“Revolução Antitecnológica: Por Que e Como”, de Theodore Kaczynski: Uma Análise Crítica

Análise extraída da primeira edição da Revista Atassa.

A diferença principal entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecno-industrial. Nós atacamos porque o futuro é incerto.” – Reação Selvagem, em Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem.

Introdução

Em setembro de 2016, Kaczynski lançou sua análise mais ambiciosa de sua tão falada “revolução contra o sistema tecnológico” na forma do livro Revolução Antitecnológica: Por Que e Como (RA), um texto com mais de 200 páginas dedicado apenas a várias questões relacionadas a ação revolucionária contra o sistema tecnológico. Leitores familiares com os escritos de Kaczynski saberão que essa noção de uma revolução contra o sistema tecnológico sempre foi uma parte importante do pensamento de Kaczynski. A noção aparece pela primeira vez na forma de um chamado pela destruição completa da civilização industrial no primeiro comunicado do Freedom Club enviado ao San Francisco Examiner em 1985, e continuou a aparecer nos escritos de Kaczynski. Por exemplo, no famoso trecho de A Sociedade Industrial e o Seu Futuro (ASIEOSF) em 1995:

Nós advogamos então por uma revolução contra o sistema industrial. Essa revolução pode ser ou não ser violenta; ela pode ser súbita ou um processo gradual ocorrendo ao longo de algumas décadas.”

Apesar de ser um elemento importante de seu pensamento, uma análise mais profunda das questões envolvidas em tal revolução estão em grande parte ausentes de ASIEOSF, e espalhada por ensaios como “A Revolução Que Está Por Vir” e “Atinja Onde Dói”, para mencionar alguns dos mais pertinentes. Parece que esse livro tenta expandir um elemento essencial, porém sub-analisado do seu pensamento. Como uma breve análise, o livro é dividido em duas partes que correspondem a dois pontos de interesse indicados no subtítulo, tanto o porquê de Kaczynski ver uma revolução contra o sistema tecnoindustrial como a única resposta plausível para “os principais perigos que pairam sobre nós”, quanto sugestões de “estratégia central” para preparar e realizar tal revolução.

Vale notar que apesar de ser uma expansão do tratamento de assuntos relacionados a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, grande parte do conteúdo de RA não pode ser considerado particularmente inovador para qualquer um que está acostumado com os escritos de Kaczynski; não há muito de novo do ponto de vista teórico. Muitos dos elementos centrais apresentados nessa obra podem ser encontrados de forma dispersa em ensaios e cartas em Escravidão Tecnológica por um leitor cuidadoso com capacidade de sintetizar os comentários feitos ao longo dessas peças. Fundamentalmente, a base teórica de Kaczynski permanece a mesma de sempre, enquanto a maior parte do livro é dedicada a oferecer uma extensão dessa base através de uma análise histórica e de argumentos delineados de forma mais rigorosa. A exceção disso é a exploração da teoria do colapso por parte de Kaczynski no segundo capítulo.

Antes de se aprofundar na análise do livro, eu vou abrir o jogo e expor a minha posição ideológica. É importante notar que muitas das minhas críticas ao RA estão ligadas à minha afinidade com eco-extremistas. Das várias críticas que ITS (Individualistas Tendendo ao Selvagem) e Reação Selvagem apresentaram contra Kaczynski até o seu enfoque no presente como o único foco de ação razoável (e o seu ceticismo em relação a especulações futuras), eu valorizo muito as contribuições dos eco-extremistas para o pensamento anticivilização. Vale também notar que grande parte dessas críticas estão disponíveis em outros lugares, então eu não vou dedicar muito espaço as nuances das críticas levantadas pelos eco-extremistas, a não ser onde elas se mostrem pertinentes ao conteúdo do RA. Tendo dito isso, o produto final da obra de Kaczynski é um tratamento sistemático e unidimensional de uma questão que passou a constituir um elemento central de seu pensamento. Sendo assim, RA desempenha um papel importante na obra de Kaczynski, sendo também importante para aqueles que estão interessados nas nuances de seus pensamentos sobre a ação revolucionária contra o sistema tecnológico, apesar da minha desconfiança pessoal do pensamento revolucionário que caracteriza a obra.

1. O Desenvolvimento de uma Sociedade Jamais pode ser Sujeito ao Controle Racional.

Kaczynski abre o primeiro capítulo da obra com uma exploração da tese que sociedades complexas jamais podem ser racionalmente controladas. Essa exploração é uma expansão da sua crítica contra soluções reformistas para os problemas do sistema tecnológico apresentada pela primeira vez em ASIEOSF nas seções intituladas “Alguns Princípios da História” e “A Sociedade Tecnoindustrial não Pode ser Reformada” (Parágrafos 99-113). O foco principal dessas duas secções do ASIEOSF é ilustrar que “Pessoas não escolhem conscientemente e racionalmente a forma de sua sociedade. Sociedades se desenvolvem através de um processo de evolução social que não está sob controle humano racional” (“Escravidão Tecnológica”, p 68). A tese principal do primeiro capítulo de RA é a mesma tese apresentada nos capítulos mencionados de ASIEOSF.

A diferença entre os dois escritos está principalmente nos argumentos fornecidos para apoiar a tese. Enquanto a tese em ASIEOSF é baseada em uma dedução lógica de uma série de premissas precedentes, em RA ela é em grande parte pressuposta, e a maior parte do ensaio é dedicada em fornecer exemplos históricos que demonstrem sua veracidade em eventos reais. Kaczynski deriva uma vasta gama de exemplos da história escrita para ilustrar essa tendência (a esse ponto praticamente um truísmo para quase todos que apresentam alguma perspectiva anticivilização) dos planos para controle racional de sociedades de larga escala raramente ocorrerem como planejado. “De fato, fracasso é a norma” (RA, p.7). Além do mais, Kaczynski oferece uma série de cenários cada vez mais implausíveis para testar a força de sua tese. Ele até mesmo continua com esses cenários em seu primeiro apêndice, “Em Apoio ao Primeiro Capítulo”, que consiste em uma série de experimentos mentais usando mais cenários hipotéticos (novamente, cada um mais absurdo do que o último caso você não esteja ainda convencido). Previsivelmente, Kaczynski lida com cada contraponto demonstrando que mesmo permitindo uma série de cenários cada vez mais implausíveis, o controle racional de sociedades complexas permanece fora da capacidade humana e mesmo não humana (usando, por exemplo, a aplicação de algo como o teorema de incompletude de Godel para demonstrar a impossibilidade de qualquer sistema totalizador para o controle não-humano da trajetória de uma sociedade). A imagem da nossa sociedade complexa que emerge no fim é análoga a de um navio sem ninguém no timão. Mas é pior ainda; esse é um navio tão massivo e complexo que nenhuma pessoa ou coletivo de pessoas a bordo sabe o suficiente sobre esse gigante para ser capaz de dirigi-lo conscientemente, e nem seria capaz de saber. Essa é a imagem de um gigantesco monstro sem precedente histórico diante do qual somos impotentes.

Novamente, nada disso é algo que Kaczynski não tenha dito de uma forma ou outra ao longo de sua obra. Apesar disso, esse livro mais recente – que tem a intenção de elaborar mais sobre a impossibilidade do controle racional da sociedade e ilustrar a veracidade do conceito através de uma série de exemplos históricos – é admirável. De certa forma, não há muito o que falar sobre esse capítulo, pois eu não discordo de maneira significativa com a tese e concordo em grande parte com as suas conclusões. No fim das contas, é difícil encontrar muito do que reclamar em relação a análise apresentada aqui.

II. Porque o Sistema Tecnológico vai Destruir a si Mesmo

Como mencionado na introdução, esse capítulo contém algumas das poucas inovações teóricas no livro. Esse capítulo é dedicado a uma exposição da necessidade de auto-aniquilação por parte do sistema tecnológico. Para dar um contexto teórico: em respeito à perspectiva de colapso do sistema tecnológico, a maneira que Kaczynski tem lidado com o rumo da sociedade tecnológica no passado admite que a sua trajetória não está sujeita ao controle de seres humanos (veja o comentário do primeiro capítulo), mas ele tem sido hesitante em fazer qualquer afirmação forte sobre a necessidade de um colapso.

A maioria das explorações teóricas ocorrem na segunda secção do capítulo. É ali que ele apresenta a estrutura formal da teoria em termos gerais e abstratos. Para apresentar a sua teoria, ele se foca primariamente no que ele chama de “sistemas auto-propagantes”. Esse conceito é central a suas explorações aqui, e ele descreve esses sistemas como qualquer “sistema que tenda a promover a sua própria sobrevivência e propagação”. (RA, p42.) Kaczynski apresenta exemplos de sistemas auto-propagantes que variam de organismos biológicos individuais até grupos de organismos biológicos, que incluem grupos de seres humanos. Sociedades humanas complexas como a sociedade industrial moderna se encaixam nessa categoria de sistemas auto-propagantes. Seguindo essa definição geral, Kaczynski passa o resto da segunda secção apresentando sete proposições sobre características estruturais de sistemas auto-propagantes, e por extensão, sociedades complexas, que representam o conteúdo formal da sua teoria de colapso. Kaczynski também utilizará essas proposições na terceira e quarta secções para mostrar como os eventos que estão ocorrendo na sociedade moderna, assim como o que ele enxerga como o resultado necessário, seguem as dinâmicas estruturais apresentadas em sua teoria. Essencialmente, essas sete proposições constituem o cerne de sua teoria em abstrato, e eu as repetirei aqui para o leitor:

1. Em qualquer ambiente suficientemente abundante, sistemas auto-propagantes surgirão, e a seleção natural levará a evolução de sistemas auto-propagantes que desenvolverão meios cada vez mais sofisticados, sutis e complexos de sobreviver e de se propagar.

2. No curto prazo, a seleção natural favorece sistemas auto-propagantes que buscam vantagem a curto prazo com pouca ou nenhuma consideração pelas consequências de longo prazo.

3. Subsistemas auto-propagantes de um determinado supersistema tendem a se tornar dependentes do supersistema e de condições específicas que prevalecem no supersistema.

4. Questões de transporte e comunicação impõe um limite no tamanho da região geográfica pela qual um sistema auto-propagante consegue estender as suas operações.

5. O limite mais importante e o único limite consistente do tamanho da área geográfica pela qual grupos auto-propagantes humanos podem estender as suas operações é o limite imposto pelos meios disponíveis de transporte e comunicação. Em outras palavras, apesar de nem todos os grupos humanos auto-propagantes tenderem a expandir as suas operações por uma região de tamanho máximo, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes que operam ao longo de regiões que se aproximam o tamanho máximo disponível pelos meios disponíveis de transporte e comunicação.

6. Em tempos modernos, a seleção natural tende a produzir alguns grupos humanos auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo. Além do mais, mesmo que os seres humanos sejam substituídos por máquinas ou outras entidades, a seleção natural ainda tenderá a criar outros sistemas auto-propagantes cuja operação percorre todo o globo.

7. Enquanto os problemas atuais de transporte e comunicação não constituem limitações efetivas no tamanho das regiões geográficas nas quais sistemas auto-propagantes operam, a seleção natural tende a criar um mundo no qual o poder é em grande parte concentrado nas mãos de um número relativamente pequeno de sistemas auto-propagantes globais.

Kaczynski tenta estabelecer argumentos para demonstrar a veracidade de cada proposição apresentada na segunda secção, ou como ele diz, para demonstrar que nós temos evidência suficiente para acreditar que essas proposições são, ao menos, razoavelmente precisas. Como afirmações abstratas sobre tendências de sistemas auto-propagantes, e depois sobre sociedades complexas (ao menos sob a luz de várias presunções), nenhuma das proposições parece claramente problemática. Não vale a pena gastar o tempo ou a sanidade do leitor com um foco míope nos detalhes precisos de cada proposição. Para os objetivos desse ensaio, é suficiente permitir que as proposições se sustentem apesar da possibilidade de alguns equívocos em suas respectivas formulações. Ele também se esforça ao máximo para mostrar que cada proposição pode ser logicamente inferida da anterior, o que é característico de sua forma de trabalhar. Ele pode ter desistido de trabalhar com matemática avançada há muito tempo atrás, mas seu pensamento ainda é em grande parte guiado pela rigidez formal de um matemático. A formulação da segunda secção não é imune a meticulosidade excessiva, como leitores atentos podem ter notado ao ler as sete proposições listadas anteriormente. Apesar de seus melhores esforços, as conexões que ele tenta fazer parecem forçadas às vezes, e as secções parecem pular de ponto em ponto com ligações que dão a impressão de terem sido feitas a força em uma tentativa de dar a teoria alguma forma de certeza lógica. A apresentação é desprovida da sistematicidade frequentemente presente nos escritos de Kaczynski.

Me parece que os problemas com essa secção são parte de um problema maior com o capítulo como um todo. O problema não envolve essa ou aquela proposição ou mesmo conexões questionáveis entre elas; apesar de haver razões para criticar esses fatores também, como notado. Em minha opinião, o problema está nas extensões que Kaczynski tenta fazer em relação as conclusões que ele tenta derivar desse capítulo. As conexões suspeitas entre proposições e a falta de fluidez com a qual a teoria é apresentada parece surgir de um capítulo que propõe mais do que deveria. Kaczynski é honesto em relação ao fato de que nesse capítulo, e mais especificamente na segunda secção, ele está argumentando “que existe de fato um processo” pelo qual sociedades tecnologicamente avançadas se autodestroem, e que ele está apresentando uma teoria sobre como esse processo funcionaria. Infelizmente, eu não acho que esse capítulo cumpre as expectativas, nem que ele apresenta um argumento sólido para acreditar na ruína inevitável da sociedade tecnológica, por mais que Kaczynski não concorde.

Eu notei nas secções introdutórias deste ensaio que muitas das minhas discordâncias em relação ao livro vem da minha afinidade com críticas e perspectivas apresentadas por eco-extremistas sobre muitas dessas questões, e esse é um exemplo. Eu não acho que a tese que Kaczynski está tentando provar pode ser apresentada honestamente sem entrar em um nível de especulação que torna essa tarefa intelectual sem sentido. Levando isso em consideração, o fracasso de qualquer tentativa de prever com precisão o futuro da nossa ou de qualquer sociedade tecnologicamente avançada não me surpreende. A ideia da autodestruição inevitável da civilização tecnoindustrial, e especialmente a ideia de que alguém vai apresentar uma teoria descrevendo-a – isso se aplica a todas as sociedades tecnologicamente avançadas em qualquer tempo ou lugar – é uma ideia que não me parece plausível sem entrar em especulações revolucionárias.

O que é particularmente interessante para mim é que a impossibilidade de desenvolver tal teoria é algo que deveria ser realisticamente implicado por algumas das explorações do primeiro capítulo, que demonstra por exemplo a impossibilidade de controlar sociedades complexas racionalmente. Uma das mais importantes razões (mas certamente não a única) para a impossibilidade desse controle é o limite do conhecimento humano, e mais especificamente da capacidade de entender apropriadamente o tipo de problemas de conhecimento dos quais emergem campos da matemática como a teoria de sistemas dinâmicos e o que é frequentemente chamado coloquialmente de “teoria do caos e da complexidade”.

A quantidade e o tipo de variáveis em jogo em um sistema como a nossa sociedade tecnológica moderna significa que nós estamos lidando com um sistema que se comporta de acordo com as descrições apresentadas pela teoria de sistemas dinâmicos (pense em algo como sistemas climáticos e a dificuldade de prever o clima a longo prazo). Em tais sistemas, previsões a longo prazo se tornam impossíveis devido à complexidade e as tendências comportamentais do sistema envolvido. Nesse caso, essa impossibilidade se aplica tanto a análises reformistas/progressivas quanto ao tipo de conclusões que Kaczynski tenta apresentar aqui no segundo capítulo (e nós veremos que as repercussões lógicas do primeiro capítulo tem consequências para o resto do livro e para o planejamento de revolucionário de poltrona apresentado Kaczynski mais à frente no livro). A complexidade do sistema com que estamos lidando é tanto que esse tipo de teorização se torna praticamente impossível sem adentrar em meras especulações. Levando isso em consideração, nós nos encontramos em um impasse devido a impossibilidade de dizer qualquer coisa quanto as perspectivas de um colapso. Mas como dito antes, há um “primitivismo sem catástrofe”, e os eco-extremistas nos mostraram como.

No fim das contas, Kaczynski pegou o dinamismo, complexidade e poder da sociedade moderna e criou uma interpretação que os entende como as sementes de sua própria destruição, o que convenientemente se encaixa a sua práxis revolucionária. Mas a sua conclusão não é a única possível. Ela envolve uma série de saltos teóricos para terrenos dos quais não podemos falar com boa consciência intelectual. Apesar de toda essa teorização, podemos igualmente concluir que todo esse dinamismo da sociedade moderna que Kaczynski vê como a sua ruína pode ser justamente a causa de sua autopreservação. Essa é, por exemplo, a forma de pensamento que caracteriza os ecomodernistas. Ao tentar responder questões como essa, nós devemos ser honestos com nós mesmos e admitir que nós simplesmente não temos as respostas. No final nós nos deparamos com o fato de que o futuro é incerto, e nos resta apenas o presente. A catástrofe pode ou não chegar, mas se ela chegar ela pode terminar aperfeiçoando a civilização ao invés de se tornar o messias dos teóricos anticivilização. Mas mesmo que isso seja verdade, os eco-extremistas mostraram que isso não é um motivo para ficar quieto. É melhor ter um realismo inabalável e a determinação de um guerreiro do que os confortos milenários de sonhos revolucionários. Eu termino essa secção com as palavras pertinentes de Reação Selvagem:

Pessoalmente, nós não sabemos por quanto tempo as estruturas que mantém a civilização em seu caminho decadente vão durar. Nós podemos ler muito sobre as várias teorias existentes, mas no fim das contas nós terminaremos esperando pelo profético ano em que talvez tudo acabará. De qualquer forma, tudo que os estudiosos podem oferecer são teorias. O aqui e agora denota tudo que é ruim…Como individualistas nós decidimos deixar de esperar por uma crise e tomar as nossas vidas em nossas próprias mãos. Por que? Porque nós já estamos vivendo. Nós não queremos esperar porque a Natureza nos encoraja a retrucar os golpes que ela tem recebido agora.” – Politicamente Incorreto: Uma Entrevista com Reação Selvagem

III. Como Transformar uma Sociedade: Erros a Evitar

Com a conclusão do primeiro e segundo capítulo, Kaczynski muda o foco de suas explicações sobre as razões pelas quais ele vê uma revolução antitecnologia como a resposta necessária para o sistema tecnológico para tentar explicar como alguém poderia trabalhar para trazer tal revolução. Essas considerações permeiam este capítulo, assim como o quarto capítulo. Mais especificamente, e aqui o título do capítulo é enganoso, o terceiro capítulo é dedicado em extrair uma série de regras gerais e abstratas que Kaczynski vê como uma parte integral do sucesso de qualquer movimento revolucionário, antitecnologia ou não. Ao apresentar essas regras, Kaczynski começa, como de costume, apresentando uma série de postulados dos quais ele procura derivar essas regras para a ação revolucionária. A primeira secção do terceiro capítulo apresenta quatro postulados, repetidos aqui para o leitor:

1. Você não pode mudar uma sociedade lutando por objetivos vagos e abstratos. Você precisa de um objetivo claro e concreto. Como disse um ativista experiente: “Objetivos vagos e generalizados raramente são atingidos. O segredo é conceber um objetivo específico que vai inevitavelmente impelir a sua comunidade na direção que você quer ir”.

2. Pregar apenas – a mera difusão de ideias – não é capaz de provocar mudanças importantes e duradouras no comportamento de seres humanos, a não ser em uma pequena minoria.

3. Todos os movimentos radicais tendem a atrair pessoas que são sinceras, mas cujos objetivos são apenas ligados aos objetivos do movimento até um certo ponto. O resultado é que os objetivos iniciais do movimento podem ser distorcidos ou completamente alterados.

4. Todo movimento radical que adquire grande poder se torna corrupto quando seus líderes originais (aqueles que entraram no movimento quando ele era relativamente fraco) estão mortos ou politicamente inativos. Ao dizer que um movimento se tornou corrupto, isso significa que os seus membros, e especialmente os seus líderes, buscam primariamente ganhos pessoais (como dinheiro, segurança, status social, posições poderosas ou uma carreira) ao invés de se dedicarem sinceramente aos ideais de um movimento.

A partir desses postulados ele deriva cinco regras:

1. Para mudar uma sociedade de uma forma especifica, um movimento deve escolher um único objetivo simples e claro que irá levar uma mudança desejada se perseguido com sucesso.

2. Se um movimento busca transformar uma sociedade, o objetivo escolhido pelo movimento tem que ser um objetivo que tenha consequências irreversíveis uma vez que ele seja cumprido. Isso significa que uma vez que a sociedade seja transformada através desse objetivo, a mudança permanecerá sem a necessidade de nenhum esforço por parte do movimento ou de qualquer outra pessoa ou grupo.

3. Uma vez que o objetivo tenha sido escolhido, é preciso convencer uma minoria de pessoas a se dedicar ao seu cumprimento através de métodos mais poderosos do que a mera pregação de ideias. Em outras palavras, essa minoria deve se organizar para tomar ações práticas.

4. Para se manter fiel ao seu objetivo, um movimento radical deve encontrar uma forma de expulsar de suas fileiras qualquer pessoa que não seja compatível com o movimento, mas que tenha intenções de participar dele.

5. A partir do ponto que um movimento tenha se tornado poderoso o suficiente para cumprir o seu objetivo, ele deve cumpri-lo o mais rápido possível, e em qualquer caso, antes que os revolucionários originais (aqueles que se juntaram ao movimento quando ele era relativamente fraco) morram ou se tornem politicamente inativos.

Depois da apresentação dos postulados e da derivação das regras, Kaczynski dedica o resto do capítulo examinando a falsidade ou veracidade das regras. Para fazer isso, ele se apoia em registros históricos, citando vários casos para demonstrar que a veracidade de qualquer regra determinada pode ser verificada em eventos históricos. Para demonstrar a importância da aderência a essas regras, o autor cita vários exemplos onde o não-seguimento dessas regras resultou em problemas ou catástrofe para movimentos envolvidos. Apesar disso, o cerne teórico dessa parte está na própria lista de regra para movimentos revolucionários. Como mencionado na introdução, grande parte da base teórica do livro reflete o que já foi dito em sua obra e expande sobre essa base. Isso é verdadeiro para o terceiro capítulo, e eu acredito que leitores familiares com o trabalho de Kaczynski vão reconhecer os temas apresentados aqui de escritos como ASIEOSF, “O Melhor Truque do Sistema”, “A Revolução que Está por vir” e “Atinja Onde Dói”, que tem todos secções dedicadas a questões estratégicas para ação revolucionária contra a sociedade tecnológica.

Eu devo admitir que à primeira vista esse capítulo é fácil de aceitar se você se deixar levar de maneira não-crítica pelo fluxo do pensamento de Kaczynski. Muitos de seus postulados parecem ao menos instintivamente plausíveis tendo em vista a nossa experiência cotidiana ou um conhecimento geral da história, e as regras derivadas desses postulados parecem ser coerentes, além de uma extensão natural desses postulados. Seu recurso ao registro histórico para embasar seus postulados e regras é caracteristicamente metódico, de forma comparável a análise detalhada do primeiro capítulo. O resultado é um capítulo que poderá convencer muitos. E de fato, muitos chegaram a conclusões similares seguindo essa linha de raciocínio. Basta ler os escritos do Último Reducto (UR) ou dos Indomitistas para encontrar exemplos de grupos e indivíduos que seguiram grande parte do pensamento de Kaczynski ao pé da letra. É fácil se deixar levar pelas suas teorias de revolucionário de poltrona e esquecer do fato que a grande maioria do conteúdo dessas teorias é puramente especulativo, pensado de forma teórica dentro de uma cela de prisão no Colorado. Essa situação é análoga a maneira que alguns físicos falam sobre ficarem tão encantados com a elegância de teorias matemáticas que eles terminam acreditando que essa elegância tem que ser a expressão de alguma verdade. Apesar disso, a realidade nunca teve nenhuma obrigação de se conformar com o que nós desejamos, e isso é verdade para as teorias de Kaczynski tanto quanto para os físicos perseguindo o tênue rastro da teoria das cordas.

Eu não estou apenas sendo exigente. Há muitas críticas legítimas a serem feitas sobre o conteúdo desse capítulo (se nós decidirmos entreter esse tipo de teorização de poltrona). Para elaborar um pouco, há óbvias contradições entre o planejamento revolucionário apresentado nesse capítulo e as conclusões apresentadas no primeiro capítulo, que praticamente proíbem esse tipo de planejamento. Se você se recorda, nós notamos que as observações lógicas do primeiro capítulo se aplicam não apenas a reformistas/progressistas tentando direcionar a sociedade para os rumos que desejam, mas também a revolucionários que visam perturbá-la com ações revolucionárias. Esse observação é verdadeira devido a impossibilidade de fazer previsões a longo prazo, justamente o tipo de previsões necessárias para que um movimento revolucionário trace um plano e aja de acordo com ele. Certamente, é possível tentar tornar as regras suficientemente gerais para que elas possam ser aplicadas a diversas situações, mas a esse ponto uma regra tão abstrata tem pouca relação com as particularidades concretas de eventos reais. Para ser justo, Kaczynski admite no terceiro capítulo que essas regras não devem ser interpretadas como “regras rígidas” (Ra, p.119) devido as dificuldades já discutidas em prever situações reais comas quais um movimento revolucionário teria que lidar, mas nós já explicamos porque esse reconhecimento não muda muita coisa. Essa contradição entre capítulos não é a única crítica que eu tenho a fazer desse capítulo. A tentativa de Kaczynski de derivar axiomas não-históricos de exemplos históricos, por exemplo, tornam suas regras e postulados ao menos duvidosos,pelo menos aos olhos de um approach histórico. Esse mesmo problema ocorre no quarto capítulo.

Alguns talvez diriam que essa análise do trabalho de Kaczynski é excessivamente pessimista, derrotista, etc. Outros diriam que ela é rápida demais em jogar fora o trabalho de Kaczynski, mesmo que nós tenhamos levantado várias objeções legítimas. Alguns como o UR acusaram o ITS e o Reação Selvagem dessas mesmas coisas quando eles expressaram uma dose de ceticismo saudável em relação a esse tipo de teorização revolucionária. Essas são as mesmas pessoas que demonstram uma esperança ingênua em frente a essas críticas, refletindo a ingenuidade revolucionária de Kaczynski ao invés de levantar o véu de suas próprias ilusões esperançosas e aceitar o mundo como ele é. No fim das contas, como o Reação Selvagem disse em sua resposta ao UR, grande parte da base para tal revolução contra o sistema tecnológico permanece “ao vento”:

Concluindo esse ponto, a base estratégica para a “grande revolução” é suposição, “talvez”, “esperamos que sim”, “provavelmente”, “no melhor dos casos”, “depende”, em outras palavras, nada concreto, tudo ao vento. Isso tudo nos lembra do que um comediante mexicano popular disse uma vez em seu programa: “talvez sim, talvez não, mas provavelmente quem sabe.” – Reação Selvagem em Algumas Palavras Sobre o Presente e NÃO o Futuro.

IV. Guia Estratégico Para Um Movimento Revolucionário

Enquanto o terceiro capítulo lidou com questões estratégicas de uma revolução antitecnologia em termos mais abstratos, tentando destilar as regras mais críticas para um movimento revolucionário, esse capítulo apresenta um olhar mais abrangente e marginalmente mais realista do programa revolucionário de Kaczynski. Ele cobre diversas coisas nesse capítulo, tratando de muitas questões relacionadas aos caminhos que ele acredita que um movimento revolucionário deve ou não deve tomar. Para aqueles que são familiares com a história das revoluções comunistas, grande parte do programa que ele oferece aqui é derivado das reflexões de figuras chave do pensamento marxista revolucionário. Lenin, Trotsky, Mao e Castro são grandes influências por exemplo. Apesar disso, grande parte do pensamento dessas figuras foi adaptado ao neo-ludismo de Kaczynski. Essa dependência na revolução russa e em outras revoluções comunistas não é algo novo ou surpreendente. Os revolucionários russos e franceses tem sido a tempos uma inspiração para os pensamentos de Kaczynski sobre a ação revolucionária, e a dimensão das revoluções comunistas seguindo a ascensão dos bolcheviques em 1917 fazem da revolução russa e das outras revoluções relacionadas uma fonte óbvia de interesse e inspiração para aqueles com predileções revolucionárias.

Em relação a uma análise crítica desse capítulo, há várias críticas a serem feitas que eu irei oferecer aqui. A primeira e mais óbvia crítica se relaciona primariamente ao tipo de teorização revolucionária que Kaczynski está fazendo aqui e ao grau em que essa teorização ocorre no campo da especulação pura. Há vários momentos no terceiro capítulo que seguem a mesma predileção por planejamento revolucionário oferecido no terceiro capítulo, que as vezes se parecem com tentativas de formalizar sua estratégia. Esse tratamento obviamente reflete aquele do terceiro capítulo, e consequentemente está sujeito as mesmas críticas do pensamento revolucionário apresentadas anteriormente nesse ensaio. Além domais, outra crítica lida com os paralelos que Kaczynski tenta derivar recorrendo constantemente a revoluções comunistas, tanto no nível das ideias que ele tira de seus respectivos teóricos quanto ao seu uso dessas revoluções para justificar a plausibilidade do seu modelo particular de revolução antitecnologia. Eu não sou o primeiro a apontar esses problemas. Em vários comunicados, tanto o ITS quanto o Reação Selvagem criticaram detalhadamente o recurso de Kaczynski às revoluções da Rússia e da França (as críticas mais detalhadas estão na primeira fase dos comunicados do ITS e nas diversas publicações de Reação Selvagem). Essas críticas demonstram as diversas formas em que o papo de Kaczynski sobre uma revolução global ocupa o domínio da fantasia. Nem a revolução russa, nem a francesa, e nenhuma outra revolução fora a industrial conseguiu estender seu alcance pelo planeta inteiro, como eles notaram. As guerras históricas não são comparações análogas.

Também há uma crítica metodológica a que eu me referi brevemente na última secção; isso é, Kaczynski tem uma tendência de olhar para o passado sem considerar o contexto histórico dos eventos que ele está analisando. No terceiro capítulo,por exemplo, ele usa exemplos históricos continuamente para mostrar que vários de seus postulados e regras podem ser derivados da história enquanto ele ignora completamente uma análise do contexto histórico no qual esses eventos ocorreram, além de diferenças entre esses contextos e o nosso atual contexto contemporâneo. A nossa sociedade tecnológica moderna não é a Rússia de Lenin e Trotsky, a China de Mao, a Cuba de Castro, etc. Há vastas diferenças entre a fábrica social, ideológica e material da nossa sociedade contemporânea e a dessas épocas históricas, o que torna qualquer correlação tênue, a não ser da forma mais geral. Como notado na última secção, ele mostra momentos de honestidade onde ele admite que o recurso a história nem sempre fornecerá lições que podem ser facilmente adaptadas de um período histórico passado para o presente. Mas como discutimos aqui, essa honestidade não é exatamente útil. Para recapitular, se as lições derivadas são gerais o suficiente para serem aplicadas a várias situações, elas provavelmente são praticamente inúteis em qualquer situação concreta. Essas abstrações de uma regra geral pouco nos ajudam ao nos depararmos com a complexidade de qualquer problema real.

Os pontos mencionados são certamente problemas reais com as teorias de Kaczynski no quarto capítulo, mas eles não são o maior problema que eu tive com o capítulo. O que eu achei o elemento mais incomodo desse capítulo é o uso constante que Kaczynski faz de uma “crise futura” especulativa como um elemento central de sua práxis revolucionária. O papel messiânico de uma catástrofe para sua revolução antitecnologia se torna cada vez mais óbvio ao longo desse capítulo,chegando ao ponto de se tornar cada vez mais questionável se o programa revolucionário de Kaczynski seria capaz de encarar algo como um “Ataque sem Catástrofe”, para fazer um paralelo ao “Primitivismo sem Catástrofe” de Abe Cabrera. Como o Reação Selvagem expressou anteriormente, enquanto grande parte da reação significativa ao sistema continuar dependendo de uma crise especulativa, “é tudo ao vento”.Minhas rejeições aqui e ali vão de encontro com as críticas eco-extremistas,nesse caso, uma particularmente central: a rejeição dos eco-extremistas de uma revolução como uma forma válida de reação contra o sistema industrial, contra o leviatã da civilização e contra a própria domesticação. Desde os primeiros comunicados do ITS em 2011, eles persistiram com seu foco obstinado no presente como o único ponto sensato para agir e atacar. No primeiro comunicado do ITS seguindo a dissolução voluntária do Reação Selvagem, eles falam o seguinte sobre esse assunto: “Nós não desejamos, não procuramos, não achamos necessário e nem nos interessamos em lutar por uma revolução. Nós desprezamos o termo e acreditamos que esse é um objetivo não existente. Nós atacamos no presente porque ele é tudo que existe”. Ao longo desse ensaio, nós expressamos críticas ao pensamento revolucionário de Kaczynski; muitas dessas análises permanecem relevantes aqui. Nós falamos da impossibilidade em falar honestamente sobre as perspectivas de catástrofes,falamos sobre os problemas com o planejamento revolucionário, etc. Basta dizer que levando em conta essas análises, eu não vejo nenhuma razão para fazer concessões aqui.

Kaczynski e companhia podem sentar e esperar pelo messias do colapso antes de atacar em nome da Natureza Selvagem, mas a marcha da civilização continua a dobrar tudo que é selvagem e natural de acordo com seus desejos e destruir tudo que se recusa a se submeter. O que nos confronta é um presente que demanda que nós ajamos agora. Para encerrar, eu deixo que o ITS expresse em suas próprias palavras esse ataque sem catástrofe:

A natureza selvagem não pode mais esperar. A civilização se expande indiscriminadamente as custas de tudo que é natural. Nós não ficaremos parados de bobeira observando passivamente enquanto o homem moderno rasga a terra em busca de minerais, enterrando-a sob toneladas de concreto ou perfurando montanhas inteiras para construir túneis. Nós estamos em uma guerra contra a civilização e o progresso, e também contra aqueles que a melhoram ou a apoiam com a sua passividade. Qualquer um!” – Individualidades Tendendo ao Selvagem (Its) em seu Sétimo Comunicado

Conclusão

O que falta falar sobre o último livro de Kaczynski então? Eu notei na introdução que dentro do contexto da obra de Kaczynski esse livro ocupa um papel importante como um tratado obstinado e sistemático de seus pensamentos a respeito da ação revolucionária contra o sistema tecnológico. De um ponto de vista puramente acadêmico sobre o autor eu mantenho essa opinião. Eu também notei brevemente a raiz das minhas objeções sob uma perspectiva eco-extremista, e através das análises presentes eu tentei delinear o conteúdo dessas objeções. E é a partir dessa perspectiva que eu acho grande parte do livro simplesmente inaceitável. É dessa perspectiva que eu afirmo a rejeição eco-extremista de ilusões revolucionárias. Eu afirmo o foco dos eco-extremistas no presente como o único foco de ataque. Eu afirmo a honestidade obstinada dos eco-extremistas em face do horrível presente. Eu afirmo a determinação guerreira dos eco-extremistas em lutar mesmo sabendo que essa pode ser uma guerra suicida, além de outros pontos de uma perspectiva eco-extremista. Essas são posições simplesmente irreconciliáveis com a de Kaczynski. Que assim seja. Haverão aqueles sem ouvidos para ouvir. Haverão aqueles que denunciarão essas rejeições como niilistas, pessimistas, derrotistas, etc. Haverão aqueles que trocarão a honestidade pelos confortos de uma ingenuidade revolucionária. Que assim seja. Para eles, tudo que eu tenho a dizer é “Boa Sorte”. Mas para mim e para outros com quem o chamado ressoa, o que Kaczynski tem a oferecer é algo com o que eu não posso concordar. Eu encerro essa conclusão e esse ensaio com uma expressão do espírito dos eco-extremistas do editorial da Regresión #4:

A realidade às vezes nos apresenta um cenário extremamente derrotista e pessimista. Apesar disso, aceitar a realidade é crucial para removermos a venda e aceitarmos as coisas como elas são, mesmo que isso seja difícil. Essa venda, é claro, é a utopia. Muitos criticaram Individualistas Tendendo ao Selvagem, o Reação Selvagem e outros grupos por rejeitar a ideia de um “amanhã melhor”. Eles criticam esses grupos por não esperar um resultado positivo da luta nessa guerra, ou por rejeitar a esperança. Mas as pessoas sempre ouvirão apenas o que eles querem, e não a realidade. O individualista eco-extremista é pessimista e realista ao mesmo tempo. Ele não ouve o falatório do otimista pueril; para ele, o mundo é cheio de duras realidades, e ele deve confrontar essas realidades com força, se defendendo delas com dentes e garras” – Reação Selvagem

Bélico: Resumo da Revista Black and Green Review No. 3

Extraído de “Cuadernos Sin Número”.

“Black and Green Review” é uma revista estadunidense, sendo o projeto mais recente de John Zerzan e Kevin Tucker. O Sr. Zerzan não requer introdução nos círculos do pensamento “anti-civilização” já que depois de Don Ted (Kaczynski), ele é o teórico mais conhecido no mundo destes assuntos. Kevin Tucker é menos conhecido, mas é o escritor que trabalhou com Zerzan em publicações como “Green Anarchy” na primeira década deste milênio. Tinha ele também o seu projeto chamado “Species Traitor” (Traidores da Espécie), que era uma revista no estilo da atual “Black and Green Review”, só que mais livro do que revista e era composta de vários artigos de diferentes autores. Como revista é fisicamente bem feita, com fotos e várias seções com artigos longos e curtos, e neste caso está composta por mais de duzentas páginas.

“Black and Green Review” sai duas vezes por ano nos Estados Unidos. Não iremos explicar como conseguimos uma cópia aqui, do outro lado da fronteira, mas nós a temos e lemos ela. Muito menos iremos resumir a revista (ou melhor, o livro) inteiro, resumiremos os artigos mais importantes e daremos o nosso ponto de vista dentro do eco-extremismo particularmente desde a Antiga Mesoamérica Setentrional. Embora tenhamos nossas críticas bastante agudas contra esta revista, agradecemos a oportunidade de discutir seu conteúdo.

Em primeiro lugar, nosso artigo favorito era um “dos menores” e falava sobre o mosquito. Traduzimos aqui uma parte para compartilhar com os leitores lusófonos o conteúdo bastante informativo:

“Uma das falhas que padece a humanidade é que não vemos nenhuma espécie como benéfica se não pudermos explorá-la. Isto é especialmente verdadeiro para uma das espécies que nos causa uma grande dor. A ecologista evolucionista Dina Fonseca da Universidade de Rutgers, aponta isso perfeitamente ao comparar a situação com os Maruim (mosquitos médios) da família Ceratopogonidae, também conhecida por muitos como Moscas de Areia. “As pessoas que são picadas por Moscas de Areia ou infectadas com vírus, protozoários e filarias adorariam ser picadas para que esses insetos desaparecessem depois de estudar as suas próprias picadas.” disse ela. Mas, como alguns ceratopogonídeos são polinizadores de cultivos tropicais de cacau, “isso se traduziria em um mundo sem chocolate”. Para finalizar isso, quero mencionar um ponto muito óbvio, nós criamos este monstro. O mosquito transmissor da doença é nossa criatura e nosso Frankenstein. A instabilidade climática causada pelo humano gera desequilíbrios em todo o mundo. As populações de insetos aumentam quando aumenta a temperatura. O desmatamento e a erradicação das espécies e dos preadores levam a mudanças ecológicas, juntamente com a liberação de vírus latentes. A imunidade coletiva sofre do “progresso” humano. Ficamos doentes com tudo. Os mosquitos são vetores da doença, não a causa. Os mosquitos são apenas um dos cinco principais modos de transmissões de doenças amplificadas pela globalização. Não reconhecemos a maneira imprudente em que nos tornamos, cegos pelo ego e atuando como deuses nos esquecemos que para cada causa há um efeito.”

A explicação sobre a relação simbiótica entre o mosquito e seu ambiente é um ponto importante, e mostra que, de tempos em tempos, o anarco-primitivismo gringo pode pensar além de seu antropocentrismo. Talvez um dia possamos traduzir este artigo inteiro e o reproduziremos em outro lugar. Também imaginamos que as entrevistas que são publicadas na revista mencionada, com a advogada de ativistas eco-radicais e outra com um ex-prisioneiro são muito úteis para os eco-radicais daquele lado da fronteira. O compa “Halputta Hadjo” já apresentou uma crítica eco-extremista da entrevista com os eco-radicais de Zerzan no Canadá em seu artigo sobre os Calusa, e não temos mais nada a acrescentar aqui.

Indo aos “principais artigos” da revista, há alguns que merecem um comentário mais extenso. Comecemos com o artigo de “Four-Legged Human” (Quadrúpede Humano), intitulado “The Wind Roars Ferociously: Feral Foundations and the Necessity of Wild Resistance.” (O Vento Ruge Ferozmente: as fundações ferais e a necessidade da resistência selvagem). A cena deste artigo são os territórios inóspitos do estado norte do Alaska nos Estados Unidos. O texto tenta desenvolver o tema da domesticação e a dependência que ela cria nos humanos civilizados, especialmente, envolvendo a domesticação no fracasso universal da esquerda no mundo moderno. Ele também tenta apresentar a resistência como um processo de desdomesticação e fuga da civilização para lugares isolados. Neste sentido, estes anarco-primitivistas desejam imitar aos “Povos da Flecha” que ainda existem nas terras amazônicas. Ele escreve:

“Estima-se que, atualmente, nos últimos vestígios primários da Amazônia brasileira existam até 43 tribos isoladas. Índios Bravos ou Povos da Flecha. Muitas vezes caracterizados como ‘não contatados’, a realidade mais provável é que estes bandos amazônicos, conscientemente optaram por viver em isolamento e evitar a interação, precisamente devido a um profundo conhecimento entre gerações sobre as consequências desastrosas associadas a seus ancestrais e seus irmãos indígenas vizinhos que se converteram em domésticos e civilizados:

‘Determinação deliberada, ou melhor, autodeterminação… parece ajudar todas as tribos isoladas que ainda vagueiam pelas selvas da Amazônia… Os grupos indígenas que vivem em isolamento são isolados porque escolhem. Não é por causa de uma completa falta de contato, mas precisamente porque as experiências anteriores de contato com o mundo exterior se revelaram negativas.’”

Não temos muito o que discutir com o Quadrúpede sobre o seu diagnóstico do problema da domesticação e do híper-civilizado. Na verdade, a civilização cria humanóides dependentes e fracos que não podem viver sem a sua dependência, o que significa sua escravização ao sistema tecno-industrial. No entanto, a solução apresentada é especificamente fugir para os lugares remotos do norte e tornar-se selvagem novamente. Isso foi algo que nos confundiu muito. Ele escreve:

“Hoje temos conhecimento histórico e antropológico que nos leva ao desespero criado por 10 mil anos de domesticação. Não é hora de “sentar”, é hora de se levantar e caminhar na floresta, deixando para trás toda a nossa bagagem domesticada. Devemos agora finalmente nos converter no povo da flecha. Um futuro selvagem representa o nosso único caminho a seguir. Eu postulo que os reselvageados ferais estarão de pé no final, após os levantes massivos que virão, sendo capaz disso apenas por causa dos avanços alcançados multigeracionalmente a nível indomesticável. Prevejo a formação de bandos selvagens (bandidos!) muito unidos, não acorrentados pelas circunstâncias, mas instalados rapidamente nos bosques, montanhas e sacudindo o impenetrável pelos domésticos – Habitantes do nosso próprio ‘labirinto marrom” em que os domesticados não se atrevem a entrar. Não apenas isso, mas também bandidos eficazes para golpear a infraestrutura da civilização, causando um dano irreparável, e desaparecendo facilmente nas sombras apenas para emergir golpeando de novo e de novo.”

Para dizer a verdade, este parágrafo nos causou muitas risadas. É sério? Esta é a revista de John Zerzan? O cara que pega seu rosário toda vez que escuta algo sobre os ataques eco-extremistas no sul? Esses caras querem ser “bandidos”, mas os eco-extremistas já são, e por acaso eles apoiam? Muito pelo contrário. Nós não vimos nenhuma evidência que prove que os anarco-primitivistas ianques não tenham alergia ao cheiro de sangue. Os eco-extremistas não tem essa alergia, isso é fato. Eu não sei, provavelmente o Quadrúpede não leu a Revista Regresión, mas ele tem que fazer uma comparação com alguns textos ali (sobre banditismo) que saíram muito antes deste ensaio. Por exemplo, na Regresión 3 (Primavera de 2015):

“Resistir e negar a vida imposta desde pequenos e formarmos uma vida simples e o mais longe possível daqueles alinhamentos e esquemas culturais modernos, é um dos propósitos a serem alcançados desde o presente. Mas para formarmos essa vida que queremos, distante das grandes cidades e nas profundezas da natureza, às vezes requer dinheiro, dinheiro que preferimos roubá-lo de qualquer lugar ou obtê-lo através das centenas de formas criminosas que existem, antes que nos escravizem à vida de subordinados que a maioria das pessoas carrega. Esta é a razão pela qual o grupo editorial desta revista sente simpatia pela reapropriação do dinheiro para propósitos específicos que levam a uma vida que vala a pena ser vivida, sem se importar com quem sofra o disparo quando o dinheiro não é entregue, porque quando um empregado não entrega o dinheiro do patrão, este não merece seguir vivendo, já que defende como um cão obediente as migalhas do mestre, por isso merece uma facada ou uma bala em seu corpo, da mesma forma, quando o empresário, dono ou executivo do negócio não cumpre as exigências do ladrão, também merece o mesmo ou algo pior.

Não há misericórdia nesses atos, é tudo ou nada, é do extremismo de que falamos abertamente, se esse dinheiro será necessário para algum propósito extremista individualista, este o deve consegui-lo a qualquer preço. Aqui devo mencionar que para nós o dinheiro não é tudo, isso dizemos de uma forma muito realista. Neste mundo dominado por grandes corporações econômicas, às vezes é preciso obter dinheiro para cobrir certos fins e/ou meios. Pra nós, obtê-lo trabalhando não é uma opção, obtê-lo por fraude, assaltos ou enganando, sim. Aqueles ancestrais que viram seus modos de vida afetados pela expansão das civilizações tanto mesoamericanas como ocidentais, tiveram que atuar desta forma em algum momento (predação, saqueio, engano, roubo e/ou assassinato), temos apenas cumprido nosso papel histórico como herdeiros daquela ferocidade selvagem.”

Também este texto, retirado do editorial da Regresión 5 (Abril de 2015):

“Sou um eco-extremista e estou em Guerra, eu confeccionei explosivos recheados de fragmentos que dirigi contra tecnólogos que trabalham para artificializar a Natureza Selvagem. Os fios positivo e negativo se encontraram, a energia da pilha conseguiu aquecer o ignitor dentro do niple galvanizado preenchido por dinamite, uma faísca é gerada, o explosivo funcionou, os ferimos, os estilhaços perfuraram seus corpos, os gases da dinamite ardente chegaram a seus pulmões queimando-os ao mesmo tempo, seus sangues derramados serviram para lhes recordar de que NÃO são deuses, embora brinquem disso; não me arrependo por nenhuma destas feridas, de seu espanto, das consequências, o que aconteceu com eles é apenas uma resposta da Natureza Indomável que falou através de MIM. Estive escondido em várias cidades preparando atentados, conspirando com afins, e ampliando minhas práticas no plano da atividade criminosa. Incendiei carros indiscriminadamente, luxuosos e não luxuosos, pequenos ou grandes, uma vez que todos são asquerosas máquinas que fazem com que a camada de fumaça siga se solidificando sobre minha cabeça, os vi arder como um incêndio nas densas florestas, eu soube da reação de seus donos, não me importo com nada, a Natureza me deu a forma para sair intacto dessas situações.”

Então, se os ianques quiserem aprender algo sobre ser “bandidos”, talvez os eco-extremistas possam dar-lhes alguns conselhos para que não sejam detidos pelos valores humanistas civilizados.

Sobre a questão da fuga para a floresta ou o que quer que seja, recordamos uma correspondência com um mano eco-extremista que nos faz lembrar que o contexto ao sul da fronteira é muito diferente daquele dos gringos:

“Aqui muitos poucos “primitivistas” fazem o que fazem lá, isso de comprar um terreno e aprender habilidades de sobrevivência. O que sempre pensamos sobre essas atitudes é que a pessoa que faz isso está sendo covarde ao abandonar a civilização sem ter lutado contra ela. A cultura mexicana herdou de seu passado nativo esta atitude, aqui se você não responder a uma agressão você é fraco e viadinho, o mesmo vale para os “primitivistas” que compram um terreno e em vez de guerrear decidem viver alternativamente. Embora tente de todas as formas fugir da civilização, esta chegará a você. Um exemplo é o que passou com o velho Ted, ele partiu, mas a civilização chegou até ele, e o mesmo acontece aqui.

Só que aqui é muito mais violento, muitas áreas selvagens estão sendo controladas por pistoleiros que utilizam as montanhas para plantar papoula ou usam as colinas para esconder laboratórios de drogas sintéticas. Estes terrenos belos e selvagens estão sob o controle deles e se você ousar pisar neles, os pistoleiros te prendem e te levam como escravo a essas plantações, junto com os imigrantes do sul, e assim por diante. A situação aqui é mais complicada.

Com respeito as comunidades zapatistas, são uma merda, e o mesmo ocorre, estão sob o controle do comitê clandestino indígena que de indígena não tem muita coisa já que são controladas pelos marxistas mais relutantes, muitos estrangeiros.”.

Nós pelo menos concordamos completamente com o mano. Fugir não é uma opção real nem é algo que queremos fazer. A civilização insultou a nossa mãe Natureza, e pagará por isso, aconteça o que acontecer. Naturalmente, apoiamos os indígenas (os poucos que restam) que fogem da civilização, mas não somos eles, e é uma estupidez pensar que podemos nos tornar como eles. Melhor ficarmos aqui e lutar como somos, na verdade, não temos nenhuma outra opção.

Completando a informação sobre a opção de comprar um terreno no México assim como fazem nos EUA, existe também uma aparente desvantagem econômica, enquanto muitos anarco-primitivistas de lá tem uma economia estável dado a sua cultura de primeiro mundo (embora rejeitem), aqui se um anarco-primitivista mexicano quisesse comprar um pedaço de terra lhe custaria cerca de 60 mil a 100 mil pesos ou mais dependendo do lugar. Para obter essa grande quantidade de dinheiro o anarco-primitivista mexicano teria que trabalhar (dado o seu rechaço ao salário de uma empresa) em uma cooperativa universitária autogestiva (por exemplo), onde os lucros líquidos não chegam nem a 200 pesos por dia, então ele teria que trabalhar por um tempo indeterminado para comprar as suas terras. Num outro caso, se o anarco-primitivista “urgisse” comprar um terreno na natureza e decidisse trabalhar em uma fábrica oito horas por dia ralando em turnos noturnos e matutinos, ganhando 1000 pesos por semana, então estamos falando que conseguiria o dinheiro em pouco mais de dois anos, e isso juntando todo o dinheiro, embora esta opção seja quase impossível, já que teria que repartir estes 1000 pesos ganho por semana em aluguel, pagamento de serviços, alimentação, transporte (talvez), etc., então aqueles mais de dois anos dobrariam ou talvez mais. Possivelmente o anarco-primitivista mexicano se canse após tantos anos de trabalho, jogue tudo para o alto, deixe de ser um anarco-primitivista e decida viver uma “vida louca”. Ou talvez o anarco-primitivista em questão herde de sua avó uma casa na floresta e decida ir viver por lá, ou talvez o anarco-primitivista possa ir trabalhar nos Estados Unidos e faça como os trabalhadores michoacanos que trazem dólares os quais aqui tem um grande valor no mercado estimado em 18 pesos cada um, e assim possa adquirir seu terreno, pode ser, são apenas ideias…

Mas de qualquer maneira, alguns anarco-primitivistas dos EUA acham que podem de uma hora para outra se tornarem os bandidos mais fodas de toda a história, ou dentro de algumas “gerações”, ou que podem sobreviver em um dos lugares mais inóspitos do planeta (Alaska), E TAMBÉM atacar a civilização de vez em quando e saírem ilesos. Não pensamos assim, mas boa sorte. Vale a pena mencionar que o Quatro Patas descreve os Selk’nam da Terra do Fogo como um povo selvagem que poderia sobreviver em um dos ambientes mais difíceis da Terra, mas não mencionou que a sociedade Selk’nam era baseada no patriarcado rígido, era a fundação de suas crenças. Talvez ele tivesse que comentar algo sobre isso a suas companheiras primitivistas, que pensam que o patriarcado é sempre um produto da domesticação. Bom, apenas sugerimos.…

O mais curioso vem quando você termina este artigo com aspirações de se tornar um criminoso e logo passa para outro texto que diz que os anarco-primitivistas devem ter aspirações para ser… MONGES. Isso é completamente verdade, eu não estou inventando. O nome do artigo é “The Sacred Sunrise”, de Ian Smith. Não vou tentar resumir os argumentos aqui, pois eles são muito estúpidos e mostram uma profunda ignorância da natureza do monarquismo cristão desde sua origem até a atualidade. Por exemplo, menciona a regra de São Bento, mas não a sua lei mais importante: “ora et labora”, em latim, “rezar e trabalhar”. Bem, é muito interessante que alguns anarco-primitivistas pensam que podem se salvar trabalhando no campo e recitando palavras da bíblia. Será que o autor não sabe que os grandes monastérios da Idade Média, e até mesmo aqui na Nova Espanha durante a colônia eram donos de grandes terrenos, e não apenas de terrenos, também dos campesinos que pertenciam a essas terras, e seus trabalhos permitiam uma vida de luxo aos monges para se comprometer com a “Opus Dei”, a vida de “contemplação”, a erudição, e o ofício divino? Ou sabe que a virtude mais importante do monastério foi a obediência? Talvez esse cara seja obediente a São João (Zerzan) como abade, e Kevin Tucker como mestre dos noviços? É vergonhoso que permitiram que tal estupidez fosse publicada em uma revista “séria”.

Passaremos então a discutir o ensaio do editor principal, Kevin Tucker, sobre a civilização e a dependência, “Hooked on a Feeling: The Loss of Community and the Rise of Addiction” (Viciado em Um Sentimento: A Perda da Comunidade e a Aparição da Dependência). Ao nosso ver, este é o ensaio mais longo, e muito difícil de se resumir em alguns parágrafos. O texto começa com a descrição de “kia” ou as energias curativas que emergem das danças comunitárias das tribos nômades caçadoras-coletoras em várias partes do sul da África. Segundo Tucker, o sedentarismo cria a necessidade de resolver conflitos que anteriormente poderiam ser resolvidos pela mobilidade nômade. Pouco a pouco surge o papel do Xamã, e a especialização sobre o uso de plantas e cerimônias para resolver os problemas de uma comunidade sedentária. A partir daí surgem o álcool, o peiote, e os demais tóxicos que tentam resolver a frustração da domesticação. A primeira objeção que encontrei é que os animais também se “drogam” e se “embebedam”. Em algumas tradições, são os próprios animais ou as plantas que “ensinam” sobre seus usos, até mesmo seus usos narcóticos e alucinógenos.

No entanto, é necessário contemplar o tema da “civilização como um vício”, como Tucker descreve no seguinte parágrafo sobre o papel do álcool:

“A civilização foi levada literalmente nos ombros e costas dos bêbados. Uma devoção religiosa à produção requer um grau de embriaguez para criar raízes. A agricultura, o combustível necessário da civilização, define a monotonia: monótono, dor de ressignificação, sem brilho, e o trabalho sem fim. A humanidade nunca havia levantado suas mãos para a produção excedente se não estivesse segurando um copo levantado”.

Segundo Tucker, então, a humanidade deve retornar à energia da dança dos nômades para a cura emocional e psicológica baseada na comunidade e na atitude igualitária. É uma questão de quebrar a “lógica” viciante da civilização e fugir para forjar novas comunidades de resistência com base na lógica dos caçadores-coletores nômades. A crítica que tenho neste sentido é inspirada nas palavras de outro mano eco-extremista em uma entrevista com um certo John Jacobi:

“(…) sempre que há uma chance vocês gringos, ou seja, as pessoas que compartilham a cultura estadunidense (reformistas), querem sempre criar ‘movimentos’, é como se trouxessem nas veias um sentimento muito característico que os empurra a querer sempre ‘arrumar’ as coisas, e a Natureza Selvagem não escapa desse sentimento.”

Diz-se em algumas partes do texto que o melhor é o inimigo do bem moral, e acreditamos que Tucker cai neste erro. Pelo menos aqui, não é uma questão de defender as culturas primitivas onde quer que apareçam, mas de buscar as culturas “mais puras” da terra e tentar imitar seus modos de vida (é preciso comentar aqui, referindo-se ao Quadrúpede, que os Selk’nam também tinham Xamãs). Sabemos muito bem o que Tucker está jogando: nestas culturas se manifestaram a hierarquia, a domesticação, a civilização, etc., em algumas culturas pelo sedentarismo e o armazenamento de comestíveis, e isso é certo. Mas o processo que criou a civilização e está destruindo a vida na Terra não é produto de um processo de domesticação retirado de um processo particular, ou seja, os processos que criaram a sociedade tecno-industrial. Cada domesticação não criou o Leviatã que está nos ameaçando, e que nos escravizou. O rei Calusa no século XVI ou um agricultor africano do Delta do Níger no século XVII não tem culpa de nossa civilização.

Esta civilização é produto de um processo muito particular, quase ocidental, e seria difícil em nossa opinião encontrar a causa específica desta sociedade asquerosa. Portanto, não há a necessidade de julgar todas as sociedades primitivas e selvagens por suas habilidades de “domesticação”, como ter Xamãs ou qualquer outra coisa. Cada sociedade foi um fenômeno que era produto de seu ambiente e a resposta das pessoas que viveram naquele ambiente. O que vemos agora não foi inevitável, em nossa opinião, poderia ter sido diferente, e muitos selvagens lutaram até a morte para que assim fosse. Mas estas são apenas questões acadêmicas, o que foi perdido foi perdido, mas ainda existem os instintos de atacar e defender que são os mais importantes.

Há também um ensaio de John Zerzan, mas parecia bobo e não o lemos.

De qualquer forma, em nossa opinião, as diferenças entre os anarco-primitivistas do norte e os eco-extremistas do sul vêm dos exemplos das tribos “primitivas” que desejam imitar. Os anarco-primitivistas estão sempre buscando seus exemplos nas tribos que viveram em ambientes inóspitos, onde a fuga ainda era uma opção. Isso inclui os Bosquímanos e Pigmeus do sul da África, os povos que viveram no Alaska, e os Selk’nam (Embora não se dão conta de que eram “sexistas” e tinham hierarquia na forma de Xamãs. Talvez também irão reconsiderar estes selvagens e excomungá-los da “comunhão dos saltos selvagens”). Isto é, eles são selvagens relativamente “pacíficos” onde a guerra contra a civilização não era possível ou necessária. Mas essa não é a nossa situação.

Os eco-extremistas, por outro lado, buscam seus exemplos históricos em situações que correspondem a nossa situação atual, especialmente nos Teochichimecas antes e após a conquista da Mesoamérica, os Yahi na Califórnia, Estados Unidos, os Seri dos desertos de Sonora no México, os Apaches, os Comanches, etc,. Em suma, todas as tribos que estavam em uma guerra até a morte contra a civilização, as que empregavam o ataque indiscriminado, o roubo, o terror, e outras táticas de guerra total. Os anarco-primitivistas querem atuar como se estivéssemos em um tempo mais ou menos pacífico, e dizem que primeiro devemos “convencer as massas” para fazer uma “mudança social”. Dizem que ainda nos resta “tempo” e “esperança”. Essa etapa para o eco-extremismo já passou há muito tempo, assumindo que já foi em algum momento uma opção verdadeira, o que é duvidoso.

Os anarcos dirão que essa opinião é “niilista”, e talvez estejam certos. Não temos problema algum com o rótulo de “niilista”. Mas se nós somos niilistas, também eram as mulheres e homens que se lançavam desde o alto da montanha para converter-se em projéteis humanos contra os espanhóis na Guerra do Mixtón em Zacatecas, e as tribos que preferiam se afogar em um rio do que serem levadas como escravas, ou os milhares de guerreiros que preferiram lutar até a morte contra o invasor. Se não ser “niilista” significa ter que esperar até que as massas te deem a sua “benção” para atacar, ou te impedem de atacar porque viola os “valores igualitários das tribos nômades caçadoras-coletoras” [que não existem], ou te obrigam a ceder antes de lutar porque não há probabilidade de “ganhar”, bem, repetimos, somos niilistas e ponto final. Não temos interesse em nos converter em hippiers vivendo em comunas no Alaska e, ao mesmo tempo, fingir “lutar contra a civilização”. Se esta é a “Primal War” como diz Kevin Tucker, (a guerra primal) é mentira e os anarco-primitivistas devem pelo menos admitir isso.

Campamocha

Revisitando a Revolução

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2. Texto original em The Wild Will Project.

Resumo – Os selvagistas, assim como seus precursores ideológicos, em geral apoiavam a noção de “revolução” como resposta a seus anseios. No entanto, uma série de grupos conhecidos como “eco-extremistas”, que vieram dos mesmos precursores ideológicos que os selvagistas, desafiaram a “abordagem revolucionária” do retorno ao selvagem. Este artigo explica a abordagem revolucionária e por que os eco-extremistas estão certos.

A Velha Visão

Os valores dos eco-radicais e eco-extremistas selvagistas já foram suficientemente elaborados, mas parte da minha intenção ao iniciar este jornal era explorar e esboçar um modus operandi com base nesses valores. Até então, eu (e aqueles com quem trabalho) havíamos nos atido a uma noção aproximada de “revolução”, ou melhor, de reação anti-industrial. O raciocínio era tal como se segue:

Já que desejamos que o mundo entre em colapso para tornar-se um lugar menos administrado ou mais selvagem, nossa preocupação é como alcançar um estado de coisas em que o modo de produção industrial seja tornado cada vez menos eficiente, ou até mesmo, em algumas regiões, um estado em que ele seja destruído para além de qualquer possibilidade de restauração. Mas, é claro, a vida industrial é por demais conveniente. É pouco provável, então, que as pessoas se revoltem contra ela.

No entanto, historicamente tem havido períodos revolucionários em que esse tipo de coisa torna-se possível – épocas em que as pessoas de um lugar específico perdem muitas de suas inibições normais e agem fora dos limites da moralidade convencional. Durante esse período, é muito mais provável que as pessoas ajam contra os seus interesses materiais imediatos, deixando um espaço para que minorias pequenas e organizadas tirem vantagem desse momento de massa e instiguem a ação contra toda estrutura que considerem ilegítima. A Revolução Francesa foi um desses períodos. E o partido bolchevique da Revolução Russa, que explorou metodicamente muitos aspectos inerentes à sociedade de massa, demonstrou como uma minoria pode fazer uso de um momento como esse.

Evidentemente, parte da análise selvagista envolve uma compreensão de que a sociedade (e sua técnica) desenvolvem-se de modo autônomo em relação a qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos; ou seja, as culturas evoluem (ver “Technical Autonomy). Isso significa, entre outras coisas, que os revolucionários não podem planejar sua revolução. A Revolução Francesa, por exemplo, foi resultado de forças imprevisíveis tais como a fome e a industrialização; e a Revolução Russa irrompeu em um momento de intensa pobreza dos russos e de guerra mundial. Esse aspecto do desenvolvimento cultural em geral em que este “arrasta os humanos consigo” também é o motivo pelo qual os revolucionários conseguiram destruir a sociedade-alvo, mas falharam miseravelmente em instituir seus esquemas utópicos racionais. De novo, as culturas evoluem; elas não são planejadas. A única razão pela qual os radicais da época conseguiram tirar vantagem da instabilidade foi porque, de antemão, eles se organizaram e se isolaram, criando uma minoria resoluta não comprometida com a estrutura dominante que buscava derrubar. Por conta disso, os selvagistas e suas influências ideológicas (por exemplo, Kaczynski e os indomitistas) defendiam a criação dessa minoria, que se prepararia para a ação cada vez mais radical em tempos de instabilidade. Essa minoria não teria esperanças de instaurar esquemas racionais, mas se dedicaria totalmente a atacar de modo implacável a sociedade industrial.

Nós, eco-radicais, acreditávamos que essa era a única forma de causar dano máximo ao sistema industrial global. Não é que a revolução fosse uma solução perfeita. De qualquer forma, soluções perfeitas não existem. Mas outras propostas eram ou completamente irrealistas ou não iam longe o bastante, e a reforma é impossível como uma força satisfatória, dadas as demandas de nossos valores. Havia até mesmo uma chance de que a reação seria global em alcance, o que significaria não que toda a indústria entraria em colapso, mas que os esforços revolucionários estariam ocorrendo em muitos lugares ao mesmo tempo, talvez com algumas regiões em que eles seriam mais bem-sucedidos. Essa é uma possibilidade nos dias de hoje porque a infraestrutura industrial unifica o mundo, permitindo que as mensagens se espalhem muito mais rápido do que antes. Essa foi, no fim das contas, a razão pela qual os valores da Revolução Francesa se espalharam tão rápida e completamente; e é o motivo pelo qual os jihadistas podem agora ser vistos atacando por toda parte.

Além disso, em regiões onde houve colapso estatal ou industrial, muitas vezes causado por revoluções, podemos observar ganhos notáveis para a natureza selvagem. Considere-se, por exemplo, a Síria, a Líbia, muitas partes do Afeganistão, e até mesmo lugares ao sul dos EUA, como o México e o Brasil. Onde há um alto grau de instabilidade na sociedade moderna (indústria, democracia, instituições humanistas, etc.), as sociedades são menos vigiadas, a natureza não-humana é menos desenvolvida em um sentido material, a infraestrutura começa a ruir… De fato, as emissões de carbono no Oriente Médio estão diminuindo rapidamente devido à atividade revolucionária que se passa por lá, tal como é de se esperar, já que as emissões desde a Revolução Industrial somente diminuíram globalmente em tempos de declínio ou de colapso (por exemplo, a Grande Depressão, o colapso da União Soviética, a Recessão de 2008 etc.).

Porém, esse raciocínio é falho. Não é que a reação em si mesma seja algo indesejável ou mesmo impossível. Claramente, ela é possível. Por exemplo, os jihadistas, não importa o quão abomináveis sejam, estão de tal modo suficientemente organizados e difundidos que, se algum fator externo incontrolável, como um desastre natural, causasse danos severos às sociedades industriais, eles poderiam tirar vantagem desse momento e provocar um enorme estrago. A rigor, é errôneo basear a própria ecodefesa nessa possibilidade, é errôneo imaginar a reação como uma “solução definitiva” para os problemas do Progresso, e é errôneo legitimar o retorno radical ao selvagem por referência ao período revolucionário. Nossos valores oferecem uma mensagem diferente dessa.

Um grupo com influências ideológicas semelhantes às dos selvagistas, os assim chamados eco-extremistas, tentaram elaborar esse argumento em seus comunicados e escritos. Inicialmente, seus argumentos pareciam juvenis, impacientes, imediatistas. Porém, com o passar do tempo, sua análise tornou-se mais aguçada e, quanto a mim, eles conseguiram me convencer que o lugar da revolução no discurso selvagista deveria ser repensado. Depois de muito debate sobre essa questão, minha posição (e a da maioria das pessoas com quem trabalho) mudou.

A Nova Visão

Em primeiro lugar, consideramos o retorno ao selvagem e a ecodefesa como bons em si mesmos. Não há necessidade de um evento futuro que os legitime. É no presente que a natureza selvagem está sendo dominada e destruída, e é no presente que a defenderemos e a restabeleceremos. A ação radical pode precisar de uma justificativa especial, mas isso pode ser facilmente explicado, e não por recurso ao messias da revolução: se a própria ameaça é radical, por que a defesa, por sua vez, não pode ser radical também? Conforme assinalei em “The Foundations of Wildist Ethics”, é razoável dizer que, à medida que o selvagem torna-se cada vez menos uma qualidade definidora de nosso mundo, tanto mais valioso ele se torna, e tanto mais justificável a defesa radical. “Nenhum recurso a não ser ao presente.”, disse um selvagista; e ele tem razão.

Ademais, a revolução não é nenhum messias. Visto que nenhum humano ou grupo de humanos pode incitá-la – apenas tirar vantagem do momento –, nunca está claro como ela irá terminar. De novo, podemos observar isso em regiões onde a revolução ou o colapso estão ocorrendo. Alguns desses processos foram bastante prejudiciais à natureza selvagem, ou pelo menos não foram ideais, e a situação é tal que um curso de eventos semelhante será comum em situações futuras. Pode ser que a revolução aconteça e ainda haverá trabalho a fazer. Um único evento, portanto, não é o foco. Na verdade, é possível que ele seja tangencial.

Considere-se, por exemplo, outros meios através dos quais o colapso ocorreu. Alguns colapsos aconteceram sem absolutamente nenhuma participação humana, com a própria natureza selvagem batendo tão forte que nenhuma intervenção humana se fez necessária; em outros casos, a única participação humana foi a resistência ao colapso, mas fracos como somos enquanto força motriz da sociedade, ele ocorreu mesmo assim. Em alguns lugares, a revolução apenas levou a mais Progresso, ou a regimes totalitários que, embora menos eficientes do que as democracias, continuam sendo incompatíveis com nossos valores. Em suma, a revolução não é o fim. Pode-se até mesmo argumentar que, muitas vezes, ela é apenas o começo.

Isso envolve um aspecto da análise selvagista que eu já havia notado que parece ser contraditório com a proposta anterior da revolução: nosso fatalismo. Acreditamos que os humanos estão tão sujeitos aos processos e aos rumos da natureza selvagem quanto qualquer outro animal; e como qualquer outro animal, somos levados por ela, não uma força motriz por trás dela, não importa o quão enganosas nossas percepções possam ser. Isso é ilustrado até mesmo pelo materialismo científico moderno e por seu determinismo (seja ele literal ou, dependendo da interpretação que se tenha dos fenômenos quânticos, prático). Escrevi brevemente sobre isso em “The Question of Revolution”, chamando a atenção para o fato de que o colapso não é algo que os selvagistas pensam que possam causar. Em vez disso, se é para acontecer, acontecerá de qualquer forma. O colapso, portanto, é mais uma previsão, e falar de ação ou livre arbítrio é meramente uma “ficção útil” para mentes humanas que nunca conhecem nem são capazes de conhecer o bastante para que tenham certeza de seu destino. Isso, o argumento do naturalismo filosófico, é de fato aquilo em que eu mesmo acredito; os eco-extremistas o mais das vezes falam simplesmente em fatalismo, sem referência a fundamentos filosóficos mais profundos. Nesse mesmo sentido, muitos caçadores-coletores adotavam uma espécie de ponto de vista fatalista em relação à vida, forçados como eram a reconhecer sua pequenez perante as montanhas, os mares e o céu noturno não poluído.

O que dizer, então, da possibilidade de que o colapso talvez nunca ocorra? É aqui que os eco-extremistas conseguiram me convencer. Eles dizem: “Pouco importa.”. Eles têm razão, tal como eu mesmo observei na mesma seção de “The Question of Revolution”. A despeito da possibilidade da revolução, me mantenho firme nos meus valores e agirei de acordo com eles. Estas instituições, esta sociedade, a infraestrutura industrial sobre a qual ela é construída – pode ser que tudo isso continue conosco para sempre, mas isso não significa que eu tenha que respeitá-las. Tampouco acredito que sequer consiga fazê-lo. Estou condenado, fadado, talvez: nada posso fazer a não ser desprezar o controle de minha vida e do mundo selvagem que amo.

Mais uma vez, os eco-extremistas defenderam esse argumento há mais tempo do que eu. Embora os selvagistas sempre tenham argumentado que os valores originam-se da vontade individual – seu niilismo em relação aos valores objetivos tendo também sua fonte no naturalismo filosófico supracitado –, os eco-extremistas foram aqueles que assumiram firmemente sua posição e agiram como indivíduos, não apenas dispensando a revolução como uma força legitimadora, mas também os movimentos de massa. Pode ser que ajude que os outros estejam comigo, mas eu pouco preciso deles para poder viver com integridade, e eu em nada dependo deles para fazê-lo.

Por fim, dado o caráter não planejado dos fenômenos culturais de massa, é arriscado argumentar a favor do messias da revolução. Considere-se meu ensaio “The Question of Revolution”, no qual discuti mais sobre a moralidade relativa à revolução do que sobre estratégia e incitação. Como, questionei, a morte causada pela revolução é compatível com os valores selvagistas? E quanto aos perigos do colapso nuclear? Loucura humana? Ao responder a essas questões, eu normalmente explicava que elas eram irrelevantes, dado que os humanos não causam as revoluções. Nenhum movimento revolucionário, não importa o quão forte, vai ter um botão que, quando acionado, desencadeará o colapso industrial. Assim, eles não seriam responsáveis por tudo o que ocorresse (sob qualquer noção normal de “responsabilidade”). Em vez disso, sendo os humanos criaturas com conhecimento e influência limitados, qualquer instabilidade revolucionária somente contará com o reforço de indivíduos que ajam de acordo com o modo que julgarem apropriado naquele momento, sendo esses indivíduos responsáveis pelas consequências dessas ações específicas, mas incapazes de prever o rumo geral de sua sociedade. No entanto, muitas vezes eu vacilava em minha análise ao tentar uma visão “global” da situação, por exemplo, ao argumentar que a morte causada por uma situação revolucionária não chega nem perto da devastação causada pelas mudanças climáticas, pelas extinções de espécies (que chegam a mais de 1.000 vezes a taxa de extinção natural!), e por outros problemas citados pelos eco-radicais.

E até mesmo nesse caso, eu quase me contradisse ao chamar a atenção para as limitações da razão moral humana, provavelmente de base biológica. Por exemplo, eu mencionei as descobertas de Paul Slovic, um psicólogo social que observou que os humanos geralmente passam por um processo de “entorpecimento psíquico” em relação ao sofrimento à medida que o número de humanos que sofrem fica maior. Em um experimento, ele pediu que os voluntários doassem dinheiro para uma causa que alimentava crianças na África, dizendo a eles que uma criança específica estava precisando de ajuda; mas à medida que os números aumentavam, ou se o sofrimento da criança era colocado no contexto de uma tragédia maior, as doações diminuiriam rapidamente. Isso ocorria até mesmo depois que apenas mais uma criança era mencionada. Foi com esse tipo de limitações em mente que eu brinquei com a ideia de uma moralidade baseada na razão em “Foundations”, argumentando que em uma situação não-natural como essa em que nos encontramos, precisaríamos usar muito mais o lado racional de nossa mente do que o lado intuitivo. Mas nem sequer está claro que isso seja possível, o que torna um experimento como esse altamente perigoso. Além disso, qualquer tipo de raciocínio dependeria de dados acessíveis somente através da infraestrutura científica e industrial moderna ou hipermoderna – algo obviamente incompatível com nossos valores regressivos.

Em vez disso, os eco-extremistas – corretamente – argumentaram que deveríamos ignorar qualquer raciocínio “global” e agir no presente de acordo com nossos valores. Se um radical ataca a infraestrutura industrial, ele o faz porque acredita que a ação seja justificada nesse caso específico; se mata um técnico, terá que viver com a responsabilidade; se tira vantagem de uma manifestação para dar notoriedade aos valores eco-radicais, justificará a ação com sua própria vontade selvagem.

Ressalvas e Esclarecimentos

É claro, nada disso significa descartar uma reação anti-industrial como uma possibilidade, especialmente em regiões pequenas, como países equatoriais que serão afetados pelas mudanças climáticas. Em vez disso, significa que se ela ocorrer, será meramente um evento significativo no decorrer de nossas vidas – ou não. Os eco-extremistas em geral parecem concordar nesse ponto. MictlanTepetli, o propagandista com o qual conversei, disse: “É claro, se a oportunidade surgir e nos depararmos com um setor da cidade destruído pela guerra civil ou por uma catástrofe semelhante, nos dedicaríamos a resselvagizar esse lugar, sem sombra de dúvida.”. Esse é, em geral, o posicionamento das pessoas com quem trabalho. Não faz sentido ficar de braços cruzados. Mas alguns comunicados eco-extremistas dizem que a revolução é absolutamente impossível, e eles têm certeza disso. Isso eu não posso dizer que seja de fato verdade; simplesmente não temos como saber, e é o máximo que se pode dizer a respeito. Basta dizer que pouco importa se a revolução irá ou não ocorrer. Tal como um texto eco-extremista coloca:

“Sim, os eco-extremistas são pessimistas e lamentavelmente nos demos conta de que a destruição da civilização é impossível. A única capaz de causar um dano sério à civilização e, na melhor das hipóteses, acabar com ela, é a própria Natureza Selvagem; então, o que fazer?; cruzar os braços e esperar?; observar como a civilização se expande em todas as direções acabando com os hábitats selvagens, sem fazer nada? Nunca!”

É claro, tal como escrevi anteriormente, os eco-extremistas, mais do que qualquer outra pessoa, seriam capazes de tirar vantagem da instabilidade, seja ela revolucionária ou não. Considere-se os bolcheviques. Lenin manteve o partido altamente isolado do resto da sociedade que eles pretendiam destruir, resistindo à propaganda dominante e exacerbando essa deslealdade através da atividade conspiratória. Ele também promoveu vários projetos congruentes com essa estratégia, como um “jornal com circulação em toda a Rússia”, que ensinava aos revolucionários como se coordenarem ao mesmo tempo em que aprendiam como explorar a tensão ao de fato fazê-lo quando os sindicatos se rebelassem ou entrassem em greve. Não foi esperando que eles tiveram êxito, mas sim somente agindo. Os jihadistas operam de um modo semelhante. É claro, grande parte disso é irrelevante para a filosofia e para os valores eco-radicais, em especial a natureza de massa da estratégia leninista, mas permanece a questão: aprende-se agindo agora, e nada menos do que isso. E, de novo, isso é verdadeiro não apenas em uma situação revolucionária. Desastres naturais, tribos não-contatadas lutando de um modo selvagem contra os civilizados, e muitos outros aspectos em que a natureza contra-ataca fazem parte da luta eco-radical. Tal como os eco-extremistas colocam:

“O eco-extremismo é a resistência armada das tribos amazônicas em guerra contra os madeireiros, as petroleiras, os mineradores; é a flecha lançada contra os helicópteros pelos aborígenes isolados na África, é a continuidade das crenças pagãs que resistem à cristianização total, é a resistência individual por meio das atividades delinquenciais contra a domesticação, é o tornado, o terremoto, a ferocidade dos últimos coiotes, a hostilidade dos elefantes, é a abelha que solta seu ferrão para depois morrer, o eco-extremismo é a violenta defesa da própria Natureza Selvagem, suas reações, suas respostas e manifestações.”

Bibliografia:

Caradonna, J., Borowy, I., Green, T., Victor, P., Cohen, M., Gow, A., . . . Vergragt, P. (2015). http://www.resilience.org/articles/General/2015/05_May/A-Degrowth-Response-to-An-Ecomodernist-Manifesto.pdf. Resilience.org.

Hoffer, E. (2011). The True Believer. HarperCollins.

Jacobi, J. (2016). Relations and the moral circle. Hunter/Gatherer, 1(2).

Jacobi, J. (2016). Technical autonomy. Hunter/Gatherer, 1(3).

Jacobi, J. (2016). The foundations of wildist ethics. Hunter/Gatherer, 1(1).

Jacobi, J. (2016). The question of revolution. Hunter/Gatherer, 1(3).

Kaczynski, T. J. (2010). Technological Slavery: The Collected Writings of Theodore John Kaczynski, a.k.a “The Unabomber”. (D. Skrbina, Ed.) Feral House.

Kaczynski, T. J. (2016). Anti-Tech Revolution: Why and How. Fitch & Madison Publishers.

Peters, G., Marland, G., Quere, C., Boden, T., Canadell, J., & Raupach, M. (2012). Rapid growth in CO2 emissions after the 2008-2009 global financial crisis. Nature Climate Change, 2, 2-4.

Sageman, M. (2004). Understanding Terror Networks. University of Pennsylvania Press.

Selznick, P. (1952). The Organizational Weapon: A Study of Bolshevik Strategy and Tactics. RAND Corporation.

Slovic, P. (2007). “If I look at the mass I will never act”: Psychic numbing and genocide. Judgment and Decision Making, 2(2), 79-95.

Último Reducto. (2009). Con Amigos Como Éstos…: Último Reducto vs. Los Amigos de Ludd.

Primitivismo Sem Catástrofe

Texto extraído da Revista Anhangá N° 2.

Toda boa ideia precisa de um bom ponto de venda. O ponto de venda da ideologia abrangente que pode ser chamada de vários nomes como “anarco-primitivismo” e “pensamento anticivilização”, é a ideia de que a civilização moderna tecnoindustrial está destruindo a espécie humana, e de que se nós quisermos parar essa destruição, temos que destruir a civilização. É uma questão de auto-preservação. Nós precisamos renunciar a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc. Como nós sabemos disso? Bom, a tecnologia, ciência, medicina moderna, etc, nos dizem isso. Eu provavelmente não sou o primeiro a notar a inconsistência nessa perspectiva, mas talvez eu seja o primeiro a falar algo sobre isso.

O “Pensamento anticivilização” (por falta de um termo melhor) tem um “problema de conhecimento”. O problema é que ele tenta criticar a totalidade do ponto de vista da própria totalidade. Ele tenta desmantelar as ferramentas que construíram tudo que ele despreza usando essas mesmas ferramentas. Isso culmina na ideia de uma “Catástrofe”: O colapso catártico do seu inimigo e a chance da restauração de uma ordem justa. Para alguém que segura um martelo, tudo se parece com um prego, e para alguém com uma narrativa apocalíptica, tudo leva ao fim do mundo. De fato, alguns diriam que a catástrofe é para o primitivista o que a ressurreição de Jesus era para São Paulo: O sinequa non fora do qual a mensagem não pode existir. Se a humanidade não está condenada pela tecnologia, se toda a vida na terra não está ameaçada pela ascendência de um primata egoísta vindo da África, então o que estamos fazendo aqui? Poderíamos simplesmente voltar para nossas casas e desfrutar de nossas televisões de tela plana e ar condicionado.

É claro que as coisas não são tão simples. A primeira pergunta deveria ser: “Nós estamos condenados?”. Alguns livros que saíram recentemente tentam responder essa pergunta com uma negação, mesmo que levando muito a sério a ciência que analisa a mudança climática e a escassez de recursos naturais. O livro de Ronald Bailey “O Fim da Tragédia: Renovação Ecológica no Século XXI” é uma das maiores contribuições ao gênero eco-modernista. Apesar de não ter tempo para cobrir todo o conteúdo do livro, posso ao menos falar sobre o ponto mais forte do livro (pelo menos sob a minha perspectiva): a análise da ideia ecológica de que “não fazer nada” é melhor do que “fazer algo”.

Esse conceito é certamente comum no discurso ambientalista. A natureza tem feito o que ela faz por milhões de anos, e assim, como diz o discurso, ela sabe melhor o que fazer. Isso é o que Bailey chama de “princípio de precaução”, melhor formulado pela frase que dá o nome ao terceiro capítulo de seu livro, “Nunca Tente Nada Pela Primeira Vez”. Tudo que é novo é culpado até que se prove inocente, e o ônus da prova está na novidade, que tem que demonstrar que ela não irá criar mais problemas do que ela está tentando resolver. É evidente que aqueles que se prendem a esse princípio de precaução se tornam paralisados e impedidos de agir, pois não há como eles saberem com certeza quais são as implicações de um desenvolvimento tecnológico (pense por exemplo no debate em torno de alimentos geneticamente modificados). Aqueles que sofrem por causa dessa hesitação, diz Bailey, não tem o luxo da dúvida: eles precisam do remédio novo contra o câncer, de comida barata e de outros benefícios que o desenvolvimento tecnológico traz. Como diz Bailey:

Infelizmente, o princípio de precaução soa razoável para muitas pessoas, especialmente para aquelas que já estão cercadas de tecnologia. Essas pessoas tem as suas casas com aquecimento elétrico nas montanhas; elas já gozam da liberdade da necessidade, ignorância e doenças que a tecnologia pode providenciar. Mas existem bilhões de pessoas que desejam ver as suas vidas transformadas. Para essas pessoas, o princípio de precaução é uma garantia de pobreza contínua, não de segurança.” (93-94)

Temos aqui um problema de conhecimento virado e revirado. O pensador anticivilização e neo-ludita estudou o suficiente sobre a sociedade tecnoindustrial para saber que ela é uma causa perdida. Ele sabe disso através do uso das ferramentas que a sociedade tecnoindustrial lhe forneceu. Mesmo assim, um eco-modernista como Bailey vira o jogo e mostra que esse pessimismo é baseado em uma visão otimista do conhecimento humano apoiado por uma infraestrutura tecnológica que permite estudo e reflexão. Se nós não sabemos realmente, e sabemos que não sabemos, não temos a obrigação de tentar? Não seria essa ignorância uma oportunidade ao invés de um obstáculo? Não é disso que se trata o iluminismo e a revolução científica?

Ao longo do resto do livro, Bailey demonstra diversas vezes, em assuntos que variam do pico do petróleo ao suposto aumento do número de casos de câncer causado pelo uso de produtos industriais que os pessimistas têm estado errados, e muito errados até agora. Bailey conclui que o homo sapiens é um animal sagaz e adaptável, capaz de extrair a vitória das garras da derrota repetidas vezes. Bailey tem poucas dúvidas que nós continuaremos fazendo isso, mesmo admitindo que algumas coisas, como a mudança climática, são problemas reais que afetam toda a humanidade.

Ironicamente, aceitar as premissas de Bailey pode ser a posição mais “primitivista” de todas. Se no fim nós somos apenas animais incapazes de salvar a nós mesmos sem abrir mão dos instrumentos que nos conferem um poder que parece absoluto, como é possível que nós sejamos capazes de condenar nós mesmos a não-existência? Ou ainda, se somos burros demais para nos salvarmos, podemos também ser burros demais para matar a nós mesmos. É claro que há o princípio da entropia, além da intuição de que é mais fácil quebrar do que consertar algo. Mas a analogia não se sustenta aqui, já que estamos falando de bilhões de animais individuais pelo planeta que se mostraram resistentes o suficiente para infestar toda a terra.

Então qual é a resposta? Estamos salvos ou condenados? A catástrofe é uma realidade inevitável ou um desejo masoquista? No fim das contas a resposta é: nós não sabemos. Aqueles que fingem saber estão se agarrando a um suposto bastião de certeza da ruína ou do otimismo no qual os cisnes negros de Nassim Nicholas Taleb jamais ocorrem. O futuro não pode ser completamente desolado, e também não podemos ter certeza de que o desastre não ocorrerá simplesmente porque ele ainda não ocorreu até agora. Tudo que nós realmente temos é o presente.

Assim voltamos ao título: é possível haver um primitivismo sem catástrofe? E se essa sociedade conseguir resolver seus problemas e seguir em frente? Nós voltamos para casa então? Nós passamos a tolerar essa ordem capitalista tecnoindustrial e reconhecer que se nós não podemos viver na sociedade em que desejamos, devemos aprender a amar a sociedade na qual vivemos? Afinal de contas, somos todos humanos, e compartilhamos as mesmas almas, corpos, sentimentos e intelecto. Já que as coisas são assim, nós podemos também trabalhar para salvar todos, e quem se importa com como faremos isso? Sonhos de um retorno a existência idealizada de caçadores-coletores se tornam cada vez menos atraentes.

Confrontados com esse impasse, trazemos aqui pensamentos de uma entrevista recente com membros da tendência mexicana eco-extremista:

“A maior diferença entre o que Kaczynski e seus acólitos propõe e a nossa própria posição é bem simples: nós não esperamos por uma “Grande Crise Mundial” para começar a atacar as estruturas físicas e morais do sistema tecnoindustrial. Nós atacamos agora porque o futuro é incerto. Você não pode criar uma estratégia baseada em suposições, acreditando que tudo irá ocorrer de acordo com os seus planos com uma vitória garantida. Nós paramos de acreditar nisso quando entendemos a enormidade do próprio sistema, de seus componentes e de seu vasto alcance que se estende por todo o planeta e até para fora dele. Se a civilização cair amanhã ou nos próximos 30 ou 50 anos, nós saberemos que travamos uma guerra necessária contra ela a partir de nossa própria individualidade. Nós não sabemos se haverá um colapso global do sistema algum dia. Os especialistas dizem que haverá, mas não há como ter certeza. É possível que o sistema caia e a natureza ressurja de suas ruínas. Mas talvez o sistema consiga se manter sempre um passo à frente, tornando-se autossuficiente e com a capacidade de se reparar com facilidade. Como nós já dissemos, não sabemos o futuro. Gostaríamos de saber, mas essa não é a realidade.”

Com os eco-extremistas, então, nós podemos encontrar uma maneira de sair da posição errônea de “um futuro melhor através de um retorno ao passado”. Aqui, nós podemos dizer que o futuro é nosso inimigo. Toda saída proposta, seja através das teorias liberais de Bailey ou de esquemas tecno-progressistas da esquerda é algo que nós rejeitamos logo de cara. Nós não queremos cooperar, e nem salvar o mundo. Nós nos recusamos a oferecer as nossas vidas ou a vida de outros por um futuro melhor. Esse futuro é sempre prometido, mas nunca chega. E nesse ponto, o problema de conhecimento entra novamente em cena: esse futuro não chega porque ninguém é capaz de trazê-lo. As coisas estão “melhorando o tempo todo” apenas porque nós fomos domesticados a ponto de achar que a cenoura na ponta da vara é o objetivo, e que nós estamos nos aproximando dela, e que a vara não está realmente lá, mesmo quando ela bate bem nos nossos narizes. Assim é a essência da civilização: o passado nebuloso e mítico e o futuro que nunca chega.

A catástrofe é a catarse que acaba com o ciclo de sofrimento. Mas assim como a versão budista, ela também é elusiva e nunca acontece nessa vida. De fato, o problema real do “pensamento anticivilização”, especialmente em sua forma anarco-primitivista, é que ele não sabe o que quer, porque o que ele quer é moldado pelo que ele odeia. Ele nem sequer conhece realmente a natureza por se recusar a admitir que não há como conhecê-la com qualquer certeza, e assim faz da natureza um ídolo representando todos os seus desejos ambivalentes. A própria ideia de defender a natureza nos mostra que o nosso conhecimento sobre a natureza, especialmente o conceito peculiarmente norte-americano de “natureza pristina” é mal embasado. David George Haskell descreve a situação da vegetação florestal em face da ressurgência recente da população de veados em seu livro A Floresta Oculta: Um Ano de Observação na Natureza:

“Humanos eliminaram alguns predadores, mas também introduziram três criaturas que matam veados: cães domésticos, coiotes invadindo do oeste e automóveis. Os dois primeiros são matadores eficientes de veados jovens, enquanto o terceiro é o principal assassino suburbano de adultos. Nós nos deparamos com uma equação impossível. De um lado, nós temos a perda de dezenas de espécies de herbívoros; do outro, nós temos a substituição de um predador por outro. Que nível de pastagem é normal, aceitável e natural em nossas florestas? Essas são perguntas desafiadoras, mas é certo que a vegetação florestal exuberante que cresceu no século XX era menos pastada do que o comum.”

Uma floresta sem grandes herbívoros é que nem uma orquestra sem violinos. Nós estamos acostumados a sinfonias incompletas, e estranhamos quando os tons incessantes dos violinos retornam e colidem com os instrumentos mais familiares. Essa reação negativa ao retorno dos herbívoros não tem nenhuma boa fundação histórica. Nós temos que ter uma visão mais ampla, ouvir toda a sinfonia e celebrar a parceria entre animais e micróbios que tem afetado as plantas jovens por milhões de anos. Adeus arbustos; olá carrapatos. Seja bem-vindo de volta ao pleistoceno.

Nós devemos então encarar o fato de que talvez não haja nenhuma “catástrofe”, e se houver, ela não terá o efeito purificador que esperamos. A definição do capitalismo moderno é crise, e o bom homem de negócios faz da crise uma oportunidade. Isso significa que nós não devemos lutar? Que nós devemos abaixar as nossas armas e sermos derrotados pelo quietismo e agnosticismo? Não necessariamente, mas significa que nós precisamos definir melhor porque nós nos opomos a sociedade atual mesmo que ela tenha o potencial de durar milhões de anos, e mesmo que ela torne nossas vidas “melhores” em alguns sentidos. Ao menos temos que definir por que nós nos opomos a ela e não acreditamos que ela seja capaz de concretizar qualquer uma de suas promessas de tirar os animais humanos da miséria.

Primeiro, vamos começar com a natureza. Nós não podemos rejeitar a catástrofe como um conceito sem nenhuma nuance precisamente porque a natureza é uma catástrofe ao longo prazo. Isso ocorre porque a natureza é mudança, e é uma mudança que vai muito além da compreensão humana mesmo em seu sentido mais científico e abstrato. Humanos modernos tem o problema de acreditar que as suas ideias são consubstanciais com a realidade, mesmo que frequentemente não haja razão nenhuma para acreditar nisso. Eles dominam conceitos incompreensíveis como tempo, espaço, matéria, luz, etc. no abstrato e assim acham que não há mais nada para eles no sentido concreto, mesmo que eles nunca tenham saído do conforto de sua cadeira ou do espaço na frente da lousa. A natureza é catástrofe porque ela interrompe, desmantela, destrói tudo e cria novamente: das estrelas mais distantes até as células de nossos corpos. Aderentes do pensamento anticivilização tem dificuldade de aceitar isso de uma maneira concreta, apesar de estarem constantemente falando banalidades abstratas sobre isso. Para eles só se pode dizer “Doutor, cure a si mesmo!”.

O que é então a nossa relação com a natureza? Como nós superamos a ideia frequentemente repetida pelos críticos de que os primitivistas “reificam a natureza”. Aqui, eu ofereço um tropismo cripto-hegeliano. Muitos “primitivistas” (por falta de um termo melhor) veem a natureza como algo que nos é externo, e que oferece a nossa existência como uma dádiva passiva, e que o problema real é que nós nos esquecemos do aspecto gratuito dessa dádiva (pense aqui no conceito cristão de “graça”. Da mesma maneira que um homem não pode obter salvação através do Deus de Calvino, ele é também incapaz de criar os seus meios de vida sem o assentimento da natureza. Obviamente, essa é uma formulação absurda. A natureza, ou se você preferir usar o muito criticado termo de Lovelock, “Gaia”, é o produto de bilhões de coisas vivas trabalhando juntas e sustentando umas às outras ao longo das eras: ela é o ato de coisas vivas. Elas são formadas por ela e a formam também, que vai de pequenos microrganismos até ecossistemas complexos e a própria biosfera. Nós temos que manter isso em mente cada vez que olhamos para a “natureza pristina”. Como Haskell diz várias vezes ao longo de seu livro citado acima, a natureza não é uma sala de meditação, e nem um Éden onde se pega as frutas dos cachos sem esforço algum. Há também confronto e tragédias, da mesma maneira que há cooperação e piedade. O fato que ela persistiu por tanto tempo é uma evidência disso.

O pecado do homem moderno não é ter resistido a sua natureza humana passiva, como diriam muitos primitivistas. O problema é que ele acredita que ele é independente da própria natureza, que ele consegue se virar sozinho, que ele pode dominá-la por completo e não deixar nada sob a sombra do mistério. Esse é o homem moderno, alienado, implacável e autocentrado. Não é o que ele faz, e sim o que ele faz bem demais que é o problema, ou pelo menos assim ele pensa. Por causa disso que não há “solução”. Não há nenhuma abstração que consiga capturar o problema inteiro e torná-lo digerível. O mundo onde há soluções é um mundo que não deveria existir, ou melhor, é o mundo que cria problemas em primeiro lugar. A catástrofe da maneira que ela é entendida pelo homem moderno (purificante, final, devastadora) é o mito necessário pairando sobre a utopia como a espada de Damocles. Alguns de nós preferem espadas caindo do que um paraíso imaginário.

Sendo assim, a solução eco-extremista é brutal e pessimista. Não há futuro, e nem uma “nova comunidade”. Não há “esperança”. Nós não falamos isso com uma alegria gótica, e sim com alívio, como se tivéssemos tirado um fardo de nossos ombros. Seres humanos são feitos para errar o alvo, e nós tendemos a fracassar mais do que acertamos. Mesmo assim, nós fazemos parte de um todo, e deixamos outros para trás para vencer e perder, e para lutar outro dia. Nossa ambição não tem fim, porque ela nunca conquista a vitória. Nós olhamos para sociedades do passado que já foram extintas que aceitaram as suas limitações (ou assim pensamos, pois não há como saber de verdade) com admiração; uma admiração que sabe que se elas não eram “perfeitas”, é porque há algo de errado com as nossas expectativas domesticadas, e nada verdadeiramente errado nelas. Tudo que nós podemos fazer é lutar de volta até nos extinguirmos nessa existência onde uma parte acredita que pode engolir o todo.

E é assim que se parece de fato um primitivismo sem catástrofe, sem uma narrativa fechada, sem um “final feliz”: o contentamento do olho e de todos os outros sentidos em face do que nós conhecemos por natureza, mesmo que nós não a entendamos, mesmo que ela pareça mutilada e incompreensível aqui e agora. Não é algo que nós fazemos (apesar de nós termos uma participação) e nem algo que controlamos (apesar de fazermos o nosso melhor). Mas emaranhada nos corações ementes do homem, é algo verdadeiramente maravilhoso de se contemplar: esse todo, o vasto céu estrelado, o canto do pássaro, a lesma que rasteja, o dia novo, a decomposição, a morte, a vida… terminamos com a grande voz poética de Robinson Jeffers:

Saber que as grandes civilizações foram reduzidas a violência,

e seus tiranos vieram, muitas vezes antes.

Quando a violência aberta surge; evitá-la com honra ou

escolher a facção menos feia; esse mal é essencial.

Manter a própria integridade, piedoso e não corrompido,

sem desejar o mal; e sem ser enganado

Por sonhos de justiça universal ou felicidade. Esses sonhos

não se realizarão.

Saber disso, e saber que por mais feias que pareçam as partes

o todo permanece maravilhoso. Uma mão amputada

É algo feio, e o homem separado da terra e das estrelas

e da sua história… por contemplação ou de fato…

Parece por vezes terrivelmente feio. Integridade é inteireza,

a maior beleza é a

Totalidade orgânica, a totalidade da vida e das coisas, a beleza divina

Do universo. Ame isso, não o homem

Separado disso, senão você irá compartilhar as suas patéticas confusões,

ou se afogar em desespero quando os seus dias escurecem.