Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3

Extraído de “Cuadernos Sin Número”.

“Black and Green Review” é uma revista estadunidense, sendo o projeto mais recente de John Zerzan e Kevin Tucker. O Sr. Zerzan não requer introdução nos círculos do pensamento “anti-civilização” já que depois de Don Ted (Kaczynski), ele é o teórico mais conhecido no mundo destes assuntos. Kevin Tucker é menos conhecido, mas é o escritor que trabalhou com Zerzan em publicações como “Green Anarchy” na primeira década deste milênio. Tinha ele também o seu projeto chamado “Species Traitor” (Traidores da Espécie), que era uma revista no estilo da atual “Black and Green Review”, só que mais livro do que revista e era composta de vários artigos de diferentes autores. Como revista é fisicamente bem feita, com fotos e várias seções com artigos longos e curtos, e neste caso está composta por mais de duzentas páginas.

“Black and Green Review” sai duas vezes por ano nos Estados Unidos. Não iremos explicar como conseguimos uma cópia aqui, do outro lado da fronteira, mas nós a temos e lemos ela. Muito menos iremos resumir a revista (ou melhor, o livro) inteiro, resumiremos os artigos mais importantes e daremos o nosso ponto de vista dentro do eco-extremismo particularmente desde a Antiga Mesoamérica Setentrional. Embora tenhamos nossas críticas bastante agudas contra esta revista, agradecemos a oportunidade de discutir seu conteúdo.

Em primeiro lugar, nosso artigo favorito era um “dos menores” e falava sobre o mosquito. Traduzimos aqui uma parte para compartilhar com os leitores lusófonos o conteúdo bastante informativo:

“Uma das falhas que padece a humanidade é que não vemos nenhuma espécie como benéfica se não pudermos explorá-la. Isto é especialmente verdadeiro para uma das espécies que nos causa uma grande dor. A ecologista evolucionista Dina Fonseca da Universidade de Rutgers, aponta isso perfeitamente ao comparar a situação com os Maruim (mosquitos médios) da família Ceratopogonidae, também conhecida por muitos como Moscas de Areia. “As pessoas que são picadas por Moscas de Areia ou infectadas com vírus, protozoários e filarias adorariam ser picadas para que esses insetos desaparecessem depois de estudar as suas próprias picadas.” disse ela. Mas, como alguns ceratopogonídeos são polinizadores de cultivos tropicais de cacau, “isso se traduziria em um mundo sem chocolate”. Para finalizar isso, quero mencionar um ponto muito óbvio, nós criamos este monstro. O mosquito transmissor da doença é nossa criatura e nosso Frankenstein. A instabilidade climática causada pelo humano gera desequilíbrios em todo o mundo. As populações de insetos aumentam quando aumenta a temperatura. O desmatamento e a erradicação das espécies e dos preadores levam a mudanças ecológicas, juntamente com a liberação de vírus latentes. A imunidade coletiva sofre do “progresso” humano. Ficamos doentes com tudo. Os mosquitos são vetores da doença, não a causa. Os mosquitos são apenas um dos cinco principais modos de transmissões de doenças amplificadas pela globalização. Não reconhecemos a maneira imprudente em que nos tornamos, cegos pelo ego e atuando como deuses nos esquecemos que para cada causa há um efeito.”

A explicação sobre a relação simbiótica entre o mosquito e seu ambiente é um ponto importante, e mostra que, de tempos em tempos, o anarco-primitivismo gringo pode pensar além de seu antropocentrismo. Talvez um dia possamos traduzir este artigo inteiro e o reproduziremos em outro lugar. Também imaginamos que as entrevistas que são publicadas na revista mencionada, com a advogada de ativistas eco-radicais e outra com um ex-prisioneiro são muito úteis para os eco-radicais daquele lado da fronteira. O compa “Halputta Hadjo” já apresentou uma crítica eco-extremista da entrevista com os eco-radicais de Zerzan no Canadá em seu artigo sobre os Calusa, e não temos mais nada a acrescentar aqui.

Indo aos “principais artigos” da revista, há alguns que merecem um comentário mais extenso. Comecemos com o artigo de “Four-Legged Human” (Quadrúpede Humano), intitulado “The Wind Roars Ferociously: Feral Foundations and the Necessity of Wild Resistance.” (O Vento Ruge Ferozmente: as fundações ferais e a necessidade da resistência selvagem). A cena deste artigo são os territórios inóspitos do estado norte do Alaska nos Estados Unidos. O texto tenta desenvolver o tema da domesticação e a dependência que ela cria nos humanos civilizados, especialmente, envolvendo a domesticação no fracasso universal da esquerda no mundo moderno. Ele também tenta apresentar a resistência como um processo de desdomesticação e fuga da civilização para lugares isolados. Neste sentido, estes anarco-primitivistas desejam imitar aos “Povos da Flecha” que ainda existem nas terras amazônicas. Ele escreve:

“Estima-se que, atualmente, nos últimos vestígios primários da Amazônia brasileira existam até 43 tribos isoladas. Índios Bravos ou Povos da Flecha. Muitas vezes caracterizados como ‘não contatados’, a realidade mais provável é que estes bandos amazônicos, conscientemente optaram por viver em isolamento e evitar a interação, precisamente devido a um profundo conhecimento entre gerações sobre as consequências desastrosas associadas a seus ancestrais e seus irmãos indígenas vizinhos que se converteram em domésticos e civilizados:

‘Determinação deliberada, ou melhor, autodeterminação… parece ajudar todas as tribos isoladas que ainda vagueiam pelas selvas da Amazônia… Os grupos indígenas que vivem em isolamento são isolados porque escolhem. Não é por causa de uma completa falta de contato, mas precisamente porque as experiências anteriores de contato com o mundo exterior se revelaram negativas.’”

Não temos muito o que discutir com o Quadrúpede sobre o seu diagnóstico do problema da domesticação e do híper-civilizado. Na verdade, a civilização cria humanóides dependentes e fracos que não podem viver sem a sua dependência, o que significa sua escravização ao sistema tecno-industrial. No entanto, a solução apresentada é especificamente fugir para os lugares remotos do norte e tornar-se selvagem novamente. Isso foi algo que nos confundiu muito. Ele escreve:

“Hoje temos conhecimento histórico e antropológico que nos leva ao desespero criado por 10 mil anos de domesticação. Não é hora de “sentar”, é hora de se levantar e caminhar na floresta, deixando para trás toda a nossa bagagem domesticada. Devemos agora finalmente nos converter no povo da flecha. Um futuro selvagem representa o nosso único caminho a seguir. Eu postulo que os reselvageados ferais estarão de pé no final, após os levantes massivos que virão, sendo capaz disso apenas por causa dos avanços alcançados multigeracionalmente a nível indomesticável. Prevejo a formação de bandos selvagens (bandidos!) muito unidos, não acorrentados pelas circunstâncias, mas instalados rapidamente nos bosques, montanhas e sacudindo o impenetrável pelos domésticos – Habitantes do nosso próprio ‘labirinto marrom” em que os domesticados não se atrevem a entrar. Não apenas isso, mas também bandidos eficazes para golpear a infraestrutura da civilização, causando um dano irreparável, e desaparecendo facilmente nas sombras apenas para emergir golpeando de novo e de novo.”

Para dizer a verdade, este parágrafo nos causou muitas risadas. É sério? Esta é a revista de John Zerzan? O cara que pega seu rosário toda vez que escuta algo sobre os ataques eco-extremistas no sul? Esses caras querem ser “bandidos”, mas os eco-extremistas já são, e por acaso eles apoiam? Muito pelo contrário. Nós não vimos nenhuma evidência que prove que os anarco-primitivistas ianques não tenham alergia ao cheiro de sangue. Os eco-extremistas não tem essa alergia, isso é fato. Eu não sei, provavelmente o Quadrúpede não leu a Revista Regresión, mas ele tem que fazer uma comparação com alguns textos ali (sobre banditismo) que saíram muito antes deste ensaio. Por exemplo, na Regresión 3 (Primavera de 2015):

“Resistir e negar a vida imposta desde pequenos e formarmos uma vida simples e o mais longe possível daqueles alinhamentos e esquemas culturais modernos, é um dos propósitos a serem alcançados desde o presente. Mas para formarmos essa vida que queremos, distante das grandes cidades e nas profundezas da natureza, às vezes requer dinheiro, dinheiro que preferimos roubá-lo de qualquer lugar ou obtê-lo através das centenas de formas criminosas que existem, antes que nos escravizem à vida de subordinados que a maioria das pessoas carrega. Esta é a razão pela qual o grupo editorial desta revista sente simpatia pela reapropriação do dinheiro para propósitos específicos que levam a uma vida que vala a pena ser vivida, sem se importar com quem sofra o disparo quando o dinheiro não é entregue, porque quando um empregado não entrega o dinheiro do patrão, este não merece seguir vivendo, já que defende como um cão obediente as migalhas do mestre, por isso merece uma facada ou uma bala em seu corpo, da mesma forma, quando o empresário, dono ou executivo do negócio não cumpre as exigências do ladrão, também merece o mesmo ou algo pior.

Não há misericórdia nesses atos, é tudo ou nada, é do extremismo de que falamos abertamente, se esse dinheiro será necessário para algum propósito extremista individualista, este o deve consegui-lo a qualquer preço. Aqui devo mencionar que para nós o dinheiro não é tudo, isso dizemos de uma forma muito realista. Neste mundo dominado por grandes corporações econômicas, às vezes é preciso obter dinheiro para cobrir certos fins e/ou meios. Pra nós, obtê-lo trabalhando não é uma opção, obtê-lo por fraude, assaltos ou enganando, sim. Aqueles ancestrais que viram seus modos de vida afetados pela expansão das civilizações tanto mesoamericanas como ocidentais, tiveram que atuar desta forma em algum momento (predação, saqueio, engano, roubo e/ou assassinato), temos apenas cumprido nosso papel histórico como herdeiros daquela ferocidade selvagem.”

Também este texto, retirado do editorial da Regresión 5 (Abril de 2015):

“Sou um eco-extremista e estou em Guerra, eu confeccionei explosivos recheados de fragmentos que dirigi contra tecnólogos que trabalham para artificializar a Natureza Selvagem. Os fios positivo e negativo se encontraram, a energia da pilha conseguiu aquecer o ignitor dentro do niple galvanizado preenchido por dinamite, uma faísca é gerada, o explosivo funcionou, os ferimos, os estilhaços perfuraram seus corpos, os gases da dinamite ardente chegaram a seus pulmões queimando-os ao mesmo tempo, seus sangues derramados serviram para lhes recordar de que NÃO são deuses, embora brinquem disso; não me arrependo por nenhuma destas feridas, de seu espanto, das consequências, o que aconteceu com eles é apenas uma resposta da Natureza Indomável que falou através de MIM. Estive escondido em várias cidades preparando atentados, conspirando com afins, e ampliando minhas práticas no plano da atividade criminosa. Incendiei carros indiscriminadamente, luxuosos e não luxuosos, pequenos ou grandes, uma vez que todos são asquerosas máquinas que fazem com que a camada de fumaça siga se solidificando sobre minha cabeça, os vi arder como um incêndio nas densas florestas, eu soube da reação de seus donos, não me importo com nada, a Natureza me deu a forma para sair intacto dessas situações.”

Então, se os ianques quiserem aprender algo sobre ser “bandidos”, talvez os eco-extremistas possam dar-lhes alguns conselhos para que não sejam detidos pelos valores humanistas civilizados.

Sobre a questão da fuga para a floresta ou o que quer que seja, recordamos uma correspondência com um mano eco-extremista que nos faz lembrar que o contexto ao sul da fronteira é muito diferente daquele dos gringos:

“Aqui muitos poucos “primitivistas” fazem o que fazem lá, isso de comprar um terreno e aprender habilidades de sobrevivência. O que sempre pensamos sobre essas atitudes é que a pessoa que faz isso está sendo covarde ao abandonar a civilização sem ter lutado contra ela. A cultura mexicana herdou de seu passado nativo esta atitude, aqui se você não responder a uma agressão você é fraco e viadinho, o mesmo vale para os “primitivistas” que compram um terreno e em vez de guerrear decidem viver alternativamente. Embora tente de todas as formas fugir da civilização, esta chegará a você. Um exemplo é o que passou com o velho Ted, ele partiu, mas a civilização chegou até ele, e o mesmo acontece aqui.

Só que aqui é muito mais violento, muitas áreas selvagens estão sendo controladas por pistoleiros que utilizam as montanhas para plantar papoula ou usam as colinas para esconder laboratórios de drogas sintéticas. Estes terrenos belos e selvagens estão sob o controle deles e se você ousar pisar neles, os pistoleiros te prendem e te levam como escravo a essas plantações, junto com os imigrantes do sul, e assim por diante. A situação aqui é mais complicada.

Com respeito as comunidades zapatistas, são uma merda, e o mesmo ocorre, estão sob o controle do comitê clandestino indígena que de indígena não tem muita coisa já que são controladas pelos marxistas mais relutantes, muitos estrangeiros.”.

Nós pelo menos concordamos completamente com o mano. Fugir não é uma opção real nem é algo que queremos fazer. A civilização insultou a nossa mãe Natureza, e pagará por isso, aconteça o que acontecer. Naturalmente, apoiamos os indígenas (os poucos que restam) que fogem da civilização, mas não somos eles, e é uma estupidez pensar que podemos nos tornar como eles. Melhor ficarmos aqui e lutar como somos, na verdade, não temos nenhuma outra opção.

Completando a informação sobre a opção de comprar um terreno no México assim como fazem nos EUA, existe também uma aparente desvantagem econômica, enquanto muitos anarco-primitivistas de lá tem uma economia estável dado a sua cultura de primeiro mundo (embora rejeitem), aqui se um anarco-primitivista mexicano quisesse comprar um pedaço de terra lhe custaria cerca de 60 mil a 100 mil pesos ou mais dependendo do lugar. Para obter essa grande quantidade de dinheiro o anarco-primitivista mexicano teria que trabalhar (dado o seu rechaço ao salário de uma empresa) em uma cooperativa universitária autogestiva (por exemplo), onde os lucros líquidos não chegam nem a 200 pesos por dia, então ele teria que trabalhar por um tempo indeterminado para comprar as suas terras. Num outro caso, se o anarco-primitivista “urgisse” comprar um terreno na natureza e decidisse trabalhar em uma fábrica oito horas por dia ralando em turnos noturnos e matutinos, ganhando 1000 pesos por semana, então estamos falando que conseguiria o dinheiro em pouco mais de dois anos, e isso juntando todo o dinheiro, embora esta opção seja quase impossível, já que teria que repartir estes 1000 pesos ganho por semana em aluguel, pagamento de serviços, alimentação, transporte (talvez), etc., então aqueles mais de dois anos dobrariam ou talvez mais. Possivelmente o anarco-primitivista mexicano se canse após tantos anos de trabalho, jogue tudo para o alto, deixe de ser um anarco-primitivista e decida viver uma “vida louca”. Ou talvez o anarco-primitivista em questão herde de sua avó uma casa na floresta e decida ir viver por lá, ou talvez o anarco-primitivista possa ir trabalhar nos Estados Unidos e faça como os trabalhadores michoacanos que trazem dólares os quais aqui tem um grande valor no mercado estimado em 18 pesos cada um, e assim possa adquirir seu terreno, pode ser, são apenas ideias…

Mas de qualquer maneira, alguns anarco-primitivistas dos EUA acham que podem de uma hora para outra se tornarem os bandidos mais fodas de toda a história, ou dentro de algumas “gerações”, ou que podem sobreviver em um dos lugares mais inóspitos do planeta (Alaska), E TAMBÉM atacar a civilização de vez em quando e saírem ilesos. Não pensamos assim, mas boa sorte. Vale a pena mencionar que o Quatro Patas descreve os Selk’nam da Terra do Fogo como um povo selvagem que poderia sobreviver em um dos ambientes mais difíceis da Terra, mas não mencionou que a sociedade Selk’nam era baseada no patriarcado rígido, era a fundação de suas crenças. Talvez ele tivesse que comentar algo sobre isso a suas companheiras primitivistas, que pensam que o patriarcado é sempre um produto da domesticação. Bom, apenas sugerimos.…

O mais curioso vem quando você termina este artigo com aspirações de se tornar um criminoso e logo passa para outro texto que diz que os anarco-primitivistas devem ter aspirações para ser… MONGES. Isso é completamente verdade, eu não estou inventando. O nome do artigo é “The Sacred Sunrise”, de Ian Smith. Não vou tentar resumir os argumentos aqui, pois eles são muito estúpidos e mostram uma profunda ignorância da natureza do monarquismo cristão desde sua origem até a atualidade. Por exemplo, menciona a regra de São Bento, mas não a sua lei mais importante: “ora et labora”, em latim, “rezar e trabalhar”. Bem, é muito interessante que alguns anarco-primitivistas pensam que podem se salvar trabalhando no campo e recitando palavras da bíblia. Será que o autor não sabe que os grandes monastérios da Idade Média, e até mesmo aqui na Nova Espanha durante a colônia eram donos de grandes terrenos, e não apenas de terrenos, também dos campesinos que pertenciam a essas terras, e seus trabalhos permitiam uma vida de luxo aos monges para se comprometer com a “Opus Dei”, a vida de “contemplação”, a erudição, e o ofício divino? Ou sabe que a virtude mais importante do monastério foi a obediência? Talvez esse cara seja obediente a São João (Zerzan) como abade, e Kevin Tucker como mestre dos noviços? É vergonhoso que permitiram que tal estupidez fosse publicada em uma revista “séria”.

Passaremos então a discutir o ensaio do editor principal, Kevin Tucker, sobre a civilização e a dependência, “Hooked on a Feeling: The Loss of Community and the Rise of Addiction” (Viciado em Um Sentimento: A Perda da Comunidade e a Aparição da Dependência). Ao nosso ver, este é o ensaio mais longo, e muito difícil de se resumir em alguns parágrafos. O texto começa com a descrição de “kia” ou as energias curativas que emergem das danças comunitárias das tribos nômades caçadoras-coletoras em várias partes do sul da África. Segundo Tucker, o sedentarismo cria a necessidade de resolver conflitos que anteriormente poderiam ser resolvidos pela mobilidade nômade. Pouco a pouco surge o papel do Xamã, e a especialização sobre o uso de plantas e cerimônias para resolver os problemas de uma comunidade sedentária. A partir daí surgem o álcool, o peiote, e os demais tóxicos que tentam resolver a frustração da domesticação. A primeira objeção que encontrei é que os animais também se “drogam” e se “embebedam”. Em algumas tradições, são os próprios animais ou as plantas que “ensinam” sobre seus usos, até mesmo seus usos narcóticos e alucinógenos.

No entanto, é necessário contemplar o tema da “civilização como um vício”, como Tucker descreve no seguinte parágrafo sobre o papel do álcool:

“A civilização foi levada literalmente nos ombros e costas dos bêbados. Uma devoção religiosa à produção requer um grau de embriaguez para criar raízes. A agricultura, o combustível necessário da civilização, define a monotonia: monótono, dor de ressignificação, sem brilho, e o trabalho sem fim. A humanidade nunca havia levantado suas mãos para a produção excedente se não estivesse segurando um copo levantado”.

Segundo Tucker, então, a humanidade deve retornar à energia da dança dos nômades para a cura emocional e psicológica baseada na comunidade e na atitude igualitária. É uma questão de quebrar a “lógica” viciante da civilização e fugir para forjar novas comunidades de resistência com base na lógica dos caçadores-coletores nômades. A crítica que tenho neste sentido é inspirada nas palavras de outro mano eco-extremista em uma entrevista com um certo John Jacobi:

“(…) sempre que há uma chance vocês gringos, ou seja, as pessoas que compartilham a cultura estadunidense (reformistas), querem sempre criar ‘movimentos’, é como se trouxessem nas veias um sentimento muito característico que os empurra a querer sempre ‘arrumar’ as coisas, e a Natureza Selvagem não escapa desse sentimento.”

Diz-se em algumas partes do texto que o melhor é o inimigo do bem moral, e acreditamos que Tucker cai neste erro. Pelo menos aqui, não é uma questão de defender as culturas primitivas onde quer que apareçam, mas de buscar as culturas “mais puras” da terra e tentar imitar seus modos de vida (é preciso comentar aqui, referindo-se ao Quadrúpede, que os Selk’nam também tinham Xamãs). Sabemos muito bem o que Tucker está jogando: nestas culturas se manifestaram a hierarquia, a domesticação, a civilização, etc., em algumas culturas pelo sedentarismo e o armazenamento de comestíveis, e isso é certo. Mas o processo que criou a civilização e está destruindo a vida na Terra não é produto de um processo de domesticação retirado de um processo particular, ou seja, os processos que criaram a sociedade tecno-industrial. Cada domesticação não criou o Leviatã que está nos ameaçando, e que nos escravizou. O rei Calusa no século XVI ou um agricultor africano do Delta do Níger no século XVII não tem culpa de nossa civilização.

Esta civilização é produto de um processo muito particular, quase ocidental, e seria difícil em nossa opinião encontrar a causa específica desta sociedade asquerosa. Portanto, não há a necessidade de julgar todas as sociedades primitivas e selvagens por suas habilidades de “domesticação”, como ter Xamãs ou qualquer outra coisa. Cada sociedade foi um fenômeno que era produto de seu ambiente e a resposta das pessoas que viveram naquele ambiente. O que vemos agora não foi inevitável, em nossa opinião, poderia ter sido diferente, e muitos selvagens lutaram até a morte para que assim fosse. Mas estas são apenas questões acadêmicas, o que foi perdido foi perdido, mas ainda existem os instintos de atacar e defender que são os mais importantes.

Há também um ensaio de John Zerzan, mas parecia bobo e não o lemos.

De qualquer forma, em nossa opinião, as diferenças entre os anarco-primitivistas do norte e os eco-extremistas do sul vêm dos exemplos das tribos “primitivas” que desejam imitar. Os anarco-primitivistas estão sempre buscando seus exemplos nas tribos que viveram em ambientes inóspitos, onde a fuga ainda era uma opção. Isso inclui os Bosquímanos e Pigmeus do sul da África, os povos que viveram no Alaska, e os Selk’nam (Embora não se dão conta de que eram “sexistas” e tinham hierarquia na forma de Xamãs. Talvez também irão reconsiderar estes selvagens e excomungá-los da “comunhão dos saltos selvagens”). Isto é, eles são selvagens relativamente “pacíficos” onde a guerra contra a civilização não era possível ou necessária. Mas essa não é a nossa situação.

Os eco-extremistas, por outro lado, buscam seus exemplos históricos em situações que correspondem a nossa situação atual, especialmente nos Teochichimecas antes e após a conquista da Mesoamérica, os Yahi na Califórnia, Estados Unidos, os Seri dos desertos de Sonora no México, os Apaches, os Comanches, etc,. Em suma, todas as tribos que estavam em uma guerra até a morte contra a civilização, as que empregavam o ataque indiscriminado, o roubo, o terror, e outras táticas de guerra total. Os anarco-primitivistas querem atuar como se estivéssemos em um tempo mais ou menos pacífico, e dizem que primeiro devemos “convencer as massas” para fazer uma “mudança social”. Dizem que ainda nos resta “tempo” e “esperança”. Essa etapa para o eco-extremismo já passou há muito tempo, assumindo que já foi em algum momento uma opção verdadeira, o que é duvidoso.

Os anarcos dirão que essa opinião é “niilista”, e talvez estejam certos. Não temos problema algum com o rótulo de “niilista”. Mas se nós somos niilistas, também eram as mulheres e homens que se lançavam desde o alto da montanha para converter-se em projéteis humanos contra os espanhóis na Guerra do Mixtón em Zacatecas, e as tribos que preferiam se afogar em um rio do que serem levadas como escravas, ou os milhares de guerreiros que preferiram lutar até a morte contra o invasor. Se não ser “niilista” significa ter que esperar até que as massas te deem a sua “benção” para atacar, ou te impedem de atacar porque viola os “valores igualitários das tribos nômades caçadoras-coletoras” [que não existem], ou te obrigam a ceder antes de lutar porque não há probabilidade de “ganhar”, bem, repetimos, somos niilistas e ponto final. Não temos interesse em nos converter em hippiers vivendo em comunas no Alaska e, ao mesmo tempo, fingir “lutar contra a civilização”. Se esta é a “Primal War” como diz Kevin Tucker, (a guerra primal) é mentira e os anarco-primitivistas devem pelo menos admitir isso.

Campamocha

Notas Sobre o Anarco-primitivismo

Texto escrito por Abe Cabrera em seu extinto blog Wandering Cannibals.

Eu estaria mentindo se eu dissesse que não gosto de me envolver em discussões. Mas eu também estaria mentindo se não dissesse que creio que isso não é bom para mim na maioria das vezes. O reino das ideias “anti-civilização” é pequeno, o daqueles que se opõe totalmente à civilização é ainda menor, e o daqueles que tem certas ideias a respeito é ainda mais pequeno, etc. Creio que foi Henry Kissinger quem disse que as políticas dos campus universitários são asquerosas devido haver muito pouco envolvimento. Esse é igual o nosso caso. Nem sequer conheço a alguém na “vida real” que sustente algo que se pareça com estas ideias. Portanto, se meter com alguém através de um gole retórico é lamentável no melhor dos casos, e tolo na pior das hipóteses.

De muitas maneiras você está no mesmo barco, não importando quantas distinções faça. Se é “são” enterraria o machado e agradaria a todo mundo. É claro, o homem não vive apenas de sanidade. (Aqui vem o grande “porém….”). Uma vez que se tem certa “epifania” você percebe que não está na mesma página com aqueles que o observador externo diria que você tem afinidade. Eu venho do anarco-primitivismo, ao menos em teoria, embora nunca tenha me sentido cômodo com ele. O antropocentrismo, o otimismo, a ideia de que existe um estado primordial que encaixa como uma luva na psiquê humana… estas coisas nunca se encaixaram comigo. Como Marxista sempre vi a “natureza” como um ato do intelecto e da vontade humana, ou algo que atua por parte do intelecto e da vontade humana. Ou seja, a vida humana não é algo que simplesmente é “produzida” por nossa natureza manifestando-se em uma circunstância em particular. É algo ativo e vibrante, resultante do homem testando sua força contra o caos e a entropia. Creio que é evidente que nossa situação está desbalanceada, que todos os projetos humanos são insustentáveis no final, e muitas vezes, o modo de se formar uma sociedade humana é o produto de milhões de vontades diferentes disparando ao mesmo tempo para produzir uma harmonia e desordem, o alçamento e a derrubada dos artifícios e hierarquias, o retorno a uma base que pode tornar-se instável em um ciclo que chega até os distantes recessos do passado…

Por algum tempo pensei que este entendimento era aquele que estava envolvido em outras escolas do pensamento anti-civilização. Eu nunca aderi a seu aspecto “vendedor” (selling): você estaria mais feliz e saudável sem a civilização, tua comodidade seria mais estável, tua vida seria mais satisfatória, etc. Para mim a vida sempre se tratou de lutar, não de felicidade, mas de significado; não de liberdade, mas sobre o que fazer com ela. Talvez eu seja muito “pré-moderno” neste sentido do meu pensamento: a egolatria nunca foi uma preocupação, os indivíduos seguem sendo peões em um grande jogo cósmico, nosso único papel agora é o de derrubar sem esperanças a reconstrução. O de perceber que o homem é o compêndio e não o fim do cosmos, e se ele cai, como o mordomo personificado do mundo físico, o único honorável a fazer é retirar-se e deixar que o mundo volte a ser o que foi antes de nós. Isso não é algo que você pode vender ao jovem idealista que quer fazer do mundo “um lugar melhor”, mas é a única coisa em que estou interessado.

Estive lendo a mais nova edição da revista “Revisão Verde e Negra” (Back and Green Review), e enquanto não quero chutá-la ou criticá-la de uma forma sistemática (principalmente, por que quem se importa? E para que serviria?) Dei-me conta de que nós (os criadores dessa revista e eu) estamos nisso por razões completamente diferentes. Um dos ensaios é uma descrição exaustiva de como um dos autores chamado “Humano de Quatro Patas” tem treinado para retornar imediatamente a ser um caçador-coletor nômade. Embora isso seja problemático em muitos aspectos, é refrescante em sua honestidade. Por exemplo, representa um ponto de viragem no discurso anti-civ por empregar um “bait and switch” (conceito que faz referência a trocar um bem que é grátis por um mais sofisticado que tem um custo maior), afirmando que, embora historicamente possa ser que os caçadores-coletores tenham trabalhado umas poucas horas ao dia, aqueles que tem a vocação para converter-se em caçadores-coletores agora deverão trabalhar duro, e muito duro, por horas e horas ao dia, com a perspectiva do fracasso e a inanição sempre por perto. Aí se pode ver um ponto de venda, suponho. Após muitas gerações pode ser que as pessoas regressem a um estilo de vida nômade, de ócio geral. E novamente, tenho muito pouco controle sobre meus próprios filhos, não tenho tanta certeza de que posso determinar a mentalidade da descendência que jamais conhecerei.

Para apoiar um pouco, tudo isso é baseado no Plano Mestre do Anarco-Primitivismo, que vai da seguinte forma:

Plano A: A civilização irá se colapsar sozinha (mais ou menos);

Plano B: Não há plano B.

O que eventualmente nos leva ao paraíso nômade caçador-coletor, que não será fácil, mas de algum modo é para isso que estamos preparados inerentemente, assim dizem eles. Não é violar a Lei de Godwin, mas creio que não há melhor analogia aqui que o Partido Comunista Stalinista proclamando: “Depois de Hitler, nós”. O ponto do artigo do “Humano de Quatro Patas” citado acima é de realizar a corrida do “super-homem” (todos teremos potencialmente estes super-poderes), que vencerá a civilização pelo desgaste. É como wu wei ou algo assim.

A obsessão dos Anarco-primitivistas da escola dos Black and Green Review é, desse modo, a de preparar as pessoas para este futuro. Assim, as sociedades “primitivas” que os indivíduos decidem emular serão de entornos marginais tais como os Inuítes ou os Selk’nam (Ona) da Terra do Fogo. Ou seja, lugares em que a maioria dos seres humanos não querem viver como primeira opção. A partir desse foco de colonos sub-árticos virá a nova esperança da humanidade, e todos os demais podem simplesmente morrer, porque eles não tem esperança. Parem, por favor. (Como é que isso não é niilismo? Ou seja, abraçar um sistema na qual eu e minha gente sobreviveremos, mas o resto pode simplesmente morrer de fome lentamente ou se matar entre eles em guerras por recursos, eu não tenho ideia. Creio que é totalmente kosher o cometimento de pecados de omissão ou simplesmente deixar que 99,99% da população da terra morra, mas se você faz algo para mencionar isso traria impureza, ou é ao menos uma perda de tempo. Tenho certeza de que os humanistas ao redor do mundo apreciariam essa distinção na misantropia).

O que é mais triste em tudo isso é como os anarco-primitivistas pegam essencialmente, a um nível narrativo, as visões científicas/coloniais do mundo e colocam nas sociedades que tentam emular: pegando o que gostam e deixando de lado o que não gostam, como se pudessem selecionar como se fossem tomates, as formas de vida que muitas vezes estavam intimamente relacionadas com as formas nas quais alguém via na natureza. Portanto, chega-se a “essência” ou a “substância” do que significa ser um caçador-coletor nômade, enquanto que os detalhes “irrelevantes” e “falsos” tais como a cosmologia, a mitologia, os rituais, etc., são deixados de lado como se não importassem. Como se os Ona (Selk’nam) fossem simplesmente algumas pessoas que puderam ser o que foram drenando todo o endurecimento físico e perseverança, mas deixando de lado os grandes rituais como o Hain, e as deidades como o Hoowin, como se não tivessem nada haver com tudo isso. Você pode abstrair e sangrar uma sociedade primitiva para teus próprios fins e usar o que te agrade para salvar tua própria pele, enquanto provavelmente nenhum caçador-coletor prudente tenha pensado sobre o mundo e o que ele ou ela fazem diariamente nestes termos. (Veja, por exemplo, o artigo “Os Seris, os Eco-extremistas e o Nahualismo” nesta mesma edição da revista para uma visão alternativa de como abordar esse tipo de sociedades).

Assim como o esquerdismo vejo o anarco-primitivismo como algo inventado na mente do contador e do administrador de recursos, mas levado à era da Idade da Pedra. Para mim, parece que preocupações tais como “como posso sobreviver e como posso evitar ser oprimido” são muito modernas e domesticadas. Claro, todos nós queremos sobreviver, mas em quais circunstâncias? Fugindo sempre? Esperando a Godot na forma de catástrofe para que assassine a todos os nossos inimigos por nós? Desistir das melhores terras e ir para um lugar onde se sobrevivermos ou não, não seja melhor que uma brincadeira de merda? Ao menos o “Humano de Quatro Patas” admitiu no final de seu ensaio os Paleo-guerreiros da Super-Elite dentro de seu clube, aqueles que quiseram ir ao parque urbano após o trabalho para tecer cestos e esculpir pedras: boa maneira de dar esperanças a seus leitores. Quanto a mim, qualquer interesse no Anarco-Primitivismo e no que eles pensam e fazem diminui mais e mais a cada dia. Isso também me aconteceu com o Marxismo, embora eu não tenha me considerado um Marxista por anos estava ainda interessado remotamente nele. Especialmente com os anarco-primitivistas estou cansado de “a civilização é ruim para a saúde e está nos matando” misturado com o “reselvagear-se é quase impossível para a maioria das pessoas e há um grande risco delas se matarem”. Ok, podem trabalhar em seus projetos que eu trabalho nos meus.

“Confrontando a Sua Domesticação” e “Reselvagizar-se”

Tradução do texto “Confronting your Domestication” and “Rewilding” escrito por Sokaksin. Traduzido por Urucun.

“Posso perguntar como você confronta a sua própria domesticação?”

Esta pergunta me foi feita há algum tempo, quem me perguntou foi uma pessoa com quem cruzei caminhos e desde o começo tive a impressão de ser uma pergunta estranha. Parece ser todo o furor reunido entre os círculos anarco-primitivistas a repetitiva fala sobre o seu “selvagismo”. Estas mesmas pessoas embarcam em longas viagens de camping com alguns de seus companheirinhos para viver a vida dura na parte de trás de algum rancho levando barracas primitivas, caçando equipados com armas e ferramentas primitivas e geralmente iniciando fogueiras para emular o pequeno homenzinho “caçador-coletor” em seu coração. No momento não posso dizer que eu me oponha às pessoas que realizam longas viagens de camping aprendendo habilidades primitivas, tendo um contato mais aprofundado com a terra que habitam, ou o que quer que seja. Eu passo uma grande parte dos meus dias, todos os dias ultimamente, andando pela floresta próxima da minha casa, e ao fazer isso, cheguei a conhecer de forma íntima as várias centenas de acres que compõem o parque adjacente no tempo em que vivi aqui. Então eu não posso ser e nem sou a pessoa certa para fazer algum julgamento a respeito. O que tomo partido diz respeito às ilusões sobre o que “reselvagizar” significa. Reivindicar o mundo-vivo das pessoas primitivas e a tendência correlativa entre a multidão daqueles “reselvagizando”, para cair muito profundamente no “jogo de tiro com arco primitivo”, e ao fazer isso, esquecer o que se é e onde realmente se está.

Minha resposta a esta pergunta foi essencialmente “eu não a faço”. Eu não quis dizer isso em um sentido passivo de simplesmente não fazer nada, por isso mesmo a minha escrita é uma pequena maneira de lidar com quem sou e onde estou, com a minha própria domesticação, e o mundo da qual sinto em meu coração e que me oponho profundamente. Isso de “não fazer” eu disse mais no sentido de aceitar o que cada um é, onde e quando se existe nas rodas do tempo, ao invés de lutar contra a realidade das próprias circunstâncias ao cair em delírios de reviver ou recriar a vida e o mundo inimaginavelmente complexo dos primitivos. O homem não existe e não poderia existir em um vazio. Ele está sempre fora de si mesmo, sempre é parte e produto de um tempo e lugar. E a pessoa primitiva era parte e produto de seu mundo, assim como o homem moderno é parte e produto desta realidade. Quem foram os Niitsitapi, senão uma extensão das grandes planícies, a tempestade elétrica sobre as campinas ondulantes e o búfalo? Na recente tradução de Atassa do editorial da Revista Regresión Número 7, esse sentimento foi expresso nos lamentos de um chefe dos Sioux:

“Em breve se levantará um sol que já não nos verá aqui e nossa poeira e nossos ossos se misturarão a essas pradarias. Como em uma visão, vejo morrer a chama das fogueiras de nossos grandes conselhos e as cinzas se tornarem brancas e frias. Já não vejo mais as espirais de fumaça subindo acima de nossas tendas. Eu não ouço o cântico das mulheres enquanto preparam a comida. Os antílopes foram perdidos; as terras do búfalo estão vazias. Apenas o uivo do coiote é escutado agora. A medicina do homem branco é mais forte que a nossa; seu cavalo de ferro corre agora pelas trilhas do búfalo. Ele fala conosco através do “espírito sussurrante” (telefone). Somos como pássaros com as asas quebradas. Meu coração está gelado. Meus olhos se apagam.”

Os Sioux, assim como um número incontável de pessoas, testemunharam sua própria morte e a de seu mundo. Se alguém quer falar sobre “reselvagizar” no sentido anarco-primitivista, não se pode falar sobre isso com honestidade sem reconhecer que o ser humano se encontra sempre em um tempo e espaço, e está ligado intrinsecamente a esse tempo e espaço. Muitas vezes você pode até se aventurar mais, no abstrato, mas este é um mundo de sonhos, e todos os sonhos devem terminar. É preciso voltar ao presente, já que é a única realidade que há. O passado está sempre percorrido e trilhado e o futuro é o nada arejado da especulação. Apenas o aqui e o agora tem a realidade. E se isso for verdade, o “projeto anarco-primitivista de reselvagizar”, “reivindicar o selvagismo de alguém” ou “confrontar a própria domesticação” é como uma tentativa banal de criar uma espécie de teatro idealizado de mundos mortos, ilusões e sonhos lúcidos sem sentidos. O anarco-primitivista levantará os fantasmas do grande búfalo, reviverá os ossos do antílope e reviverá as cinzas das fogueiras sagradas dos Sioux. O reino do Paleolítico se levantando novamente. Mas tudo isso é, claro, um sonho. O búfalo retornou ao Grande Espírito há muito tempo, assim como os ossos do antílope. As cinzas das fogueiras sagradas foram carregadas pelo vento há muito tempo atrás, e até os próprios Sioux se tornaram pessoas da história.

Falar sobre “reselvagizar” e seu coronário no sentido anarco-primitivista é, portanto, falar de algo que não tem sentido. É não confrontar o mundo como ele é. É fugir para os mundos dos sonhos em que as grandes redes da terra não foram destruídas pela civilização. Se alguém observar com um olhar sincero, deve reconhecer e aceitar o que somos, o que também está ligado à compreensão de onde e quando estamos. Isso significa reconhecer e aceitar que quase todas as pessoas que existem hoje em dia são parte e produto da monstruosa civilização tecno-industrial que segue estendendo os seus asfixiantes tentáculos sobre a face da terra. A domesticação está inscrita em nossa carne e vivemos no aterro sanitário ecológico da modernidade. Significa reconhecer que os grandes mundos do passado estão mortos e não há maneiras de voltar a eles, não há qualquer perspectiva realista de que se levantem novamente dentro de meu tempo de vida ou de algum de meus leitores. Como Jeffers diz em As Estrelas Cobrem o Oceano Solitário “O mundo está em má forma, meu caro/ E destinado a piorar antes de se consertar”. O que temos, e tudo o que nós temos, é este presente decadente em toda a sua monstruosidade, a contínua e implacável marcha do Leviatã por cima de tudo o que é selvagem e belo. Significa aceitar este presente com honestidade e responder a esse presente em consequência, de uma maneira que se encaixe ao presente. Sem sonhos entretidos nem ilusões de um amanhã melhor onde a utopia primitiva se veja realizada.

É claro, isso não se trata do “reselvagizar” de John Zerzan, Kevin Tucker, e o resto dos subordinados anarco-primitivistas. Este é o espírito do eco-extremismo, seu niilismo de visão clara, seu ataque selvagem neste presente decadente. Fragmento do Sétimo Comunicado de ITS:

“O Selvagem não pode esperar mais, a civilização se expande indiscriminadamente às custas de todo o Natural. Da nossa parte não ficaremos de braços cruzados assistindo passivamente como o humano moderno despedaça a Terra em busca de seus minerais, como a sepulta com toneladas de concreto ou como atravessam montanhas inteiras para construir túneis. Estamos em guerra contra a civilização e o progresso, contra aqueles que a aperfeiçoam e aqueles que a endossam com a sua passividade, contra quem quer que seja!”

Primitivismo Sem Catástrofe

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2.

Toda boa ideia precisa de um bom ponto de venda. O ponto de venda da ideologia abrangente que pode ser chamada de vários nomes como “anarco-primitivismo” e “pensamento anticivilização”, é a ideia de que a civilização moderna tecnoindustrial está destruindo a espécie humana, e de que se nós quisermos parar essa destruição, temos que destruir a civilização. É uma questão de auto-preservação. Nós precisamos renunciar a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc. Como nós sabemos disso? Bom, a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc, nos dizem isso. Eu provavelmente não sou o primeiro a notar a inconsistência nessa perspectiva, mas talvez eu seja o primeiro a falar algo sobre isso.

O “Pensamento anticivilização” (por falta de um termo melhor) tem um “problema de conhecimento”. O problema é que ele tenta criticar a totalidade do ponto de vista da própria totalidade. Ele tenta desmantelar as ferramentas que construíram tudo que ele despreza usando essas mesmas ferramentas. Isso culmina na ideia de uma “Catástrofe”: O colapso catártico do seu inimigo e a chance da restauração de uma ordem justa. Para alguém que segura um martelo, tudo se parece com um prego, e para alguém com uma narrativa apocalíptica, tudo leva ao fim do mundo. De fato, alguns diriam que a catástrofe é para o primitivista o que a ressurreição de Jesus era para São Paulo: O sinequa non fora do qual a mensagem não pode existir. Se a humanidade não está condenada pela tecnologia, se toda a vida na terra não está ameaçada pela ascendência de um primata egoísta vindo da África, então o que estamos fazendo aqui? Poderíamos simplesmente voltar para nossas casas e desfrutar de nossas televisões de tela plana e ar condicionado.

É claro que as coisas não são tão simples. A primeira pergunta deveria ser: “Nós estamos condenados?”. Alguns livros que saíram recentemente tentam responder essa pergunta com uma negação, mesmo que levando muito a sério a ciência que analisa a mudança climática e a escassez de recursos naturais. O livro de Ronald Bailey “O Fim da Tragédia: Renovação Ecológica no Século XXI” é uma das maiores contribuições ao gênero eco-modernista. Apesar de não ter tempo para cobrir todo o conteúdo do livro, posso ao menos falar sobre o ponto mais forte do livro (pelo menos sob a minha perspectiva): a análise da ideia ecológica de que “não fazer nada” é melhor do que “fazer algo”.

Esse conceito é certamente comum no discurso ambientalista. A natureza tem feito o que ela faz por milhões de anos, e assim, como diz o discurso, ela sabe melhor o que fazer. Isso é o que Bailey chama de “princípio de precaução”, melhor formulado pela frase que dá o nome ao terceiro capítulo de seu livro, “Nunca Tente Nada Pela Primeira Vez”. Tudo que é novo é culpado até que se prove inocente, e o ônus da prova está na novidade, que tem que demonstrar que ela não irá criar mais problemas do que ela está tentando resolver. É evidente que aqueles que se prendem a esse princípio de precaução se tornam paralisados e impedidos de agir, pois não há como eles saberem com certeza quais são as implicações de um desenvolvimento tecnológico (pense por exemplo no debate em torno de alimentos geneticamente modificados). Aqueles que sofrem por causa dessa hesitação, diz Bailey, não tem o luxo da dúvida: eles precisam do remédio novo contra o câncer, de comida barata e de outros benefícios que o desenvolvimento tecnológico traz. Como diz Bailey:

Infelizmente, o princípio de precaução soa razoável para muitas pessoas, especialmente para aquelas que já estão cercadas de tecnologia. Essas pessoas tem as suas casas com aquecimento elétrico nas montanhas; elas já gozam da liberdade da necessidade, ignorância e doenças que a tecnologia pode providenciar. Mas existem bilhões de pessoas que desejam ver as suas vidas transformadas. Para essas pessoas, o princípio de precaução é uma garantia de pobreza contínua, não de segurança.” (93-94)

Temos aqui um problema de conhecimento virado e revirado. O pensador anticivilização e neo-ludita estudou o suficiente sobre a sociedade tecnoindustrial para saber que ela é uma causa perdida. Ele sabe disso através do uso das ferramentas que a sociedade tecnoindustrial lhe forneceu. Mesmo assim, um eco-modernista como Bailey vira o jogo e mostra que esse pessimismo é baseado em uma visão otimista do conhecimento humano apoiado por uma infraestrutura tecnológica que permite estudo e reflexão. Se nós não sabemos realmente, e sabemos que não sabemos, não temos a obrigação de tentar? Não seria essa ignorância uma oportunidade ao invés de um obstáculo? Não é disso que se trata o iluminismo e a revolução científica?

Ao longo do resto do livro, Bailey demonstra diversas vezes, em assuntos que variam do pico do petróleo ao suposto aumento do número de casos de câncer causado pelo uso de produtos industriais que os pessimistas têm estado errados, e muito errados até agora. Bailey conclui que o homo sapiens é um animal sagaz e adaptável, capaz de extrair a vitória das garras da derrota repetidas vezes. Bailey tem poucas dúvidas que nós continuaremos fazendo isso, mesmo admitindo que algumas coisas, como a mudança climática, são problemas reais que afetam toda a humanidade.

Ironicamente, aceitar as premissas de Bailey pode ser a posição mais “primitivista” de todas. Se no fim nós somos apenas animais incapazes de salvar a nós mesmos sem abrir mão dos instrumentos que nos conferem um poder que parece absoluto, como é possível que nós sejamos capazes de condenar nós mesmos a não-existência? Ou ainda, se somos burros demais para nos salvarmos, podemos também ser burros demais para matar a nós mesmos. É claro que há o princípio da entropia, além da intuição de que é mais fácil quebrar do que consertar algo. Mas a analogia não se sustenta aqui, já que estamos falando de bilhões de animais individuais pelo planeta que se mostraram resistentes o suficiente para infestar toda a terra.

Então qual é a resposta? Estamos salvos ou condenados? A catástrofe é uma realidade inevitável ou um desejo masoquista? No fim das contas a resposta é: nós não sabemos. Aqueles que fingem saber estão se agarrando a um suposto bastião de certeza da ruína ou do otimismo no qual os cisnes negros de Nassim Nicholas Taleb jamais ocorrem. O futuro não pode ser completamente desolado, e também não podemos ter certeza de que o desastre não ocorrerá simplesmente porque ele ainda não ocorreu até agora. Tudo que nós realmente temos é o presente.

Assim voltamos ao título: é possível haver um primitivismo sem catástrofe? E se essa sociedade conseguir resolver seus problemas e seguir em frente? Nós voltamos para casa então? Nós passamos a tolerar essa ordem capitalista tecnoindustrial e reconhecer que se nós não podemos viver na sociedade em que desejamos, devemos aprender a amar a sociedade na qual vivemos? Afinal de contas, somos todos humanos, e compartilhamos as mesmas almas, corpos, sentimentos e intelecto. Já que as coisas são assim, nós podemos também trabalhar para salvar todos, e quem se importa com como faremos isso? Sonhos de um retorno a existência idealizada de caçadores-coletores se tornam cada vez menos atraentes.

Confrontados com esse impasse, trazemos aqui pensamentos de uma entrevista recente com membros da tendência mexicana eco-extremista:

“A maior diferença entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecnoindustrial. Nós atacamos agora porque o futuro é incerto. Você não pode criar uma estratégia baseada em suposições, acreditando que tudo irá ocorrer de acordo com os seus planos com uma vitória garantida. Nós paramos de acreditar nisso quando entendemos a enormidade do próprio sistema, de seus componentes e de seu vasto alcance que se estende por todo o planeta e até para fora dele. Se a civilização cair amanhã ou nos próximos 30 ou 50 anos, nós saberemos que travamos uma guerra necessária contra ela a partir de nossa própria individualidade. Nós não sabemos se haverá um colapso global do sistema algum dia. Os especialistas dizem que haverá, mas não há como ter certeza. É possível que o sistema caia e a natureza ressurja de suas ruínas. Mas talvez o sistema consiga se manter sempre um passo à frente, tornando-se autossuficiente e com a capacidade de se reparar com facilidade. Como nós já dissemos, não sabemos o futuro. Gostaríamos de saber, mas essa não é a realidade.”

Com os eco-extremistas, então, nós podemos encontrar uma maneira de sair da posição errônea de “um futuro melhor através de um retorno ao passado”. Aqui, nós podemos dizer que o futuro é nosso inimigo. Toda saída proposta, seja através das teorias liberais de Bailey ou de esquemas tecno-progressistas da esquerda é algo que nós rejeitamos logo de cara. Nós não queremos cooperar, e nem salvar o mundo. Nós nos recusamos a oferecer as nossas vidas ou a vida de outros por um futuro melhor. Esse futuro é sempre prometido, mas nunca chega. E nesse ponto, o problema de conhecimento entra novamente em cena: esse futuro não chega porque ninguém é capaz de trazê-lo. As coisas estão “melhorando o tempo todo” apenas porque nós fomos domesticados a ponto de achar que a cenoura na ponta da vara é o objetivo, e que nós estamos nos aproximando dela, e que a vara não está realmente lá, mesmo quando ela bate bem nos nossos narizes. Assim é a essência da civilização: o passado nebuloso e mítico e o futuro que nunca chega.

A catástrofe é a catarse que acaba com o ciclo de sofrimento. Mas assim como a versão budista, ela também é elusiva e nunca acontece nessa vida. De fato, o problema real do “pensamento anticivilização”, especialmente em sua forma anarco-primitivista, é que ele não sabe o que quer, porque o que ele quer é moldado pelo que ele odeia. Ele nem sequer conhece realmente a natureza por se recusar a admitir que não há como conhecê-la com qualquer certeza, e assim faz da natureza um ídolo representando todos os seus desejos ambivalentes. A própria ideia de defender a natureza nos mostra que o nosso conhecimento sobre a natureza, especialmente o conceito peculiarmente norte-americano de “natureza pristina” é mal embasado. David George Haskell descreve a situação da vegetação florestal em face da ressurgência recente da população de veados em seu livro A Floresta Oculta: Um Ano de Observação na Natureza:

“Humanos eliminaram alguns predadores, mas também introduziram três criaturas que matam veados: cães domésticos, coiotes invadindo do oeste e automóveis. Os dois primeiros são matadores eficientes de veados jovens, enquanto o terceiro é o principal assassino suburbano de adultos. Nós nos deparamos com uma equação impossível. De um lado, nós temos a perda de dezenas de espécies de herbívoros; do outro, nós temos a substituição de um predador por outro. Que nível de pastagem é normal, aceitável e natural em nossas florestas? Essas são perguntas desafiadoras, mas é certo que a vegetação florestal exuberante que cresceu no século XX era menos pastada do que o comum.”

Uma floresta sem grandes herbívoros é que nem uma orquestra sem violinos. Nós estamos acostumados a sinfonias incompletas, e estranhamos quando os tons incessantes dos violinos retornam e colidem com os instrumentos mais familiares. Essa reação negativa ao retorno dos herbívoros não tem nenhuma boa fundação histórica. Nós temos que ter uma visão mais ampla, ouvir toda a sinfonia e celebrar a parceria entre animais e micróbios que tem afetado as plantas jovens por milhões de anos. Adeus arbustos; olá carrapatos. Seja bem-vindo de volta ao pleistoceno.

Nós devemos então encarar o fato de que talvez não haja nenhuma “catástrofe”, e se houver, ela não terá o efeito purificador que esperamos. A definição do capitalismo moderno é crise, e o bom homem de negócios faz da crise uma oportunidade. Isso significa que nós não devemos lutar? Que nós devemos abaixar as nossas armas e sermos derrotados pelo quietismo e agnosticismo? Não necessariamente, mas significa que nós precisamos definir melhor porque nós nos opomos a sociedade atual mesmo que ela tenha o potencial de durar milhões de anos, e mesmo que ela torne nossas vidas “melhores” em alguns sentidos. Ao menos temos que definir por que nós nos opomos a ela e não acreditamos que ela seja capaz de concretizar qualquer uma de suas promessas de tirar os animais humanos da miséria.

Primeiro, vamos começar com a natureza. Nós não podemos rejeitar a catástrofe como um conceito sem nenhuma nuance precisamente porque a natureza é uma catástrofe ao longo prazo. Isso ocorre porque a natureza é mudança, e é uma mudança que vai muito além da compreensão humana mesmo em seu sentido mais científico e abstrato. Humanos modernos tem o problema de acreditar que as suas ideias são consubstanciais com a realidade, mesmo que frequentemente não haja razão nenhuma para acreditar nisso. Eles dominam conceitos incompreensíveis como tempo, espaço, matéria, luz, etc. no abstrato e assim acham que não há mais nada para eles no sentido concreto, mesmo que eles nunca tenham saído do conforto de sua cadeira ou do espaço na frente da lousa. A natureza é catástrofe porque ela interrompe, desmantela, destrói tudo e cria novamente: das estrelas mais distantes até as células de nossos corpos. Aderentes do pensamento anticivilização tem dificuldade de aceitar isso de uma maneira concreta, apesar de estarem constantemente falando banalidades abstratas sobre isso. Para eles só se pode dizer “Doutor, cure a si mesmo!”.

O que é então a nossa relação com a natureza? Como nós superamos a ideia frequentemente repetida pelos críticos de que os primitivistas “reificam a natureza”. Aqui, eu ofereço um tropismo cripto-hegeliano. Muitos “primitivistas” (por falta de um termo melhor) veem a natureza como algo que nos é externo, e que oferece a nossa existência como uma dádiva passiva, e que o problema real é que nós nos esquecemos do aspecto gratuito dessa dádiva (pense aqui no conceito cristão de “graça”. Da mesma maneira que um homem não pode obter salvação através do Deus de Calvino, ele é também incapaz de criar os seus meios de vida sem o assentimento da natureza. Obviamente, essa é uma formulação absurda. A natureza, ou se você preferir usar o muito criticado termo de Lovelock, “Gaia”, é o produto de bilhões de coisas vivas trabalhando juntas e sustentando umas às outras ao longo das eras: ela é o ato de coisas vivas. Elas são formadas por ela e a formam também, que vai de pequenos microrganismos até ecossistemas complexos e a própria biosfera. Nós temos que manter isso em mente cada vez que olhamos para a “natureza pristina”. Como Haskell diz várias vezes ao longo de seu livro citado acima, a natureza não é uma sala de meditação, e nem um Éden onde se pega as frutas dos cachos sem esforço algum. Há também confronto e tragédias, da mesma maneira que há cooperação e piedade. O fato que ela persistiu por tanto tempo é uma evidência disso.

O pecado do homem moderno não é ter resistido a sua natureza humana passiva, como diriam muitos primitivistas. O problema é que ele acredita que ele é independente da própria natureza, que ele consegue se virar sozinho, que ele pode dominá-la por completo e não deixar nada sob a sombra do mistério. Esse é o homem moderno, alienado, implacável e autocentrado. Não é o que ele faz, e sim o que ele faz bem demais que é o problema, ou pelo menos assim ele pensa. Por causa disso que não há “solução”. Não há nenhuma abstração que consiga capturar o problema inteiro e torná-lo digerível. O mundo onde há soluções é um mundo que não deveria existir, ou melhor, é o mundo que cria problemas em primeiro lugar. A catástrofe da maneira que ela é entendida pelo homem moderno (purificante, final, devastadora) é o mito necessário pairando sobre a utopia como a espada de Damocles. Alguns de nós preferem espadas caindo do que um paraíso imaginário.

Sendo assim, a solução eco-extremista é brutal e pessimista. Não há futuro, e nem uma “nova comunidade”. Não há “esperança”. Nós não falamos isso com uma alegria gótica, e sim com alívio, como se tivéssemos tirado um fardo de nossos ombros. Seres humanos são feitos para errar o alvo, e nós tendemos a fracassar mais do que acertamos. Mesmo assim, nós fazemos parte de um todo, e deixamos outros para trás para vencer e perder, e para lutar outro dia. Nossa ambição não tem fim, porque ela nunca conquista a vitória. Nós olhamos para sociedades do passado que já foram extintas que aceitaram as suas limitações (ou assim pensamos, pois não há como saber de verdade) com admiração; uma admiração que sabe que se elas não eram “perfeitas”, é porque há algo de errado com as nossas expectativas domesticadas, e nada verdadeiramente errado nelas. Tudo que nós podemos fazer é lutar de volta até nos extinguirmos nessa existência onde uma parte acredita que pode engolir o todo.

E é assim que se parece de fato um primitivismo sem catástrofe, sem uma narrativa fechada, sem um “final feliz”: o contentamento do olho e de todos os outros sentidos em face do que nós conhecemos por natureza, mesmo que nós não a entendamos, mesmo que ela pareça mutilada e incompreensível aqui e agora. Não é algo que nós fazemos (apesar de nós termos uma participação) e nem algo que controlamos (apesar de fazermos o nosso melhor). Mas emaranhada nos corações ementes do homem, é algo verdadeiramente maravilhoso de se contemplar: esse todo, o vasto céu estrelado, o canto do pássaro, a lesma que rasteja, o dia novo, a decomposição, a morte, a vida… terminamos com a grande voz poética de Robinson Jeffers:

Saber que as grandes civilizações foram reduzidas a violência,

e seus tiranos vieram, muitas vezes antes.

Quando a violência aberta surge; evitá-la com honra ou

escolher a facção menos feia; esse mal é essencial.

Manter a própria integridade, piedoso e não corrompido,

sem desejar o mal; e sem ser enganado

Por sonhos de justiça universal ou felicidade. Esses sonhos

não se realizarão.

Saber disso, e saber que por mais feias que pareçam as partes

o todo permanece maravilhoso. Uma mão amputada

É algo feio, e o homem separado da terra e das estrelas

e da sua história… por contemplação ou de fato…

Parece por vezes terrivelmente feio. Integridade é inteireza,

a maior beleza é a

Totalidade orgânica, a totalidade da vida e das coisas, a beleza divina

Do universo. Ame isso, não o homem

Separado disso, senão você irá compartilhar as suas patéticas confusões,

ou se afogar em desespero quando os seus dias escurecem.

Selvagens Politicamente Incorretos

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2.

Steve Sheldon me contou sobre uma mulher que deu à luz sozinha na praia. Algo deu errado. Um parto de nádegas. A mulher estava agonizando e dizia: “Ajuda-me, por favor! O bebê não vem”, gritava. Os Pirarrãs sentaram-se passivamente, alguns parecendo tensos, outros falando normalmente. “Estou morrendo! Isto dói. O bebê não vem.”, ela gritava. Ninguém respondeu. Já era tarde. Steve se dirigiu a ela. “Não, ela não quer a você. Quer a seus pais.”, foi-lhe dito, o que implicava claramente para que ele não se dirigisse a ela. Mas seus pais não estavam perto e ninguém mais iria em sua ajuda. A noite chegou e seus gritos eram notados regularmente, cada vez mais fracos. Finalmente, se detiveram. Pela manhã, Steve soube que ela e o bebê haviam morrido na praia, sem ajuda.

Steve registrou a história deste incidente, que é repetido aqui. O texto relata… [o] trágico incidente de uma ideia da cultura Pirarrã. Em particular, nos é dito que o Pirarrã deixa a uma jovem morrer sozinha e sem ajuda devido a sua crença de que as pessoas devem ser fortes e superar as dificuldades por conta própria. Daniel Everett, “Don’t Sleep, There are Snakes: Life and Language in the Amazonian Jungle”, pg. 90-91

Um curioso efeito foi observado, o qual deu lugar a muitas queixas por parte da população masculina nativa. Como resultado da associação das mulheres com os homens brancos, desenvolveu-se um movimento feminista espontâneo. Primitivamente, a mulher não era apenas fisicamente, mas também economicamente e espiritualmente subordinada ao homem. A índia realizava a maior parte do duro trabalho manual associado à vida na aldeia, enquanto o seu marido e o pai passavam o tempo descansando. Ela se viu obrigada a obedecer a todas as ordens e caprichos de seu amo e senhor. Caso contrário, não evitaria o inevitável castigo. Com a chegada de milhares de homens brancos, não casados e à caça de fêmeas, a situação foi alterada. As mulheres poderiam fazer frente aos índios homens com a escolha de um melhor tratamento ou deixar o seu conjugue e trocá-lo por um pretendente branco. Por outro lado, a índia, sem dúvida, foi profundamente influenciada pela invejável posição que ocupou o seu sexo nas comunidades brancas recém-criadas. Embora nenhum sociólogo contemporâneo tenha dado suficiente atenção a isso, temos indícios de uma formidável revolta feminista. Um agente da Fresno Indian Farm, reportou:

“Embora os homens sejam, ou uma vez foram, donos absolutos das mulheres, muitas delas neste momento… encontraram refúgio entre os brancos e, portanto, são independentes dos homens.”

Uma declaração também apareceu próxima ao mesmo período no sentido de que, “os homens brancos tomaram as mulheres dos índios, desde suas casas de campo e ensinaram-nas a desprezar as criaturas preguiçosas, e utilizaram isso para fazê-las escravas.” Se este clima era característico de grande parte da opinião feminina, é fácil ver como, mesmo sem grande agitação social envolvida, a mudança poderia agir como um agente irritante e, assim, servir como um fator na interrupção da vida familiar aborígene. – “The American Invasion, 1848-1870” pgs. 81-82 em “Cook, Sherburne F. The Conflict Between the California Indian and White Civilization”. Berkeley: University of California Press, 1976.

Os Jarawas são cerca de 400, e um geneticista os descreve como “possivelmente as pessoas mais enigmáticas do nosso planeta”, e que se acredita que tenham migrado da África há cerca de 50 mil anos. São muito escuros, de baixa estatura e até 1998 viveram em completo isolamento cultural, atiraram com flechas de ponta de aço quando estrangeiros chegaram perto demais… Não é nenhum segredo que, no passado, a tribo tenha realizado assassinatos ritualísticos de crianças nascidas de viúvas ou -muito mais raro- engendrados por aborígenes. O Dr. Ratan Chandra Kar, um médico do governo que escreveu um livro de memórias sobre seu trabalho com os Jarawas, descreveu uma tradição em que os bebês recém-nascidos foram amamentados por cada uma das mulheres no período de lactação no grupo antes de serem estrangulados por um dos anciões da tribo, a fim de manter “a chamada pureza e santidade da sociedade.”. “Baby’s Killing Tests India’s Protection of an Aboriginal Culture,” New York Times, 13 de Março, 2016.

Certa noite Debe caminhava à direita do acampamento de Gau, e sem dizer uma só palavra disparou três flechas contra Gau, uma no ombro esquerdo, uma na testa, e a terceira no peito. O povo de Gau não fez nenhum movimento para protegê-lo. Depois que as três flechas foram disparadas, Gau seguia sentado diante de seu atacante. Debe levantou sua lança como se fosse apunhalá-lo, mas Gau disse, “Você já me flechou três vezes. Não é o suficiente para me matar e agora também quer me cravar uma lança?” Quando Gau tentou se esquivar da lança o povo de Gau apareceu para desarmar a Debe de sua lança. Após ser gravemente ferido, Gau morreu rapidamente. Richard Lee, The Dobe !Kung, citado em “Ultrasociety: How 10,000 Years of War Made Humans the Greatest Cooperators on Earth”, pg. 104

Para mim, todas estas citações anteriores me lembram a uma citação aparentemente insignificante que apareceu quase no final da polêmica Ya Se Habían Tardado: Reacción Salvaje En Respuesta a Destruye las Prisiones, que diz o seguinte:

“Antes deste comentário RS (Reacción Salvaje) comenta se DP (Destruye las Prisiones) dá uma de conhecedores de comunidades. Esperamos que saibam que o povo das colinas no México está acostumado há centenas de anos a formas de vida que são mal vistas pelos citadinos doentes da cultura ocidental, certas formas de vida que são catalogadas de “brutais”, como por exemplo, trocar uma mulher por uma vaca ou uns porcos. Para os nativos é comum, é parte de seus costumes, de seu modus vivendi e é algo normal, enquanto que para os moralistas ocidentais (incluindo alguns anarquistas) é algo indigno, se escandalizam e gritam de indignação quando escutam falar sobre isso. Geralmente as anarquistas do tipo feminista são as que fazem mais escândalo diante disso. RS não vê como algo ruim, RS respeita o desenvolvimento e os costumes das pessoas do campo, por isso nos expressamos a favor das relações de poder neste tipo de comunidades, porque não é da nossa conta tentar mudá-las. Enfatizamos, não é que sejamos “machistas”, mas honestamente não nos opomos a esse tipo de atitude nativa. Isso é o que pensamentos, embora os anarquistas fiquem furiosos por falarmos desta maneira.”

Não posso falar por todo o eco-extremismo, apenas por mim, e vou aceitar outros pontos de vista da tendência se uma correção for necessária, mas a partir disso, posso afirmar que o anarquismo, o primitivismo, o esquerdismo, etc., estão mal orientados e são moralistas precisamente porque tentam se organizar-julgar-melhorar a sociedade, enquanto que os animais humanos possivelmente não podem fazer isso, não com nenhuma competência, pelo menos. Muitas dessas sociedades tem práticas bárbaras, violentas e “sombrias”, mas elas existem há centenas de anos, isso senão por milhares. Então, porque é que, em nosso tempo de vida em uma sociedade excepcionalmente jovem (se é que é vivaz), nos damos o direito de determinar como uma sociedade humana deve ser em TODAS as circunstâncias? Eu diria que não o faria. As sociedades que se desenvolveram dentro de seus ambientes desde tempos imemoriais demonstraram que podem manter suas formas de vida por milênios. Nossa própria sociedade (isto é, a que estamos presos, embora não voluntariamente) não pode dizer o mesmo, mas muito pelo contrário.

Pessoalmente, este ponto de vista é porque não posso tomar nem o anarquismo, o marxismo, o esquerdismo, o liberalismo, etc., seriamente como um meio de interpretar a realidade. Estas ideologias são obcecadas por coisas ocidentais, tais como a organização social, a igualdade entre os indivíduos, a divisão do trabalho, etc. Em nossa realidade animal, que é como escolher algo para comer baseado apenas em sua cor em vez de seu sabor e seu valor nutricional, a relação principal não é a dos seres humanos entre si, mas a dos seres humanos com a natureza, ou melhor, com seu ambiente natural, e com as outras entidades, conscientes ou não, que compartilham conosco. Todas estas ideologias errôneas e civilizadas, até mesmo os autoproclamados “primitivistas” são humanistas e antropocêntricos, enquanto que nós só queremos a relação com a Natureza Selvagem e as culturas que se formaram ao longo de milênios, como as gotas de água que podem polir uma pedra, de forma inconsciente, organicamente e não planejada.

Os seres humanos, sem dúvida, tem um papel a desempenhar nisso, e suas ações fazem dar forma a paisagem e a eles mesmos, assim como as ações dos castores, formigas, aves, etc., formam um bosque ou um rio. Mas isso está completamente determinado pela encarnação da Natureza Selvagem que eles encontram, é realizado por séculos, e de nenhuma maneira é “planificada” ou “controlada” pelo intelecto humano determinado. Isso simplesmente acontece. Apresentar-se a um “selvagem” com a ideia de que a queima seletiva de ervas daninhas ou de atividades semelhantes o torna mestre do ambiente, provavelmente estaria confundido pela afirmação.

Aqui, então, afirmo que os seres humanos no passado estavam sempre em equilíbrio entre seu próprio poder e sua mente, e o da própria Natureza Selvagem. A questão não é dizer que alguns viviam em completa harmonia com a natureza, sem hierarquia ou sem guerra ou qualquer coisa que ofenda a sensibilidade ocidental burguesa. O ponto é que o equilíbrio de poder entre o humano e a natureza selvagem se manteve. Em alguns casos, isso implicaria o patriarcado, em alguns lugares que não seria o caso (foram os Selk’nam da Terra do Fogo “mais domesticados” que outros caçadores-coletores porque eles eram regidos por um patriarcado? Considerando sua cultura, outro estado seria absurdo.) Foram os Choctaw, no que é agora o sudeste dos Estados Unidos, tão civilizados como os Astecas ou Maias simplesmente porque também cultivaram milho? Eram os Yuroks do norte da Califórnia, de alguma forma ruins, porque tinham uma hierarquia social rígida, mas sem agricultura? “Domesticação” e “civilização”, estas podem não ser categorias tão claras como algumas ideologias anti-civilização afirmam que são. Isso porque nosso conhecimento é animal e, portanto, defeituoso.

Aqui temos que olhar as coisas que não estão em preto e branco, mas em um espectro, e nesse espectro, nós não estamos julgando as sociedades humanas por sua forma “agradável” e o quão bem tratavam as mulheres, homossexuais, deficientes, etc. Nós não nos preocupamos com estas coisas, e aqueles que são obcecados por isso são extremamente estúpidos e deixam que seus próprios preconceitos civilizados mostrem o melhor deles.

Preferimos confiar nas sociedades que viveram há milhares de anos em seus respectivos ambientes e em seus “valores”, que nos valores humanistas dos ocidentais que ocultam a violência da sociedade tecno-industrial moderna, por trás de platitudes como moralismo e decência. O mais importante sobre a domesticação e a civilização, então, é que surgem, mas surgem nos lugares mais frágeis. Ou seja, que nunca foram capazes de dominar completamente, nunca exaltaram as sociedades humanas individuais no domínio completo sobre a natureza, e quando o fazem, inevitavelmente, o colapso ocorre. O que temos agora é uma monstruosidade completa, um Leviatã que não pode entrar em colapso e que não há possibilidades de livrar a maioria dos seres vivos dele, pois busca a completa dominação. Ante este ser antinatural a única atitude que nós podemos ter é a de hostilidade total e absoluta.

Isso pode parecer completamente reflexões escolares, e talvez não. Pelo menos escrevo para apoiar a afirmação eco-extremista de que os valores ocidentais liberais não importam em nada, e, portanto, quando as pessoas tentam esfregá-los em nossa cara, deveríamos energeticamente rechaçá-los e insultar os que seguem comprando estes contos de fadas. Além disso, isso indica que o pessimismo eco-extremista está mais do que garantido: se tudo o que temos a nosso favor em termos de “esperança” são as observações incompletas dos “antropólogos” e nossas próprias faculdades intelectuais defeituosas, está claro que estamos completamente fodidos.

Não podemos fazer as sociedades em uma noite e desde o zero, ou não deveríamos querer fazê-las. Um Saruê não se pergunta nem é nuançado para determinar o que significa ser um Saruê. É apenas um Saruê. Em outras palavras, não pretende ser um deus, e tampouco nós devemos. No passado, os humanos viviam em sociedades que existiram por milhares de anos que falaram do que era ser um ser humano, sociedades que eram pequenas, sustentáveis, e mais frequentemente muito estáveis. Nós não temos isso e, em vez disso, pensamos que podemos fazer o papel de engenheiro social, o que é o problema fundamental e real. Por isso nos vemos tentados a pensar que um !Kung Bushman é mais “selvagem” ou “melhor” que um caçador Selk’nam, ou um guerreiro Choctaw, ou um Yurok “nobre”. Isso não é indicação de conhecimento, mas de loucura.

A relação primária no eco-extremismo é entre o animal humano e a Natureza Selvagem, que é concretizada em seu ambiente imediato, e não com uma abstração conhecida como humanidade. Portanto, é uma tendência anti-humanista e não humanista. Como todos os ursos não simpatizam com ursos menores, mas os dois dependem de todas as plantas, animais, as águas e as rochas circundantes para sobreviver, então todos os seres humanos não deveriam ter solidariedade com toda a humanidade, apenas com aqueles de outras disposições similares e com os seres que passaram a amar em seu entorno. Isso deveria ser óbvio, e muitos selvagens têm esta atitude.

Além disso, nos damos conta de que a civilização é uma “doença transitória”, que surge ocasionalmente e logo se vai, deixando cicatrizes algumas vezes, mas nunca terminal, como o todo nunca pode ser destruído por uma parte. Somos deficientes neste sentido, que nós não conhecemos nossos lugares, ou que eles foram roubados, indica a tragédia do nosso estado e nossa raiva na guerra indiscriminada contra o que pode nos destruir e escraviza o Selvagem. Mesmo se a única Natureza Selvagem que nos resta somos nós mesmos, ou talvez seja apenas a dor e a raiva de ter sido privado dela, isso é o suficiente para levar a cabo esta guerra contra a humanidade domesticada.

-Chahta-Ima

Nanih Waiya

Primavera de 2016