo, estava negando a minha curiosidade, a minha vontade de experimentar e de explorar caminhos insuspeitados em companhia do Inominável. Então me distanciei destas posturas puritanas e me pus a conhecer mais, a deixar de lado o vício civilizado que dita que porque estamos nesta era “híper-moderna” nós “transcendemos” a crença nas forças da natureza. No começo era difícil para mim a ideia de que a chuva é algo mais que um processo hidrológico, que o fogo não é apenas parte de uma mistura de condições que fazem com que a chama seja produzida, ou que a escuridão é “simplesmente” escuridão. Mas com o decorrer dos ciclos eu aprendi a ver tudo isso e mais através de uma visão espiritualizada, embora não totalmente, eu devo esclarecer.

Foi há muito tempo atrás durante estes episódios de paralisia do sono que, enquanto eu me encontrava sem mobilidade, senti claramente a presença de um ser que me pegava pelas costas e me apertava com bastante força. Vi que tinha a pele escura e percebi que os seus braços estavam cobertos por cicatrizes. Logo sucumbi à situação e simplesmente me deixei levar. No começo senti medo, mas depois a paz me invadiu, então a partir daquele momento estes episódios pararam de me causar medo.

Anos mais tarde, em uma sessão com pessoas que levam a sério a prática da Santeria, tive a oportunidade de realizar um ritual enquanto um jovem era possuído por um guia (como eles dizem). O guia naquele momento era um ancião que formava parte de uma tribo de nativos amazônicos massacrados por europeus. Ele me convidou a fumar um tabaco natural com ele. O guia não falava espanhol, era uma especie de português arcaico misturado com ruídos parecidos aos chamados “clicks” dos Bosquímanos. Lembro-me que o quarto estava coberto por fumaça de tabaco, um silêncio intrigante reinava ali, algumas pessoas borrifavam água em torno de nós, uns mantinham a cabeça baixa, já outros viam expectantes o panorama, e eu, inexplicavelmente entendia o idioma do guia. Ele me disse muitas coisas, das quais eu não posso falar, mas me surpreendeu como ele sabia de algumas coisas que apenas eu sabia, como aquele episódio em minha adolescência com a presença noturna que eu mencionei acima. O guia me deu o seu nome, me disse que era um antepassado meu da África, me disse que as suas cicatrizes eram porque havia sido um bravo guerreiro, que eu era o seu reflexo e que não deveria rejeitá-lo. O jovem possuído despertou e pediu água…

Uma anciã apontou para o céu e disse: “Há aqueles que tentam ir mais além, uma maldição recairá sobre as suas cabeças”. Estas palavras à primeira vista não me pareceram muito contundentes, era apenas um comentário de uma curandeira com quem eu estava aprendendo a arte da cura por meio de ervas ancestrais, mas neste mesmo dia cheguei eu em casa e fui ver algumas notícias, foi quando vi que um astronauta (creio que era italiano) da Estação Espacial Internacional havia sido afetado pelo Desconhecido. Em um caminhada rotineira o capacete do astronauta começou a se encher de água, água que saía do Nada, então ele teve que ser atendido medicamente já que quase se afogou. Os engenheiros especializados, os físicos, etc., não puderam dar uma explicação concreta sobre o ocorrido (até agora). Foi então que as palavras da anciã ressoaram em minha cabeça, validando o que foi dito. Os humanos modernos desafiam o Selvagem e pensam que todos os caminhos são permitidos para eles, se aventuram naquilo que pensam conhecer, mas na verdade não conhecem uma única parte. A imensidão do Desconhecido é algo inexplicável, as suas obras são indizíveis, é incompreensível para quase todos os humanos modernos, apenas alguns poucos compreendem que não somos o centro do universo, mas uma parte dele.

“Há pessoas que tem mais trevas que luz em seu interior, mas você tem os dois quase no mesmo nível”, estas palavras foram as que uma vez me disse um ocultista durante uma conversa à meia noite em uma Lua Nova. Velas negras iluminavam símbolos estranhos, havia cheiro de enxofre e um som de metais se chocando nos acompanhava. Dentro da cabana era possível sentir uma atmosfera pesada, densa como névoa. Lá fora, a floresta estava em silêncio, cheirando a puro gelo, símbolos foram acesos com álcool. Você alguma vez já caminhou sozinho no bosque pela noite? Você já sentiu alguém ou algo te observando naquele momento? Tive esta sensação aquela vez, não sentia medo, mas um pouco de ansiedade que lentamente foi desaparecendo. Esta noite era muito escura, nem sequer podia ver as minhas próprias mãos. Estávamos sentados com os olhos fechados enquanto ele falava em línguas estranhas e às vezes gritava, as mãos suavam, os ouvidos estavam atentos, havia um frio nos ossos. O ser humano moderno está muito ocidentalizado, pensa que estes tipos de experiências são “ruins”, temem ao Desconhecido. Eu não o temo, aprendi a não temê-lo, eu o respeito. “Todos temos um Abismo, é necessário mergulhar-nos nele, e quando o fizermos, poderemos observá-lo e, ao mesmo tempo, saber que o Abismo também nos “vê”.”

As vivências e experiências que um individualista chega a ter centrando-se na espiritualidade são, muitas das vezes, resultado do risco de saber algo além, de sair do cofre em que nos metemos, de romper as crenças cotidianas impostas culturalmente. No começo, parece ser um mundo bastante hostil, mas quando você interage de maneira mais íntima com tudo isso a recompensa é grandiosa. Atreva-se, busque o seu Eu espiritual.

XL.