[INDONÉSIA] Massacre Ancestral: Mais de 2.000 Mortos

Havia sido informado dias antes em ME sobre o terremoto e posterior tsunami que afetou uma das ilhas da Indonésia. Fomos testemunhos da completa superioridade da Terra sobre a civilização, de como a Natureza Selvagem desatou toda a sua vingança contra os assentamentos da humanidade. Havíamos informado e o faremos outra vez, para regojizar-nos com a desgraça humana, para regojizar-nos com o Caos único da Terra.

Naquele momento havia sido informado 500 mortos e a cifra agora ultrapassa as 2 mil vítimas humanas fatais. Lembramos também que houve uma erupção vulcânica, tornando mais magistral a mensagem de desolação e impotência da humanidade ante a esmagadora força da Terra.

Salve à Caótica Natureza Selvagem!

Pela fúria das erupções, dos terremotos e ondas gigantes!

Transcrevemos parte de uma nota da imprensa, como registro do Caos:

“É por isso que fugiram às pressas para as colinas mais próximas. Foi isso que fez Melsi Pangalo. A jovem já está há cinco dias à sombra de uma árvore junta a uma extensão de um monte de escombros, madeiras e móveis onde antes era sua aldeia: Loli Saluran. Sobre sua perna está dormindo o seu filho de dois anos.

“Todos saímos correndo para as montanhas. Passamos seis horas lá e depois descemos. Então descobrimos que quatro pessoas que não haviam fugido morreram. Uma era minha avó. Ela tinha 60 anos e não podia correr”, relata.

Os manguezais secaram e a costa -antes propícia para o banho- está repleta de árvores arrancadas, postes de eletricidade e restos de todos os tipos.

Quem anda pelo porto pode dar de cara com meia dúzia de barcos encalhados ou submersos, e um -o Haji Anti Ismael- embutido no meio das ruas. “Nós estávamos ancorados a vários metros da costa e quando o tsunami chegou, ele nos empurrou contra a cidade”, diz gritando da embarcação, que segue usando como abrigo temporário.

Recorda que as ondas começaram a balançar o navio de pesca de forma violenta. Ele e os outros quatro membros da tripulação se agarraram ao mastro e começaram a gritar “¡Ala Uakbar! ¡Ala Uakbar!” (“Deus é grande”). “Eu pensava que todos nós iríamos morrer”, acrescenta.

No bairro de Tanjun Gato, perto do mar, morreram cerca de 40 pessoas. Uma dúzia delas, crianças que estavam em um colégio que acabou sendo engolido pelo mar.

A área é uma sucessão de habitats semi-afundados no oceano. Um prédio de quatro andares está totalmente escorado em meio à água, à espera de outra réplica que acabe com o que começou o movimento sísmico.

“Uns 20 a 30 metros de litoral sucumbiram com o terremoto. Um armazém, uma estrada… Desapareceram com a água. Antes na praia a água chegava até o seu joelho. Agora não há praia, mas um desnível de 30 metros.”, diz Wawan Tuliabo, de 26 anos.

O rapaz descreve uma área em que novas casas foram construídas ganhando espaço ao mar. Foi o mesmo terreno que ele voltou a recuperar no dia 28.”


[PT – VÍDEO] Catarse – Dias Melhores Nunca Virão

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Recebemos esta mensagem e este impactante projeto por e-mail de alguém chamado “Erva Daninha”. Esperamos que com estes recortes a mente de cada ouvinte seja contaminada de extremo pessimismo e desejo de vingança. E desde já incentivamos as iniciativas propagandísticas misantropas e anti-humanas anônimas!

Adiante, individualistas propagandistas!

Este projeto é sobre o agora, o mesmo agora de há três anos atrás quando ele foi produzido e esquecido. Esta edição é sobre os gritos de dor de um planeta que morre pelas mãos de um animal chamado humano e indiferente com a beleza do mundo. Juntei todas as minhas forças naquele momento para reunir o que encontrei de mais grave e pessimista sobre a situação ecológica da terra, recortes que apenas afirmam que já acabou para o humano e a civilização, não há mais volta e ele será punido com uma catástrofe extintiva que o varrerá deste planeta. As águas, os solos, as florestas, os outros animais, todas estas coisas sagradas significam nada para o humano civilizado adorador da tecnologia moderna. Coisa alguma poderá mudar o curso que a nossa espécie traçou para si mesma. Não há esperanças nem revoluções, tampouco messias que poderá deter a catarse da natureza selvagem. Merecemos o nosso próprio extermínio porque miseravelmente brincamos de deuses sem possuir grandeza para isto. Os dias por virem são pessimistas porque nós fizemos do agora o fim. Não haverão dias melhores.

Erva Daninha.

Tendências Cristãs Pseudo-humanistas

Tradução de “Humanist pseudo-christian tendencies”. Traduzido e enviado por Anhangá. Disponível também em espanhol e inglês.

Li o texto “Tendências Misantrópicas Selvagens” há alguns meses em seu espanhol original. Embora eu ache este ensaio muito mais justo que muitas das críticas feitas nos últimos dois anos, há questões expostas que creio que seria benéfico abordar. Limitarei a minha discussão aos temas Natureza Selvagem, autoridade e misantropia.

Natureza Selvagem

Sobre este assunto existe o ensaio “O que queremos dizer quando falamos “natureza”?“, que é muito fácil de encontrar. Mas para a questão, citarei uma passagem de uma entrevista realizada por John Jacobi a um eco-extremista:

“… estou consciente de que não sou o salvador da Terra, que a única coisa que pode ser “salva” é a minha própria vida e a maneira como eu me relaciono com o meu grupo de afinidade. A Natureza Selvagem sou EU e meu grupo que se agarra ao ato de não deixar morrer os instintos animais que ainda possuímos. Nos despojaram de tudo, até mesmo de um lugar no qual poderíamos habitar livremente, nos distanciaram de nossos ambientes selvagens, de nossas terras ancestrais e sepultaram-nas com cimento, então a única Natureza Selvagem sou eu e meu grupo, reselvageá-la é o que costumo fazer.” (Trecho de “Diálogo entre um “Eco-extremista” e um “Selvagista”“)

Já sobre o assunto de espíritos/deuses, o seguinte texto de um eco-extremista na Argentina eloquentemente explica a sua defesa pessoal do animismo personalizado:

“Não me surpreende em nada vindo de um grupo de indivíduos tão apegados às lógicas civilizadas, que aderiram a um dos pilares do pensamento empírico e mecanicista, como é o ateísmo. O que dizer sobre este assunto que ainda já não tenha sido dito? Nós, os e as eco-extremistas, temos muito bem destacadas as nossas crenças e visões espirituais, criamos as nossas deidades com base em experiências pessoais na Natureza Selvagem, e veneramos de forma animista os espíritos que habitam nela, como fizeram os nossos antepassados séculos antes da invasão. Estas deidades agarradas à Terra, ao primitivo, nos acompanham e nos guiam a todo momento, nos empurram à confrontação com a mega-máquina civilizadora, nos provém de força e mantém ativo nosso indômito caráter guerreiro. Por todas estas razões e algumas outras, é que rimos dos ateus e seu cientificismo humanista, daqueles e daquelas que baseiam a sua percepção da realidade em uma visão completamente fria, matemática, mecânica, robótica, artificial, etc. Nós não nos importamos que ante as nossas crenças venham a tachar-nos de tolos, crédulos ou de românticos, isso já fizeram os colonizadores no passado, e o fazem a todo momento os híper-civilizados que simplesmente não entendem o idioma do vento, não percebem os sussurros dos vales, o grito dos vulcões ou a sabedoria das árvores. A tudo isso nos dirigimos ao invés de máquinas e robôs, nós preferimos adorar paganamente o espírito da serpente em vez da deusa da razão e seus fiéis discípulos, a ciência e a tecnologia.” (De “Uma Defesa Conceitual do Selvagem: Uma Resposta à Semente de Libertação)

E, em comparação, incluímos um texto de um eco-extremista/niilista do continente europeu:

“Aqui na Europa há também grupúsculos de terroristas niilistas, criminosos individualistas e extremistas e misantropos vivos caminhando, e lembramos mais uma vez que alguns destes grupúsculos foram até pouco tempo próximos a vocês e seus ambientes de podridão, que sabemos quem é quem e por onde anda cada um, que a violência e o atentado para nós não é algo novo, mas uma prática que se tornou uma extensão do próprio ser, então tem sido parte de nossa vida durante alguns anos já… nós não temos “deidades pagãs”, o que temos são armas, explosivos e informação, então, vigiem as suas palavras, suas valentias de internet podem custar caro na vida real.” (De “Algumas Notas Sobre as Recentes Difamações e Breves Esclarecimentos“, O Inimigo Interno)

Os anarquistas autores do texto, certamente, se sentirão mais confusos após ler esta citação, já que nela é expressada um desgosto com a postura contraditória de obedecer aos deuses pagãos e ao mesmo tempo aos próprios caprichos. Dos trechos que citei, o principal ponto de partida é que a ideia de “Natureza Selvagem” como uma entidade autônoma e transcendental não é um dogma obrigatório do eco-extremismo, nem mesmo está imposto especificadamente em nenhum sentido. Um indivíduo pode estar de acordo com ITS e grupos afins, embora não acredite nisso em absoluto, ou em alguns casos, estando em desacordo (ver, por exemplo, o comunicado emitido pelo “Grupúsculo Indiscriminado Tendendo ao Selvagem”, de Março de 2017). Isso não é retroceder: aqueles que prestam atenção sabem disso há muito tempo. Em nosso atomizado mundo moderno, todas as crenças são individuais e pessoais, e não se traduzem bem quando são impostas ou mesmo comunicadas aos outros. A Máfia Eco-extremista é uma frente unida de individualistas que aderem a crenças pessoais que estão em confrontação com a humanidade moderna. Este pode não ser um alvo ideal para anotar pontos polêmicos fáceis, mas tem sido o caso durante um par de anos.

De qualquer forma, darei minha própria interpretação pessoal do que acredito, sendo o escritor prolífico que sou. Não creio que a imanência e a transcendência com respeito a entidades espirituais sejam inerentemente opostas. Em muitas tradições espirituais, inclusive os pagãos europeus e até certo ponto da teologia cristã mística, adorar deuses transcendentes é realmente um exercício para retornar ao que você realmente é. É um exercício de autoconhecimento. Embora isso possa ser facilmente corrompido em cultos cívicos e alienados, o verdadeiro mago na antiguidade utilizou o ritual e o simbolismo para ascender à divindade (ver, por exemplo, o Corpus Hermeticum). Na verdade, esta foi a base da filosofia moderna, como no Rosacrucianismo de Descartes e Hegel, e a obsessão com a alquimia até Isaac Newton (a alquimia é mais uma transformação pessoal que a mudança de metais básicos a precisos, cf. Carl Jung). Portanto, é obtuso citar Stirner (um discípulo de Hegel, mesmo que ele fosse um rebelde), mas não se dar conta das origens “sacras” de seu próprio discurso filosófico. Continuo afirmando que a “libertação” é um conceito intrinsecamente religioso, não importa o quanto tente fugir de seu passado cristão.

Portanto, é um pouco ridículo pensar que esses eco-extremistas que aderem a uma disciplina espiritual estejam fazendo igual os cruzados quando seguiam a voz do Papa e os jihadistas escutando os gritos militantes do ímã local. Ver a devastação da Natureza Selvagem, sua pavimentação, sua exploração e sua desaparição poderia ser uma experiência espiritual negativa o suficiente para desencadear um despertar em alguns indivíduos (ouvir um chamado, talvez). Eu senti isso. Talvez o/os autor/autores não o sentiram, e talvez acreditem que alguns estão tomando isso mais literalmente do que deveriam. Há muito tempo deixei de considerar a humanidade como o único agente convincente que poderia convocar a minha lealdade, e tampouco acredito muito em mim mesmo para crer que sou o fim absoluto e o fim de tudo (escrevo mais sobre isso abaixo). Não invejo aqueles que tomam as suas deidades literalmente, mesmo que eu não o faça. Em minha opinião, me adiro ao Desconhecido. Às vezes os chamo de “Deuses Escuros”, aqueles que restaram da devastação que é a modernidade, talvez agora sem rosto, sem voz, mas uma presença, no entanto. Não tenho ideia de como adorá-los, ou se eles deveriam ser adorados. Eles não “falam” comigo, mas sei que estão ali, esperando, quebrando os moldes da ilusão civilizada.

Meus deuses estão mortos. A única coisa que falta é matar os seus. Mesmo que esses deuses sejam abstrações como “Humanidade”, “Liberdade”, ou qualquer outra coisa.

Autoridade

Claro, voltamos ao assunto da dominação e da autoridade. Ele/os autor/autores anarquista(s) enfatizam os argumentos cansativos do caráter anti-natural da autoridade, e assim por diante. (“O homem nasce livre, e em toda parte é posto a ferros…”. Muito obrigado, Rousseau.) Agora vou citar um par de passagens que nos ajudarão a abordar este tema (de novo):

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.” (De “Já Haviam Se Atrasado: Reação Selvagem em Resposta a “Destrua as Prisões“)

– E também:

“Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.” (De “Selvagens Politicamente Incorretos“)

Em um “gol contra” um pouco humilhante, mas talvez involuntário, os autores anarquistas citam os Ona da Terra do Fogo sem se dar conta de que eles, sendo simples caçadores-coletores, tinham uma sociedade baseada no patriarcado:

“A posse patrilocal e patrilinear dos territórios concedeu aos homens o direito exclusivo sobre a terra, que era importante não tanto para os terrenos de caça do guanaco ou outra fauna e os recursos naturais. Mesmo quando um homem passou a residir na linhagem de sua mãe, seu pai e seus tios continuaram sendo as figuras dominantes. O fato de que a fabricação de bens, ferramentas e artigos domésticos possa ser ensinado a todas as crianças e adultos jovens, permitiu aos produtores dominar a economia e manter um nível igualitário de apropriação e produção, frustrando assim qualquer possibilidade de subordinação, exceto a sexual. Esta “exceção” equivale a uma ruptura na sociedade que torna impossível caracterizá-la como igualitária. Poderia ser chamada de “igualitária patriarcal”, mas este rótulo parece ser contraditório ou enganoso.” –Anne MacKaye Chapman, “Estrutura Social e Econômica da Sociedade Selk’nam (“Selk’nam” é outro nome para os Ona)

O mesmo caso ocorre em uma antiga cultura “simples” como a dos povos aborígenes australianos. Embora exista uma grande controvérsia sobre se os europeus exageraram na misoginia dos povos colonizados “não contatados”, há evidências menos anedóticas de que a “dominação” e a autoridade eram uma realidade entre os caçadores coletores “materialmente simples”:

“O paleopatologista Stephen Webb publicou em 1995 sua análise de 4.500 ossos de indivíduos do continente australiano que remontam 50 mil anos. (As inestimáveis coleções de ossos da época foram entregues oficialmente às comunidades aborígenes para que promovessem um novo enterro, o que deteve os estudos de rastreamento). Webb descobriu taxas de lesões e fraturas muito desproporcionais nos crânios das mulheres, sugerindo ataques deliberados e muitas vezes ataques por trás, talvez em disputas internas. Nos trópicos, por exemplo, a frequência de mulheres com traumatismo cranioencefálico foi de aproximadamente 20-33%, frente a 6,5-26% para os homens.

Os resultados mais extremos foram na costa sul, de Swanport a Adelaide, com taxas de traumatismo cranioencefálico feminino de até 40-44%, sendo duas a quatro vezes a taxa de traumatismo masculino. Nas áreas desérticas e da costa sul, 5-6% dos crânios femininos tinham três lesões cranianas separadas, e 11-12% tinham duas lesões.” (de “A Longa História da Violência Aborígene – Parte II, recuperado do site The Quadrant“)

Claro, poderíamos citar todos os tipos de exemplos brutais de abusos misóginos, bem como o desenvolvimento de hierarquias entre os caçadores-coletores como no norte da Califórnia e nos construtores de montículos da Poverty Point no que é agora Luisiana…. Não importa. O ponto é indicar que não somos afetados pela torpe tentativa de nos explodir com o nosso próprio petardo. O eco-extremismo não desafia a “dominação” ou autoridade do passado, nem finge que pode aboli-las para sempre. É uma ideia muito tola de se apegar em qualquer caso.

Digamos o que é óbvio: os eco-extremistas e os niilistas misantropos não mostram adesão a qualquer autoridade humana tal como existe atualmente, e sei também que nem poderiam fazê-lo em um futuro previsível. A própria natureza do que significa ser um individualista eco-extremista/niilista exclui ipso facto qualquer tentativa de criar uma autoridade transpessoal no presente como é comumente entendido. Talvez ITS tenha uma hierarquia militar que se estenda para além das fronteiras e continentes, mas eu duvido muito. Tenho entendido que se trata de um grupo de individualistas comprometidos em uma guerra assimétrica. Qualquer conversa sobre “autoridade” no sentido comum do termo é meramente hipotética.

Quando os eco-extremistas falam de autoridade, eles o fazem de maneira puramente instrumental. A autoridade em seu uso (para além dos aspectos “espirituais” discutidos anteriormente) tem mais semelhança com a estrutura de uma gangue ou máfia e menos a ver com um governo ou um partido político. Não há outra maneira de apoiar outro tratamento do assunto até onde eu possa ver. Se na execução de um crime alguém está “no comando”, a vida dos delinquentes poderá depender de que todos façam o que diz esta pessoa. Se uma determinada pessoa alcança um conhecimento espiritual superior ou o conhecimento de ervas medicinais, essa é a única autoridade que o eco-extremismo parece estar falando. Ao contrário do/dos anarquista/anarquistas autor/autores, eles não tem a ilusão de “construir novas formas de relacionamento entre todos os seres que habitam este mundo e estes com a Terra”.

Você pode pensar que, porque algumas pessoas falam que estão livres da “dominação”, o sangue delas não é vermelho como o dos demais. É bastante lamentável que um animal fique doente e talvez viva quatro anos e meio para falar sobre estar livre de “toda a dominação”. Alguém poderia falar também sobre estar livre da gravidade ou da segunda lei da termodinâmica. Estamos limitados por todos os lugares em nosso contexto, desde quando atravessamos a rua até o que podemos comer no café da manhã. Os eco-extremistas têm o objetivo muito simples e compreensível de se vingar e ver as coisas arderem e serem destruídas. A “destruição de toda autoridade” nem sequer parece significar algo em concreto, e muito menos possível.

“Somos soldados, não se pode escapar deste fato. Soldados no sentido tradicional e soldados em um sentido diferente. Somos guerreiros espirituais, temos uma causa ímpia para colocar um fim na humanidade. Não estamos lutando para preservar nações ou governos. Estamos lutando para retornar a nossos deuses, para nos tornarmos eles. Somos soldados em um sentido tradicional porque esse tipo de resultado não acontecerá sem combate. Tomar a ofensiva é a única coisa nobre que pode ser feita. Goebbels declarou ao povo alemão quando estavam sendo invadidos, “o ódio é nossa oração, a vingança é nosso grito de batalha”. O fedor de uma espécie inferior já não pode ser tolerada. A única solução para uma sociedade doente é a aniquilação.” –Tempel ov Blood, Liber 333

Misantropia

Direi que, pelo menos para mim, a misantropia não é um ato de aprovação do juízo moral. A não ser que alguém seja um completo e desmedido otimista, é evidente que existe um problema. O eco-extremismo em alguns lugares argumentou que o problema é físico, não moral. Como formulado no já extinto blog Wandering Cannibals:

“Pular destas observações para a conclusão de que “portanto, todos os humanos devem ser extinguidos” pode ser corretamente sinalizado como uma reductio ad absurdum. O fato de que ninguém tenha culpa não significa que todos sejam culpados, ou que esta culpa tampouco exista. Portanto, medidas punitivas ou mesmo linguagens punitivas não são necessárias. Talvez isso tenha um ponto, mas vamos colocar de outra maneira: o ideal humano (forma) nunca pode ter o hospedeiro físico (matéria) apropriado para se realizar. A forma é sempre um fantasma, flutuando sobre a massa fervente da matéria-prima humana. A humanidade nunca pode ser avivada por um ideal, nunca pode aderir a um plano ético orgânico que possa informar suas ações coletivas a um futuro melhor. Em outras palavras, a humanidade como um todo é um zumbi coletivo, algo que tropeça com a aparência da vida, mas que na verdade está constantemente à beira de se separar devido à falta de inteligência ou vontade coletiva definida. Podemos falar de ação coletiva global, mas é uma retórica completamente vazia. O problema é divino em escala, mas os meios para abordá-los são humanos demais…”

Sete bilhões de pessoas não vivem suas vidas sendo inocentes ou culpadas de nada. Seu estado padrão é “cuidar de seus próprio assuntos”. São carne de canhão, não sabem o que fazem. Nesse nível, suas vidas carecem de conteúdo ético discernível. E mesmo em situações em que as pessoas “se preocupam”, frequentemente roubam de Pedro para dar a Paulo: vivem uma parte de suas vidas de forma amoral para manter um verniz ético em outras partes de suas vidas. O resultado final é: se você não quer que a floresta seja cortada, que o fundo do oceano seja perfurado ou que o rio seja contaminado, você não precisa procurar muito para saber quem são os culpados. Você tem a culpa, seus amigos também e aqueles que você ama também têm. Ou eles comem apenas ar e vivem em cabanas de palha feitas com galhos de árvores nativas? Ou você se cura com plantas locais quando está doente e checa seu email apenas com um pedaço de madeira? Se (por suas ações, não por suas palavras) você não se importa com a Natureza Selvagem, porque ela deveria se preocupar com você? Por que alguém deveria? Aqueles que se opõem à misantropia parecem pensar que o problema é qualitativo quando, na verdade, é quantitativo. Não é uma questão de inocência ou culpa, é apenas que existem muitos malditos, amorosos e éticos humanos que pensam que suas vidas e seu bem-estar são invioláveis. Que tocar em um fio de cabelo de suas cabeças é um sacrilégio ou, o horror dos horrores!.… autoridade.

Mas, na verdade, não adianta nada discutir o assunto. Isso se torna um exercício tragicômico uma vez que os anarquistas “niilistas” começam a acusar os eco-extremistas de moralismo por realizar as ações mais imorais imagináveis. Dizem algo como: se eles fossem realmente individualistas e “não dominados”, não atacariam a humanidade em absoluto, ou atacariam apenas aqueles que têm a responsabilidade “direta” pela dominação, seja lá o que isso signifique. Sinceramente, o/os anarquista/anarquistas autor/autores parece/parecem abertamente vago/vagos sobre a condenação do ataque indiscriminado, já que é um ponto que levantam. Falo mais de fanboys egoístas que começam um jogo bobo de quem pode se importar menos, que de alguma maneira é algo como o que se segue:

A: “Eu sou amoral, então ataco a sociedade e os humanos.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com a sociedade nem com os humanos, e você simplesmente estaria fazendo as suas coisas.”

A: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria com quem estou atacando.”

B: “Se você fosse realmente amoral, não se importaria se eu me importasse com quem você atacou…”

Etc., etc….. Sério, tem sido assim há dois anos. Sabe quantos executivos o/os autor/autores do texto poderia/poderiam ter aleijado até agora?

Ah, é. Me esqueci que ele/eles não tem a intenção de ser uma ameaça para ninguém, exceto talvez para os eco-extremistas, e nem sequer pode/podem prender um deles. Só pra constar, me lembra a polícia.

Então, para concluir, não me importa se os eco-extremistas citam o Monstro Voador de Espaguete para queimar, matar e mutilar. Para mim, é o mesmo: no fim de tudo, somos estúpidos humanos. Tampouco me importam os objetivos absurdos como “a destruição de toda autoridade”. Isso é muito abstrato para que entenda o meu pequeno cérebro, o que é uma boa maneira de dizer que é uma porcaria. Finalmente, eu não gosto muito dos humanos porque não parecem gostar muito de si mesmos. Eles estão defecando coletivamente sobre o único planeta que têm, e cada dia se tornam mais mecânicos e artificiais. Sobre este último ponto, não sei porque sou obrigado a me sensibilizar ou me preocupar com os seres humanos atacados no presente, já que qualquer pessoa aleatória em Paris, Jakarta ou Kinshasa é tão abstrata como Zeus ou como um membro de uma tribo indígena extinta. Para citar o grande reacionário De Maistre:

“A Constituição de 1795, assim como suas predecessoras, foi feita para o homem. Mas não existe no mundo nada que se possa chamar de homem. Ao longo de minha vida, tenho visto franceses, italianos, russos, etc.; sei também, graças a Montesquieu, que se pode ser persa. Mas, quanto ao homem, afirmo que, em toda minha vida, jamais o encontrei; se ele existe, desconheço-o completamente”

Tenho pouco tempo para aqueles que estão obcecados pelos ideais de uma sociedade que supostamente desejam destruir. Se estas pessoas finalmente começam a atacar o que odeiam, e se realmente atacam, não haverá ninguém mais satisfeito que eu. Mas se continuam emitindo anátemas de dentro do escritório da Mãe Superiora do Convento da Santa Anarquia, estarão confirmando minhas piores suspeitas de suas verdadeiras intenções.

É o Momento de Beijar a Terra Novamente

Texto extraído e traduzido de Reflexiones Eco-extremistas N°3.

“Você nunca pode recuperar uma visão antiga uma vez que tenha sido suplantada, mas o que podemos fazer é descobrir uma nova visão em harmonia com as memórias antigas, distante, longe, remota experiência que se encontra dentro de nós.”D.H. Lawrence

“Todas as coisas estão cheias de deuses.”Thales

“Uma existência, uma música, um organismo, uma vida, um Deus: -Estrela de fogo e rochas fortes, o fluxo frio do mar, E a alma escura do homem.”Robinson Jeffers

Durante as últimas três décadas o anarco-primitivismo tem sido a forma dominante da crítica anti-civilização. Neste período a crise da sociedade tecno-industrial intensificou-se a níveis antes inimagináveis. Para aqueles de nós que somos inimigos da civilização temos a certeza do problema, mas a solução não está tão clara. Muitos anarco-primitivistas adotaram as táticas de outros anarquistas; destruição da propriedade, sabotagem, tree-sits*, vandalismo e outras formas de ação direta. A ideia subjacente que motiva estas ações é que com o tempo as pessoas “despertem” e reconheçam o caráter opressivo da civilização. Como tal, o anarco-primitivismo se orienta como um movimento essencialmente político. Neste ensaio vou argumentar que a crítica à civilização deve ser libertada de toda política e reformulada solidamente dentro do contexto da religião e da espiritualidade, que o primitivismo deve se separar do anarquismo.

Embora reconhecendo, sem dúvida, o seu impacto sobre o mundo natural, o anarco-primitivismo tende a enfatizar as formas que a civilização é prejudicial para a humanidade: a alienação, a pobreza, a depressão, os fuzilamentos em massa. As sociedades de caçadores-coletores são apresentadas como um modelo ideal para a felicidade humana e a perfeita igualdade [no anarco-primitivismo], enquanto que todas as formas de injustiça social estão ligadas à civilização. A civilização, em outras palavras, é essencialmente apresentada como um problema social. É conceitualizada como uma forma particular de organização social que produziu uma série de circunstâncias indesejáveis. Neste sentido o anarco-primitivismo não é diferente do socialismo ou qualquer outra filosofia social do iluminismo que apresenta uma visão da sociedade sem sofrimento. Sua crítica da civilização é baseada no que é melhor para a humanidade.

Isso é um problema porque na raiz da consciência civilizada existe a ideia de que os seres humanos são a coisa mais importante do universo. Portanto, se os anarco-primitivistas seguem concentrando sua crítica da civilização sobre seus efeitos nocivos à humanidade e continuam considerando a sociedade caçadora-coletora como um paraíso igualitário eles estarão, em última instância, perpetuando a crença de que o que ocorre na humanidade é mais importante do que qualquer outra coisa.

É verdade que, na ausência da civilização muitos seres humanos seriam mais saudáveis e mais felizes do que são agora? Provavelmente sim. O problema com este ponto de vista não é que a humanidade seja valorizada, mas que ela seja valorizada acima de tudo. Remover o anarquismo ou o elemento da justiça política ou social da crítica à civilização não quer dizer que o sofrimento dos seres humanos são é importante. Este sofrimento é simplesmente colocado em um contexto maior, muito maior. O sofrimento de um ser humano não é mais nem menos importante que o sofrimento de uma mosca. É desnecessário dizer que, como seres humanos, naturalmente experimentamos o sofrimento de nossa família e amigos mais intensamente que o sofrimento de uma mosca. Por fim, isso não quer dizer que seja mais significativo, seja como for.

Se aceitarmos que a vida de uma mosca ou de um pedaço de musgo é tão importante como a vida humana, como suspeito que a maioria dos anarco-primitivistas fazem, também devemos aceitar que deixamos para trás o campo da política. Neste contexto, as preocupações da sociedade humana, as lutas específicas de um grupo particular, são irrelevantes. Amo a terra mais do que amo a humanidade. O núcleo desta posição é uma atitude fundamentalmente religiosa que acredito que os primitivistas deveriam adotar.

O animismo é a crença de que todas as coisas naturais –não feitas pelos seres humanos– tem alma: árvores, samambaias, grama, rios, montanhas, pedras, assim como todas as criaturas. Tudo no mundo é sagrado e nem mais nem menos que qualquer outra coisa. Esta compreensão de santidade não depende de nenhuma ideia em particular de um Deus, é simplesmente o reconhecimento da divindade em todas as coisas. E esta divindade não precisa ser fundamentada ou provada. Como os antigos Daoístas entendiam, qualquer tentativa de dizer “o que quer que seja” deve estar condenada ao fracasso. O dao que pode ser chamado não é dao. Nós, como criaturas da civilização, fomos condicionados a aceitar o nada sem definições precisas e a lógica convincente. Este desejo é o desejo do cientista, do engenheiro, do técnico. Da mesma forma, a alma que pode ser nomeada não é alma. Qualquer definição de alma ou da divindade que existe dentro de todas as coisas deve necessariamente ser irremediavelmente limitada pela consciência e a linguagem humana. Embora talvez possamos dizer, como os antigos gregos, romanos, hindus, judeus, chineses, e outros, que o conceito de alma ou de espírito está relacionado com a respiração. E, se a mente está calma e se escuta com atenção podemos perceber o sopro das rochas, os fluxos, as areias do deserto.

Historicamente, o animismo tem sido ligado a lugares específicos, montanhas, rios específicos. Existem tantos animismos diferentes já que existem diferentes tribos e povos. Como tal, qualquer animismo em particular não pode ser universal. O animismo de uma tribo específica dos povos da América Central não pode ser o mesmo que o de uma comunidade particular de escandinavos ou mongóis. Nesse sentido, no entanto, podemos pensar no koan zen**: o dedo pode apontar a localização da lua, mas o dedo não é a lua. O dedo pouco importa; a lua é realmente a coisa. Em outras palavras, os espíritos animistas particulares de uma comunidade em particular são apenas o dedo. Devemos olhar para a lua: a santidade universal da Terra.

Até agora o anarco-primitivismo insistiu em participar do campo dos argumentos intelectuais. Apesar dos críticos da civilização rechaçarem as estruturas sociais e culturais que dominam as nossas vidas, há uma forte tendência a aceitar tacitamente certos modos de pensamento civilizado, ou seja, o secularismo e o empirismo. Em muitas literaturas anarco-primitivistas produzidas por escritores seminais como John Zerzan e Kevin Tucker, existe uma clara demonstração do compromisso com a verdade através da apresentação da evidência empírica válida e lógica persuasiva. Eles fazem isso apelando para a razão. Os argumentos são construídos e implantados. Os dados recolhidos por especialistas são citados cansativamente. Estas são as ferramentas do professor, ferramentas civilizadas, e a história é o cemitério das ideologias que se acreditavam imunes à influência das ferramentas táticas que utilizaram.

Os anarco-primitivistas tentam “expor seus argumentos” para aqueles que não rejeitam a civilização. As pessoas que abraçam a civilização não o fazem já que não tem “os fatos”. Podia-se até mesmo apresentar milhares de fatos que “demonstrem” a felicidade relativa e a felicidade em uma vida do caçador-coletor que nenhuma pessoa sequer estaria disposta a abandonar seu modo de vida atual, ou mesmo conceder que a crítica à civilização tem mérito.

Em última instância, não importa o que os caçadores-coletores fizeram ou não fizeram. Não importa quais sociedades históricas eram autoritárias ou cultivavam milho. A crítica à civilização não deve se basear nestes argumentos. A crítica à civilização deve ser feita com base em crenças nos espíritos da Terra. A civilização não é ruim porque faz grupos humanos objetificarem-se e sofrerem. O sofrimento é uma parte inescapável da vida e não precisa ser lamentável. A civilização é ruim porque é uma guerra contra os deuses.

Em seu fervor para convencer a outros anarco-primitivistas se tornam cada vez mais dogmáticos. Eles fazem birras contra os “esquerdistas”, discutem coisas sobre o veganismo, debatem sobre os méritos relativos das economias de retenção imediata frente as economias de retorno de atraso, travam intermináveis disputas relativas à moralidade da violência, se deleitam e se desesperam alternativamente na cara das novas tecnologias aberrantes. Como tal, a crítica à civilização é absolutamente solipsista. E não se trata simplesmente dos anarco-primitivistas tentarem teorizar intermináveis coisas, mas também de nenhuma tentativa de aplicar a prática. As poucas ações que são vistas, como já falamos anteriormente, não tem sentido e são apenas simbólicas nos termos mais amplos e vagos. É hora de deixar isso para trás. Não importa o que dizem os filósofos, não importa o que dizem os cientistas. Temos que aceitar que nossas crenças são de natureza religiosa e dependem da fé.

Chegou a hora de reafirmar a espiritualidade baseada na natureza de nosso passado coletivo humano. Se o mundo natural não é sagrado, então por que é importante? A única alternativa é dizer que o mundo natural é importante porque dependemos dele para a nossa própria sobrevivência como espécie. Seria dizer, como já discutimos anteriormente, que a humanidade é realmente o que nos importa e nada mais, que o mundo natural é importante para nós apenas na medida em que serve a nossas necessidades. Qualquer argumento para o valor inerente de todas as coisas naturais pode ser feitos apenas a partir de razões espirituais.

É hora de parar de escrever livros pseudo-científicos, ensaios e artigos, de lutar contra policiais, de organizar protestos, de destruir caixas eletrônicos, e de tacar fogo em objetos. Estas são as táticas daqueles que desejam melhorar a sociedade humana para determinados grupos de seres humanos. Estas não são ações que refletem a crença de que a vida natural é sagrada.

A humanidade não mudará seu destino através da ação. Não através das ações dos governos e das empresas, não através das ações dos movimentos de massa, e certamente não através das ações de um punhado de anarquistas insatisfeitos. O destino da humanidade está selado. O mundo é conhecido há 10.000 anos e não durará. É tolice e fútil tentar prever a natureza de um colapso ou de imaginar que mundo continuará. Isso vai ser bom? Vai ser ruim? Não importa. Se produzirá, e a humanidade se verá obrigada a responder a isso. Talvez a sociedade humana tenha futuro de alguma outra forma. Talvez a humanidade seja completamente extinta.

O caminho sempre esteve claro para os que escolheram ver. Devemos fugir da civilização e das coisas da civilização. Há que ir para a floresta e nunca sair. Devemos reunir nossas almas com as almas das árvores, das rochas, das correntes, da sujeira. Devemos meditar sobre nosso lugar no cosmos. Ao fazê-lo, não mudaremos o destino deste mundo, mas seremos, por fim, fiéis à nossa natureza mais uma vez. O mundo dos caçadores-coletores paleolíticos se foi para sempre. Não podemos voltar ao passado. Mas os deuses que uma vez conhecemos ainda estão esperando por nós nos lugares selvagens do mundo. Se formos a eles, nos abraçarão.

Notas:

*Tree-sits: Parte do ativismo ecológico que consiste em sentar e acorrentar-se às árvores para impedir que sejam cortadas.

**Koan Zen: Um Koan é um problema que o professor passa a seus alunos para comprovar seu progresso.

Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez

Extraído do blog Malpaís. Traduzido por Anhangá.

Para colocar mais conteúdo neste blog, e também para se concentrar no ponto de vista eco-extremista, ocasionalmente, colocaremos resumos de livros, especialmente de livros que talvez possam ser inacessíveis para a maioria dos eco-extremistas e seus cúmplices hispanofalantes. Começamos com o recente livro do professor mexicano-estadunidense de História pela Universidade da Califórnia Davis Andrés Reséndez, chamado “The Other Slavery: The Uncovered Story of Indian Enslavement in America” (A Outra Escravidão: A História Relevada da Escravidão Indígena na América). Este livro recém publicado tem muito haver com temas discutidos na Revista Regresión e em outros textos, e em alguns assuntos mais conhecidos na América Latina em comparação com terras anglófonas. Por essa razão, não nos concentraremos em resumir o livro completo, já que muito do conteúdo é ensinado em várias faculdades e até mesmo em escolas como história da colônia e do Vice Reino. Por exemplo, quase todo mundo sabe sobre a escravidão dos indígenas no México e Peru, não é necessário abordar esta questão novamente.

Deve-se notar, no entanto, que tem havido bastante “revisionismo” entre os teóricos sobre o progresso da civilização no que hoje é conhecido como “as Américas”. Os escritores estadunidenses Charles Mann no livro “1491” e Jared Diamond em “Guns, Germs, and Steel” (Armas, Germes e Aço), dão a impressão de que a violência do colonizador foi exagerada em algumas fontes históricas. Neste livro, pelo menos, Reséndez refuta este revisionismo. A conquista era tão sangrenta como Bartolomeu de las Casas e outros escreveram.

No entanto, não queremos permanecer no âmbito de fazer os pobres indígenas como “mártires”, que é o que o discurso esquerdista faz com seu culto ao “nobre selvagem”. Queremos aqui concentrar-nos nos trechos do texto que compliquem a questão o suficiente. Em seu capítulo “Powerful Nomads” (Nômades Poderosos), Reséndez descreve o papel da introdução do cavalo nas tribos de caçadores-coletores.

O autor escreve:

“Os exemplos mais dramáticos da reinvenção índia ocorreram no que é hoje o sudoeste americano. Muitos fatores levaram os indígenas daquela região a se tornarem traficantes [de escravos]. A atividade contra a escravidão da coroa espanhola e as proibições legais contra a escravidão dos índios dissuadiram alguns caçadores de escravos no norte do México, deixando espaço para que outros retomassem o papel. Além disso, as rebeliões do século XVII que culminaram na Grande Rebelião do Norte, restringiram a troca de escravos indígenas e abriram mais lugares para a caça de escravos, criando mais oportunidades. Mais importante, a utilização de cavalos e armas de fogo se acelerou naquela época, dando a alguns índios a capacidade de escravizar outros povos. Os novos traficantes, novas vítimas e novas rotas para o transporte de escravos surgiram nos séculos XVII e XVIII. Algumas comunidades nativas experimentaram um processo da “desterritorialização”, como chamou Cecilia Sheridan, deixando suas terras ancestrais, juntando-se com outros grupos, e reinventando-se como bandos móveis capazes de operar em longas distâncias. Ganhavam a vida com o comércio de pilhagem da guerra, incluindo cavalos e cativos.”

No sudoeste do que hoje é conhecido como “Estados Unidos”, sobretudo nas Grandes Planícies (Great Plains) no centro do país, houve uma “revolução do cavalo”. Não era uma questão de introduzir o comportamento bélico nos povos que eram historicamente caçadores-coletores, melhor, os índios itinerantes fizeram tudo o que os povos com cavalos fizeram (mover-se, caçar, participar do comércio, fazer guerra, etc.). Era apenas uma questão de “fazer melhor”.

Algumas tribos se beneficiaram mais do que outras, e essas tribos geralmente escravizaram outras, incluindo outros caçadores-coletores e povos que praticavam a agricultura. Os Comanches foram um exemplo de uma tribo “menor” que se converteu em um grande “império caçador-coletor”, que ganhava suas riquezas de saqueamentos e assaltos. E a atividade mais lucrativa foi o comércio de escravos. Embora a escravização dos índios fosse ilegal no império espanhol, a lei era geralmente ignorada.

Os Comanches, em particular, caçavam escravos para trocá-los por cavalos, rifles e navalhas de metal. Mas também incluíram alguns escravos em sua sociedade. Geralmente nos roubos, os Comanches matavam a todos os machos adultos, mas levavam os meninos e as mulheres que poderiam servir para aumentar a sua quantidade. Como povo poligâmico, um guerreiro poderia ter muitas esposas, até dez ou mais se tivesse muito êxito na guerra. As mulheres não serviam apenas para o prestígio ou gratificação sexual; ter muitas mulheres também era útil porque um guerreiro podia matar muitos bisontes em apenas uma hora, e era o dever da mulher processar a carne dos animais mortos, o qual era um processo muito trabalhoso.

Reséndez descreve a preparação para uma incursão que indicava que um grupo de guerreiros iria desfilar publicamente com os seus cavalos, de modo a irem convidando outros a se unirem. Grandes espetáculos de cavalos e adornos pessoais foram vistos naquela época, a força e a valentia dos guerreiros foram avaliadas para determinar o potencial êxito da incursão. Uma dança de guerra precederia o ataque, que poderia se espalhar longe no México, a certa distância do território Comanche.

Reséndez descreve uma incursão significativa em meados dos anos 1800:

“As testemunhas enfatizaram o sigilo nos ataques dos índios, que em um instante poderiam transformar uma boa noite de sono em uma cena surrealista de caos absoluto com gritos de “Os Bárbaros!”, disparos, cavalos galopando, e flechas voando. Fazendas periféricas, casas isoladas e pastores que exerciam seu comércio em áreas remotas eram presas fáceis. Mas os guerreiros Comanches às vezes se dirigiam também às grandes cidades do México. Em dezembro de 1840 e janeiro de 1841, um grupo de atacantes indígenas passou duas semanas assaltando fazendas nas proximidades de Saltillo, a capital do estado de Coahuila, movendo-se de uma fazenda a outra, como se estivessem desafiando completamente qualquer consequência mexicana. Em uma proeza da “audácia inconcebível” como a imprensa mexicana os qualificou, apareceram bem nas imediações da cidade antes de serem expulsos apressadamente pelas autoridades mexicanas. Da mesma forma, em agosto de 1846, durante um dos ataques mais ousados e descarados de todos, cerca de quinhentos Comanches cortaram uma faixa através de Chihuahua e Durango. George F. Ruxton, um inglês que viajava pelo norte do México naquela época, nos deixou um retrato sombrio: “ranchos abandonados, estradas intransitáveis e povos barricados, vivem com medo de ataques dos índios.” Quando ele chegou a cidade de Durango, em Setembro, se surpreendeu ao saber que a conversa daqueles 18 mil habitantes da cidade não era sobre o curso da batalha Estados Unidos–Guerra Mexicana, mas de uma possível invasão dos Comanches que haviam estado devastando as fazendas no nordeste da cidade do século”.

Os Comanches não eram a única tribo que realizava invasões. Reséndez fala dos Apaches e Utes que também se alimentavam de outros índios e dos não-índios igualmente. As histórias de Mangas Coloradas e Gerônimo são amplamente conhecidas e exigem pouca descrição aqui. Os Apaches se diferenciavam de outras tribos em que, até o século XVII, eram algumas das piores vítimas da escravidão dos espanhóis para trabalhar nas minas de prata do norte do México. Após a chegada do século XIX e da República Mexicana, esforçaram-se para se tornar sedentários e agricultores, mas devido à diminuição da presença militar na fronteira mexicana, começaram rapidamente a fazer das invasões uma forma de vida, como muitos de seus vizinhos. Eles ferozmente se enfrentaram com os militares mexicanos que muitas vezes terminaram em combates corpo a corpo, e como em muitos outros casos, os homens escravos foram mortos ou escravizados pura e simplesmente, enquanto que as mulheres e os meninos muitas vezes dissolvidos na comunidade Apache.

Os cativos nem sempre foram tratados muito “humanamente”, no entanto, esta não é a história de Matilda Lockhart, capturada pelos Comanches e depois, “devolvida à civilização”:

“…tinha hematomas e feridas por todo o seu corpo, e seu nariz havia sido cortado, suas fossas nasais abertas e despojadas de carne, especialmente o nariz, e estavam a gritar e a rir como demônios quando ela chorava.” “Muitas vezes sequestravam estes prisioneiros, especialmente se tivessem meios para o resgate. Os mórmons, ao chegar a Utah na metade do século XIX se encontraram com o chefe Walkara dos Ute, que segundo o líder mórmom Brigham Young, nunca foi sem “uma quantidade de meninos índios escravos”. Young comentou que, “eu vi seus escravos tão emaciados que não eram capazes de ficar de pé. Ele tinha o hábito de amarrá-los fora de seu acampamento à noite, nus e com necessidade de comer, a menos que fosse tão frio que pensasse que iam morrer de frio.” “Os meninos de Walkara foram literalmente descritos por outra testemunha como “esqueletos vivos”, “literalmente mortos de fome por seus captores”.

Walkara foi chamado, o “Falcão das Montanhas”, vendia as crianças indígenas de outras tribos como os Paiute por armas e outros bens da civilização. Ele cavalgava e negociava em lugares distantes como a Califórnia, e era conhecido por roubar gado e cavalos, bem como as caravanas. Os recém chegados mórmons o temiam muito e tentaram atender a Walkara e os Utes, mas eram muitas vezes incapazes de deter a sua barbárie. Na tentativa de evitar a venda de crianças indígenas, os mórmons foram testemunhos de uma outra cena horripilante quando o irmão de Walkara, Arapeen, disse a ele que se recusaram a comprar as crianças indígenas que ele vendia:

“Vários de nós estávamos presentes quando ele pegou uma das crianças pelas canelas e tacou seu cérebro no chão duro, depois atirou seu corpo em nossa direção e nos disse que se tivéssemos corações teríamos salvado a sua vida”.

Os Utes também participaram da destruição da tribo Navajo, juntamente com as forças do governo dos Estados Unidos, embora com um elevado grau de autonomia para que pudessem roubar e escravizar os Navajo.

Claro, existem outras partes deste livro que não iremos discutir aqui, que cobrem ditos aspectos da história como a rebelião do povo e ainda uma seção sobre a Guerra Chichimeca, que foi descrita com detalhes na Revista Regresión. A razão pela qual discutimos esse tema no livro em particular é outro golpe ao mito do “bom selvagem”. Os pessimistas, é claro, dizem que as tribos como os Comanches, Apaches, Utes, etc., não se converteram em guerreiros e cruéis até que domesticaram o cavalo e foram atraídos para tornarem-se isso pela promessa de bens dos europeus (pistolas, facas, cavalos, etc.), isso é verdade até certo ponto, mas talvez também levante a questão de que “sempre foram assim”, e a introdução do cavalo e outras novidades, foram apenas mais um manifesto óbvio. A civilização não é a mancha do pecado original na alma do “bom selvagem”, é o meio para amplificar e realizar algo que já está lá, o que faz com que tudo o consuma e desequilibre.

No entanto, nossa tendência não volta atrás apenas na herança selvagem dessas tribos, pelo contrário. Um selvagem não pode escolher o “momento ideal” para ser um selvagem, onde quer que esteja, e agir em consequência. Para o anarquista verde, talvez Mangas Coloradas e Walkara são “vilões” que caíram na armadilha da civilização, escravizando e vendendo seus prisioneiros. O eco-extremismo renuncia a tais “moralidades de ataque”. As vítimas não são “santos de nossa devoção”, não se contraem novamente pela inevitável crueldade da vida. Essas coisas têm que ser assim, e os golpes devem ser devolvidos a base de golpes.

O que é ainda mais revelador é como isso se reflete na utopia do “futuro primitivo do anarquista verde”. Estou certo de que eles mesmos se darão uma lobotomia a fim de desdomesticar o cavalo, esquecer como usar armas de fogo e metal, e se tornar completamente nômades que andam apenas a pé, porque caso contrário, isso levaria a “hierarquia”, e não podemos chegar a isso. Também se esquecerão dos reatores nucleares, aviões, naves espaciais, etc., etc. Portanto, um bando do “futuro primitivo” nunca poderia cair na venda de crianças esqueléticas em mercados de escravos e açoitar crânios de crianças pequenas quando as pessoas se neguem a comprá-las… Não, eu tenho certeza de que estes “anarquistas verdes” preservarão sua “pureza de coração” em mundo tecno-industrial depois do colapso, ao contrário de pecadores indignos da história, como Gerônimo, Mangas Coloradas, Walkara e o resto dos repreensíveis de salvação na história anarquista…

Os Eco-extremistas são selvagens no aqui e agora, atacam no aqui e agora, usam as ferramentas do presente para lutar contra o que procura escravizá-los e domesticá-los. Isso pode parecer hipócrita, mas pelo menos eles são uma boa companhia. Como qualquer pessoa sensata, eles utilizam as armas à mão para lutar contra o inimigo. Termino esta reflexão com uma passagem de um artigo da Revista Regresión número 3 em relação a este tema:

“Aqui fica respondida a pergunta que foi abordada nesta quarta lição, não podemos nos limitar às antigas ferramentas de guerra apenas porque criticamos este sistema tecnológico, devemos utilizar as armas do mesmo sistema para combatê-lo. Assim como os nativos americanos, os participantes da matança da Pequeno Grande Chifre não se detiveram na utilização destes rifles de repetição, então que nos não nos detenhamos na hora de utilizar a arma moderna que possa causar baixas no inimigo.”

Chicomoztoc, Lua cheia de Julho, 2016

-Arco de Huizache

Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3

Extraído de “Cuadernos Sin Número”.

“Black and Green Review” é uma revista estadunidense, sendo o projeto mais recente de John Zerzan e Kevin Tucker. O Sr. Zerzan não requer introdução nos círculos do pensamento “anti-civilização” já que depois de Don Ted (Kaczynski), ele é o teórico mais conhecido no mundo destes assuntos. Kevin Tucker é menos conhecido, mas é o escritor que trabalhou com Zerzan em publicações como “Green Anarchy” na primeira década deste milênio. Tinha ele também o seu projeto chamado “Species Traitor” (Traidores da Espécie), que era uma revista no estilo da atual “Black and Green Review”, só que mais livro do que revista e era composta de vários artigos de diferentes autores. Como revista é fisicamente bem feita, com fotos e várias seções com artigos longos e curtos, e neste caso está composta por mais de duzentas páginas.

“Black and Green Review” sai duas vezes por ano nos Estados Unidos. Não iremos explicar como conseguimos uma cópia aqui, do outro lado da fronteira, mas nós a temos e lemos ela. Muito menos iremos resumir a revista (ou melhor, o livro) inteiro, resumiremos os artigos mais importantes e daremos o nosso ponto de vista dentro do eco-extremismo particularmente desde a Antiga Mesoamérica Setentrional. Embora tenhamos nossas críticas bastante agudas contra esta revista, agradecemos a oportunidade de discutir seu conteúdo.

Em primeiro lugar, nosso artigo favorito era um “dos menores” e falava sobre o mosquito. Traduzimos aqui uma parte para compartilhar com os leitores lusófonos o conteúdo bastante informativo:

“Uma das falhas que padece a humanidade é que não vemos nenhuma espécie como benéfica se não pudermos explorá-la. Isto é especialmente verdadeiro para uma das espécies que nos causa uma grande dor. A ecologista evolucionista Dina Fonseca da Universidade de Rutgers, aponta isso perfeitamente ao comparar a situação com os Maruim (mosquitos médios) da família Ceratopogonidae, também conhecida por muitos como Moscas de Areia. “As pessoas que são picadas por Moscas de Areia ou infectadas com vírus, protozoários e filarias adorariam ser picadas para que esses insetos desaparecessem depois de estudar as suas próprias picadas.” disse ela. Mas, como alguns ceratopogonídeos são polinizadores de cultivos tropicais de cacau, “isso se traduziria em um mundo sem chocolate”. Para finalizar isso, quero mencionar um ponto muito óbvio, nós criamos este monstro. O mosquito transmissor da doença é nossa criatura e nosso Frankenstein. A instabilidade climática causada pelo humano gera desequilíbrios em todo o mundo. As populações de insetos aumentam quando aumenta a temperatura. O desmatamento e a erradicação das espécies e dos preadores levam a mudanças ecológicas, juntamente com a liberação de vírus latentes. A imunidade coletiva sofre do “progresso” humano. Ficamos doentes com tudo. Os mosquitos são vetores da doença, não a causa. Os mosquitos são apenas um dos cinco principais modos de transmissões de doenças amplificadas pela globalização. Não reconhecemos a maneira imprudente em que nos tornamos, cegos pelo ego e atuando como deuses nos esquecemos que para cada causa há um efeito.”

A explicação sobre a relação simbiótica entre o mosquito e seu ambiente é um ponto importante, e mostra que, de tempos em tempos, o anarco-primitivismo gringo pode pensar além de seu antropocentrismo. Talvez um dia possamos traduzir este artigo inteiro e o reproduziremos em outro lugar. Também imaginamos que as entrevistas que são publicadas na revista mencionada, com a advogada de ativistas eco-radicais e outra com um ex-prisioneiro são muito úteis para os eco-radicais daquele lado da fronteira. O compa “Halputta Hadjo” já apresentou uma crítica eco-extremista da entrevista com os eco-radicais de Zerzan no Canadá em seu artigo sobre os Calusa, e não temos mais nada a acrescentar aqui.

Indo aos “principais artigos” da revista, há alguns que merecem um comentário mais extenso. Comecemos com o artigo de “Four-Legged Human” (Quadrúpede Humano), intitulado “The Wind Roars Ferociously: Feral Foundations and the Necessity of Wild Resistance.” (O Vento Ruge Ferozmente: as fundações ferais e a necessidade da resistência selvagem). A cena deste artigo são os territórios inóspitos do estado norte do Alaska nos Estados Unidos. O texto tenta desenvolver o tema da domesticação e a dependência que ela cria nos humanos civilizados, especialmente, envolvendo a domesticação no fracasso universal da esquerda no mundo moderno. Ele também tenta apresentar a resistência como um processo de desdomesticação e fuga da civilização para lugares isolados. Neste sentido, estes anarco-primitivistas desejam imitar aos “Povos da Flecha” que ainda existem nas terras amazônicas. Ele escreve:

“Estima-se que, atualmente, nos últimos vestígios primários da Amazônia brasileira existam até 43 tribos isoladas. Índios Bravos ou Povos da Flecha. Muitas vezes caracterizados como ‘não contatados’, a realidade mais provável é que estes bandos amazônicos, conscientemente optaram por viver em isolamento e evitar a interação, precisamente devido a um profundo conhecimento entre gerações sobre as consequências desastrosas associadas a seus ancestrais e seus irmãos indígenas vizinhos que se converteram em domésticos e civilizados:

‘Determinação deliberada, ou melhor, autodeterminação… parece ajudar todas as tribos isoladas que ainda vagueiam pelas selvas da Amazônia… Os grupos indígenas que vivem em isolamento são isolados porque escolhem. Não é por causa de uma completa falta de contato, mas precisamente porque as experiências anteriores de contato com o mundo exterior se revelaram negativas.’”

Não temos muito o que discutir com o Quadrúpede sobre o seu diagnóstico do problema da domesticação e do híper-civilizado. Na verdade, a civilização cria humanóides dependentes e fracos que não podem viver sem a sua dependência, o que significa sua escravização ao sistema tecno-industrial. No entanto, a solução apresentada é especificamente fugir para os lugares remotos do norte e tornar-se selvagem novamente. Isso foi algo que nos confundiu muito. Ele escreve:

“Hoje temos conhecimento histórico e antropológico que nos leva ao desespero criado por 10 mil anos de domesticação. Não é hora de “sentar”, é hora de se levantar e caminhar na floresta, deixando para trás toda a nossa bagagem domesticada. Devemos agora finalmente nos converter no povo da flecha. Um futuro selvagem representa o nosso único caminho a seguir. Eu postulo que os reselvageados ferais estarão de pé no final, após os levantes massivos que virão, sendo capaz disso apenas por causa dos avanços alcançados multigeracionalmente a nível indomesticável. Prevejo a formação de bandos selvagens (bandidos!) muito unidos, não acorrentados pelas circunstâncias, mas instalados rapidamente nos bosques, montanhas e sacudindo o impenetrável pelos domésticos – Habitantes do nosso próprio ‘labirinto marrom” em que os domesticados não se atrevem a entrar. Não apenas isso, mas também bandidos eficazes para golpear a infraestrutura da civilização, causando um dano irreparável, e desaparecendo facilmente nas sombras apenas para emergir golpeando de novo e de novo.”

Para dizer a verdade, este parágrafo nos causou muitas risadas. É sério? Esta é a revista de John Zerzan? O cara que pega seu rosário toda vez que escuta algo sobre os ataques eco-extremistas no sul? Esses caras querem ser “bandidos”, mas os eco-extremistas já são, e por acaso eles apoiam? Muito pelo contrário. Nós não vimos nenhuma evidência que prove que os anarco-primitivistas ianques não tenham alergia ao cheiro de sangue. Os eco-extremistas não tem essa alergia, isso é fato. Eu não sei, provavelmente o Quadrúpede não leu a Revista Regresión, mas ele tem que fazer uma comparação com alguns textos ali (sobre banditismo) que saíram muito antes deste ensaio. Por exemplo, na Regresión 3 (Primavera de 2015):

“Resistir e negar a vida imposta desde pequenos e formarmos uma vida simples e o mais longe possível daqueles alinhamentos e esquemas culturais modernos, é um dos propósitos a serem alcançados desde o presente. Mas para formarmos essa vida que queremos, distante das grandes cidades e nas profundezas da natureza, às vezes requer dinheiro, dinheiro que preferimos roubá-lo de qualquer lugar ou obtê-lo através das centenas de formas criminosas que existem, antes que nos escravizem à vida de subordinados que a maioria das pessoas carrega. Esta é a razão pela qual o grupo editorial desta revista sente simpatia pela reapropriação do dinheiro para propósitos específicos que levam a uma vida que vala a pena ser vivida, sem se importar com quem sofra o disparo quando o dinheiro não é entregue, porque quando um empregado não entrega o dinheiro do patrão, este não merece seguir vivendo, já que defende como um cão obediente as migalhas do mestre, por isso merece uma facada ou uma bala em seu corpo, da mesma forma, quando o empresário, dono ou executivo do negócio não cumpre as exigências do ladrão, também merece o mesmo ou algo pior.

Não há misericórdia nesses atos, é tudo ou nada, é do extremismo de que falamos abertamente, se esse dinheiro será necessário para algum propósito extremista individualista, este o deve consegui-lo a qualquer preço. Aqui devo mencionar que para nós o dinheiro não é tudo, isso dizemos de uma forma muito realista. Neste mundo dominado por grandes corporações econômicas, às vezes é preciso obter dinheiro para cobrir certos fins e/ou meios. Pra nós, obtê-lo trabalhando não é uma opção, obtê-lo por fraude, assaltos ou enganando, sim. Aqueles ancestrais que viram seus modos de vida afetados pela expansão das civilizações tanto mesoamericanas como ocidentais, tiveram que atuar desta forma em algum momento (predação, saqueio, engano, roubo e/ou assassinato), temos apenas cumprido nosso papel histórico como herdeiros daquela ferocidade selvagem.”

Também este texto, retirado do editorial da Regresión 5 (Abril de 2015):

“Sou um eco-extremista e estou em Guerra, eu confeccionei explosivos recheados de fragmentos que dirigi contra tecnólogos que trabalham para artificializar a Natureza Selvagem. Os fios positivo e negativo se encontraram, a energia da pilha conseguiu aquecer o ignitor dentro do niple galvanizado preenchido por dinamite, uma faísca é gerada, o explosivo funcionou, os ferimos, os estilhaços perfuraram seus corpos, os gases da dinamite ardente chegaram a seus pulmões queimando-os ao mesmo tempo, seus sangues derramados serviram para lhes recordar de que NÃO são deuses, embora brinquem disso; não me arrependo por nenhuma destas feridas, de seu espanto, das consequências, o que aconteceu com eles é apenas uma resposta da Natureza Indomável que falou através de MIM. Estive escondido em várias cidades preparando atentados, conspirando com afins, e ampliando minhas práticas no plano da atividade criminosa. Incendiei carros indiscriminadamente, luxuosos e não luxuosos, pequenos ou grandes, uma vez que todos são asquerosas máquinas que fazem com que a camada de fumaça siga se solidificando sobre minha cabeça, os vi arder como um incêndio nas densas florestas, eu soube da reação de seus donos, não me importo com nada, a Natureza me deu a forma para sair intacto dessas situações.”

Então, se os ianques quiserem aprender algo sobre ser “bandidos”, talvez os eco-extremistas possam dar-lhes alguns conselhos para que não sejam detidos pelos valores humanistas civilizados.

Sobre a questão da fuga para a floresta ou o que quer que seja, recordamos uma correspondência com um mano eco-extremista que nos faz lembrar que o contexto ao sul da fronteira é muito diferente daquele dos gringos:

“Aqui muitos poucos “primitivistas” fazem o que fazem lá, isso de comprar um terreno e aprender habilidades de sobrevivência. O que sempre pensamos sobre essas atitudes é que a pessoa que faz isso está sendo covarde ao abandonar a civilização sem ter lutado contra ela. A cultura mexicana herdou de seu passado nativo esta atitude, aqui se você não responder a uma agressão você é fraco e viadinho, o mesmo vale para os “primitivistas” que compram um terreno e em vez de guerrear decidem viver alternativamente. Embora tente de todas as formas fugir da civilização, esta chegará a você. Um exemplo é o que passou com o velho Ted, ele partiu, mas a civilização chegou até ele, e o mesmo acontece aqui.

Só que aqui é muito mais violento, muitas áreas selvagens estão sendo controladas por pistoleiros que utilizam as montanhas para plantar papoula ou usam as colinas para esconder laboratórios de drogas sintéticas. Estes terrenos belos e selvagens estão sob o controle deles e se você ousar pisar neles, os pistoleiros te prendem e te levam como escravo a essas plantações, junto com os imigrantes do sul, e assim por diante. A situação aqui é mais complicada.

Com respeito as comunidades zapatistas, são uma merda, e o mesmo ocorre, estão sob o controle do comitê clandestino indígena que de indígena não tem muita coisa já que são controladas pelos marxistas mais relutantes, muitos estrangeiros.”.

Nós pelo menos concordamos completamente com o mano. Fugir não é uma opção real nem é algo que queremos fazer. A civilização insultou a nossa mãe Natureza, e pagará por isso, aconteça o que acontecer. Naturalmente, apoiamos os indígenas (os poucos que restam) que fogem da civilização, mas não somos eles, e é uma estupidez pensar que podemos nos tornar como eles. Melhor ficarmos aqui e lutar como somos, na verdade, não temos nenhuma outra opção.

Completando a informação sobre a opção de comprar um terreno no México assim como fazem nos EUA, existe também uma aparente desvantagem econômica, enquanto muitos anarco-primitivistas de lá tem uma economia estável dado a sua cultura de primeiro mundo (embora rejeitem), aqui se um anarco-primitivista mexicano quisesse comprar um pedaço de terra lhe custaria cerca de 60 mil a 100 mil pesos ou mais dependendo do lugar. Para obter essa grande quantidade de dinheiro o anarco-primitivista mexicano teria que trabalhar (dado o seu rechaço ao salário de uma empresa) em uma cooperativa universitária autogestiva (por exemplo), onde os lucros líquidos não chegam nem a 200 pesos por dia, então ele teria que trabalhar por um tempo indeterminado para comprar as suas terras. Num outro caso, se o anarco-primitivista “urgisse” comprar um terreno na natureza e decidisse trabalhar em uma fábrica oito horas por dia ralando em turnos noturnos e matutinos, ganhando 1000 pesos por semana, então estamos falando que conseguiria o dinheiro em pouco mais de dois anos, e isso juntando todo o dinheiro, embora esta opção seja quase impossível, já que teria que repartir estes 1000 pesos ganho por semana em aluguel, pagamento de serviços, alimentação, transporte (talvez), etc., então aqueles mais de dois anos dobrariam ou talvez mais. Possivelmente o anarco-primitivista mexicano se canse após tantos anos de trabalho, jogue tudo para o alto, deixe de ser um anarco-primitivista e decida viver uma “vida louca”. Ou talvez o anarco-primitivista em questão herde de sua avó uma casa na floresta e decida ir viver por lá, ou talvez o anarco-primitivista possa ir trabalhar nos Estados Unidos e faça como os trabalhadores michoacanos que trazem dólares os quais aqui tem um grande valor no mercado estimado em 18 pesos cada um, e assim possa adquirir seu terreno, pode ser, são apenas ideias…

Mas de qualquer maneira, alguns anarco-primitivistas dos EUA acham que podem de uma hora para outra se tornarem os bandidos mais fodas de toda a história, ou dentro de algumas “gerações”, ou que podem sobreviver em um dos lugares mais inóspitos do planeta (Alaska), E TAMBÉM atacar a civilização de vez em quando e saírem ilesos. Não pensamos assim, mas boa sorte. Vale a pena mencionar que o Quatro Patas descreve os Selk’nam da Terra do Fogo como um povo selvagem que poderia sobreviver em um dos ambientes mais difíceis da Terra, mas não mencionou que a sociedade Selk’nam era baseada no patriarcado rígido, era a fundação de suas crenças. Talvez ele tivesse que comentar algo sobre isso a suas companheiras primitivistas, que pensam que o patriarcado é sempre um produto da domesticação. Bom, apenas sugerimos.…

O mais curioso vem quando você termina este artigo com aspirações de se tornar um criminoso e logo passa para outro texto que diz que os anarco-primitivistas devem ter aspirações para ser… MONGES. Isso é completamente verdade, eu não estou inventando. O nome do artigo é “The Sacred Sunrise”, de Ian Smith. Não vou tentar resumir os argumentos aqui, pois eles são muito estúpidos e mostram uma profunda ignorância da natureza do monarquismo cristão desde sua origem até a atualidade. Por exemplo, menciona a regra de São Bento, mas não a sua lei mais importante: “ora et labora”, em latim, “rezar e trabalhar”. Bem, é muito interessante que alguns anarco-primitivistas pensam que podem se salvar trabalhando no campo e recitando palavras da bíblia. Será que o autor não sabe que os grandes monastérios da Idade Média, e até mesmo aqui na Nova Espanha durante a colônia eram donos de grandes terrenos, e não apenas de terrenos, também dos campesinos que pertenciam a essas terras, e seus trabalhos permitiam uma vida de luxo aos monges para se comprometer com a “Opus Dei”, a vida de “contemplação”, a erudição, e o ofício divino? Ou sabe que a virtude mais importante do monastério foi a obediência? Talvez esse cara seja obediente a São João (Zerzan) como abade, e Kevin Tucker como mestre dos noviços? É vergonhoso que permitiram que tal estupidez fosse publicada em uma revista “séria”.

Passaremos então a discutir o ensaio do editor principal, Kevin Tucker, sobre a civilização e a dependência, “Hooked on a Feeling: The Loss of Community and the Rise of Addiction” (Viciado em Um Sentimento: A Perda da Comunidade e a Aparição da Dependência). Ao nosso ver, este é o ensaio mais longo, e muito difícil de se resumir em alguns parágrafos. O texto começa com a descrição de “kia” ou as energias curativas que emergem das danças comunitárias das tribos nômades caçadoras-coletoras em várias partes do sul da África. Segundo Tucker, o sedentarismo cria a necessidade de resolver conflitos que anteriormente poderiam ser resolvidos pela mobilidade nômade. Pouco a pouco surge o papel do Xamã, e a especialização sobre o uso de plantas e cerimônias para resolver os problemas de uma comunidade sedentária. A partir daí surgem o álcool, o peiote, e os demais tóxicos que tentam resolver a frustração da domesticação. A primeira objeção que encontrei é que os animais também se “drogam” e se “embebedam”. Em algumas tradições, são os próprios animais ou as plantas que “ensinam” sobre seus usos, até mesmo seus usos narcóticos e alucinógenos.

No entanto, é necessário contemplar o tema da “civilização como um vício”, como Tucker descreve no seguinte parágrafo sobre o papel do álcool:

“A civilização foi levada literalmente nos ombros e costas dos bêbados. Uma devoção religiosa à produção requer um grau de embriaguez para criar raízes. A agricultura, o combustível necessário da civilização, define a monotonia: monótono, dor de ressignificação, sem brilho, e o trabalho sem fim. A humanidade nunca havia levantado suas mãos para a produção excedente se não estivesse segurando um copo levantado”.

Segundo Tucker, então, a humanidade deve retornar à energia da dança dos nômades para a cura emocional e psicológica baseada na comunidade e na atitude igualitária. É uma questão de quebrar a “lógica” viciante da civilização e fugir para forjar novas comunidades de resistência com base na lógica dos caçadores-coletores nômades. A crítica que tenho neste sentido é inspirada nas palavras de outro mano eco-extremista em uma entrevista com um certo John Jacobi:

“(…) sempre que há uma chance vocês gringos, ou seja, as pessoas que compartilham a cultura estadunidense (reformistas), querem sempre criar ‘movimentos’, é como se trouxessem nas veias um sentimento muito característico que os empurra a querer sempre ‘arrumar’ as coisas, e a Natureza Selvagem não escapa desse sentimento.”

Diz-se em algumas partes do texto que o melhor é o inimigo do bem moral, e acreditamos que Tucker cai neste erro. Pelo menos aqui, não é uma questão de defender as culturas primitivas onde quer que apareçam, mas de buscar as culturas “mais puras” da terra e tentar imitar seus modos de vida (é preciso comentar aqui, referindo-se ao Quadrúpede, que os Selk’nam também tinham Xamãs). Sabemos muito bem o que Tucker está jogando: nestas culturas se manifestaram a hierarquia, a domesticação, a civilização, etc., em algumas culturas pelo sedentarismo e o armazenamento de comestíveis, e isso é certo. Mas o processo que criou a civilização e está destruindo a vida na Terra não é produto de um processo de domesticação retirado de um processo particular, ou seja, os processos que criaram a sociedade tecno-industrial. Cada domesticação não criou o Leviatã que está nos ameaçando, e que nos escravizou. O rei Calusa no século XVI ou um agricultor africano do Delta do Níger no século XVII não tem culpa de nossa civilização.

Esta civilização é produto de um processo muito particular, quase ocidental, e seria difícil em nossa opinião encontrar a causa específica desta sociedade asquerosa. Portanto, não há a necessidade de julgar todas as sociedades primitivas e selvagens por suas habilidades de “domesticação”, como ter Xamãs ou qualquer outra coisa. Cada sociedade foi um fenômeno que era produto de seu ambiente e a resposta das pessoas que viveram naquele ambiente. O que vemos agora não foi inevitável, em nossa opinião, poderia ter sido diferente, e muitos selvagens lutaram até a morte para que assim fosse. Mas estas são apenas questões acadêmicas, o que foi perdido foi perdido, mas ainda existem os instintos de atacar e defender que são os mais importantes.

Há também um ensaio de John Zerzan, mas parecia bobo e não o lemos.

De qualquer forma, em nossa opinião, as diferenças entre os anarco-primitivistas do norte e os eco-extremistas do sul vêm dos exemplos das tribos “primitivas” que desejam imitar. Os anarco-primitivistas estão sempre buscando seus exemplos nas tribos que viveram em ambientes inóspitos, onde a fuga ainda era uma opção. Isso inclui os Bosquímanos e Pigmeus do sul da África, os povos que viveram no Alaska, e os Selk’nam (Embora não se dão conta de que eram “sexistas” e tinham hierarquia na forma de Xamãs. Talvez também irão reconsiderar estes selvagens e excomungá-los da “comunhão dos saltos selvagens”). Isto é, eles são selvagens relativamente “pacíficos” onde a guerra contra a civilização não era possível ou necessária. Mas essa não é a nossa situação.

Os eco-extremistas, por outro lado, buscam seus exemplos históricos em situações que correspondem a nossa situação atual, especialmente nos Teochichimecas antes e após a conquista da Mesoamérica, os Yahi na Califórnia, Estados Unidos, os Seri dos desertos de Sonora no México, os Apaches, os Comanches, etc,. Em suma, todas as tribos que estavam em uma guerra até a morte contra a civilização, as que empregavam o ataque indiscriminado, o roubo, o terror, e outras táticas de guerra total. Os anarco-primitivistas querem atuar como se estivéssemos em um tempo mais ou menos pacífico, e dizem que primeiro devemos “convencer as massas” para fazer uma “mudança social”. Dizem que ainda nos resta “tempo” e “esperança”. Essa etapa para o eco-extremismo já passou há muito tempo, assumindo que já foi em algum momento uma opção verdadeira, o que é duvidoso.

Os anarcos dirão que essa opinião é “niilista”, e talvez estejam certos. Não temos problema algum com o rótulo de “niilista”. Mas se nós somos niilistas, também eram as mulheres e homens que se lançavam desde o alto da montanha para converter-se em projéteis humanos contra os espanhóis na Guerra do Mixtón em Zacatecas, e as tribos que preferiam se afogar em um rio do que serem levadas como escravas, ou os milhares de guerreiros que preferiram lutar até a morte contra o invasor. Se não ser “niilista” significa ter que esperar até que as massas te deem a sua “benção” para atacar, ou te impedem de atacar porque viola os “valores igualitários das tribos nômades caçadoras-coletoras” [que não existem], ou te obrigam a ceder antes de lutar porque não há probabilidade de “ganhar”, bem, repetimos, somos niilistas e ponto final. Não temos interesse em nos converter em hippiers vivendo em comunas no Alaska e, ao mesmo tempo, fingir “lutar contra a civilização”. Se esta é a “Primal War” como diz Kevin Tucker, (a guerra primal) é mentira e os anarco-primitivistas devem pelo menos admitir isso.

Campamocha

A Evolução da Dieta

Extraído de NatGeo. Traduzido por Anhangá.

É hora do jantar na Amazônia boliviana, e Ana Cuata Maito remove uma papa de banana e mandioca doce que estava sobre o fogo que arde no chão de terra de sua cabana coberta de palha enquanto aguça o ouvido para ouvir seu marido que retorna da selva com o seu esquálido cão de caça. Com uma menina no peito e um filho de sete anos puxando-a pelo braço, é a imagem viva do esgotamento quando me diz que espera esperançosamente que esta noite seu marido Deonicio Nate traga um pouco de carne. «As crianças ficam tristes quando não há carne», diz por meio de um intérprete.

Esta manhã de janeiro Deonicio saiu antes do amanhecer com o seu rifle e o seu facão para percorrer o quanto antes as duas horas de caminhada que o separa da floresta primária onde gosta de caçar. Ali examinou as copas das árvores em busca de macacos-pregos e de quatis, enquanto o cão cheirava a terra rastreando algum catitu ou capivara. Se a sorte estivesse com ele, Deonicio localizaria um dos animais mais carnudos da selva: uma anta, mexendo com seu longo focinho preênsil os gomos de samambaias úmidas. Esta noite, no entanto, ele retorna de mãos vazias. Mas ele é um cara dinâmico de 39 anos que não parece se dar por vencido facilmente; quando não está caçando, pescando ou tecendo folhas de palmeiras para o teto de sua casa, está no bosque esculpindo uma nova canoa a partir de um tronco. Quando ele finalmente se senta para comer, se queixa de como é difícil obter carne o suficiente para a sua família: duas esposas (algo comum em sua tribo) e seus 12 filhos. Os madeireiros assustam os animais e não há como pescar no rio porque uma tempestade o deixou sem canoa.

A história se repete, com variações mínimas, em todas as famílias que visito em Anachere, uma comunidade de cerca de 90 membros da antiga tribo Tsimane. Estamos na estação das chuvas, a pior para caçar e pescar. Mais de 15 mil Tsimane vivem em cem aldeias espalhadas ao longo das margens de dois rios da bacia amazônica, perto de San Borja, uma pequena cidade com mercado a 360 quilômetros de La Paz. No entanto, para ir de Anachere a San Borja são dois dias de viagem em canoa motorizada, então os Tsimane que vivem ali obtém a maior parte de seu sustento da salva, rio e suas plantações.

Viajo com Asher Rosinger, um doutorando da equipe copresidida pelo bioantropólogo Willian Leonard, da Northwestern University (Illinois), que estuda os Tsimane para documentar as características de uma dieta da floresta tropical. Particularmente lhes interessa saber como muda o estado de saúde dos indígenas conforme abandonam a sua dieta tradicional e seu ativo estilo de vida e começam a trocar os produtos da selva por açúcar, sal, arroz, azeite e –cada vez mais– carnes secas e sardinhas enlatadas. Não é uma investigação de valor exclusivamente teórico: o que os antropólogos descobrem sobre as dietas dos povos indígenas como os Tsimane poderia dizer aos demais quais alimentos nos convém comer.

Rosinger me apresenta José Mayer Cunay, de 78 anos, que, com o seu filho Felipe Mayer Lero, de 39, cuida há três décadas de uma exuberante horta às margens do rio. José nos conduz por um caminho ladeado por árvores carregadas de mangas e mamão, cachos de bananas verdes e toranjas penduradas nos galhos como brincos em uma orelha. As helicônias e o gengibre silvestre crescem como ervas daninhas entre o milho e a cana-de-açúcar. «A família de José tem mais frutas do que qualquer outra», diz Rosinger. Mas na cabana da família, a mulher de Felipe, Catalina, está preparando o mesmo purê maçante que nas outras casas. Pergunto se eles não se contentam com os produtos da horta quando a carne é escassa, e Felipe nega com a cabeça. «Necessito caçar e pescar –diz–. Meu corpo não se conforma em comer apenas estas plantas.»

À medida que nos aproximamos de 2050, quando teremos outras mais 2 bilhões de bocas para alimentar, descobrir a dieta ideal se torna uma missão urgente. As decisões alimentares que tomarmos nas próximas décadas terão repercussões cruciais para o planeta. Em suma, uma dieta focada em carne e laticínios –em alta nos países em desenvolvimento– consumirá mais recursos no planeta que outra baseada em cereais integrais, nozes, frutas e legumes.

Até o nascimento da agricultura há cerca de 10 mil anos atrás todos os humanos comiam o que caçavam, coletavam e pescavam. Com a aparição da pecuária, os caçadores coletores nômades foram expulsos pouco a pouco das terras cultiváveis mais valiosas, até ficarem isolados nas florestas da Amazônia, as pastagens áridas da África, as ilhas remotas do sudeste da Ásia e a tundra do Ártico. Hoje restam apenas algumas poucas tribos de caçadores coletores espalhadas pelo planeta. Diante dessa realidade, a ciência está redobrando os seus esforços para aprender tudo o que puder sobre a dieta e o estilo de vida ancestral destes povos antes que desapareçam. «Os caçadores coletores não são fósseis viventes –diz Alyssa Crittenden, da Universidade de Nevada, Las Vegas, antropóloga especialista em nutrição que estuda a dieta dos Hadza da Tanzânia, um dos últimos exponentes da sociedade caçadora coletora–. Dito isso, é verdade que quase não existem populações desse tipo. O tempo está se esgotando. Se quisermos obter informações sobre o estilo de vida nômade caçador coletor, devemos documentar sua dieta hoje mesmo.»

Até hoje os estudos sobre os caçadores coletores como os Tsimane, os Inuit do Ártico e os Hadza descobriram que essas populações não conheciam a hipertensão, aterosclerose nem as doenças cardiovasculares. «Muitos acreditam que existe uma discordância entre o que comemos hoje e o que nossos antepassados estavam evolutivamente preparados para comer», diz o paleoantropólogo Peter Ungar, da Universidade de Arkansas. A ideia de que estamos presos em um corpo típico da Idade da Pedra trazido ao mundo dos fast foods dá razão a atual moda das dietas paleolíticas. As chamadas “dietas dos homens das cavernas”, da Idade da Pedra ou paleodietas são baseadas na teoria de que os humanos modernos são adaptados para comer como os caçadores coletores do paleolítico (período de cerca de 2,6 milhões de anos atrás até a chegada da revolução agrícola) e que os nossos genes não tiveram tempo para se adaptar aos alimentos cultivados.

A dieta da Idade da Pedra «é a única que se adapta perfeitamente a nossa configuração genética», escreve Loren Cordain, nutricionista evolutiva da Universidade Estatal do Colorado, em seu livro A Dieta Peleolítica. Perca peso e ganhe saúde com a dieta ancestral que a natureza desenhou para você. Após estudar as dietas dos caçadores coletores atuais e concluir que 73% destas sociedades obtém da carne mais da metade de suas calorias, Cordain elaborou sua própria receita paleolítica: coma carne magra e peixe em abundância, mas evite consumir laticínios, legumes e cereais, ou seja, os alimentos que não se incorporaram em nossa dieta até que houve o surgimento da culinária e da agricultura. Os defensores da paleodieta como Cordain, asseguram que ao limitarmo-nos aos alimentos que consumiam os nossos ancestrais caçadores coletores podemos nos livrar das doenças próprias da civilização, como são as cardíacas, hipertensão, diabetes, câncer e até a acne. Soa bem. Mas é verdade que na evolução humana todos nós nos adaptamos para consumir uma dieta na qual a carne predomina? Os paleontólogos que estudam os fósseis de nossos ancestrais e os antropólogos que documentam as dietas dos atuais povos indígenas afirmam que a questão não é tão simples. Ungar e outros cientistas apontam que a dieta paleolítica, muito na moda, é baseada em ideias errôneas. A carne tem desempenhando um papel importante na evolução da dieta humana. Raymond Dart, que em 1924 descobriu o primeiro fóssil de um ancestral humano na África, popularizou a imagem de uns proto-humanos que caçavam para sobreviver comendo carne na savana africana. Nos anos cinquenta os descrevia como «criaturas carnívoras, que capturavam presas vivas por meios violentos, as matava a golpes […], saciavam sua sede bebendo o sangue quente de suas vítimas e devoravam com ânsia a carne ainda vermelha e pulsátil».

Alguns cientistas acreditam que a ingestão de carne foi fundamental para que os nossos ancestrais desenvolvessem um cérebro maior há cerca de dois milhões de anos. Ao substituir a dieta vegetariana dos macacos antropomorfos, baixa em calorias, por um menu mais calórico a base de carne e medula, nosso antepassado direto, o Homo Erectus, obteve em cada ingestão uma dose extra de energia que contribuiu para o ampliamento de seu cérebro. Ao digerir uma dieta de maior qualidade e com menor volume de fibra vegetal, o intestino deste Homo reduziu o seu tamanho. A energia liberada como resultado da hipotrofia intestinal pode ser redirecionada para o faminto cérebro; é nisso que Leslie Aiello acredita, a primeira a postular esta tese junto com o paleoantropólogo Peter Wheeler. O cérebro humano consome em repouso 20% da energia corporal; o cérebro de um macaco se satisfaz com 8%. Isso significa que desde a época do H. Erectus o organismo humano depende de uma dieta de alimentos hipercalóricos, especialmente a carne.

Se dermos um salto adiante de dois milhões de anos, testemunhamos outra revolução na dieta humana: a invenção da agricultura. A domesticação de cereais como o sorgo, a cevada, o trigo, o milho e o arroz resultaram em uma oferta abundante e previsível de alimento, e graças a isso as mulheres dos agricultores poderiam ter muitos filhos seguidos: um a cada 2,5 anos, em vez de 3,5 como os caçadores coletores. A consequência foi uma explosão demográfica; em pouco tempo, os agricultores superavam em número os caçadores coletores. Os antropólogo passaram uma década tentando decifrar as chaves dessa transição. A agricultura constitui um progresso completo para a saúde humana? Ou será que ao abandonar a vida de caça e coleta e voltar-se para o campo e a criação de gado renunciamos a uma dieta mais saudável e um corpo mais forte em troca de comida assegurada?

O bioantropólogo Clark Spencer Larsen, da Universidade Estatal de Ohio, descreve o surgimento da agricultura em termos negativos. Quando os primeiros agricultores tornaram-se dependentes das colheitas para garantir a sobrevivência, sua dieta perdeu uma enorme diversidade nutricional em comparação com a dos caçadores coletores. Comer o mesmo grão domesticado dia após dia lhes causou cáries e doenças periodontais, patologias muito raras nos caçadores coletores, diz Larsen. Quando os agricultores começaram a domesticar os animais, o gado, as ovelhas e as cabras se converteram em uma fonte de leite e carne, mas também de parasitas e novas doenças infecciosas. Os agricultores sofreram deficiência de ferro e atrasos no desenvolvimento, além de perderem estatura.

Apesar da explosão demográfica, a forma de vida e a dieta dos agricultores eram claramente menos saudáveis que as dos caçadores coletores. O fato de que as comunidades agrícolas produzirem mais filhos, diz Larsen, apenas mostra que “estar doente não é um obstáculo à procriação”. A verdadeira dieta paleolítica, no entanto, era mais que carne e medula. É verdade que os caçadores coletores de todo o planeta desejam comer carne acima de qualquer outra coisa e obtém dos animais cerca de 30% de seu consumo calórico anual, mas também é verdade que a maioria suporta períodos de escassez em que comem pouquíssima carne por semana. Os últimos estudos sugerem que a expansão do cérebro se deve a algo mais que a preponderância da carne na dieta dos antigos humanos.

Observar os caçadores coletores ao longo do ano confirma que as caçadas fracassadas ocorrem com frequência. Os Hadza e os Bosquímanos Kung! da África, por exemplo, retornam sem carne mais da metade das vezes que saem para caçar com arcos e flechas. A partir desta realidade fica claro que foi muito mais difícil para nossos ancestrais, que não possuíam essas armas. «As pessoas pensam que você sai para caçar na Savana e encontra antílopes em todos os lugares, esperando tranquilamente que lhes abram a cabeça», diz Alison Brooks, paleoantropóloga da Universidade George Washington e especialista nos Dobe Kung! de Botswana. Em nenhum lugar a carne é consumida com frequência, exceto no Ártico, onde os Inuítes e outros grupos obtinham tradicionalmente até 99% de sua ingestão calórica de focas, narvais e peixes.

O que os caçadores coletores comem quando não há carne? Acontece que por trás do «homo venator» há sempre uma «femina recollectrix», que, com ajuda das crianças, proporciona um bônus de calorias durante os tempos difíceis. Quando a carne, a fruta e o mel são escassos, os coletores dependem de «alimentos de última instância», diz Brooks. Os Hadza obtém quase 70% de sua ingestão calórica das plantas. Os Kung! resistem graças aos tubérculos e as nozes do mongongo; os pigmeus Aka e Baka da bacia do Congo, do inhame, os Tsimane e os Yanomami do Amazonas, da banana e a mandioca; os Aborígenes australianos, de duas plantas que chamam Junça bulbosa e castanha da água.

«Existe um discurso sistemático segundo o qual a caça nos definiu e a carne nos fez humanos –diz Amanda Henry, paleobióloga do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig–. Honestamente, eu creio que esta afirmação óbvia é metade verdade. Os humanos querem comer carne, isso sem dúvidas, mas do que realmente sobrevivem é de vegetais.» Além disso, a cientista encontrou grânulos de amido vegetal em fósseis dentais e ferramentas líticas, o que sugere que os humanos podem ter vindo se alimentando de cereais, além de tubérculos, pelo menos há 100.000 anos, o suficiente para ter desenvolvido a capacidade de tolerá-los.

A ideia de que paramos de evoluir no paleolítico é errônea. Nossos dentes, nossa mandíbula e nosso rosto foram reduzidos, e nosso DNA variou desde a invenção da agricultura. «Ainda estamos evoluindo? É claro!», diz a geneticista Sarah Tishkoff, da Universidade da Pensilvânia. Uma evidência que demonstra isso é o caso da intolerância à lactose. Todos os humanos digerem o leite materno enquanto o tomam do peito; mas até que chegou a domesticação do gado há 10 mil anos, uma vez que as crianças eram desmamadas, elas não precisavam digerir o leite novamente. Como consequência, o organismo humano deixava de produzir lactase, a enzima que decompõe a lactose em açúcares simples. Quando os humanos se lançaram como pecuaristas, a capacidade de digerir leite se converteu em uma vantagem fabulosa e, portanto, foi gerada uma tolerância à lactose que evoluiu de forma independente nas comunidades pecuárias da Europa, Oriente Médio e África. As comunidades que não dependiam do gado para a sua sobrevivência –como os chineses e tailandeses, os índios Pima do sudoeste norte-americano e os Bantus da África Ocidental– continuam sendo intolerantes à lactose.

Os humanos também apresentam variações na capacidade de extrair açúcares de alimentos ricos em amido durante a mastigação, dependendo de quantas cópias eles herdam de um gene em particular. As populações que tradicionalmente comem mais alimentos ricos em amido, como os Hadza, têm mais cópias do gene que os Iacutos da Sibéria, de dieta carnívora, de modo que sua saliva começa a decompor os amidos antes que cheguem ao estômago. Estes exemplos parecem contradizer o clichê de que «somos o que comemos». Deveríamos puramente dizer «somos o que comeram nossos antepassados». Existe uma grande variedade de alimentos dos quais os humanos podem obter sustento, dependendo de sua herança genética. As dietas tradicionais de hoje incluem o vegetarianismo dos Índios Jainistas, a predominância carnívora dos Inuíte e a enorme presença de peixes entre os Bajau da Malásia. Os Nchmani das Ilhas Nocobar, no Índico, se dispõem com a proteína dos insetos «O que nos torna humanos é a capacidade de encontrar algo para comer em qualquer ambiente», diz Leonard, codiretor do estudo sobre os Tsimane.

Os estudos sugerem que os grupos indígenas sofrem diversos problemas quando abandonam a dieta e as atividades tradicionais e abraçam o modo de vida ocidental. Por exemplo, até a década de 1950 a diabetes era quase desconhecida entre os Maias da América Central; quando adotaram uma dieta ocidental, carregada de açúcares, os casos de diabetes dispararam. Os pecuaristas siberianos, como os Evenki e os Yakuto, seguiam dietas muito ricas em carne, mas desenvolveram poucas patologias coronárias até que mudaram seu modo de vida tradicional para um mais sedentário e começaram a consumir produtos comercializados. Para muitos povos nativos da Sibéria estas mudanças se aceleraram após a desintegração da União Soviética. Hoje, metade dos Yakut instalados nas cidades estão com sobrepeso e quase um terço, com hipertensão, diz Leonard. E os Tsimane que compram comida em supermercados são mais propensos a desenvolver diabetes do que aqueles que continuam a caçar e coletar.

Para aqueles de nós descendentes de humanos adaptados a dietas vegetais –e que tem empregos sedentários– talvez não seja uma boa ideia consumir tanta carne como os Yakuto. Estudos recentes confirmam que embora os humanos seguem consumindo carne vermelha durante dois milhões de anos, consumi-la em grande quantidade aumenta a prevalência da aterosclerose e o câncer na maioria das populações, e não apenas por causa das gorduras saturadas e o colesterol. Nossas bactérias intestinais digerem um nutriente da carne chamado L-carnitina. Em um estudo com camundongos, a digestão da L-carnitina desencadeava a formação de placas de ateroma. As investigações também demonstraram que o sistema imunológico humano ataca um açúcar da carne vermelha chamado Neu5Gc, uma resposta cujos efeitos inflamatórios são mínimos nos jovens, mas que com o tempo podem se tornar cancerígenos. «A carne vermelha é fantástica se você quer morrer aos 45», diz Ajit Varki, da Universidade da Califórnia em San Diego, principal autor do estudo sobre o Neu5Gc.

Muitos paleoantropólogos afirmam que, embora os defensores da dieta paleolítica moderna nos impelem a rejeitar produtos processados, a dieta baseada fundamentalmente na carne não produz a diversidade alimentar de nossos ancestrais, não incorpora as atividades físicas que os protegiam de doenças cardiovasculares e da diabetes. «o que incomoda muitos paleoantropólogos é que na verdade não existe uma só dieta do “homem das cavernas” –diz Leslie Aiello, presidenta da Fundação Wenner-Gren de Investigação Antropológica em Nova York–. A dieta humana tem pelo menos dois milhões de anos de história. Há muitos “homens das cavernas” em nossa árvores genealógico.» Em outras palavras, a dieta humana ideal não existe. Aiello e Leonard afirmam que a verdadeira marca distintiva da espécia humana não é nosso gosto pela carne, mas a nossa capacidade de adaptarmo-nos a muitos habitats distintos e sermos capazes de combinar muitos alimentos diferentes para criar muitas dietas saudáveis. Infelizmente, a atual dieta ocidental não parece ser uma delas.

O mais recente indício que poderia nos ajudar a entender porque a dieta moderna nos faz adoecer foi apontado pelo primatologista de Harvard Richard Wrangham, para quem a revolução mais importante da dieta humana não foi a introdução da carne, mas a preparação de alimentos. Quando nossos ancestrais aprenderam a cozinhar entre 1,8 milhões de anos e 400 mil anos atrás, eles provavelmente conseguiram criar mais filhos, diz ele. Esmagar e aquecer a comida deixa os alimentos “pré-digeridos”, de modo que o intestino investe menos energia para quebrá-los, os absorve melhor que crus e, com isso, extrai mais energia para o cérebro. «Cozinhar produz alimentos suaves e muito energéticos“, continua Wrangham. Hoje não podemos nos manter exclusivamente de comida crua sem processamento, diz: a evolução nos fez dependentes de alimentos cozidos. Para verificar sua tese, Wrangham e seus alunos programaram duas dietas –uma de comida crua e outra cozida– para dois grupos de camundongos. Quando visitei o laboratório de Wrangham em Havard, a então doutoranda Rachel Carmody me mostrou umas sacolas plásticas cheias de carne e batata doce, cruas e, umas e cozidas em outras. Os ratos que comiam alimentos cozidos ganharam entre 15% e 40% mais peso que os que só comiam alimentos crus. Se Wrangham está certo, o cozimento dos alimentos não apenas deu aos primeiros humanos a energia necessária para desenvolver um cérebro maior, mas também permitiu que obtivessem mais calorias de cada alimento e, consequentemente, ganhassem peso. O outro lado da moeda é que, no contexto atual, podemos ser vítimas de nosso próprio sucesso. Aperfeiçoamos de tal forma as técnicas de processamento de alimentos que, pela primeira vez na história evolutiva humana, muitos indivíduos consomem mais calorias do que queimam. “Os pães grossos integrais deram lugar a doces industriais, e maçãs, a suco de maçã”, escreve ele. “Devemos nos conscientizar dos efeitos hipercalóricos do consumo de alimentos ultraprocessados”.

Essa mudança para os alimentos ultraprocessados, uma tendência comum em todo o mundo, está por trás da desenfreada epidemia de obesidade e suas patologias associadas. Se consumíssemos mais frutas e vegetais de produção local, um pouco de carne, peixe e cereais integrais (como na tão alardeada dieta mediterrânea) e fizéssemos uma hora por dia de exercício, nossa saúde agradeceria. E o planeta também.

A última tarde que passo com os Tsimane de Anachere, uma das filhas de Deonicio Nate, Albania, de 13 anos, nos conta que seu pai e seu meio irmão Alberto, de 16, finalmente voltaram com a caça. Nós a seguimos até a cabana onde cozinham e sentimos o cheiro dos animais antes mesmo de vê-los: três quatis sobre o fogo. Enquanto sua pele listrada era queimada, Albânia e sua irmã Emiliana, de 12 anos, vão raspando a pele até deixar a carne à vista. As esposas de Deonicio estão limpando dois tatus, que irão cozinhar com banana da terra. O pai está sentando perto do fogo, descrevendo um bom dia dia de caça; Primeiro abateu os dois tatus. Então o cão localizou um grupo de quatis e os perseguiu; ele matou dois e o resto entrou em uma árvore. Alberto atingiu um deles com um tiro. Três coatis e dois tatus eram suficientes, então o pai e filho recolheram tudo e voltaram para casa.

Enquanto a família desfruta do banquete, observo o pequeno Alfonso, que esteve doente a semana toda. Dança ao redor do fogo, comendo com alegria um pedaço de rabo de coati assado. Deonicio está satisfeito. Esta noite, no povoado de Anachere, alheios às disquisições nutricionais, há carne, e isso é bom.