O Retorno do Guerreiro

Tradução do escrito de Ramon Elani. Traduzido por Anhangá.

A guerra… é um meio de atingir um objetivo individual: o desejo do guerreiro por glória, o guerreiro sendo seu próprio objetivo. Desejo não de poder, e sim de glória.” – Clastres

Eu sou uma lança que ruge por sangue” – Canção de Amergin

Rejeitando inteiramente as ideologias do humanismo e progressismo, eu proponho a figura do guerreiro selvagem. A sociedade guerreira, entendida como oposta à guerra mecanizada dos séculos XX e XXI, rompe a sociedade do estado, a sociedade do mundo tecnoindustrial. O guerreiro se encontra na encruzilhada entre a vida e a morte, o humano e o animal, a memória e o esquecimento, negociando uma constelação de cosmo-práxis em sua tarefa. Eduardo Viveiros de Castro chama a nossa atenção para as diferenças entre o tratamento dos mortos entre os andinos e as tribos das terras baixas. No primeiro caso, as tradições incas de sepultamento e o complexo funerário industrial veneram os ancestrais, os fundadores do estado, os burocratas, os administradores. No segundo caso, nas sociedades de guerra, os mortos são tratados como inimigos, sendo erradicados e esquecidos através da ingestão ritual. Há uma guerra entre os vivos e os mortos. Aqueles que veneram os mortos reforçam as correntes que os prendem. Aqueles que os devoram afirmam a sua autarquia selvagemente. O guerreiro renuncia a hereditariedade, e nenhuma honra pode ser adquirida através da linhagem. É apenas os seus atos de valor que lhe trarão a glória que ele procura. A seguir, eu irei contextualizar o guerreiro em luz de seu mais elegante teórico, Pierre Clastres.

A voz de Clastres fala como um eco de coisas esquecidas há muito tempo. Uma tendência, um gesto que caminha ao nosso lado mas oculto nas sombras dos milênios. Nós conhecemos as palavras de Clastres antes de termos ouvido elas. O fogo do guerreiro flameja dentro de todos nós. De Castro: às vezes temos uma impressão de que é preciso lê-lo (Clastres) como se ele fosse um obscuro filósofo pré-socrático”. De fato, nós podemos verdadeiramente perceber a essência do mundo nos sangrentos fantasmas que ele conjura.

De Castro aponta para a comparação feita por Clastres entre Heráclito e os xamãs guaranis. Todas as filosofias do dinamismo e do mundo são costuradas em conjunto para formar uma bandeira contra o monólito da máquina. Se, apesar de sua ressonância subterrânea e atemporal, os escritos de Clastres nos preenchem com uma experiência de estranheza, de destino, de escuridão, de mistério, nós podemos ver que tudo que nós precisamos fazer é tirar as vendas de nossos olhos. Clastres nos convida a ouvir novamente o batimento do tambor que ecoa em nosso sangue. Quando nós mergulhamos nas lagoas familiares, porém turvas da alma do guerreiro, Clastres nos lembra, há apenas uma questão: até onde nós estamos realmente dispostos a ir? Ele entendia, como nós também devemos entender, que o destino cósmico da nossa civilização está em jogo.

Nada é mais ultrapassado do que o homem da guerra: ele foi substituído muito tempo atrás por um personagem completamente diferente, o homem militar.

É tentador e comum, diz de Castro, pensar em Clastres como um porco espinho com apenas uma ideia, mas uma ideia vasta além de qualquer compreensão. O guerreiro primitivo se levanta contra o estado. A guerra tribal, em toda a sua brutalidade e crueldade, existe para prevenir o aniquilamento do universo. Como nós veremos, porém, o trabalho de Clastres explode em uma galáxia de poesia e filosofia, difusa e brilhando contra o céu noturno. No final das contas, não é o estado, e sim o próprio significado da humanidade que o guerreiro expõe e arrasta para a luz. Nas palavras de Claude Lefort: “Apenas o homem pode revelar ao homem que ele é homem”. Sendo assim, o que Clastres nos mostra sobre o sentido da violência e da guerra se torna uma questão metafísica, não apenas algo que está no domínio político, e de fato, algo oposto a ele. As fronteiras e as demarcações de território são transgredidas pelo guerreiro. Na falta dessa força transgressiva, nós somos gado domesticado. O guerreiro, que conduz, abduz e queima, cruza todos os limites e resiste a todos os controles além de seu próprio significado. É apenas a glória e os profetas que o direcionam a sua conquista que o impelem. Ele vai e vem. As leis que o governam superam a mesquinhez do estado. A monstruosidade da sociedade tecnoindustrial codifica e determina a cada oportunidade. Nada ameaça a sua hegemonia como a desterritorialização da guerra. Por esse motivo, a figura do nômade entendido como um proto-guerreiro, foi agarrada por pensadores como Bruce Chatwin, Deleuze e Guattari. Clastres direciona o nosso olhar ao guerreiro, orgulhosamente sustentando um mundo de multiplicidade com cada golpe de lança e cada escalpo adornando as paredes.

Ao longo de sua obra, Clastres celebra a máquina de guerra… Goethe e Hegel são homens velhos perto de Clastres.

Ao ser-para-a-guerra, a morte é um evento biocósmico que produz alteridade. O guerreiro avança em direção a morte. Não é claro que o desejo pela glória eclipsa completamente o desejo pela morte. Os mortos continuam a lutar na forma de espíritos, o xamã brandindo seu machado está cercado por eles em todos os momentos. O xamã yanomami Kopenawa diz que quando a terra começar a apodrecer “os humanos se transformarão em outra coisa, como aconteceu no começo do tempo”. Espíritos vingativos cortarão o céu em pedaços com os seus facões, e as florestas atrás dos céus cairão sobre nossas cabeças. Tão rápido será o fim que nós não teremos tempo de gritar. Os espíritos, liberados da terra, destruirão o sol, a lua e as estrelas. E no final haverá apenas a escuridão.

O ano é 1970, e Pierre Clastres vive entre os Yanomami e os declara “A última sociedade livre do mundo”. Ele comenta sobre a sua incrível flatulência, produto dos altos níveis de banana em suas dietas. À noite, Clastres é deixado só com as mulheres no acampamento, pois os homens saíram em uma incursão. Eles atacam seus inimigos à noite e correm de volta para a selva para evitar o inevitável e ligeiro contra-ataque. Os mortos são queimados sobre uma pira, seus ossos moídos até se tornarem poeira e depois inalados. Dias de lazer e risadas são pontuados por incursões do outro lado do rio. Homens se juntam na terra para duelar com bordunas por suas mulheres. Clastres viaja com várias canoas cheias de guerreiros armados com o objetivo de realizar trocas para obterem drogas. As sementes alucinógenas de que eles necessitam crescem apenas no território de uma tribo particular. Eles mantêm seu monopólio tenazmente. Além de ferramentas e outros itens de troca, há uma demanda clara por itens de prestígio. Esses incluem vestidos femininos, usados pelos guerreiros, que não se preocupam em fazer distinção de gênero de vestimentas. Eles assopram a droga para dentro das narinas uns dos outros usando tubos de cana. Enquanto o grupo de Clastres se prepara para sair, um menino pequeno de outra tribo pula em sua canoa. Ele quer ir com eles. Sua mãe o puxa de volta e ele bate nela com um remo. Com a ajuda de várias outras mulheres, ela consegue tirá-lo da canoa. Ele morde ela.

O mar como um espaço suave é um problema específico para a máquina de guerra.

Garotos na sociedade Yanomami, como Clastres observa, são “encorajados a demonstrar a sua violência e agressão. Crianças jogam jogos que frequentemente são brutais. Pais evitam consolá-los. O resultado dessa pedagogia é que ela forma guerreiros”. Os missionários fracassaram miseravelmente em suas tentativas de dissuadi-los de seu amor pela violência. Armas entregues como presentes pelos salesianos sob a condição de que elas sejam usadas apenas para caçar são rapidamente integradas a máquina de guerra yanomami. “Tente convencer os guerreiros a renunciar a uma vitória fácil”, escreve Clastres, “Esses não são santos”. A presença de armas, obviamente, permite massacres em escalas maiores. Clastres aponta, porém, que é comum que uma tribo convide outra para um banquete com a intenção de massacrá-los. Tais atos nunca são esquecidos, e as rixas de sangue são passadas de geração para geração. Em um dia com 21 horas de tempo livre, há muito tempo para cultivar a animosidade em relação aos seus inimigos. Como diz Clastres em seu diário:

No final de uma tarde entre os Karohiteri, surge uma tempestade, precedida por ventanias violentas que ameaçam levar os tetos. Imediatamente, todos os xamãs se posicionam ao longo das moradas, tentando empurrar de volta o vento. O vento, esses redemoinhos, são de fato espíritos ruins, certamente enviados por seus inimigos.”

Enfim, o xamã captura os espíritos ruins em uma cesta e corta eles em pedaços com o seu machado. Clastres despreza a paz. Seu sonho e prece para os yanomami é “mil anos de guerra! Mil anos de festas!” Harmonia, ele escreve, é conquistada através da escavação de minas, a perfuração que busca petróleo, fábricas, polícia e shoppings.

A tese pela qual Clastres é mais conhecido é simples: o estado de guerra permanente que se encontra na maioria das sociedades indígenas é uma estratégia usada deliberadamente para manter a segmentação territorial e impedir a formação de um estado ou de uma cultura monolítica. A guerra tribal resiste a globalização. Clastres escreve:

A máquina de guerra é o motor da máquina social: o ser social primitivo depende completamente da guerra, e a sociedade primitiva não pode sobreviver sem a guerra. Quanto mais guerra, menos unificação, e o maior inimigo do estado é a guerra. A sociedade primitiva é uma sociedade contra o estado ao ser uma sociedade pela guerra.”

Assim, os incas enclausurados em seus templos de pedra e cidades elevadas olhavam para as tribos da floresta com medo, ódio e desprezo. Para os aristocratas incas perfumados, os habitantes das pampas sem lei e sem reis eram menos que humanos. Nesse sentido, eles marcaram um padrão que foi mais tarde adotado pelos espanhóis ao lidarem com todos os povos ameríndios.

A sociedade tecnoindustrial condena a violência ao mesmo tempo que a facilita e torna possível graus de violência inimagináveis mesmo para as sociedades tradicionais mais cruéis e sedentas por sangue. Nós somos ensinados a temer e rejeitar a violência. Nós somos ensinados que não há significado na guerra, mesmo quando a nossa cultura promove uma guerra implacável contra o próprio cosmos. Essa incoerência ressoa pela nossa sociedade. Quando Clastres escreveu sobre a violência entre os Yanomami, Tupi-Guarani e os Guayaki nos anos 60 e 70, a cultura entre os antropólogos também era assim. A violência era ignorada no mundo acadêmico ou usada por etnógrafos racistas para denigrir as sociedades primitivas. Clastres não temia a faca, e via o derramamento de sangue como uma verdade reprimida e esquecida. Quando os europeus, escondidos como caranguejos-eremitas em suas armaduras, chegaram nas praias da América do Norte, América do Sul, Austrália, África, Sibéria e as ilhas do Pacífico, eles se surpreenderam sem exceção com o amor pela guerra dos nativos que encontraram. Sejam nômades ou sedentários, comunidades primitivas eram “apaixonadamente devotadas a guerra”. Para os europeus, esse amor pela guerra não podia conviver com a sua doutrina da paz: os indígenas deveriam ser ensinados abandonar as suas tradições violentas através de centenas de anos de tortura, genocídio e etnocídio.

Não importa onde olhamos entre as sociedades primitivas, nós sempre encontramos a violência brilhando como uma tocha na noite escura. Apesar de todas as nuances e variações culturais, essa violência parece ser universal. O mito do primitivo pacífico é pernicioso. Como nós veremos abaixo, parte da razão da existência desse mito é a falta de uma compreensão do significado da guerra fora do nosso entendimento atrofiado e reprimido da violência. Clastres escreve uma imagem emerge continuamente da diversidade infinita das culturas: a imagem do guerreiro”. Qual é o significado dessa figura? Como nós explicamos ou entendemos o amor universal pela guerra? O que significa o fato de a nossa sociedade ter virado as costas para essa força primal, abandonando-a para e deixando a guerra se tornar o trabalho de robôs ou empregados corporativos estéreis? Nós perdemos “o espetáculo de nossa livre e guerreira vitalidade”, substituído por uma paz vil e assassina.

Antropólogos tentaram entender a violência primitiva de várias formas, e grande parte dos seus pensamentos gotejou para as pessoas comuns. Eles ecoam os presentes envenenados do Iluminismo. O significado da violência é frequentemente representado de forma equivocada. A figura do guerreiro e a sua busca pela glória é frequentemente ignorada e desvalorizada. E por causa disso, o espírito da sociedade primitiva em sua inteireza é mal compreendido. Primeiramente, há quem argumente que a violência e a guerra simplesmente evoluíram como um mecanismo de sobrevivência através da caça. Andre Leroi-Gourhan é um dos primeiros proponentes dessa teoria. Para Leroi-Gourhan, o guerreiro é simplesmente uma extensão do caçador. A necessidade de alimento do homem produziu o caçador, e o caçador – o homem que possui armas e sabe usá-las – produziu a guerra e o guerreiro. Leroi-Gourhan escreve “Ao longo do tempo, a agressão aparece como uma técnica fundamental ligada a aquisição, e no primitivo, seu papel inicial é a caça onde a agressão e a aquisição alimentar se fundem”. Em outras palavras, se a agressão é inata como parece ser, ela deve servir um propósito evolutivo. Leroi-Gourhan imagina que o instinto da violência pode ser usado de forma produtiva, e nesse sentido seu pensamento se limita a necessidades banais como comida. A violência para ele não é nada mais do que um impulso predatório ajustado através do prisma da economia social. Clastres corta Leroi-Gourhan como uma faca quente cortando gordura.

Nossa discordância com Leroi-Gourhan não decorre pelo fato de ele tratar humanos como animais, muito pelo contrário. A diferença é que ele não atribui os instintos animais corretos a violência. “A sociedade humana” escreve Clastres “não deriva da zoologia, e sim da sociologia”. Clastres desarma Leroi-Gourhan com facilidade e destreza surpreendentes. Como qualquer caçador já percebeu, a agressão está completamente ausente da experiência da caça. De fato, ao caçar, uma mentalidade agressiva garante que você voltará para casa faminto. Como diz Clastres “O que motiva o caçador primitivo é o apetite, ao ponto da exclusão de todos os outros sentimentos”. Ele também fala da importância do ritual na caçada. De qualquer forma, a agressão não está presente. O motivo para a guerra e a violência nas culturas primitivas, diz Clastres, é mais profundo. A guerra é pura agressão. Ela é o desejo de aniquilar seu inimigo, banhar-se em sangue e erguer troféus sangrentos aos céus. Uma necessidade maior que a fome está presente aqui. Clastres: “Mesmo entre tribos canibais, o objetivo nunca é matar o inimigo para comê-los”. Tanto alarde para Leroi-Gourhan e o seu “discurso naturalístico” da guerra.

A segunda, e provavelmente a mais persistente teoria da violência primitiva se baseia na economia. Essa crença é bem difundida em todos os níveis da sociedade. As pessoas cometem violência e guerreiam por recursos e riqueza material. Essa noção é sempre acompanhada por um desprezo pela violência: ela é apenas um veículo, uma estratégia dos tolos, daqueles que não tem outros (melhores) recursos. Como diz Clastres, essa ideia é frequentemente vista como algo tão óbvio que não necessita de justificativa. A violência surge da competição por recursos escassos. No fundo nós sabemos que isso não é verdade. Que argumento insatisfatório! As origens desse argumento podem ser traçadas. Clastres nos direciona ao século 19, quando se acreditava que a vida primitiva era uma vida de “pobreza e miséria”. O primitivo é aqui imaginado como um cidadão miserável e destituído do mundo tecnoindustrial, e que se tornou violento e cruel através da escassez e privação. Como eles não conseguem prover as suas necessidades, eles têm que guerrear por migalhas.

Essa noção da escassez primitiva é reforçada pela antropologia marxista. Clastres, que foi um membro do Partido Comunista até 1956, entende as armadilhas do progressismo. “O que é o marxismo senão a teoria marxista da história”, escreve Clastres. Para que esse aparato funcione, é preciso demonstrar que os estágios antigos da história da humanidade são deficientes:

“Para que a história siga em frente, para que as forças produtivas decolem, essas forças produtivas devem primeiro existir no início desse processo na mais extrema fraqueza, em seu total subdesenvolvimento: na falta disso, não haveria uma razão para elas se desenvolverem, e nem haveria como articular a mudança social.”

Infelizmente, como já é bem estabelecido hoje em dia, as culturas primitivas raramente lidavam com a escassez, e a sua capacidade produtiva era vasta. Aqui, Clastres reitera o que foi falado por Marshall Sahlin, “sociedades primitivas, sejam elas caçadores nômades ou grupos sedentários… são verdadeiras sociedades do lazer”. Tendo esse fato a vista, a teoria econômica da guerra primitiva vai por água abaixo. A ideia de guerrear com uma tribo vizinha por alimento ou algum outro recurso é completamente sem sentido. Como Clastres aponta, as comunidades primitivas são profundamente autossuficientes, e quando a troca é necessária, ela ocorre pacificamente entre vizinhos. Também é bem observado em várias comunidades primitivas uma abundância tão grande que os leva a criar festivais devotados somente a destruição ritualística de recursos.

A última teoria antropológica da guerra primitiva que Clastres identifica está incorporada na ideia da troca. Aqui nós encontramos Clastres em confronto com o seu professor Claude Levi-Strauss. Para Levi-Strauss, a guerra primitiva é o lado sombrio do comércio primitivo. Comunidades são obrigadas a participar em sistemas de troca. Quando esses sistemas são bem-sucedidos, o resultado é o comércio mutualmente benéfico. Quando a troca colapsa ou amarga, a guerra irrompe. Levi-Strauss escreve “a troca comercial representa guerras potencias sendo resolvidas pacificamente, e guerras são o resultado de transações mal sucedidas”. Essa visão da guerra a apresenta como um terrível acidente, argumentando de forma implícita que o comércio é uma forma de interação social superior. Como nós somos rápidos ao esquecer os sofrimentos do espírito para nos livrarmos dos sofrimentos da carne! E mesmo assim, quão rápido o corpo se cura enquanto o espírito se agarra aos seus ferimentos. “Tudo menos a guerra!”, grita a sociedade tecnoindustrial e os seus oradores. Apesar disso, não podemos dizer que o comércio também assassina e tortura a carne? Não são os crimes cometidos em nome do comércio muito maiores do que os da guerra? Levi-Strauss e seus colegas não puderam ignorar esse fato: “o comércio é frequentemente uma alternativa a guerra, e a maneira como ele é conduzido mostra que ele é uma modificação da guerra”. Sim, o comércio deixou uma pilha de cadáveres capaz de dar inveja a qualquer guerra. Em outras palavras, Levi-Strauss vê a troca como o aspecto mais elementar da dinâmica de grupos primitivos. Todo o resto é visto apenas como uma variação desse tema. Clastres não aceita essa conclusão. É a guerra, afirma ele, que nos faz o que somos.

No mundo tecnoindustrial, nós vemos o comércio como um imperativo universal. Mas o comércio é necessário apenas quando comunidades são enfraquecidas e perdem a capacidade de prover o seu sustento. Nós sabemos que a vida nas comunidades primitivas é uma de abundância e lazer. Levando isso em conta, precisamos rever a noção de Levi-Strauss da guerra como o comércio que deu errado. A própria essência da comunidade primitiva está em sua autarquia “nós produzimos tudo o que precisamos (comida e ferramentas), o que nos coloca em uma posição que nos permite viver sem os outros. Em outras palavras, o ideal autárquico é o ideal anti-comércio”. Isso não é para dizer que não havia comércio, mas Clastres estava absolutamente certo ao contestar a análise de seu professor. Sugerir que a relação da vida primitiva com a guerra e o comércio é acidental e primária é sobrevalorizar o papel das transações comerciais nessas comunidades. Levi-Strauss tenta nos convencer de que a guerra é um acessório em relação ao principal, que seria o comércio. Assim, Clastres escreve, Levi-Strauss superestima a importância do comércio.

Primórdios do Islã, uma sociedade reduzida a um empreendimento militar.

Se a guerra no contexto primitivo não é um substituto ou uma mutação das trocas comerciais, nem uma luta por recursos ou uma característica evolutiva desenvolvida por predadores, o que ela é? E como nós podemos entender a sua presença quase universal? Essas são questões que assombravam Clastres pouco antes de sua morte (em 1977, aos 43 anos, em um acidente de carro). Na época de sua morte, ele estava escrevendo um novo livro analisando o significado da guerra nas sociedades primitivas. Dois ensaios desse livro inacabado permaneceram. Nesses ensaios, Clastres refinou a sua ideia de que a guerra e a tortura são deliberadamente implementadas por comunidades primitivas para prevenir a emergência de um estado ou outros poderes hegemônicos, impedindo assim a desigualdade radical. A violência imposta quase constantemente em todos os membros da sociedade lembra a todos de seu lugar.

A lei que eles aprendem na dor é a lei da sociedade primitiva que diz a todos: Você não vale mais do que ninguém; você não vale menos que ninguém. Essa lei, escrita nos corpos expressa a recusa da sociedade primitiva de correr o risco da divisão, o risco de um poder separado da própria sociedade, um poder que fugiria do seu controle. A lei primitiva, cruelmente ensinada, é uma proibição da desigualdade que cada pessoa lembrará.

Esse é o monismo da vida primitiva. A violência cultiva a assembleia de multiplicidades, para pegar emprestado uma frase de Deleuze e Guattari, que estudaram Clastres. Além do mais, contrariando Hobbes, Clastres demonstrou que a guerra ocorria entre diferentes grupos, não dentro desses grupos. Aqui nós voltamos ao começo. A guerra não é nada mais do que a busca pela glória.

O ponto principal a ser notado sobre a guerra em um contexto tribal é que ela é por si só um objetivo, assim como uma resposta a uma necessidade. Para Clastres, a sociedade primitiva é uma singular e plural, difusa e concentrada, dispersada e coagulada. Não é surpreendente que o seu trabalho foi tão influente para Deleuze e Guattari e a teorização deles sobre a natureza da esquizofrenia e o rizoma. Nós podemos perceber imediatamente a sombria presença do corpo sem órgãos na análise de Clastres do grupo primitivo. O todo é maior do que a soma de suas partes. A tribo é um arranjo feito de pequenas rupturas na forma de seus membros. Clãs, ordens militares e irmandades cerimoniais integram o indivíduo. O que somos nós? Nós estamos aqui. Nós somos o lugar. Nós somos as coisas associadas a esse lugar. Nós somos a sua essência. A localidade da comunidade primitiva torna a sua natureza nômade ou sedentária irrelevante. Sejam eles agricultores assentados ou caçadores ambulantes, há um local e um direito territorial. Estar fora desse local, longe de casa, é uma experiência aterrorizante. Nesse sentido, há também um “movimento de exclusão”, aqueles além da floresta, da planície, o outro. Nós podemos ser tentados a pensar na guerra como uma das consequências da territorialização. Mas se esse fosse o caso, os antropólogos não descobririam que a guerra ocorre na defesa de fronteiras tribais? Mas esse não é o caso. A guerra é ofensiva. O território é invadido, penetrado, e não mantido. Como é possível que o mundo primitivo se pareça com uma galáxia de estrelas? Grupos e bandos autocontidos que em suas diferenças iluminam a noite.

Cada comunidade, no sentido em que é indivisa, pode pensar em si mesma como “Nós”. Esse “Nós” por sua vez se vê como uma totalidade na relação igual que ele mantém com outros “Nós” que constituem outras vilas, tribos, bandos, etc. A comunidade primitiva pode se ver como uma totalidade porque ela se institui como uma unidade; ela é inteira, por ser um “Nós” indiviso.

Como essa multiplicidade é mantida quando há tal união dentro da comunidade? Simples. Não há nada aqui para o homem com ambições políticas e econômicas. Aquele que acumula não pode fazer nada a não ser olhar enquanto suas riquezas são devoradas pelos seus semelhantes. Aquele que aspira por poder se torna acorrentado ao trono, sua garganta arrancada e transformada em um megafone para a lei. Essa é a sua recompensa se ele faz bem seu trabalho. Caso contrário, ele será massacrado. A forma que se apresenta diante de nós é um monólito. Uma visão da morte, êxtase, calcificação. Sem movimento ou energia. Mas a alma cristalina do mundo primitivo, dura, fria e perfeita é estilhaçada, se arrebentando e dando vida ao coração flamejante da guerra.

Finalmente nós chegamos a isso. O coração vivo da selva e do Chaco, iluminado pelo estranho e fantasma-fogo da lua. A guerra é uma forma para as tribos “testarem o próprio ser da sua sociedade”. Qual é a natureza do mundo indiviso? É a sua recusa a se identificar com os outros, no melhor dos casos. Nós somos quem somos porque não somos você. E nós vamos afirmar a nossa identidade em sangue. Somos todos iguais!” proclama a máquina industrial, o nervo de fibra óptica da civilização. Nós estamos todos unidos na escravidão do sistema tecnoindustrial. Nós somos idênticos. Nós vivemos a morte.

A identificação” escreve Clastres, “é um movimento em direção a morte”. A guerra e derramamento de sangue das sociedades primitivas é uma celebração, “uma afirmação da vida”. A mônada está sempre ameaçada pela decadência e o colapso, a forca esfacelante que destrói todos os nossos monumentos. A guerra é o poder que resiste a dispersão.

Nós sabemos que a guerra é universal entre as comunidades primitivas. Clastres nos avisa sobre o risco de extrair desse fato uma confirmação da “guerra de todos contra todos” de Hobbes. Esse, na verdade, é o estado da guerra na sociedade tecnoindustrial. O mundo globalizado é facilitado por uma máquina de guerra que corre em um ritmo tão acelerado que o poder e a dominação se espalham inabalavelmente. Tudo e todos são inimigos, e todos são vitoriosos ou aniquilados. Gradualmente, toda a oposição é subjugada. Toda a autonomia é trazida sob controle. Pax Imperium. A paz reina apenas quando a própria terra é enterrada sob uma montanha de ossos. A paz é a morte. A amizade de todos é impossível pois ela aniquila a natureza da identidade. A inimizade de todos também é impossível pois ela conduz à paz silenciosa do túmulo. Clastres: “a sociedade primitiva… não pode consentir a uma paz universal que aliena a sua liberdade; ela não pode se entregar a uma guerra geral que abole a sua igualdade”. Esse é justamente o erro que Levi-Strauss comete ao igualar a guerra primitiva ao comércio. Você não pode ser amigo de todos da mesma forma que também não pode ser inimigo de todos. Essa é a complexidade da sociedade primitiva: há inimigos e aliados. Os primeiros necessitam dos últimos, e as duas categorias estão sempre em fluxo:

A comunidade nunca lança uma aventura de guerra sem antes se proteger por meio de atos diplomáticos – festas, convites – depois dos quais alianças supostamente duradouras são formadas, mas que devem ser sempre renovadas, pois a traição é sempre possível e frequentemente real.”

Tais alianças eram criadas e mantidas primeiramente através da troca de mulheres, que eram também acumuladas como espólios de guerra. Esse paradoxo, a troca de mulheres para formar alianças e a captura de mulheres através da guerra, ilustra para Clastres um desdém pela economia de trocas. Porque nós deveríamos trocar para obtermos mulheres quando podemos simplesmente ir pegá-las para nós? “O risco [da guerra] é considerável (ferimentos, morte), mas os benefícios também: eles são totais, as mulheres são de graça”. Incidentalmente, encontramos aqui mais refutações da proposição de Levi Strauss de que a sociedade primitiva é construída em torno da troca. Clastres observou que a própria troca é sempre feita em serviço da guerra. Em outras palavras, a troca apenas ocorre como uma forma de conseguir aliados militares.

A guerra é uma forma de preservar a comunidade. A coesão, permanência e estabilidade da vida primitiva são todas conquistadas por um estado de guerra constante. Isso não significa, é claro, que estamos sempre guerreando, mas estamos sempre em guerra, somos sempre guerreiros, somos sempre a guerra. A permanência da guerra nas sociedades primitivas cria uma imagem e ideia da totalidade da qual tudo depende. Minha identidade é preservada através da guerra. Eu sou diferente por causa da guerra. Eu existo apenas através da guerra. A manutenção dessa particularidade e separação de identidades e comunidades não é um produto da guerra, e sim o seu propósito. A guerra produz “a multiplicação do múltiplo”. Essa é a força que resiste o centrípeto, o movimento em direção ao centro. O derramamento de sangue do guerreiro cria uma estrutura elástica que permite dispersão e coesão. Por eras, implementos de guerra e ferramentas de agricultura permaneceram idênticos.

Como nós podemos ver, o que se aplica a uma crítica do estado vai muito mais além. Quando nós falamos da guerra e do guerreiro que se levanta contra o estado, estamos falando de algo muito mais profundo. A própria sociedade tecnoindustrial depende do banimento do guerreiro, que é subsumido em formas mais amenas a esse mundo e a sua lógica. O burocrata, o contador, o técnico. Como nota Clastres, “a recusa do estado é a recusa da exonomia, da lei exterior, é simplesmente uma recusa a submissão”. Não há nenhuma lei a não ser a nossa lei, a lei da faca, do dente. A medida que a guerra é direcionada para fora em direção ao inimigo, ao outro, ela é também uma política interna que preserva a integridade e a estabilidade interna da comunidade. A guerra facilita a preservação da autonomia em uma sociedade assim como a sua indivisibilidade e totalidade. Nós entendemos que o estado é aquilo que impõe a divisão de uma sociedade. O estado é o aparato da fragmentação, e enquanto a guerra primitiva permanecer, haverá sempre uma força contra o poder que ameaça destruir as conexões que nos unem. Não se deve deixar erodir nenhum grau de liberdade. O que os nômades inventaram foi a arma-homem-animal, a assembleia arco-homem-cavalo.

Então quem é o guerreiro? Quem é o homem que vive em guerra? No contexto primitivo nenhum homem é mais do que a sua capacidade para violência. Há, é claro, o que Clastres chama de “uma hierarquia de prestígio”, à medida que alguns homens são naturalmente mais corajosos que outros, além das habilidades de guerra também variarem. Apesar disso, o status do guerreiro e o seu lugar entre os seus não lhe confere um aumento em seu poder político. Não há subdivisões dentro do grupo, e o comando não traz honra; disciplina e obediência exercem pouca influência aqui. Cada homem luta por uma razão particular, e as ordens do chefe de guerra não são uma grande preocupação. De fato, como Clastres notou, chefes de guerra que tentam ditar ordens são ignorados ou até mesmo massacrados. Não, o guerreiro luta por seus próprios fins pessoais, ele “obedece apenas a lei de seu desejo e vontade”. Nesse sentido, há uma variedade considerável na figura do guerreiro que se apresenta em sociedades primitivas.

Ao mesmo tempo que é correto dizer que o homem primitivo é um guerreiro por definição, nem todos os homens recebem o chamado para esta tarefa da mesma forma. O centro dos homens de guerra é composto por aqueles que se tornaram inflamados pela sua paixão por sangue e pela glória. Esses são os homens que se devotam completamente a violência e a busca pela honra. Eles não existem para nada mais. Todo homem tem potencial para ser guerreiro, mas nem todos cumprem esse destino. Como diz Clastres: “todos os homens vão para a guerra de vez em quando… alguns homens vão para a guerra constantemente”. Quando uma vila é atacada, todos os homens claramente vão agir como guerreiros. Mas há aquela classe especial que deve se envolver em atividades guerreiras mesmo em tempos de paz. Eles não vão para a guerra para responder as necessidades dos outros, mas porque o tambor está sempre batendo dentro de seus peitos.

Momentos de ameaça externa e perigo coletivo podem transformar qualquer comunidade em uma comunidade de guerra, e isso é naturalmente universal. O que é mais particular é o crescimento de sociedades de guerreiros. Apesar disso, existem amplos exemplos de comunidades que institucionalizaram a prática da guerra. Nessas comunidades existe uma dedicação total à guerra, que é o centro de todo o poder político e ritual. Nós sabemos que isso se aplica aos Huron, Algonkin, Iroquouis, Sioux, Blackfoot e Apache. Mas para Clastres, não há exemplo melhor que as tribos do Grande Chaco, uma terra hostil, dura e espinhosa que cobre grande parte do Paraguai, Argentina e Bolivia. Entre os chaquenos a guerra é valorizada acima de tudo, uma lição aprendida de forma dura pelos conquistadores.

As tribos do Chaco veneravam a guerra tão profundamente que os jesuítas do século 18 tiveram que simplesmente desistir de sua missão porque não havia nada que pudessem fazer para diminuir o amor dos chaquenos pelo combate e por derramamento de sangue. Em 1966, quando Clastres viajou entre os Abipone, os Guaicuru e os Chulupi, a memória das antigas batalhas ainda estava fresca entre eles, e a ideia do guerreiro ainda presente na mente das pessoas. A aceitação dentro de uma sociedade de guerreiros é para eles uma forma de nobreza, e a glória e prestígio acumulado por um grupo de guerreiros é refletida na comunidade como um todo. O papel da sociedade nesse caso é desempenhar cerimônias: danças e rituais que encorajam e celebram as conquistas de seus guerreiros para que eles continuem a buscar prestígio.

O machado de batalha de bronze dos Hyksos e a espada de ferro dos Hititas já foram comparadas a bombas atômicas em miniatura.

Entre esses guerreiros, os mais agressivos são os mais valorizados, e esses são geralmente homens jovens. Os Guaicuru estabeleciam cerimonias rituais para a entrada das sociedades guerreiras que era distinta dos ritos de iniciação pelo qual todos os jovens passavam. Apesar disso, entrar nesse grupo seleto não garantia aceitação na niadagaguadi, a irmandade dos guerreiros. Essa aceitação só ocorria através de feitos em batalhas e expedições de guerra. Em outras palavras, a decisão de se tornar um guerreiro significa perseguir esse objetivo com foco, determinação e principalmente paixão singular. O jesuíta do século 18 Sanchez Labrador escreveu sobre os Guaicuru: “eles são completamente indiferentes a tudo, mas cuidam de seus cavalos e de suas armas com grande dedicação”. Fomentar esse cuidado pela violência é o objetivo principal da pedagogia primitiva, e frequentemente observadores europeus comentaram com horror a violência brutal que é infligida muitas vezes sobre crianças pequenas, que devem entender essa violência como um prelúdio para a vida de guerra na qual elas irão ingressar. Labrador e outros missionários foram frustrados a cada passo pelo fato de que o conceito de amar ao próximo não tinha significado nenhum para os chaquenos, e a cristianização nesse contexto era impossível: “Os jovens Abipone são um obstáculo para o progresso da religião. Em seu desejo ardente por espólios e glória militar, eles estão avidamente cortando as cabeças dos espanhóis e destruindo suas ferramentas e seus campos”. O guerreiro, como foi dito acima, insiste na necessidade de guerra a todos os custos, tendo a paz sido estabelecida ou não.

A experiência dos jesuítas no Chaco foi ecoada pelos franceses no Hemisfério Norte. Champlain, ao tentar consolidar alianças e tratados de paz entre os Algonkin e Iroqueses para facilitar o comércio, foi constantemente derrotado. Ele escreve que seus esforços foram frustrados em uma circunstância particular por “nove ou dez jovens desmiolados que decidiram ir guerrear, o que eles fizeram sem que ninguém conseguisse dissuadi-los, devido à pouca obediência que eles dão aos seus chefes”. Aqui nós vemos novamente que o chefe não tem nenhum poder diante do guerreiro. A guerra não pode ser impedida, independentemente do ímpeto político para impedi-la.

Mesmo ocupados em exterminar um continente, os europeus fizeram esforços constantes para interromper guerras locais. Os franceses, por exemplo, compraram tantos prisioneiros Iroqueses quanto eles conseguiram dos Huron para poupá-los da tortura e para poupar as próprias tribos da retaliação inevitável. Um chefe Huron respondeu da seguinte maneira a uma oferta de compra de prisioneiros:

“Eu sou um homem de guerra e não um mercador, eu vim para lutar e não para barganhar; minha glória não é trazer presentes de volta, e sim prisioneiros, e eu não posso aceitar suas machadinhas nem caldeirões; se você quer tanto nossos prisioneiros, venha pegá-los! Eu ainda tenho coragem de encontrar outros. Se o inimigo tirar a minha vida, será falado no país que desde que Ontonio tomou nossos prisioneiros, nós nos lançamos a morte para buscar outros”.

A incapacidade de dissuadir guerreiros da violência não é de forma alguma exclusiva aos europeus. Essa mesma dinâmica pode ser encontrada dentro dessas próprias comunidades. Clastres reconta a história de um ataque dos Chulupi a um acampamento Boliviano nos anos 30 que foi sabotado por um grupo de jovens guerreiros que decidiram que o inimigo deveria ser massacrado até o último homem. Sentindo que essa sede de sangue poderia atrapalhar a missão, os veteranos e os chefes expulsaram os jovens da excursão. “Nós não precisamos de vocês. Há o suficiente de nós”, respondeu um dos jovens guerreiros. Clastres relatou que não havia mais de doze deles.

Genghis Khan e seus seguidores conseguiram durar por um longo tempo integrando-se parcialmente nos impérios conquistados enquanto ao mesmo tempo mantinham um espaço suave nas estepes ao qual os centros imperiais eram subordinados.

Como nós já estabelecemos, a guerra funciona nas comunidades primitivas como uma forma de preservar a autonomia e prevenir o acúmulo de poder político e o surgimento do estado. O papel do guerreiro é guerrear. E o guerreiro é o homem que tem paixão pela guerra. Mas qual é a fonte dessa paixão? Expressada de forma simples, essa paixão do guerreiro pela guerra deriva de sua fome selvagem e desesperada por prestígio, honra e glória. Isso nos ajuda a entender a dimensão existencial do ato de guerrear. O guerreiro só consegue se realizar plenamente se a sociedade lhe confere significado. O prestígio é o conteúdo desse significado. A comunidade confere prestígio ao guerreiro que realiza certos atos de guerra, que como já vimos, aumenta o prestígio e honra da comunidade como um todo. O cálculo do prestígio é decidido pela sociedade, que pode considerar certos atos de guerra imprudentes e não conferir nenhum prestígio a esses atos. Talvez seja desnecessário mencionar que a linhagem e hereditariedade não conferem nenhum prestígio. Em outras palavras, a nobreza não pode ser herdada; a glória só pode ser conquistada pela mão do homem que a procura; ela não é transferível.

Então, através de quais atos de guerra particulares um guerreiro pode conquistar prestígio? No primeiro caso, Clastres identifica a importância de espólios. Como a guerra primitiva geralmente não é travada para conquistar territórios, espólios são primários. Espólios tem um significado simbólico e material. Por um lado, há espólios como armas e metais, que podem ser usados para fazer mais armas. Do outro lado, dentre os chaquenos, cavalos ocupam uma posição peculiar na hierarquia dos espólios. Devido ao vasto número de cavalos no Chaco, eles não têm nenhum valor de uso ou troca além de constituir grande parte dos espólios de guerra. De fato, Clastres relata que certos indivíduos entre os Abipone e Guaicuru possuíam dúzias ou mesmo centenas de cavalos. Possuir cavalos demais era considerado uma drenagem dos recursos da família ou comunidade. Ao invés disso, o roubo de cavalos contribuía para a acumulação de espólios através da pura guerra ou esporte. Isso é claro, não quer dizer que as tribos não guardavam seus cavalos com atenção, nem que o roubo de cavalos não envolvia derramamento de sangue ou morte.

Prisioneiros são o espólio de guerra mais valoroso entre os chaquenos. Sanchez Labrador escreveu dos Guaicuru, “seu desejo por prisioneiros… é inexpressível e frenético”. A experiência de ser um prisioneiro em comunidades primitivas varia tremendamente de tribo para tribo. Em alguns casos, os prisioneiros fazem todo o trabalho, permitindo aos homens, mulheres e crianças todo o tempo de lazer. Em outras comunidades a distinção entre prisioneiro e não-prisioneiro é vaga; prisioneiros vivem e lutam ao lado de seus captores. O alto valor dos prisioneiros entre as tribos do Chaco pode ao menos parcialmente ser atribuído a baixa taxa de crescimento da população. Labrador notou que muitas famílias tinham apenas uma ou mesmo nenhuma criança. Além disso, em muitas comunidades o número de mulheres superava o de homens em uma proporção de seis para um. Naturalmente, nós podemos assumir a alta taxa de mortalidade entre os homens como uma causa, mas a taxa extrema de mulheres para homens poderia mitigar esse fato através da poligamia. Além do mais, temos que levar em conta as epidemias trazidas pelos conquistadores. A hostilidade extrema dos chaquenos em relação a estrangeiros, porém, diminuiu dramaticamente o impacto de micróbios vindos de fora. Os dois fatores parecem explicar o fenômeno apenas parcialmente. Clastres concluiu que as mulheres do Chaco simplesmente não querem ter filhos.

Esse é o elemento cosmicamente trágico da sociedade-para-a-guerra primitiva, o desejo pela guerra traz com ele a recusa de dar luz a crianças; “mulheres jovens concordavam em ser as mulheres dos guerreiros, mas não as mães de suas crianças”. Essa é a razão pela qual a captura de prisioneiros, especialmente crianças e mulheres estrangeiras, que eram considerados importantes. Crianças podiam ser facilmente integradas a sociedade através da Lei da violência, e mulheres estrangeiras tinham menos chances de manter o desgosto das chaquenas pela procriação. É claro que existem mais dimensões socioeconômicas da guerra primitiva além da acumulação de espólios para prestígio. Os Abipone e Guaicuru abandonaram a agricultura porque ela é incompatível com a guerra permanente. Incursões providenciavam ganhos simbólicos, além de um estimulante necessário para o crescimento da população, como vimos, mas elas também são uma boa forma de adquirir bens de consumo. De qualquer forma, porque investir a força de trabalho necessária para a agricultura quando você está lutando por glória? Essa dinâmica é ilustrada pela linguística Guaicuru, que designa o termo “guerreiro” como “aqueles graças a quem nós comemos”. O guerreiro é então o provedor da comunidade. O Apache, por exemplo, que também abandonou a agricultura, só permitia a guerra se fosse determinado que a ação traria espólios suficientes.

Mas há outras formas para o guerreiro obter prestígio além de espólios. De fato, como Clastres e outros já observaram, um guerreiro que retornava para a vila sem o escalpo de um inimigo morto não ganhava nenhuma glória, independente de quantos cavalos, mulheres ou aço ele trouxesse de volta. A prática de escalpamento, comum na América do Sul e do Norte, indica explicitamente a aceitação de um homem em uma sociedade de guerreiros. Clastres aqui chama atenção para uma distinção notável, porém sutil. Um homem que mata um inimigo, mas se recusa a tirar o seu escalpo não pode ser um guerreiro. Para aquele que foi consagrado para a batalha, matar é insuficiente, ele é compelido a tomar o seu troféu. Aqui nós podemos pensar na distinção feita entre aqueles que são dedicados a guerra e aqueles que simplesmente respondem as necessidades da comunidade quando as circunstâncias demandam.

O escalpo, como um troféu de guerra, é um objeto de grande significado. Para começar, Clastres escreve que “há uma hierarquia de escalpos. Cabelos de cabeças espanholas não eram desdenhados, mas não eram nem um pouco estimadas comparadas com os escalpos de outros índios”. Alguém poderia assumir que um escalpo do espanhol, do conquistador, do genocida, seria altamente valorizado, mas é um testamento para o orgulho e autonomia dos chaquenos que eles não valorizavam os espanhóis o suficiente para considerar matar um deles como uma conquista significativa para um guerreiro. Para os Chulupi, por exemplo, o escalpo de um Toba era o prêmio mais valioso, devido a gerações de animosidade compartilhada entre os dois grupos. Depois da morte de um guerreiro a sua família queima todos escalpos acumulados por ele sobre o seu túmulo; sua alma ascenderá para um paraíso guerreiro sobre o caminho formado pela fumaça. Para os Chulupi, não havia nada melhor do que ascender sobre um caminho feito pela fumaça de escalpos Toba.

Nós falamos que escalpar um inimigo era um requisito para entrar em uma sociedade de guerreiros, mas esse é apenas o começo de sua jornada. O guerreiro, como o escravo de Hegel, está sempre em um estado de devir. Da mesma maneira que ele não herda nada dos atos gloriosos de seus pais, com cada escalpo que ele toma ele deve recomeçar novamente. Não importa quantos escalpos um guerreiro tem pendurados nas paredes de sua cabana. Quando ele para de tomar escalpos, a sua glória chega ao fim. A busca e apetite por prestígio são uma compulsão. Clastres, que corretamente coloca o guerreiro em uma dimensão existencial, escreve que “o guerreiro é, em essência, condenado a seguir adiante. Ele nunca tem escalpos suficientes. Sua sede de sangue nunca é saciada. O guerreiro é então, paradoxalmente, uma figura quintessencialmente moderna. Ele está sempre dessatisfeito e inquieto. Ele é neurótico. Ele é formado e condicionado por forças conflitantes, uma alma que tem sede de glória mas que depende de uma sociedade para reconhecer e presenteá-lo essa glória: “para cada incursão completa, o guerreiro e a sociedade pronunciam o mesmo julgamento: O guerreiro diz [Isso é bom, mas eu posso fazer melhor, eu posso aumentar a minha glória]. A sociedade diz [Isso é bom mas você deveria fazer mais, e obter o nosso reconhecimento de um prestígio superior]”. Esse paradoxo é sentido de maneira mais aguda pelo fato das incursões e da glória que elas conferem serem puramente individuais. O guerreiro não representa uma mentalidade de equipe. É cada homem em busca de sua própria glória.

Da mesma maneira que escalpar um inimigo e se juntar as fileiras daqueles que estão vivendo a guerra não é suficiente para um guerreiro, também é insuficiente para ele participar de várias incursões contínuas e retornar sem escalpos. Esse ciclo só pode trazer prestígio até um ponto, pois o guerreiro só pode se arriscar até um ponto nessas incursões. Para conseguir prestígio, um guerreiro deve também se distinguir de todos os outros guerreiros. Ele deve continuamente ir atrás de novas incursões cada vez mais arriscadas e sangrentas. Cada ato de guerra é um desafio para outros guerreiros: você consegue fazer melhor? Isso pode ser feito de várias formas. Um guerreiro ou grupo de guerreiros pode decidir penetrar cada vez mais profundamente no território do inimigo e dificultar a sua própria fuga. Um guerreiro pode guerrear contra um inimigo particularmente conhecido por sua coragem, agressividade ou proeza. Um guerreiro particularmente corajoso pode guerrear a noite, o que é geralmente considerado imprudente devido a ameaça adicional de espíritos hostis. Finalmente, um guerreiro pode ir para a linha de frente da batalha, deliberadamente colocando o seu corpo na mira das flechas e balas do inimigo. O ato que universalmente confere o maior nível de prestígio é aquele do guerreiro solitário que se separa de seus companheiros para atacar o inimigo em sua posição mais forte, em seu próprio acampamento: “sozinho contra todos”. Essa é a única coisa que resta fazer para um guerreiro de grande prestígio.

Notavelmente, o auge desse vigor guerreiro é compartilhado por tribos pelo Hemisfério Ocidental. Champlain escreve sobre a tentativa de dissuadir um guerreiro Algonkin de atacar sozinho um acampamento de Iroqueses, “ele respondeu que viver seria impossível para ele se ele não matasse seus inimigos”. De forma similar, os jesuítas franceses entre os Huron notaram com horror que às vezes um inimigo, totalmente nu e armado apenas de uma machadinha, tinha a coragem de entrar nas cabanas de uma vila a noite sozinho, e após assassinar aqueles que ele encontra dormindo, fugir enquanto cem ou duzentos homens o perseguem por um ou dois dias inteiros”.

As histórias de coragem contadas para Clastres quando ele estava entre os Chulupi ecoam esse tipo de coragem suicida; um guerreiro famoso, após realizar todos os outros feitos gloriosos, não teve outra escolha além de montar seu cavalo e penetrar cada vez mais profundamente no território inimigo. Sozinho, ele atacou um acampamento inimigo após o outro, sobrevivendo dessa maneira por dias até ser finalmente abatido. O culto a coragem é tanto que os Chulupi até veneram a memória de um guerreiro dos Toba, seus inimigos eternos. Esse homem era conhecido por infiltrar acampamentos Chulupi noite após noite e escalpar vários homens antes de desaparecer sem deixar rastros. Eventualmente, ele foi encontrado por um grupo de guerreiros Chulupi e morto sob tortura sem se acovardar em nenhum momento.

É precisamente esse desdém pelo perigo, dor e morte que corresponde a maior glória. Como Clastres nota, os espanhóis sempre ficavam confusos porque quando eles capturavam um guerreiro Tupi-Guarani, ele nunca tentava escapar. Enfrentar a tortura e a morte com coragem traz glória, ao contrário de escapar. De fato, um prisioneiro que escapou é rejeitado pela sua comunidade quando ele retorna: “ele é um prisioneiro. Seu destino tem que ser realizado”. Esse destino é invariavelmente o de tortura e morte, seguido por canibalismo. O destino do guerreiro é continuar a se colocar em situações cada vez mais perigosas, e eventualmente, independente de seus sucessos passados, ele é fadado a morrer sozinho nas mãos de seus inimigos. Ele é um nômade ambulante, sempre viajando a linha entre a vida e a morte: “O guerreiro é, em seu ser, um ser-para-a-morte”. O instinto para a morte pode não superar o instinto por glória e prestígio, mas nós devemos observar que um se torna o outro. O instinto para a morte pode ser um fator mais influente do que gostaríamos de admitir.

Em um dos últimos ensaios que Clastres escreveu antes de sua morte, ele se lembra de um encontro com dois velhos homens Chulupi. Os dois tinham cerca de 65 anos de idade. Os dois haviam participado de incontáveis batalhas, tinham os corpos cobertos de cicatrizes e haviam matado dúzias de homens. Apesar disso, Clastres se surpreendeu ao descobrir que nenhum dos homens havia tomado escalpos ou entrado na Kaanokle, a sociedade dos guerreiros. Quando Clastres perguntou porque eles não queriam entrar nesse grupo de prestígio, os dois responderam que eles simplesmente não queriam morrer. Isso é profundamente ilustrativo da dinâmica do instinto para a morte que descrevemos anteriormente: “insistir na glória ligada ao título do guerreiro significa aceitar o preço ao mais ou menos longo prazo: a morte”. Ser um guerreiro, como já vimos, significa nunca parar de perseguir a glória e enfrentar perigos cada vez maiores. Para muitos homens, é melhor renunciar a perseguição sem fim de prestígio e simplesmente ser esquecido pela comunidade do que ser aprisionado por uma paixão pela matança. Esse é o pesar do guerreiro: renunciar o prestígio, a fama e a glória ou viver todo dia banhado de sangue, se aproximando cada vez mais da morte.

No fim das contas, a significância de Clastres está em se certificar de que nós entendemos quão fundamental é a violência para as sociedades primitivas. Além do mais, é importante também que nós entendamos que a violência primitiva não é uma mancha em uma existência idílica, mancha essa que deve ser varrida para debaixo do tapete para promover uma visão prescritiva para o futuro. Clastres demonstrou que o que é desejável, substantivo, e eminentemente merecedor de emulação na sociedade primitiva se dá precisamente e é constituído por uma violência constante e sempre presente. Nós devemos nos recusar a ignorar a importância da violência para a criação da comunidade. Nós devemos reconhecer, de fato, que apenas a violência entendida apropriadamente é o único meio para alcançar o tipo de sociedade que desejamos.

As Bestas Devem Permanecer Unidas

Tradução de “Beast must stick together”, originalmente escrito por Ramon Elani.

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—Para Bec

“Se os viajantes incansáveis não fossem em si a causa, então, como a fragrância e a cor da lótus no céu, não haveria percepção do universo”.
—Nagarjuna

A besta jovem disse à velha: Como posso viver neste mundo?

Este mundo dilacerado, quebrado.

A besta velha respondeu à jovem: Siga o teu alento. Fale com os espíritos nas poças.

Estas coisas acontecerão.

A besta jovem disse à velha: Tudo o que vejo é asqueroso e indescritivelmente feio.

Um mundo que é rasgado e eu igualmente rasgado dentro dele.

A besta velha respondeu à jovem: Vá a floresta, faça tortas e lenços.

Escuta as vozes da tempestade sobre as falésias.

A besta jovem disse à velha: Oh, velha bruxa! Busco o profundo poço nas florestas escuras.

Não consigo encontrá-lo.

A besta velha respondeu à jovem: Tu apenas o encontrarás nas profundezas escuras do silêncio.

O que tu procurarás que não poderás encontrar em teu interior?

A besta jovem disse à velha: Mas eu fervo em ira! Anseio sangue e vingança!

Os deuses deverão presenciar o terror que desatarei sobre este mundo maligno.

A besta velha respondeu à jovem: A menos que você faça um buraco em ti mesmo, não haverá lugar para que os deuses habitem em teu interior.

A besta jovem disse à velha: Meu coração é negro e não posso deixar a minha amargura.

Cuspo na paz e na gentileza do sono.

A besta velha respondeu à jovem: Quando estiver sozinha no gelo, cercada por demônios, haverá apenas a voz de tua verdadeira alma para guiar-te.

A besta jovem disse à velha: Tempestade antiga, me carregue na corrente, estou flutuando, atormentada pelos olhos sempre observadores da escuridão.

A besta velha respondeu à jovem: Olha para os cortes sobre meu peito, eu tirei a minha carne com cortes irregulares de uma faca esfoladora.

A besta jovem disse à velha: Te prepararei um festejo e uma reluzente carne vermelha que te dará água na boca.

A besta velha respondeu à jovem. Olha esta lança na qual eu me empalei.

Olha para as tranças de cabelo com as quais eu me estrangulei.

A besta jovem disse à velha: Te vi na casa escura que estava afogada em fumaça. Te vi caminhar com a lua.

A besta velha respondeu à jovem: Eu matei a meu irmão com suas escuras mãos aquela noite.

Eu matei a todos eles por seu silêncio.

A besta jovem disse à velha: O que viste caminhando entre as estrelas?

O que escutaste nos sussurros da neve?

A besta velha respondeu à jovem: O demônio azul se levanta das profundezas glaciais.

Ele infinca as suas afiadas garras nas entranhas do mundo.

A besta jovem disse à velha: Te afogarás em lágrimas? Um mar de óxido.

Despedaçado em fragmentos pelas ondas de ferro.

A besta velha respondeu à jovem: Submerja-te profundamente no abismo do oceano e não temas.

Depois de tudo, as bestas devem permanecer unidas.