[MÚSICA] Miasthenia

Extreme Pagan Black Metal com líricas pagãs e ancestrais. Abordam ritualismos pagãos, resistência indígena ancestral, o Desconhecido, culto à morte e aos Deuses, guerras, canibalismo, misantropia, anti-cristianismo extremo, herança e vingança ancestral, cosmologia pagã, submundo, animismo, Natureza Selvagem, supremacia ancestral, necromancia, primitivismo, caçadas e confrontos, etc.

Escuta o chamado…

Letra da “Sacerdote Jaguar”:

Guardiões do inframundo
Correndo de volta ao templo, guardando segredos primordiais
Resistência ancestral!

Em ritos fúnebres no templo da morte.
Sacerdote-jaguar celebrando deuses da morte

Libertando a alma do templo
Libertando seu grande espírito
Lealdade na escuridão

Evocando mortos em transe
Guiando seus passos para além do inframundo de volta ao mitnal,
Ao ventre da deusa, de fetos e larvas, de mortos esperando renascer no inframundo

Em ritos fúnebres no templo da morte.
Sacerdote-jaguar celebrando deuses da morte

Libertando a alma do templo
Libertando seu grande espírito
Lealdade na escuridão

Evocando mortos em transe
Guiando seus passos para além do inframundo de volta ao mitnal,
Ao ventre da deusa, de fetos e larvas, de mortos esperando renascer no inframundo

Metamorfoses espirituais da morte
Sublimes estágios de renascimento
Akbal guia o jaguar
Akbal corre em minhas veias

Unindo mundo opostos, potências celestes,
A alma dos mortos aos ancestrais
Chave do renascimento no mundo dos mortos
Forças ctônicas, ritos telúricos

Akbal guia o jaguar
Akbal corre em minhas veias

Guardiões do inframundo
Correndo de volta ao templo, guardando segredos primordiais
Resistência ancestral!

Em ritos fúnebres no templo da morte.
Sacerdote-jaguar celebrando deuses da morte

Letra da “Brumas Xamânicas”:

O Xamã Makú, da tribo de nômades caçadores da floresta Amazônica prepara-nos a mágica porção alucinógena de viagens sobre a cosmos e o passado sulamericano, sobre Nemep-wa Matas (Domínio das Sombras), risos obscuros de profanações ouvimos das Sombras, a vaguear nas florestas taciturnamente espionam os mortais, na vampírica busca do sangue. Livres no tempo em meio a danças e cantos, rituais poemas. Sob selvagens horizontes retorno à terra – alma de meu povo. Sem paz. Com as minhas armas defendo sua memória enterrada. Retorno à terra e dela retiro minhas, o canto dos mortos.

Glifos insólitos que habitam esta saga
A saga de uma guerreiro ancestral
As folhas caem num prelúdio
E sangue dos deuses é derramado…

Brumas Xamânicas!
Fogo e tempestade em suas veias
Delírios enfim de desumanos poderes…
Seu corpo a floresta pulsante
Seu sangue vestígio do tempo.

Quilla!!! Vejo um deus sem face
Caminhando entre as hordas de ataque
Rituais de nossos desejos
Cósmicos mistérios…

Brumas Xamânicas em prelúdio
Mitos de guerra, relatos do fim…

Vejo formas exóticas e a saga de um guerreiro ancestral
Numa confusa dimensão e o cérebro máquina em tirania
Um vermelho profundo escurece minhas visões…

Letra da “De Natureza Infernal”:

De infernal natura
Ritos obscuros de profanação
Pulsando na floresta na busca pelo sangue

Nós regressamos com ódio para o fim!!!

Sob o cosmos primordial
Visões de opulenta Serpente
Através do espelho do tempo anunciando
O resurgir da natura
De criaturas infernais!!!

Giramos sob o espelho do tempo
Onde o dia jamair ousou penetrar
Onde a Lua em luxúria copula com as sombras
No Trópico dos Pecados!!!

Clamam em sacrifícios humanos…
Para além dos ciclos da vida e da morte
Míticos espiritos ancestrais
Libertem!!!

Letra da “Guerra de Mixton”:

Nas montanhas de mixtón
Feiticeiras dançam
Ao redor do fogo
Contemplando os ventos que
Anunciam a sangrenta batalha

Anunciando a vida de Tlaloc
E de todos ancestrais ressuscitados
Ao rufar dos tambores
As hordas de Tlaloc
Se reúnem para o massacre
Tanamaxtle grande guerreiro
Se prepara para a batalha
Conduzindo as hordas bélicas
Da resistência

Tlaloc o senhor da destruição do “terceiro sol”
Evocando a chuva cósmica
Do universo que se revela
Nos códices sagrados
Ergue novamente o seu templo
Nas montanhas de mixtón

Expurgando os sacramentos
Incendiando igrejas
Matando missionários
Castigando os seguidores da igreja
Lançando a desgraça
O exército do vice-rei

A flecha de Tanamaxtle
Corre como o raio de Tlaloc
Reinando soberana nos campos de batalha

Tempestades de apostasia e profanação
Dilacerando a face do deus cristão
O paraíso de Tlaloc aguarda os
Guerreiros que caem sob as águas

Letra da “Deuses Da Aurora Ancestral”:

Autos-de-fé inquisitoriais
Vieram de além mar
Trazendo a cruz e a espada
Violando os altares ancestrais
Do “novo mundo”
Mas este novo mundo
Era tão antigo quanto o seu

Desde a escuridão de tempos primordiais
Uma raça de homens-deuses
Habitava o continente
A cidade dos deuses
Brilhava em sua glória
Sangue e corações humanos
Despejados em antigos cenotes
Deuses da aurora ancestral

Mas um dia os inquisitores chegaram
Empunhando a cruz e a espada
Disseminando a peste em seus sacramentos
Ergueram seus templos
Nas ruínas ancestrais

Mas os guerreiros do “novo mundo”
Resistiram bravamente
Ao cárcere da inquisição
Extirpação das idolatrias
Profanaram a cruz
Quebrantaran sacramentos

A fúria dos deuses austrais
Corre nas flechas de fogo
Eles correm para as montanhas
E ostentam os cultos ancestrais
Eles marcham para a batalha

E erguem seus poderosos machados
Golpeiam conquistadores
Sacrificam missionários
Imolam inquisitores
E atormentam sua alma

Deuses demônios da guerra e do fogo
Deusas guerreiras e rainhas soberanas
Marcas do anti-cristo
Ecoa em sua mente
Apostasia tribal
Ofuscando o sol da inquisição

Os tambores estão pulsando
Na escuridão da floresta
Os espíritos ancestrais
Dançam no círculo sagrado
Eles se tornaram imortais
E atormentam sua alma

Letra da “Rituais de Rebelião”:

Minha mente sobrevoa tempos ancestrais, onde rituais de rebelião permanecem em essência.. Guerreiros e Amazonas abraçam o ritual, unindo-se contra o invasor, semeando o medo e anunciando o desconhecido. Aos olhos do invasor que os teme por seus mistérios. Candelabros ardem em minhas visões. Perfumes de incensos desfilam pelo ar… Os poderes ancestrais se manifestam nesta noite…
No Vale das Sombras aguardamos a batalha Final, e após os mil anos destruiremos a Cidade Santa…Puro como a noite o mal se manifesta. O sol desaparecerá eternamente. E meus inimigos cairão!!!

Senhores do fogo e da terra!!!
Selando com a espada e o cálice este poema…
Guardiões da Torre do Sul!!!
Espíritos sombrios das florestas
Nós evocamos!!!

As chamas permanecem acessas
Evocando o centro de nosso ser
Destruindo e purificando
Pagã alquimia de nossos desejos.

Murmúrios de séculos
Rituais de rebelião

Envoltos em feitiços sabáticos
Visões de ancestrais paganismos
Taqui ongoy! A dança da enfermidade
Caminhando para a floresta
Nós bebemos do cálice
Celebrando a Grande Deusa… Quilla!!!

Letra da “Essência Canibalística”:

O pajem tupinambá anuncia o fúnebre ritual
Imolação e vingança, sangue, ódio e poder
Os deuses bestiais se manifestam na velha dança
Teoruira!!! Desprezando o deus inimigo…

Debe mara pa, xe remiu ram begue!!! (Que todo infortúnio
recaia sobre você, minha comida, minha refeição)
Nde akanga juka aipota kuri ne!!!
(Quero arrebentar sua cabeça ainda hoje)

Cauim e sangue, embriagues e êxtase
É o espírito imortal sorvido em crânios inimigos
Minha ira em cálices de morte…
Seu sangue é minha força vital
Sua morte o signo de minha vitória!!!

Eu vejo o mundo invisível ao seu redor
E o crepúsculo que anuncia uma Era de Sangue
E a profecia das Maracás desferindo o golpe mortal
O estandarte do eterno caos
A dinastia abismal forjada em ódio ancestral
Corpos descarnados, corações arrancados…

Desfrute da ceia triunfal canibalística
E sinta o despertar do espírito da águia…
Sinto a vitalidade selvagem
E a natureza infernal pulsando em minhas veias…
A inocência primitiva que habita a escuridão
A supremacia das Maracás, da idolatria pagã…

Letra da “Onde Sangram Pagãs Memórias”:

Outrora corpos animados de homens comandavam os exércitos,
conquistavam as províncias, possuíam os tesouros,
saqueavam os templos.
Exultavam no seu orgulho, sua majestade, sua fortuna,
sua glória e seu poder. Elas são esvanecidas, estas glórias,
como as terríveis fumaças vomitdas pelos fogos infernais do Popocatépetl.
Nada, salvo algumas linhas de uma página,
para as fazer voltar à nossa lembrança!
(Netzahualcoyotl, Rei de Texcoco)
Há séculos seus campos estão em chamas.
Os meridianos sangram suas memórias,
enquanto seus filhos brincam em jardins de mentiras,
celebrando o vazio, cultuando símbolos inimigos.

Somos totens supremos
Cavalgando nos confins do limbo
Aclamando com orgulho…

Fazemos entoar rumores de guerra
Uma supremacia perdida
e nossa horda de seres invisíveis
Em êxtases animistas blasfêmicos

Somos a tragédia em suas veias
Correndo para nossa fortaleza na intensa floresta
Derramando poemas em lágrimas
Memórias ancestrais…

Nossos corpos estão adoecendo
E lá onde os nobres descansam
Brilha mais uma pálida constelação
De nossos sonhos e pesadelos…

Dançando com minha sombra
Movendo-se na escuridão
Extravasando a fragilidade humana…

Celebrando o invisível em cálices da morte
E rasgando os véus que encobriram sua beleza
Vejo-lhe agora desfigurada
A beleza em rios de sangue correndo de sua face
Nossa Era… Caos…

Letra da “Soturna Selvageria”:

Ouça as derradeiras palpitações
De um coração que desfalece
Ali onde estilhaços de rocha emergem da imensidão
Onde correm os ventos do Sul.
Mundo esquecido que reina em silêncio
Refúgio fascinante de seres aterradores.

Beba do cálice e seus mistérios
Aqueles que não ousam devorar o fruto do conhecimento
E retornar ao estado selvagem da existência
Ouse e reinaremos em soturno legado

“Rostos sábios e corações firmes”
Guerreiros do Fogo
Somos herdeiros de uma Era de Gigantes
Quebrantando as leis santas da Mãe natureza
E os divinos preceitos do Pai
Nós renegamos o seu batismo…

E na noite dos tempos retornamos
Ao estado selvagem da existência
Rastejando como serpentes
Voando como águias…

Libertando para sempre o universo mítico pagão
Libertando para sempre o pesadelo escondido nas lendas

Letra da “Necromânticos Ritos de Guerra”:

Ao rufar dos tambores de guerra
E o sopro de flautas infernais
Pintamos nosso corpo para o massacre
Conduzindo escudos e armas

Recebemos o espírito da força
Evocado em sacrifícios humanos
O sacerdote vê o destino da guerra
No coração palpitante do inimigo

Necromancia…
Conduz-nos às trevas do tempo…
Flechas de fogo, canoas velozes e cantos de guerra
Unimo-nos ao círculo de sanguinárias guerreiras
Seres que habitam na escuridão

Filhos do Demônio aterrador
Violando a cruz e os dogmas
Erguendo o estandarte de força e honra pagã
Perdidos para sempre nas brumas da rebelião
Misantropia!!! Canibal!!!

A Cidade dos Mortos resplandece esta noite para a batalha
Megalíticas fortalezas mancham-se com o sangue inimigo
Agora os seres da escuridão alimentam sua honra e orgulho
Já não vejo mais aqueles que tentaram usurpar o meu trono…

Esta é a Era do Sangue!!!

Álbuns:

Miasthenia – Legados Do Inframundo

Miasthenia – XVI

Miasthenia – Batalha Ritual

Miasthenia – Supremacia Ancestral

“Hoka Hey” e “Memento Mori”, a Morte Desde a Perspectiva Pagã

Extraído de Reflexiones Paganas.

Hoka Hey!” (em língua Dakota: “Hoje é um bom dia para morrer!”), foi um grito de guerra que se escutou nas proximidades do rio Pequeno Grande Chifre, no território de Montana, Estados Unidos, no final de Junho de 1876, quando ocorreu a célebre batalha entre Tasunka Witko (“Crazy Horse” ou literalmente: “Cavalo Louco”, 1840 – 1877), o grande guerreiro e chefe da tribo Sioux Oglala e o infame comandante do 7° Regimento da Cavalaria dos EUA, o Tenente-Coronel Coronel George Armstrong Custer.

O primeiro, comandando os bravos guerreiros de sua tribo natal, lutando por sua terra e seu direito de viver em liberdade; o segundo, um genocida e racista, com pretensões políticas para a Casa Branca, e que não hesitou em matar centenas de homens, mulheres e crianças aborígenes americanas e violar a todos os tratados existentes para atingir os seus objetivos.

Mas o propósito desta nota não é narrar dita batalha, nem como “Cavalo Louco” fez justiça ao seu povo e herança cultural ao aniquilar seu inimigo, os “wasichus” ou invasores brancos, mas sim para resgatar aquele grito, para dar nome a uma virtude pagã esquecida: a de saber morrer bem.

Guerreiro Sioux Oglala. Assim surgiria Tasunka Witko (Cavalo Louco).

Saber Morrer é Tão Importante Como Saber Viver

O humano moderno, independentemente da cultura nativa, a religião que pratique ou o nível de educação que tenha, geralmente esqueceu do fato mais importante da Vida: A Morte. Tentamos não pensar sobre isso e deixar mensagens nos cemitérios e lugares de respeito e lembrança dos falecidos, qualquer pensamento ou sentimento a respeito.

Um saber inestimável foi perdido, um conhecimento transcendente: a ideia de que vivemos para a morte, que nossas vidas são menos que um lampejo na Eternidade, que a poeira e o esquecimento é o destino dos homens. Um conhecimento que esteve presente desde os primeiros escritos humanos, como o que segue:

«Gilgamesh, por onde você vagueia? Não encontrará a vida que procura. Quando os deuses criaram a humanidade, separaram a morte dela, retendo a vida em suas próprias mãos. Você, Gilgamesh, encha a sua barriga, aproveite o dia e a noite. Cada dia celebra uma festa de alegria. Dança dia e noite e brinca! Certifica-se de que as suas roupas sejam novas, lava a sua cabeça; banha-se na água. Cuida do pequeno que pega na sua mão. Que sua esposa se deleite em seu seio! Porque essa é a tarefa da [humanidade]!»

(“Poema de Gilgamesh”, Tábua X, Coluna III – h. 1500 a.C.)

No entanto, apesar da inegável realidade do que precede, o paganismo ancestral, em quase todas as suas tradições, propunha uma visão corajosa e realista diante do destino final que espera a todos nós. Não propunha a visão de se lamentar, de ocultar o temor ou manter distante todo o pensamento sobre o final da existência, mas, muito pelo contrário, usar este conhecimento como uma ferramenta para viver plenamente, para ser feliz e tirar o máximo proveito dela e desfrutar a vida.

Não se trata de nenhuma verdade “revelada”, de nenhum conhecimento “iniciático” ou “arcano”. Não é necessário realizar viagens exóticas ou longas meditações, para poder vivê-la… Somente a partir da simples sabedoria do senso comum, emanada daqueles homens e mulheres que, por milhares de gerações, viram a Morte diante de seus olhos, desde muito próximo. Não em hospitais esterilizados e pintados de branco, mas em qualquer momento e lugar, de maneira violenta, quando havia guerras, saqueios ou ataques de predadores; de um modo sub-reptício e silencioso, quando chegavam as pragas ou a escassez.

Aquelas pessoas antigas aprenderam a viver com a Morte seguindo seus passos desde muito perto e justamente por isso costumavam ser, às vezes, mais felizes que nós (nem sempre nem constantemente, porque a felicidade permanente é apenas uma quimera) e também ter vidas plenas e energéticas.

Esse conhecimento que os ancestrais nos deixaram e que foi esquecido pela cultura moderna, não é inacessível, mas requer apenas um mínimo de contemplação da existência e de nosso papel nela. É realmente simples: devemos estar preparados para morrer nos dias de hoje, viver cada dia como se fosse o último.

Isso, por si só, fará com que você viva com intensidade cada momento, valorizando cada minuto, ciente de cada segundo. Se você não abandonar a ideia de que a morte está próxima, a vida é vivida com intensidade, com a percepção aguçada e aumentada, com plena consciência de cada momento.

O pagão considera a si mesmo um guerreiro. Não porque busca a violência ou a guerra, mas porque está sempre preparado para lutar contra os obstáculos da Vida e contra as injustiças dos homens. Como tal, tem medo da morte como qualquer outro ser finito, mortal… Mas sabe que antes é preferível enfrentá-la com integridade do que viver como um roedor assustado, escondendo-se nos cantos mais sinistros pelo simples fato de tentar viver um segundo a mais.

Para viver bem é preciso saber morrer bem e para morrer bem, é preciso ter vivido bem. Esta simples verdade é muito pouco reconhecida e valorizada pelos sistemas de crenças dominantes. Tanto pelas religiões (supostamente) “reveladas”, como pelas ideologias e filosofias de corte humanista (predominantemente ateias).

A morte é o evento humano que mais significado dá a vida, não só porque é algo único, algo que ocorre apenas uma vez e não pode ser revertido, mas porque é o epílogo de toda a existência, o final da história pessoal de cada indivíduo. A morte é a “graduação” da Vida, o fim da estrada.

Todos os humanos querem ter uma vida boa, cheia de prazeres, conquistas e satisfações. No entanto, mesmo sabendo que todos nós teremos a última hora, pouco são aqueles que se preocupam em ter uma bela morte.

Os antigos romanos tinham um saudável costume: quando seus heróis e generais desfilavam de frente para a plebe pelas ruas de Roma, em seu momento de maior glória, depois de alguma campanha vitoriosa, sempre havia um escravo atrás dele, que segurava a coroa de louros sobre sua cabeça, mas também lhe sussurrava ao ouvido: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Alguns acreditam que, com base no escritor cristão Tertuliano, a frase na verdade era: “¡Hominem te esse memento!” (“Lembre-se que és apenas um homem”), mas esta última versão é tardia e desconecta do propósito original.

Com essa ação, os romanos (e talvez primeiro os Sabinos, de onde se supõe que se originou o costume) queriam recordar o herói, o poderoso, que sua realização era efêmera, tanto para que não abusara da fama e do poder ganho, como para que não perdesse de vista o seu destino.

Há um velho provérbio que diz: “Se vive com dignidade, não se morre com ela, porque nenhuma morte é digna”. Mas isso é falso, já que não é a própria morte o que geralmente tememos ou rechaçamos e que podemos aceitar e tentar conscientemente experimentar, mas o seu prólogo. A Morte, seja o que for que implique para o Ser, se é o passo para o outro “plano” ou a aniquilação total e final, não é “o ato de morrer”, mas sua consequência. O “ato de morrer” é o que todo humano pode realizar com dignidade ou catástrofe; com consciência ou sem ela; com coragem ou covardia.

São estes minutos “antes e durante” o processo que definem o que foi dito anteriormente, o ato de morrer, o epílogo da vida e não o que ocorre depois disso, que já é desconhecido para o Homem, nem é relevante para a existência terrena quem foi um indivíduo durante os dias de sua vida.

“Memento Mori” (“Lembra-se que Morrerás”)

A Morte é o propósito da Vida, não há nada na Natureza que seja imortal, imperecível, permanente. Para os pagãos, até os deuses acabam morrendo com os éons da Eternidade. Os universos, os planos do ser e tudo o que existe deve deixar de existir, mas não em vão, e sim para dar lugar a um novo começo, a uma nova vida e a um novo Cosmos.

A física moderna mostrou que a energia não se perde. Isto é formulado pela 1ª Lei da Termodinâmica (também chamada de “Princípio da Conservação da Energia”), que muitas vezes é tomada de forma distorcida e interpretada como: “Nada se cria, nada se perde; tudo se transforma.”, postulado pelo químico francês Antoine-Laurent de Lavoisier (1743 – 1794), mas tomada como evidência da imortalidade da alma ou a essência do Ser.

Tal coisa é errada, porque enquanto a energia nunca desaparece nem é aniquilada, existe uma 2ª Lei da Termodinâmica, também chamado de “Entropia”, que dita que a energia sempre que passa por alguma transformação, vai degradando-se, ao ponto de que (como hoje em dia é conhecido cientificamente) o Universo acabará, depois de incontáveis milhões de anos, como um incomensurável páramo escuro e frio, muito maior do que hoje em dia e irá conter apenas fótons de energia muito baixa, incapazes de gerar luz ou calor. Algo como os últimos cadáveres de energia e matéria que atualmente compõem as galáxias, os sóis; os planetas e os seres vivos.

Este conceito é odiado e temido pela maioria dos filósofos e teólogos otimistas, porque os obriga a considerar a extinção final de todas as coisas, até mesmo do Universo. No entanto, no Paganismo, não existe essa preocupação, porque a concepção cíclica garante que, de uma forma ou de outra, tudo voltará a começar enquanto os indivíduos desaparecerão, a Natureza continuará para sempre.

Mas, no entanto, há algo que a física conhece e que raramente capta o interesse dos “crentes” de qualquer sistema espiritual ou dos filósofos propensos à metafísica, porque todos estes estão apenas interessados na possível sobrevivência da “alma individual”. Hoje sabe-se que “a informação nunca se perde“. Mas, que significado ou importância isso pode ter para os seres humanos? Nada mais e nada menos que o conhecimento (não a crença ou a superstição, mas o saber real) de que todo trabalho, todo pensamento, todo acontecimento desde sempre e até esse estado final da existência, descrito anteriormente, jamais desaparecerá.

Essa informação pode ou não ser acessível ao Homem (por enquanto não é se está “no passado”, mas nada impede que a evolução da tecnologia e da consciência nos permita acessá-la algum dia), mas jamais desaparecerá, dando-lhe com isso uma profunda e tremenda importância e significado a cada segundo de nossas vidas, a cada palavra, a cada interação.

Isso dimensiona a Vida de maneira diametralmente oposta a como a colocam os sistemas hegemônicos de crença e pensamento: a vã busca da imortalidade, a absurda ideia do “perdão e o esquecimento” das más ações; dos fracassos e misérias, é apenas produto da fraqueza de nossa memória, mas de modo algum implica que o que aconteceu mude, se modifique, se resolva ou possa ser compensado.

Nossas vidas são evanescentes, efêmeras… Mas os acontecimentos nelas, nossas ações, reverberam na Eternidade…

Não é na imortalidade onde o pagão deveria concentrar as suas energias e o seu ponto de vista, sem que isso implique negar a sua possibilidade ou mesmo a sua realidade, mas no legado que deixa e deixará à memória da Humanidade, e também a essa outra “memória” indestrutível e eterna do próprio Universo, da Existência. Se você quiser, coloque de uma forma poética, na memória dos deuses, que jamais sofrerá o “esquecimento”.

Não se trata de viver “no passado” ou “para o passado”, mas de fazer bom uso do presente e de terminar a “batalha da vida”, mas vitoriosos, ao menos com dignidade e honra, com a maior consciência possível de si mesmo e do que foi deixado para trás.

A Morte não deveria nos assustar, essa amiga benevolente, que levará consigo toda a dor, toda a ansiedade e toda a miséria. Toda a dor está na Vida, não na Morte. Deveríamos nos preocupar com o modo como percorremos o caminho da Vida e como encerramos esta jornada, como damos um final a nossa história pessoal.

Todos nós queremos viver 100 anos, é lógico, mesmo visto do ponto de vista daqueles que pretendem dar um significado transcendente às suas existências. Uma vida curta implica em menos tempo para fazer, alcançar e aproveitar. No entanto, e muitas vezes, isso geralmente é uma falácia… Quantos milhões de seres vivem 80 ou 90 anos sem que suas vidas tenham algum significado, sem haver conhecido a si mesmos, sem haver evoluído suas consciências; sem ter deixado legado algum a suas famílias ou amigos próximos, a sua cultura ou a Humanidade?

É comum ver a dor e as lágrimas dos mais velhos pela morte dos jovens. Isso é lógico quando se trata de seres a quem o Destino negou a obtenção de uma vida suficientemente longa, para ser significativa e memorável. Mas estas pessoas choram também pelos heróis caídos, pelos notáveis falecidos, pelos ícones reivindicados por Thánatos.

Tal coisa demonstra a indolente ignorância em que a maioria vive. Não se pensa que, talvez, esse falecido tenha cumprido com sua vida e o seu destino, que deixou algum legado (não importa o quão grande ou pequeno) a seu entorno e que se jamais é esquecido, não deveriam chorar por ele, mas glorificá-lo.

A cada pagão lhe é apresentado em algum momento da vida o dilema de Aquiles: Viver uma vida longa e medíocre, sombria e esquecível ou uma curta e gloriosa, que jamais será olvidada. Livre como é cada ser humano de poder viver sua vida como melhor lhe agrada, não é digno de chamar a si mesmo de pagão aquele que pretende transcorrê-la de forma medíocre e regozijar-se nela.

Não se trata de desejar ou propiciar uma vida curta ou uma morte dramática. Não é o suicídio, direto ou indireto, o caminho do paganismo. Se trata é de não escolher por viver mais, mas de viver melhor. Aquiles não optou por uma vida curta porque queria morrer, e sim porque não queria viver em vão.

Muitas pessoas se comovem e valorizam aqueles seres patéticos que se agarram à vida, mesmo nos últimos momentos de agonia, só para viver mais uma hora. Esse tipo de “resistência” não é uma virtude, mas o efeito ou a expressão do medo e da ignorância. Uma coisa é não aceitar a morte sem lutar, porque ninguém sabe se realmente é seu destino morrer naquele momento, e outra muito diferente é não saber aceitá-la com serenidade, dignidade e alegria, no momento em que já não restam dúvidas do que virá.

Um verdadeiro pagão deve fazer de cada jornada “um bom dia para morrer”, não buscando que esta seja a última, mas tampouco escapando da vida, do destino ou dos desafios que se apresentam para tentar evitar que esse seja o último dia. Aceitando que, a qualquer instante, o momento funesto pode chegar, viverá a cada um com a intensidade do herói, do guerreiro.

Se trata apenas de pensar para nós mesmos: “Memento Mori” (“Lembre-se que morrerás”). Assim como fez Cavalo Louco naquela batalha em que sobreviveu e da qual queria sair com vida. Seu grito não implicava: “Hoje é o dia em que quero morrer“, mas: “Nenhum dia de minha vida seria melhor do que o de hoje para que a morte viesse a mim“.

Uma vida assim vivida é uma vida que valerá a pena e que produzirá um sorriso final, no momento de fechar os olhos pela última vez. É claro, quase ninguém poderá alcançar isso plenamente, mas sim tentar atingir dito objetivo com todas as suas energias e com toda a sua vontade.

Heróis e Mártires

Não temos que nos confundir-nos muito, entre a ideia de morrer lutando por um ideal e a de deixar-se matar por ele mesmo. O segundo, o “martírio” pode ou não ser algo meritório, depende da forma que se olhe. Mas também é uma vida desperdiçada, porque foi entregue sem luta, sem resistência.

Pelo contrário, nenhuma vida é mais significativa e nenhuma morte é mais gloriosa que aquela que deixa esta existência ao defender ou lutar por seus ideais, quando tenta sustentá-los; por proteger aqueles que não podem se defender, por salvar os outros e por promover a justiça, a liberdade e a verdade. Eis aí a diferença entre o herói e o mártir: O herói morre lutando, o mártir se deixa matar.

Todavia há outra diferença nestes dois seres: O verdadeiro herói não espera que outros morram junto com ele, se ele puder evitar outras mortes, o fará. O mártir tenta fazer com que seus iguais o “sigam” em seu infeliz negócio (como é frequentemente visto em muitas seitas alucinadas) e, muitas vezes, como ocorre entre os extremistas muçulmanos modernos ou entre os primeiros cristãos, aspiram levar a maior quantidade de vítimas como eles.

Não é como que, nos tempos modernos, alguém morra em “batalha” mantendo a filosofia de guerreiro. Mesmo aqueles que se veem forçados (ou se volutariam) a participar nas tristemente numerosas guerras da atualidade, raramente morrem por um ideal e poucas vezes tem consciência do porque que estão lutando.

Por outro lado, também ocorre o oposto, entre aqueles indivíduos que matam e morrem cegos por um obscuro e trágico fanatismo (geralmente religioso ou político). Nestes casos, o heroísmo é desconhecido por eles e chegam ao fim impulsionados unicamente pelo ódio e a ignorância.

Não é uma questão de recomendar que hoje ninguém tente ter uma “bela morte”, como os hoplites gregos diziam e que as Kers dos aqueus ou as Valquírias dos Vikings, venham por suas almas. Pelo contrário, trata-se de não buscar uma morte lenta e decrépita, uma longa agonia sem sentido. A “batalha” pode ser para o guerreiro pagão em qualquer parte ou âmbito.

Seria um erro interpretar tudo o que foi dito como um endosso para negligenciar o corpo e a mente, para submetê-lo a vícios ou atividades que o debilite ou degrade. Não há nada mais distante disso que o pensamento pagão: O pagão não teme o excesso, mas tem como regra a moderação. “Nada em excesso” (“μηδὲν ἄγαν”) dizia Sólon de Atenas, que mais tarde se converteria no famoso “credo grego“.

O pagão não tem medo de ser ferido ou morto por defender o que ele acha que é certo, mas em nenhum caso ele quer que isso ocorra. Um velho ditado diz: “Soldado que sobrevive serve para outra guerra”. Isso às vezes é tomado de maneira irônica e se iguala à covardia, mas na verdade não é bem assim. O verdadeiro herói não tem medo de morrer, mas tenta sobreviver a qualquer custo, exceto no caso de que a sua sobrevivência implique no fracasso de seu propósito. Tenta, porque ele sabe que se tiver sucesso ele poderá protagonizar outra vitória futura, outra possível façanha.

E o que dizer do homem “comum”? Aquele que vive dia após dia, enfrentando as pequenas lutas e misérias da existência? Nenhuma consideração muda, exceto que se deixe abater pela rotina; que o automatismo, o tédio e a irracionalidade o vençam.

O “campo de batalha” para o guerreiro pagão pode ser qualquer coisa ou lugar. Um médico pode ser um guerreiro que luta contra a doença, um varredor que luta contra a sujeira, a contaminação e a favor da higiene. Há guerreiros famosos e outros anônimos, mas a diferença não está nisso, e sim na ação pela vida com indolência, com inconsciência ou fazendo com determinação, premeditação e paixão. Mesmo se o caminho tomado é equivocado, é respeitável que ele o faça com coerência e fervor e leve às últimas consequências.

Como dizia Bruce Lee: “O crime não é o fracasso, mas sim deixar de tentar. Em grandes tentativas, até falhar é glorioso.”

A energia é limitada, no Universo, em um sistema determinado ou em qualquer indivíduo. Isto implica que uma vida intensa seja, em geral, mais curta que uma vida lenta e frouxa. Não é uma pergunta de uso comum aquela de “por quê os grandes, os mais valiosos, morrem jovens?”. No entanto, o pagão crê que a versão curta e plena vale mil vezes mais que a longa e medíocre, que 100 anos inúteis ou submetidos a uma vulgar rotina não velem 100 dias vividos com sentido, plenitude e glória.

Os gregos diziam que havia três caminhos para servir aos deuses: O heroico, reservado para poucos; o sacerdotal ou iniciático, que era apenas para aqueles que queriam viver dessa maneira e o do homem comum. Enquanto este último seguisse os parâmetros que os deuses do Olimpo haviam estabelecido para ele, seu destino não seria menos digno do que o do próprio Herakles.

Não se trata então de que o “guerreiro pagão” moderno viva como um Viking, um Sioux, um Espartano ou um Samurai, mas que recorde aqueles valores ancestrais de desafio e força diante da morte e o perigo, e tente adaptá-los a seu tempo e as atividades que ele realiza em seu próprio mundo.

Não é o mesmo que morrer enquanto se vive plenamente, sem importar que seja pelas mãos de outras pessoas, em um acidente, por doença ou o que for, do que deixar de existir (morrer) quando o último alento de vitalidade abandone o corpo após vegetar por décadas, temendo o futuro e com saudades do passado. Essa é a diferença. Quem não deixa um legado na vida, de qualquer tipo, não viveu com dignidade e, portanto, não terá uma morte digna nem haverá dia, por mais que viva 1000 anos, que encontre bons motivos para enfrentá-la.

O Morrer Como Reafirmação do Sentido da Vida

Existe a crença popular de que Sócrates cometeu suicídio. Isto é produto de mentes estreitas, que lendo o “Crítias” e o Fedón”, não foram capazes de compreender a ideia central pela qual o filósofo decidiu aceitar o destino que lhe impuseram as leis atenienses, sem fugir de seu cativeiro ou sem demonstrar resistência, mesmo quando seus amigos-discípulos haviam propiciado tais possibilidades. Alguns outros, talvez a maioria, nem sequer leram estes livros, mas tomam como um “fato” a opinião dos primeiros.

A realidade é que, ao menos se nos basearmos nos escritos de Platão, seu amigo e discípulo direto, Sócrates deu sua vida pelo que acreditava. Não por um sentimento meramente “heroico” relativo ao respeito por suas próprias ideias, mas por algo mais importante: O filósofo ateniense tentou viver toda a sua vida de acordo com as leis de sua pátria, a Atenas que tanta grandeza deu à Grécia. Desconsiderar a decisão do tribunal que o julgou, mesmo que ele estivesse em total desacordo com o resultado do julgamento, teria sido equivalente a destruir o próprio esquema de seu propósito de vida, o significado mais profundo que, para ele, tinha a mesma profundidade do que a própria vida.

Mais uma vez, não se trata de querer morrer, mas de não desejar seguir vivendo, se a sobrevivência implica na destruição do sentido da própria vida.

Outro caso semelhante é aquele que pode ser extraído do célebre Epitáfio de Simônides, em homenagem ao rei Leônidas I de Esparta e a seus 300 bravos hoplitas, mortos na Batalha de Termópilas. Ele não fala da façanha imortal destes, nem de suas virtudes como guerreiros ou a forma como decidiram ir à batalha, apesar de enfrentar um exército centenas de vezes mais numeroso. O epitáfio diz:

«Ὦ ξεῖν’, ἀγγέλλειν Λακεδαιμονίοις ὅτι τῇδεκείμεθα,

τοῖς κείνων ῥήμασι πειθόμενοι.»

(“Estrangeiro, vá e diga aos espartanos que nós aqui jazemos em obediência às suas leis.”)

Não havia nada melhor que isso para ser dito. Nada era mais glorioso que morrer respeitando aquelas leis pelas quais estes guerreiros haviam vivido. A rendição, a retirada ou o pacto de um acordo com os persas equivaleria a esquecer o principal motivo de suas vidas, o sentido mais profundo que haviam dado a si mesmos. Ser infiéis a estas leis, a estes valores existenciais, era para eles, muito mais difícil, que encarar a morte com determinação e serenidade interior.

A partir destes exemplos, infere-se que não se trata de “buscar a morte”, mas de não “tentar se salvar dela”, se o preço for muito alto.

Esta decisão não precisa necessariamente ser feita na véspera de uma batalha. Em geral, é dada como o produto de uma reflexão de anos… através das mais rotineiras das atividades humanas. Nunca pode ser tomada in situ. A única maneira de poder ser coerente com tais valores é se preparar a cada dia para isso.

Nem Sócrates nem Leônidas tomaram a decisão de fazê-la, em seus últimos dias, porque passaram as suas vidas assim como Cavalo Louco, o personagem que inspirou o início deste artigo, pensando a cada manhã que: “Hoje é um bom dia para morrer (se for isso o preço para ser coerente com a minha vida)” e que o destino ou os deuses seriam os que decidiriam em qual destas jornadas tal evento teria que ser cumprido.

Se os pagãos modernos se proporem a tentar seguir esses ancestrais e redescobrir a sabedoria sobre a Vida e a Morte que tinham, as suas vidas adquiririam um maior sentido, seriam mais plenas (inclusive mais felizes!) e um dia, chegado o momento, poderão fechar os olhos sorrindo diante da visão da Lagoa Estige.

Vivamos então, cada dia, gritando realmente ou figurativamente: “Hoka Hey!“, porque essa deve ser a maneira pagã de enfrentar a morte e também, esse outro curto período que a precede, a qual costumamos chamar de vida.-

O Retorno do Guerreiro

Tradução do escrito de Ramon Elani. Traduzido por Anhangá.

A guerra… é um meio de atingir um objetivo individual: o desejo do guerreiro por glória, o guerreiro sendo seu próprio objetivo. Desejo não de poder, e sim de glória.” – Clastres

Eu sou uma lança que ruge por sangue” – Canção de Amergin

Rejeitando inteiramente as ideologias do humanismo e progressismo, eu proponho a figura do guerreiro selvagem. A sociedade guerreira, entendida como oposta à guerra mecanizada dos séculos XX e XXI, rompe a sociedade do estado, a sociedade do mundo tecnoindustrial. O guerreiro se encontra na encruzilhada entre a vida e a morte, o humano e o animal, a memória e o esquecimento, negociando uma constelação de cosmo-práxis em sua tarefa. Eduardo Viveiros de Castro chama a nossa atenção para as diferenças entre o tratamento dos mortos entre os andinos e as tribos das terras baixas. No primeiro caso, as tradições incas de sepultamento e o complexo funerário industrial veneram os ancestrais, os fundadores do estado, os burocratas, os administradores. No segundo caso, nas sociedades de guerra, os mortos são tratados como inimigos, sendo erradicados e esquecidos através da ingestão ritual. Há uma guerra entre os vivos e os mortos. Aqueles que veneram os mortos reforçam as correntes que os prendem. Aqueles que os devoram afirmam a sua autarquia selvagemente. O guerreiro renuncia a hereditariedade, e nenhuma honra pode ser adquirida através da linhagem. É apenas os seus atos de valor que lhe trarão a glória que ele procura. A seguir, eu irei contextualizar o guerreiro em luz de seu mais elegante teórico, Pierre Clastres.

A voz de Clastres fala como um eco de coisas esquecidas há muito tempo. Uma tendência, um gesto que caminha ao nosso lado mas oculto nas sombras dos milênios. Nós conhecemos as palavras de Clastres antes de termos ouvido elas. O fogo do guerreiro flameja dentro de todos nós. De Castro: às vezes temos uma impressão de que é preciso lê-lo (Clastres) como se ele fosse um obscuro filósofo pré-socrático”. De fato, nós podemos verdadeiramente perceber a essência do mundo nos sangrentos fantasmas que ele conjura.

De Castro aponta para a comparação feita por Clastres entre Heráclito e os xamãs guaranis. Todas as filosofias do dinamismo e do mundo são costuradas em conjunto para formar uma bandeira contra o monólito da máquina. Se, apesar de sua ressonância subterrânea e atemporal, os escritos de Clastres nos preenchem com uma experiência de estranheza, de destino, de escuridão, de mistério, nós podemos ver que tudo que nós precisamos fazer é tirar as vendas de nossos olhos. Clastres nos convida a ouvir novamente o batimento do tambor que ecoa em nosso sangue. Quando nós mergulhamos nas lagoas familiares, porém turvas da alma do guerreiro, Clastres nos lembra, há apenas uma questão: até onde nós estamos realmente dispostos a ir? Ele entendia, como nós também devemos entender, que o destino cósmico da nossa civilização está em jogo.

Nada é mais ultrapassado do que o homem da guerra: ele foi substituído muito tempo atrás por um personagem completamente diferente, o homem militar.

É tentador e comum, diz de Castro, pensar em Clastres como um porco espinho com apenas uma ideia, mas uma ideia vasta além de qualquer compreensão. O guerreiro primitivo se levanta contra o estado. A guerra tribal, em toda a sua brutalidade e crueldade, existe para prevenir o aniquilamento do universo. Como nós veremos, porém, o trabalho de Clastres explode em uma galáxia de poesia e filosofia, difusa e brilhando contra o céu noturno. No final das contas, não é o estado, e sim o próprio significado da humanidade que o guerreiro expõe e arrasta para a luz. Nas palavras de Claude Lefort: “Apenas o homem pode revelar ao homem que ele é homem”. Sendo assim, o que Clastres nos mostra sobre o sentido da violência e da guerra se torna uma questão metafísica, não apenas algo que está no domínio político, e de fato, algo oposto a ele. As fronteiras e as demarcações de território são transgredidas pelo guerreiro. Na falta dessa força transgressiva, nós somos gado domesticado. O guerreiro, que conduz, abduz e queima, cruza todos os limites e resiste a todos os controles além de seu próprio significado. É apenas a glória e os profetas que o direcionam a sua conquista que o impelem. Ele vai e vem. As leis que o governam superam a mesquinhez do estado. A monstruosidade da sociedade tecnoindustrial codifica e determina a cada oportunidade. Nada ameaça a sua hegemonia como a desterritorialização da guerra. Por esse motivo, a figura do nômade entendido como um proto-guerreiro, foi agarrada por pensadores como Bruce Chatwin, Deleuze e Guattari. Clastres direciona o nosso olhar ao guerreiro, orgulhosamente sustentando um mundo de multiplicidade com cada golpe de lança e cada escalpo adornando as paredes.

Ao longo de sua obra, Clastres celebra a máquina de guerra… Goethe e Hegel são homens velhos perto de Clastres.

Ao ser-para-a-guerra, a morte é um evento biocósmico que produz alteridade. O guerreiro avança em direção a morte. Não é claro que o desejo pela glória eclipsa completamente o desejo pela morte. Os mortos continuam a lutar na forma de espíritos, o xamã brandindo seu machado está cercado por eles em todos os momentos. O xamã yanomami Kopenawa diz que quando a terra começar a apodrecer “os humanos se transformarão em outra coisa, como aconteceu no começo do tempo”. Espíritos vingativos cortarão o céu em pedaços com os seus facões, e as florestas atrás dos céus cairão sobre nossas cabeças. Tão rápido será o fim que nós não teremos tempo de gritar. Os espíritos, liberados da terra, destruirão o sol, a lua e as estrelas. E no final haverá apenas a escuridão.

O ano é 1970, e Pierre Clastres vive entre os Yanomami e os declara “A última sociedade livre do mundo”. Ele comenta sobre a sua incrível flatulência, produto dos altos níveis de banana em suas dietas. À noite, Clastres é deixado só com as mulheres no acampamento, pois os homens saíram em uma incursão. Eles atacam seus inimigos à noite e correm de volta para a selva para evitar o inevitável e ligeiro contra-ataque. Os mortos são queimados sobre uma pira, seus ossos moídos até se tornarem poeira e depois inalados. Dias de lazer e risadas são pontuados por incursões do outro lado do rio. Homens se juntam na terra para duelar com bordunas por suas mulheres. Clastres viaja com várias canoas cheias de guerreiros armados com o objetivo de realizar trocas para obterem drogas. As sementes alucinógenas de que eles necessitam crescem apenas no território de uma tribo particular. Eles mantêm seu monopólio tenazmente. Além de ferramentas e outros itens de troca, há uma demanda clara por itens de prestígio. Esses incluem vestidos femininos, usados pelos guerreiros, que não se preocupam em fazer distinção de gênero de vestimentas. Eles assopram a droga para dentro das narinas uns dos outros usando tubos de cana. Enquanto o grupo de Clastres se prepara para sair, um menino pequeno de outra tribo pula em sua canoa. Ele quer ir com eles. Sua mãe o puxa de volta e ele bate nela com um remo. Com a ajuda de várias outras mulheres, ela consegue tirá-lo da canoa. Ele morde ela.

O mar como um espaço suave é um problema específico para a máquina de guerra.

Garotos na sociedade Yanomami, como Clastres observa, são “encorajados a demonstrar a sua violência e agressão. Crianças jogam jogos que frequentemente são brutais. Pais evitam consolá-los. O resultado dessa pedagogia é que ela forma guerreiros”. Os missionários fracassaram miseravelmente em suas tentativas de dissuadi-los de seu amor pela violência. Armas entregues como presentes pelos salesianos sob a condição de que elas sejam usadas apenas para caçar são rapidamente integradas a máquina de guerra yanomami. “Tente convencer os guerreiros a renunciar a uma vitória fácil”, escreve Clastres, “Esses não são santos”. A presença de armas, obviamente, permite massacres em escalas maiores. Clastres aponta, porém, que é comum que uma tribo convide outra para um banquete com a intenção de massacrá-los. Tais atos nunca são esquecidos, e as rixas de sangue são passadas de geração para geração. Em um dia com 21 horas de tempo livre, há muito tempo para cultivar a animosidade em relação aos seus inimigos. Como diz Clastres em seu diário:

No final de uma tarde entre os Karohiteri, surge uma tempestade, precedida por ventanias violentas que ameaçam levar os tetos. Imediatamente, todos os xamãs se posicionam ao longo das moradas, tentando empurrar de volta o vento. O vento, esses redemoinhos, são de fato espíritos ruins, certamente enviados por seus inimigos.”

Enfim, o xamã captura os espíritos ruins em uma cesta e corta eles em pedaços com o seu machado. Clastres despreza a paz. Seu sonho e prece para os yanomami é “mil anos de guerra! Mil anos de festas!” Harmonia, ele escreve, é conquistada através da escavação de minas, a perfuração que busca petróleo, fábricas, polícia e shoppings.

A tese pela qual Clastres é mais conhecido é simples: o estado de guerra permanente que se encontra na maioria das sociedades indígenas é uma estratégia usada deliberadamente para manter a segmentação territorial e impedir a formação de um estado ou de uma cultura monolítica. A guerra tribal resiste a globalização. Clastres escreve:

A máquina de guerra é o motor da máquina social: o ser social primitivo depende completamente da guerra, e a sociedade primitiva não pode sobreviver sem a guerra. Quanto mais guerra, menos unificação, e o maior inimigo do estado é a guerra. A sociedade primitiva é uma sociedade contra o estado ao ser uma sociedade pela guerra.”

Assim, os incas enclausurados em seus templos de pedra e cidades elevadas olhavam para as tribos da floresta com medo, ódio e desprezo. Para os aristocratas incas perfumados, os habitantes das pampas sem lei e sem reis eram menos que humanos. Nesse sentido, eles marcaram um padrão que foi mais tarde adotado pelos espanhóis ao lidarem com todos os povos ameríndios.

A sociedade tecnoindustrial condena a violência ao mesmo tempo que a facilita e torna possível graus de violência inimagináveis mesmo para as sociedades tradicionais mais cruéis e sedentas por sangue. Nós somos ensinados a temer e rejeitar a violência. Nós somos ensinados que não há significado na guerra, mesmo quando a nossa cultura promove uma guerra implacável contra o próprio cosmos. Essa incoerência ressoa pela nossa sociedade. Quando Clastres escreveu sobre a violência entre os Yanomami, Tupi-Guarani e os Guayaki nos anos 60 e 70, a cultura entre os antropólogos também era assim. A violência era ignorada no mundo acadêmico ou usada por etnógrafos racistas para denigrir as sociedades primitivas. Clastres não temia a faca, e via o derramamento de sangue como uma verdade reprimida e esquecida. Quando os europeus, escondidos como caranguejos-eremitas em suas armaduras, chegaram nas praias da América do Norte, América do Sul, Austrália, África, Sibéria e as ilhas do Pacífico, eles se surpreenderam sem exceção com o amor pela guerra dos nativos que encontraram. Sejam nômades ou sedentários, comunidades primitivas eram “apaixonadamente devotadas a guerra”. Para os europeus, esse amor pela guerra não podia conviver com a sua doutrina da paz: os indígenas deveriam ser ensinados abandonar as suas tradições violentas através de centenas de anos de tortura, genocídio e etnocídio.

Não importa onde olhamos entre as sociedades primitivas, nós sempre encontramos a violência brilhando como uma tocha na noite escura. Apesar de todas as nuances e variações culturais, essa violência parece ser universal. O mito do primitivo pacífico é pernicioso. Como nós veremos abaixo, parte da razão da existência desse mito é a falta de uma compreensão do significado da guerra fora do nosso entendimento atrofiado e reprimido da violência. Clastres escreve uma imagem emerge continuamente da diversidade infinita das culturas: a imagem do guerreiro”. Qual é o significado dessa figura? Como nós explicamos ou entendemos o amor universal pela guerra? O que significa o fato de a nossa sociedade ter virado as costas para essa força primal, abandonando-a para e deixando a guerra se tornar o trabalho de robôs ou empregados corporativos estéreis? Nós perdemos “o espetáculo de nossa livre e guerreira vitalidade”, substituído por uma paz vil e assassina.

Antropólogos tentaram entender a violência primitiva de várias formas, e grande parte dos seus pensamentos gotejou para as pessoas comuns. Eles ecoam os presentes envenenados do Iluminismo. O significado da violência é frequentemente representado de forma equivocada. A figura do guerreiro e a sua busca pela glória é frequentemente ignorada e desvalorizada. E por causa disso, o espírito da sociedade primitiva em sua inteireza é mal compreendido. Primeiramente, há quem argumente que a violência e a guerra simplesmente evoluíram como um mecanismo de sobrevivência através da caça. Andre Leroi-Gourhan é um dos primeiros proponentes dessa teoria. Para Leroi-Gourhan, o guerreiro é simplesmente uma extensão do caçador. A necessidade de alimento do homem produziu o caçador, e o caçador – o homem que possui armas e sabe usá-las – produziu a guerra e o guerreiro. Leroi-Gourhan escreve “Ao longo do tempo, a agressão aparece como uma técnica fundamental ligada a aquisição, e no primitivo, seu papel inicial é a caça onde a agressão e a aquisição alimentar se fundem”. Em outras palavras, se a agressão é inata como parece ser, ela deve servir um propósito evolutivo. Leroi-Gourhan imagina que o instinto da violência pode ser usado de forma produtiva, e nesse sentido seu pensamento se limita a necessidades banais como comida. A violência para ele não é nada mais do que um impulso predatório ajustado através do prisma da economia social. Clastres corta Leroi-Gourhan como uma faca quente cortando gordura.

Nossa discordância com Leroi-Gourhan não decorre pelo fato de ele tratar humanos como animais, muito pelo contrário. A diferença é que ele não atribui os instintos animais corretos a violência. “A sociedade humana” escreve Clastres “não deriva da zoologia, e sim da sociologia”. Clastres desarma Leroi-Gourhan com facilidade e destreza surpreendentes. Como qualquer caçador já percebeu, a agressão está completamente ausente da experiência da caça. De fato, ao caçar, uma mentalidade agressiva garante que você voltará para casa faminto. Como diz Clastres “O que motiva o caçador primitivo é o apetite, ao ponto da exclusão de todos os outros sentimentos”. Ele também fala da importância do ritual na caçada. De qualquer forma, a agressão não está presente. O motivo para a guerra e a violência nas culturas primitivas, diz Clastres, é mais profundo. A guerra é pura agressão. Ela é o desejo de aniquilar seu inimigo, banhar-se em sangue e erguer troféus sangrentos aos céus. Uma necessidade maior que a fome está presente aqui. Clastres: “Mesmo entre tribos canibais, o objetivo nunca é matar o inimigo para comê-los”. Tanto alarde para Leroi-Gourhan e o seu “discurso naturalístico” da guerra.

A segunda, e provavelmente a mais persistente teoria da violência primitiva se baseia na economia. Essa crença é bem difundida em todos os níveis da sociedade. As pessoas cometem violência e guerreiam por recursos e riqueza material. Essa noção é sempre acompanhada por um desprezo pela violência: ela é apenas um veículo, uma estratégia dos tolos, daqueles que não tem outros (melhores) recursos. Como diz Clastres, essa ideia é frequentemente vista como algo tão óbvio que não necessita de justificativa. A violência surge da competição por recursos escassos. No fundo nós sabemos que isso não é verdade. Que argumento insatisfatório! As origens desse argumento podem ser traçadas. Clastres nos direciona ao século 19, quando se acreditava que a vida primitiva era uma vida de “pobreza e miséria”. O primitivo é aqui imaginado como um cidadão miserável e destituído do mundo tecnoindustrial, e que se tornou violento e cruel através da escassez e privação. Como eles não conseguem prover as suas necessidades, eles têm que guerrear por migalhas.

Essa noção da escassez primitiva é reforçada pela antropologia marxista. Clastres, que foi um membro do Partido Comunista até 1956, entende as armadilhas do progressismo. “O que é o marxismo senão a teoria marxista da história”, escreve Clastres. Para que esse aparato funcione, é preciso demonstrar que os estágios antigos da história da humanidade são deficientes:

“Para que a história siga em frente, para que as forças produtivas decolem, essas forças produtivas devem primeiro existir no início desse processo na mais extrema fraqueza, em seu total subdesenvolvimento: na falta disso, não haveria uma razão para elas se desenvolverem, e nem haveria como articular a mudança social.”

Infelizmente, como já é bem estabelecido hoje em dia, as culturas primitivas raramente lidavam com a escassez, e a sua capacidade produtiva era vasta. Aqui, Clastres reitera o que foi falado por Marshall Sahlin, “sociedades primitivas, sejam elas caçadores nômades ou grupos sedentários… são verdadeiras sociedades do lazer”. Tendo esse fato a vista, a teoria econômica da guerra primitiva vai por água abaixo. A ideia de guerrear com uma tribo vizinha por alimento ou algum outro recurso é completamente sem sentido. Como Clastres aponta, as comunidades primitivas são profundamente autossuficientes, e quando a troca é necessária, ela ocorre pacificamente entre vizinhos. Também é bem observado em várias comunidades primitivas uma abundância tão grande que os leva a criar festivais devotados somente a destruição ritualística de recursos.

A última teoria antropológica da guerra primitiva que Clastres identifica está incorporada na ideia da troca. Aqui nós encontramos Clastres em confronto com o seu professor Claude Levi-Strauss. Para Levi-Strauss, a guerra primitiva é o lado sombrio do comércio primitivo. Comunidades são obrigadas a participar em sistemas de troca. Quando esses sistemas são bem-sucedidos, o resultado é o comércio mutualmente benéfico. Quando a troca colapsa ou amarga, a guerra irrompe. Levi-Strauss escreve “a troca comercial representa guerras potencias sendo resolvidas pacificamente, e guerras são o resultado de transações mal sucedidas”. Essa visão da guerra a apresenta como um terrível acidente, argumentando de forma implícita que o comércio é uma forma de interação social superior. Como nós somos rápidos ao esquecer os sofrimentos do espírito para nos livrarmos dos sofrimentos da carne! E mesmo assim, quão rápido o corpo se cura enquanto o espírito se agarra aos seus ferimentos. “Tudo menos a guerra!”, grita a sociedade tecnoindustrial e os seus oradores. Apesar disso, não podemos dizer que o comércio também assassina e tortura a carne? Não são os crimes cometidos em nome do comércio muito maiores do que os da guerra? Levi-Strauss e seus colegas não puderam ignorar esse fato: “o comércio é frequentemente uma alternativa a guerra, e a maneira como ele é conduzido mostra que ele é uma modificação da guerra”. Sim, o comércio deixou uma pilha de cadáveres capaz de dar inveja a qualquer guerra. Em outras palavras, Levi-Strauss vê a troca como o aspecto mais elementar da dinâmica de grupos primitivos. Todo o resto é visto apenas como uma variação desse tema. Clastres não aceita essa conclusão. É a guerra, afirma ele, que nos faz o que somos.

No mundo tecnoindustrial, nós vemos o comércio como um imperativo universal. Mas o comércio é necessário apenas quando comunidades são enfraquecidas e perdem a capacidade de prover o seu sustento. Nós sabemos que a vida nas comunidades primitivas é uma de abundância e lazer. Levando isso em conta, precisamos rever a noção de Levi-Strauss da guerra como o comércio que deu errado. A própria essência da comunidade primitiva está em sua autarquia “nós produzimos tudo o que precisamos (comida e ferramentas), o que nos coloca em uma posição que nos permite viver sem os outros. Em outras palavras, o ideal autárquico é o ideal anti-comércio”. Isso não é para dizer que não havia comércio, mas Clastres estava absolutamente certo ao contestar a análise de seu professor. Sugerir que a relação da vida primitiva com a guerra e o comércio é acidental e primária é sobrevalorizar o papel das transações comerciais nessas comunidades. Levi-Strauss tenta nos convencer de que a guerra é um acessório em relação ao principal, que seria o comércio. Assim, Clastres escreve, Levi-Strauss superestima a importância do comércio.

Primórdios do Islã, uma sociedade reduzida a um empreendimento militar.

Se a guerra no contexto primitivo não é um substituto ou uma mutação das trocas comerciais, nem uma luta por recursos ou uma característica evolutiva desenvolvida por predadores, o que ela é? E como nós podemos entender a sua presença quase universal? Essas são questões que assombravam Clastres pouco antes de sua morte (em 1977, aos 43 anos, em um acidente de carro). Na época de sua morte, ele estava escrevendo um novo livro analisando o significado da guerra nas sociedades primitivas. Dois ensaios desse livro inacabado permaneceram. Nesses ensaios, Clastres refinou a sua ideia de que a guerra e a tortura são deliberadamente implementadas por comunidades primitivas para prevenir a emergência de um estado ou outros poderes hegemônicos, impedindo assim a desigualdade radical. A violência imposta quase constantemente em todos os membros da sociedade lembra a todos de seu lugar.

A lei que eles aprendem na dor é a lei da sociedade primitiva que diz a todos: Você não vale mais do que ninguém; você não vale menos que ninguém. Essa lei, escrita nos corpos expressa a recusa da sociedade primitiva de correr o risco da divisão, o risco de um poder separado da própria sociedade, um poder que fugiria do seu controle. A lei primitiva, cruelmente ensinada, é uma proibição da desigualdade que cada pessoa lembrará.

Esse é o monismo da vida primitiva. A violência cultiva a assembleia de multiplicidades, para pegar emprestado uma frase de Deleuze e Guattari, que estudaram Clastres. Além do mais, contrariando Hobbes, Clastres demonstrou que a guerra ocorria entre diferentes grupos, não dentro desses grupos. Aqui nós voltamos ao começo. A guerra não é nada mais do que a busca pela glória.

O ponto principal a ser notado sobre a guerra em um contexto tribal é que ela é por si só um objetivo, assim como uma resposta a uma necessidade. Para Clastres, a sociedade primitiva é uma singular e plural, difusa e concentrada, dispersada e coagulada. Não é surpreendente que o seu trabalho foi tão influente para Deleuze e Guattari e a teorização deles sobre a natureza da esquizofrenia e o rizoma. Nós podemos perceber imediatamente a sombria presença do corpo sem órgãos na análise de Clastres do grupo primitivo. O todo é maior do que a soma de suas partes. A tribo é um arranjo feito de pequenas rupturas na forma de seus membros. Clãs, ordens militares e irmandades cerimoniais integram o indivíduo. O que somos nós? Nós estamos aqui. Nós somos o lugar. Nós somos as coisas associadas a esse lugar. Nós somos a sua essência. A localidade da comunidade primitiva torna a sua natureza nômade ou sedentária irrelevante. Sejam eles agricultores assentados ou caçadores ambulantes, há um local e um direito territorial. Estar fora desse local, longe de casa, é uma experiência aterrorizante. Nesse sentido, há também um “movimento de exclusão”, aqueles além da floresta, da planície, o outro. Nós podemos ser tentados a pensar na guerra como uma das consequências da territorialização. Mas se esse fosse o caso, os antropólogos não descobririam que a guerra ocorre na defesa de fronteiras tribais? Mas esse não é o caso. A guerra é ofensiva. O território é invadido, penetrado, e não mantido. Como é possível que o mundo primitivo se pareça com uma galáxia de estrelas? Grupos e bandos autocontidos que em suas diferenças iluminam a noite.

Cada comunidade, no sentido em que é indivisa, pode pensar em si mesma como “Nós”. Esse “Nós” por sua vez se vê como uma totalidade na relação igual que ele mantém com outros “Nós” que constituem outras vilas, tribos, bandos, etc. A comunidade primitiva pode se ver como uma totalidade porque ela se institui como uma unidade; ela é inteira, por ser um “Nós” indiviso.

Como essa multiplicidade é mantida quando há tal união dentro da comunidade? Simples. Não há nada aqui para o homem com ambições políticas e econômicas. Aquele que acumula não pode fazer nada a não ser olhar enquanto suas riquezas são devoradas pelos seus semelhantes. Aquele que aspira por poder se torna acorrentado ao trono, sua garganta arrancada e transformada em um megafone para a lei. Essa é a sua recompensa se ele faz bem seu trabalho. Caso contrário, ele será massacrado. A forma que se apresenta diante de nós é um monólito. Uma visão da morte, êxtase, calcificação. Sem movimento ou energia. Mas a alma cristalina do mundo primitivo, dura, fria e perfeita é estilhaçada, se arrebentando e dando vida ao coração flamejante da guerra.

Finalmente nós chegamos a isso. O coração vivo da selva e do Chaco, iluminado pelo estranho e fantasma-fogo da lua. A guerra é uma forma para as tribos “testarem o próprio ser da sua sociedade”. Qual é a natureza do mundo indiviso? É a sua recusa a se identificar com os outros, no melhor dos casos. Nós somos quem somos porque não somos você. E nós vamos afirmar a nossa identidade em sangue. Somos todos iguais!” proclama a máquina industrial, o nervo de fibra óptica da civilização. Nós estamos todos unidos na escravidão do sistema tecnoindustrial. Nós somos idênticos. Nós vivemos a morte.

A identificação” escreve Clastres, “é um movimento em direção a morte”. A guerra e derramamento de sangue das sociedades primitivas é uma celebração, “uma afirmação da vida”. A mônada está sempre ameaçada pela decadência e o colapso, a forca esfacelante que destrói todos os nossos monumentos. A guerra é o poder que resiste a dispersão.

Nós sabemos que a guerra é universal entre as comunidades primitivas. Clastres nos avisa sobre o risco de extrair desse fato uma confirmação da “guerra de todos contra todos” de Hobbes. Esse, na verdade, é o estado da guerra na sociedade tecnoindustrial. O mundo globalizado é facilitado por uma máquina de guerra que corre em um ritmo tão acelerado que o poder e a dominação se espalham inabalavelmente. Tudo e todos são inimigos, e todos são vitoriosos ou aniquilados. Gradualmente, toda a oposição é subjugada. Toda a autonomia é trazida sob controle. Pax Imperium. A paz reina apenas quando a própria terra é enterrada sob uma montanha de ossos. A paz é a morte. A amizade de todos é impossível pois ela aniquila a natureza da identidade. A inimizade de todos também é impossível pois ela conduz à paz silenciosa do túmulo. Clastres: “a sociedade primitiva… não pode consentir a uma paz universal que aliena a sua liberdade; ela não pode se entregar a uma guerra geral que abole a sua igualdade”. Esse é justamente o erro que Levi-Strauss comete ao igualar a guerra primitiva ao comércio. Você não pode ser amigo de todos da mesma forma que também não pode ser inimigo de todos. Essa é a complexidade da sociedade primitiva: há inimigos e aliados. Os primeiros necessitam dos últimos, e as duas categorias estão sempre em fluxo:

A comunidade nunca lança uma aventura de guerra sem antes se proteger por meio de atos diplomáticos – festas, convites – depois dos quais alianças supostamente duradouras são formadas, mas que devem ser sempre renovadas, pois a traição é sempre possível e frequentemente real.”

Tais alianças eram criadas e mantidas primeiramente através da troca de mulheres, que eram também acumuladas como espólios de guerra. Esse paradoxo, a troca de mulheres para formar alianças e a captura de mulheres através da guerra, ilustra para Clastres um desdém pela economia de trocas. Porque nós deveríamos trocar para obtermos mulheres quando podemos simplesmente ir pegá-las para nós? “O risco [da guerra] é considerável (ferimentos, morte), mas os benefícios também: eles são totais, as mulheres são de graça”. Incidentalmente, encontramos aqui mais refutações da proposição de Levi Strauss de que a sociedade primitiva é construída em torno da troca. Clastres observou que a própria troca é sempre feita em serviço da guerra. Em outras palavras, a troca apenas ocorre como uma forma de conseguir aliados militares.

A guerra é uma forma de preservar a comunidade. A coesão, permanência e estabilidade da vida primitiva são todas conquistadas por um estado de guerra constante. Isso não significa, é claro, que estamos sempre guerreando, mas estamos sempre em guerra, somos sempre guerreiros, somos sempre a guerra. A permanência da guerra nas sociedades primitivas cria uma imagem e ideia da totalidade da qual tudo depende. Minha identidade é preservada através da guerra. Eu sou diferente por causa da guerra. Eu existo apenas através da guerra. A manutenção dessa particularidade e separação de identidades e comunidades não é um produto da guerra, e sim o seu propósito. A guerra produz “a multiplicação do múltiplo”. Essa é a força que resiste o centrípeto, o movimento em direção ao centro. O derramamento de sangue do guerreiro cria uma estrutura elástica que permite dispersão e coesão. Por eras, implementos de guerra e ferramentas de agricultura permaneceram idênticos.

Como nós podemos ver, o que se aplica a uma crítica do estado vai muito mais além. Quando nós falamos da guerra e do guerreiro que se levanta contra o estado, estamos falando de algo muito mais profundo. A própria sociedade tecnoindustrial depende do banimento do guerreiro, que é subsumido em formas mais amenas a esse mundo e a sua lógica. O burocrata, o contador, o técnico. Como nota Clastres, “a recusa do estado é a recusa da exonomia, da lei exterior, é simplesmente uma recusa a submissão”. Não há nenhuma lei a não ser a nossa lei, a lei da faca, do dente. A medida que a guerra é direcionada para fora em direção ao inimigo, ao outro, ela é também uma política interna que preserva a integridade e a estabilidade interna da comunidade. A guerra facilita a preservação da autonomia em uma sociedade assim como a sua indivisibilidade e totalidade. Nós entendemos que o estado é aquilo que impõe a divisão de uma sociedade. O estado é o aparato da fragmentação, e enquanto a guerra primitiva permanecer, haverá sempre uma força contra o poder que ameaça destruir as conexões que nos unem. Não se deve deixar erodir nenhum grau de liberdade. O que os nômades inventaram foi a arma-homem-animal, a assembleia arco-homem-cavalo.

Então quem é o guerreiro? Quem é o homem que vive em guerra? No contexto primitivo nenhum homem é mais do que a sua capacidade para violência. Há, é claro, o que Clastres chama de “uma hierarquia de prestígio”, à medida que alguns homens são naturalmente mais corajosos que outros, além das habilidades de guerra também variarem. Apesar disso, o status do guerreiro e o seu lugar entre os seus não lhe confere um aumento em seu poder político. Não há subdivisões dentro do grupo, e o comando não traz honra; disciplina e obediência exercem pouca influência aqui. Cada homem luta por uma razão particular, e as ordens do chefe de guerra não são uma grande preocupação. De fato, como Clastres notou, chefes de guerra que tentam ditar ordens são ignorados ou até mesmo massacrados. Não, o guerreiro luta por seus próprios fins pessoais, ele “obedece apenas a lei de seu desejo e vontade”. Nesse sentido, há uma variedade considerável na figura do guerreiro que se apresenta em sociedades primitivas.

Ao mesmo tempo que é correto dizer que o homem primitivo é um guerreiro por definição, nem todos os homens recebem o chamado para esta tarefa da mesma forma. O centro dos homens de guerra é composto por aqueles que se tornaram inflamados pela sua paixão por sangue e pela glória. Esses são os homens que se devotam completamente a violência e a busca pela honra. Eles não existem para nada mais. Todo homem tem potencial para ser guerreiro, mas nem todos cumprem esse destino. Como diz Clastres: “todos os homens vão para a guerra de vez em quando… alguns homens vão para a guerra constantemente”. Quando uma vila é atacada, todos os homens claramente vão agir como guerreiros. Mas há aquela classe especial que deve se envolver em atividades guerreiras mesmo em tempos de paz. Eles não vão para a guerra para responder as necessidades dos outros, mas porque o tambor está sempre batendo dentro de seus peitos.

Momentos de ameaça externa e perigo coletivo podem transformar qualquer comunidade em uma comunidade de guerra, e isso é naturalmente universal. O que é mais particular é o crescimento de sociedades de guerreiros. Apesar disso, existem amplos exemplos de comunidades que institucionalizaram a prática da guerra. Nessas comunidades existe uma dedicação total à guerra, que é o centro de todo o poder político e ritual. Nós sabemos que isso se aplica aos Huron, Algonkin, Iroquouis, Sioux, Blackfoot e Apache. Mas para Clastres, não há exemplo melhor que as tribos do Grande Chaco, uma terra hostil, dura e espinhosa que cobre grande parte do Paraguai, Argentina e Bolivia. Entre os chaquenos a guerra é valorizada acima de tudo, uma lição aprendida de forma dura pelos conquistadores.

As tribos do Chaco veneravam a guerra tão profundamente que os jesuítas do século 18 tiveram que simplesmente desistir de sua missão porque não havia nada que pudessem fazer para diminuir o amor dos chaquenos pelo combate e por derramamento de sangue. Em 1966, quando Clastres viajou entre os Abipone, os Guaicuru e os Chulupi, a memória das antigas batalhas ainda estava fresca entre eles, e a ideia do guerreiro ainda presente na mente das pessoas. A aceitação dentro de uma sociedade de guerreiros é para eles uma forma de nobreza, e a glória e prestígio acumulado por um grupo de guerreiros é refletida na comunidade como um todo. O papel da sociedade nesse caso é desempenhar cerimônias: danças e rituais que encorajam e celebram as conquistas de seus guerreiros para que eles continuem a buscar prestígio.

O machado de batalha de bronze dos Hyksos e a espada de ferro dos Hititas já foram comparadas a bombas atômicas em miniatura.

Entre esses guerreiros, os mais agressivos são os mais valorizados, e esses são geralmente homens jovens. Os Guaicuru estabeleciam cerimonias rituais para a entrada das sociedades guerreiras que era distinta dos ritos de iniciação pelo qual todos os jovens passavam. Apesar disso, entrar nesse grupo seleto não garantia aceitação na niadagaguadi, a irmandade dos guerreiros. Essa aceitação só ocorria através de feitos em batalhas e expedições de guerra. Em outras palavras, a decisão de se tornar um guerreiro significa perseguir esse objetivo com foco, determinação e principalmente paixão singular. O jesuíta do século 18 Sanchez Labrador escreveu sobre os Guaicuru: “eles são completamente indiferentes a tudo, mas cuidam de seus cavalos e de suas armas com grande dedicação”. Fomentar esse cuidado pela violência é o objetivo principal da pedagogia primitiva, e frequentemente observadores europeus comentaram com horror a violência brutal que é infligida muitas vezes sobre crianças pequenas, que devem entender essa violência como um prelúdio para a vida de guerra na qual elas irão ingressar. Labrador e outros missionários foram frustrados a cada passo pelo fato de que o conceito de amar ao próximo não tinha significado nenhum para os chaquenos, e a cristianização nesse contexto era impossível: “Os jovens Abipone são um obstáculo para o progresso da religião. Em seu desejo ardente por espólios e glória militar, eles estão avidamente cortando as cabeças dos espanhóis e destruindo suas ferramentas e seus campos”. O guerreiro, como foi dito acima, insiste na necessidade de guerra a todos os custos, tendo a paz sido estabelecida ou não.

A experiência dos jesuítas no Chaco foi ecoada pelos franceses no Hemisfério Norte. Champlain, ao tentar consolidar alianças e tratados de paz entre os Algonkin e Iroqueses para facilitar o comércio, foi constantemente derrotado. Ele escreve que seus esforços foram frustrados em uma circunstância particular por “nove ou dez jovens desmiolados que decidiram ir guerrear, o que eles fizeram sem que ninguém conseguisse dissuadi-los, devido à pouca obediência que eles dão aos seus chefes”. Aqui nós vemos novamente que o chefe não tem nenhum poder diante do guerreiro. A guerra não pode ser impedida, independentemente do ímpeto político para impedi-la.

Mesmo ocupados em exterminar um continente, os europeus fizeram esforços constantes para interromper guerras locais. Os franceses, por exemplo, compraram tantos prisioneiros Iroqueses quanto eles conseguiram dos Huron para poupá-los da tortura e para poupar as próprias tribos da retaliação inevitável. Um chefe Huron respondeu da seguinte maneira a uma oferta de compra de prisioneiros:

“Eu sou um homem de guerra e não um mercador, eu vim para lutar e não para barganhar; minha glória não é trazer presentes de volta, e sim prisioneiros, e eu não posso aceitar suas machadinhas nem caldeirões; se você quer tanto nossos prisioneiros, venha pegá-los! Eu ainda tenho coragem de encontrar outros. Se o inimigo tirar a minha vida, será falado no país que desde que Ontonio tomou nossos prisioneiros, nós nos lançamos a morte para buscar outros”.

A incapacidade de dissuadir guerreiros da violência não é de forma alguma exclusiva aos europeus. Essa mesma dinâmica pode ser encontrada dentro dessas próprias comunidades. Clastres reconta a história de um ataque dos Chulupi a um acampamento Boliviano nos anos 30 que foi sabotado por um grupo de jovens guerreiros que decidiram que o inimigo deveria ser massacrado até o último homem. Sentindo que essa sede de sangue poderia atrapalhar a missão, os veteranos e os chefes expulsaram os jovens da excursão. “Nós não precisamos de vocês. Há o suficiente de nós”, respondeu um dos jovens guerreiros. Clastres relatou que não havia mais de doze deles.

Genghis Khan e seus seguidores conseguiram durar por um longo tempo integrando-se parcialmente nos impérios conquistados enquanto ao mesmo tempo mantinham um espaço suave nas estepes ao qual os centros imperiais eram subordinados.

Como nós já estabelecemos, a guerra funciona nas comunidades primitivas como uma forma de preservar a autonomia e prevenir o acúmulo de poder político e o surgimento do estado. O papel do guerreiro é guerrear. E o guerreiro é o homem que tem paixão pela guerra. Mas qual é a fonte dessa paixão? Expressada de forma simples, essa paixão do guerreiro pela guerra deriva de sua fome selvagem e desesperada por prestígio, honra e glória. Isso nos ajuda a entender a dimensão existencial do ato de guerrear. O guerreiro só consegue se realizar plenamente se a sociedade lhe confere significado. O prestígio é o conteúdo desse significado. A comunidade confere prestígio ao guerreiro que realiza certos atos de guerra, que como já vimos, aumenta o prestígio e honra da comunidade como um todo. O cálculo do prestígio é decidido pela sociedade, que pode considerar certos atos de guerra imprudentes e não conferir nenhum prestígio a esses atos. Talvez seja desnecessário mencionar que a linhagem e hereditariedade não conferem nenhum prestígio. Em outras palavras, a nobreza não pode ser herdada; a glória só pode ser conquistada pela mão do homem que a procura; ela não é transferível.

Então, através de quais atos de guerra particulares um guerreiro pode conquistar prestígio? No primeiro caso, Clastres identifica a importância de espólios. Como a guerra primitiva geralmente não é travada para conquistar territórios, espólios são primários. Espólios tem um significado simbólico e material. Por um lado, há espólios como armas e metais, que podem ser usados para fazer mais armas. Do outro lado, dentre os chaquenos, cavalos ocupam uma posição peculiar na hierarquia dos espólios. Devido ao vasto número de cavalos no Chaco, eles não têm nenhum valor de uso ou troca além de constituir grande parte dos espólios de guerra. De fato, Clastres relata que certos indivíduos entre os Abipone e Guaicuru possuíam dúzias ou mesmo centenas de cavalos. Possuir cavalos demais era considerado uma drenagem dos recursos da família ou comunidade. Ao invés disso, o roubo de cavalos contribuía para a acumulação de espólios através da pura guerra ou esporte. Isso é claro, não quer dizer que as tribos não guardavam seus cavalos com atenção, nem que o roubo de cavalos não envolvia derramamento de sangue ou morte.

Prisioneiros são o espólio de guerra mais valoroso entre os chaquenos. Sanchez Labrador escreveu dos Guaicuru, “seu desejo por prisioneiros… é inexpressível e frenético”. A experiência de ser um prisioneiro em comunidades primitivas varia tremendamente de tribo para tribo. Em alguns casos, os prisioneiros fazem todo o trabalho, permitindo aos homens, mulheres e crianças todo o tempo de lazer. Em outras comunidades a distinção entre prisioneiro e não-prisioneiro é vaga; prisioneiros vivem e lutam ao lado de seus captores. O alto valor dos prisioneiros entre as tribos do Chaco pode ao menos parcialmente ser atribuído a baixa taxa de crescimento da população. Labrador notou que muitas famílias tinham apenas uma ou mesmo nenhuma criança. Além disso, em muitas comunidades o número de mulheres superava o de homens em uma proporção de seis para um. Naturalmente, nós podemos assumir a alta taxa de mortalidade entre os homens como uma causa, mas a taxa extrema de mulheres para homens poderia mitigar esse fato através da poligamia. Além do mais, temos que levar em conta as epidemias trazidas pelos conquistadores. A hostilidade extrema dos chaquenos em relação a estrangeiros, porém, diminuiu dramaticamente o impacto de micróbios vindos de fora. Os dois fatores parecem explicar o fenômeno apenas parcialmente. Clastres concluiu que as mulheres do Chaco simplesmente não querem ter filhos.

Esse é o elemento cosmicamente trágico da sociedade-para-a-guerra primitiva, o desejo pela guerra traz com ele a recusa de dar luz a crianças; “mulheres jovens concordavam em ser as mulheres dos guerreiros, mas não as mães de suas crianças”. Essa é a razão pela qual a captura de prisioneiros, especialmente crianças e mulheres estrangeiras, que eram considerados importantes. Crianças podiam ser facilmente integradas a sociedade através da Lei da violência, e mulheres estrangeiras tinham menos chances de manter o desgosto das chaquenas pela procriação. É claro que existem mais dimensões socioeconômicas da guerra primitiva além da acumulação de espólios para prestígio. Os Abipone e Guaicuru abandonaram a agricultura porque ela é incompatível com a guerra permanente. Incursões providenciavam ganhos simbólicos, além de um estimulante necessário para o crescimento da população, como vimos, mas elas também são uma boa forma de adquirir bens de consumo. De qualquer forma, porque investir a força de trabalho necessária para a agricultura quando você está lutando por glória? Essa dinâmica é ilustrada pela linguística Guaicuru, que designa o termo “guerreiro” como “aqueles graças a quem nós comemos”. O guerreiro é então o provedor da comunidade. O Apache, por exemplo, que também abandonou a agricultura, só permitia a guerra se fosse determinado que a ação traria espólios suficientes.

Mas há outras formas para o guerreiro obter prestígio além de espólios. De fato, como Clastres e outros já observaram, um guerreiro que retornava para a vila sem o escalpo de um inimigo morto não ganhava nenhuma glória, independente de quantos cavalos, mulheres ou aço ele trouxesse de volta. A prática de escalpamento, comum na América do Sul e do Norte, indica explicitamente a aceitação de um homem em uma sociedade de guerreiros. Clastres aqui chama atenção para uma distinção notável, porém sutil. Um homem que mata um inimigo, mas se recusa a tirar o seu escalpo não pode ser um guerreiro. Para aquele que foi consagrado para a batalha, matar é insuficiente, ele é compelido a tomar o seu troféu. Aqui nós podemos pensar na distinção feita entre aqueles que são dedicados a guerra e aqueles que simplesmente respondem as necessidades da comunidade quando as circunstâncias demandam.

O escalpo, como um troféu de guerra, é um objeto de grande significado. Para começar, Clastres escreve que “há uma hierarquia de escalpos. Cabelos de cabeças espanholas não eram desdenhados, mas não eram nem um pouco estimadas comparadas com os escalpos de outros índios”. Alguém poderia assumir que um escalpo do espanhol, do conquistador, do genocida, seria altamente valorizado, mas é um testamento para o orgulho e autonomia dos chaquenos que eles não valorizavam os espanhóis o suficiente para considerar matar um deles como uma conquista significativa para um guerreiro. Para os Chulupi, por exemplo, o escalpo de um Toba era o prêmio mais valioso, devido a gerações de animosidade compartilhada entre os dois grupos. Depois da morte de um guerreiro a sua família queima todos escalpos acumulados por ele sobre o seu túmulo; sua alma ascenderá para um paraíso guerreiro sobre o caminho formado pela fumaça. Para os Chulupi, não havia nada melhor do que ascender sobre um caminho feito pela fumaça de escalpos Toba.

Nós falamos que escalpar um inimigo era um requisito para entrar em uma sociedade de guerreiros, mas esse é apenas o começo de sua jornada. O guerreiro, como o escravo de Hegel, está sempre em um estado de devir. Da mesma maneira que ele não herda nada dos atos gloriosos de seus pais, com cada escalpo que ele toma ele deve recomeçar novamente. Não importa quantos escalpos um guerreiro tem pendurados nas paredes de sua cabana. Quando ele para de tomar escalpos, a sua glória chega ao fim. A busca e apetite por prestígio são uma compulsão. Clastres, que corretamente coloca o guerreiro em uma dimensão existencial, escreve que “o guerreiro é, em essência, condenado a seguir adiante. Ele nunca tem escalpos suficientes. Sua sede de sangue nunca é saciada. O guerreiro é então, paradoxalmente, uma figura quintessencialmente moderna. Ele está sempre dessatisfeito e inquieto. Ele é neurótico. Ele é formado e condicionado por forças conflitantes, uma alma que tem sede de glória mas que depende de uma sociedade para reconhecer e presenteá-lo essa glória: “para cada incursão completa, o guerreiro e a sociedade pronunciam o mesmo julgamento: O guerreiro diz [Isso é bom, mas eu posso fazer melhor, eu posso aumentar a minha glória]. A sociedade diz [Isso é bom mas você deveria fazer mais, e obter o nosso reconhecimento de um prestígio superior]”. Esse paradoxo é sentido de maneira mais aguda pelo fato das incursões e da glória que elas conferem serem puramente individuais. O guerreiro não representa uma mentalidade de equipe. É cada homem em busca de sua própria glória.

Da mesma maneira que escalpar um inimigo e se juntar as fileiras daqueles que estão vivendo a guerra não é suficiente para um guerreiro, também é insuficiente para ele participar de várias incursões contínuas e retornar sem escalpos. Esse ciclo só pode trazer prestígio até um ponto, pois o guerreiro só pode se arriscar até um ponto nessas incursões. Para conseguir prestígio, um guerreiro deve também se distinguir de todos os outros guerreiros. Ele deve continuamente ir atrás de novas incursões cada vez mais arriscadas e sangrentas. Cada ato de guerra é um desafio para outros guerreiros: você consegue fazer melhor? Isso pode ser feito de várias formas. Um guerreiro ou grupo de guerreiros pode decidir penetrar cada vez mais profundamente no território do inimigo e dificultar a sua própria fuga. Um guerreiro pode guerrear contra um inimigo particularmente conhecido por sua coragem, agressividade ou proeza. Um guerreiro particularmente corajoso pode guerrear a noite, o que é geralmente considerado imprudente devido a ameaça adicional de espíritos hostis. Finalmente, um guerreiro pode ir para a linha de frente da batalha, deliberadamente colocando o seu corpo na mira das flechas e balas do inimigo. O ato que universalmente confere o maior nível de prestígio é aquele do guerreiro solitário que se separa de seus companheiros para atacar o inimigo em sua posição mais forte, em seu próprio acampamento: “sozinho contra todos”. Essa é a única coisa que resta fazer para um guerreiro de grande prestígio.

Notavelmente, o auge desse vigor guerreiro é compartilhado por tribos pelo Hemisfério Ocidental. Champlain escreve sobre a tentativa de dissuadir um guerreiro Algonkin de atacar sozinho um acampamento de Iroqueses, “ele respondeu que viver seria impossível para ele se ele não matasse seus inimigos”. De forma similar, os jesuítas franceses entre os Huron notaram com horror que às vezes um inimigo, totalmente nu e armado apenas de uma machadinha, tinha a coragem de entrar nas cabanas de uma vila a noite sozinho, e após assassinar aqueles que ele encontra dormindo, fugir enquanto cem ou duzentos homens o perseguem por um ou dois dias inteiros”.

As histórias de coragem contadas para Clastres quando ele estava entre os Chulupi ecoam esse tipo de coragem suicida; um guerreiro famoso, após realizar todos os outros feitos gloriosos, não teve outra escolha além de montar seu cavalo e penetrar cada vez mais profundamente no território inimigo. Sozinho, ele atacou um acampamento inimigo após o outro, sobrevivendo dessa maneira por dias até ser finalmente abatido. O culto a coragem é tanto que os Chulupi até veneram a memória de um guerreiro dos Toba, seus inimigos eternos. Esse homem era conhecido por infiltrar acampamentos Chulupi noite após noite e escalpar vários homens antes de desaparecer sem deixar rastros. Eventualmente, ele foi encontrado por um grupo de guerreiros Chulupi e morto sob tortura sem se acovardar em nenhum momento.

É precisamente esse desdém pelo perigo, dor e morte que corresponde a maior glória. Como Clastres nota, os espanhóis sempre ficavam confusos porque quando eles capturavam um guerreiro Tupi-Guarani, ele nunca tentava escapar. Enfrentar a tortura e a morte com coragem traz glória, ao contrário de escapar. De fato, um prisioneiro que escapou é rejeitado pela sua comunidade quando ele retorna: “ele é um prisioneiro. Seu destino tem que ser realizado”. Esse destino é invariavelmente o de tortura e morte, seguido por canibalismo. O destino do guerreiro é continuar a se colocar em situações cada vez mais perigosas, e eventualmente, independente de seus sucessos passados, ele é fadado a morrer sozinho nas mãos de seus inimigos. Ele é um nômade ambulante, sempre viajando a linha entre a vida e a morte: “O guerreiro é, em seu ser, um ser-para-a-morte”. O instinto para a morte pode não superar o instinto por glória e prestígio, mas nós devemos observar que um se torna o outro. O instinto para a morte pode ser um fator mais influente do que gostaríamos de admitir.

Em um dos últimos ensaios que Clastres escreveu antes de sua morte, ele se lembra de um encontro com dois velhos homens Chulupi. Os dois tinham cerca de 65 anos de idade. Os dois haviam participado de incontáveis batalhas, tinham os corpos cobertos de cicatrizes e haviam matado dúzias de homens. Apesar disso, Clastres se surpreendeu ao descobrir que nenhum dos homens havia tomado escalpos ou entrado na Kaanokle, a sociedade dos guerreiros. Quando Clastres perguntou porque eles não queriam entrar nesse grupo de prestígio, os dois responderam que eles simplesmente não queriam morrer. Isso é profundamente ilustrativo da dinâmica do instinto para a morte que descrevemos anteriormente: “insistir na glória ligada ao título do guerreiro significa aceitar o preço ao mais ou menos longo prazo: a morte”. Ser um guerreiro, como já vimos, significa nunca parar de perseguir a glória e enfrentar perigos cada vez maiores. Para muitos homens, é melhor renunciar a perseguição sem fim de prestígio e simplesmente ser esquecido pela comunidade do que ser aprisionado por uma paixão pela matança. Esse é o pesar do guerreiro: renunciar o prestígio, a fama e a glória ou viver todo dia banhado de sangue, se aproximando cada vez mais da morte.

No fim das contas, a significância de Clastres está em se certificar de que nós entendemos quão fundamental é a violência para as sociedades primitivas. Além do mais, é importante também que nós entendamos que a violência primitiva não é uma mancha em uma existência idílica, mancha essa que deve ser varrida para debaixo do tapete para promover uma visão prescritiva para o futuro. Clastres demonstrou que o que é desejável, substantivo, e eminentemente merecedor de emulação na sociedade primitiva se dá precisamente e é constituído por uma violência constante e sempre presente. Nós devemos nos recusar a ignorar a importância da violência para a criação da comunidade. Nós devemos reconhecer, de fato, que apenas a violência entendida apropriadamente é o único meio para alcançar o tipo de sociedade que desejamos.

É o Momento de Beijar a Terra Novamente

Texto extraído e traduzido de Reflexiones Eco-extremistas N°3.

“Você nunca pode recuperar uma visão antiga uma vez que tenha sido suplantada, mas o que podemos fazer é descobrir uma nova visão em harmonia com as memórias antigas, distante, longe, remota experiência que se encontra dentro de nós.”D.H. Lawrence

“Todas as coisas estão cheias de deuses.”Thales

“Uma existência, uma música, um organismo, uma vida, um Deus: -Estrela de fogo e rochas fortes, o fluxo frio do mar, E a alma escura do homem.”Robinson Jeffers

Durante as últimas três décadas o anarco-primitivismo tem sido a forma dominante da crítica anti-civilização. Neste período a crise da sociedade tecno-industrial intensificou-se a níveis antes inimagináveis. Para aqueles de nós que somos inimigos da civilização temos a certeza do problema, mas a solução não está tão clara. Muitos anarco-primitivistas adotaram as táticas de outros anarquistas; destruição da propriedade, sabotagem, tree-sits*, vandalismo e outras formas de ação direta. A ideia subjacente que motiva estas ações é que com o tempo as pessoas “despertem” e reconheçam o caráter opressivo da civilização. Como tal, o anarco-primitivismo se orienta como um movimento essencialmente político. Neste ensaio vou argumentar que a crítica à civilização deve ser libertada de toda política e reformulada solidamente dentro do contexto da religião e da espiritualidade, que o primitivismo deve se separar do anarquismo.

Embora reconhecendo, sem dúvida, o seu impacto sobre o mundo natural, o anarco-primitivismo tende a enfatizar as formas que a civilização é prejudicial para a humanidade: a alienação, a pobreza, a depressão, os fuzilamentos em massa. As sociedades de caçadores-coletores são apresentadas como um modelo ideal para a felicidade humana e a perfeita igualdade [no anarco-primitivismo], enquanto que todas as formas de injustiça social estão ligadas à civilização. A civilização, em outras palavras, é essencialmente apresentada como um problema social. É conceitualizada como uma forma particular de organização social que produziu uma série de circunstâncias indesejáveis. Neste sentido o anarco-primitivismo não é diferente do socialismo ou qualquer outra filosofia social do iluminismo que apresenta uma visão da sociedade sem sofrimento. Sua crítica da civilização é baseada no que é melhor para a humanidade.

Isso é um problema porque na raiz da consciência civilizada existe a ideia de que os seres humanos são a coisa mais importante do universo. Portanto, se os anarco-primitivistas seguem concentrando sua crítica da civilização sobre seus efeitos nocivos à humanidade e continuam considerando a sociedade caçadora-coletora como um paraíso igualitário eles estarão, em última instância, perpetuando a crença de que o que ocorre na humanidade é mais importante do que qualquer outra coisa.

É verdade que, na ausência da civilização muitos seres humanos seriam mais saudáveis e mais felizes do que são agora? Provavelmente sim. O problema com este ponto de vista não é que a humanidade seja valorizada, mas que ela seja valorizada acima de tudo. Remover o anarquismo ou o elemento da justiça política ou social da crítica à civilização não quer dizer que o sofrimento dos seres humanos são é importante. Este sofrimento é simplesmente colocado em um contexto maior, muito maior. O sofrimento de um ser humano não é mais nem menos importante que o sofrimento de uma mosca. É desnecessário dizer que, como seres humanos, naturalmente experimentamos o sofrimento de nossa família e amigos mais intensamente que o sofrimento de uma mosca. Por fim, isso não quer dizer que seja mais significativo, seja como for.

Se aceitarmos que a vida de uma mosca ou de um pedaço de musgo é tão importante como a vida humana, como suspeito que a maioria dos anarco-primitivistas fazem, também devemos aceitar que deixamos para trás o campo da política. Neste contexto, as preocupações da sociedade humana, as lutas específicas de um grupo particular, são irrelevantes. Amo a terra mais do que amo a humanidade. O núcleo desta posição é uma atitude fundamentalmente religiosa que acredito que os primitivistas deveriam adotar.

O animismo é a crença de que todas as coisas naturais –não feitas pelos seres humanos– tem alma: árvores, samambaias, grama, rios, montanhas, pedras, assim como todas as criaturas. Tudo no mundo é sagrado e nem mais nem menos que qualquer outra coisa. Esta compreensão de santidade não depende de nenhuma ideia em particular de um Deus, é simplesmente o reconhecimento da divindade em todas as coisas. E esta divindade não precisa ser fundamentada ou provada. Como os antigos Daoístas entendiam, qualquer tentativa de dizer “o que quer que seja” deve estar condenada ao fracasso. O dao que pode ser chamado não é dao. Nós, como criaturas da civilização, fomos condicionados a aceitar o nada sem definições precisas e a lógica convincente. Este desejo é o desejo do cientista, do engenheiro, do técnico. Da mesma forma, a alma que pode ser nomeada não é alma. Qualquer definição de alma ou da divindade que existe dentro de todas as coisas deve necessariamente ser irremediavelmente limitada pela consciência e a linguagem humana. Embora talvez possamos dizer, como os antigos gregos, romanos, hindus, judeus, chineses, e outros, que o conceito de alma ou de espírito está relacionado com a respiração. E, se a mente está calma e se escuta com atenção podemos perceber o sopro das rochas, os fluxos, as areias do deserto.

Historicamente, o animismo tem sido ligado a lugares específicos, montanhas, rios específicos. Existem tantos animismos diferentes já que existem diferentes tribos e povos. Como tal, qualquer animismo em particular não pode ser universal. O animismo de uma tribo específica dos povos da América Central não pode ser o mesmo que o de uma comunidade particular de escandinavos ou mongóis. Nesse sentido, no entanto, podemos pensar no koan zen**: o dedo pode apontar a localização da lua, mas o dedo não é a lua. O dedo pouco importa; a lua é realmente a coisa. Em outras palavras, os espíritos animistas particulares de uma comunidade em particular são apenas o dedo. Devemos olhar para a lua: a santidade universal da Terra.

Até agora o anarco-primitivismo insistiu em participar do campo dos argumentos intelectuais. Apesar dos críticos da civilização rechaçarem as estruturas sociais e culturais que dominam as nossas vidas, há uma forte tendência a aceitar tacitamente certos modos de pensamento civilizado, ou seja, o secularismo e o empirismo. Em muitas literaturas anarco-primitivistas produzidas por escritores seminais como John Zerzan e Kevin Tucker, existe uma clara demonstração do compromisso com a verdade através da apresentação da evidência empírica válida e lógica persuasiva. Eles fazem isso apelando para a razão. Os argumentos são construídos e implantados. Os dados recolhidos por especialistas são citados cansativamente. Estas são as ferramentas do professor, ferramentas civilizadas, e a história é o cemitério das ideologias que se acreditavam imunes à influência das ferramentas táticas que utilizaram.

Os anarco-primitivistas tentam “expor seus argumentos” para aqueles que não rejeitam a civilização. As pessoas que abraçam a civilização não o fazem já que não tem “os fatos”. Podia-se até mesmo apresentar milhares de fatos que “demonstrem” a felicidade relativa e a felicidade em uma vida do caçador-coletor que nenhuma pessoa sequer estaria disposta a abandonar seu modo de vida atual, ou mesmo conceder que a crítica à civilização tem mérito.

Em última instância, não importa o que os caçadores-coletores fizeram ou não fizeram. Não importa quais sociedades históricas eram autoritárias ou cultivavam milho. A crítica à civilização não deve se basear nestes argumentos. A crítica à civilização deve ser feita com base em crenças nos espíritos da Terra. A civilização não é ruim porque faz grupos humanos objetificarem-se e sofrerem. O sofrimento é uma parte inescapável da vida e não precisa ser lamentável. A civilização é ruim porque é uma guerra contra os deuses.

Em seu fervor para convencer a outros anarco-primitivistas se tornam cada vez mais dogmáticos. Eles fazem birras contra os “esquerdistas”, discutem coisas sobre o veganismo, debatem sobre os méritos relativos das economias de retenção imediata frente as economias de retorno de atraso, travam intermináveis disputas relativas à moralidade da violência, se deleitam e se desesperam alternativamente na cara das novas tecnologias aberrantes. Como tal, a crítica à civilização é absolutamente solipsista. E não se trata simplesmente dos anarco-primitivistas tentarem teorizar intermináveis coisas, mas também de nenhuma tentativa de aplicar a prática. As poucas ações que são vistas, como já falamos anteriormente, não tem sentido e são apenas simbólicas nos termos mais amplos e vagos. É hora de deixar isso para trás. Não importa o que dizem os filósofos, não importa o que dizem os cientistas. Temos que aceitar que nossas crenças são de natureza religiosa e dependem da fé.

Chegou a hora de reafirmar a espiritualidade baseada na natureza de nosso passado coletivo humano. Se o mundo natural não é sagrado, então por que é importante? A única alternativa é dizer que o mundo natural é importante porque dependemos dele para a nossa própria sobrevivência como espécie. Seria dizer, como já discutimos anteriormente, que a humanidade é realmente o que nos importa e nada mais, que o mundo natural é importante para nós apenas na medida em que serve a nossas necessidades. Qualquer argumento para o valor inerente de todas as coisas naturais pode ser feitos apenas a partir de razões espirituais.

É hora de parar de escrever livros pseudo-científicos, ensaios e artigos, de lutar contra policiais, de organizar protestos, de destruir caixas eletrônicos, e de tacar fogo em objetos. Estas são as táticas daqueles que desejam melhorar a sociedade humana para determinados grupos de seres humanos. Estas não são ações que refletem a crença de que a vida natural é sagrada.

A humanidade não mudará seu destino através da ação. Não através das ações dos governos e das empresas, não através das ações dos movimentos de massa, e certamente não através das ações de um punhado de anarquistas insatisfeitos. O destino da humanidade está selado. O mundo é conhecido há 10.000 anos e não durará. É tolice e fútil tentar prever a natureza de um colapso ou de imaginar que mundo continuará. Isso vai ser bom? Vai ser ruim? Não importa. Se produzirá, e a humanidade se verá obrigada a responder a isso. Talvez a sociedade humana tenha futuro de alguma outra forma. Talvez a humanidade seja completamente extinta.

O caminho sempre esteve claro para os que escolheram ver. Devemos fugir da civilização e das coisas da civilização. Há que ir para a floresta e nunca sair. Devemos reunir nossas almas com as almas das árvores, das rochas, das correntes, da sujeira. Devemos meditar sobre nosso lugar no cosmos. Ao fazê-lo, não mudaremos o destino deste mundo, mas seremos, por fim, fiéis à nossa natureza mais uma vez. O mundo dos caçadores-coletores paleolíticos se foi para sempre. Não podemos voltar ao passado. Mas os deuses que uma vez conhecemos ainda estão esperando por nós nos lugares selvagens do mundo. Se formos a eles, nos abraçarão.

Notas:

*Tree-sits: Parte do ativismo ecológico que consiste em sentar e acorrentar-se às árvores para impedir que sejam cortadas.

**Koan Zen: Um Koan é um problema que o professor passa a seus alunos para comprovar seu progresso.

Caçador: Um Resumo de “The Other Slavery”, de Andrés Reséndez

Extraído do blog Malpaís. Traduzido por Anhangá.

Para colocar mais conteúdo neste blog, e também para se concentrar no ponto de vista eco-extremista, ocasionalmente, colocaremos resumos de livros, especialmente de livros que talvez possam ser inacessíveis para a maioria dos eco-extremistas e seus cúmplices hispanofalantes. Começamos com o recente livro do professor mexicano-estadunidense de História pela Universidade da Califórnia Davis Andrés Reséndez, chamado “The Other Slavery: The Uncovered Story of Indian Enslavement in America” (A Outra Escravidão: A História Relevada da Escravidão Indígena na América). Este livro recém publicado tem muito haver com temas discutidos na Revista Regresión e em outros textos, e em alguns assuntos mais conhecidos na América Latina em comparação com terras anglófonas. Por essa razão, não nos concentraremos em resumir o livro completo, já que muito do conteúdo é ensinado em várias faculdades e até mesmo em escolas como história da colônia e do Vice Reino. Por exemplo, quase todo mundo sabe sobre a escravidão dos indígenas no México e Peru, não é necessário abordar esta questão novamente.

Deve-se notar, no entanto, que tem havido bastante “revisionismo” entre os teóricos sobre o progresso da civilização no que hoje é conhecido como “as Américas”. Os escritores estadunidenses Charles Mann no livro “1491” e Jared Diamond em “Guns, Germs, and Steel” (Armas, Germes e Aço), dão a impressão de que a violência do colonizador foi exagerada em algumas fontes históricas. Neste livro, pelo menos, Reséndez refuta este revisionismo. A conquista era tão sangrenta como Bartolomeu de las Casas e outros escreveram.

No entanto, não queremos permanecer no âmbito de fazer os pobres indígenas como “mártires”, que é o que o discurso esquerdista faz com seu culto ao “nobre selvagem”. Queremos aqui concentrar-nos nos trechos do texto que compliquem a questão o suficiente. Em seu capítulo “Powerful Nomads” (Nômades Poderosos), Reséndez descreve o papel da introdução do cavalo nas tribos de caçadores-coletores.

O autor escreve:

“Os exemplos mais dramáticos da reinvenção índia ocorreram no que é hoje o sudoeste americano. Muitos fatores levaram os indígenas daquela região a se tornarem traficantes [de escravos]. A atividade contra a escravidão da coroa espanhola e as proibições legais contra a escravidão dos índios dissuadiram alguns caçadores de escravos no norte do México, deixando espaço para que outros retomassem o papel. Além disso, as rebeliões do século XVII que culminaram na Grande Rebelião do Norte, restringiram a troca de escravos indígenas e abriram mais lugares para a caça de escravos, criando mais oportunidades. Mais importante, a utilização de cavalos e armas de fogo se acelerou naquela época, dando a alguns índios a capacidade de escravizar outros povos. Os novos traficantes, novas vítimas e novas rotas para o transporte de escravos surgiram nos séculos XVII e XVIII. Algumas comunidades nativas experimentaram um processo da “desterritorialização”, como chamou Cecilia Sheridan, deixando suas terras ancestrais, juntando-se com outros grupos, e reinventando-se como bandos móveis capazes de operar em longas distâncias. Ganhavam a vida com o comércio de pilhagem da guerra, incluindo cavalos e cativos.”

No sudoeste do que hoje é conhecido como “Estados Unidos”, sobretudo nas Grandes Planícies (Great Plains) no centro do país, houve uma “revolução do cavalo”. Não era uma questão de introduzir o comportamento bélico nos povos que eram historicamente caçadores-coletores, melhor, os índios itinerantes fizeram tudo o que os povos com cavalos fizeram (mover-se, caçar, participar do comércio, fazer guerra, etc.). Era apenas uma questão de “fazer melhor”.

Algumas tribos se beneficiaram mais do que outras, e essas tribos geralmente escravizaram outras, incluindo outros caçadores-coletores e povos que praticavam a agricultura. Os Comanches foram um exemplo de uma tribo “menor” que se converteu em um grande “império caçador-coletor”, que ganhava suas riquezas de saqueamentos e assaltos. E a atividade mais lucrativa foi o comércio de escravos. Embora a escravização dos índios fosse ilegal no império espanhol, a lei era geralmente ignorada.

Os Comanches, em particular, caçavam escravos para trocá-los por cavalos, rifles e navalhas de metal. Mas também incluíram alguns escravos em sua sociedade. Geralmente nos roubos, os Comanches matavam a todos os machos adultos, mas levavam os meninos e as mulheres que poderiam servir para aumentar a sua quantidade. Como povo poligâmico, um guerreiro poderia ter muitas esposas, até dez ou mais se tivesse muito êxito na guerra. As mulheres não serviam apenas para o prestígio ou gratificação sexual; ter muitas mulheres também era útil porque um guerreiro podia matar muitos bisontes em apenas uma hora, e era o dever da mulher processar a carne dos animais mortos, o qual era um processo muito trabalhoso.

Reséndez descreve a preparação para uma incursão que indicava que um grupo de guerreiros iria desfilar publicamente com os seus cavalos, de modo a irem convidando outros a se unirem. Grandes espetáculos de cavalos e adornos pessoais foram vistos naquela época, a força e a valentia dos guerreiros foram avaliadas para determinar o potencial êxito da incursão. Uma dança de guerra precederia o ataque, que poderia se espalhar longe no México, a certa distância do território Comanche.

Reséndez descreve uma incursão significativa em meados dos anos 1800:

“As testemunhas enfatizaram o sigilo nos ataques dos índios, que em um instante poderiam transformar uma boa noite de sono em uma cena surrealista de caos absoluto com gritos de “Os Bárbaros!”, disparos, cavalos galopando, e flechas voando. Fazendas periféricas, casas isoladas e pastores que exerciam seu comércio em áreas remotas eram presas fáceis. Mas os guerreiros Comanches às vezes se dirigiam também às grandes cidades do México. Em dezembro de 1840 e janeiro de 1841, um grupo de atacantes indígenas passou duas semanas assaltando fazendas nas proximidades de Saltillo, a capital do estado de Coahuila, movendo-se de uma fazenda a outra, como se estivessem desafiando completamente qualquer consequência mexicana. Em uma proeza da “audácia inconcebível” como a imprensa mexicana os qualificou, apareceram bem nas imediações da cidade antes de serem expulsos apressadamente pelas autoridades mexicanas. Da mesma forma, em agosto de 1846, durante um dos ataques mais ousados e descarados de todos, cerca de quinhentos Comanches cortaram uma faixa através de Chihuahua e Durango. George F. Ruxton, um inglês que viajava pelo norte do México naquela época, nos deixou um retrato sombrio: “ranchos abandonados, estradas intransitáveis e povos barricados, vivem com medo de ataques dos índios.” Quando ele chegou a cidade de Durango, em Setembro, se surpreendeu ao saber que a conversa daqueles 18 mil habitantes da cidade não era sobre o curso da batalha Estados Unidos–Guerra Mexicana, mas de uma possível invasão dos Comanches que haviam estado devastando as fazendas no nordeste da cidade do século”.

Os Comanches não eram a única tribo que realizava invasões. Reséndez fala dos Apaches e Utes que também se alimentavam de outros índios e dos não-índios igualmente. As histórias de Mangas Coloradas e Gerônimo são amplamente conhecidas e exigem pouca descrição aqui. Os Apaches se diferenciavam de outras tribos em que, até o século XVII, eram algumas das piores vítimas da escravidão dos espanhóis para trabalhar nas minas de prata do norte do México. Após a chegada do século XIX e da República Mexicana, esforçaram-se para se tornar sedentários e agricultores, mas devido à diminuição da presença militar na fronteira mexicana, começaram rapidamente a fazer das invasões uma forma de vida, como muitos de seus vizinhos. Eles ferozmente se enfrentaram com os militares mexicanos que muitas vezes terminaram em combates corpo a corpo, e como em muitos outros casos, os homens escravos foram mortos ou escravizados pura e simplesmente, enquanto que as mulheres e os meninos muitas vezes dissolvidos na comunidade Apache.

Os cativos nem sempre foram tratados muito “humanamente”, no entanto, esta não é a história de Matilda Lockhart, capturada pelos Comanches e depois, “devolvida à civilização”:

“…tinha hematomas e feridas por todo o seu corpo, e seu nariz havia sido cortado, suas fossas nasais abertas e despojadas de carne, especialmente o nariz, e estavam a gritar e a rir como demônios quando ela chorava.” “Muitas vezes sequestravam estes prisioneiros, especialmente se tivessem meios para o resgate. Os mórmons, ao chegar a Utah na metade do século XIX se encontraram com o chefe Walkara dos Ute, que segundo o líder mórmom Brigham Young, nunca foi sem “uma quantidade de meninos índios escravos”. Young comentou que, “eu vi seus escravos tão emaciados que não eram capazes de ficar de pé. Ele tinha o hábito de amarrá-los fora de seu acampamento à noite, nus e com necessidade de comer, a menos que fosse tão frio que pensasse que iam morrer de frio.” “Os meninos de Walkara foram literalmente descritos por outra testemunha como “esqueletos vivos”, “literalmente mortos de fome por seus captores”.

Walkara foi chamado, o “Falcão das Montanhas”, vendia as crianças indígenas de outras tribos como os Paiute por armas e outros bens da civilização. Ele cavalgava e negociava em lugares distantes como a Califórnia, e era conhecido por roubar gado e cavalos, bem como as caravanas. Os recém chegados mórmons o temiam muito e tentaram atender a Walkara e os Utes, mas eram muitas vezes incapazes de deter a sua barbárie. Na tentativa de evitar a venda de crianças indígenas, os mórmons foram testemunhos de uma outra cena horripilante quando o irmão de Walkara, Arapeen, disse a ele que se recusaram a comprar as crianças indígenas que ele vendia:

“Vários de nós estávamos presentes quando ele pegou uma das crianças pelas canelas e tacou seu cérebro no chão duro, depois atirou seu corpo em nossa direção e nos disse que se tivéssemos corações teríamos salvado a sua vida”.

Os Utes também participaram da destruição da tribo Navajo, juntamente com as forças do governo dos Estados Unidos, embora com um elevado grau de autonomia para que pudessem roubar e escravizar os Navajo.

Claro, existem outras partes deste livro que não iremos discutir aqui, que cobrem ditos aspectos da história como a rebelião do povo e ainda uma seção sobre a Guerra Chichimeca, que foi descrita com detalhes na Revista Regresión. A razão pela qual discutimos esse tema no livro em particular é outro golpe ao mito do “bom selvagem”. Os pessimistas, é claro, dizem que as tribos como os Comanches, Apaches, Utes, etc., não se converteram em guerreiros e cruéis até que domesticaram o cavalo e foram atraídos para tornarem-se isso pela promessa de bens dos europeus (pistolas, facas, cavalos, etc.), isso é verdade até certo ponto, mas talvez também levante a questão de que “sempre foram assim”, e a introdução do cavalo e outras novidades, foram apenas mais um manifesto óbvio. A civilização não é a mancha do pecado original na alma do “bom selvagem”, é o meio para amplificar e realizar algo que já está lá, o que faz com que tudo o consuma e desequilibre.

No entanto, nossa tendência não volta atrás apenas na herança selvagem dessas tribos, pelo contrário. Um selvagem não pode escolher o “momento ideal” para ser um selvagem, onde quer que esteja, e agir em consequência. Para o anarquista verde, talvez Mangas Coloradas e Walkara são “vilões” que caíram na armadilha da civilização, escravizando e vendendo seus prisioneiros. O eco-extremismo renuncia a tais “moralidades de ataque”. As vítimas não são “santos de nossa devoção”, não se contraem novamente pela inevitável crueldade da vida. Essas coisas têm que ser assim, e os golpes devem ser devolvidos a base de golpes.

O que é ainda mais revelador é como isso se reflete na utopia do “futuro primitivo do anarquista verde”. Estou certo de que eles mesmos se darão uma lobotomia a fim de desdomesticar o cavalo, esquecer como usar armas de fogo e metal, e se tornar completamente nômades que andam apenas a pé, porque caso contrário, isso levaria a “hierarquia”, e não podemos chegar a isso. Também se esquecerão dos reatores nucleares, aviões, naves espaciais, etc., etc. Portanto, um bando do “futuro primitivo” nunca poderia cair na venda de crianças esqueléticas em mercados de escravos e açoitar crânios de crianças pequenas quando as pessoas se neguem a comprá-las… Não, eu tenho certeza de que estes “anarquistas verdes” preservarão sua “pureza de coração” em mundo tecno-industrial depois do colapso, ao contrário de pecadores indignos da história, como Gerônimo, Mangas Coloradas, Walkara e o resto dos repreensíveis de salvação na história anarquista…

Os Eco-extremistas são selvagens no aqui e agora, atacam no aqui e agora, usam as ferramentas do presente para lutar contra o que procura escravizá-los e domesticá-los. Isso pode parecer hipócrita, mas pelo menos eles são uma boa companhia. Como qualquer pessoa sensata, eles utilizam as armas à mão para lutar contra o inimigo. Termino esta reflexão com uma passagem de um artigo da Revista Regresión número 3 em relação a este tema:

“Aqui fica respondida a pergunta que foi abordada nesta quarta lição, não podemos nos limitar às antigas ferramentas de guerra apenas porque criticamos este sistema tecnológico, devemos utilizar as armas do mesmo sistema para combatê-lo. Assim como os nativos americanos, os participantes da matança da Pequeno Grande Chifre não se detiveram na utilização destes rifles de repetição, então que nos não nos detenhamos na hora de utilizar a arma moderna que possa causar baixas no inimigo.”

Chicomoztoc, Lua cheia de Julho, 2016

-Arco de Huizache

Os Seris, Os Eco-extremistas e o Nahualismo

Escrito extraído da Revista Regresión número 7.

Os Seris foi um grupo de nativos provenientes do que agora é o estado de Sonora, eram basicamente caçadores-coletores e pescadores. Ao serem nômades por excelência os territórios onde habitavam iam desde o deserto de Encino até o rio São Inácio, municípios como o de Guaymas, passando pelas Ilhas Tubarão, São Estevão, entre outras, ou seja, as ilhas costeiras mais próximas do território “sonorense” onde chegavam remando com embarcações muito primitivas. Os grupos Seris eram divididos em bandos, os quais por sua vez, se dividiam em clãs.

A grande maioria dos Seris eram guerreiros, e com isso ocasionalmente se declaravam em conflito entre cada clã. Geralmente as guerras entre eles eram acompanhadas de uma carregada dose de animismo. Como exemplo temos a história de “O Invencível”, um Xamã do bando III que enviou uma incursão de guerreiros até as subdivisões vizinhas, assassinando a muitas pessoas.

Como qualquer grupo nativo este povo tinha uma relação muito íntima com o seu entorno, suas crenças se baseavam nas correntes do mar, nos ciclos da chuva, no sol e na lua, enalteciam o tubarão, a tartaruga e os animais do deserto. A cosmologia dos Seris era simples e nada complexa, dado o seu entorno hostil e seu modo de vida nômade não tiveram tempo para se fazerem adoradores nem terem deidades complexas. Era dito que os Xamãs dos bandos e subdivisões podiam carregar grandes pedras e dobrá-las apenas com a mente.

Embora cada bando tivesse suas particularidades, apenas alguns poucos ofereceram uma resistência feroz à chegada dos europeus. Estes selvagens nunca se deixaram conquistar nem pela espada nem pela cruz, sempre se tornaram hostis diante do alheio e lutaram até a morte com a intenção de preservar os seus conhecimentos e as suas crenças ancestrais. De fato, hoje em dia, os Seris ou “Comcaac” (como se chamam hoje), são um dos poucos grupos indígenas sem intervenção católica em suas crenças animistas. Nas zonas Seris de agora não há nenhuma igreja católica nem padres, embora haja algumas igrejas protestantes.

Voltando ao assunto sobre a chegada dos espanhóis, lá pelos anos de 1855 quando os europeus pretenderam conquistar territórios e converter à fé católica os hostis Seris, se deram conta de que estes representavam uma antíteses do que eles queriam. Dado que seu território era tremendamente hostil, os Seris em si eram bastante duros, eles não se destinaram a serem subjugados, eles não podiam ser escravizados nem vendidos como mão de obra barata já que fugiam na primeira oportunidade. À parte de que não sabiam cultivar, não tinham riquezas acumuladas como outros povos mesoamericanos, etc. Diante disso os espanhóis junto como os rancheiros mexicanos daquela época decidiram exterminá-los, sem mais. Devido a isso, neste ano começaram as Guerras Encinas, conflito bélico que duraria mais de 12 anos.

Embora coubesse dizer aqui que nem todos os bandos Seris reagiram da mesma forma diante da invasão, como por exemplo, o bando VI, que era mais primitivo, vivia em covas e não usavam arcos nem flechas, apenas eram expertos no uso do arpão, se alimentavam de mariscos, iguanas e maguey. Eram desconfiados e impetuosos, sua zona era a ilha de São Estevão. A este bando não lhe interessava o novo mundo nem os brancos, já que estavam praticamente ilhados em sua pequena ilha, mas por ser um dos grupos Seris foram os primeiros a serem atacados pelos invasores.

É dito que um barco europeu chegou até a Ilha de São Estevão e enganando aos Seris com presentes os fizeram subir, e estes foram aprisionados (embora não todos). Os homens foram assassinados e as mulheres e crianças foram levadas a terra continental como cativos.

Ao mesmo tempo o bando II que era relacionando com a pilhagem e o roubo de gado dos brancos foi reduzido pelos espanhóis, fazendo-os retirar-se em direção aos pântanos inacessíveis da Baía de Kino onde assassinaram a todos, menos a um dos jovens guerreiros que conseguiu chegar a Ilha Tubarão onde avisou aos demais Seris. Foi assim que os bandos I, III e IV se uniram contra os invasores e contra os indígenas aliados dos brancos (chamados entre eles de “pápagos”), fazendo da Ilha Tubarão um verdadeiro campo de batalha. Vários espanhóis morreram nos encontros com estes hostis. As montanhas ingrimes serviam de refúgio para os guerreiros, aqueles que com sua sabedoria ancestral acertaram vários golpes contra os europeus.

Os espanhóis não sabiam como encontrar água potável na ilha (coisa que os Seris sabiam por ser seu território), então, em várias ocasiões os brancos retrocederam desidratados e cansados depois de suas armadilhas, e estes ao não encontrar os nativos nas montanhas (como se houvessem desaparecido), tiveram que empregar vírus estranhos contra os Seris (varíola, sarampo, etc.), fazendo que seu número se reduzisse gradualmente, até a sua destruição, embora não completa.

Voltando ao assunto, em plena Guerra Encima, os Xamãs diziam que os espíritos dos animais acompanhavam aos Seris nas batalhas e que eles ajudavam-nos a seguir adiante. Aqueles guerreiros com uma superioridade espiritual maior que os outros, por sua parte, contavam histórias a seus clãs depois das batalhas travadas, que eles mesmos se convertiam em animais para, deste modo, poder escapar sem que os invasores percebessem. Um exemplo do tipo foi um guerreiro conhecido como “Coiote Iguana”. É contado que em uma ocasião foi capturado e amarrado nos pês e mãos e jogado no mar para que se afogasse, mas ele se converteu em uma iguana e pode escapar. Em outra ocasião que era perseguido pelos espanhóis, os quais tinham o encurralado, ele se converteu em um coiote e pode passar despercebido zombando de seus captores.

Esta tradição animista não é rara dentro da cultura dos Seris. A habilidade de converter-se em um animal em certas circunstâncias passando do plano espiritual ao físico tem acompanhado a várias culturas ao redor do mundo, desde os aborígenes australianos até os yanomamis amazônicos. Hoje em dia isto é conhecido como “nahualismo”. Também não é raro que os eco-extremistas em seus comunicados relatem que se converteram em animais, antes, durante e depois da realização de um atentado, já que esta tradição ancestral pagã igualmente os acompanha.

O que quero expressar com esta informação dentro deste pequeno texto é a geração de um impulso que faça com que os individualistas regressem àquelas práticas pagãs que tanto aterrorizaram e confundiram aos ocidentais daquela época. Nesta guerra contra o progresso humano o plano físico é importante, mas o espiritual é primordial. Aprendamos com os Seris, aprendamos com a sua dura defesa extremista do Selvagem, convertamo-nos em animais e os espíritos de nossos ancestrais nos guiarão pelo caminho que nos tem preparado.

Em nome do Desconhecido!

Com a Natureza Selvagem do nosso lado!

Frente a batalha gritemos HOKA HEY!

Hast Hax

O Rio Que Canta: Uma Última Palavra ao Relutante

Extraído da Revista Ajajema número 4.

Diz-se que o rio Pascagoula, que está dentro do que agora é o estado Norte Americano de Mississippi, canta. O que seriam os estranhos sons feitos pelo rio que muitos dizem que soam como cantos? Alguns creditam a musicalidade do rio a Sereias ou outros seres mitológicos. De qualquer forma, a lenda mais popular data da época anterior a chegada dos europeus, quando o que agora é o Sudeste dos Estados Unidos estava dotado de muitos cacicaços poderosos. De acordo com a lenda,

As tribos Biloxi e Pascagoula viveram por séculos de forma pacífica onde agora é o sul de Mississipi, antes que uma separação entre as tribos resultasse em sua mútua extinção. Altama, cacique dos Pascagoula, se apaixonou por Anola, uma princesa Biloxi que estava noiva do Cacique dos Biloxi, indo contra as tradições das tribos. Altama e Anola queriam estar juntos sem se importar com as consequências. Em resposta, os Biloxi fizeram guerra contra os Pascagoula, matando-os e tomando-os como escravos devido a decisão que Altama havia tomado. Eles decidiram permanecer leais a Altama, e como grupo pensaram que era melhor morrer pelas próprias mãos do que converter-se em escravos, acreditavam que se encontrariam novamente no mundo dos mortos e viveriam em um mundo sem guerra. Altama, Anola, e o povo Pascagoula escolheram afogar-se no rio, e enquanto cantavam sua canção de morte, deram as mãos e caminharam rumo às águas. De acordo com a lenda local, a desaparição do povo Pascagoula ecoa nos míticos sons que vem do rio.

O principal elemento da subjugação que a civilização utiliza é o medo. A domesticação e a escravidão não existiriam sem o medo, sem a firme convicção de que não há nada pior que a morte, que a escravidão e a servidão são melhores alternativas que o final de nossa existência material individual. Deveríamos recordar, especialmente aqueles de nós que viemos de algum dos povos discutidos nestas páginas que nós também somos filhos do medo. Muitas pessoas, como os Pascagoula, tem agora poucos ou nenhum descendente, mas chegaram a conclusão de que era melhor guerrear e/ou morrer que viver como escravos. Somos os filhos da derrota, os nascidos mortos da liberdade. Mas já é demasiado tarde para este tipo de discurso…

Talvez a civilização dure outros dez anos, ou outros dez mil anos. Talvez sejamos hostis a ela agora, mas nos resignemos daqui algumas décadas. Pode ser que sejamos forçados a alimentar a nossos próprios filhos com mentiras e engolir nosso orgulho para suportar o dia. No mínimo, não deveríamos engolir nosso orgulho por completo, nem deveríamos engolir a falsidade da irmandade universal ou o progresso humano. A cada momento nesta apodrecida sociedade deveríamos dar-nos conta de que nos é vendida uma farsa, e alimentar o ódio e o ressentimento de acordo com isso…

Nós os editores não somos capazes nem estamos dispostos a te oferecer sugestões do que você deveria fazer com isso, só que é este ressentimento que te faz manter-se humano, animal e vivo. Mesmo se nenhuma catástrofe acabar com a civilização, a catástrofe de nossa própria domesticação é suficiente para fazer-nos refletir sobre o quanto temos perdido e o que se pode ser feito a respeito. Não há soluções fáceis, e provavelmente nunca houve. Deveríamos nos apegar a esta íntima parte de nós mesmos que a civilização nunca pode tocar, a parte que inspira medo ao híper-civilizado e que se manifesta nas sombras: uma ameaça invisível constantemente em tocaia.

E para aqueles que fazem um pouco mais do que isso, podemos finalizar oferecendo esta dobra pagã eco-extremista:

Que a lua os siga guiando. Que a chuva os refresque.

Que o sol aqueça seus corpos. Que os console o som dos grilos.

Que a Terra manche seus pés. Que as montanhas lhes ofereçam refúgio.

Que a escura noite os esconda. Que suas pegadas sejam apagadas pelo vento.

Para sempre!

Chicomoztoc, 2 de Dezembro.